Livros de viagem

Em 1910, muito antes que os primeiros youtubers e coaches literários pisassem sobre a terra, Robert Musil tinha os nervos quase em colapso após uma experiência que transcreveu mais tarde para o seu O homem sem qualidades. No que no livro ele chama de “hospício de livros”, Musil viveu a experiência real de ser um dos bibliotecários da Universidade Técnica de Viena, cargo obtido após o sucesso do biográfico O jovem Törless. Segundo seus biógrafos, parece que lá ele projetava ter o sossego necessário para desenvolver seus posteriores projetos literários. O trabalho, no entanto, acabou revelando-se exasperante em vista da segunda explosão bibliográfica ocorrida logo após a Revolução Industrial (a primeira ocorreu no séc. XVII com a popularização da prensa). Lendas contam que ele redigiu as mais de mil páginas de O homem sem qualidades também como vingança pela extenuante experiência laboral catalográfica na “bibliografia das bibliografias”.

Mais de um século após, e com a sobreposição da revolução tecnológica (sem que a industrial tenha jamais pausado), pense-se no quão exasperante pode ser a um ser humano dotado de apenas um cérebro e uma vida indicar, que seja, apenas um livro a alguém, não interessa quem. É uma tarefa efetivamente impossível e, dada a recente compulsão por listas de recomendações, às vezes parece que estamos todos a tentar compilar a “lista das listas” como se esta fosse a finalidade em si mesma da leitura ou, como em Musil, a única leitura possível.

Objetivamente, tudo se resume ao critério da ignorância, ou seja, todos reconhecem que é humanamente impossível ler todos os livros ou ter absoluta certeza de que o próximo da lista, qualquer que seja ela, não pudesse ser muito superior ao precedente. Como solução para o impasse que vem desde Alexandria, literatos costumam valer-se de recomendações canônicas enquanto que leitores comuns, por outro lado, parecem mesmo tentados a cada vez mais procurar outras fontes de lazer. É pelo menos o que tem demonstrado os achados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada numa parceria entre o IBOPE e o Instituto Pró-Livro e que deve ser reeditada no ano de 2020.

Nessa dissociação, todavia, todos conseguem decodificar rapidamente os males que se refletem na vida de cada um decorrentes da deterioração do hábito de leitura. Não raro se aponta que muitas dificuldades do mundo contemporâneo também possam ter alguma relação com as capacidades intelectivas obtidas (ou perdidas) pelo hábito e, especialmente de ficção e poesia, cujo efeito já foi equiparado por neurocientistas a terapias que retardariam o declínio das funções cognitivas e poderia ajudar a prevenir inclusive condições como ansiedade e depressão. Seja na aquisição de capital cultural ou no aprimoramento das capacidades interpretativas, também dificilmente alguém se oporia à ideia de que estimular a leitura é condição fundamental para a melhoria de toda a vida social. A constatação é das mais banais. Enfrentá-la é que são elas.

Uma das perspectivas em evidência obedece à lógica que o sociólogo francês Pierre Bourdieu denominou em seus livros por “distintiva”. Quase toda ela reside na vantagem social e simbólica decorrente do acúmulo de capital cultural, mesmo desconsiderando variáveis perspectivistas. Embora pareça ser a preferência entre literatos e adictos, não raro os leitores comuns a interpretam como afetação e objetificação, portanto há que se ponderar em seu uso com objetivos de convencimento. Em tempos de guerras culturais, a perspectiva compete muitas vezes mais na autoafirmação pessoal que num efetivo interesse de disseminação do hábito. E, considerando-se que a interpretação costuma ser a primeira baixa e a mútua incompreensão a principal moeda corrente das comunicações digitais, é relevante pelo menos que se tenha ciência dos limites “pedagógicos” interpessoais, mesmo em face dos melhores objetivos.

Outra perspectiva em questão, bibliófila, trata de um estímulo positivo e direcionado à difusão do hábito de leitura, revalorização das bibliotecas em detrimento da tecnologia e iniciativas mais convidativas que pedagógicas. Nos últimos tempos, talvez ninguém como o argentino Alberto Manguel, atual presidente da Biblioteca Nacional Argentina (cargo já ocupado por Jorge Luis Borges), encarne o papel de divulgador literário, principalmente depois da morte de Umberto Eco.

