Antonio Cicero

A poesia, a crítica e um tanto mais de Antonio Cicero

Muito estaria pacificado a respeito da compreensão e da definição de poesia se todos pensassem como o Prof. David Lurie, personagem central de Desonra, romance publicado em 1999 por J. M. Coetzee, nobelizado em 2003. É logo nas primeiras páginas do livro que ele trata do assunto com Melanie Isaacs, aluna de seu curso de romantismo e pivô do escândalo que o precipita ao périplo de desonras que dá título ao romance.

No romance, o professor procura convencê-la de que não é possível aprender a gostar da poesia em determinado ponto de um diálogo que mantêm sobre Blake e Wordsworth:

“(…) Mas na minha experiência a poesia nos fala à primeira vista, ou não fala nunca. Um estalo de revelação, um estalo de reação. Como um relâmpago. Como se apaixonar.”

Nos estudos literários, contudo, não é bem assim e este argumento, de apaixonamento súbito, nem sempre é bem-vindo ou dado como critério suficiente. O pacífico de aceitar a poesia meramente como objeto estético mais ou menos agradável na realidade tem estado tão remoto hoje quanto sempre esteve. E as discussões em torno do gênero enquanto fenômeno literário e estético são, como se sabe, intermináveis e dadas na maior parte das vezes por opiniões estas sim muitas vezes apaixonadas. Daí que chegar-se a uma conclusão ou pelo menos a um consenso sobre o “problema” é algo bastante complicado.

No Brasil recente, poucos críticos têm se debruçado a respeito do assunto de lugares tão diversificados como o poeta, crítico, filósofo e letrista Antônio Cicero, que acaba de lançar pela Companhia das Letras seu novo livro, A poesia e a crítica, que reúne 13 ensaios nos quais volta a esmiuçar detalhes dos limites e das breves incursões mútuas que filosofia e poesia às vezes realizam uma nos domínios da outra e em seus contornos. Cicero, é bom que se diga desde já, não é simpático à ideia e mesmo sendo uma das poucas pessoas a atuar nos três segmentos, prefere manter os campos bem delimitados e dedicar-se a eles cada qual em seu tempo. Também em seu próprio tempo, isto é, ao longo dos ensaios, o livro esclarece em detalhes e generosas explicações as razões desta sua opção.

Não seria de todo errado afirmar que o seu novo livro continua os estudos e ensaios de Poesia e filosofia, que publicou em 2012, e o aprimora em muitos aspectos. Tanto neste de agora como naquele, Cicero realiza várias digressões e retomadas em torno da intricada e nem sempre amistosa relação do fazer poético com o fazer reflexivo. Para tanto, neste ele se vale de analisar o trabalho de seus poetas diletos, como Hölderlin, Fernando Pessoa, Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade e Armando Freitas Filho, bem como do romancista Thomas Mann, especialmente em A montanha mágica, a quem atribui a formação de seu mais importante laço emocional com a literatura. É o único dos ensaios sobre escritores que não aborda um poeta, mas que está ali, como ele mesmo diz, por razões sentimentais. Realmente é um capítulo a parte, mas sem o qual, como se perceberá, talvez não existisse o excelente escritor que Cicero, para além de poeta e filósofo, também é.

Nos ensaios em que não está dedicando-se a examinar o trabalho de outros poetas, Cicero aproveita para também abordar outras relações pouco pacíficas da poesia, tais como com a prosa, com a própria crítica, a contracultura, a canção musical e a cultura popular. Faz todo o sentido, pois não só ele mesmo transita muito bem por todos estes territórios como consegue, por uma questão de abrangência, adentrá-los com naturalidade, mérito de sua prosa fluída e muito agradável. Conta muito também, para tanto, o fato de que Cicero não tem interesse em conflagrar os domínios, mas apenas esclarecer no que e em como um atinge fatalmente o outro, assim como as razões pelas quais eventualmente mais ou menos eles se distanciam ou parecem competir. Também é desde este trânsito fácil e de uma compreensão abrangente dos temas que ele avalia, por exemplo, tanto a contribuição da música para a popularização da expressão poética no mundo contemporâneo quanto avaliza a contribuição da tropicália e da bossa nova para a poesia brasileira e a polêmica premiação de Bob Dylan com o Nobel de literatura em 2016.

A relação de Cicero com a música popular dispensa maiores explicações. Recentemente, em homenagem que compositores e músicos realizaram em torno dos 70 anos de Fernando Brant, dito por ele mesmo como “um dos maiores poetas da MPB”, Cicero gravou a leitura da canção Encontros e despedidas, faixa título do álbum homônimo de Milton Nascimento. Por estes dias, além de aguardar o resultado da decisão da Academia Brasileira de Letras em torno da cadeira nº 27, a qual é candidato a ocupar, ele está na estrada com a irmã Marina Lima, dividindo irmanamente o palco com as canções que ela interpreta e os poemas que ele lê. Dois irmãos é não curiosamente o título do espetáculo que tem viajado o Brasil.

