Mas escritor se aposenta?

Há alguns dias o assunto me persegue. Do nada, parece que despencam de qualquer lugar textos que procuram discutir a ideia de quando alguém que escreve literariamente se torna, de fato, um escritor ou escritora. Esta é a ideia central de Anos de Formação: os Diários de Emilio Renzi, do argentino Ricardo Piglia. É a mesma dúvida que encontrei no texto do também argentino Cristián Vazquez, A partir de quando um escritor se torna um escritor, publicado recentemente no blogue Letras in.verso e re.verso.

Seria talvez o que se pudesse chamar hoje de platinofobia aventar-se a hipótese de que este é um assunto que obsedia os argentinos, mas, antes disso, seria uma inverdade. Acredito que, quase sem exceção, toda a pessoa que procura escrever literariamente lá pelas tantas tenta localizar em si mesma, na sua solitária trajetória diante das inumeráveis folhas ou telas em branco, em que momento que a compulsão se estabeleceu por completo e se tornou indispensável, insuportável e inconcebível deixar de dedicar-se ao habitus.

Justamente esta ideia, de irrecusabilidade ao gesto, é o que defendem os dois escritores argentinos e também uma miríade de outros escritores. Isso se pode saber através, por exemplo, das dezenas de entrevistas que a prestigiosa Paris Review fez com escritores consagrados mundialmente, do séc. XX, e que foram traduzidas e publicadas por mais de uma vez no Brasil, pela Companhia das Letras. Trata-se do livro As entrevistas da Paris Review. Mas Piglia, no caso, se desvia bastante de Vazquez e de outros escritores que falaram sobre o mesmo assunto para o que ele denomina como o momento de “autoproposição” do escritor, isto é, o fato de debater-se com a impossibilidade de uma ficção privada, por um lado, e a de impossibilidade de uma plena comunicação pública, por outro.

Aqui, como já deve estar claro, não vou mencionar nem por hipótese a ideia de vocação,  dom, etc. Na verdade, apenas gostaria de apontar pontos em comum em relação ao que penso e o que pensam estes escritores, para além da irrecusabilidade já mencionada, com a qual concordo integralmente. Aliás, talvez seja esta a razão para eu estar aqui escrevendo isso, nesse exato instante.

Piglia, segundo seu alterego Emilio Renzi, escreve como que para perseguir sua própria biografia; um itinerário que começa desde que se descobre leitor até o último suspiro, contando-se aí absolutamente todos os momentos, todas as percepções, todos os gestos, todas as ideias de onde seletivamente extrai sua matéria empírica, ficcional. Mesmo que soe como um escritor totalitário, ele embaraça-se com a vida, não se distancia dela. O que apreende é que os outros deixam de notar, as razões ocultas dos gestos, as possibilidades que consolidaram aquelas razões, a sorte e os incidentes que fazem uma biografia. O escritor como vassalo de si mesmo, mas soberano de sua narrativa. Porém alguém que, uma vez publicado, declina definitivamente da solidão e deixa-se acompanhar por quem quer que lhe encontre em seus livros e palavras.

Vazquez é radical por outro viés (e eu nesse aspecto, talvez por escrever muita poesia, tendo a concordar mais com ele) e defende a ideia de que o escritor se faz ao escrever, naquele momento preciso da ação e prescinde de quem o leia, apenas vai descartando de si o texto e não tem expectativa ou relação alguma com o que dele poderá ser feito ou não. Sua missão acaba em sua própria finalidade. Para ele, não há escritor inédito, a tomada de posse da “titulação” se daria, portanto, diretamente ao escrever. Como no poema de Auden, o escritor acaba no último ponto e talvez nunca mais retome àquilo e ao estado de ânimo que recém o mobilizara. Juan Rulfo, J. D. Salinger e Arthur Rimbaud são alguns dos exemplos que ele cita de escritores que simplesmente aposentaram-se voluntariamente da escrita, ou seja, deixaram de ser escritores.

Eu simpatizo com ambas as ideias. Tenho muitas vezes vontade de nunca mais escrever uma linha, mas sempre preciso de uma nova linha para dizer isso ou então voltar atrás… Do que antipatizo um pouco, neste caso, é de uma certa mercantilização cada vez mais presente e frequente em oficinas literárias, cursos e atividades correlatas. Nestes, cada vez mais se dá ênfase é em como se fazer lido (o que acho até difícil de imaginar – me vem em mente a violenta cena de uma pessoa obrigando outra à leitura), em como promover-se, técnicas de interação e coisas assim.

Não consigo, admito.

Se precisar disso para vir a ser um escritor, então acabou-se aqui. Então não serei. Não é humildade exagerada, mas é preciso estar claro para quem quer aventurar-se nisso de que há um universo inesgotável de magníficos, bons e razoáveis escritores na fila de cada pessoa. Sendo muito sincero, na minha própria lista eu talvez sequer figurasse (a não ser para uma correção imprevista). Certamente, não. Tenho dívidas insaldáveis com momentos incomparáveis da literatura. Como, sabendo  disso, vou querer parar o mundo e desviar a atenção alheia? Seria muita pretensão que desejasse que as pessoas viessem a interromper, para prestar atenção em mim, o seu Machado de Assis, o seu Eça de Queiroz, o seu Dostoievski e etc etc etc.

