Você também poderia gostar de Benjamin Clementine

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Se até poucos anos atrás as pessoas dependiam quase exclusivamente da seleção e escolha prévias de DJs de estações de rádio FM e do jornalismo cultural praticado por canais especializados em música para descobrir novidades, a expansão do universo da internet e serviços online vem proporcionado que cada vez mais as pessoas passem a criar e a gerenciar seus itinerários sonoros e também a surpreender-se por conta própria. Da mesma forma, é notório para as pessoas habituadas a ouvir música em meio digital que o incremento e a profusão de aplicativos online causaram uma espécie de ruptura no modo de consumir e ouvir música, perdendo-se nesse universo em contínua expansão qualquer senso de orientação a não ser o providenciado por algoritmos de programação, alguma inteligência artificial, meta-tags e, claro, anúncios pagos e patrocinados por selos e gravadoras. Além dos recursos obtidos por meio de módicas assinaturas individuais, é desses anúncios que sobrevivem boa parte dos aplicativos musicais atualmente mais utilizados, como o Spotify, Deezer, AppleMusic, YouTube e Google Play.

Fosse de outra maneira, em muito se dependeria ainda de que alguém apresentasse ou chancelasse o trabalho musical de um intérprete ou músico estreante para que ele se tornasse conhecido. Não mais. Agora, a torrente digital atropela em larga escala qualquer anteparo possível da crítica musical, até mesmo porque a profusão de novos nomes e estilos é igualmente incessante e também porque o ambiente virtual desconhece ou pelo menos não é limitado por qualquer espécie de fronteira. Se isso por um lado dificulta qualquer tentativa de filtragem abrangente, por outro proporciona uma liberdade incomum de transitar-se entre estilos e nomes singulares de qualquer ponto do planeta e vir a conhecer-se, por exemplo, artistas realmente impressionantes como, por exemplo, o cantor inglês Benjamin Clementine.

Não são muitas as pessoas que provavelmente já ouviram com atenção, na infinidade de novidades musicais diárias que publicam-se na internet, a voz de Benjamin Clementine, mas é pouco provável que, após escutá-lo, pudessem tê-lo esquecido. No caso dele, isso seria causado por muitas razões. Em primeiro lugar, pelo timbre e gravidade (tonal e interpretativa) incomuns de sua voz de tenor. Em segundo lugar, pela intensa carga poética e dramática de suas letras, o que também é incomum em se tratando de estreantes na música e, last but not least, porque também na infinidade de estilos e subgêneros musicais seria um tanto complicado decidir onde situar seu álbum de estreia, At Least for Now, registro sequer reportado ou notado no Brasil, lugar do planeta onde Benjamin ainda não colocou os pés, mas para onde felizmente a internet tratou de propagá-lo também.

Apesar de ter uma carreira bastante recente e de ter popularizado-se por cantar nas ruas e metrôs parisienses, quem escuta Benjamin logo pode perceber que ele restabelece o contato com estilos musicais e uma forma interpretativa nem um pouco contemporânea, se é que o tempo contemporâneo conte efetivamente com um estilo específico e não é marcado justamente pela multiplicidade e infinidade de estilos e tendências. Ainda que ele mesmo recuse a influência direta de Nina Simone e refira-se mais a influências do cancioneiro francês, como Jacques Brel, Charles Aznavour e Edith Piaf, por exemplo, é notável a forma com que ele explora a carga e poder da música negra, até mesmo porque é igualmente notável a semelhança do seu timbre vocal com o de Jimi Hendrix. Assistir sua interpretação de “Voodoo Child“, acompanhado somente ao piano, é uma forma simples e rápida de certificar-se disso.

Para além de qualquer necessidade de classificação, interessa mais saber de Benjamin sua intensidade interpretativa e seu estilo “expressionista” de cantar, como ele mesmo já o definiu. De um cantor que se fez literalmente nas ruas (inclusive como um legítimo homeless), como ele demonstra em “Cornerstone”, impressiona sua busca pessoal e sua sonoridade diferenciada, como se um tipo de cantor fora de seu tempo, uma vez que o predomínio repetitivo do pop e do rap parece quase obrigatoriamente limitar a capacidade criativa de novos músicos, pelo menos daqueles que ganham maior notoriedade e as maiores fatias do mercado musical. No caso dele, essa obrigatoriedade não se aplica. Pelo contrário, o que há nele é uma amplificação de estilos num repertório que vai do blues ao gospel, do folk ao erudito, flertando com o jazz e o rock, mas com uma sonoridade atemporal e uma carga poética inaudita, de um compositor que inclusive publicou um livro de poemas e tem para a consistência de suas letras o respaldo de uma vida nem um pouco fácil, passada em internatos e marcada precocemente pelo afastamento da família.

