Amazona ferida

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Com seu rosto sereno e inclinado que nunca
denunciaria a dor, posso procurá-la outra vez.

Você sempre a amou – a primeira obra de arte
Que conheceu pelo nome. Toda a semana

Você me trouxe até ela. Desatenta pelo
Vislumbre do mármore e de seu porte

Eu não sabia que você estava mostrando a quem
Eu precisava tornar-me para protegê-la

De tudo o que não você não entendia –
A mulher poderosa surgindo acima de tudo,

Tendo de aprender a sentir cada açoite, cada corte
E continuar em pé, com olhos vazios,

Registrando tudo. Você sabia que ela era
A mãe que você precisava, que desnudaria

Seu peito e sangraria sem demonstrar
Tristeza nem arrependimento. Eu gostaria de ter

Aprendido cedo suas lições e que você
Não me tivesse visto derramar-me em lágrimas. Eu

Deveria pairar sobre você como uma rocha,
Apoiando-me em uma coluna, com o braço

Sobre a cabeça e a ferida estancada. Você me quer assim,
O terror branco ocultando meus olhos vazios,

O freio do animal amarrando meu traje rasgado –
Nua, para que visse minhas costas curvas e vazias o bastante

Para suportar o peso de todo o seu temor. Eu finjo
Ser ela, em pé sobre as pernas fortes que se recusam

A sustentar-me. Mas ela não pode amá-la. Se eu tivesse
Toda essa força, você estaria perdida. Ela não permitiria

Que você enterrasse a cabeça sob o braço amputado,
Em seu peito frio, e cantasse sua canção indistinguível.

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Minha filha

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Se você a visse, pensaria em como ela é linda.
Estranhos me param na rua para dizê-lo.

Se falasse com ela, veria que essa beleza
Não significa nada. Sua visão se deslocaria para os pombos

Na calçada. Seu contato com os olhos se tornaria
tão precário quanto o dela e escapariam lentamente

Com diferentes graus de graça. Eu nunca sei
O quanto dizer para explicar o desgosto.

Às vezes, lhes digo. Mais frequentemente fico em silêncio.
Com o sorriso dela cauterizando-me, firmo

Sua mão por todo o caminho até em casa, embalando-nos.
As mãos da florista entregam-lhe uma rosa já morta

Que ela guarda suavemente, sem rasgar as pétalas, como faz
Com as tulipas que olham para nós com sua expressão insípida,

Fingindo que podem aguentar o meu sofrimento
Em seus copos alongados, porque eu os conhecia

Antes de conhecer a dor. Eles não entendem que
Estão arruinados para mim agora. Eu plantei quinhentos

Bulbos que, como ela, germinaram dentro de mim, seu cérebro já
Formado por fios de nosso dna danificado

Ou qualquer outra coisa que os médicos não entendem.
Após o banho, ela enrola-se em mim para eu niná-la –

A única vez durante o dia que seu pequeno corpo permanece quieto.
Então eu canto, respiro nos cabelos lavados e penso

Nos esqueletos no Musée de Préhistoire
Em Les Eyzies. Os ossos da mãe e do bebê

Deitados em uma caixa de vidro nessa mesma posição
em que estamos. Eles foram enterrados de maneira incomum:

A criança enrolada na curva do braço da mãe.
Os arqueólogos estão intrigados com a posição.

Isso não me surpreende de todo. Seria fácil
Morrer dessa maneira, cada uma de nós no último suspiro,

Com rimas infantis em nossos lábios abertos
E a promessa de um sono tranquilo.

Gostaria que o meu amor morresse

Jennifer Franklin
trad. do inglês

___________a partir de Beckett

Gostaria que o meu amor morresse
Ou pelo menos que eu não a amasse

Tanto. Se eu pudesse inclinar meu coração
Para o inverno, eu não precisaria da rotação

da terra para isso. Se você não sorrisse
Ao dormir, ou não tocasse meu rosto

Com ternura, eu poderia ter ido embora
Desde quando você partiu através

Das portas do meu coração camuflado
Sem olhar para trás. Eu gostaria de não amá-la

Tanto. Gostaria que o meu amor morresse
E então eu não teria que matar tudo o que há

Em torno de mim. Então eu não teria de ser
A caçadora que me tornei. Mas você

Não vai me liberar do seu abraço poderoso.
Você me faz permanecer a seu lado com o seu

Braço delicado em meu pescoço. Ele não parece
Forte nem para pegar um animalzinho, mas ele é.

