Da autocrítica

A postura de um crítico é, no mais das vezes, afirmativa. Quando ela se expressa, é para dizer “eu sei”. A de um escritor, pelo contrário, é indagativa. Quando pergunta a si mesmo “eu sei?”, quase sempre ele sabe que não sabe mesmo.

Persistências

Acho que por ter publicado há alguns anos um pequeno livro de contos retratando o modo de vida das pessoas do interior e da região da campanha rio-grandense, algumas pessoas acham que tenho apreço ao tradicionalismo. Bem, não tenho mesmo. E não tenho por uma razão simples: conheço muito pouco a respeito do movimento de Barbosa Lessa e do não há muito falecido Paixão Cortes. Nunca me interessei. Meu contato com esse modo de vida é ao mesmo tempo mais direto, porque vivi nesse interior e conheci suas pessoas, e também mais remoto, porque a literatura riograndense com a qual mais travei contato é anterior ao tradicionalismo. E inclusive acho muito lamentável que na escolas, por exemplo, seu estudo tenha sido substituído por esse outro viés posterior, “educacional”.

O que pouca gente sabe, ainda hoje, e é coisa muito básica, é que o tradicionalismo é um movimento quase impraticado na região da fronteira. Na minha infância e adolescência, por exemplo, ninguém frequentava CTGs. Ao mesmo tempo, todos sabiam entender a linguagem do campo, como o pelo de um cavalo, o nome das peças dos arreios, a geografia, a paisagem, árvores, animais nativos, etc. Toda essa linguagem rural que se interpenetrava com a urbana, fora uma leva considerável de espanholismos.

Isso, claro, acabou se transformando numa prosódia muito particular, num certo modo de dizer. No entanto, já me aconteceu algumas vezes de escutar uma música do repertório neo-gauchesco e não entender patavina. Além da entonação ruidosa, o vocabulário de uma construção artificial, forçada ao extremo, me pareceu muitas vezes se tratar de um idioma desconhecido com palavras, poucas, que podia reconhecer.

Aquela linguagem mais espontânea, de outro modo, ficou guardada. Posso estar numa aglomeração grande de pessoas, mas reconheço aquele sotaque em fração de segundo. Este “de” recém escrito, por exemplo, tem exatamente o som da letra “d” + “e” e não outro qualquer. É uma espécie de sonar embutido, vamos dizer assim. Impossível de extirpar do corpo e da memória afetiva.

Falando em afetividade, é muito interessante o grau de estereotipia com que nesse aspecto cada vez mais o povo do RS é referido. Além do separatismo, “vocação” que seria inata e irrecusável, o machismo estridente, o reacionarismo atávico e outras “qualidades” que parecem conferir com aqueles povos pré-cristãos em vias de civilizar-se. Afetividade refere-se aqui a uma ausência total de expressão, claro. E ainda que esse paganismo pareça mesmo existir em alguma medida, influência talvez do indígena pampeano, tudo viria a “confirmar” inclusive nossas “tendências” político-eleitorais e barbarismo incontornável (não à toa usamos tanto o substantivo barbaridade..).

Pois não é que há poucos dias cheguei a ver numa revista intelectual uma reportagem que caracterizava o sul como reduto do bolsonarismo em contraposição ao norte democrático? É um acinte completo e uma mentira a dedução do cientista político. Como ele explicaria as quatro reeleições do PT em Porto Alegre? E o que ele diria de Olívio Dutra e Tarso Genro, eleito para o governo do estado em 2010 ainda no primeiro turno? E Lula, que obteve neste colégio eleitoral, em 1994, o único estado em que superou o PSDB de Fernando Henrique Cardoso?

Mas, afinal, para que gastar o tempo em pensar se a generalização está logo ao alcance das mãos e o sujeito quer uma fórmula fácil e barata de entender as coisas? É só apontar para o sul e deu. Quem não sabe que é sempre muito, mas muito mais fácil colar a pecha (qualquer que seja ela) do que raciocinar ou apoiar-se na realidade?

