O Regresso

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Se os conflitos territoriais travados entre povos indígenas e colonizadores mal rendem, no Brasil contemporâneo, algumas linhas de cobertura jornalística, no cinema norte-americano eventualmente obtêm destaque, mesmo que se refiram quase sempre a episódios históricos. Ao que tudo indica, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas deve repetir o Globo de Ouro e premiar neste ano o diretor Alejandro González Iñárritu, pelo filme O Regresso (The Revenant, 2015; estreia no Brasil marcada para 4 de fevereiro), protagonizado por Leonardo DiCaprio. Caso não o faça e não seja concedida a estatueta de melhor ator a DiCaprio, ele continuará em seu périplo em redor ao prêmio e a Academia, por sua vez, se manterá em sua relação conturbada com o gênero western (ou faroeste).

Ao longo de quase 90 anos, apenas por três vezes filmes do gênero foram premiados: Cimarron (1931), Dança com Lobos (1991) e Os Imperdoáveis (1992). Das quase duas dezenas de indicações, é uma minoria extrema. Trata-se de um gênero com imenso apelo popular e que, por vezes, como Jorge Luis Borges apontou em entrevista celebrizada na Paris Review, chegou a propiciar momentos épicos através das telas do cinema. Nesta entrevista, o autor argentino afirmava ter predileção por faroestes, ao invés do cinema autoral em voga no período em que a concedeu (1967). Interessante lembrar que o próprio Borges, por sua vez, criou momentos igualmente épicos ao escrever sobre o correspondente sulino ao cowboy, vaqueiro norte-americano, ou seja, sobre o gaucho platino, principalmente nos contos de O Informe de Brodie (1970). Ainda assim, a despeito da popularidade mundial dos faroestes, definitivamente o gênero não está entre as preferências da Academia.

Baseado em fatos reais, O Regresso é um filme sobre vingança, mas uma que ocorre sob um pano de fundo onde ela é apenas um gesto corriqueiro. É violento, mas em locais e situações onde a violência é que é a regra. É cruento, porém se dá em meio a uma relação cruel que marcou a história das delimitações da fronteira ao norte dos Estados Unidos com o Canadá, bem como os territórios dos indígenas e seus conflitos étnicos. É mistificador ao glorificar a resistência sobre-humana do protagonista, mas é desmistificador quando torna evidentes a precariedade e a violência sob as quais ocorreu a “conquista do oeste” e as figuras humanas dos “conquistadores” de então. É fantasioso ao apostar no envolvimento afetivo entre indígenas e colonos, todavia é mais fantástico que fantasioso ao tentar elaborar a recondução da história pela via afetiva, justamente a que mais deveria estar rompida pela barbárie perpetrada nas chacinas, estupros em massa e expropriações que o filme não oculta.

O Regresso, como qualquer outro filme, é uma tentativa. Uma aposta alta que conta com a atuação brutal de um DiCaprio que, para a felicidade do diretor, entregou-se ao personagem em carne e osso, e isso quase literalmente, porque ele teria atuado praticamente sem dublês, mesmo em cenas de alto risco. Aposta ainda mais alta fez o diretor ao encenar o drama da fronteira e das relações entre indígenas e colonizadores sem apelar à mera pieguice, como no oscarizado Dança com Lobos, protagonizado e dirigido pelo ator Kevin Costner.

É muito interessante notar que o filme de Iñárritu diz respeito a um cenário de conflitos hoje praticamente extintos na América do Norte, mas, por outro lado, muito persistente na América do Sul. Conflitos envolvendo territórios indígenas ocorrem entre nós desde o Tratado de Madri (1750) e atualmente se dão em torno da delimitação de reservas cada vez mais imprecisas e da ininterrupta grilagem que se pratica principalmente em relação aos territórios guaranis no Mato Grosso do Sul, embora não se restrinja a eles. Disputas severas acontecem também nas reservas das proximidades amazônicas, não raro dando causa a graves problemas ambientais marcados pela propagação da criminalidade e incremento na devastação extrativista, muitas vezes tendo como pano de fundo a expansão do agronegócio e a presença de mineradoras transnacionais, como a Vale, celebrizada há pouco tempo atrás no mundo inteiro por um crime ainda sem culpados, a tragédia do vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Para se ter ideia, em 2014 a Universidade Autônoma de Barcelona demonstrou que o Brasil esta entre os países em que há mais conflitos ambientais no mundo, e não raros são os conflitos que envolvem – direta ou indiretamente – os povos indígenas, como demonstra o Relatório de Violência contra os Povos Indígenas, regularmente publicado pelo CIMI – Conselho Indigenista Missionário, vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