A confluência poética de Jennifer Franklin

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Estou entre as pessoas que acredita que, acima de qualquer outra coisa, a literatura é uma forma de conhecimento. Penso que isso pode ser especialmente verdadeiro quando se trata de poesia. Em minha experiência (não seria tolo de falar por mais ninguém), a leitura da poesia funciona como tomar-se emprestados os olhos de outra pessoa, apropriar-se de seus sentimentos, sua capacidade perceptiva e sensibilidade. Dessa forma, a interpretação da poesia pode extrapolar em muito a análise de seus próprios aspectos formais, ainda que deles seja dependente em seu processo criativo.

Assumo a revivificação da ideia de Werner Jaeger de que a poesia é psicagogia, matriz de conversão espiritual imbuída de universalidade e vitalidade. Talvez seja por isso que custe tanto a entender como podemos prescindir, no Brasil, do conhecimento de poetas fundamentais até mesmo para a literatura do séc. XX e possamos permanecer aparentemente à margem não do universal, mas do universo propriamente dito. No caso da poesia norte-americana, estou falando de poetas premiados como Robert Lowell, Adrienne Rich, Anne Sexton, Robert Frost, entre muitos outros. Assim, é só por fatalidade que podemos antever a presença de uma nova geração de poetas e escritores, já que grande parte das editoras está atualmente empenhada em outra espécie de publicações.

Marcada desde meados do séc. XX pela dicotomia impessoal/confessional (principalmente na obra de T. S. Eliot e Wallace Stevens de um lado e Robert Lowell e Sylvia Plath, de outro) a poesia norte-americana contemporânea, assim como grande parte da poesia ocidental, chega ao séc. XXI de forma multiversa e simultânea. Os movimentos culturais posteriores ao modernismo não apenas multiplicam-se, mas ramificam-se e derivam para matizes muitas vezes indistinguíveis. Ao passo que a geração beat consolidou a libertação formal, nas universidades o estudo da poesia mantém vivo tanto o interesse nos clássicos como se relaciona mais abertamente com novas formas expressivas, como não poderia deixar de ser. Poeta ainda pouco conhecida no Brasil, Jennifer Franklin unifica formação clássica e expressividade intimista para dar voz a uma experiência de vida absolutamente pessoal: a experiência de uma maternidade impactada pela realidade do autismo.

Conheci a poesia e um pouco da biografia de Jennifer através do livro do jornalista norte-americano Andrew Solomon, Longe da árvore: pais, filhos e a busca da identidade, publicado em 2013 no Brasil pela Companhia das Letras. A partir de um pequeno trecho de sua poesia, transcrito por Solomon em seu livro, busquei encontrá-la em outras fontes, até chegar ao seu chapbook Persephone’s Ransom, disponível – em inglês – na Amazon.com e na editora Finishing Line Press. O livro integra uma obra maior, ele seria a segunda parte de um conjunto mais amplo de poemas, ainda inédito, Daughter.

Persephone’s Ransom é um momento especial em que a autora faz confluir sua poética anterior, marcada pela influência de uma poesia mais estudada e da ekphrasis, com os momentos cruciais da descoberta e convivência com o autismo de sua filha. No livro, os arquétipos da mitologia grega criam uma espécie de relevo tátil através do qual Jennifer expressa seus sentimentos mais profundos e atravessa uma experiência de perda e recomposição, que ela compara ao mito do rapto de Perséfone e dos ciclos que ele impõe ao mundo.

Correspondi-me com Jennifer muitas vezes na tentativa de traduzi-la para o português e também a fim de compreender melhor sua dicção e biografia. Apesar de ela ter iniciado a carreira literária antes mesmo de ser mãe (ela diz que ainda na adolescência, aos quinze), a realidade do autismo, diagnosticada aos dois anos de idade de sua única filha, impôs-se como temática visceral em sua produção. A maternidade e a relação com a filha não são seus únicos motivos, mas mola propulsora da poética que vem construindo em uma carreira que começou em 1996, na The Paris Review. Depois disso, passou por diversas revistas literárias como a Antioch Review, Gettysburg Review, Pequod, Southwest Review, Western Humanities Review, New England Review, The Nation, Salmagundi, Boston Review e Guernica; ela também chegou a ser finalista de diversos premiações nos Estados Unidos, tais como o Gerald Cable Book Award, o Autumn House Press Prize in Poetry e o ABZ Prize in Poetry.