Não lembro exatamente como conheci as composições e interpretações de Benjamin. Creio que por um link ou uma sugestão algorítmica da internet, dessas que costumam dizer “Você também poderia gostar de…”, mas preciso reconhecer que tenho gratidão por quem o colocou no meu percurso de escuta virtual ao invés de outras soluções ou achados às vezes completamente infelizes. Também o ex-beatle Paul McCartney impressionou-se com sua capacidade vocal e interpretativa em uma de suas primeiras aparições ao vivo, em Londres, no ano de 2013, em um programa da BBC. O encontro rendeu, além do registro fotográfico, um estímulo ímpar para que ele insistisse na carreira e viesse em breve a gravar pela primeira vez em grandes estúdios, primeiro os singles de Cornerstone (2013) e Condolence (2014) e, logo a seguir, o álbum At Least for Now (2015).

Benjamin Clementine é inaudito e inesperado como uma de suas principais influências declaradas, a cantora transgênero Anohni, ex-Antony Hegarti, vocalista da banda Anthony and The Johnsons. Sua voz imponente é do tipo que não requer silêncio externo para fazer-se notar, mas que tem o poder de desligar os pensamentos de quem o está ouvindo. É como se ele não precisasse propagar versos irresistíveis ou embarcar em nenhuma espécie de calamidade sonora, mas lograsse suspender o discurso mental do ouvinte, sobrepondo-o com camadas de melodia e poesia a ponto de fazer fluir seu pensamento para os outros, materializando sua expressividade e rompendo a distância regulamentar da apreciação musical sem para isso abusar de recursos extraordinários, mas contando, pelo contrário, apenas com o estabelecimento da cumplicidade de quem conta uma experiência para quem possa estar interessado em entendê-la. Não se trata de ondas sonoras ou de uma produção perfeita, mas do talento comunicando-se de um modo que é praticamente impossível assistir-se ou escutar-se indiferentemente. Isto não costuma acontecer em qualquer sugestão musical da internet, mas é o que acontece quando se é apresentado repentinamente a um verdadeiro criador e cantor excepcional.

Ouça mais de Benjamin Clementine no YouTube, no Spotify, no Deezer e no iTunes.

A música que não vibra

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Há algum tempo atrás li, em algum lugar, que o naturalista inglês Charles Darwin não gostava de música. Não é que não gostasse, é que sua mente aparentemente não apreciava o gozo estético da música. Parece que ele sentia o mesmo em relação à pintura. Não podia ou não sabia como julgar o valor estético de uma obra de arte, embora pudesse observar, compreender e descrever os fenômenos biológicos de uma maneira absoluta, razão pela qual figura sabidamente entre os grandes gênios científicos da humanidade. Um gênio irrefutável e, mesmo assim, aparentemente intocado pelo prazer da percepção musical. Consta que, a despeito disso, sua esposa Emma tenha sido excelente pianista, aluna de Frédéric Chopin e por este inclusive elogiada em razão de sua técnica. Imagino que Darwin tenha sido um amante paciencioso, pois através de algumas biografias também pode saber-se que ele não se furtava ao serões de Mrs Emma. Bem, as especulações param por aqui.

Outro pilar da modernidade, o austríaco Sigmund Freud, parecia sentir o mesmo sobre a primeira das artes. Em O Moisés de Michelangelo, ele diz: “com a música sou quase incapaz de obter qualquer prazer” para, em seguida, talvez explicar as razões disso acontecer (quem sabe explicando também o que acontece a Darwin): “Uma inclinação mental em mim, racionalista ou talvez analítica, revolta-se contra o fato de comover-me com uma coisa sem saber porque sou assim afetado e o que é que me afeta.”

Na minha vida, conheci pessoas com graus diferentes de sensibilidade musical. Desde prodígios infantis a pessoas praticamente indiferentes às composições sonoras, sem falar nas completamente ineptas aos instrumentos musicais. Não sei se terá a uns faltado o estímulo que chegou a outros, mas o fato é que talvez a sensibilidade musical tenha um fundo neurológico que se desenvolve de forma diferenciada nas pessoas. Ou então se desenvolva em algumas pessoas a assim chamada “amusia” que corresponderia, no campo da neurociência, à perda total das funções musicais pelo indivíduo. Através da neurociênica sabe-se também que, ao contrário de outras funções cerebrais, a musicalidade não está ligada a nenhum campo específico do cérebro, mas a muitos campos simultaneamente, o que dificulta ainda mais a compreensão sobre o assunto.

