Lojinha mágica

Morar no limiar da Cidade Baixa, em Porto Alegre, tem me proporcionado ao longo dos anos diversas experiências. A maioria eu classifico como boas. Gosto do bairro e das coisas do bairro no qual Érico Veríssimo gostava de perambular para observar de esgueira a vida da pequeníssima burguesia da Porto Alegre dos anos 30 do século passado.

Também eu gosto de perambular por ali, mas isso justamente tem me causado recentemente algumas más experiências.

Não faz muito tempo que passei a acompanhar o trânsito pela Lima e Silva não apenas dos frequentadores noturnos habituais, mas também de um cada vez maior público interessado em certo estabelecimento espiritual (isso mesmo) aqui por perto inaugurado. Embora o lugar ostente uma placa que faz as vezes de pórtico, ainda hoje não consegui identificar sob que credo ou credos ocorrem aquelas práticas religiosas.

De que são religiosas e de diversas matizes eu cada vez mais tenho certeza. Há ali vários símbolos esotéricos, muitos que não sei distinguir, mas me parece claro que há influências maçônicas, haja vista a pirâmide bem ao centro do anúncio, o famoso olho de Hórus, mas também há cruzes, crescentes, uma miniatura do deus indiano Ganesh e um machado que me parece ser de Xangô, o deus da justiça das religiões africanas. Bem se vê que o pessoal ali não tem problema com sincretismo.

No entanto, mais do que tentar identificar a simbologia exuberante, nunca tentei me informar muito a respeito. Por certo há ali um ou mais espiritualistas a praticar suas especialiades e provavelmente a contabilizar alguns rendimentos, dado que o empreendimento não faz muito foi expandido ao prédio vizinho. Certamente é a forma de melhor atender a clientela que nas noites de quarta-feira costuma fazer fila desde a metade da Lima e Silva até boa parte da Venâncio Aires, dobrando a esquina, para obter seu aconselhamento espiritual ou outro dos serviços que ali devem ser prestados.

É bom que diga que nunca tive e nada tenho contra o estabelecimento e muito menos com a prática religiosa aparentemente diversa que ali é praticada. Não entendo dos desígnios do além mais do que minha ignorância permite e por muito tempo apenas me espantava com o crescente da fila e da aglomeração. Sinal de que os tempos não estão fáceis e o conforto espiritual anda cada vez mais necessário. Às vezes as duas necessidades se acompanham, a material e a espiritual. Eu sinceramente acho isso tudo bastante compreensível.

Apenas não consigo achar compreensível é que pessoas em busca dessa espécie de conforto, aconselhamento e etc pretendam purificar seu interior, espírito, alma, o que seja, deixando em seu rastro uma trilha de imundície e sujeira sem explicação.

Como morador, atualmente me incomodam muito menos os bêbados da Cidade Baixa que essas pessoas “espiritualizadas”. Devem se achar puros espiritualmente os fregueses do comércio esse, mas, na verdade, não saem de lá nem um tantinho melhores cidadãos, senão teriam a vergonha de pelo menos juntar a imundície abandonada às ruas e calçadas.

Espiritualidade muito pouco sustentável essa. Se é que vale mesmo esse nome o negócio da lojinha mágica.

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Fé é pra quem tem

Há dois anos atrás, andou um tornado por Porto Alegre, no verão. Era janeiro e eu estava com a família no litoral e planejava viajar diretamente do extremo norte do estado até a fronteira do Uruguai. São 624 km de estrada, mas é o jeito de ver a minha família e a família de minha mulher no fim de ano, quando temos tempo pra deslocar todo mundo. Uma noite antes da viagem veio o vendaval e os tornados que deceparam as árvores da cidade, destruíram telhados e deixaram a capital sem luz elétrica por cerca de três dias.

Chegando em Porto Alegre, minha cunhada acabou por levar até à fronteira minha família. Eu fiquei para ajudar os moradores do condomínio, há muitos idosos entre eles, e cuidar de saques que andavam acontecendo, além de providenciar o conserto de parte do telhado que havia se danificado. Também precisava de um tempo pra terminar um livro que andava escrevendo e então ganhei esses dias de “folga” pra completar a tarefa.