Mais uma vez: não consigo…

Por isso me autopublico e não negocio com editores cotas de exibição, autopromoção e coisas assim. Isso não apenas me desfaria como escritor como me faria, por outro lado, mercador. Nada contra os mercadores, mas cada um na sua, não? Se alguém ficar curioso eventualmente com meu nome em algum texto, alguma resenha, alguma menção, que ótimo!, talvez desperte a curiosidade a ponto de querer saber mais. Talvez até goste um pouquinho a ponto de admirar-se ou emocionar-se com uma frase bem colocada em algum parágrafo, ou um verso tocante. Pois é este o único leitor que me interessa. Não sou ilusionista nem diversionista nem bom piadista; nunca fui; sou ruim de gracejo, inclusive.

Um leitor que me passe os olhos e pense que sou como um serializado egresso de um projeto de formação de escritores irá frustrar-se porque eu mesmo não procuro evitar de frustrar-me. E continuo sempre tentando mudar a narrativa, mudar o parágrafo, a forma, a linha, o verso, o caractere. Minha impressão é de que todos os livros, afinal, são como aquele livro de areia, que mais um argentino, Jorge Luis Borges, um dia imaginou. Um livro nunca igual, desfeito à mera incidência da compreensão de um leitor qualquer. Aliás, o que também concordo com Piglia nesse aspecto é o quanto o leitor faz o escritor; digo do leitor que o próprio escritor é; não o leitor de si mesmo, mas dos outros e do mundo. É este infinito que, numa perspectiva rápida, desfecha e aniquila qualquer autoilusão de relevância, status ou glória, se é que existe ainda que esteja nisso por isso.

Sim, só assim mesmo me sinto um escritor. E então, dou o braço a torcer, porque sempre costumo me definir como quem apenas gosta de escrever e o faz, sim, por compulsão, não por um objetivo extrínseco, mas pela revelação que ocorre de mim mesmo para fora de mim mesmo, naquele instante em que as palavras me organizam, já que internamente prospera o caos..

Afora isso tudo, ele, esta persona escritora, acaba mesmo sempre no último ponto, pensando que aquilo tudo que dissera pudesse ser meia verdade apenas e me deixasse insatisfeito. Pois o meu azar é que é esta mesma preferência. A deferência devida ou indevida é um critério de terceiros, não me interessa nem um pouquinho. Nesse aspecto (talvez em outros também), sou pessoano: e o resto que venha se vier, se tiver de vir ou não venha. Talvez, se meu pai lá atrás tivesse me impedido de usar sua máquina de escrever vermelha (ela me foi fundamental por ter me cedido gratuitamente sua velocidade), porque minha caligrafia sempre foi péssima, mas, pensando bem, mesmo assim… Será tudo isso, ao fim das contas, apenas dependência do som das teclas? Se for assim, o touchscreen completará um dia desses o serviço e então irei finalmente para a previdência secreta dos escritores, decerto a mais mal remunerada entre todas..

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A vida secreta das árvores

Um dos livros mais vendidos de não-ficção do ano nos Estados Unidos e na Europa, A Vida Secreta das Árvores, do botânico alemão Peter Wohlleben, parece tratar de tudo, menos de árvores. Nele, clãs e famílias digladiam-se pela sobrevivência, criaturas solitárias enfrentam o cerco de inimigos, pedem socorro, socorrem-se, tornam-se amigas, realizam pactos, conversam entre si e até mesmo contra-atacam àqueles que agridem os membros destas curiosas sociedades de faias, freixos, carvalhos, bétulas, abetos, teixos e assim por diante.

Se quisesse, Wohlleben poderia ter escrito um épico que entremeasse as muitas desventuras arbóreas. O que acabou fazendo, entretanto, foi esclarecer uma dimensão inesperada e oculta da vida das árvores. E, nesse mundo quase imperceptível, o modo como estes seres sobrevivem e relacionam-se, mesmo quando costumam ser pouco notados e até certo ponto menosprezados no mundo da racionalidade. O inesperado maior é que ele faz isso quase literariamente, apesar de contar apenas com o instrumental da ciência, com uma impressionante capacidade observadora e uma narrativa até certo ponto afetiva a respeito dos enormes vegetais. É a maneira que encontrou para tornar acessível esse universo a qualquer leigo em botânica.

À leitura, é praticamente impossível não reconstituir-se imediatamente a imagem das árvores vivas da ficção fantástica de J. R. R. Tolkien: os ents e suas movimentações pelas florestas da Terra Média. É bom lembrar, porém, que não é apenas em Tolkien que a relação das árvores com a literatura acontece. Trata-se de um fenômeno universal, dado que a coexistência e dependência entre os diferentes tipos de seres acontece desde sempre, isto é, praticamente desde que os seres humanos desocuparam de seus galhos e postaram-se em dois pés, no solo. Assim que desde o Édem bíblico e de suas duas árvores seminais: a da vida e a do conhecimento, passando por tradições culturais tão diversas quanto a do extremo oriente e a dos povos do norte europeu, árvores e homens vêm dividindo espaço na geografia real e também na imaginação popular.

