Darwin e o instinto de simpatia

Durante o tempo em que estive pesquisando e escrevendo sobre a breve vida do bebê Charles Waring Darwin, embora meu foco fosse muito mais o aspecto biográfico que científico, foi inevitável esbarrar nas minuciosas investigações e também nas inúmeras vezes em que os conceitos desenvolvidos por seu pai, o naturalista Charles Darwin, precisaram ser por ele mesmo reavaliados, questionados ou colocados em dúvida. É claro que, por ter sua ciência baseada em sua maior parte na observação direta de fenômenos naturais, isso lhe aconteceu muitas vezes. Esta, aliás, é maior tendência de seus principais biógrafos:privilegiar mais o cientista que o ser humano, mas “ambos” são fascinantes.

Darwin, um conhecedor tanto das características da vida mais minúscula, como a biologia dos menores insetos, quanto dos processos que levaram à extinção grandes mamíferos e outros seres que se situaram por longos tempos no topo da cadeia alimentar, cunhou uma teoria que, como qualquer teoria mal conhecida, resultou ao longo do tempo em enormes simplificações e deturpações. Assim que encontrar por aí a replicação de ideias como “a sobrevivência do mais forte” ou “de quem se adapta melhor” ou de que “prevalecem os que mais colaboram” são das coisas mais corriqueiras que se atribuem falsamente a ele.

No mais das vezes, Darwin não se ocupou das mazelas humanas com o mesmo “método”, digamos assim, com que investigava o mundo natural, replicando para estes sua mecânica sutil e suas ideias principais, embora outros cientistas o pudessem tentar. Estava muito claro para ele que, sob o primado da razão, seria tolice esperar que seres humanos obedecessem tendências inevitáveis como são a maioria das leis biológicas. Quando, cerca de uma década após a divulgação de A Origem das Espécies (1858), movido por essa tentativa, tentou enquadrar os seres humanos e sua complexa evolução em seus parâmetros evolutivos acabou ele mesmo incorrendo neste erro e resultando num livro que mesmo na época quase lhe custou a credibilidade anteriormente conquistada. Embora A Descendência do Homem (1871) tenha especulações pertinentes, seu resultado final não é melhor que uma protoantropologia. Atenua bastante o fato de que o livro possa ter resultado, talvez, de uma pressão social e cultural que se criara em torno do naturalista a respeito de suas opiniões acerca do homem moral de então e de como se chegara até ele. O mesmo não se pode dizer de A expressão das emoções no homem e nos animais, de 1872, fruto mais de seu incansável trabalho de observador do que de especulações.

É dessa época e em razão de suas especulações a respeito do homem e dos antropoides que apareceram nos jornais da época charges que procuravam ridicularizá-lo, como a exibida abaixo, publicada na revista Hornet, em 1871. A bem da verdade, tratava-se bem mais de uma retaliação promovida pelos criacionistas de então à popularização de sua obra do que uma antipatia específica a ele mesmo, que vivia afastado da vida urbana de Londres na época.

Charge de Charles Darwin, na revista Hornet, em 1871

Acontece que Darwin favoreceu imensamente a que surgisse e prosperasse em todo o mundo uma série de ideias que contrastavam as ideias religiosas predominantes, por um lado, e uma pressa em forjar-se uma nova teoria social, por outro. Muitos cientistas e pensadores da época o procuraram para cotejar suas ideias, inclusive Karl Marx, que vivia em Londres na época, teria lhe enviado exemplares de seus livros. Darwin, porém, parece não ter lhe dado muita atenção, bem como fez a muitos outros, inclusive seu primo irmão Francis Galton, o “pai” da eugenia (técnica muitas vezes também erroneamente atribuída a Darwin). Muito depois do frisson inicial de A Origem e ainda depois de sua morte, acabou se popularizando justamente o caráter menos científico de sua obra e mais ideológico, e então o darwinismo, isto é, a livre adaptação de suas ideias para explicar quaisquer fenômenos sociais, tornou-se um febre no mundo inteiro, chegando com força até meados do séc. XX. Isto era bem uma tendência de uma ciência que se refundamentava em poderosos pilares e o conhecimento obtido por Darwin, mesmo deturpado aqui e ali, era justamente um dos mais poderosos entre todos.