Uma ideia defendida por ele, de que muitas vezes os livros ensinam mais dos lugares e culturas remotas do que até mesmo podem fazer as viagens, pode servir de consolo para quem, em tempos difíceis, sequer pode viajar a lazer. Mas o que ele deseja dizer é que a espécie de viagem que sobretudo a leitura ficcional permite fazer é muito diferente da que é disponível em sua forma consumista.  Ou seja, viajar “estando” num outro mundo, não apenas “visitando-o” e “reportando-o”. Desse modo, e contrariando a tendência predominante que nos condena a estar na mesma posição em qualquer lugar, ou seja, consultando um smartphone, a leitura de ficção pode efetivamente transportar a mente, principalmente se por meio de histórias interessantes e, melhor de tudo, ciceroneada por pessoas habilidosas como são os bons escritores.

Por outro lado, é preciso lembrar que a leitura de literatura e ficção é apenas parte do conjunto de livros que há para ler e se o declínio do hábito de leitura se deve às exigências culturais cada vez mais indisponíveis, não se pode esquecer também do principal vilão evocado quando o brasileiro dá a conhecer sua média de três livros por ano: o tempo. Ao lado da irrefutável imensidão de oferta de títulos, é preciso igualmente usar de honestidade ao admitir a prevalência de outras leituras e fontes de lazer. Tudo a competir com o tempo e com as escolhas de cada um em gastá-lo.

Já o mundo não é o mesmo do crítico Émile Faguet, que recomendava que, para aprender a ler, “é preciso ler bem devagar, e em seguida é preciso ler bem devagar e, sempre, até o último livro que tiver a honra de ter sido lido por você, será preciso ler bem devagar”. No país que mais usa ansiolíticos no mundo, convenhamos que é uma recomendação para lá de inquietante. Embora o prazer da leitura venha sendo nitidamente substituído por outros prazeres e compulsões, talvez seja possível um exercício justamente de tempo para levar a efeito uma atividade que inicialmente possa ser assombrosa como, por exemplo, a leitura das mil e tantas páginas de O homem sem qualidades – ou qualquer outro livro.

Nesse exercício, é desnecessário realizar uma equação das recomendações de fim de ano das pessoas mais respeitáveis do ramo. Recomendável também ignorar as listas de mais vendidos ou livros premiados. E, mais importante que decidir por comprar, por tomar emprestado de um amigo ou de uma biblioteca ou mesmo de livros já lidos e relidos, importa aproveitar qualquer livro como passaporte para uma viagem na qual lhe podem acompanhar as mentes mais imaginativas e poéticas com que o mundo já contou, em direção a lugares do mundo que nunca se tenha pisado antes ou mesmo que já não existam mais, quer seja num país distante ou no bairro ao lado. Este privilégio impagável de tomar parte nos dramas e alegrias humanas requer o sacrifício de penhorar, quando possível, apenas o tempo que mais tarde seria lamentado como perdido.

O leitor como metáfora (e realidade)

De década em década, o argentino naturalizado canadense Alberto Manguel refaz do seu principal objeto de estudo: a história da leitura e dos livros. No final de 2017, foi a vez das Edições SESC engrossarem sua bibliografia brasileira com a publicação de O leitor como metáfora.

Autor de dezenas de títulos, dentre os quais os já clássicos A história da leitura (1996) e A biblioteca à noite (2006), Manguel, que em 2016 voltou a Buenos Aires para dirigir a Biblioteca Nacional da Argentina, empreende em seu mais recente livro uma criteriosa investigação taxonômica a respeito dos leitores. Mesmo que possa tratar-se de modelos ideais, ou protótipos, é de pensar se seu objetivo não seria justamente identificar as pessoas potenciais com que atingir tanto através de suas obras quanto por sua atuação a frente da prestigiosa instituição. Seja como for, é bastante provável que ele se valha muitas vezes de sua própria experiência como leitor para uma das mais antigas tarefas que se realiza em bibliotecas: a classificação.

Na proposta de seu ensaio, basicamente o que se distinguiria são três espécies de leitores. Como expresso com muita clareza no título, haveria por primeiro o leitor viajante, ou seja, aquele que porta e deixa-se levar pela silenciosa aventura livresca; os que buscam o isolamento mundano e o conhecimento através da leitura (os ocupantes da torre); os que devoram (e porventura por eles são devorados) livros com avidez indiscriminada e que não poderiam ter denominação diversa de “traças”.