Primeiro, na mitologia mais arcaica em que dríades nasciam de dentro de carvalhos, ninfas eram transmutadas em loureiros, deuses africanos incorporavam em baobás gigantescos, teixos e salgueiros assombrosos protegiam residências e seus moradores de influências maléficas da natureza e outras inumeráveis possibilidades. Depois, na literatura, o aspecto mágico da relação também foi consolidando-se como dos mais duradouros. Um exemplo extremo dessa simbologia sobrenatural pode ser encontrado na literatura fantástica que tanto predominou na América espanhola no último século, quando eventualmente árvores e homens chegaram até mesmo a fundir-se, como no caso de José Arcadio Buendía, personagem de Gabriel Garcia Marques em Cem anos de solidão.

No Brasil, em específico, as árvores também costumam aparecer desde os mitos de formação, principalmente os de matriz indígena. Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, relata que mitos como o do caipora e o da mãe-das-seringueiras cumprem o papel de proteção das florestas, vivendo no interior dos troncos das árvores, surgindo para defender as matas de seus invasores externos. Na literatura, entre aparições incidentais, há um conto que facilmente poderia ser dado como precursor do realismo fantástico, de João Simões Lopes Neto, publicado na imprensa no começo do séc. XX, e que narra a história de certa figueira que teria absorvido características de muitas árvores cujas sementes depositaram-se acidentalmente próximo às suas raízes. O conto intitulado A figueira encontra-se no livro Casos do Romualdo, recompilado e republicado em 1954 pela editora Globo, de Porto Alegre.

Exemplos míticos e literários como os acima atestariam de certo modo que, a despeito da visível fixidez, as árvores ocupam diversos lugares na literatura, demonstrando que, pelo menos no imaginário, elas não são tão fixas assim. Não é difícil lembrar de árvores sábias e confidentes, como o pé de laranja-lima de José Mauro de Vasconcelos ou da presença ameaçadora e constante nos bosques de fábulas e contos infanto-juvenis de um tempo em que seres humanos e florestas tinham limites de não tão fácil transposição quanto há hoje. Movido talvez por isso, Wohlleben tenha apressado-se a narrar a história e a natureza dos fenômenos botânicos de modo a sensibilizar a razoabilidade presente em relação ao tema, tendo em vista a crescente dessensibilização do ser humano para com quaisquer elementos da natureza objetiva. E isto é visível sobretudo na constatação de que mitos e seres afins simplesmente deixaram de dar conta da tarefa de delimitar territórios de árvores e de homens, não que a exposição permanente de números de desmatamento venha tendo melhor sorte.

Em seu livro, ao invés de agir como biólogo ou guarda florestal, Wohlleben assume-se como um narrador de realidades tão pouco aparentes que chegam a parecer fantasia. Para ele, mesmo que tratando especialmente das florestas alemãs e europeias, importa mais que as pessoas reconsiderem o papel das árvores e florestas, que não as percebam como meros conversores de oxigênio, mas como seres dotados de uma dinâmica capaz de interferir decisivamente no mundo contemporâneo, quem sabe até mesmo pelos seus exemplos de comportamento social, mesmo que isso pareça estranho dizer.

O leitor que está limitado a uma visão utilitarista da natureza por certo irá aborrecer-se com a leitura de A vida secreta das árvores, mas não é o desejo de Wohlleben realizar a missão de convencimento ou pregação ambiental. Nada disso. Talvez o mais espantoso seja afinal que ele está a mostrar o que de outro modo parece incompreensível, ou seja, de que tanto as florestas quanto a vida não são inexpugnáveis e que se a literatura tem logrado sobreviver sem a necessidade das árvores, o mesmo não se pode dizer nem de autores, nem de leitores, nem de ninguém. Já é um motivo e tanto para, pelo menos, escrever-se um livro assim.

Down House, 1858: o inquérito de Arthur

Hoje me inscrevi na 2ª edição do Prêmio Kindle de Literatura, concorrendo com uma pequena novela histórico-biográfica sobre a qual me debrucei nos últimos 5 anos, mais ou menos, isso desde que comecei a pesquisar até sua conclusão. Chama-se “Down House, 1858: o inquérito de Arthur”.

Não é todo mundo que sabe que o décimo filho do naturalista inglês Charles Darwin tenha nascido com uma deficiência, provavelmente a síndrome de Down (e isso antes mesmo de que ela fosse descrita pela ciência). Embora ainda hoje haja algumas dúvidas em relação a esse diagnóstico, depois de conhecer a imagem de um daguerreótipo em que Emma Darwin aparece com o filho em seu colo e outros documentos e relatos, para mim ficou quase certo que realmente esta era a condição do bebê Charles Waring. O bebê Charlie morreu aos 18 meses de vida, justamente em meio à primeira divulgação de A Orígem das Espécies, em 1858, um período muito tumultuado na vida familiar dos Darwin.