A cidade estava um caos verdadeiro. Na minha rua, onde acaba a Cidade Baixa e começa o bairro da Azenha, dois imensos jacarandás impediam o fluxo. O mesmo acontecia em toda a cidade. O Parque da Redenção era o retrato de um verdadeiro apocalipse.

Naqueles dias, haveria festas de pré-carnaval de rua na Cidade Baixa que foram canceladas, deixando seu público preferencial a ver navios. Esse pessoal na época frequentava muito um botecão de esquina, quase defronte a onde moro. Sem mesas nem cadeiras, onde tomavam cerveja barata e em pé, sempre tinha um bom número, antes de seguirem seus destinos noturnos. Pessoal sempre bacana, tranquilo, sem incidentes maiores. Às vezes algum mais emocionado (provavelmente pela política estudantil, já que em sua maioria os frequentadores eram universitários), mas nada de tirar o sono (pelo menos do meu lado da vizinhança).

Passsei uns bons dias de trabalho a fim de conseguir ajuda para o telhado e dando jeito no que podia, mas não consigo tirar da cabeça uma cena que infelizmente vi com os olhos que essa terra há de comer e me causou um insight, já que o ser humano é dado a insights eventualmente.

A cena era dificil. A rua estava interditada e não havia equipes disponíveis para a remoção das árvores tombadas. Em virtude disso, alguns poucos moradores, pessoas de idade, começaram a tentar liberar a via. Imagine-se que, numa emergência médica, de outro modo não seria possível passar por ali.

Seu trabalho começou de manhã e até meados da tarde pouco haviam avançado, mas o botecão havia aberto suas portas para receber a clientela para um esquenta da festa de rua, ainda que num cenário daqueles. Juntou muita gente, como sempre.

O bar, sem energia elétrica, oferecia cerveja morna em isopores improvisados, mas o pessoal não arredava o pé e custou a dispersar, assistindo aqueles velhos trabalharem sozinhos sem nunca lhes oferecer ajuda para nada. Os uiniversitários festivos, o “futuro da nação”, suas “melhores cabeças”, apenas faziam beber, beber e beber cerveja morna da AMBEV, empresa do maior bilionário brasileiro, sem nem enxergar o que se passava em torno de si, sem um gesto de solidariedade ou cooperação para com quem fazia uma força que não tinha nos braços para arrastar tocos de árvore pela rua.

Acho que não preciso explicar mais sobre o insight que tive naquele momento. Foi e é auto-explicativo.

Por isso não me serve esse luto momentâneo de avatar de Facebook. Este é um pesadelo que vivemos há tempos e do qual o futuro, com essa garra, esse animus todo, não nos resgatará.

Desculpem ter de contar essa história, mas é verdade esse “bilete”.

Porto Alegre, 4

quem me contou sobre ti foram os pés
congelados de frio de alguém que vi descendo através
do Menino Deus, dia desses, rumo ao Cristal

ele não tinha sapatos, mas tinha muletas e um cão alquebrado
que farejava no vento o inverno e se encolhia, tiritando e
latindo entre a buzina dos carros, todo assustado

ele não temia a ti e todo valente encarou
os meus olhos como a um parente, tu não os viste
porque já não olhas direito a mais nada

pensas em ti mesma como um museu de museus fechados
procura entre os passantes quem te visite
e depois lhe fecha as portas na cara

o tempo vem passando por sobre ti e mim
sem indulgência ou rancor
onde fica a cidade? eu me pergunto – e é sempre para lá de uma ponte

o interior te espreme e oprime como se tua função
fosse exortá-lo ao teu abraço indolente
e dissesses-lhe para que da mesma forma te evitasse

por aqui há mortes à toa e a toda hora
como nas piores metrópoles do mundo
mas tu te candidatas (ensandecida) aos mais belos poentes