Embora simples, a taxonomia de Manguel tem o apuro de um leitor dos mais experimentados. Ao invés de uma proposição meramente literária ou historicista, Manguel vai organizando, das tradições literárias, as metáforas e significações que o ato de ler revela da relação do humano com o mundo; ao menos em sua experiência, não haveria interpretação do mundo sem leitura e por essa razão o ato de ler espelharia as próprias capacidades interpretativas dos indivíduos. Mas, se serve de advertência, é provável que quem buscar encontrar em seu livro apenas laivos de uma erudição afetada será, entre os leitores, o que mais se frustrará. As citações de Manguel também não obedecem a nem uma espécie de crivo acadêmico e dizem mais respeito aos encontros que escritores e leitores parecem operar durante a experiência de leitura mesmo que séculos após a morte dos primeiros; mesmo que os meios para tanto não sejam necessariamente o do texto impresso. A felicidade da leitura e de seu “ofício”, para Manguel, estaria mais relacionada ao empenho e enlevo que o leitor desenvolve pelos livros a partir do efeito da leitura do que por qualquer culto material do objeto livro.

Transportando as suas diferentes “espécies” de leitores através dos tempos, ele vai dessa forma dirigindo os leitores às suas respectivas metáforas; em determinado momento chega a parecer que deseja mesmo encaminhar os leitores de encontro aos autores que vai identificando em sua taxonomia. Remetendo-se desde a antiguidade sumeriana, através da epopeia cuneiforme de Gilgamesh, passando pelos manuscritos de Dante, os códices de Leonardo e chegando aos já impressos Shakespeare, Cervantes e Montaigne, Manguel avança em direção ao séc. XX ao mesmo tempo em que regressa livremente a autores de todas as épocas, sempre que um autor possa lhe servir na exemplificação das muitas formas de existir no mundo, de comportar-se nele e também de recriar continuamente a experiência da vida, esta que seria a tarefa inadvertida dos escritores de todos os tempos e culturas.

Ao passo em que pode ser percebido tanto quanto uma continuidade de sua permanente exortação à leitura, para leitores menos experientes, todavia, seu livro pode ter um efeito, digamos, acachapante. Ou como poderiam sentir-se leitores inexperientes diante de um desfile intermitente de nomes, títulos e citações? Dotado de um conhecimento que se poderia denominar por enciclopédico e não fossem escritos sem o menor traço de pedantismo, seus livros poderiam muito bem ser tomados como proselitismo cultural ou fútil ostentação. Porém não é disto que se trata; longe disso.

Antes de qualquer coisa, é preciso saber que se trata de um autor cuja principal preocupação é a difusão do hábito da leitura e, a menos que se tenha inventado alguma espécie de malabarismo telepático, parece totalmente impossível a qualquer um a tentativa de advogar em nome dos livros sem mencioná-los. Além disso, em sua gestão na Biblioteca Nacional da Argentina, notadamente Manguel vem investindo em todas as frentes: na conservação de originais, na expansão de coleções, na digitalização e difusão intermidiática e na promoção e atração de novos leitores. Em entrevista concedida ao portal Perfil, logo ao assumir o cargo ele já afirmava desejar perseguir a ideia de uma biblioteca para todos os leitores e interessados. Parece que a ideia borgeana de uma biblioteca universal, pelo menos em solo argentino, encontrou finalmente quem a desejasse continuar.

Não é à toa. Enquanto ao mesmo tempo abandonava a instrução formal da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, por considerar os estudos formais aborrecidos, o diletante Manguel iniciava sua carreira literária concomitantemente a de editor. Em meados da década de 60, tornara-se “ledor” de um Jorge Luis Borges já cego e que coincidentemente dirigia a Biblioteca Nacional da Argentina na mesma época; desse encontro é como se houvesse estabelecido para ele um encantamento pela literatura e, sobretudo, pela leitura enquanto hábito individual. Sua formação, completada pelo trabalho como jornalista e editor, é a de quem erigiu uma carreira viajando através de vários países e investigando incessantemente a história literária. É muito provável, portanto, que Manguel tenha desenvolvido a taxonomia do seu novo livro também a partir da auto-observação.