No terreno ficcional do gênero western, histórias de conflitos de fronteira entre indígenas e colonos são recorrentes e, via de regra, entremeados de violência abundante. Nelas, costumam estar em jogo aspectos menos nobres das relações humanas, já que o que se costuma buscar, em processos assim, é a apropriação territorial e de recursos econômicos e naturais, além da delimitação política de fronteiras entre nações beligerantes. De modo análogo ao que aconteceu na América do Norte, conflitos de fronteira também ocorreram por aqui, especialmente nos sécs. XVIIII e XIX, ao sul do Brasil, na fronteira com o Uruguai. Tanto lá quanto aqui, a colonização ocorreu mediante a extinção massiva dos povos indígenas, principalmente das etnias pampeanas (charruas, minuanos etc.), mas também se deu em relação ao grande tronco guaranítico, num episódio histórico de proporção épica quase não reportado, a exceção de recentes livros de história, como os colossais A Guerra Guaranítica e A Fronteira, do professor e historiador gaúcho Tau Golin.

Comparando-se ao cinema brasileiro, O Regresso então é um filme que praticamente não encontra paralelo na filmografia recente. Pelo menos no campo ficcional, é preciso reconhecer que roteiristas de lá fazem bem mais por identificar o acento crítico da relação e dos conflitos envolvendo os povos indígenas que os cineastas e autores brasileiros. Por aqui, muitas vezes parece que há como que um aprisionamento nas obras de José de Alencar, tendo O Guarani, Iracema e Ubirajara contado inclusive com refilmagens. Exceções existem, como em Xingu, Terra Vermelha e Serras da Desordem, mas que pouco foram vistos e cuja existência é bem pouco notada, como se fossem filmes estrangeiros.

Ao procurar-se muitas vezes encontrar no modo de viver dos indígenas aspectos mágicos ou contornos líricos, é quase possível dizer que há na cultura nacional como um esforço infantil em torno da tentativa de cristalizar sua história como intocada. A brutalidade das cenas de um filme como O Regresso, portanto, impõe uma carga pesada de realidade a este imaginário idílico que, a bem da verdade, está mais para uma epopeia sanguinolenta, ainda que muitas vezes denegada na historiografia, na ficção e também no jornalismo presente. O que subsiste muitas vezes é a impressão de que ainda hoje está a buscar-se recuperar as feições do índio mitológico, pueril, enquanto os indivíduos reais continuam a padecer por uma relação desigual e marginal que mantêm com o restante da sociedade, ao mesmo tempo em que a narrativa dessa história violenta é encoberta e até mesmo tornada desinteressante, quando não invisibilizada de todo.

Entre históricos ou presentes, o certo é que não faltam bons motivos para filmes relevantes ou ao menos não tão infantilizadores sobre os indígenas no Brasil. A impressão reincidente é a de que parece aguardar-se (ou quem sabe desejar-se) não haver mais elenco disponível para encenar essa tragédia também muito vista por aqui e que, ao vivo e em cores, continua invisível apenas por quem não deseja vê-la ou dela institucionalmente procura desincumbir-se, por pressões tão repetitivas quanto antigas em terras brasileiras.