Em resmo, o que se quer dizer é que não prestamos, nem nossa literatura, nem nossa música e somos apenas uns grosseirões e o nosso regionalismo detestável (só o nosso, evidentemente) e essa loucura (realmente, uma loucura e uma idiotice) agora de fazer uma senzala no acampamento no qual os tradicionalistas, ou seja, “toda a população”, comemora a revolução farroupilha nos faz os monstros racistas, machistas, homofóbicos, misóginos e nazifascistas por excelência (não faltou nada, né?). Coisas do tipo que nunca foram vistas nos museus de Minas Gerais nem nas festas de quinze anos de moças paraenses. Não que justifique – é claro que não justifica – mas muita calma nessa hora de apontar o dedo e vociferar. Deixemos pelo menos claro que não se trata de exclusividade, afinal já temos características hediondas o suficiente para lidar e elaborar. Só que não custa distribuir um pouco entre exemplos péssimos a ruindade dessa ideia, que aqui felizmente foi remodelada com a participação do movimento negro.

Assim que hoje, 20 de setembro, data em que se comemora a Paz do Ponche Verde, e vi bem cedo atravessando a Praça Garibaldi um ginete em direção ao desfile. Um homem negro, jovem, provavelmente um porto-alegrense que jamais tenha pisado numa coxilha de verdade, mas que me pareceu muito ao gaúcho que conheci lidando na campanha. Orgulhoso da bota lustrada, das bombachas e do cavalo alugado, como bem disse uma amiga sobre outra pessoa, há poucos dias. Sem dúvida fazia o seu caminho numa identidade transfixada, como a de qualquer ser humano vivo e contemporâneo, buscando de alguma forma pertencer a essa identidade abstrata e fantasiosa, como se houvesse alguma que não o fosse, ou mais autêntica.

Eu, que nunca fui a um desfile farroupilha na minha vida, tenho nada a favor do gauchismo, mas tenho carinho, sim, pelos gaúchos, pelo povo daqui. Há quem resuma seu conhecimento do RS em Gramado, cidade de brinquedo, e numa coleção de clichês e estranhezas sobre o RS. Na verdade, não conhecem nada e não querem conhecer, mas “lacrar” nas redes sociais e só isso mesmo, como se isso pudesse ser de alguma forma um comportamento inteligente ou simpático. Nesse mundo atropelado, nesse tempo dissonante, ainda que me trepide tudo que é digital, me assusta mais a persistência do silêncio da campanha, como uma milonga que não sossega, não se acaba, e, de vez em quando, certa vontade de dar as costas e nunca mais.

Porto Alegre, 20 de setembro de 2018.

Para assistir a “Longe da árvore”

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 19/10/2019.

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A não ser em publicações duvidosas, “filosóficas” entre aspas, é muito difícil encontrar-se alguém interessado em escrever honestamente acerca da aceitação humana. Em 2012, ao invés de facilitar as coisas, o jornalista norte-americano Andrew Solomon conseguiu torná-las ainda mais difíceis com a publicação de Longe da árvore: pais, filhos e a busca da identidade. Imenso em tamanho (o livro publicado pela Companhia das Letras em 2013 contém mais de 800 páginas) e incomensurável em conteúdo, Longe da árvore é ainda mais espantoso quando se sabe que resultou do trabalho de uma década em que seu autor esteve envolvido tanto na escuta de centenas de pessoas quanto no exame detalhado da literatura ficcional, científica e documental publicada a respeito das condições e situações existenciais a que ele se propôs investigar.

Ao tratar da trajetória familiar e afetiva de pessoas que cometeram crimes ou daquelas cujos filhos nasceram em decorrência de casos de estupro, ou pessoas que nasceram com deficiência intelectual, autismo, doenças mentais, nanismo, bem como casos de superdotação ou surdez e chegando até as questões de identidade de gênero, Solomon concretizou uma espécie de fenomenologia do afeto. Uma espécie de compêndio informal e demonstrativo do percurso de cada uma das pessoas em afirmar-se num mundo muitas vezes refratário e violento. Ao invés de hipóteses científicas, Solomon confrontou as ideias sociológicas e políticas contemporâneas às diferentes realidades com que se defrontam as pessoas nas suas peculiaridades existenciais. Mais do que uma reportagem extensiva acerca das situações-limite possíveis de experimentar-se, Longe da árvore é um divisor de águas sobretudo por abordar a experiência humana onde ela costuma ser mais invisibilizada.

Finalizado em 2017 e com uma breve passagem no Brasil no Festival do Rio do ano passado, Longe da árvore chega agora aos cinemas brasileiros em documentário homônimo realizado pela produtora e diretora Rachel Dretzin, ativista feminista e realizadora de diversos documentários acerca das questões identitárias nos Estados Unidos. Dentre as muitas pessoas interessadas em adaptar o livro de Solomon para as telas, Dretzin conquistou a confiança do autor ao procurar ampliar ainda mais o alcance do seu livro. Ao invés de simplesmente transferir e buscar as pessoas já entrevistadas por Solomon, ela foi buscar novos depoimentos e então costurar a sua própria versão da ideia original de Solomon. O resultado é um filme tão corajoso e tocante quanto o livro original e que tem sido aplaudido e premiado nos festivais em que vem sendo exibido, como nos recentes RiverRun International Film Festival e Montclair Film Festival’s.

