A urna – 97

Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol

Foste embora e, ao mesmo tempo, não…
És tão distante (e nunca tão presente)!
Em meu olhar, tu choras de solidão
sempre que de mim te vês ausente.

Bastava-me saber por onde tens ido…
As portas, as árvores do outono, o jeito
que tinhas de perguntar, sobre o meu peito,
e eu sustaria uma vez mais o teu gemido.

Aonde poderás ir que eu não te deixe?
Onde que eu não te veja, e eu não me queixe?
Se ao teu lado eu talvez te esquecesse,

pois sempre estou com o que está distante
(tu sabes bem: a juventude envelhece),
eu sempre estou com o que está distante…

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A dor comum

Miguel de Unamuno (1864 – 1936)
trad. do espanhol

Cala-te meu coração, os teus pesares
são dos que não se devem dizer, deixa
que se acabem num sonho; tua queixa
é só tua, e quando a proclamares

cuida de aos demais não importunares
com demasiado grito. O teu lamento,
sendo só teu, é um sentimento
de tua mera vaidade. Nunca separes

a tua dor da dor comum e humana,
e busca o íntimo em que habita
a humanidade que aos demais te irmana,

é o que engrandece a mente e não
a estreita; somente o que pode amar
nos comunica, o resto é a solidão.

A urna – 2

lago3

Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol

Era ódio: já não é. Agora já não existe
mais esta febre da carne viva.
Para quando eu vier a morrer não resista
sombra de orgulho, nem a raiva altiva.

Antes eu era todo um tormento,
contradição, luta, mentira;
esticava meu olhar turbulento
o arco da ira.

Em forças desajustadas me dividia
e hoje conto apenas com uma energia
suprema, que alimenta o gesto eterno:

um amor pensativo e doloroso.
Por ele sou como um lago silencioso
entre montanhas imensas. O inverno…

O ódio

tiger

Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol

Brilhando por inteiro ao sinuoso
passo vai o tigre, suave como um verso,
e a ferocidade lustra qual terso
topázio o olho seco e vigoroso.

Estirando o músculo em desuso
dos flancos, lânguido e perverso,
encosta-se lentamente no disperso
outono das folhagens. O repouso…

O repouso na selva silenciosa.
A testa plana dorme entre as finas garras
e o olhar fixo, sem gáudio,

espia, enquanto abafa com a nervosa
cauda todas as outras feras,
como em esgueira… Assim é o meu ódio.

Um sussurro

incendio

Blanca Varela (1926 – 2009)
trad. do espanhol

há beleza na lentidão
eu copio estas linhas estranhas
respiro
aceito a luz
sob o ar rarefeito de novembro
sob a grama
incolor
sob o céu descascado
e triste
eu aceito o luto e a celebração
mas eu não vim
não virei jamais
no centro de tudo
está o poema intacto
o sol inescapável
a noite sem voltar a cabeça
vagando sua luz
sua sombra animalesca
de palavras
farejando o seu esplendor
seus vestígios
e restos mortais
tudo para dizer
que sempre
tive um cuidado
desarmado

apenas quase
na morte
quase no fogo

Ninguém nos diz

elefante2

Blanca Varela (1926 – 2009)
trad. do espanhol

Ninguém nos diz como fazer
para virar a cara contra a parede
e
morrer silenciosamente
assim como o fizeram o gato
ou o cachorro da casa
ou o elefante
que andou rumo a sua agonia
como quem vai
a uma cerimônia inadiável
batendo as orelhas
ao compasso
e à cadência do fôlego
de sua tromba
só mesmo no reino animal
há quem se comporte assim
mudar o passo
aproximar-se
farejar o já vivido
e dar as costas
simplesmente
dar as costas

Tudo pode inclinar-me

yeats

Tudo pode inclinar-me
W. B. Yeats
(13/06/1865 – 28/01/1939)

Tudo pode inclinar-me a que me afaste deste ofício do verso:
Antes já havia sido o rosto de uma mulher, ou pior —
As fúteis exigências do meu país regido por tolos;
Agora nada de melhor vem à minha mão
Do que este trabalho habitual. Quando eu era mais jovem,
Não daria um centavo por uma canção
Que o poeta não cantasse de modo
Que parecesse ter uma espada a postos nos seus aposentos;
Mas hoje seria, cumprido o que desejo,
Algo mais gelado e incomunicável que um peixe.