Mesmo que nos Estados Unidos esta relação esteja muito distante da ideal, porque conflitos territoriais continuam a existir por lá também, ao menos parece que, do ponto de vista cultural, aos poucos se adota uma perspectiva menos idealizada e mais racional em relação aos conflitos com os povos indígenas e ao tratamento de sua história. Em dado momento do filme, acontece como uma espécie de depoimento de um cacique da etnia pawnee, dando conta da consciência exata da relevância das perdas territoriais, econômicas e culturais por que sua tribo estava passando, num diálogo que ele trava com os traficantes de peles da colônia francesa com os quais os indígenas comerciavam, não coincidentemente em troca de cavalos e armamentos. Também por cenas assim é possível dizer que O Regresso, de certo modo, pode ser interpretado como um indício importante no sentido desta perspectiva de renovação na compreensão da problemática indígena. Quer dizer, considerando-se que pelo menos até há pouco tempo atrás o tom adotado pela cinematografia era o de uma cooperação amigável entre homens brancos e indígenas, como em Dança com Lobos, ou então, ao invés disso, quando os nativos eram retratados como os clássicos e perversos selvagens canibais das caricaturas.

Enquanto isso, parece que por aqui o que se deseja fazer é viver à deriva da história, como se num permanente ponto de não retorno, no qual tentar coibir a violência desmedida e garantir condições minimamente dignas de convivência com os povos indígenas seriam desde sempre situações irrecuperáveis. Não é com outra coisa que contam as ideias pouco inovadoras dos arautos do irrefreável progresso contemporâneo, entre governistas, ministros de estado, autoridades e legisladores. Desse desmazelo histórico bem que se poderia lá pelas tantas empreender um ponto de regresso, como no título do filme de Iñárritu, mas na atualidade brasileira até da ficção e do cinema nacional parece que algo dessa ordem seria pedir demais.

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Zhang Yimou e o expurgo da memória

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O enfrentamento ou a mera sobrevivência a regimes despóticos inciados no séc. XX (muitos infelizmente continuados no atual) renderam livros e filmes memoráveis. No cinema, lembrar dos brasileiros Pra Frente Brasil, de Roberto Farias, ou Cabra Marcado pra Morrer, de Eduardo Coutinho, é suficiente para que se perceba que a temática é capaz de produzir clássicos, mas essa é uma realidade que não se restringe ao Brasil. Em todo o mundo, filmes mais ou menos conhecidos retrataram momentos históricos inesquecíveis não pela beleza ou pelo maravilhamento, mas pelo horror, pela opressão totalitária e o nonsense de ter de viver em meio a ditaduras. Poucos diretores, entretanto, após obterem sucesso comercial costumam voltar à temática, normalmente permeada por aspereza e não pouca violência. Não é o caso do diretor chinês Zhang Yimou que, no seu mais recente filme, Coming Home (Gui lai, em chinês), voltou a mostrar nuances menos explícitas da violência subjacente à Revolução Cultural liderada pelo “timoneiro” Mao Tsé Tung, na China, entre os anos de 1969 e 1976.

Yimou, que em 1994 havia recebido o Grande Prêmio do Júri em Cannes por Tempos de Viver (Huo Zhe, em chinês), abordando a trajetória de uma família desde a década de 40 até os anos 80, ou seja, atravessando os anos em que o regime de Mao governou o país, experimentou ele mesmo o expurgo do cinema chinês, sob a acusação de que estaria denegrindo a revolução comunista. Vinte anos depois, na mesma Cannes, Yimou voltou a vivificar os momentos de maior radicalização ideológica em seu país, mas desta vez sem concorrer à premiação, com Coming Home sendo exibido fora da premiação. Para tanto, ele ainda pode contar com a atriz Gong Li, com quem produziu alguns dos mais premiados filmes chineses, como Sorgo Vermelho, Lanternas Vermelhas, A História de Qiu Ju e o próprio Tempos de Viver, que ela também protagonizou.

Yimou, cuja filmografia passa por filmes que enfocam a vida tradicional e os costumes da China pré-revolucionária e até mesmo por películas do assim chamado wushia, cinema baseado em histórias de heróis das artes marciais, bastante populares na China, é um dos diretores mais conhecidos e premiados no ocidente. Diferentemente de filmes com baixo orçamento, típicos das produções dos anos 70 dos estúdios de Hong Kong, Yimou realizou filmes de alto orçamento, produções elaboradas beirando o épico (ou um improvável barroco chinês), como o filme Herói ou O Clã das Adagas Voadoras. Curiosamente, Herói foi coproduzido com Quentin Tarantino, vencedor da Palma de Ouro com Pulp Fiction no mesmo ano em que Tempos de Viver levou o Grande Prêmio do Júri.

