Educação 2.0

Amálgama

De uma forma que aparenta ser muitas vezes incoerente à realidade presente, especialmente a brasileira, o campo educacional é dos mais exuberantes quando percebido como território da experimentação e instrumentalização do conhecimento. Isso se deve tanto ao incremento de aplicações tecnológicas e de renovadas formas de mediação entre conteúdo e aprendentes quanto à proliferação massiva de dispositivos de interface digitais. No entanto será a conjugação destes dois elementos – irrefreáveis ao que tudo indica – o suficiente para dar conta de providenciar uma melhor educação às comunidades escolares brasileiras e de incluir ao tecido social do século 21 um dos maiores contingentes de analfabetos funcionais de todo o mundo?

Há cerca de uma década, numa ação conjunta do Instituto Paulo Montenegro (IBOPE) e da ONG Ação Educativa, vem sendo mensurado no Brasil o nível de analfabetismo funcional da população. Acredite-se ou não, o índice alarmante de 30% da população dentro da condição já foi ainda mais expressivo. Teria chegado a 39% da população entre 15 e 65 anos de idade no ano de 2001, mais ou menos quando a pesquisa mudou seus critérios de classificação. De acordo com a metodologia atualmente empregada na pesquisa, as faixas de classificação compreendem desde o analfabetismo absoluto e ausência de qualquer letramento até o denominado analfabetismo rudimentar, critério no qual está presente a compreensão dos signos numéricos e linguísticos, mas escassa capacidade interpretativa e relacional.

De todos os números obtidos na pesquisa, provavelmente o mais impactante seja o que informa que cerca de 4% dos estudantes universitários brasileiros poderiam ser enquadrados dentro do critério. A informação, além de servir de alerta quanto às formas de ingresso no ensino superior, também é demonstrativa da distinção cada vez mais evidente entre aprendizagem, conhecimento e acesso à educação. Mais do que propriamente atestar a permeabilidade dos sistemas educacionais, a informação prejudica em muito a obtenção do que talvez seja a maior ambição das nações neste século 21: a educação de qualidade.

Esta é uma das preocupações que o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens e Homo Deus, acaba de trazer em seu mais recente livro: 21 Lições para o século 21. Uma educação de qualidade, segundo Harari, seria um produto cada vez mais complexo a depender tanto de autonomia de pensamento quanto da busca pela libertação da influência algoritmos, bancos de dados e demais recursos tecnodependentes.

O que ele mais reitera em seu livro é o fato de que as duas situações fazem como um paradoxo, tendo em vista a expansão da inteligência artificial num ritmo bastante superior à expansão educacional. De acordo com Harari, “pela primeira vez na história, não fazemos ideia do que ensinar às crianças na escola ou aos estudantes na faculdade” e isto se deveria ao declínio da noção humanista da educação em detrimento da profusão tecnológica. Enquanto que na primeira a ênfase do processo educacional estaria na internalização da aprendizagem e dos métodos científicos, na outra este processo seria substituído pela mediação do acesso ao conhecimento e sua instrumentalização pragmática. Trata-se de processos divergentes que, em face da desigualdade de desenvolvimento das nações no processo de globalização, acentuaria ainda mais a irrelevância dos processos educacionais como nos acostumamos a conhecê-los.

À medida que se insere no cotidiano pessoal de uma maneira aparentemente incoercível, cada vez mais vai parecendo natural que a tecnologia ganhe mesmo mais espaço no cotidiano escolar. Não se trata apenas de recursos eventuais, mas de toda uma nova cadeia de produtos educacionais talhados para atender as comunidades escolares num padrão com o qual os alunos, principalmente, seriam beneficiados com customização, interatividade e construção de conhecimento em ambientes supostamente mais colaborativos do que competitivos. Caso tudo ocorra conforme o imaginado e prometido pelos desenvolvedores em tecnologia, tudo isso deveria caminhar no sentido de atender as pessoas cada vez mais em suas particularidades e este parece ser o grande canto da sereia tecnológica no ramo educacional. Ocorre que essa mesma tendência, por outro lado, pode competir em que mais e mais se automatize todo o processo cognitivo, eliminando-se as nuances da percepção humana e opacizando-se as características sócio-emocionais dos indivíduos.