A “Árvore da vida” em desenho e anotações de próprio punho de Charles Darwin.

Em minha pesquisa, como mencionei, pouco me ative aos detalhes investigativos de sua trajetória, apenas o fiz indiretamente. Acontece que, em se tratando dele, isso é algo irresistível. Em sua teoria da evolução, ao contrário do que muito se imagina e divulga erroneamente, não é a ideia de preponderância do mais forte que predomina, ou de seleção, mas a das vantagens adaptativas. Grosso modo, significa mais ou menos dizer que as espécies, no caminho evolutivo, perdem ou descartam características que as impedem de prosperar e sobreviver na natureza adversa em prol de outras que a capacitam melhor para tal “luta”. As vantagem adaptativas, pode-se resumir assim, significam aqueles potenciais biológicos que capacitam uma espécie para a sobrevivência. No caso dos seres humanos, obviamente a consciência e a razão decorrente são suas maiores vantagens adaptativas, embora seja preciso sempre considerar um mau uso eventual em tais capacidades.

Para mim, que pesquisava a possibilidade do bebê Charles Waring, seu décimo filho, ter nascido com o que hoje se conhece como a síndrome de Down e das implicações disso em sua vida familiar (e científica também, porque sua vida era inteiramente devotada a isto), muitas, inúmeras vezes precisei parar de escrever ou ler e tentar imaginar, como se através das janelas do seu estúdio em Down House, o que lhe passava em mente ao ver em sua própria casa o que poderia ser tanto a expressão tresloucada da consanguinidade (Darwin era casado com uma prima, Emma) quanto alguém que, para estar ali, poderia representar, talvez, a prevalência de uma inusitada expressão adaptativa. Não é possível saber o que Darwin pode recolher a esse respeito uma vez que os registros são poucos e ele uma pessoa sabidamente atormentada pelos efeitos da doença, que ceifara-lhe dois de seus filhos anteriormente.

Se hoje, num mundo que tem escolhido suprimir de antemão o nascimento de pessoas com síndrome de Down a uma razão de 90% na Europa, por exemplo, o bebê Charles Waring teria chegado a nascer é algo que não se poderá nunca saber. Talvez Darwin fosse hoje um entusiasta das mais modernas técnicas de rastreamento e edição genética, eu não sei. Mas talvez fosse ainda o mesmo ser humano antiquado que, em sua viagem ao Brasil, horrorizou-se com o tratamento dispensado aos escravos no Brasil Império e que, naquele livro cheio de especulações arriscadas, A Descendência do Homem, tivesse pensado que a grande vantagem adaptativa do homem fosse, afinal, a nobreza da razão, a aplicação imediata do instinto de simpatia, embora nunca tenhamos sido tão pragmáticos, intolerantes (ou insuportáveis) na nossa breve história coletiva sobre o planeta. Eu pessoalmente prefiro crer mais nesse caráter humano de Darwin do que qualquer outro aspecto de sua inegável genialidade científica.

“A ajuda na qual somos impelidos a dar aos necessitados é principalmente um resultado incidental dos instintos de simpatia, que foi originado como parte dos instintos sociais, mas que foi subsequentemente aprimorado, como visto antes, a ser mais amigável e mais amplo. Jamais poderíamos abandonar a simpatia, mesmo aos maiores apelos da razão, sem deteriorar a parte mais nobre da nossa natureza. Um cirurgião pode hesitar enquanto perfaz uma operação, porque ele sabe que está agindo para o bem do seu paciente; mas se intencionalmente negligenciamos os fracos e necessitados, seria apenas por um beneficio contingente, junto com um enorme mal em troca.” Darwin, Charles. A descendência do homem e seleção em relação ao sexo. Londres, 1871.

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Down House, 1858: o inquérito de Arthur

Hoje me inscrevi na 2ª edição do Prêmio Kindle de Literatura, concorrendo com uma pequena novela histórico-biográfica sobre a qual me debrucei nos últimos 5 anos, mais ou menos, isso desde que comecei a pesquisar até sua conclusão. Chama-se “Down House, 1858: o inquérito de Arthur”.

