Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Eu já me perdi de mim mesmo.

Às vezes, tomo as lembranças entre as mãos, com carinho, e busco a infância distante, onde ficaram minha fé e minha força. Eu as vejo ainda lá, detrás de uma intransponível transparência no tempo mostrando com desprezo minha impropriedade de agora e mais admiro a chama tremeluzente de sua firmeza.

Perdi-me de mim mesmo quando mais fundo me busquei, como se a força de viver houvesse morrido.

Levo meus braços a frente e o que há é um sem fim. Como alcançar?

Espero.

Uma voz maior me dirá: Vem!

E, a partir daí, caminharei com tudo revelado, de joelhos, num campo de feridas, carregando na garganta o travo da vitória.

O fim dessa dor será antecipado pela foice dos meus passos, como uma saudação do trigo ante a segadora.

Perdi-me de mim mesmo e espero.

Senhor, eu tenho os braços estendidos…

O homem sofre a sua vergonha na minha carne.

As palavras hostis e as ofensas me parecem a verdadeira fortuna.

A culpa de cada um é de nós todos. Por que não sofrê-la? Preciso aprender:
a resistência à dor que tuas mãos me impõem;
serenidade intransponível ante a quem me ultraja.

E, melhor que julgar aos demais, limpar-me das próprias imundícies.

Se tenho ao alto as mãos, quanto mais baixo meu gesto aconteça, que ele então seja esquecido.

[Fé. In: Poemas místicos. 200 exemplares publicados por Adelina del Carril de Guiraldes. Buenos Aires, 1928.]

Quando o mais puro morre

Michel Houllebecq (1956 -)
trad. do francês

Quando o mais puro morre
é invalidada toda a alegria.
Resta um buraco no peito
e sombras onde quer que se olhe.

Demora tão pouco
para desfazer o mundo…

Também vai-se a crença
E o que ela ajuda a construir.
Para ser e idolatrar,
vivemos na ausência.

Então a visão some em meio
às pessoas mais próximas.

Os dragões me vencem

Juan Eduardo Cirlot (1916-1973)
trad. do espanhol

Vasculho no silêncio da gruta
as runas sob o branco da lua.
E, enquanto vou procurando,
afio minha espada com o nada.
Há algo no coração que é de dragão.

Eu luto contra um monstro, mas não o mato.

Buscar, continuo buscando:
o castelo do anel,
o estreito nessa voz branca.

Tenho um nome de sombra;
o meu não é um nome de homem.

Eu rasgo de preto para branco,
arranco do branco para o rubro,
eu rasgo do rubro; eu quero o ouro –
o ouro do seu ser e seu morrer,
cálice azul em que a luz descoberta
sela a lucidez do infinito.

Eu ontem beijei teus lábios

Pedro Salinas (1891-1951)
trad. do espanhol

Foi ontem que beijei tua boca.
Os lábios, a tensão
rubra. Foi um beijo tão curto,
durou mais que um raio,
mais que um milagre. Depois disso
não quis mais nada
e também nada havia pretendido antes.
Começou e terminou nele.

Hoje estou beijando um beijo;
e só, só com a minha boca.
Tocar a sua com meus lábios,
não, não mais …
– Como fui perder isso? –
Eu os coloquei
no beijo que te dei,
ontem, com as bocas juntas
do beijo que eles beijaram.
E esse beijo dura mais tempo
que o silêncio, que a luz.
Porque não é mais a carne
nem a boca o que eu beijo,
tudo isso foge de mim.
Não. Mas o beijo de
agora está durando mais.

Eu perdi algo nas montanhas

Sibylle Baier
trad. do inglês

Nos últimos tempos
Eu sempre choro
Quando passo pelas montanhas
Oh, o que as imagens me trazem
Oh, eu espero tanto
Pelas raízes da floresta
A origem das minhas brutalidades

Eu perdi algo nas montanhas
Eu perdi algo..

Eu cresci na montanha
Outros crescem nas cidades
Onde primeiro o amor e a alma surgem
Lá vão os tempos da minha vida
Quando me sentia doida, desvairada
E somente a campina me dava esperança

Quando minha perna passar da grama alta, eu morrerei
Eu vou morrer sob o jasmineiro
Sob a árvore mais velha
Então eu não preciso estar preparada
Eu vou morrer sob o jasmineiro
E sob uma velha árvore
Eu não preciso me preparar para um novo dia
Onde vou preencher a profundidade do que sinto?
Você vai dizer que eu não sou o pisco da floresta
Mas como eu poderia não deixar sinais
De que perdi algo na montanha?

Eu perdi alguma coisa na montanha
Oh, eu perdi algo nas montanhas..

Agora eu me inclino no peitoril da janela
E eu choro, embora seja bobagem
E eu estou sonhando completamente..
Oh eu sei, mais a oeste existem estas montanhas
Marcadas por macieiras, sulcadas pela corredeira
Isso me leva aonde eu quiser
Bem, eu perdi algo nas montanhas
Eu perdi algo nas montanhas..
Oh, eu perdi algo..