Bernabé, Bernabé!

Ao completar trinta anos da primeira edição, a Alfaguara tomou a iniciativa de publicar no Uruguai uma edição comemorativa de Bernabé, Bernabé! A novela histórica de Tomas de Mattos (1947-2016) com grande tranquilidade pode ser tomada como um divisor de águas na compreensão da relação histórica daquele país (e incidentalmente do sul do Brasil) com a etnia indígena formadora de sua população: o povo charrua. Traduzido para o português em 1992 pelo escritor Sérgio Faraco e publicado pela extinta editora Mercado Aberto, o romance de Mattos é, além de ficção histórica de notável elaboração formal, talvez o exemplo mais bem acabado do que seria uma recuperação ficcional dos fatídicos dias da etnia que emprestou ao gaucho oriental e também ao gaúcho brasileiro sua porção nativa mais ancestral e da qual, na bacia do Prata e aqui, estes povos teriam herdado mais ou menos diretamente costumes, crenças e possivelmente também uma importante herança genética.

Não se trata, em Bernabé, Bernabé!, de um testemunho direto proveniente das tradições orais indígenas como em casos hoje presentes em muitas publicações brasileiras (como o caso da excelente Coleção Tembetá, da Azougue Editorial, que também publica escritores e pensadores indígenas contemporâneos). Tendo presente que a história da etnia do Cacique Vaimaca, Senaqué, Tacuavé, e Guyunusa (imortalizados em bronze no Parque del Prado, em Montevideo) termina na data de sua partida em direção a Paris, logo após o desfecho da batalha de Salsipuedes em 1833, isto seria algo completamente impossível.

Também pelo esforço de Tomas de Mattos, a história da etnia charrua ganhou finalmente uma perspectiva menos fantasiosa da que muitos estudiosos e autores costumavam tratar a respeito do legado indígena na formação cultural do Prata e também no Rio Grande do Sul. Da mesma forma que a Iracema de José de Alencar, o poema épico uruguaio de Juan de San Martin, Tabaré, cujo protagonista é um índio charrua que vive um romance improvável com uma espanhola, perdurou desde o período romântico como fonte exemplar e seminal da relação entre os povos. Foi necessária toda a fixação de um novo repertório local, com a geração de 45 (Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti, etc.) e as investidas do romance histórico posterior ao fim do período ditatorial, do qual emerge a prosa de Mattos, para somente então tornar-se possível o esboço de novas perspectivas tanto em torno ao evento histórico de Salsipuedes como no sopesamento da herança indígena na formação da identidade cultural do país.

Apesar de habitar o cancioneiro popular e também a literatura histórica rio-grandense (ainda que precariamente), são nítidas as atribuições que a cultura popular remete ao indígena charrua, normalmente evocado desde uma posição positiva. Diriam respeito aos hábitos (a caça com boleadeiras, a perícia na equitação, a bebida do mate), vestimentas (o chiripá, o modo de sujeitar os cabelos, o poncho tramado em lã), mas quase nada à linguagem, o que ainda hoje é pouco discutido em filolologia, e ao comportamento, ainda que a tendência dos povos gaúchos de um modo geral a certo paganismo poderia tranquilamente lhes ser debitada. Sem maiores vestígios arqueológicos e descendência direta, as etnias pampeanas (charruas, guenoas, arachanes, minuanos) por essas razões têm servido muito bem ao papel que se lhes deseje conferir.

De acordo com pesquisa recente no campo da ancestralidade genética, por exemplo, sua contribuição ao genoma da população fronteiriça do Rio Grande do Sul seria comparável apenas às populações amazônicas e, segundo seus autores, certamente de origem charrua. Além dos achados desta pesquisa, remanescentes remotos do combate de Salsipuedes poderiam ter se evadido para a região nordeste do estado, atravessado pelo menos um século na invisibilidade para presentemente granjear o reconhecimento pela FUNAI de sua etnicidade (conforme reportagem da BBC). Do mesmo modo, no Uruguai um grupo de possíveis descendentes vem reivindicando para si o direito à ancestralidade tanto quanto seus atributos culturais. Os estudos em antropologia cultural, por outro lado, preferem acautelar-se quanto a tais reivindicações em função da dificuldade de comprovação genética e também por considerar que a pretensão se prestaria sobretudo a confirmar longitudinalmente apenas traços desejáveis da formação do povo gaúcho em detrimento de povos indígenas que chegaram ao tempo presente, como o guarani ou o caigangue, e outras características.

Ainda que não pudesse esclarecer finalmente o desenlace de todo o drama charrua, o romance histórico de Mattos, que foi advogado, jornalista, bibliotecário e diretor da Biblioteca Nacional do Uruguai, converteu-se por lá em documento de interesse nacional. Mais centrado em tecer múltiplos olhares sobre os eventos que culminaram na vingança que os indígenas perpetraram contra o coronel Bernabé Rivera, sobrinho do primeiro presidente uruguaio, Fructuoso Rivera, o romance recria o conflito no qual os indígenas, antes integrados ao exército espanhol na campanha contra os portugueses, foram emboscados por Bernabé, que era amigo e privava com os caciques charruas. Na característica multiperspectiva da narrativa de Matos, a condução do enredo trágico dos charruas finalmente encontra-se à gravidade dos fatos reais e obtém o devido reconhecimento.

Desde uma perspectiva mais histórica que antropológica, o mais notável do romance sem dúvida tem sido sua potência em mobilizar os estudos históricos e culturais do país em reconhecer, senão a parcela indígena na formação da identidade de seu povo, pelo menos a natureza da relação atroz entre indígenas e colonizadores de forma mais realista e consequente. Talvez, e isso ainda é algo por esclarecer, a miscigenação não tenha ocorrido nem da forma como presentemente se deseja idealizá-la e nem deixado de acontecer de todo, o que seria apenas possível na ausência de qualquer contato social. Mas o charrua, indígena remanescente do tronco aruaque e inimigo histórico das etnias do tronco guaranítico, possivelmente teria sido mesmo o combatente militar ideal para enfrentar o estrangeiro e fatalmente miscigenar-se no indistinto popular.

Na campanha dos uruguaios contra os brasileiros e mesmo em documentos da época da Revolução Farroupilha há, de fato, indícios de sua presença entre os militares de lá e de cá. Nada, contudo, se pode comprovar a respeito de que tenham sido os mais valorosos combatentes a não ser que não restou vivo ao menos um. De alguma forma, os interesses militares e geopolíticos de brasileiros e uruguaios acabaram por expulsá-los da história de uma maneira infame. O reconhecimento que Tomas de Mattos, com Bernabé, Bernabé! ofereceu ao episódio encontrou por lá o eco que há no que é pela história mal explicado e o incômodo que, por outro lado, persiste e a literatura de qualidade e escritores corajosos, apesar do tempo e da distância, conseguem reverberar.