Desde que vi aquela imagem, fui tomado de uma curiosidade que foi virando obstinação. Queria entender mais e mais a situação daquele bebê e, em decorrência disso, fui tomando conhecimento da biografia disponível a respeito de Darwin e de sua família, bem como da sua documentação, da ambientação histórica da Inglaterra naqueles dias e, sobretudo, do impacto emocional que o nascimento e a condição do bebê tiveram sobre sua família e, possivelmente, também sobre alguns de seus objetos de investigação. Como encontrei uma documentação lacunar em muitos aspectos biográficos, aos poucos fui mentalmente preenchendo estas lacunas a partir de situações reais, biográficas e documentadas com outras ficcionais, depois que consegui encontrar (talvez, isso nunca se sabe) uma voz narrativa competente.

Foi muito difícil para mim superar a primeira parte desta escrita porque me decidi começar pela parte mais difícil: a situação de falecimento do bebê. Depois desse primeiro momento, me dediquei a intensificar a pesquisa para só depois reorganizar o roteiro que imaginara e retomá-lo, refazendo-o a cada vez que me deparava com algum elemento que poderia integrar a narrativa. Este foi o processo mais custoso, porque precisei rever e rever e rever muitas vezes o texto, a fim de tentar torná-lo crível a partir do ponto de vista pelo qual optei.

Isso tudo e um pouco mais eu procurei explicar no prólogo do livro. Acho que são dúvidas que estão abordadas com a seriedade que se espera ao tratar da biografia (embora o livro seja ficção biográfica) de uma das pessoas mais decisivas na história da ciência e da humanidade. Assim espero eu, pelo menos.

Minha decisão em inscrever a novela nesta premiação se deve ao fato de que preciso, quero e sinto necessidade de retirar isso das minhas gavetas e achei a oportunidade interessante, mas sobretudo porque me permitiu finalmente tornar isso tudo público, de alguma forma. Minha paciência para lidar com o ramo editorial não é das maiores e então, de certa forma, a oportunidade me serviu para dar uma primeira forma ao livro, na forma exigida pelo concurso. Depois, se premiado ou não, vou tentar ver – se o livro sobreviver ao impacto que ele mesmo causa – se encontro outra forma de publicá-lo. Isso ainda não sei como será. Se premiado, ele sai pela Ed. Nova Fronteira, parceira da Amazon no certame, o que não seria nada ruim…

Então é isto. Quem desejar conhecer a minha versão ficcional (importante dizer isso pela terceira vez) da breve vida do bebê Charles Waring e de seu significado humano na vida de um dos maiores gênios da humanidade e de sua família, basta acessar o link abaixo e adquirir o livro na sua versão digital (infelizmente os patrocinadores não permitem que se inscreva na versão impressa). É possível lê-lo a partir do aparelho Kindle e das apps disponíveis para praticamente todas as plataforma digitais. O preço que coloquei foi o menor possível (mas era obrigatório colocá-lo), porque o objetivo do concurso é promover a plataforma e então ocorre inteiramente sob ela. Assinantes do Kindle Unlimited podem ler sem custo algum.

Se, após a leitura, desejarem qualificar o livro, acho que isso talvez pode ajudar a aumentar suas chances, eu não sei. Trata-se de um concurso aberto, sem uso de pseudônimo, então não entendo direito como isso pode afetar a avaliação. A mim interessou escrever essa história e o fiz com devoção ao tema e com o máximo de respeito e fidedignidade que pude. Tenho certo que há muitas limitações na abordagem que consegui, mas garanto que não há má-fé nem o desejo de explorar indevidamente a imagem de quem quer seja. Se resultará num livro aproveitável, isso não sou eu quem decide. Se alguém gostar e quiser ajudar a divulgar eu só posso agradecer a gentileza.

E antes que perguntem se é um acaso que o divulgue no dia dos pais, não é mesmo. De um gênio como Darwin, a honradez de sua percepção e do acolhimento para o bebê Charles Waring, assim como sua família toda, em 1858, repito, 1858, nada disso é casual. Descobrir e trabalhar nisso foi, de fato, impressionante e bastante emocionante para mim, além de ser uma aventura que eu compararia, talvez, a do Beagle…

Por fim, mas por fim mesmo, queria dizer que sei bem o quanto gênero “romance histórico” é bastante contestado tanto na literatura quanto nos estudos históricos. Há quem o considere um tipo de evasão ou uma tentativa de forjar-se fatos históricos com pseudoliteratura. Tudo isso é possível, mas nada disso foi suficiente para me fazer abandonar a ideia (outras coisas quase conseguiram). Para mim, o que aconteceu ontem já é história e não acredito em literatura sobre o presente contínuo, então não dou muita atenção a isso. Também não sou escritor profissional que venha fazendo ou queira fazer disso um ramo comercial, então estou muito tranquilo, até porque hoje estou me dedicando a projetos muito diferentes deste. Fiz porque a história me chamou e eu senti que podia interagir literariamente com ela e que o faria com o máximo de decência possível. Agora, já é sem volta. Minha parte está pronta. É bom dizer que isso já não é mais comigo…