Além de continuar ampliando o reconhecimento do livro original, o documentário realizado por Dretzin consegue por mérito próprio viabilizar a expansão da ideia central de Solomon. Baseado muito em sua própria experiência individual e familiar, de que a aceitação e o amor constituem valores que fundamentam e oferecem sentido à experiência humana, Solomon relata e compara a própria experiência em torno de sua homossexualidade às de pessoas em outras situações em que a diferença migra do sentido de distinção para o de diversidade. Mesmo nas situações mais dramáticas, como as que envolvem famílias de filhos envolvidos em crimes terríveis como os massacres de Columbine e outros semelhantes, Solomon assume a prevalência da afetividade e deixa para trás qualquer noção estigmatizante do ser humano.

Como uma sociologia às avessas, Longe da árvore é muito mais exemplar do que explicativo e sua força documental decompõe em certa medida as noções de identidade organizadas, por exemplo, em Erving Goffman, onde estão como que consolidadas. A “busca” empreendida em seu livro não se dá pela trajetória de personagens e nem pelo sopesamento de categorias teóricas, mas pela experiência humana como ela é e sem qualquer verniz de fantasia, indulgência ou, principalmente, vitimização. Pelo contrário, trata-se de pessoas que buscam reconstruir-se apesar das expectativas sociais e familiares mais corriqueiras. Não há um drama existencial específico em questão, mas a dramatização da vida social em seu sentido mais amplo.

Longe da árvore é um livro e agora documentário crucial para a compreensão da dimensão de complexidades que atendem a aceitação familiar e a inclusão social e afetiva das pessoas. Para além dos estereótipos, dos preconceitos e dos destinos inescapáveis, sua contribuição reside em alargar a experiência humana das bordas da trivialidade e da previsibilidade. Embora trate apenas indiretamente de pessoas com gigantismo (ele também trata disso), é um livro gigante em todos os aspectos. Se não é possível a ninguém escapar do inesperado, seu trabalho é humanizante em todos os aspectos. Premiado também por O demônio do meio-dia, que aborda a problemática da depressão, e Lugares distantes, no qual trata do drama do desterro das populações migrantes, recentemente também publicou uma série de textos inéditos e conferências sobre a a temática do suicídio. Também professor de psicologia clínica da Universidade de Columbia e consultor de saúde mental LGBT em Yale, com Um crime da solidão Solomon consolidou o seu nome entre os autores mais comprometidos com as questões contemporâneas mais sensíveis.

Por meio de uma promoção do Instituto Alana em parceria com o selo Believe Films, as exibições de Longe da árvore ocorrem desde o dia 19 de setembro em várias cidades brasileiras, em sessões que contarão com todos os recursos de acessibilidade (audiodescrição, libras e legendas em português para surdos usuários da Língua Portuguesa) e com a realização simultânea de debates abertos a respeito do filme e do livro. Além das exibições comerciais, também poderão ser programadas exibições do filme por escolas e entidades a partir de uma plataforma on-line mediante um cadastro simples e orientações que já estão disponíveis na internet.

O descolamento da poesia contemporânea

Não há nada melhor para fixar o retrato de uma geração de escritores do que a publicação de uma antologia “definitiva”. Isso é um dado histórico na literatura, não suposição pessoal. Idealmente, se chancelada por um figurão acadêmico, um “entendido”, a antologia costuma ser ao mesmo tempo celebração de alguns e pá de cal na esperança de muitos outros em pleitear um espacinho na glória, essa ambição imaterial e supostamente perpétua que tanto fascina os mais incautos espíritos quanto envenena as relações entre as pessoas. O paradoxo não é meu, eu apenas o noto e gostaria muito mesmo de estar errado em minha interpretação acerca da competitividade desembestada que há no meio literário contemporâneo e, talvez, de todos os tempos.