Ainda que em algum momento possa tornar-se impossível resistir ao encanto da tecnologia educacional, é inegavelmente importante testá-la ao extremo e confrontá-la com desafios mais complexos que aplicações demonstrativas. Segundo o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, um dos principais críticos da sociedade digital e do que chama por homo digitalis, dispositivos digitais costumam funcionar de forma repetitiva e através de estímulos centrados unicamente em recompensas. A construção de hipóteses e sua refutação, elementos fundantes do método analítico, seriam substituídas por estímulos quase behavioristas e, de acordo com ele, cognitivamente empobrecedores. Yuval Harari também é um pensador contemporâneo que costuma cercar-se de cautela ao conjugar os assuntos. Para ele, o predomínio da tecnologia sobre o controle humano vem sendo menosprezado e estaríamos caminhando com pressa rumo a uma sociedade do biocontrole extremo. Harari vai ainda mais além em suas previsões, chegando mesmo a temer por que contingentes populacionais imensos (e também nações inteiras) em breve se tornem irrelevantes e venham a enfrentar problemas graves como o desemprego em massa e a desassistência. Algo como nem Michel Foucault teria imaginado em suas digressões micropolíticas mais sombrias a respeito do século 20.

Com tudo isso, porém ainda inexiste um consenso internacional a respeito do emprego massivo de recursos tecnológicos na educação. Na França de Emanuel Macron, por exemplo, neste ano proibiu-se completamente o uso de celulares nas escolas. A legislação aprovada no parlamento francês abre como única exceção para o uso de tecnologias assistivas que beneficiam alunos com deficiências físicas ou dificuldades motoras. Mesmo assim, todos os casos são analisados individualmente. A França, é bom lembrar, é dos poucos países ocidentais que do orçamento público destinam a maior fatia para a educação. Na China gigantesca, de outro modo, a realidade é outra e seu entusiasmo com a tecnologia educacional é crescente a ponto de projetarem-se para o país os maiores investimentos de que se tem notícia. Lá é onde o megainvestidor Lee Kai-Fu, ex-presidente local do Google, pretende desenvolver um ambicioso projeto de inteligência artificial, tendo em vista atingir a hiperpopulação chinesa assim como colaborar nas pretensões globais do país.

Quanto ao Brasil e os dados locais, a realidade presente é bem outra. Ou então, mais apropriadamente, trata-se de “outras realidades”. Como em quase tudo no país, por aqui são encontráveis desde ilhas de excelência tecnológica até um vasto território de anomia e visível deterioração. Permeada por carências tão bem conhecidas como socialmente mal enfrentadas, continua padecendo a educação pública, por exemplo, com uma série histórica de maus indicadores em tudo semelhantes aos demais indicadores nacionais sobre distribuição de renda e mobilidade social. De acordo com o IBGE, a chance de que os filhos tenham ocupações semelhantes aos seus pais é muito grande, ou seja, no Brasil os filhos costumam herdar de seus pais, além das condições econômicas, as culturais. O que também é sintomático da estagnação da qualidade educacional.

É o que informa, por exemplo, o Censo Escolar de 2017 (o de 2018 se encontra em finalização) ao apontar que 61% das escolas municipais não contam sequer com bibliotecas. Enquanto isso, uma minoria de projetos educacionais de alto desempenho e alto custo começam a avançar no mercado da educação privada. Na Bett Educar 2018, uma das principais feiras de produtos educacionais realizadas no Brasil, não havia apenas em exposição recursos de inteligência artificial que nada devem aos desenvolvidos no estrangeiro, mas uma miríade de outros recursos. Trazendo da tecnologia toda uma terminologia até então estranha à educação (mas comum aos estudantes), por ali nem se pensa tanto em bibliotecas como em hubs. Pouco se fala em sala de leitura e livros, mas bem mais em gadgets e mobiles. Quase não se vê quem mencione conceitos como “política educacional”, mas muito se comenta a respeito de objetos de aprendizagem. Muito pouco em pedagogia e, em contrapartida, muitíssimo mais em neuroaprendizagem.