A gamificação e o futuro da leitura

Banco de livros

Daqui a uns anos mais, não me arrisco a dizer quantos, mas decisivamente não muitos, somente uns poucos curiosos ou uma ínfima elite cultural conseguirá distinguir um mínimo da literatura do inesgotável repositório digital que é recriado diariamente na internet. Talvez fragmentos esparsos ou adaptações resumidas garantam uma fração para lá de imprecisa da permanência futura do cânone literário universal, nacional e regional, mas isto trata-se apenas de uma expectativa sem maiores indícios. Talvez memes engenhosos salvem ainda um pouco menos que fragmentos. E frases completas e não deturpadas igualmente poderiam ser salvas da deslembrança completa da mesma maneira. Mas também é possível que, infelizmente, talvez nada mais consiga operar essa façanha e esse destino esteja desde já inapelavelmente selado.

Minha opinião é de que o maior risco do uso prolongado da tecnologia não é o fim da ficção, mas o fim da necessidade da ficção.

Minha opinião é de que o maior risco do uso prolongado da tecnologia não é o fim da ficção, mas o fim da necessidade da ficção. A despeito disso, publica-se como nunca. E incessantemente. Minha impressão, porém, é de que se publicam livros impressos e digitais na proporção inversa que se criam adultos interessados na literatura. Nos últimos tempos, principalmente depois que se pode observar o comportamento sobre a leitura nas redes sociais, é fácil perceber que o que mais vem proliferando são guetos de interessados restritos e leitores apenas casuais. Leitores regulares de ficção ainda são escassos e sua expansão é quantitativamente inexpressiva. Prova disso é a qualidade das estatísticas de vendas e listas de mais vendidos, praticamente invariável, o que é verificável nos rankings de vendas regularmente publicados pela Publish News. É de ver para crer, para aqueles que insistem na incredulidade a respeito de títulos e tendências comerciais.

Embora se divulgue muito a afirmação de que há no Brasil uma crise permanente na leitura, eu penso que ela não existe propriamente como “crise”, principalmente porque as vendas se mantêm razoavelmente constantes, ou pelo menos que o uso do termo “crise” não explique toda a extensão da problemática. O que parece mesmo estar crescendo é uma crise na capacidade de atenção à leitura, esta, sim, decorrente da proliferação de lazer tecnológico. E, talvez, ainda uma terceira crise que poderia ser localizada na literatura propriamente dita e no sistema literário, que têm se mostrado, juntos ou em separado, incapazes de romper as fronteiras acadêmicas, de fazer-se interessante ao público juvenil e de disputar novos leitores com outras mídias e fontes de informação. Há um risco sério de comprometimento nesse ponto e caso autores e editoras não reflitam sobre a questão, muito pouco haverá a lamentar, possivelmente até mesmo dentro de um curto prazo, na migração de interessados na leitura para o universo de aplicativos e brinquedos eletrônicos.

Há cerca de cinco anos, o norte-americano Philip Roth apostou, em entrevista, que a cultura literária teria seu fim em cerca de 20 anos. Não gosto nem um pouco de ter de concordar com ele, mas a verdade é que cada vez mais eu creio que ele estava apenas querendo parecer pouco pessimista. Entretanto, se foi minimamente realista, restam então cerca de 15 anos até o apocalipse final das letras, pelo menos de como elas têm sido conhecidas e consumidas nos últimos 500 anos.

Como chegamos a isso?”, é a pergunta que continuam a fazer-se os incrédulos. As respostas costumam vir de todos os lados e a partir de motivações bastante específicas, mas via de regra resvalam para a baixa qualidade da educação e a pouca ênfase na formação de leitores. Mas não seria essa justamente uma razão para apostar-se pouco em soluções efetivas e duradouras para a crise da leitura? Atrelá-la a uma educação cambaleante não seria uma forma de comprometê-la ainda mais? Ou seria a própria tecnologia, a mesma potencial causadora do desastre literário, quem poderia justamente salvá-la, a literatura?

Não é nada fácil responder estas questões, até mesmo porque a situação atual não é de uma chegada final, mas de uma transição na qual o protagonismo do livro não está dando lugar ao livro digital, como alguns embates sugerem, mas ao que se tem denominado de “gamificação”. Ou seja, jogos digitais com suposto ou nenhum efeito educacional e a presença cada vez mais massiva de conteúdo digital e interativo no lugar da especulação analítica e do agir reflexivo, mediada pelo livro, seja qual for o seu suporte, impresso ou digital.