Não é todo mundo que sabe que o décimo filho do naturalista inglês Charles Darwin tenha nascido com uma deficiência, provavelmente a síndrome de Down (e isso antes mesmo de que ela fosse descrita pela ciência). Embora ainda hoje haja algumas dúvidas em relação a esse diagnóstico, depois de conhecer a imagem de um daguerreótipo em que Emma Darwin aparece com o filho em seu colo e outros documentos e relatos, para mim ficou quase certo que realmente esta era a condição do bebê Charles Waring. O bebê Charlie morreu aos 18 meses de vida, justamente em meio à primeira divulgação de A Orígem das Espécies, em 1858, um período muito tumultuado na vida familiar dos Darwin.

Desde que vi aquela imagem, fui tomado de uma curiosidade que foi virando obstinação. Queria entender mais e mais a situação daquele bebê e, em decorrência disso, fui tomando conhecimento da biografia disponível a respeito de Darwin e de sua família, bem como da sua documentação, da ambientação histórica da Inglaterra naqueles dias e, sobretudo, do impacto emocional que o nascimento e a condição do bebê tiveram sobre sua família e, possivelmente, também sobre alguns de seus objetos de investigação. Como encontrei uma documentação lacunar em muitos aspectos biográficos, aos poucos fui mentalmente preenchendo estas lacunas a partir de situações reais, biográficas e documentadas com outras ficcionais, depois que consegui encontrar (talvez, isso nunca se sabe) uma voz narrativa competente.

Foi muito difícil para mim superar a primeira parte desta escrita porque me decidi começar pela parte mais difícil: a situação de falecimento do bebê. Depois desse primeiro momento, me dediquei a intensificar a pesquisa para só depois reorganizar o roteiro que imaginara e retomá-lo, refazendo-o a cada vez que me deparava com algum elemento que poderia integrar a narrativa. Este foi o processo mais custoso, porque precisei rever e rever e rever muitas vezes o texto, a fim de tentar torná-lo crível a partir do ponto de vista pelo qual optei.

Isso tudo e um pouco mais eu procurei explicar no prólogo do livro. Acho que são dúvidas que estão abordadas com a seriedade que se espera ao tratar da biografia (embora o livro seja ficção biográfica) de uma das pessoas mais decisivas na história da ciência e da humanidade. Assim espero eu, pelo menos.

Minha decisão em inscrever a novela nesta premiação se deve ao fato de que preciso, quero e sinto necessidade de retirar isso das minhas gavetas e achei a oportunidade interessante, mas sobretudo porque me permitiu finalmente tornar isso tudo público, de alguma forma. Minha paciência para lidar com o ramo editorial não é das maiores e então, de certa forma, a oportunidade me serviu para dar uma primeira forma ao livro, na forma exigida pelo concurso. Depois, se premiado ou não, vou tentar ver – se o livro sobreviver ao impacto que ele mesmo causa – se encontro outra forma de publicá-lo. Isso ainda não sei como será. Se premiado, ele sai pela Ed. Nova Fronteira, parceira da Amazon no certame, o que não seria nada ruim…

Então é isto. Quem desejar conhecer a minha versão ficcional (importante dizer isso pela terceira vez) da breve vida do bebê Charles Waring e de seu significado humano na vida de um dos maiores gênios da humanidade e de sua família, basta acessar o link abaixo e adquirir o livro na sua versão digital (infelizmente os patrocinadores não permitem que se inscreva na versão impressa). É possível lê-lo a partir do aparelho Kindle e das apps disponíveis para praticamente todas as plataforma digitais. O preço que coloquei foi o menor possível (mas era obrigatório colocá-lo), porque o objetivo do concurso é promover a plataforma e então ocorre inteiramente sob ela. Assinantes do Kindle Unlimited podem ler sem custo algum.