Há outros fenômenos sobre a musicalidade e o indivíduo que me chamam bastante a atenção também. Aquelas pessoas que, por exemplo, têm uma relação utilitarista com a música e usam-na como um tipo de terapia particular. Pessoas que gostam de gêneros musiciais seletivamente ou que são radicalmente refratárias a determinados estilos. Não são poucas as pessoas que se recusam a ouvir qualquer melodia mais lenta que classificam-na imediatamente como “música depressiva”. Conheci pessoas que apenas toleravam o estilo de “música ambiente”, que parece ser de um tipo que não lhes afeta o humor. E outros que apenas escutavam “músicas positivas”, com efeito motivacional ou grandiloquente. E ainda pessoas que vinculam a música exclusivamente ao gesto e prática da dança.

No livro Alucinações Musicais, o neurologista e escritor Oliver Sacks conta situações incríveis envolvendo a música e os seres humanos. A que mais me chamou a atenção foi a de que pacientes com Alzheimer, de um forma ainda desconhecida, mantêm preservada a memória musical e que inclusive o aprendizado de um instrumento, mesmo tardiamente, ajudaria a retardar o próprio desenvolvimento da moléstia. O uso terapêutico da música com animais e vegetais também parece ter algum tipo de efeito comprovado através de observações científicas. Vacas que ouvem Mozart produziriam mais leite na ordenha e alfaces tirariam mais proveito da fotossíntese se submetidas a “audições”. Coisas da natureza.

Lembro ainda hoje do quanto me espantei ao descobrir que mesmo um instrumento percussivo, como a bateria, possui uma escrita musical que pode ser transcrita em uma partitura. Mesmo que os instrumentos percussivos pareçam ter a única função de sustentação rítmica, produzem sonoridades diversas que operam em uma frequência vibratória escalonável, razão pela qual podem ser “escritos” conforme a linguagem musical. Provavelmente os instrumentos percussivos foram os primeiros criados pelo homem, embora os vestígios de rudimentares instrumentos de sopro tenham sido também encontrados em diversos sítios arqueológicos. Boa parte dos instrumentos modernos, com exceção dos elétricos, derivam de certa maneira da atividade percussiva, mesmo que de forma indireta, como no caso do piano, cujas cordas são acionadas mecanicamente.

De toda a maneira, a música é sempre o resultado da vibração das ondas sonoras e de sua harmonização (ou não, como querem os cacofônicos). Diferentes culturas têm características bem específicas em relação à composição musical e até mesmo sobre peculiaridades sonoras. Instrumentos exóticos como a cítara indiana e outros quase inconcebíveis são capazes de gerar sonoridades tonais fracionadas, os chamados semitons, que não podem sequer serem transcritos para escrita musical ocidental. Parece ser o mesmo tipo de frequência sonora que se encontra na música vocal tradicional de países do oriente médio, não por acaso hipnotizante.

Seja como fonte de enlevo, transe, euforia ou mero deleite, a música acompanha o homem desde eras remotas e é provável que acompanhe até o final de nossa experiência terrena. Diante de um predomínio tecnológico sem precedentes na história, é natural que ela cada vez mais receba daí um aporte relevante. Desde a década de 1960 isso vem acontecendo, na verdade. Que uns prefiram as guitarras e instrumentos eletrificados aos samplers digitais ou estes aos instrumentos acústicos mais tradicionais, tudo isso é bem compreensível. O difícil de compreender continua sendo a misteriosa conexão que a música faz com o pensamento e com a sensorialidade humana, chegando a anular-se em alguns casos e, em outros, gerando elaborações de extrema complexidade, como a capacidade de improvisação jazzística, por exemplo, sem entrar no mérito de Beethoven e outros compositores e instrumentisas acometidos pela surdez. De qualquer forma, mesmo que se trate de capacidade desenvolvida através da aprendizagem, sempre soará como um tipo de magia ou, como bem afirmou Schopennhauer, um tipo especial de exercício inconsciente da metafísica, “no qual o espírito não sabe que está a fazer filosofia”.