Ainda que pudesse parecer uma interpretação apressada, A poesia e a crítica está longe de ser um livro pacificador ou um empreendimento em prol da pacificação entre todos os elementos culturais com os quais a poesia tem precisado lidar ao longo dos anos. Pelo contrário, muitas vezes chega a tratar-se quase de uma luta pela sobrevivência e a poesia, que seguidamente é dada como em vias de extinção nas avaliações mais alarmistas, às vezes é preciso defendê-la. Não é tarefa fácil, dado que a leitura da poesia costuma obrigar o leitor a dilatar sua perspectiva pragmática do tempo e a abrir mão das formas usuais de lidar com a própria informação, principalmente em tempos de tanta aceleração digital. Mesmo quando precisa retornar ao episódico debate sobre a “utilidade” da poesia, Cicero defende que o poema, em suas diferentes formas, continua a ser um poderoso agente de catarse subjetiva, mobilizando o aparato sensorial das pessoas, sua cultura, memória, inteligência e, claro, a sensibilidade de cada um.

O gênero, que costuma ser tomado como das mais fáceis formas da literatura, estranhamente às vezes parece necessitar de requisitos muito intricados ou então muito simples de eficácia. Ou é a paixão instantânea, como expressa no livro de Coetzee, ou uma série de complexos quesitos culturais e formais. Chega a ser curioso como se pode chegar a um cânone tão exigente tendo de lidar-se com uma oposição e extremos tão radicais. Ou seja, ou a poesia é inútil ou está para além da compreensão. Ou o poeta é um iluminado ou um alienado do mundo real e imediato, como um ser lunático obcecado pela própria expressividade. Como se vê, é um ataque multilateral que se pratica contra a poesia e é um mistério real sua sobrevivência enquanto experiência literária, ainda mais quando se sabe que entre todos os gêneros é justamente o que menos vende. É o ouro sem valia de quem falou Ferreira Gullar em artigo publicado na Folha de São Paulo ainda em 2012, mas que provável e felizmente provêm de uma fonte inesgotável, já que nem assim poetas cessam de criar e publicar.

A epopeia não finda aí, pois da mesma forma engana-se quem supõe que esta é a única oposição com que precisa se debater a poesia; não é. Outra, e não menos importante, é o tempo. Além de qualquer outra coisa, a poesia requer tempo, apesar da forma muitas vezes expedita passar a ideia de que tanto a criação quanto a leitura fossem eventos voláteis e passageiros. Segundo Cicero, trata-se de outra coisa. A experiência da poesia seria como quase uma fração dimensional da percepção rompida voluntariamente pela pessoa, isto é, por cada leitor. Além disso, ainda que as discussões em torno da materialidade e da concretude dos elementos e das figuras poéticas sejam inesgotáveis, é inevitável pensar que não há meios de conhecer-se a poesia de quem quer que seja sem um mínimo contato com a sua subjetividade e, daí, para a sua cosmogonia. Pois é da retina para dentro que o poeta examina o que lhe chega e acontece, enquanto o filósofo exterioriza as ideias e examina o concreto e o real em si mesmo, como se examinasse o mundo em chapas de microscópio ou nas amostras que lhe estejam disponíveis. Requer-se tempo e, principalmente, o tempo de dar tempo à comunicação poética, tão diferente da que ocorre sob o texto informativo ou discursivo.

Mas o nonsense maior de alguns dos debates travados alhures por poetas e críticos consiste em fabricar um sentido dissociativo ou de disputa entre uma e outra: poesia e filosofia. Se a poesia importa mais ou menos que a filosofia, por exemplo, ou se uma estaria contida na outra. Se irmãs siamesas ou parentes longínquas. Se o poeta é um filósofo pouco instruído ou o filósofo uma espécie de superpoeta. Neste ponto, Cicero costumeiramente é taxativo e é bom que o seja: “Digo às vezes que sou esquizofrênico, porque é como se eu tivesse dois cérebros diferentes (…). Mas são coisas muito diferentes, filosofia e poesia”, ele declarou há pouco em entrevista ao jornal O Globo quando do lançamento do livro de ensaios.

De uma forma muito agradável, porque sua escrita é ao mesmo tempo profunda e acessível, tanto em Poesia e filosofia como agora em A poesia e a crítica, Cicero presta um grande serviço a todos os interessados em ambos os assuntos, qual seja o de romper uma hierarquia sem sentido entre o erudito e o popular e o de poder aproveitar caso a caso cada forma e campo, cada especificidade e manifestação do pensamento devotado à poesia em si mesma ou, por outro lado, ao estudo da estética e de sua compreensão. Isso tudo além da sua própria poesia, pois o autor dos bem conhecidos versos a seguir

“Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.”
In: Guardar: poemas escolhidos, Rio de Janeiro, Record, 1996.

já declarou que pretende dedicar-se, mesmo, cada vez mais à poesia.

A este ponto, a não ser para fins catalográficos, distinções qualitativas não fazem muito ou mesmo nem um sentido. Provavelmente, não há mesmo vantagem ou desvantagem a cotejar entre poesia e filosofia. Ou então, como disse a polonesa Wislawa Szymborska ao receber em 1996 o Nobel de literatura, “não há professores de poesia”, e a filosofia só lhe estaria em relativa vantagem porque poderia ser adornada por um título que ao poeta falta. De resto, poeta ou filósofo, como Cicero diz, costumam ter a cabeça nas suas respectivas nuvens. Pois mesmo podendo ser denominado como professor de filosofia, poucos críticos e pensadores poderiam ser tão cuidadosos e corroboradores do fazer poético no Brasil contemporâneo quanto ele. Aí está o seu novo A poesia e a crítica para que se possa compreender ainda melhor isso tudo e um tanto mais.