A revolução educacional tecnológica do século 21, como se pode perceber, já está acontecendo também no Brasil. Apenas que por enquanto acessível somente a quem pode custear um investimento mensal de cinco dígitos, como o cobrado pelas novas escolas da elite paulistana, como a Avenues ou a Concept. Ocorre que, como dificilmente seria diferente, a introdução dessas mudanças acaba refletindo-se também no universo das escolas tradicionais. Assim que ninguém deverá ser pego de surpresa quando, ao invés de um trabalho coletivo de finalização do ano escolar, seja proposto como objeto de estudo o desenvolvimento de um app, um torneio de videogames ou uma feira de coding (programação).

Mesmo que o cenário da tecnologia adentrando as salas de aula não seja mais exatamente uma novidade, é uma ideia que ainda causa algum assombro. Longe de tratar-se de uma guinada súbita, é preciso lembrar que a preparação para tudo isso vem sendo feita em casa, individualmente. De posse de smartphones, tablets e da oferta de conexões até mesmo em geladeiras, a imagem mais cristalizada do processo educativo – o professor e a lousa preta – parece cada vez mais defasada e vintage. No mundo real e contemporâneo, muitos ambientes educacionais atualmente já não estão recebendo alunos e apostilas, mas hackers potenciais em vias de civilização e aprimoramento. É uma perspectiva nova, sem dúvida, mas como freá-la? E, principalmente, como democratizá-la para que não se aprofunde ainda mais o abismo da desigualdade e da irrelevância?

Talvez o que mais aflija os interessados na essência do trabalho trabalho educacional e no seu encontro fatal com a revolução tecnológica digital possa ser a natureza das competências que estão sendo desenvolvidas nesse novo ambiente. Além disso, também é bom lembrar que ocorrem na escola bem mais coisas do que aprendizagem, reprodução, testagem, criação, etc. Há também laços sociais, convivência, ética mútua e sobretudo diversidade humana. E o desafio de universalizar o ensino e o acesso à educação como bem social, além de constituir um dos eixos central da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, talvez continue sendo algo como o equilíbrio possível entre o desejo francês por igualdade de condições e o chinês por inovação.

Seja como for, sob a batuta quase invisível dos algoritmos ou sobre as linhas dos últimos livros didáticos impressos, cada vez mais vai se naturalizando a ideia de que o natural a acontecer – e muito em breve – é que um ou mais elemento tecnológico integrará a vida educacional e pelo menos alguns elementos de inteligência artificial tomarão conta também deste terreno no qual sempre estiveram pareados dois seres humanos: o ensinante e o aprendente.

Já não mais como na imagem de Aristóteles argumentando com Alexandre – a própria sagração da dialética como forma de instrução e elucidação do pensamento -, é possível que a imagem do estudante venha a tornar-se cada mais vez semelhante a nossa mesma imagem cotidiana: o olhar mais preso à tela do que ao mundo e muitos pescoços curvados. Já quanto ao que isso pode vir a proporcionar no futuro em termos de paz social e desenvolvimento equitativo ainda não se pode dimensionar ao certo. A princípio, o que se sabe muito bem é que uma das principais preocupações da indústria tecnológica tem sido para com a projeção de sua própria obsolescência e incremento comercial. Dentro dessa lógica, é possível mesmo projetar uma imagem como a de Chaplin em Tempos Modernos, mas de muitas pessoas soterradas em chips e bits sem nenhum significado, como se na grande lixeira de um sistema operacional sem grande serventia.

De outro modo, o único possível de garantir por enquanto é que, seja sob quais meios forem, continuará sendo tarefa da educação formar pessoas aptas ao livre arbítrio, a inclusão daqueles alijados da vida social por qualquer razão e a ampliação dos horizontes cultural e científico de cada um e de todos. O esforço científico e tecnológico em instrumentalizar a aprendizagem humana, dado o infinito repositório de informações da internet, terá pouca valia se não colaborar em que cada estudante possa discernir do que é real ou ilusório, do que é fato ou fake new, do que é conhecimento científico ou mera crendice.