Dentro disso que costuma ser denominado por cultura gamer, o indivíduo aprenderia indiretamente e através de experiências sensoriais que procuram que o indivíduo “embarque” virtualmente no objeto de conhecimento a que se pretende conhecer e que se aproprie sem um esforço de todo racional. Nessa perspectiva, a leitura aconteceria apenas funcionalmente, o objetivo em si mesmo seria a recompensa sensorial traduzida em repetidos estímulos àqueles embarcados na experiência lúdico-educacional. Os defensores de sua utilização defendem que essa poderia ser uma forma de atrair e conquistar novos interessados nos bens culturais escritos e na literatura de um modo geral, mas a possibilidade de que os possam afastar ainda mais do livro, seja ele em bits ou em papel, não é nem um pouco exagerada ou descabida.

A questão talvez então fosse estudar as formas pelas quais o ser humano, ao longo da história, vem se relacionando com a leitura. O escritor argentino, naturalizado canadense, Alberto Manguel, no seu Uma História da Leitura, fornece pistas interessantes. Uma delas é ao citar como, por exemplo, no começo do século, os leitores e escritores se relacionavam com o livro e a leitura. Segundo ele, o tcheco Franz Kafka teria dito, em correspondência enviada no ano de 1904 ao amigo Oskar Pollak, que, entre outras coisas “precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios”. Sensação muito distinta que se pode perceber ao verificar que no Brasil, ao longo das últimas décadas pelo menos, prosperam especial e exponencialmente vendas de títulos de autoajuda, num flagrante de que nossos leitores “potenciais” são de um tipo que não deseja ser incomodado pelos livros, mas acarinhado por essa espécie muito particular de escrita.

Tendo de disputar a atenção das pessoas com outras fontes de lazer e informação, a literatura de ficção acaba por competir aos leitores no que parece ser um alto investimento de tempo e de atenção concentrada. E numa época notadamente marcada pelo mais escancarado utilitarismo, é compreensível que as pessoas prefiram fazer opções menos trabalhosas do que ter de encarar, por exemplo, quinhentas páginas de qualquer autor russo do século 19 ou extensas e volumosas obras, como as de Balzac, Proust ou Thomas Mann. Todavia isso nem sempre é uma regra ou obrigação, o que pode ser comprovado pelo autor fenômeno de vendas norueguês, Karl Ove Knausgård, autor do colossal romance autobiográfico Minha Luta. Trata-se, sem dúvida, de um sucesso de vendas, inclusive no Brasil, mas provavelmente dentro daquele percentual de leitores já habituados a leituras extensas. É muito provável, por outro lado, que um novo leitor opte por não começar sua “carreira” com uma série de livros com milhares e milhares de páginas. Talvez antevendo uma possível exaustão e outras emergências e preferências, isso mesmo o faça desistir até mesmo de tentar com os livros pequenos ou qualquer tipo de livro. É uma possibilidade. As alternativas estão sempre à sua mão e costumam atender pelos nomes de smartphone ou de controle remoto.

De outra maneira, o atrativo virtual (não confundir com digital, dada a possibilidade de realizar-se leitura em dispositivos digitais), qualquer que seja ele, parece ser sempre irrecusável, mesmo que consuma horas a fio às vezes sentidas e percebidas como completo vazio ou perda de tempo, nesse processo angustioso que se tornou a vida virtualizada ou gamificada. Talvez a verdade a evitar-se falsear seja a de que já não há nada de errado no mundo contemporâneo quando o virtual se torna mais real do que o próprio real. Numa época em que o que não é “compartilhado” parece não existir e o compartilhamento de bens culturais é tomado como “ostentação” ou “obscenidade”, tudo acaba dificultado para o estímulo à leitura e facilitado para o lúdico, principal potencial dos gadgets.

Pistas mais próximas que a correspondência de Kafka, mantida no início do século passado, podem ser justamente os aplicativos para smartphones. Como, por exemplo, a febre do momento, o app Pokémon Go. As imagens há pouco divulgadas de crianças sírias “interagindo” ou exibindo imagens do boneco Pokémon com a finalidade de serem resgatadas, dentro de uma campanha humanitária, são impactantes, mas duram um momento só, como tudo o que “existe” no mundo virtual. É o tempo de passar os olhos e rolar os dedos e seguir adiante, ao novo objetivo, meta, fase ou o que seja.

Assim como todo e qualquer clamor dirigido ao mundo virtual, seu efeito maior provavelmente seria o de virtualizar e relativizar o seu próprio foco, tornando-o um tipo de estímulo capaz de proporcionar sensações passageiras, comoção ocasional e necessidade de novos estímulos porque o sistema de recompensa é, ao contrário do corpo físico e mental, incansável e insaciável. É por isso que me mantenho um tanto incrédulo quanto ao incentivo que a cultura gamer ou a gamificação educacional pode trazer ao universo da leitura, a não ser que se crie um universo de significação paralela, mas aí não será mais o mesmo nem em relação às dificuldades que representam a compreensão de um texto ficcional e nem ao conteúdo em si mesmo. A leitura, convertendo-se em estímulo, mas a partir justamente de um desestímulo à leitura e ao ato de ler só por ficção, poderia ser tomada como sinônimo de “avanço”. Não há, portanto, chance alguma de se emplacar, por exemplo, uma campanha do mesmo gênero em relação ao resgate de livros ainda que muitos mereçam e muito ser recuperados de tamanho desconhecimento contemporâneo.