o mais triste em ti sempre pensei que fosse teu nome
tão impeditivo da melancolia
tão necessária à autocrítica

ai de ti que não podes sequer lacrimejar
senão te vão juntar as lágrimas
poetas ruins que nem te amam

eu que sempre vivi num bairro apenas
te vivo como aldeia
e isso me reforça o teu assombro

e cada vez que desço ao térreo para te receber
tu não te entregas
tomas do troco e desapareces a seguir

tu nunca madrugas, amanheces
tu não descansas, adormeces
tu não sorris sempre, sempre perfeita –

eu bem sei que te ampararia
mas não tenho com o que
e devo poupar-te desse embaraço

às vezes olho para baixo de algum prédio alto
e então entendo onde escondes tua beleza:
nas coisas que não te fizemos

mas foste roubada e rapinada
como a uma vizinha velha
que os ladrões não perdoam

e foste mal vestida por gosto, parece,
a uma festa
em teu próprio louvor

por isso pareces cada vez mais a este velho e seu cão
e enxotá-los é exigência de uma vaidade inútil
que te compara a lugares que não te merecem

(mas eu não te comparo a ninguém)
meu ônibus já vem chegando
e vou para ainda mais dentro de ti

é onde teu verdadeiro coração
mantém a vingança
de me recusar por inteiro

(mas eu te amo ainda assim)

 

Muito em breve em Porto Alegre

porto

Porto Alegre é uma linda cidade que encanta visitantes de todas as partes do mundo, mas que cada vez menos consegue encantar aos próprios habitantes. Suas mazelas machucam-nos, esta que é a verdade, e não há declaração oficial que nos possa trazer conforto, até mesmo porque declarações oficiais costumam ser não mais que pedidos de desculpas tardios e apenas supostamente preocupados. Dependendo de vindos de quem, bota supostamente nisso.

Esses machucados se fazem notar seja quando as enchentes desabrigam centenas ou milhares de pessoas e sabe-se que se cometem furtos nas doações espontâneas que são feitas, seja quando tornados (agora temos disso também!) evidenciam o destrato histórico que uma das capitais mais arborizadas do país (e que se jacta por disso) tem para com o seu patrimônio natural.

Isso sem falar das obras viárias intermináveis nas avenidas longitudinais, surreais, que duram desde os preparativos da Copa do Mundo de 2014 e até hoje são refeitas e refeitas, numa demonstração impressionante de complete com o que quiser aqui. E sem falar, também, do lixo urbano e seu sistema de coleta sugismundo, terceirizado e precarizado, para o qual muitas vezes a higiene acaba incidindo no trabalho “voluntário” dos próprios moradores.

Seja como for, em torno daqui a cem dias os cidadãos porto-alegrenses estarão indo às urnas para decidir os próximos quatro anos da sua administração, assim como a futura composição da sua Câmara de Vereadores. Muitos sem saber direito quem são os possíveis candidatos, isso mesmo considerando o tempo exíguo para o pleito. Culpa, talvez, da complicada situação política nacional ou estadual. Ou, como quero dizer, de uma identificação precária dos quadros políticos com as questões da cidade.

Excluindo-se alguns nomes já certos e algumas pesquisas de opinião pouco divulgadas, o que não se pode perder de vista é a possibilidade de um revival de uma disputa insossa, capaz de mencionar mais maquetes computadorizadas que a realidade das ruas e promessas que muito logo acabam por revelar-se desvios de finalidade. Também é certo que não faltarão promessas por mais segurança pública utilizando-se a guarda municipal e outras inconstitucionalidades do gênero, bem como o anúncio de novas fontes de captação de água sem que haja indício de como isso poderia ser feito e com quais recursos. Fiscalização e auditoria nas contas das concessões de transporte público então nem se fale!