Quanto ao que se refere ao desejo de fomentar a curiosidade nos demais, este parece ser um hábito comum entre os bibliófilos de um modo geral. Porém, como parece ser recorrente a quem tem por missão institucional propagar o livro e a leitura, um impasse oculto às vezes mostra suas sombras em seu livro. Trata-se da irresolução peremptória da efetividade de qualquer política cultural voltada ao assunto e expressa na dicotomia estabelecida entre, por um lado, a popularização do hábito da leitura e, por outro, a especialização do público leitor.

Provavelmente por ser um autor prolífico e a primeira vez que Manguel está atuando institucionalmente (e logo na mesma biblioteca que Borges dirigiu), outras reflexões a respeito do assunto deverão advir da experiência. Isso no que toca aos interessados no assunto deverá ser um deleite por si só, ainda mais que, após a morte de Umberto Eco, há cada vez mais poucos autores notabilizados pela devoção e divulgação da cultura livresca universal quanto Manguel. Há com certeza os historiadores que se dedicaram ao tema, como Roger Chartier e Robert Darnton, mas em ambas as investidas historiográficas o que se mais pode notar são preocupações que giram em torno de explicar a evolução da tecnicidade da instrumentação escrita, sua reprodutibilidade, análises sobre o colapso do espaço físico das bibliotecas, a expansão contínua dos formatos digitais e a segurança e conservação do conhecimento em vista ao desenvolvimento das tecnologias da informação.

Sem dúvida que todas as preocupações e iniciativas em utilizar beneficamente os recursos tecnológicos são bem vindas e necessários, mas em absoluto não é este o centro das inquietações de Manguel. Para ele, interessa mais seduzir e cativar ao leitor do que porventura ele possa estar perdendo do que condená-lo à danação da ignorância, como, aliás, convém a um bibliotecário proceder. De todo o modo, não se imagine que equilibrar uma equação dessa natureza é tarefa fácil do ponto de vista da gestão cultural de acervos bibliográficos. O que não parece faltar em Manguel, todavia, é o cimento de não desviar-se de um trabalho de lenta e muitas vezes invisível consolidação dos espaços afetivos e também físicos com que uma sociedade se relaciona com a cultura letrada, que parece cada vez mais dispensar de quem a organize, valorize e promova.

Seja como for, na vizinha Argentina ou aqui mesmo, no Brasil, as dificuldades são inumeráveis e o cenário educacional e cultural um tanto quanto amedrontador. Não são comparáveis, portanto, aos moinhos do Quixote, os desafios de quem propugna por valorizar os livros e a leitura. Neste caso, os gigantes podem ser compreendidos em dados obtidos regularmente através de pesquisas e levantamentos que se fazem em todo o mundo, inclusive no Brasil.

No Brasil, quanto e como se lê?

Dos indicadores e estatísticas a respeito do Brasil contemporâneo, poucos soam tão assustadores quanto os dados sobre proficiência em leitura levantados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Banco Mundial através do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa).

No relatório, pode-se saber entre outras coisas que no que diz respeito à eficiência com que um texto escrito é interpretado, o Brasil mantém-se estável desde 2006, mas com indicadores mais distantes da média dos demais países aferidos e, por outro lado, mais próximos das piores taxas, além de projetar uma defasagem em relação aos países desenvolvidos que se resolveria em séculos ainda (cerca de 256 anos). Unindo-se os resultados aos de outras pesquisas, como a Retratos da Leitura no Brasil, promovida pelo Instituto Pró-Livro e realizada pelo IBOPE, a sensação é de premência de uma calamidade. Trata-se, porém, de uma calamidade silenciosa e que ao longo do tempo tem ensurdecido autoridades, editores, educadores, bibliotecários, autores e também o público leitor.

De que se trata de uma situação complexa quase ninguém duvida e não raro as manchetes dos periódicos triunfam com os maus indicadores brasileiros. O caminho da resignação, sempre o menos escarpado, todavia parece sempre conduzir a um senso de conformidade reincidente. Ajuda menos ainda a combalida autoestima nacional a também reincidente comparação com os dados de leitura da vizinha Argentina. Ainda que a afirmação de que apenas Buenos Aires (ou, num arroubo platino, apenas a Calle Corrientes) pudesse ter mais livrarias do que o Brasil inteiro seja fantasiosa, dados da Market Research World, no assim denominado Índice de Cultura Mundial, informam que, apesar da veracidade comparativa, o país vizinho também não anda fazendo um retrato dos mais excepcionais.