Ninguém mais sabe de minhas coisas

cadeado

Blanca Varela (1926 – 2009)
trad. do espanhol

1
você que é capaz de desaparecer
de ser atormentado pelo fogo luminoso
pelo fogo opaco, pelo fogo covarde, pelo divino

a você
santo e fantasma a cada hora
mil vezes um sempre recém-nascido morto

a você que pode girar a chave
e inventar o sol num lugar vazio

a você afogado num mar de semelhanças
um náufrago a cada manhã
escravo e dono de sapatos ocasionais
de alguns livros
talvez o pai ou o filho
guardião de jardins ressecados, pouso para aves migratórias

a você
observador da tarde
leitor incansável dos relógios do sonho
da fadiga, do tédio dos cônjuges
a ninguém senão a você

2
(a qualquer hora do dia)

em uma fogueira em cinzas
essa mulher sacrificada
fechava os olhos e sonegava a felicidade de sua agonia

3

e um cão, uma gota de chuva, um passeio em família
como quando numa pintura entrava para sempre na memória
um pé torcido e outro e outro e um passo que faz ressoar
sempre a mesma altura da escuridão
a sorte pode ser esta neblina escura, o neon das cinco da tarde
a mais esplendorosa verdade
assim quase sem ver encontrando, generosa como ninguém, a miséria
cruzando em muros invisíveis
mãos tão pálidas jamais existiram, nunca em outras mãos
nem tanto calor em tanto frio
nem olhos tão cheios de outros olhos contemplaram a tarde
e frente ao mar escuro as ruínas e imensos círculos de bruma
cercando-nos
e a língua rubra, o cão, a mosca e a tarde rainha dos desnudos
braços doloridos em seu balcão de cinzas

4
(noite e desalento)

uma pitada da cruel canção de quem não vê
a noite que começa a respirar
tudo se afastando
tudo se perdendo
a prisão, o cinema, a amarela lua de farmácia
às oito, às nove, às dez
convertido em um fantasma cruel, agora você beija a mil mulheres
acaricia seus seios para estranhos
me causa asco
e esta náusea (passa a ser) o melhor de minha existência

5
(conversas insidiosas)

alguém disse o seu nome
– é um livro interessante e fala de um herói
decerto anônimo –
há uma estrela azul no fundo do meu copo
como uma estrela inesgotável
deve brilhar em seus olhos a cada vez que os vejo
como você deve sorrir para os outros
você cordeiro disfarçado de cordeiro
você um lobo que anda sozinho
você barbaramente um menino
– os pensamentos solenes são senhores
que não ocultam o perfume da carne –
nós haveremos de transpirar nos museus, como animais
submissos em suas savanas e ravinas de veludo
– Picasso por exemplo…

6
(tell me the truth)

diga-me você
este assombro durará?
esta letra em carne viva
círculo irrefletido de dor que se leva na boca
este desastre diário
este beco dourado e malcheiroso sem começo ou fim
este mercado onde a morte corrompe as esquinas
com prata roubada e estrelas estéreis?

7
o sorriso solar, o envenenado sorriso solar
fia sua impossível claridade mais uma vez
você sente a divina cusparada sobre a fera
o fedor acre da rosa, o meu coração sobre o seu?
mais tarde será tarde quando a solidão criar o melhor
e seus lábios novamente, seus olhos, as ruínas das suas carícias
esse mar em meu peito
a solidão – estrela das minhas noites –
ninguém mais sabe de minhas coisas

8
(pobres matemáticas)

quando nada mais reste de você e de mim
haverá água e sol
e um dia em que você abra as portas mais secretas
as mais escuras e mais tristes
e janelas com vida e olhos imensos
despertos sobre a felicidade
não terá sido à toa que nós
apenas temos pensado no que os outros fariam
porque alguém tem que pensar na vida

A poison tree

pois

William Blake
trad. do inglês

Uma árvore de veneno

Tenho raiva de meu amigo:
Já tive raivas maiores comigo
E só por dizer-lhe, isso passou.
Desta vez eu nada disse; ela aumentou.

Para regá-la, usei dos temores
Diuturnos. De lágrimas e de horrores.
E a acordei com sorrisos
Largos, falsos, precisos.

Ela cresceu volumosa,
Noite e dia, uma maçã brilhosa.
E meu inimigo, estando eu a colher,
Soube de quem ela deveria ser.

Ele entrou no pomar e a roubou
Quando a noite a tudo fechou;
De manhã bem cedo, contente, eu o vi
Jazendo junto a seu pé, como previ.

A fronteira desfeita por Sérgio Faraco

Publicado na edição 1.361 (jul./ago 2015) do Suplemento Literário MG, este artigo aborda o trabalho de Sérgio Faraco como tradutor dos principais ficcionistas uruguaios do séc. XX. Para quem queira conhecer um pouco mais sobre o que o Faraco fez ao trazer do lado de lá da fronteira com los orientales ficcionistas como Mario Arregui, Juan José Morosoli, Juan Carlos Onetti, Eduardo Galeano e tantos outros. E o que possivelmente esse contato fez com ele próprio.

Clique aqui ou sobre a imagem para ler o artigo na íntegra.

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