Se, após a leitura, desejarem qualificar o livro, acho que isso talvez pode ajudar a aumentar suas chances, eu não sei. Trata-se de um concurso aberto, sem uso de pseudônimo, então não entendo direito como isso pode afetar a avaliação. A mim interessou escrever essa história e o fiz com devoção ao tema e com o máximo de respeito e fidedignidade que pude. Tenho certo que há muitas limitações na abordagem que consegui, mas garanto que não há má-fé nem o desejo de explorar indevidamente a imagem de quem quer seja. Se resultará num livro aproveitável, isso não sou eu quem decide. Se alguém gostar e quiser ajudar a divulgar eu só posso agradecer a gentileza.

E antes que perguntem se é um acaso que o divulgue no dia dos pais, não é mesmo. De um gênio como Darwin, a honradez de sua percepção e do acolhimento para o bebê Charles Waring, assim como sua família toda, em 1858, repito, 1858, nada disso é casual. Descobrir e trabalhar nisso foi, de fato, impressionante e bastante emocionante para mim, além de ser uma aventura que eu compararia, talvez, a do Beagle…

Por fim, mas por fim mesmo, queria dizer que sei bem o quanto gênero “romance histórico” é bastante contestado tanto na literatura quanto nos estudos históricos. Há quem o considere um tipo de evasão ou uma tentativa de forjar-se fatos históricos com pseudoliteratura. Tudo isso é possível, mas nada disso foi suficiente para me fazer abandonar a ideia (outras coisas quase conseguiram). Para mim, o que aconteceu ontem já é história e não acredito em literatura sobre o presente contínuo, então não dou muita atenção a isso. Também não sou escritor profissional que venha fazendo ou queira fazer disso um ramo comercial, então estou muito tranquilo, até porque hoje estou me dedicando a projetos muito diferentes deste. Fiz porque a história me chamou e eu senti que podia interagir literariamente com ela e que o faria com o máximo de decência possível. Agora, já é sem volta. Minha parte está pronta. É bom dizer que isso já não é mais comigo…

A música que não vibra

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Há algum tempo atrás li, em algum lugar, que o naturalista inglês Charles Darwin não gostava de música. Não é que não gostasse, é que sua mente aparentemente não apreciava o gozo estético da música. Parece que ele sentia o mesmo em relação à pintura. Não podia ou não sabia como julgar o valor estético de uma obra de arte, embora pudesse observar, compreender e descrever os fenômenos biológicos de uma maneira absoluta, razão pela qual figura sabidamente entre os grandes gênios científicos da humanidade. Um gênio irrefutável e, mesmo assim, aparentemente intocado pelo prazer da percepção musical. Consta que, a despeito disso, sua esposa Emma tenha sido excelente pianista, aluna de Frédéric Chopin e por este inclusive elogiada em razão de sua técnica. Imagino que Darwin tenha sido um amante paciencioso, pois através de algumas biografias também pode saber-se que ele não se furtava ao serões de Mrs Emma. Bem, as especulações param por aqui.

Outro pilar da modernidade, o austríaco Sigmund Freud, parecia sentir o mesmo sobre a primeira das artes. Em O Moisés de Michelangelo, ele diz: “com a música sou quase incapaz de obter qualquer prazer” para, em seguida, talvez explicar as razões disso acontecer (quem sabe explicando também o que acontece a Darwin): “Uma inclinação mental em mim, racionalista ou talvez analítica, revolta-se contra o fato de comover-me com uma coisa sem saber porque sou assim afetado e o que é que me afeta.”

Na minha vida, conheci pessoas com graus diferentes de sensibilidade musical. Desde prodígios infantis a pessoas praticamente indiferentes às composições sonoras, sem falar nas completamente ineptas aos instrumentos musicais. Não sei se terá a uns faltado o estímulo que chegou a outros, mas o fato é que talvez a sensibilidade musical tenha um fundo neurológico que se desenvolve de forma diferenciada nas pessoas. Ou então se desenvolva em algumas pessoas a assim chamada “amusia” que corresponderia, no campo da neurociência, à perda total das funções musicais pelo indivíduo. Através da neurociênica sabe-se também que, ao contrário de outras funções cerebrais, a musicalidade não está ligada a nenhum campo específico do cérebro, mas a muitos campos simultaneamente, o que dificulta ainda mais a compreensão sobre o assunto.

