Uma pequena fábula silenciosa

corticeira

Contam que a sua alma era tão silenciosa que ela podia ouvir até a desafinação das linhas de um caniço ao pescar lambaris. Ela chegava às suas conclusões calculando a razão entre o abaulamento da corda e a velocidade do vento, que descobria através da quantidade de folhas que caía das corticeiras ou dos fios de cabelo que acabavam dentro da sua boca, jogados lá por esse mesmo vento, essa criatura indomável. Sua boca era tão quieta que ela falava pelos olhos e era por eles que também conseguia escutar. Para viver, usava mais os sentidos que os pensamentos, como um animal selvagem. Os peixes que ela pescava eram tão pequenos que todos os demais pescadores os desprezavam e riam do seu minúsculo tamanho e ameaçavam oferecê-los aos bicos dos pintassilgos, mas mesmo estes preferiam o tamanho e o sabor ralo das formigas e cascudinhos. Normalmente eles serviam de isca para os pescadores tentarem peixes cada vez maiores. Era disso que os tentava secretamente salvar. Então ela ficava olhando os peixinhos no côncavo das mãos e eles iam entrando mais para dentro das poucas gotas de água que sua prudência escassa encontrava de juntar, até que parecessem agonizar de sede, diminuindo, diminuindo.. Como estava longe dos rios e aguadas, sentada sobre uma pedra inalcançável da qual ninguém sabia o paradeiro, onde ia para pensar em nada e debater com a criatura que mora dentro do vento, temeu tanto pelos pequenos lambaris que quase se desesperou. Naquele momento sofrido, o vento se apiedou dela e, de encontro a um canavial ali perto, começou a cantarolar uma melodia mais triste que a tristeza. Ela ouviu impassível, mas quando sentiu o que o vento queria provocar-lhe, lágrimas correram pela face e jorraram de seus olhos como numa cachoeira, até encontrar a palma de suas mãos. Os pequenos peixinhos não cessavam de minguar, quase desparecendo, mas ao toque salgado das gotas encontraram forças para subir através e foram morar lá dentro dela. Naquela água escondida.

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Uma pequena fábula gigantesca

cabras

Contam que numa tarde remota de um tempo mais remoto ainda, o gigante Golias foi visto cuidando de uma cabra doente que havia se perdido da companhia cautelosa de seu pastor, que teria desabado de sono após um mês ininterrupto de pastoreio forçado. O gigante estava numa de suas muitas peregrinações pelo Neguev, quando testava sua resistência física à fome e à sede e viu a cabra extraviada pastando no que a princípio lhe pareceu ser um oásis e que, logo a seguir, se confirmou como um oásis mesmo. Numa cena que tempos mais tarde lhe passou pela cabeça, pouco antes de receber em plena testa a pedrada do futuro rei Davi, ele viu a si mesmo, como se fosse um deus, fazendo uma concha com a palma da mão e colocando gotas de água dentro da boca da cabra sedenta. Mas isso, contam as cabras, foi uma cena que passou pelos olhos dela antes de ser trucidada pelas mãos do gigante famélico, que viu nele o que ele não era e foi somente depois da ocorrência de tais fatos que se criou o significado para a palavra miragem.

Uma pequena fábula joaninha

joaninha2

Contam que ela tinha tanto carinho pela vida que resolveu viver no pátio da casa, junto às coisas que as pessoas fizeram trastes. Bem cedo de manhã, no orvalho que se depositava nas madeiras das cadeiras quebradas, no metal das latas furadas ou no verde das folhinhas do jardim mal cuidado, ela lavava as mãos e o rosto, cuidando de não fazer um ruído sequer que atrapalhasse o sono das pessoas dentro de casa. No pátio, viviam outros bichos também. Um cão atropelado que dependia totalmente dos outros. Passarinhos que tinham ninho no telhado carente de conserto. Até uma comunidade militar de formigas que às vezes doava gentilmente algumas folhas para o húmus da terra. Lá pelas sete horas da manhã, todo o dia, uma velha senhora abria a porta do pátio e olhava para cima, adivinhando o clima que iria fazer, e olhava para baixo, como se procurasse alguém que estivesse ali escondido ou passando ou dormindo. O cão virava os olhos em sua direção e sacudia o rabo, mas em seguida se acomodava novamente. Ela, paralisada, esperava que a velhinha voltasse para dentro de casa para continuar sua higiene. Às vezes, dormia na casa da velhinha uma netinha sua, criança de seus oito anos. Ela acordava mais cedo que a avó e, mais cedo ainda, já estava a correr pelo pátio, numa insolência que todos os bichos toleravam. Apenas a joaninha não aguentava que interrompessem o seu rito, ainda mais com dedos apressados, e saía voando.