Há cerca de dois anos atrás, o livro é de 2017, coube à compositora, cantora e diletante Adriana Calcanhoto a fixação de um cânone da poesia contemporânea. Escolhida pela mais influente editora nacional, a Companhia das Letras, Adriana simplesmente fez reunir o que a ela pareceu “ter a ver” (sic) com o seu próprio filtro. Com a ressalva de trazer em seu próprio título a denominação de “incompleta”, a antologia, segundo reportagem da Folha de São Paulo, poderia ter sido realizada em muitos volumes, mas a organizadora teria optado por fazê-la em um apenas, reunindo exemplos de 41 autores nascidos entre 1970 e 1990. Pouco tempo antes, uma antologia preparada a pedido da Folha de São Paulo tinha abarcado um universo um pouco maior, com 70 poetas.

Datando uma contemporaneidade essencialmente “jovem”, a antologia de Adriana parece ser sobretudo um mostruário de uma determinada dicção “jovem”. Para mim, que penso em “jovem” como um atributo dos adolescentes, o termo se esgotaria lá pelos vinte e poucos anos. Depois disso, o que vejo são adultos, muito embora nunca tenha sido tão complexa a definição destes limites. Seja como for, a antologia preparada por Adriana é realmente um cardápio de boa poesia, a meu gosto, embora certamente tenham ficado de fora dela outros excelentes poetas. É o imponderável em questão. Mas, ao contrário de denominá-la por “contemporânea” eu diria “recente” ou, sendo irônico mesmo, “descolada”.

Para além das acepções sociológicas, é preciso clarificar o fato de que contemporâneas são todas as pessoas vivas de um mesmo período de tempo, quer tenham vinte e poucos ou oitenta e tantos anos de vida. No que me importa dizer aqui, é a definição a que me atenho. Sob esse ponto de vista absolutamente geracional, é bem interessante o uso da antologia de Calcanhoto para observarem-se características comuns, influências, etc. No caso da antologia em questão, salta aos olhos uma semelhança notável no uso do verso livre, do coloquial quase crônica e também de uma estética liberal, ainda que não necessariamente libertária ou politicamente engajada. Se essas características podem resumir as qualidades de toda a poesia realizada atualmente, este é outro debate e, para mim ao menos, muito mais inacessível.

Não é preciso que eu diga o quão polêmico foi a publicação da antologia e o número de reclamações, postagens, discussões e etc. A julgar pelo prêmio Oceanos, um dos principais do país e no qual centenas de poetas anualmente inscrevem seus livros no afã de concorrer, é compreensível a grita. Não compreendê-la, sim, é o que seria incompreensível.

Ainda que noutra qualidade de polêmica, no mesmo ano, 2017, foi escolhido para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras o poeta, critico e professor de filosofia Antônio Cícero. Porque as unanimidades quase sempre ocorrem aos já falecidos, obviamente a escolha suscitou desagrados. Como o dito logo acima, seria incompreensível é se não suscitasse. Pode-se, sem dúvida, objetar pela qualidade literária de seus livros, pertinência, pela própria credibilidade da Academia, o que seja, mas a indicação sobretudo ofende exatamente essa noção de contemporaneidade. Cícero é um poeta que tanto escreve dentro de uma vertente formalista quanto mais livre, mas também flerta com a canção popular e, o mais grave de tudo, com a filosofia.

Nesse ponto, realmente a porca torce o rabo, desculpem-me o dito abrupto, porque se há um preconceito visceral da poesia brasileira é em relação à filosofia. Uma não pode ser a outra e, de fato, não ocupam o mesmo espaço nem requerem as mesmas características, mas fazem um namoro fascinante que poucos, como Cícero, conseguiram levar a um casamento. Isso é minha opinião. Os namoros da poesia brasileira com a filosofia ou, noutro extremo, com a canção popular, são sempre muito mais reclamados do que com uma possível tradição com o bom humor. Quando o flerte é com a filosofia, simplesmente ocorre o veto e a determinação estranhamente provém (no mais das vezes) mais dos poetas que dos filósofos. Nesse sentido, pelo menos, ocorreram recentemente debates acalorados nas páginas do mais importante jornal brasileiro e daí afora (ver o artigo em que Mariella Masagão acusa a poesia contemporânea de “sisuda” e “hermética”).

