Persistências

Acho que por ter publicado há alguns anos um pequeno livro de contos retratando o modo de vida das pessoas do interior e da região da campanha rio-grandense, algumas pessoas acham que tenho apreço ao tradicionalismo. Bem, não tenho mesmo. E não tenho por uma razão simples: conheço muito pouco a respeito do movimento de Barbosa Lessa e do não há muito falecido Paixão Cortes. Nunca me interessei. Meu contato com esse modo de vida é ao mesmo tempo mais direto, porque vivi nesse interior e conheci suas pessoas, e também mais remoto, porque a literatura riograndense com a qual mais travei contato é anterior ao tradicionalismo. E inclusive acho muito lamentável que na escolas, por exemplo, seu estudo tenha sido substituído por esse outro viés posterior, “educacional”.

O que pouca gente sabe, ainda hoje, e é coisa muito básica, é que o tradicionalismo é um movimento quase impraticado na região da fronteira. Na minha infância e adolescência, por exemplo, ninguém frequentava CTGs. Ao mesmo tempo, todos sabiam entender a linguagem do campo, como o pelo de um cavalo, o nome das peças dos arreios, a geografia, a paisagem, árvores, animais nativos, etc. Toda essa linguagem rural que se interpenetrava com a urbana, fora uma leva considerável de espanholismos.

Isso, claro, acabou se transformando numa prosódia muito particular, num certo modo de dizer. No entanto, já me aconteceu algumas vezes de escutar uma música do repertório neo-gauchesco e não entender patavina. Além da entonação ruidosa, o vocabulário de uma construção artificial, forçada ao extremo, me pareceu muitas vezes se tratar de um idioma desconhecido com palavras, poucas, que podia reconhecer.

Aquela linguagem mais espontânea, de outro modo, ficou guardada. Posso estar numa aglomeração grande de pessoas, mas reconheço aquele sotaque em fração de segundo. Este “de” recém escrito, por exemplo, tem exatamente o som da letra “d” + “e” e não outro qualquer. É uma espécie de sonar embutido, vamos dizer assim. Impossível de extirpar do corpo e da memória afetiva.

Falando em afetividade, é muito interessante o grau de estereotipia com que nesse aspecto cada vez mais o povo do RS é referido. Além do separatismo, “vocação” que seria inata e irrecusável, o machismo estridente, o reacionarismo atávico e outras “qualidades” que parecem conferir com aqueles povos pré-cristãos em vias de civilizar-se. Afetividade refere-se aqui a uma ausência total de expressão, claro. E ainda que esse paganismo pareça mesmo existir em alguma medida, influência talvez do indígena pampeano, tudo viria a “confirmar” inclusive nossas “tendências” político-eleitorais e barbarismo incontornável (não à toa usamos tanto o substantivo barbaridade..).

Pois não é que há poucos dias cheguei a ver numa revista intelectual uma reportagem que caracterizava o sul como reduto do bolsonarismo em contraposição ao norte democrático? É um acinte completo e uma mentira a dedução do cientista político. Como ele explicaria as quatro reeleições do PT em Porto Alegre? E o que ele diria de Olívio Dutra e Tarso Genro, eleito para o governo do estado em 2010 ainda no primeiro turno? E Lula, que obteve neste colégio eleitoral, em 1994, o único estado em que superou o PSDB de Fernando Henrique Cardoso?

Mas, afinal, para que gastar o tempo em pensar se a generalização está logo ao alcance das mãos e o sujeito quer uma fórmula fácil e barata de entender as coisas? É só apontar para o sul e deu. Quem não sabe que é sempre muito, mas muito mais fácil colar a pecha (qualquer que seja ela) do que raciocinar ou apoiar-se na realidade?

Em resmo, o que se quer dizer é que não prestamos, nem nossa literatura, nem nossa música e somos apenas uns grosseirões e o nosso regionalismo detestável (só o nosso, evidentemente) e essa loucura (realmente, uma loucura e uma idiotice) agora de fazer uma senzala no acampamento no qual os tradicionalistas, ou seja, “toda a população”, comemora a revolução farroupilha nos faz os monstros racistas, machistas, homofóbicos, misóginos e nazifascistas por excelência (não faltou nada, né?). Coisas do tipo que nunca foram vistas nos museus de Minas Gerais nem nas festas de quinze anos de moças paraenses. Não que justifique – é claro que não justifica – mas muita calma nessa hora de apontar o dedo e vociferar. Deixemos pelo menos claro que não se trata de exclusividade, afinal já temos características hediondas o suficiente para lidar e elaborar. Só que não custa distribuir um pouco entre exemplos péssimos a ruindade dessa ideia, que aqui felizmente foi remodelada com a participação do movimento negro.

