A urna – 97

Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol

Foste embora e, ao mesmo tempo, não…
És tão distante (e nunca tão presente)!
Em meu olhar, tu choras de solidão
sempre que de mim te vês ausente.

Bastava-me saber por onde tens ido…
As portas, as árvores do outono, o jeito
que tinhas de perguntar, sobre o meu peito,
e eu sustaria uma vez mais o teu gemido.

Aonde poderás ir que eu não te deixe?
Onde que eu não te veja, e eu não me queixe?
Se ao teu lado eu talvez te esquecesse,

pois sempre estou com o que está distante
(tu sabes bem: a juventude envelhece),
eu sempre estou com o que está distante…

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A urna – 2

lago3

Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol

Era ódio: já não é. Agora já não existe
mais esta febre da carne viva.
Para quando eu vier a morrer não resista
sombra de orgulho, nem a raiva altiva.

Antes eu era todo um tormento,
contradição, luta, mentira;
esticava meu olhar turbulento
o arco da ira.

Em forças desajustadas me dividia
e hoje conto apenas com uma energia
suprema, que alimenta o gesto eterno:

um amor pensativo e doloroso.
Por ele sou como um lago silencioso
entre montanhas imensas. O inverno…

O ódio

tiger

Enrique Banchs (1888 – 1968)
trad. do espanhol

Brilhando por inteiro ao sinuoso
passo vai o tigre, suave como um verso,
e a ferocidade lustra qual terso
topázio o olho seco e vigoroso.

Estirando o músculo em desuso
dos flancos, lânguido e perverso,
encosta-se lentamente no disperso
outono das folhagens. O repouso…

O repouso na selva silenciosa.
A testa plana dorme entre as finas garras
e o olhar fixo, sem gáudio,

espia, enquanto abafa com a nervosa
cauda todas as outras feras,
como em esgueira… Assim é o meu ódio.