Há outros fenômenos sobre a musicalidade e o indivíduo que me chamam bastante a atenção também. Aquelas pessoas que, por exemplo, têm uma relação utilitarista com a música e usam-na como um tipo de terapia particular. Pessoas que gostam de gêneros musiciais seletivamente ou que são radicalmente refratárias a determinados estilos. Não são poucas as pessoas que se recusam a ouvir qualquer melodia mais lenta que classificam-na imediatamente como “música depressiva”. Conheci pessoas que apenas toleravam o estilo de “música ambiente”, que parece ser de um tipo que não lhes afeta o humor. E outros que apenas escutavam “músicas positivas”, com efeito motivacional ou grandiloquente. E ainda pessoas que vinculam a música exclusivamente ao gesto e prática da dança.

No livro Alucinações Musicais, o neurologista e escritor Oliver Sacks conta situações incríveis envolvendo a música e os seres humanos. A que mais me chamou a atenção foi a de que pacientes com Alzheimer, de um forma ainda desconhecida, mantêm preservada a memória musical e que inclusive o aprendizado de um instrumento, mesmo tardiamente, ajudaria a retardar o próprio desenvolvimento da moléstia. O uso terapêutico da música com animais e vegetais também parece ter algum tipo de efeito comprovado através de observações científicas. Vacas que ouvem Mozart produziriam mais leite na ordenha e alfaces tirariam mais proveito da fotossíntese se submetidas a “audições”. Coisas da natureza.

Lembro ainda hoje do quanto me espantei ao descobrir que mesmo um instrumento percussivo, como a bateria, possui uma escrita musical que pode ser transcrita em uma partitura. Mesmo que os instrumentos percussivos pareçam ter a única função de sustentação rítmica, produzem sonoridades diversas que operam em uma frequência vibratória escalonável, razão pela qual podem ser “escritos” conforme a linguagem musical. Provavelmente os instrumentos percussivos foram os primeiros criados pelo homem, embora os vestígios de rudimentares instrumentos de sopro tenham sido também encontrados em diversos sítios arqueológicos. Boa parte dos instrumentos modernos, com exceção dos elétricos, derivam de certa maneira da atividade percussiva, mesmo que de forma indireta, como no caso do piano, cujas cordas são acionadas mecanicamente.

De toda a maneira, a música é sempre o resultado da vibração das ondas sonoras e de sua harmonização (ou não, como querem os cacofônicos). Diferentes culturas têm características bem específicas em relação à composição musical e até mesmo sobre peculiaridades sonoras. Instrumentos exóticos como a cítara indiana e outros quase inconcebíveis são capazes de gerar sonoridades tonais fracionadas, os chamados semitons, que não podem sequer serem transcritos para escrita musical ocidental. Parece ser o mesmo tipo de frequência sonora que se encontra na música vocal tradicional de países do oriente médio, não por acaso hipnotizante.

Seja como fonte de enlevo, transe, euforia ou mero deleite, a música acompanha o homem desde eras remotas e é provável que acompanhe até o final de nossa experiência terrena. Diante de um predomínio tecnológico sem precedentes na história, é natural que ela cada vez mais receba daí um aporte relevante. Desde a década de 1960 isso vem acontecendo, na verdade. Que uns prefiram as guitarras e instrumentos eletrificados aos samplers digitais ou estes aos instrumentos acústicos mais tradicionais, tudo isso é bem compreensível. O difícil de compreender continua sendo a misteriosa conexão que a música faz com o pensamento e com a sensorialidade humana, chegando a anular-se em alguns casos e, em outros, gerando elaborações de extrema complexidade, como a capacidade de improvisação jazzística, por exemplo, sem entrar no mérito de Beethoven e outros compositores e instrumentisas acometidos pela surdez. De qualquer forma, mesmo que se trate de capacidade desenvolvida através da aprendizagem, sempre soará como um tipo de magia ou, como bem afirmou Schopennhauer, um tipo especial de exercício inconsciente da metafísica, “no qual o espírito não sabe que está a fazer filosofia”.