Sem deixar de ser também uma espécie de épico, Coming Home (que deverá chamar-se De Volta Para Casa no Brasil) é um filme caprichado ao extremo nas especialidades de Yimou, a fotografia impecável e a direção de arte, mas este seria apenas mais um épico de aventura não fosse o tema escolhido por ele um dos mais candentes do seu próprio país. Não poderia ser diferente para quem passou o período da Revolução Cultural justamente nas linhas de produção estatais, na tecelagem do algodão, quase o oposto da seda imperial onipresente em seus filmes wushia, em que a pancadaria é comandada pela fantasia.

Em Coming Home, baseado no livro da escritora Geling Yan, a pancadaria, por outro lado, é comandada pelo real, mas narrada a partir de uma sutileza incomum. Quando o mais fácil seria escancarar o horror da violência totalitária mostrando a dor em seu estado lancinante, Yimou quase apenas a sugere e centra fogo não em uma encenação realista, mas em uma metáfora que diz respeito a muitas maneiras que democracias recém postas tratam o passado arbitrário, não que seja este o caso da China. Porém, talvez exatamente por isso, pela iminência permanente de um reviver de violência e opressão política e cultural, Yimou tenha escolhido mostrar o desenlace de seu enredo tendo como elemento central a temática da perda da memória.

Para ele, que em entrevista ao O Globo, declarou que um filme como Coming Home precisa ser feito em seu país para que a memória não seja simplesmente apagada, para que ela mostre até onde é possível chegar-se na ausência da liberdade, trata-se de um reencontro com o seu melhor cinema e com a musa principal de sua filmografia, a atriz Gong Li.

No filme, a personagem de Gong Li, Feng Wanyu, perde a memória justamente no momento em que o marido Lu Yanshi, interpretado pelo ator Chen Daoming, retorna para casa após o expurgo promovido pela Revolução Cultural, cerca de 20 anos após sua prisão, mas encontra uma família destroçada. Ambos professores, ela preferiu não se opor ao endurecimento do regime, mas ele pagou por sua oposição com a liberdade, como aconteceu na realidade com milhares de professores que desejavam, na época, depurar o regime maoista, mas receberam em troca perseguição e ostracismo. O duro do roteiro adaptado por Yimou é que este pai é justamente levado à prisão por meio da delação de sua filha, a bailarina Dandan, formada no sistema de doutrinação imposto nas escolas chinesas. E, a partir desse momento, uma série de violências apenas sugeridas acontece com a família. Neste ponto, que para muito filmes sobre regimes autoritários seria o ápice, como se por uma necessidade de saturação, em Coming Home é quando o drama dá lugar ao épico e começa a desenrolar-se o restante da vida dos personagens. O restante da vida possível.

Daí em diante, deste ponto de retorno que jamais chega a cumprir-se, porque a personagem nunca recobra completamente a memória do marido, o filme ganha um contorno lírico impressionante, embora muitos possam por isso vir a classificá-lo como melodramático. Neste momento, com a Revolução Cultural já finalizada e o regime dando indícios de uma incipiente rarefação, com a reabilitação dos professores aprisionados e banidos, quer dizer, daqueles que puderam sobreviver às condições degradantes impostas por Mao. No filme, pode-se saber de colegas de ambos que se suicidaram ou simplesmente não voltaram para suas casas e famílias nunca mais. A narrativa de Yimou, neste caso, por sugerir a dor subjacente a um momento histórico tremendo como este, é mesmo comovente, caso essa palavra tão em voga chamada empatia possa ser empregada em relação a um passado nem tão distante, mas que é sem dúvida um exemplo inexpugnável do horror que é viver em um regime sem liberdades.

