O canto dos helenos

No que mais é estranho (e ao mesmo tempo familiar) na ancestralidade greco-latina da cultura ocidental, a poesia, comparando-a a outras manifestações tais como a arquitetura ou a escultura, exibe-se ao observador contemporâneo inexperiente como a mais incomparável das artes. Resultante de uma musicalidade inaudita, da confluência de diversos idiomas, dialetos e de um apuro técnico-performático que ainda hoje, dadas as condições materiais da antiguidade, parece exageradamente elaborado, a poesia grega chama a atenção pela abrangência temática e, simultaneamente, por sua dadivosidade formal. É possível que possa situar-se no repertório, no conjunto de ideias mitológicas e históricas e também numa muito peculiar forma do humano perceber e lidar com o seu destino terreno a maior identificação que o sujeito contemporâneo pode estabelecer com esta poesia que, ao ouvido despreparado, soa incomum e pouco familiar, muito embora a partir e através dela tenham ocorrido as mais duradouras contribuições gregas ao mundo ocidental desde as obras de Homero e dele para as demais derivações da poesia grega como hoje pode ser concebida e estudada.

Se a difusão e fixação da cultura grega letrada derivaram diretamente da larga influência militar que Alexandre estabeleceu ao dominar um imenso território que compreendia desde o Egito até as fronteiras indianas, foi na culminância da Biblioteca de Alexandria, com o trabalho de Zenódoto de Éfeso (325 a.C. – 260 a.C.) que a Ilíada ganhou o que parece ter sido a sua primeira edição comentada. Além do trabalho do próprio Zenódoto, muitos outros estudiosos trabalhavam em Alexandria e, portanto, foi apenas em meio ao período helenístico que foram consolidadas, por escrito, as mais diversas contribuições épicas, líricas e elegíacas que formavam o grande conjunto a que se pode denominar por “poesia grega”. Infordunamente, apenas uma pequena parcela de todo esse conjunto de papiros e pergaminhos restou após os muitos saques e incêndios que acabaram por destruir completamente a Biblioteca e quase completamente suas coleções, conservando-se apenas aquela parte preservada no templo de Serápis, como a obra de Aristóteles, por exemplo, e cópias que a Biblioteca fornecia para coleções particulares.

O que se pode depreender, dada a extensão e qualidade deste pequeno legado que chegou ao tempo presente é que, incomparavelmente a outras civilizações, a cultura grega no seu apogeu chegou a contar com registros de qualidade formidável que tanto serviam para a educação dos cidadãos quanto como fonte de estudo para intelectuais. No entanto a circunstância histórica (e religiosa) acabou por sobrepujar e sufocar no ocidente a expressão de todo aquele arcabouço, permanecendo em estado de latência até a Renascença, sobretudo graças aos estudiosos bizantinos que o conservaram em meio ao período medieval.

Muito antes disso, isto é, desde Homero e Hesíodo, os dois principais nomes da épica no período jônico e dos poetas líricos do mesmo período que a diversificaram em suas formas mais conhecidas, como a elegia, a ode e os iambos, a poesia grega floresceu quase toda se valendo da tradição oral. Isto apenas foi possível porque então o que hoje se denomina por “poesia” integrava um conjunto de práticas performáticas que, aliadas à dança e a execução musical, consistiam no principal meio de propagação cultural e entretenimento de que os gregos dispunham. Grosso modo (muito grosso modo), equivale a afirmar que neste período da história grega, de paz militar, prosperidade econômica e efervescência cultural, os eventos públicos, competições e simpósios multiplicavam-se e, dessa forma, foram consolidando-se os nomes dos aedos que perduraram, principalmente no período de maior efervescência da tradição lírica, chegando mais tarde à performance teatral mais complexa na encenação das tragédias e comédias do período ático.

Muito embora atualmente seja bem mais simples para os estudiosos a identificação e sistematização de nomes, gêneros, estilos e tendências, em seu tempo a proliferação literária ocorria muitas vezes de modo simultâneo e os autores de que hoje restam versos e bustos provavelmente privaram uns dos outros, o que por si só parece fabuloso. Todavia nem por isso houve um florescimento absolutamente espontâneo, e a poesia grega deriva e reflete diretamente o espírito histórico das experiências políticas, militares, filosóficas, até lançar-se propriamente à expressão lírica, na autoafirmação individual que consiste no ideal de liberdade como ainda hoje é concebido no ocidente. Apesar do caráter paidêutico e da sofisticação social que os gregos aspiravam para a sua cultura, foi a poesia que restou como testemunho direto daquele modo de vida que repercutirá, por certo, até os estertores da vida terrena.

Neste intervalo, o eco duradouro da poesia grega, com seu metro estranhamente musical e peculiaridades formais e temáticas, será sempre uma oferta ao futuro do que o homem já pode fazer de si mesmo enquanto indivíduo e experiência histórica. Cada qual a seu modo, seja nos cantos de honra de Calino de Éfeso, no chamado militar de Tirteu, na vida aristocrática de Teógnis de Mégara, nos iambos satíricos de Arquíloco, nas odes de Safo, Alceu e Anacreonte, na lírica coral ou na magnificência da representação teatral, há muito mais que a mera conquista e elaboração de uma marca pessoal de cada um deles. Há, por outro lado, a noção irrefutável (e irrecusável) de que o “cadinho” da poesia grega clássica ainda nos pertence e, como nos é possível, continuamo-la.