Assim que hoje, 20 de setembro, data em que se comemora a Paz do Ponche Verde, e vi bem cedo atravessando a Praça Garibaldi um ginete em direção ao desfile. Um homem negro, jovem, provavelmente um porto-alegrense que jamais tenha pisado numa coxilha de verdade, mas que me pareceu muito ao gaúcho que conheci lidando na campanha. Orgulhoso da bota lustrada, das bombachas e do cavalo alugado, como bem disse uma amiga sobre outra pessoa, há poucos dias. Sem dúvida fazia o seu caminho numa identidade transfixada, como a de qualquer ser humano vivo e contemporâneo, buscando de alguma forma pertencer a essa identidade abstrata e fantasiosa, como se houvesse alguma que não o fosse, ou mais autêntica.

Eu, que nunca fui a um desfile farroupilha na minha vida, tenho nada a favor do gauchismo, mas tenho carinho, sim, pelos gaúchos, pelo povo daqui. Há quem resuma seu conhecimento do RS em Gramado, cidade de brinquedo, e numa coleção de clichês e estranhezas sobre o RS. Na verdade, não conhecem nada e não querem conhecer, mas “lacrar” nas redes sociais e só isso mesmo, como se isso pudesse ser de alguma forma um comportamento inteligente ou simpático. Nesse mundo atropelado, nesse tempo dissonante, ainda que me trepide tudo que é digital, me assusta mais a persistência do silêncio da campanha, como uma milonga que não sossega, não se acaba, e, de vez em quando, certa vontade de dar as costas e nunca mais.

Porto Alegre, 20 de setembro de 2018.

O raio problematizador farroupilha

Os gaúchos têm todo o direito de detestar o mês de setembro. Eu detesto do fundo do meu coração este mês maldito que num dia faz um frio enregelante e, noutro, calor insuportável, tudo isso entremeado por um vento contínuo e sibilante, virações repentinas e os próprios gaúchos, que nesse mês se revelam pessoas das mais enfadonhas do universo.

É o mês em que se volta aos grande temas sulistas, a saber, o tradicionalismo, o hino rio-grandense, farroupilhas e outras coisas totalmente irrelevantes ao resto do mundo, mas que aqui, por tédio ou traumas, costumam despertar a ira e o contencioso de pessoas que nos outros onze meses do ano até parecem inteligentes. Em setembro costumeiramente essa máscara cai por completo.

De todos os dramas locais, poucos me parecem tão inabordáveis quanto a presença dos dois seguintes versos no refrão em nosso hino, composto, dizem, no ano de 1838.

“Sirvam nossas façanhas / De modelo a toda terra.”

Sob variáveis argumentos que vão desde uma suposta manifesta e atávica arrogância até os argumentos históricos que dão conta da ausência de qualquer façanha, é impressionante o grau de devoção semântica a dois versos de um hino. Pois o raio problematizador do hino consegue ser tão ou mais tacanho que o próprio hino, porque deveria parecer óbvio a qualquer pessoa que os hinos costumam ter o objetivo de exaltar o ânimo pátrio de um povo e não o de aniquilar sua auto-estima ou confrontá-lo em seus exageros.

Há quem inclusive saque do exemplo de como o hino é cantado nos estádios de futebol e pátios escolares, a plenos pulmões, para “comprovar” que somos todos, sem exceção, separatistas ou neonazistas por isso mesmo. Ora, a comprovação final dessa brilhante dedução seria a forma com que se cantaria o hino. Bah.. Tri complexo esse raciocínio..

Acontece que é um hino fácil e efetivamente entusiasmado, muito ao contrário do hino nacional, todo cheio de inversões e apassivamentos que parece até que foi compsto pelo meste Yoda, de Star Wars. E com frases de um entusiasmo fabuloso, como na frase “deitado eternamente em berço esplêndido”. Alguém consegue mesmo ouvir isso sem sentir ganas de amor pela pátria-mãe?

Seja como for, numa demonstração de chatice ímpar, toda essa tradição critica (porque de tanto repetir-se os argumentos já pode ser chamada de tradição) acabou conseguindo o impensável, que é tornar-se tão ou mais impalatável quanto os aspectos mais toscos do culto ao passado, seja o real ou o inventado. Mas esta parece também uma tradição dos gaúchos, essa luta frátria, esse sectarismo doentio.

Desde 1893, entre republicanos e federalistas tem havido bastante disso por estes pagos. Mas, lá pelo menos, tinha a emoção de um eventual entrevero mais sério ou até uma degola. Agora a briga é no Facebook e, como todas as brigas de Facebook, ridículas e sonolentas. Mas, cada tempo com as suas respectivas façanhas, não é verdade?

Haja saco de ser gaúcho..