A tudo isso temos sobrevivido, portoalegrenses naturais e chegados. Ônibus lotados e frota maquiada é nossa praia! Até água com gosto de lodo e efeito parquet no trânsito toleramos. Só o que não se suporta mais são debates sem graça nem sentido e promessas que não encham nem balão de ar. Isso nós todos não fizemos nem pagamos por merecer.

Porto Alegre: poesia e piada prontas

Uma coisa ninguém pode dizer contra a cidade de Porto Alegre: a de que ela não seria uma cidade poética. Afora os poetas que a circunscrevem de versos dos mais variados estilos e lirismos, a administração pública municipal também presta diuturnamente sua contribuição direta e ostensiva para a concretrização do predicado. Não, não estou falando de iniciativas consagradas como os bem conhecidos “poemas no ônibus”, mas da distribuição de conteineres de recolhimento de lixo pela cidade.

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Inadvertidamente, o poder público municipal tem distribuido cópias in vivo do poema “O Bicho”, do pernambucano Manuel Bandeira por aqui. Poucas vezes em sua história a cidade contou com tantas dramatizações poéticas unitemáticas como presentemente. Algumas pessoas, sobretaxadas pelo adjetivo “pessimistas”, chegam a dizer que o famoso pôr-do-sol no Guaíba está ameaçado pela imagem dos detritos urbanos (e daqueles que só tem a isso por alimento) que se espalham uniformemente pela cidade, de tantos em tantos metros, revelando um projeto de engenharia urbana realmente formidável.

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Aguarda-se que, em virtude da Copa do Mundo que se aproxima, cartões postais (ainda se usa isso?) e camisetas serão impressos louvando as imagens poéticas da capital dos gaúchos. Não deverão faltar, obviamente, imagens dos conteiners de recolhimento de lixo e seus arredores, esses espaços pictóricos por excelência nos quais a população deposita diariamente o que já não mais lhe serve para alimentar, ou seja, o lixo orgânico e tantas outras coisas das quais é até melhor nem lembrar. Desculpem a má poesia, mas a sujeira é reconhecidamente um valor poético e estético há muito tempo já, como atesta o “Poema Sujo”, de Ferreira Gullar. Porto Alegre, neste caso, pode considerar-se das mais poéticas cidades do país, e tudo obra de uma repartição pública comandada desde o paço municipal, o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU).

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Sim, Porto Alegre institucionalizou a poesia do lixo urbano e rapidamente acostuma-se a outras poesias típicas das cidades sem planejamento, como o trânsito caótico e os espaços públicos abandonados, por exemplo, além de outras vertentes ainda mais realistas que, por pouca relevância, só chegam mesmo a publicar-se nas páginas policiais dos veículos de imprensa. Mas tanta poesia tem os dias contados. Desde o último dia 03, vigora na cidade legislação que permite aos agentes fiscais da repartição em questão, o DMLU, aplicar multas e autos de infração aos cidadãos flagrados ao descartar no espaço público desde um milimétrico papel de balas até volumosos entulhos de obras.

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Trata-se de uma solução viável, aos olhos dos gestores e legisladores da coisa pública municipal, mas com efeitos efetivamente imprevisíveis. Se a ameaça de multas irá ou não coibir a proliferação de lixo no espaço público é coisa que não se pode ainda saber. Resta imaginar que, num rompante de autocrítica, o DMLU aplique multas a si mesmo por permitir que os resíduos destinados a sua solução mágica, os containers espalhados pela cidade, re-amanheçam por toda a cidade, em aniversários repetidos.

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Talvez por apreço a essa espécie peculiar de poesia urbana praticada diariamente em Porto Alegre, alguns desses seus moradores “pessimistas” antevejam aí uma política pública fiasquenta e malcheirosa. O certo é que, se um dia o problema da limpeza urbana e do uso racional dos espaços públicos fossem realmente enfrentados, muita gente, “pessimistas” e “otimistas”, dispensaria com prazer a saudade desse tipo de poesia que existe apenas para infectar a paisagem e o olfato dos habitantes locais, sem esquecer dos visitantes que logo logo vêm aí comemorar a festa da Copa brasileira.