Daquele momento preciso do retorno de Yanshi até o envelhecimento de ambos, passando-se anos a fio, nos quais ele tenta recuperar a própria identidade (que é afinal de contas dependente do reconhecimento dela, a esposa), ele encontra uma maneira de manter-se ao mesmo tempo junto a ela, sem desistir da ideia de ser recebido e identificado. Ele começa a ler, sem que ela jamais o reconheça, as cartas que escreveu da prisão e até mesmo a forjar estratagemas de convencimento para que a memória dela o perceba e receba em sua própria casa novamente. Em determinado momento, uma conhecida de ambos, também professora, determina e garante “em nome do regime” que ele é mesmo o seu marido, mas a violência sistemática, até mesmo sexual, perpetrada por agentes do mesmo regime, enfim revelada, é traumática demais. Em busca de vingar-se de alguma forma, ele vai perceber que a violência, ao fim das contas, não é casual, mas deflagrada pelo desespero social e que mesmo os algozes do regime maoista são vítimas de uma violência ainda maior, de ordem política, capaz de encobrir a razão social com truculência de sobra e muitas palavras de ordem.

Através da delicadeza da trilha sonora composta e executada pelo pianista Lang Lang, primeiro chinês a figurar com a Filarmônica de Berlim, a história avança e, diante da impossível recuperação da memória da esposa, o incansável professor, em uma cena por si só antológica, une-se a ela na espera por ele mesmo, jamais reconhecido. Com a compreensão da filha e com a família reunida em torno do possível mais do que pelo desejável e do que seria digno e justo, Yimou desenha, através da impecável atuação de seus atores, de uma forma verdadeiramente indescritível o que a capacidade de sobrevivência do afeto torna possível aos seres humanos, mesmo nas mais precárias situações. Convenhamos que sobreviver à Revolução Cultural maoista é dos exemplos mais formidáveis de onde extrair-se um roteiro e uma história de amor vigorosa como a contada em seu filme.

Dramalhão simiesco

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Eu devia ter imaginado, mas acho que não quis acreditar que transformariam o excelente filme de ficção científica que fora Planeta dos Macacos – A Origem num dramalhão simiesco como se viu em Planeta dos Macacos – O Confronto. Na verdade, achei que não conseguiriam tal feito, porque o argumento todo já estava pronto e a presença magnética de Andy Serkis interpretando o líder Caesar deveria indubitavelmente garantir algumas horas de confortável alienação mundana.

Não foi o que me aconteceu. Pelo contrário, a poltrona do cinema parecia querer me enxotar dali o tempo todo. Principalmente quando os olhares dos macacos pareciam querer inspirar comoção e sentimentos evoluídos. Por ter acreditado que o roteiro poderia resolver satisfatoriamente o embretamento em que colocou o líder Caesar e seus comandados, resisti. Mas, infelizmente, não foi o que se confirmou. Trata-se, talvez, de uma continuação que por sua vez também não resistirá ao tempo. Talvez, nem à temporada de exibição.

Resvalar na pieguice parece às vezes ser uma regra de ouro das continuações. Lamentável que um dos personagens mais interessantes do cinema de ficção científica dos últimos anos, o símio Caesar, tenha sido, em Planeta dos Macacos – O Confronto, reduzido de líder revolucionário a um reles macaco chorão. Não será a primeira vez que um personagem auspicioso é derrubado de seu possível engrandecimento pela necessidade de preenchimento de cenas. Eu pensei que Caesar resistiria a isso tudo, mas a concepção lacrimosa em que se investiu na continuação parece que desandou com a “mística” do antropoide.

Assim, dessa forma melancólica, saí do cinema com a nítida impressão de tempo perdido e dinheiro mal empregado. Não que eu estivesse esperando exatamente pela reedição de um clássico do cinema, mas é que o reboot de Planeta dos Macacos – A Origem foi um filme surpreendente, a começar pela expressividade estupenda que o ator Andy Serkis emprestou a Caesar e, a seguir, por um roteiro impactante e repleto de dilemas morais comuns aos parentes ditos mais evoluídos, o que colaborou substancialmente para o engajamento dos espectadores. Pelo menos desses que usam moeda para obter as coisas.