Mas eu não diria isso apenas de Cícero, outros poetas vivos (não tão joviais quanto os antologizados por Adriana) e atuantes também vão à berlinda com os temas metafísicos, do pensamento e da reflexão. Penso que são contemporâneos também e sobretudo porque sua temática não é casuística ou delimitada temporalmente. Nem maiores nem melhores que os outros, isso não, pois não é meu critério, mas me parece absolutamente incompreensível apontar a poesia contemporânea e, ao mesmo tempo, sepultar em vida poetas produtivos e com uma obra complexa ou obliterá-los em razão, ora veja-se, da sua “lírica”. Esse, aliás, é que me parece ser o descolamento mais impressionante da poesia contemporânea: para com a subjetividade. Isso que não estou falando aqui dos que não publicam ou deixaram de publicar (por n razões), mas continuam escrevendo. Ou seus “títulos” de poetas foram cassados porque seus nomes não estão nas feiras e festas literárias e antologias da hora?

Seja como for, na minha opinião, há muita injustiça no mundo e continuará havendo; sou muito pessimista em relação a isso. Eu apenas considero relevante apontá-la e suas nuances e implicações secundárias. Espero que seja tolerado por isso.

***

A título de curiosidade, porque foge ao assunto (ou o circunscreve), só há pouco fui assistir ao filme realizado em homenagem ao cantor Freddie Mercury, compositor e vocalista da banda de rock britânica Queen. No filme, além dos nostálgicos momentos musicais, há um momento breve que é muito tocante em meu ponto de vista. A cena transcorre quando a banda está dissolvida, antes do regresso no Live Aid, e Mercury está solitário, já se sabe soropositivo e tenta reatar com o restante dos músicos pois deseja volta a cantar com o grupo.

Num encontro promovido pelo produtor, os músicos aceitam conversar com aquele que os havia dispensado num surto arrogante. Antes de recebê-lo, porém, o guitarrista Brian May, devoto à genialidade do cantor e amigo, resolve dar um “gelo” em Mercury. Os demais integrantes da banda não irão simplesmente recebê-lo com uma festa. Então ele simplesmente alega que a banda tem de conversar um pouco sem a presença de Freddie para decidir. Acontece que os integrantes da banda não falam absolutamente nada. Não trocam uma palavra porque não tinham nada a dizer, mas queriam que o astro de carisma irresistível pensasse um pouco com seus botões, sozinho, e percebesse que precisava dos outros mais até do que eles precisavam dele. Faz parte de ser uma melhor pessoa reconhecer o caráter intrinsecamente humilhante que há na vaidade excessiva.

Essa noção de coadjuvar, de simplesmente “estar com” e de não “estar para este ou aquele” é em meu ponto de vista uma das faltas mais melancólicas da literatura, ainda que não expressa em versos e nem sempre mostrada tão bem quanto após o advento das redes sociais. Como diz o autor (também não antologizável, já que rapper) Mano Brown, “ninguém quer ser coadjuvante de ninguém”. Alguém o refutaria? É que é muito próprio das sociedades violentas, como o Brasil, a escassíssima simpatia para além das listas vip, dos círculos preferenciais, das panelinhas tediosas. Reconhecer a necessidade da presença dos outros não é um traço de grandeza ou nobreza, mas de reconhecimento devido, sobretudo de respeito interpessoal. E de um viés democrático que, infelizmente, não está tão evidente quanto gostaríamos em nosso cordial modo de ser.

Mas notem que nem sempre fomos assim ou, não sei, talvez tenhamos sido mesmo e só agora nos é facultado esclarecê-lo. Sempre que penso nisso, lembro-me dessa foto e, ainda que seja impossível entender o que passaria naquelas cabeças, eu nunca vejo um pódio. Mas eu sou um lírico, não contem comigo para espezinhar a malevolência humana. O que eu tenho mais dos poetas é um pouco de pena, porque julgo entender um pouco do que os anima. Para mim, são pobres estrelas desconsteladas, sobrando no vazio noturno, com suas arestas ferindo a poesia inacessível da noite..

Arvorezinha

A partir de Robert Walser

Todos dizem ter uma árvore que é sua na cidade. Ter duas é avareza.

A minha, vive numa rua na qual nunca entro. No meu caminho de todo o dia, ela sempre está na contramão ao meu destino. Mesmo assim, eu gasto esses segundos por dia pensando em quem teve a ideia de plantá-la ao invés de mim. Magrinha, quase imperceptível entre postes de luz e casinhas amarrotadas, de bairro, nem sombra tem a oferecer.

Já no campo as árvores não são de ninguém. Os animais não as reclamam mais do que precisam. Os pássaros ocupam-nas um pouco só e partem. Nem o vento se deposita em demasia, no pacto de manter intactas folhas e flores.