Uma pequena fábula ribeirinha

igarape

Contam que o vento deu sete voltas na capoeira, antes de chegar às palafitas, para avisar que era hora de as crianças irem para dentro de suas casas. As mães chegavam às janelas e contavam na poeira do chão batido as pegadas de seus filhos e descansavam. Quando uma delas distraiu-se, uma criança bem pequena – pela altura de uns quatro anos de idade – achou de procurar um pedaço de qualquer coisa que se escondia no meio da escuridão que a chuva fez. A chuva choveu e, quando ela vem desse jeito, ela alaga e invade tudo que vê pela frente. Quando a pequena caiu e a torrente já quase a levava embora, foi que sua irmã com cara de lua percebeu a tragédia e pulou dentro da água. A lua crescente que morava sempre em seu sorriso então brilhou, fazendo com que tudo lá embaixo se iluminasse e a pequena pudesse lhe alcançar a mão, pulando fora dali. A água tinha sede e fome de luz e, através do sorriso de lua, achou um jeito de guardar consigo um feixe de luz que a lua dá e que a menina tinha na boca, misturando-se ao seu corpo franzino. A água é boba, pensou a menina, não pode pegar a luz; a água, que não era boba, pegou. Só não pegou e levou consigo a lembrança da bravura da menininha. Que a bravura nem a água não leva e essa ficou na lembrança daqueles que jamais lhe esqueceram. Uma iara perto dali logo pegou a menina para sua companhia e, quando a lua faltava no céu, ela parava de cantar e lhe contava histórias sem pé nem cabeça. E a menina enchia o lugar de luz e de sorrisos.

(Baseado nesta notícia.)

Uma pequena fábula budista

Contam que o Sakiamuni tinha grande amor pelos animais. Que os elefantes se enfileiravam para o levar nas costas. Que as formigas disputavam para limpar o terreno de todo obstáculo diante de si, até se prenderem nas teias ímpares que as aranhas teciam para que ele, nelas, repousasse os pés. Antes mesmo de entender a necessidade da compaixão, o buda se deitava na relva para brincar com o Destino e com o Tempo, seus dois gatos, livre de qualquer ambição e com um sorriso entre os lábios que poderia suspender até mesmo o sol no horizonte ou as intenções de Mara. Ao contrário de seus seguidores, o Sakiamuni nunca meditou em silêncio. Dentro de si, uma grande gargalhada de felicidade vazava por seus poros numa miríade de borboletas que cultivava sem saber e que tinham, cada uma, um nome diferente para o amor. Sua grande lição, até hoje mal compreendida, insiste que se procure sempre a fonte daquele riso, extirpada pelo uso danoso da razão. Algumas pessoas, com olhos de buda, conseguem isso com uma facilidade que costuma espantar aqueles que andam por aí caçando borboletas.