A recente resposta elaborada pela OECD com a assessoria do pesquisador e estatístico Andreas Schleicher sobre “como construir uma escola de qualidade para século XXI“, além de valorizar os próprios métodos de avaliação, passa por que sejam sobrepujadas as desigualdades econômicas através do investimento em educação. O exemplo de países como Finlândia, Japão e Coreia do Sul, sempre lembrados como experiências a perseguir, são excepcionais principalmente porque contam com a confiança pública. Na busca por restaurá-la em situações de crise, como a brasileira, talvez fosse prudente lançar mão de valores de coesão principalmente em torno da educação básica. O investimento em tecnologia em cenários como esse nunca deveria ser como a anteposição da carroça aos bois. Neste como em outros casos, a tecnologia não deveria ser um fim em si mesmo nem uma solução que credenciasse por antecipação as melhores escolas e experiências. A depender de nós (e de nossas escolhas presumivelmente racionais) poderá vir a ser parte da solução ou então mais uma etapa dos problemas educacionais do tempo presente e futuro.

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De quantos bodes expiatórios precisa a educação brasileira?

cabrinhas

Desde a divulgação dos mais recentes dados do ENEM – e isso me ocorre a cada vez que se divulgam índices e resultados educacionais de um modo geral – tenho pensado que a educação que se oferece aos alunos tem formado mais brucutus que gênios. Se somarem-se ao cômputo os números da evasão escolar, então, o que temos é o suficiente para demonstrar que estamos diante de uma calamidade, mas de um tipo que ninguém se importa mais. O cenário de destruição talvez fosse propício, portanto, para que se investigassem as causas disso, mas a opção mais fácil e corriqueiramente adotada reside em desviar o foco para uma metodologia tão simples quanto antiga: encontrar o bode (ou bodes) expiatório ideal em quem depositar a culpa de termos uma educação tão ruim, seja qual for seu âmbito, pública ou privada.

Na última semana, a CONFENEM – Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino voltou a apontar o dedo em direção a quem muitas vezes antes já havia indicado como o seu bode expiatório ideal.

Ao ingressar com ação de inconstitucionalidade no STF visando impedir a aplicação da Lei Brasileira de Inclusão, que determina – constitucionalmente – que aos alunos incluídos não recaiam mais ônus do que já têm de arcar (pois os custos de educar um aluno com deficiência chegam a ser três ou quatro vezes maior que os alunos sem deficiência), sugerindo que a obrigação de educar estes alunos seja exclusividade do poder público e que os custos do negócio sejam debitados individualmente diante de uma situação que não é individual, mas social, é de pensar seriamente se há princípios constitucionais e estado de direito ainda em vigor no Brasil, dadas as características e o terrorismo embutidos na situação.

A questão de agora em diante será entender se os ministros do STF também farão dos alunos com deficiência o bode expiatório de uma sociedade pouco afeita à diversidade ou tomarão outro tipo de decisão. A oportunidade de reverter definitivamente essa compreensão errônea e parcial e consolidar a Lei Brasileira de Inclusão, bem como a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência e os direitos humanos mais elementares, é ímpar.

As escolas, se oferecerem uma educação digna e honesta e investirem em melhorar a educação de todos, perceberão que podem ser mais do que fazendas que selecionam cavalos de corrida e bodes expiatórios. E que tanto os alunos com aptidão acadêmica quanto os mais corriqueiros (e mesmo os piores entre eles) têm a contribuir com a comunidade, cada um a seu modo, além do óbvio direito de estar ali.

Mas porque se procura chegar repetidamente a essa solução? A resposta para a questão é complexa, envolve a estrutura escolar, os custos, medidas de gestão, política pedagógica e, também, as demandas familiares. Nos últimos anos, uma crescente demanda por atendimento individualizado tem chegado aos tribunais de todo o país. São pais que, diante da constatação de dificuldades no processo de inclusão, aderem à medida de invocar a presença de professores exclusivos em sala de aula, quando não são condicionados a isso. Tais profissionais atendem sob diversas denominações, podem ser “mediadores”, “tutores”, “professores auxiliares” ou o autoexplicativo “professor exclusivo”.