Por mais inóspita a cidade, todas têm dessas árvores com dono cujas vidas tem sido apenas ser esquecidas. Paradas, não cansam de esperar o regresso dos pés da criança que um dia a escalou, o bêbado que entendeu em suas raízes um improvável regaço. Ou nem que fosse o cortejo das cruéis formigas cortadeiras. Mas não vem ninguém. Todos passam.

Contra o céu enfumaçado, açodada, suspira a minha arvorezinha. E insinua um cansaço apenas pelos braços curvos. A um tempo solene e humilde, a verdade é que não é de ninguém. Nunca foi. Se ela pudesse, diria “nem sua”..

Nasce a Valentine

Se aos quinze anos alguém me dissesse que quase aos cinquenta eu me portaria na vida como um outsider, acho que eu não estranharia muito, mas me manteria um tanto incrédulo. Até porque a imagem convencional do outsider (até os outsiders têm uma imagem convencional) é a de um sujeito intrépido, desafiador e inconformado e nenhuma dessas imagens ou arquétipos casa muito bem com a minha. Ficam bem num Dylan Thomas, num Allen Ginsberg, num Jim Morrison, num Kurt Cobain, etc, mas não exatamente na minha que, como quem me conhece sabe, é bem menos (ao menos na aparência) atormentada. Também, isso é preciso dizer de uma vez, não fui um gênio literário aos quinze, portanto está tudo errado nessa composição (ok, talvez aquele cabelo desgrenhado e a barba mal feita enganasse a alguns). Apenas que, ao mesmo tempo, não está.

Acho que dei azar, certamente dei, ao ter me resolvido (ou me auto impelido) por voltar a escrever numa época de decadência do hábito da leitura. Não vou vaticinar aqui sobre o hábito de leitura amplo senso, que é um assunto muito discutido, delicado (e bombástico!), mas apenas falar da tendência realista e verificável de que o hábito de leitura tem sido absorvido, talvez como nenhum outro, pelo impacto da expansão tecnológica (isso falando no leitor mediano, conforme pesquisas têm revelado). Seja como for, não pretendo ponderar a respeito de toda essa problemática, mas apenas tomá-la como ponto de partida para explicar como cheguei aqui.

Poucos anos antes de morrer, o escritor norte-americano Philip Roth também previra que esse hábito (o da escrita ficcional) logo acabaria, já estava acabando e, portanto, parecia-lhe um contrassenso alguém investir seu tempo nisso. Antes de eclodir a segunda Grande Guerra, Walter Benjamin também advertira que “a cotação da experiência baixou”, continuando terrivelmente a seguir dizendo que continuará baixando “até desaparecer por completo”. Talvez (e vejo às vezes muitos escritores aconselhando-se a isso) o melhor fosse que todos passassem a roteiristas, uma vez que, assim como o romance ficcional predominou no lazer cultural até algum momento impreciso do último século, hoje poucos se atreveriam a questionar a preponderância do meio audiovisual e do seu objeto mais consumido: as mui difundidas séries televisivas. De um ponto de vista de mercado, já chega a parecer que nem a coexistência pacífica seria mais suficiente, dado que a oferta já não mais encontra uma procura correspondente, e dizer isso, embora triste, também é apenas tentar ser minimamente realista.

Eu concordo com o que Philip Roth disse, mas acontece que o ímpeto de escrever é meio que inelutável. Ou inevitável até, porque a escrita não começa no papel ou na tela em branco, mas na mente. Então escrever, pelo menos no meu caso, é apenas uma questão de amarrar pontos. De chegar a um termo nas ideias depois de mastigá-las mais ou menos demoradamente. Não fecha muito comigo o termo “compulsão”, acho que não; muito mais me serve “necessidade”, porque o tempo da literatura muitas vezes me parece como uma ou mais dilatações do tempo real ou, pelo menos, de desembestadas tentativas de ir para além da obviedade factual da vida histórica e cotidiana.

Para além disso tudo, pelo menos quanto a mim, é um momento de estar livre com o próprio pensamento. E, por isso talvez, por uma indisposição contemporânea ao tempo de reflexão do outro, a literatura hoje possa soar um tanto quanto “desnecessária”. Ok. Não vamos discutir aqui sobre preferências nem sobre o “contemporâneo”. Não é mesmo o caso disso e não haveria tempo e argumentação que bastasse.