Das profecias primitivas às esferas subterrâneas do purgatório medieval de Dante, do terror que inaugurou o imaginário industrial moderno com o Frankenstein de Mary Shelley ao revival do gótico assombroso pré-moderno, do horror de Lovecraft ao cyberpunk do fim do século 20, atravessando o moderno, suas correntes literárias todas e o pós-moderno, sempre o ser humano tem buscado a ficção como forma de sublimar as próprias querelas ou melhor compreendê-las. Mas desde que a subjetividade seja convertida cada vez mais em exibicionismo virtual e fonte de inesgotável autorreferência e narcisismo, a leitura pode passar a representar um tipo de ameaça bem diferente daquele imaginado por Ray Bradbury em Fahrenheit 451, de quando os livros poderiam desestabilizar o “sistema”, mas trazer a possibilidade sempre horripilante de colocar o indivíduo em contato consigo próprio e com pensamentos mais elaborados do que um emoji ou um conjunto deles.

É sempre um risco, mas que cabe a cada um decidir por tentar ou não corrê-lo. Há fortes indícios de que, na história, reservar um tempo regular à leitura ajudou a humanidade a superar dificuldades significativas e que a imersão tecnológica nos tem levado a guerras e conflitos terríveis e supostamente impessoais, como prova o uso de drones, mas quem poderia afirmar que isso tudo é mesmo verdade e não propaganda de improváveis e rancorosos sebos e antiquadas livrarias de bairro? Seja como for, talvez um ou dois livros fossem o suficiente para acabar para sempre com a dúvida.

Dicas para redigir um objeto

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Dicas para redigir um objeto

Lucio Carvalho *

Tenho lido em diversas publicações culturais dicas e conselhos de maior e menor relevância para novos autores de ficção. Normalmente são provenientes da benemerência de escritores consagrados, publicados, premiados, reeditados e até mesmo multitraduzidos. Em sua maioria, são conselhos autoconsiderados e republicados como “indispensáveis”. Penso que boa parte deles pode seguir-se tranquilamente, mas se isso resultará em algo produtivo eu reservo-me ao direito de duvidar e digo porque sou daquelas pessoas que costuma manter-se em dúvida até mesmo quando não tem mais certeza se deve fazê-lo, ou seja, não tenho problemas de acumular dúvidas. Talvez melhor mesmo fosse simplesmente robotizar-me em busca das soluções alheias, mas duvido que eu consiga. Olha a dúvida aí de novo!

Diante disto, resolvi eu mesmo aconselhar-me a este respeito, correndo o risco de que possa parecer apenas um laivo de magnânima soberba, mas na verdade trata-se de uma alternativa forjada duramente… Tendo-se em vista que, como se sabe, conselho é de graça e diz a voz do povo que, por isso mesmo, se fosse bom seria é vendido. Com os meus não poderia ser diferente. São de graça e bastante duvidosos, como se verá a seguir.

Bem, ao invés de entrar em embate com as ideias alheias, parto direto às minhas próprias. Já que elas têm me servido para manter-me vivo, a chance de que elas tenham alguma utilidade deve ser grande. Então, por itens, vamos ao que segue:

1) personagens;

vai gastar seu tempo precioso pensando na personalidade humana? Bobagem. Simplesmente vá escrevendo. Sendo um gênio da literatura, as melhores decisões se abrirão como o Mar Vermelho abriu-se para Moisés. Recomendo, inclusive, que procure não se ater muito aos detalhes psicológicos dos personagens. Se ele começou esfuziante e entusiasmado com a geopolítica mundial, por exemplo, transformá-lo em um cético ou em um ativista xenófobo não é um problema de monta, talvez nem de coerência. Despreocupe-se! Pior seria se ele tivesse mudado de gênero no decorrer da história, e não estou pensando em identidade de gênero nem em procedimentos médicos, o que seria diga-se passagem perfeitamente compreensível, mas esquecimento mesmo. Como se você tivesse começado com “Maria” e na página 114 transformado-a sem maiores explicações em “Mario”. Veja bem que, mesmo nestes casos, pode-se tentar consertar a problemática. Dependendo do público a que se destina, é possível que boa parte nem perceba essa transformação. Então, considere simplesmente deixar quieto. Às vezes funciona.

Ainda sobre personagens eu aconselharia (tenho feito isso a mim mesmo) a não perder tempo com muitos personagens. Um só pode ser o suficiente, porque ninguém mais se importa com o egocentrismo, que é um atributo desejável até, em certa medida. Aliás, pode ser uma fonte de identificação das melhores. Se o livro for ilustrado ou você está pensando em um e-book, por exemplo, cogite ilustrá-lo com selfies. Jornadas pessoais sempre interessam, principalmente se marcadas pela glória da superação dos limites. Personagens derrotistas nem pensar, nem derrotados pelo “sistema”. Já tivemos muito disso no mundo com os beatniks. Uma época superada por essa nova, hi-tech e triunfante. Por outro lado, caso tenha-se em vista um público mais intelectualizado, uma certa depressão pode ser bem vinda, assim como um clima noturno e noir. Pode até exagerar, sem problemas (há quem creia que, quanto mais noir, maior a chance de virar cult). Se não quiser mover o personagem nem do quarto de dormir, ok. Mas lembre-se, viagens cheias de fotos são sempre mais propensas ao sucesso, especialmente se algum aprendizado supremo advir da trajetória.