O que se sabe definitivamente é que, de fato, a situação da leitura é grave e afeta o desempenho cognitivo e cultural de toda a sociedade e de muitos países. Uma vez que o possível amparo da resignação mostra-se incapaz de recolocar em movimento a dinâmica e complexa relação entre a cultura letrada e uma população que ainda deveria ser mais e melhor estimulada a relacionar-se com o livro e os bens culturais literários, o que se pode antever é muito trabalho coletivo pela frente e a necessidade de reflexões ponderadas tanto no que confere ao sistema educacional quanto ao literário.

O cada vez mais difícil de contestar é o fato de que o impasse que a crescente expansão tecnológica deveria colocar entre leitor e leitura vem na realidade esgarçando-se cada vez mais. Não se trata de imaginar que isoladamente e sem projetos consistentes o emprego dos recursos tecnológicos resolverá a situação. Conforme os mesmos dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o constatável é um decréscimo constante do tempo dedicado à leitura (24% entre a preferência total) em comparação ao incremento do uso individual da internet (47% entre a preferência total).

Nos ensaios e artigos que publicou na imprensa a respeito das questões da escrita e do livro reunidos no livro Papel-Máquina, de 2001, o filósofo franco-magrebino Jacques Derrida veio reforçar sua ideia visionária de 1969, em Gramatologia, quando afirmou que desde aquela época o leitor passava a exercer papel imperativo em relação aos meios e suportes de leitura. Derrida, apesar de ter sido a princípio mais um dos estudiosos a denunciar o “fim do livro”, teve a prudência de ponderar igualmente pela infinitude desse processo. Resta entender se a isso convém chamar de impasse ou paradoxo e aguardar por que outros estudiosos venham também refletir a respeito, afinal trata-se de tema de interesse permanente e universal.

De um modo muitas vezes reducionista, boa parte das análises a respeito da vereda tecnológica e da sobrevivência do livro e do texto literário têm, desde o início do novo século, refletido por vezes mais das apreensões individuais do que uma observação mais apurada do contexto cultural amplo senso. Se na história da civilização certa vez a leitura ocupou papel central na formação cultural e de identidade das nações, de fato é preciso admitir que a tecnologia expandiu boa parte dos limites e cerceamentos que havia até meados do séc. XX. Se já foi o veículo de informação por excelência, fonte de entretenimento e suporte privilegiado de comunicação dos bens culturais, hodiernamente a leitura parece-se mais ao substrato multitudinário de uma gama imensa de informações que o veículo de um determinado cânone literário.

A esse ponto, verificar a inundação de livros (e livros nem sempre são obras, como adverte Derrida) e outros formatos de informação é tarefa de facílima constatação. Se a literatura, de fato, vem convertendo-se em testemunhos autorais de um interesse ao mesmo tempo segmentado e restrito e se há como ainda hoje vivificar o interesse de novas gerações por um mundo distante ou por um passado remoto, livros como os de Manguel, usando aqui de metáfora, parecem-se a faróis avulsos de um mundo mais profundo, instigante e enriquecedor que a leitura criteriosa certamente ainda dá a desvendar às pessoas. Pois a prevalência do livro agora possivelmente esteja mais relacionada a uma necessária recuperação e valoração da leitura propriamente dita do que uma substituição de técnicas e formatos. A falta de tempo, justificativa reiterada pelos desinteressados contumazes na leitura, não é furto que se flagre ou perda que aconteça isoladamente, mas a perda (tanto para pessoas quanto para instituições) é lamentavelmente irreparável e o tempo, como se sabe, brevíssimo.

O e-book de areia

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Ao contrário da maioria dos grandes autores da ficção científica, minhas distopias têm curtíssimo alcance. Quase nunca sequer extrapolam as fronteiras do pensamento fantasioso. Não tenho imaginação suficiente ou conhecimento eletromecânico para engendrar parafernálias esdrúxulas ou conceber formas inomináveis de vida. Minhas distopias comumente são rasas e seu horizonte é breve. Na melhor das hipóteses, alguns anos. Na pior, alguns meses ou até mesmo semanas. Na verdade, mal posso imaginar o que possa acontecer amanhã na rua onde moro, que dirá na imensidão cósmica no próximo século ou milênio.