Seja pelo início expresso, no qual se explica a propagação de um vírus que dizimou meia humanidade ou mais e colocou o mundo de ponta a cabeça, ou pelo desenvolvimento arrastado, o filme não trás descobertas, revelações, insights ou surpresas. E aquilo que seria razoável supor, de que os macacos evoluiriam culturalmente a partir da aquisição de habilidades inteligentes, não acontece. Eles brutalizam-se, na verdade. E o filme todo caminha nessa direção, colocando em oposição o que se poderia chamar de duas lideranças proto-políticas, antes indissociáveis, o líder Caesar e o truculento Koba, animado pelo ator Tony Kebbell.

Enquanto um haveria colecionado doces lembranças de sua criação por um humano afetivo, conforme o exibido no filme anterior, o outro fora exposto a toda sorte de experimentos e violências, razão pela qual não consegue confiar nestes nem por um instante. O momento em que eles discutem e tomam caminhos distintos na relação com os humanos é provavelmente o ponto alto do filme. Se há uma cena impactante na sequência, é esta em que Koba mostra ao então amigo e líder as cicatrizes que os amistosos humanos cravaram em sua pele e explicita as razões de sua desconfiança para com aqueles.

Apesar de que a violência de Koba depois disso deslanche descontroladamente, seu gesto acaba por querer demonstrar que seria inútil empreender contra os mais poderosos e que a revolta acaba por voltar-se contra os próprios revoltados. Esse argumento, entretanto, não salva o herói macaco Caesar de ceder totalmente à condição de espécie subalterna, mesmo sendo ele o exemplo máximo de sua própria espécie. O impasse subjacente à trama, portanto, equivale ao que seriam eleições na floresta, nas quais nem sempre vence o com mais razões e nem perde o menos capacitado. E o final, sangrento e explosivo, não deixa nada a desejar a outros filmes com seres energúmenos, animais ou não. A bem da verdade, se o filme fosse reclassificado de “ficção científica” para “ação” ou “aventura” pelo menos um pouco de justiça seria feita ao gênero original da série.

O déjà-vu da pipoca

“A igualdade é um ideal que se concretiza numa fila de cinema.”
Anônimo.

Ontem experimentei na própria pele o verdadeiro e inefável sentido da igualdade, o único possível entre todos os imagináveis, que pode ser vivido por qualquer um que ouse enfrentar uma fila de cinema, à tarde, em plenas férias de julho, acompanhado de seus filhos e de aparentemente todas as crianças e adolescentes da cidade. É uma experiência que eu recomendo e que é capaz de fazer você se sentir alguém tão comum quanto uma pipoca num sacolão de pipocas ou, como estou pensando, de experimentar por breves momentos uma experiência de comunismo real, que hoje só existiria na Pipocolândia. Desculpem a falta de originalidade do exemplo, mas é uma questão de impregnação sensorial, para que não faltem aqui alguns termos científicos, indispensáveis numa crônica de bom gosto.

Não é por ainda estar tentando decantar, com a ajuda inestimável desse maravilhoso legado do séc. XX, o analgésico em comprimido, a cefaleia que se abateu sobre minha pobre cabecinha desde aqueles momentos, mas eu cuido muito de tirar lições excepcionais de fatos absolutamente corriqueiros, como estar na fila do cinema, naquela situação. Faço isso para poder me certificar que eu mesmo crio meus déjà-vus e também que tenho força o suficiente para resistir ao inferno das minhas próprias decisões – o que, afinal, pode dar no mesmo. Ai das pessoas que não insistem nos seus erros: elas pensam que sabem o que estão perdendo…

Voltemos à Pipocolândia. Lá, como quero insistir, todos são iguais. A fila é a heterogeneidade mais uniforme que pode existir. É a cultuada diversidade humana em sua forma carnal e cabal. Lugar ideal onde um criança de seis anos de idade pode conversar naturalmente sobre os mesmos assuntos que seu avô, aposentado compulsório (que saudade da repartição, hein?), apontando as telas dos seus celulares, respirando a igualdade definitiva daquele paraiso democrático e outros odores derivados do milho mas, a essa altura, isso é definitivamente o que menos importa. O que importa é o dever cívico de não fugir à fila, como os mártires jamais fugiriam aos desígnios heroicos das revoluções.