Gente muito simples, corriqueira, não se esqueça disso, vende mal e não conquista prêmios. Então, entre um padeiro e um senador, você já sabe qual deve escolher.

Acho que dá para o começo sobre personagens. Vamos diretamente, então, ao ponto de vista;

2) ponto de vista;

o ponto de vista é uma questão, como se sabe, de livre escolha. Tanto faz! Se você acreditar que o ponto de vista de um gato ou de uma mesa é o suficiente para começar, mãos à obra! Múltiplos pontos de vista também são usuais. É possível também alternar a voz narrativa e o tempo narrativo. Utilizar as técnicas concomitantemente pode render um longo trabalho mental. É recomendável decidir por isso e verificar as condições mentais previamente, portanto. Gerar alguma confusão no leitor também é garantia de que ele gaste mais tempo tentando entender o texto do que o contexto. Em se tratando do ponto de vista de uma mesa, pode ser uma solução interessante. É impactante, mas lembre-se sempre você mesmo do que estava pensando ao decidir. Ou não. Talvez jogar-se ao dadaísmo narrativo seja uma tendência literária emergente e, glória das glórias, você pode ser o precursor que estava faltando (talvez depois disso continue faltando). A História da Literatura pode estar aguardando-o. Coragem!

Vamos ao enredo. O ponto mais fulcral entre os cruciais: aquele que selará o destino do interesse da humanidade pela sua obra:

3) enredo;

pensar-se em enredos complexos tem seu risco, mas é uma aposta interessante. Enredos mais simples também têm um bom apelo e mercado considerável (enredo nenhum, como atestam os livros de colorir, então nem se fale). Também convém pensar no ineditismo, afinal não convém que duvidem da sua capacidade imaginativa ou o confundam com um outro qualquer. Ou, ainda, o pior dos horrores, que soe ou se confirme como um plágio. O plágio nada mais é que o opróbrio literário, mesmo que seja extensamente difundido e copiado. Algum aspecto vil da personalidade humana, talvez até mesmo um traço de psicopatia, pode render bons enredos. Personagens e situações boazinhas estão um tanto quanto out, mas jogo é jogo, já dizia o jogador. Na Bíblia, por exemplo, há diversas passagens disponíveis para releitura e aproveitamento. Só cuide de mudar a localização geográfica, anote isso! Passagens históricas e mitos diversos são fontes inesgotáveis de inspiração, mas jamais esqueça que as soluções requerem desfechos improváveis, surpreendentes. Se isso desviá-lo do argumento um pouquinho, o sacrifício compensa… Prefira sempre que possível uma ambientação sombria a uma outra solar, para evitar-se de parecer folhetinesco. Um equilíbrio entre densidade e leveza é fundamental. Está sem ideias? Tente lembrar-se das aulas de química inorgânica, pois a literatura é assim também: uma gota a mais de qualquer coisa e bum!! Foi-se o trabalho de uma vida…

Para prevenir situações horripilantes tais como essa, é bom pensar igualmente nos aspectos sociais da atividade, com o que penso em encerrar meu aconselhamento:

4) aspectos sociais e mercadológicos;

talvez já seja tarde demais para pensar nessas coisas e você esteja naquela situação de ter um volume pronto e um mundo para conquistar. Indispensável é pensar-se em um bom título. Já ouvi falar de livros que foram salvos pelos títulos… Antes de mais nada, talvez fosse interessante pensar que um livro sem leitores não tem o menor fundamento. Se você não pensa em contratar um serviço de marketing nem frequentar rodas literárias nem conhece pessoas influentes nem é professor de alguma faculdade nem tem a mínima ideia de por onde começar, não desanime! Como você acha que Cervantes começou? Ou Balzac? Ou Tolstoi? Assim mesmo: na coragem! Então, adelante! Procure pensar que nos tempos deles nem internet havia e eles conseguiram!

Bem, chegado até aqui talvez seja o momento de admitir que não penso tão seriamente em seguir o que preconizo. Já muito me disseram e aconselharam e ainda hoje estou nessa confusão, mas certo de que jamais pensei em sacrificar a liberdade, coisa que, sem a qual, um livro não é um livro, mas um objeto. E objetos, convenhamos, não deveriam estar em livrarias e bibliotecas, mas infelizmente é cada vez o que mais há nesses lugares. Meu conjunto de conselhos talvez não dê em um livro que preste, mas em um objeto que vendesse eu não duvidaria nem um pouco. Ao trabalho que é disso que se trata e nada mais que isso.