Também é preciso levar em consideração quem entenda a coisa toda como uma procura por status social. É claro que existe e isso é muitíssimo evidente nessa novíssima esfera pública virtual: a internet. Essa é teoria da psicologia do gosto e do consumo conspícuo. Como não possui uma função prática, a produção artística seria mera tática de impressionar os demais, sejam estes os vizinhos, os alvos sexuais, os colegas, a família, quem dera a humanidade… Porém essa é uma situação que a idade (está bem, “avançada”) me permite desprezar e transcendê-la. A essa altura, não tenho pretensão alguma de impressionar a quem quer que seja. Bem como o mais resguardado poeta brasileiro, Dante Milano, penso que a busca pela glória (estrepito y ceniza, segundo Jorge Luis Borges) deveria pressupor o desejo de admiração da humanidade, mas, para ele, essa admiração dependeria igualmente da sua admiração individual “pela” humanidade e esta, segundo escreveu, infelizmente inspirava-lhe muito mais piedade que admiração… Daí certa dificuldade que também compartilho.

Muitos escritores gostam de, por falsérrima modéstia, mencionar seus poucos leitores. Bem, esse é o meu caso real e, sendo o mais honesto que consigo, sempre me senti tranquilo com isso. Esse, talvez, seja um privilégio de ter retomado a escrita já adulto, quase aos quarenta anos. Escrever sem nenhuma pretensão acessória me parece mesmo uma espécie de luxúria literária. Também há que, à exceção dos ghost-writers e roteiristas contratuais, não há muitos bons escritores que se organizem em torno a ideias “necessárias”.

A atividade da escrita, com efeito, é sempre “não solicitada” e, deste modo, é uma sujeição que o autor faz em relação aos seus leitores, mesmo que seu número restrinja-se a casa decimal. Não é esta miserabilidade, no entanto, a que mais costuma afligir aos autores literários, mas a espectral “fortuna crítica” e suas manifestações corpóreas: a reputação e o reconhecimento. Vem daí que o sistema literário possa estar, em razão de uma crescente especialização e elitização, migrando cada vez mais claramente para um modelo mercantil no qual o livro e a literatura passam a ocupar e disputar espaço entre muitos outros objetos culturais e, pelo tempo e dedicação que a leitura exige, atualmente em grande desvantagem. Pelo menos eu penso assim.

Já disse isso uma vez: não tenho nada contra o sistema literário nem contra o mercado literário. Muito menos, entretanto, tenho a favor. Já ouvi e li de muitos escritores sobre suas motivações e nunca me senti totalmente representado. A opinião preponderante de que livros são escritos para serem lidos, aliás, me parece das mais problemáticas. Tudo que já escrevi na vida foi, em primeiro lugar, para ser escrito. Caso alguém tenha lido e gostado, ou venha a ler e a gostar, eu só posso achar isso impressionante, pois um escritor que escreve focado na audiência é uma pessoa talhada para a mediocridade, ainda que seja alguém que conte com uma repercussão unânime. Nada de muito interessante pode resultar de quem se dedica a escrever para agradar a quem quer que seja ou por edulcorar o status quo, qualquer que seja ele.

Nesse ponto, concordo com Charles Bukowski quando ele diz que “if you first have to read it to your wife / or your girlfriend or your boyfriend / or your parents or to anybody at all, / you’re not ready” (se tens que o ler primeiro à tua mulher / ou namorada ou namorado / ou pais ou a quem quer que seja, / não estás preparado). Ocorre que, pelo menos no sistema literário corrente, é isso que veladamente se tem solicitado aos escritores. Obviamente que não de uma forma explícita, contratual, mas de uma implícita nos escritórios das editoras, nas reuniões dos conselhos editoriais, nas decisões de premiações e também nas bancas de pós-graduação, que é de onde mais recentemente se tem chancelado e exarado o que é hoje entendido como o “literário”.

Penso que não é difícil entender como, afinal, acabem por existir uma ou mais tendências outsider na literatura. Existem porque o sistema é estreito, um curral, um caixotinho. E o mais estranho é perceber que, se a internet tenderia a permeabilizar e/ou facilitar o trânsito de novas experiências, ela tem acabado mesmo é por contribuir na guetificação pactuada entre autores, leitores e publicações. Vou tentar exemplificar, a seguir, minha compreensão com um pouco da minha própria experiência.