O certo é que amanhã deverá ser um dia mais ou menos como hoje. Até onde sei, não há previsão de nem um salto tecnológico em vista ou de descobertas científicas que se processem em 24 horas ou menos. Por isso, é com alguma segurança que se pode afirmar que o que hoje vigora no mundo real amanhã e na próxima semana continuará a vigorar. No caso específico do livro impresso em papel, há pelo menos 500 anos de garantia e certificação no produto, ao passo que, em relação à alternativa digital, nem mesmo os maiores especuladores futuristas podem imaginar ou prever sua durabilidade. Antecipando-se a eles, o mercado editorial livreiro – estimulado sobretudo pela disseminação massiva de dispositivos digitais portáteis – vem ensaiando alguns passos em direção ao que muitos dizem ser o futuro inadiável, inexorável, incontrolável, etc.

Para confundir ainda mais o cenário, um dos principais interessados no assunto, o semiólogo e escritor Umberto Eco, que publicou em 2000 junto ao cineasta Jean-Claude Carrière o sugestivo livro de entrevistas “Não contem com o fim do livro” veio, cerca de dez anos depois, desdizer-se publicamente em entrevista concedida à revista Época. Mesmo não tendo dito que agora se deveria contar, pelo contrário, com o fim do livro, ele relata ter cedido à leitura – e achou ótimo fazê-la – na tela do seu iPad. Mas alertou que esse seria apenas um tipo de leitura de distração, não de estudo. E que, para este último efeito, isso requeriria obrigatoriamente a possibilidade de rabiscar, negritar e grafar diretamente no papel. Bem, desde essa entrevista, é possível que Eco tenha mudado novamente de opinião. Talvez um novo livro venha por aí para explicar suas razões e preferências atuais. Nesse caso, partindo de sua própria concepção, um e-book seria o suficiente, porque este seria então apenas um segundo livro de distrações sobre o assunto.

Outro argumento de que os futurólogos costumam valer-se diz respeito aos números de vendas e estatísticas comerciais, como se fossem indicadores de outras coisas que não números de vendas e estatísticas comerciais. É claro que os aumentos irrisórios de vendas verificados nas principais feiras de livros mundo afora não desfazem dos benefícios inerentes ao livro digital: a portabilidade, a economia de espaço, a imunidade ao cupim e outros insetos, além da presumivelmente mais interessante entre todas: a velocidade de remessa e entrega. Nada que um bom blecaute nesses tempos de crise energética ou um escorregão acidental na tecla DEL, por exemplo, não possa sobrepujar com folgas. Assim, as crescentes iniciativas comerciais de publicação de livros digitais vem crescendo às vezes em ritmo acelerado e às vezes em passos de tartaruga. E isso acontece sobretudo porque as editoras têm grandes cautelas em relação ao descontrole de proliferação de cópias não autorizadas, a bem conhecida pirataria.

Em tempos tão remotos quanto o da invenção dos tipos móveis, sabe-se que mesmo as bíblias de Gutenberg teriam sido objeto de cópias, digamos assim, alternativas. Antes de que a imprensa e a tipografia pudessem multiplicar em ritmo industrial as primeiras brochuras, outro tipo de instituição já havia sido responsabilizada pelo crime de compartilhar o conhecimento escrito. Sim, não foi sem a desconfiança das sociedades científicas, universidades e autores que as primeiras bibliotecas públicas do ocidente, num modus operandi ainda vigente, passaram a cumprir, entre outros, o objetivo de multiplicar o número de olhos que um mesmo livro poderia receber. No livro de Matthew Battles, A Conturbada História das Bibliotecas, é possível conhecer muitas e inimagináveis histórias de desastres, crimes e atrocidades que ocorreram nestes ambientes recheados de ácaro, pó e silêncio – este que dizem ser o companheiro inseparável da boa leitura.