Após alguns meses nos quais trocamos muitas impressões, nunca podemos chegar a um ponto de mútua satisfação para dar por encerradas as tentativas de tradução. Em dado momento, por uma leitura casual de Jorge Luis Borges, chegamos ambos à conclusão de que os poemas seriam melhor apresentados se mantidos no idioma original. No prólogo de Para Las Seis Cuerdas, Borges diz que “toda lectura implica una colaboración y casi una cumplicidad” e no de El Oro de Los Tigres que “para un verdadero poeta, cada momento de la vida, cada hecho, debería ser poético, ya que profundamente lo es.” Para ele, a poesia só é traduzível como recriação, jamais por dizer respeito a um sistema de códigos linguísticos. Trata-se de uma expressão enraizada na pessoa e realizada em sua língua materna. A um determinado ponto, ficou claro que traduzir os poemas de Jennifer implicaria em revivificar momentos cruciais e absolutamente pessoais de sua vida, coisa que é definitivamente impossível porque na experiência íntima não existe nunca um “como se”. De outra forma, seria inevitável esbarrar nos próprios limites da expressão quando fosse mais proveitoso ao leitor descobrir sua poesia conforme originalmente expressa.

Em My Herculaneum, publicado na Boston Review, que corresponde aos poemas de sua segunda fase, se encontram versos como estes: “When I arrived, I thought I knew how to live./I saw my future as clearly as new frescoes/On stone. What I didn’t have, I made do without -/Or invented: the trompe l’oeil mosaic in the summer/Triclinium for a real garden. (…)”, nos quais se pode perceber claramente a confluência do estilo descritivo no qual teve formação (nas Universidades de Brown e de Columbia, onde cursou Inglês e Escrita Criativa – Cum Laude, 1994) com alguns de seus principais interesses estéticos e culturais: a mitologia e história greco-romanas e a representação artística, unificados através da temática da maternidade e do conhecimento travado com o autismo da filha.wounded_amazon

Wounded amazon (integrante do chapbook  Persephone’s Ransom), segundo Jennifer, foi criado a partir da reação intensa que a filha, por volta dos dois anos de idade, manifestava em relação a Statue of a Wounded amazon, localizada na galeria de escultura greco-romana do Metropolitan Museum of Art, que mãe e filha frequentavam desde sua época de bebê, para as sessões de leitura e narração de histórias. Nele, pode-se ver a aproximação crescente entre a forma descritiva e o tom confessional, ainda mais marcante na última parte de Daughter: “With her serene, slanted face that will/Not betray pain, I can look at her again./You always loved her—the first work/Of art you knew by name. Each week/You brought me to her. Distracted/By joy at seeing her tall marble form,/I didn’t realize you were showing me/Whom I needed to become to protect/You from all you did not understand (…)”.

Nessa última parte de Daughter é onde está, talvez, o mais impactante entre todos os poemas que pude conhecer, sobretudo pela delicadeza e profundidade emocional. I would like my love to die, foi também publicado na Guernica Magazine, onde pode ser lido integralmente, representa um momento de purificação formal no trabalho de Jennifer, no qual ela se expressa em relação ao envolvimento com a filha de forma mais direta, sem motivos adjacentes e dando maior vazão aos próprio aspectos emocionais. O poema tem como base um verso de Samuel Beckett, “je voudrais que mon amour meure”, a partir de onde é desenvolvido: “I would like my love to die/Or at least that I didn’t love you/So much. If I could turn my heart/To winter, I wouldn’t need to do this/To the earth (…)”.

Seria absurdo pretender que, em uma apresentação rápida como esta, pudesse demonstrar muito mais do que está aqui. A ideia fundamental reside tão somente em desvendar a trajetória de uma poeta ao mesmo tempo delicada e vigorosa que, confrontada com uma realidade inesperada, exacerbou-a como significação poética de grande intensidade expressiva. Sua obra obteve um facho de luz através da monumental obra de Andrew Solomon sobre o amor e a condição humana. Talvez, por isso, seja possível compartilhar de sua aventura como quem pode prestar atenção na riqueza de sua experiência individual, como se através de seus próprios olhos, projetando-se com a potência dos mitos aos quais se remete para amplificar ainda mais nossa compreensão universal e atemporal do humano, tão embotada pela aridez a que, enquanto leitores, temos sido frequentemente expostos e/ou mantidos.