É contra a presumível onerosidade decorrente da adoção de medidas assim, a maioria delas previstas em lei, que a CONFENEM moveu sua ação. Mas não é só disso que se trata. Na ação, a Confederação alega, entre outras coisas, que a obrigação constitucional de atender o alunado incluído recairia exclusivamente ao Estado. Trata-se de uma visão nitidamente inconstitucional, especialmente depois de que o Brasil adotou com efeito de norma constitucional a CPCD, que preconiza o sistema educacional geral como inclusivo, o que a LBI, questionada no Supremo pela Confederação, visa regulamentar, justamente ao vedar cobranças extraordinárias dos alunos com deficiência incluídos nas escolas regulares privadas. É uma postura recorrente da Confederação que, em outras ocasiões, manifestou-se da mesma maneira.

Dessa forma, temos que nenhum outro aluno, com outro tipo qualquer de dificuldade, e há talvez mais de uma centena delas, poderia casar tão bem com o papel de bode expiatório da educação e seus problemas como o aluno com deficiência intelectual.

Coincidentemente, na mesma semana alguns alunos denunciaram o que muito bem poderia chamar-se de “discurso do ódio”, tão presente na atualidade, dirigido por uma professora universitária aos seus alunos, em ambiente escolar. Trata-se de uma professora que, segundo denúncia veiculada pela ONG Movimento Down, teria comentado “sobre a série do Fantástico, Qual é a diferença?, que estreou no domingo passado, dia 9, e é apresentada pelo Dr. Drauzio Varella e pelo ator e judoca Breno Viola, a professora teria dito que as pessoas com a síndrome são horríveis e que não é normal mostrá-las na TV.” Além de gratuita, a declaração demonstra que ainda muito há para ser feito no sentido de melhorar as condições morais do ser humano, como é fácil perceber.

Vendo assim, os “horríveis” alunos com deficiência não seriam apenas causa dos problemas educacionais como pessoas que servem muito bem para dirigir-se uma dose descomunal de ideologia, especialmente uma que deveria a esta altura da História estar suplantada, e insiste em classificar os seres humanos entre aptos e não aptos. Entre lindos e horrorosos. Entre melhores e piores. Ou, ainda, como cavalos de corrida e bodes expiatórios.

A CONFENEM, nesse caso, atua não somente em função de proteger os estabelecimentos de ensino, mas também de chancelar uma ideologia muitas vezes compartilhada com as próprias famílias de alunos com deficiência. A despeito de que muitos alunos necessitem realmente de atenção individualizada, a disseminação da prática conforma uma situação paradoxal.

Por um lado, ao destinar um acompanhante permanente, a escola livra-se do encargo pedagógico de construir uma estrutura que atenda um coletivo repleto de particularidades, assim como buscar recursos pedagógicos adequados a muitos alunos com dificuldades, diga-se de passagem não exclusivamente os alunos com deficiência.

Por outro, as famílias que se veem acolhidas nessa política de “professores exclusivos” deixam de demandar essas mudanças de fundo, que beneficiariam a todos os alunos, inclusive os próprios filhos. Por sua vez, chancelam igualmente um modelo de educação que cumpre geograficamente a prática inclusiva, mas não conceitualmente, ou seja, o modelo continua o mesmo, meritocrático e distintivo, com a diferença de que os alunos incluídos nele são aceitos mediante a condição de que as famílias arquem com os custos, e é este o principal fundamento da ADIN proposta ao STF na última semana.

De fato, os alunos com deficiência podem casar com a imagem do bode expiatório, mas há muitas práticas sociais colaborando para isso. Nada que justifique excluí-los do sistema de educação ou praticar crimes que já existiam mesmo antes que a Lei Brasileira de Inclusão fosse sancionada. A ideia da CONFENEM é, portanto, tentar matar “o mal” pela raiz, não importando-se, por sua vez, em praticar males de outra espécie. O STF está aí para  averiguar o que é cabível no séc. XXI e consolidar em definitivo a legalidade de um processo educacional ainda capenga e com resultados muito ruins, porém o único disponível.

Dessa educação que forma mais brucutus que cidadãos, portanto, o que se deseja é que melhore para todos. Mas, com a presença do bode expiatório, cria-se o substrato ideal para soluções parciais e a disseminação da ideologia abilitista, por outro lado.