Ah, as revoluções. Dizer que chegamos ao comunismo real sem necessidade de nenhuma delas! Eu só tenho certeza que uma começaria ali se aquele jovem com franja (isso é quase um pleonasmo inevitável) ousasse entrar na frente daquele tio, quero dizer, senhor. Vamos lá, pessoal, vamos evitar que cabeças rolem, vamos começar o murmurinho – segredo de todas as turbas – “Sim, é aquele ali, seu guarda, está tentando furar a fila!”. Só mesmo no comunismo se vigia e pune tanto as pessoas! Por isso que vou ao cinema nessas condições, em absoluta tranquilidade. E levo até a família.

Eu, também (Yo, también): diferente como ele mesmo

Cartaz do filme, onde vê-se Lola Duenas e Pablo Pineda sorrindo juntos

“Para que quer ser uma pessoa normal?” Essa é pergunta que Laura, a personagem interpretada por Lola Dueñas, em Yo, también, premiado em 2009 no Festival de Cinema de San Sebastián e ainda inédito no Brasil, faz a Daniel, vivido nas telas pelo espanhol Pablo Pineda. Apaixonado, Daniel vê no apelo à normalidade algo como uma credencial para a concretização de seu desejo de viver integralmente seus próprios desejos. Entretanto é a personagem de Lola quem é desafiada a despir-se de seus preconceitos e aceitar o potencial afetivo dessa relação que une em um extremo uma mulher de meia-idade insatisfeita com a própria vida e, no outro, Daniel, homem que, nascido com a síndrome de Down, luta com ganas por sua emancipação existencial.

Na crítica estrangeira, Yo, también é muitas vezes tratado como se fosse um documentário sobre a deficiência intelectual. Longe disso, é um filme sobre relações humanas, estabelecida entre seres humanos adultos e que buscam sua felicidade e realização em meio ao cotidiano de pessoas comuns. Talvez então fosse mais apropriado classificá-lo entre os filmes de ficção científica, ou você já viu (no cinema ou até mesmo na vida real) pessoas com síndrome de Down sendo retratadas como pessoas adultas e donas do próprio nariz e desejos?

Muito melhor que tudo isso, é um filme divertido, sem ser um filme humorístico ou abusar de apelos cômicos. É divertido porque, como dizem seus diretores, os novatos Antonio Naharro e Álvaro Pastor, na vida é preciso um certo humor, até para poder sobreviver-se a ela. Mas é igualmente dramático na medida em que não abdica de mostrar portas fechadas, desilusões, frustrações ou perdas. O melhor de tudo é que consegue voltar a ser divertido quando mostra a possibilidade vívida de ir-se sempre muito além dos limites sociais e da trivialidade dos preconceitos e dos “nãos” que a vida, em todas as suas formas e estruturas sociais, insistentemente apresenta a quem quer somente o direito de viver a pleno a própria vida.

Trailer do filme

De uma maneira muito própria ao cinema espanhol contemporâneo, no qual as relações afetivas aparecem muito vinculadas ao desejo e à liberdade, seus diretores não procuram um casal com química perfeita, idealizações mesmo que vistos pela lente da “diferença”, mas um choque explosivo de temperamentos no qual o afeto anda de mãos dadas com a angústia, com a incompreensão, mas que é obtido em sua plenitude fora de qualquer clichê costumeiro quando da exposição de pessoas aparentemente “incapacitadas” para a vida afetiva e sexual.

Yo, también exigirá muito da capacidade do público em torcer o nariz diante de relações aparentemente improváveis. Irá incomodar quem pensa que as pessoas têm lugares próprios para existir e o espaço social limitado por abstrações arbitrárias. Surpreenderá aqueles que estão presos a estereótipos e às visões simplistas do ser humano e da deficiência intelectual. De ideias que os reduzem a eternos filhos e crianças, acabando por anulá-los em imagens cristalizadas e condená-los a um mundo ínfimo e sem esperança. Yo, también vai, sem que se possa perceber muito claramente, contar-nos que toda essa representação finalmente está ruindo e que daí não há mais volta. Se há dúvida que isso é possível, assistir o filme poderá ser uma forma simples de perceber o que pessoas como Pablo Pineda e tantas outras estão, pelo mundo afora, fazendo já por suas próprias vidas.