Forma preferencial para deter através dos meios tecnológicos a pirataria editorial, o uso crescente dos digital rights managements, ou simplesmente DRM (atributos de controle que acompanham e estabelecem limites e permissões de uso para arquivos digitais), tem se prestado também para o estabelecimento de situações insólitas. Isto é devido principalmente às possibilidade de conexão dos dispositivos digitais e ao controle on-line do conteúdo transferido. Se até aqui a obtenção de um livro competia obrigatoriamente em sua propriedade, essa relação já não é mais assegurada. O que um consumidor obtém atualmente de um fornecedor de e-books é uma concessão de uso a qual pode ser alterada unilateralmente. Foi o que aconteceu com a maior loja de e-books do mundo, a Amazon.com, acusada de simplesmente excluir das coleções de consumidores títulos de seus próprios dispositivos, através de operações remotas. Em alguns dos casos noticiados, isso teria acontecido para possíveis correções editoriais ou problemas contratuais com os autores ocorridos após a comercialização. Seja como for, é uma possibilidade impensável para livros impressos, mesmo que recalls de brochuras já tenham acontecido.

Desde que a discussão predominante em torno do tema tem sido o prazo de tempo para a extinção final do suporte impresso, as discussões não avançam muito além de clarividências sistematicamente ignoradas pela realidade. Se o livro impresso deveria ter acabado no começo de 2013 ou irá agonizar até o fim da década presente para dar lugar a outro suporte, essa é uma informação das mais irrelevantes. Talvez interessasse mais perceber o comportamento das editoras comerciais em relação ao e-book, repleto de implicações e restrições, chegando muitas vezes a inviabilizar operações elementares dos textos digitais. A possibilidade de transcrever um texto para outro, o bem conhecido “copiar e colar”, por exemplo, para algumas editoras é uma prerrogativa impensável a entregar ao leitor e consumidor, suposto – até prova em contrário – pirata e contraventor em potencial.

Além das questões das restrições de transferência há impasses importantes que se travam principalmente entre bibliotecas e editoras. É claro que, por tratar-se de produtos comerciais, as editoras não podem ver-se obrigadas a migrar seu negócio para a caridade de uma hora para a outra. Porém, é evidente que seus processos produtivos e comerciais são reduzidos com a comercialização de livros digitais. Continua um mistério compreender-se porque isso via de regra representa para o consumidor final não mais que uma economia de 10% no preço final.

Para muitos autores, críticos e opiniáticos de toda a espécie o antípoda potencial do livro impresso, e talvez de qualquer livro, seria a própria internet. Não foi senão o prolífico Philip Roth que anunciou em entrevista que o livro em papel teria seus dias contados, assim como o romance como o conhecemos hoje e toda a cultura literária. Tudo de uma vez só, assim, como num bofetão. Interessante que, na mesma entrevista, ele declara também que não consegue imaginar ele próprio realizando uma leitura em um iPad, por exemplo. Eu pessoalmente considero esta uma entrevista profundamente melancólica. Não é o primeiro escritor que, diante da idade avançada, declara que tudo vai acabar, como se eles mesmos não investissem tempo e dedicação a permanecer além dos limites naturais da vida. Certo mesmo é que, enquanto o fim do livro impresso precisar ser anunciado em um novo livro impresso, esse fim não chegará nunca.

O que talvez custe às pessoas admitir não é propriamente a existência de uma crise editorial, porque ela não existe, basta ver a inumerável lista de títulos publicadas anualmente (sem contar as iniciativas de autopublicação, edições independentes, blogs, etc.), mas uma crise da capacidade de leitura em si mesma. Porque se trata de um investimento de tempo que cada vez mais precisa ser rapidamente consumido e transformado em produtividade visível, é possível que os hábitos de leitura, principalmente a realizada em meios digitais, tornem os livros impressos objetos trabalhosos demais e a leitura um empreendimento pessoal do qual não se pode extrair resultados imediatos.

Seja como for, não é possível argumentar contra as evidências matemáticas e elas informam que no mundo inteiro o número de vendas dos e-books finalmente superou o status de tendência e ganhou a preferência dos consumidores. Nos Estados Unidos, o ano de 2014 será marcado como o primeiro em que as vendas de e-books superaram as de livros impressos. No Brasil, a realidade comercial é ainda incipiente, mas ganha força com a chegada da Amazon em solo nacional, com o início de vendas de títulos no iTunes e com uma adesão crescente de editoras ao uso das mídias digitais.