Um dos mais clássicos enganos difundidos sobre a inclusão escolar de crianças com deficiência, principalmente a deficiência intelectual, é de que o principal objetivo a visar-se seria o de transformar o aluno num sucesso acadêmico ou, no jargão dos pátios escolares, num nerd. Ou, então, que seu ganho na escola fosse meramente “social”. Ledo engano.

Um aluno incluído pode muito bem ter como objetivo transformar-se num brucutu, destino que muitas vezes não o diferenciaria tanto assim do restante do alunado. E não estou sendo irônico neste ponto, mesmo que a ironia neste caso fosse apenas um recurso discursivo apelativo por atenção, tendo em vista a grande indiferença que cerca o assunto por quem não o vive e a consequente detratação política e institucional.

Pois então, todo e qualquer aluno pode ser um brucutu e a educação tem sido pródiga em formar cidadãos assim, mas ai do aluno incluído que transformar-se porventura num deles. Ele terá o estigma mais cruel entre todos os scholar losers, cultura importada que se espalha viroticamente no ambiente educacional brasileiro. Ele será o intratável por excelência. O ineducável. O irascível. O que atrasa a turma. O insuportável bagunceiro que foge da disciplina, como se ninguém mais o fizesse. O que exige adaptações enquanto para os demais basta a condenação tácita dos exames de recuperação ou uma eventual reprovação. O culpado dos baixos índices na Prova Brasil, índice PISA e todos os demais critérios válidos de um sistema de educação que casualmente seleciona 15% dos alunos e os demais empurra, via evasão, ao subemprego ou para “fora do páreo”.

Poderia existir bode expiatório mais adequado?

Todos podem ser brucutus, exceto o “bode”. Todos podem esquecer a educação que talvez tenham tido em casa e agredir professores, não cumprimentar funcionários, tratar os colegas aos trancos e barrancos. O “bode”, não. Ai do aluno incluído que não se der bem, ele será o “bode” perfeito para que as escolas criem mais e mais subterfúgios para que outros bodes não sejam admitidos, se bem que às vezes seja muito conveniente ter um para jogar as culpas do fracasso educacional geral. Muitos “bodes” juntos, entretanto, é tumulto certo, razão pela qual se impõem ilegalmente limites numéricos a sua presença no coletivo, ou seja, em sala de aula.

Se ele tiver dificuldades apenas elementares e habilidades que o credenciem para as habilidades acadêmicas (e isso é tão variável quanto uma paleta de cores), o estrelato está garantido e qualquer escola das que exigiram ilegalidades para que ele pudesse estar ali não hesitará em coroar-se pelo êxito. Caso contrário, será apenas a confirmação do que já se sabia. O “bode” não aprenderia. Porque todos podem ter o direito de bagunçar, cabular aula, colar à vontade, decorar fórmulas que serão esquecidas no segundo dia depois da formatura, mas o “bode” – pobre “bode” – o “bode” não.

Da escola regular muitas vezes se esperam os piores alunos, especialmente se a escola for pública e situada numa região pobre de uma metrópole (não precisa ser metrópole) qualquer. Na visão da elite econômica, representada por um sem número de instituições, é o lugar perfeito para os bodes expiatórios da inclusão, porque ali não se espera resultado positivo de ninguém e se a vaca (eu e minhas metáforas animais) for para o brejo, ninguém nem notará a presença do “bode” na manada.

À educação pública, com investimentos cortados de cima a baixo, no Brasil infelizmente imaginou-se cumprir essa função, a despeito das promessas eleitorais eternamente adiadas em orçamentos nunca levados a efeito. A educação pública é, por sua vez, o bode expiatório do sistema educacional e da sociedade. Normalmente apontada como culpada, quando evidentemente padece pelos efeitos últimos de políticas extraviadas de uma sociedade cujos cidadãos, todos eles, mereciam outra qualidade de serviços pelo tanto que depositam compulsoriamente nos cofres públicos. Mas claro que pedir educação pública de qualidade é o limite insuperável destes tempos. O que o país tem ganhado com isso, com essa miopia, é, para mim, mais misterioso que as teorias da física quântica ou a existência de Deus. Fato é que há muitos bodes expiatórios para continuar justificando-se o injustificável. Com um “bode” desses na sala, afinal quem precisa se preocupar com os problemas dos outros?