Ator, mas só por um momento

Ao contrário de Lola que, como atriz, já atuou em dois outros filmes, ainda em pós-produção, após Yo, también, Pablo já declarou em entrevista (ver vídeo a seguir) que não pretende voltar a trabalhar como ator. Antes dessa experiência, Pablo já era relativamente conhecido no mundo inteiro por ter sido a primeira pessoa com síndrome de Down, em solo europeu, a lograr um título universitário. Formado em Pedagogia em 1999 e prestes titular-se psicopedagogo, diz que sua participação na produção mudou sua vida, mas queixa-se das perguntas repetitivas dos jornalistas que já o denominaram inclusive de “superdotado”. Dizendo-se uma pessoa realista, Pablo está mais preocupado em lançar novos olhares sobre a síndrome de Down e que, longe de imaginar-se como um ator, prefere ver-se no papel de alguém que luta por oportunidades para as pessoas com deficiência intelectual e que não esquece, por mais holofotes que sejam lançados em sua direção, que esse compromisso diz respeito ao verdadeiro sentido de autonomia individual e responsabilidade coletiva do qual ele dá indícios também na composição de seu papel.

Pablo em entrevista ao programa Cuatro A Raíz

Antes de Pablo, Pascal Duquenne fora premiado em Cannes, por “O Oitavo Dia”

Cena de “O Oitavo Dia”, onde Pascal Duquenne e Daniel Auteuil caminham num campo verde

Treze anos antes da premiação de Yo, también em San Sebastián, em 1996, o belga Pascal Duquenne dividiu com o consagrado ator francês Daniel Auteuil a Palma de Ouro de melhor ator por Le huitième jour (no Brasil, “O Oitavo Dia”), refilmagem de um filme finlandês de 1960. Motivo de grande comoção, O Oitavo Dia estreou a presença de um ator com síndrome de Down representando vigorosamente sua personagem na cena dos festivais internacionais. Foi a primeira vez em que a pessoa com deficiência intelectual era mostrada em grande estilo, em primeiro plano, já não mais como cenário. Ali, entretanto, o tom dramático se fazia bem mais intenso e a personagem vivia como que à deriva, numa situação de abandono que acabaria por levá-la a um desfecho fatal, a despeito de seu “efeito transformador” sobre os outros, principalmente a personagem de Auteuil. Desde então, outros filmes de ficção foram feitos com a presença de atores com síndrome de Down, como o espanhol León y Olvido e o norte-americano My Brother. Igualmente dramáticos e com roteiros muito centrados nos dramas familiares, suas personagens não chegam a transpor as questões de dependência pessoal e focam preferencialmente os aspectos incapacitantes de suas vidas. No mais recente “A Outra Margem”, realização portuguesa de 2007, o tom dramático é amenizado, mas a presença quase-angelical, transformadora dos outros – como em O Oitavo Dia, lança luz a um resgate de dignidade para a vida dos “diferentes”, sejam pessoas com deficiência ou, no caso do filme português, do outro protagonista, um travesti vivido pelo ator Filipe Duarte.

Yo, también não é um filme melhor ou pior que os acima citados, mesmo porque são histórias muito diferentes as aí contadas. O distal entre eles está, entretanto, na proximidade que realiza entre as personagens, como se atravessassem uma ponte que os demais focam à distância ou ignoram por completo. Essa é uma diferença muito importante que não deve ser esquecida. Se os filmes acima podem ser categorizados como filmes sobre a deficiência intelectual, Yo, también deve ficar fora dessa relação e aparecer em uma outra que acaba de inaugurar, como filmes que mostram pessoas e seus desejos, esperanças e dificuldades, entre elas as pessoas com deficiência intelectual. Fora isso, nada de “anormal”. Ainda assim, é um filme diferente. Diferente como ele mesmo. Afinal, não é isso mesmo a diferença?