Escapando dos dados quantitativos para os qualitativos, é imprevisível imaginar a forma pela qual as editoras irão investir daqui para diante, e suas prioridades. Com uma quantidade imensa de títulos esgotados e com restrições decorrentes de uma lei de direitos autorais defasada em muitos aspectos (especialmente porque elaborada em uma época em que o termo digital não se aplicava ao conteúdo editorial), o e-book tanto pode representar a recuperação dos catálogos de uma indústria que sobrevive de grandes puxadores de vendas quanto, por outro lado, o privilégio a livros que possam interessar às novíssimas gerações, millennials ou o que vier depois. Tal perspectiva jogaria dentro de um fosso toda a bibliografia não lucrativa e, caso se mantenham as atuais restrições ao comportamento das bibliotecas de acesso e empréstimo, por exemplo, isso poderia representar uma intensa dificuldade em obter-se informações, por mais absurdo que isso possa parecer, dadas as “facilidades” tecnológicas.

Internacionalmente, entretanto, parece haver um cenário promissor. Bibliotecas universitárias e projetos culturais específicos (como os de bibliotecas particulares de autores literários, por exemplo) têm realizado trabalhos colossais de digitalização e disponibilização de arquivos pessoais, bibliotecas particulares, etc. Embora os projetos capitaneados pela UNESCO de uma nova biblioteca universal não avancem conforme seu desejo, muitos países procuram desenvolver iniciativas locais de digitalização, de maior ou menor porte. Nenhum, certamente, pretende tanto quanto a Noruega, que deseja disponibilizar sem custo algum, a todas as pessoas que puderem ter um endereço IP norueguês, o acesso integral a toda a produção bibliográfica local, através da digitalização de todo acervo depositado obrigatoriamente na Biblioteca Nacional.

Outra disputa sem horizonte de resolução no tocante ao e-book é a que envolve as pessoas e suas preferências, manias e as possibilidades reais de um e outro meio. Enquanto há quem desde a primeira hora tenha passado a investir em bibliotecas digitais, há muitas outras pessoas reticentes, quando não totalmente refratárias ao formato digital. De um amigo radicalmente partidário do livro impresso, colhi esta comparação, nitidamente exagerada, porém (talvez) pertinente: “O e-book está para o livro como os compostos vitamínicos estão para um prato de comida.” É claro que, para a leitura propriamente dita, o suporte em que ela se realiza importa muito pouco. Se um leitor é hiperativo o bastante para não resistir a concluir um parágrafo e ir conferir o status das redes sociais ou o seu e-mail, é de imaginar que o processo de leitura se tornará fastidioso diante ao intenso desfile de informações imperdíveis que pululam rede sociais e internet adentro. Mas esta dificuldade pode atingir igualmente a leitura dos livros impressos, claro que pode, então acredito que a frase trata-se mesmo de uma impertinência. Cabível, mas ainda assim impertinência.

A mim incomoda bem mais um diálogo presente em O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges, no qual o vendedor do fantástico Holy Writ mostra a Borges as páginas do que seria o mais raro e precioso livro do mundo, mas ao mesmo tempo o adverte: “Olhe bem para estas páginas. É a última vez que você está vendo isso.” É claro que este é o terror que acompanha toda as pessoas que amam os livros guardam mais intimamente, o de que em um belo dia seus belos livros simplesmente evaporem. Assim, do nada e para sempre. Longe de mim desejar que uma coisa dessas aconteça a quem quer que seja, mas uma coisa eu posso garantir com tranquilidade: a probabilidade de uma catástrofe digital continua bem maior do que uma como aquela que ocorreu, por exemplo, no incêndio da Biblioteca de Alexandria.

Do bug do milênio ao epub, passando pelas microfichas, disquete, CDs, discos rígidos e DVDs, dos quais sabe-se lá a durabilidade e a segurança que têm, os livros ainda são um produto de tecnologia muito mais bem acabado, pelo menos na minha opinião, que qualquer gadget disponível para o efeito pretendido. Eu o comparo à colher e à roda, por exemplo, que têm feito mais pela humanidade do que a eletrônica e seus upgrades intermináveis, mesmo que isso apenas seja comprovável numa margem de centenas de anos. E com a vantagem única e incomparável de perpetuar a tradição da dedicatória e sessões de autógrafos. Alguém, por acaso, está disposto a por tudo isso a perder?