Uma pequena fábula de algodão

Contam que o homem começou a tremer do nada e seu balanço foi aos poucos aumentando o andamento da orquestra inteira. Primeiro o pianista ergueu os braços como a perguntar o que havia. Depois o resto dos metais, as madeiras, o baixista e o baterista, todos foram parando, já não encontravam meio de sustentar o chão para o homem, que passou a levitar diante de todos. A fumaça era grande e espessa. É mil novecentos e vinte e tantos. Tudo parece cena de filme antigo e o preto na face do homem brilha por causa da luz do lustre de cristal. Ainda é o único jeito de brilhar, pondo-se em água, tal como nos algodoais do Mississipi. Pode-se perceber como seu timbre tem como se a voz de uma criança sedenta. Ninguém sabe o que ele sente mas ele sabe que gosta do que sente. É como hashish, mas hoje sequer ele esteve no porto. Na verdade, ele foi à capela e rezou em silêncio, sem devoção. Saiu de lá com o estojo do tenor abraçado diante do corpo. Possesso, é o que estão dizendo, mas quem vai saber que deuses é que eles seguem afinal de contas? Mas não foi por isso que o homem de terno branco chegou até sua frente, segurando suas pernas e implorou chorando: “Por Deus homem, pare com isso.” E quando ele parou finalmente, foi a última vez que ele tocou o primeiro solo de saxofone da história da música dos negros daquele lugar. E ninguém jamais lembrou da levitação nem de nada do que viram ou do que pensaram ter visto.

Uma pequena fábula ribeira

Contam que o homem tinha braços finos como caniços de pescador e que, a despeito disso, era o único no mundo capaz de mover o leito dos rios. Às vezes por birra, ou por atender ao pedido dos peixes, ele iniciava o trabalho, digno de Homero, de brincar com o desenho da costa do Brasil, de norte a sul. Ele ria a morrer da confusão que gerava entre cartógrafos, historiadores e bacharéis da cidade e seus sapatos lustrosos. O homem era um pouco índio e um pouco mouro, mas recusava o batismo, preferia viver sem nome nenhum, de modo que fosse impossível chamá-lo com uma palavra. O único meio possível era fazer com que o vento carregasse até ele melodias sinceras, ou então se o rastro dos olhares, que vigiava de esgueira, lembrasse o olhar molhado de sua mãe. Por tédio, talvez, às vezes ele vagava entre as pessoas, vestido igual a elas, nas cidades, em busca de quem lhe necessitasse, mas quem há de precisar de alguém cuja força só serve para mudar o curso dos rios? Então, cada vez mais ausente de si mesmo, ele foi se refugiando e encolhendo, diminuindo sua presença até deixar de ser notado completamente. Ficou tão pequeno que um dia acabou caindo dentro de uma casca de semente de jacarandá, em uma poça d’água que, aumentada pela chuva, acabou por encontrar depois as margens do rio Paraguai. E foi descendo, descendo, atravessando rios, arroios, sangas, até que bateu no fundo do Rio Grande do Sul – lá onde Anhangá perdeu as botas – e achou de descansar na toca de uma iara que não se importou de sua companhia e o embalou até o fim de seus dias sem nunca olhá-lo nos olhos, para que não morresse afogado e ela não parasse de cantar jamais.

Uma pequena fábula portenha

 

puerto

Contam que numa noite, no porto de Buenos Aires, um gitano violinista encontrou um pedaço do Adagio em sol menor de Tomaso Albinoni escondido dentro do forro vermelho do estojo de um velho violino. Manolo não sabia ler música, mas insistiu noites a fio em decifrar os símbolos do manuscrito. Por conta da tarefa, até do vinho ele desistiu. Na época, Manolo não sabia que, no outro lado da cidade, morava uma dama que compunha canções espanholas e que pagava em prata para ouvir a música dos criollos. A dama não saía de casa jamais e seu endereço era um segredo de poucos: o prefeito, o cura e um outro, um gaucho que lhe prestava alguns serviços e do qual diziam que, por vezes, dissolvia seu fervor. Foi este homem quem conheceu Manolo numa rinha de galos e o levou até ela, ao saber de sua maestria ao violino. Manolo chegou altivo, como cumpria ser um cigano. Ela só disse: toque. Ele então tocou dois acordes e ela desfaleceu. Ele a tomou em seus braços e passou tempos tentando reconstituir para ela o último acorde, sempre esquecido. Um dia, de tanto desconfiar, o gaucho desembainhou sua adaga e acabou em definitivo com as suspeitas daquele amor, tonto de melodias. É por isso que a milonga é a música mais triste e sangrenta do mundo. A maneira como o gaucho passou a contar a história nos almacenes do porto passou mais tarde a chamar-se tango, na voz dos borrachos e na dança das meretrizes.