Não somos deuses

Não somos deuses (Lúcio Cardoso)

Hoje recebi pelos correios um livro em que revivi uma das primeiras leituras de poesia que fiz na minha vida, sabendo que se tratava de poesia. O livro era de um amigo que brincava pelo fato de que tínhamos praticamente o mesmo nome (até Lúcio Car) e não sossegou até que eu o lesse. Eu não imaginava que me ocorreria um tipo de experiência ali, naquele instante, porque nunca tinha reparado que se podia utilizar as palavras para escrever coisas como aquela, e daquela forma, mas ocorreu. Logo depois deste poema, que transcrevo abaixo, digitado por mim mesmo (sem Ctrl C + Ctrl V), nunca mais parei de ler poesia nem de comprar livros de poesia. Estas “Poesias Completas” do Lúcio Cardoso eu não tinha, mas é um livro maravilhoso. Nem é tão caro que pareça um investimento, mas é, de fato, um investimento. Lúcio Cardoso, este meu quase xará, nunca imaginaria que com sua poesia lírica e metafísica me comprometeria tanto até hoje de uma forma que eu na época não poderia imaginar. Reler um poema lindo e absoluto como este, hoje, depois de tantos anos, não é uma experiência como aquela, mas me explica a mim mesmo o que me causou ser o que sou.

[Não somos deuses,]
Lúcio Cardoso, Poesia Completa, EDUSP, 2011, p. 462-464

Não somos deuses,
nem criamos terras para o esquecimento
ou para a luz do sentimento.
Somos frágeis demais para não morrermos
desta grande aspiração de luto e ousadia
que é a nossa existência.

Não somos deuses
porque não somos puros como as plantas
nem nos damos ao vento como as flores,
nem somos música, como as águas.
Ai de nós, somos homens. Somos homens
na febre com que um dia pedimos ao amor
que nos desse um motivo para a luta.

Somos homens apenas,
e não morremos como os galhos esgotados
e renascemos outros, assim que o outono passa.
Não somos como os peixes e as estrelas,
não somos como as catedrais e o firmamento,
é a vertigem que nos mata.

Quando o dia nasce
o tempo aviva em nossos olhos a esperança
e amamos as formas pelo que elas são
como promessas à nossa fome.
Em nossas mãos o amor é como a vida,
e sabemos que em cada movimento
traçamos a história e o desejo,
alma secreta e longe que fitamos sempre
quando o infinito se abre
– azul sem terno ou céu sem nome.

E não poderíamos ter sido outros,
pois o que se misturou à nossa carne
foi a noite, o barro e o desespero.
Sabemos que a aventura é um caminho
– se voar é possível, só o sono
nos entrega à cantiga nua das estradas.

O sonho é possível – mas sonhos
de homens, de carne dilacerada e fria,
pensando a informe aspiração do vago.
E quanto sangue apunhalado e quente,
não jorra nestas searas de ousadia,
quando ousamos fugir?

Sim, não somos deuses,
nem criamos terras para o esquecimento.
Somos pequenos e tristes, somos
como os animais que fitam o mar iluminado,
sem compreender. Pagamos a nossa dívida
minuto por minuto – mas os deuses
já não sofrem senão com a paixão,
ai deles, que é humana.

E não somos então um pouco como deuses,
quando, por loucura, atiramos nesta febre
o que em nós resiste, o que de puro
constrói em nós a alma permanente?
Somos um pouco como deuses, talvez
sejamos deuses simplesmente, se com virtude
desvendamos a estrada.

Agora fica, inspiração: o nome que te dou
não é em vão que não possa recriá-lo.
Só eu te sei a flor informe e lenta
deste desespero – eco, sombra e murmúrio
da luta que me ergue sozinho neste céu,
corpo de pedra – e já me faz pensar um Deus.
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Lúcio Cardoso, Poesia Completa, EDUSP, 2011, p. 462-464