Atualmente, com a expansão das facilidades tecnológicas que há, a primeira barreira editorial parece estar mesmo superada, ou seja, dificilmente um autor não vai encontrar editora que o publique, basta que ele se submeta ao critério comercial de pagar antecipadamente pela publicação. Desculpem-me se lhes apresento alguma novidade, mas é como as coisas realmente são. Isso, todavia, nada tem a ver com a consecutiva decência do trabalho editorial no que confere desde a revisão ortográfica e gramatical até a fase final do trabalho: sua distribuição comercial. Não é o mais grave. Muito piores são os profissionais do ramo que exigem dos seus contratados uma vocação extra: a de marqueteiros. Sei por mim mesmo que há casas editoriais muito criteriosas que submetem autores a comprovar o número de seguidores em redes sociais e que isso consiste, pasmem, em critério definitivo para a publicação. Nada disso de leitura técnica. Nada disso de “parecer”. Um formulário preenchido na internet e uma vasculhada no nome do proponente resolvem tudo. É isso.

Pois é nesse ponto da situação que o canto dos outsiders volta a me soar como o único possível, mesmo em se tratando de indivíduos já um tanto “longevos” para o termo, como eu. É que não dá para encarar isso aos cinquenta com (ou contra) uma geração inteira que acredita que assim é que as coisas são e devem ser, justamente fortalecendo essa dinâmica. Simplesmente, é preciso guardar a viola no saco ou, como desejo fazer, cantar à minha própria maneira, nem que pareça em direção à parede. Não me importo e por razões muito simples: não tenho tempo ou paciência e muito menos vocação para a autopromoção, essa que é a forma ultraneoliberal de viver que a internet veio coroar. Além disso, prefiro usar esse tempo indefinido que me resta lendo outras coisas (minha lista de débitos é irrecuperável), e talvez ainda mentalizar outras ideias e projetos… Não sei. Não julgo quem faça as coisas de outra maneira, mas estas são as minhas possibilidades reais. E o tempo, claro, urge e ruge.

Espero que tenha sido claro que essa atitude, essa posição, não significa o mesmo que dizer que nenhuma casa editorial seja digna ou séria. Realmente não é essa minha intenção, porque as conheço e poderia elencá-las se desejasse, mas não é o caso. Isso, todavia, não me faz sobrevalorizá-las. Nunca é demais lembrar que foram empresas desse ramo que rejeitaram Proust, Faulkner, Gertrude Stein, Cummings, Kipling, Orwell, Joyce e até fenômenos de vendas como Agatha Christie e Stephen King. Por essa razão, acho bem razoável ter prudência com o ramo. Nada contra, no entanto, obviamente, a sua existência e razão de ser. E longe de mim querer dizer-me incompreendido pelo “sistema”. Não poderia, pois mal cheguei a dirigir-me a ele…

Dito isso (sei que já fui bastante longe, mas para mim é importante dizer isso tudo), há algum tempo venho testando algumas alternativas editoriais. Alternativas que me parecem mais adequadas a um modelo, digamos, mais sustentável de publicação. Como quem já passou pela experiência convencional, não acho mais possível nem honesto bancar grandes tiragens para nada. Também não vou me engajar no endomarketing. Definitivamente, não é para mim. Minha ideia é bem mais modesta e começou com testes que fiz no sistema de publicações impressas da gigante Amazon.com. Aconteceu que eu desejei ver como ficaria o resultado visual de algumas coisas nas quais trabalhei e fui dessa maneira organizando tudo o que havia escrito na última década, em revisões bastante radicais que às vezes duraram muitos anos até chegar ao ponto que desejava.

Para minha grata surpresa, o resultado gráfico se mostrou muito razoável tanto na qualidade do papel interno como nas capas. A única desvantagem é que não comporta as famosas “orelhas” e elaborações gráficas mais personalizadas. Mas mesmo isso tem um lado bom, que é o de não precisar pedir aos amigos a redação de apresentações e etc. Dessa forma, quem vier a ler terá de decidir se valeu ou não a pena por sua própria conta. É uma dispensa arriscada a de jogar-se nesse mundo sem quem me apresente, mas estamos aqui falando em outsiders, não é mesmo?

Antes de concluir (de verdade), eu gostaria de dizer que o mais difícil para um escritor nem é tanto escrever bem quanto escrever algo que interesse às pessoas. Mas confundir esse fabvro com oportunismo ideológico ou mercadológico é um veneno que se encontra disponível inclusive aos mais talentosos ou bem intencionados. Se eu fosse um tiquinho preconceituoso, pensaria ao ver de longe o que estou fazendo como algo ridículo ou inadequado ou nem saberia o que pensar a respeito. No fundo, essa iniciativa toda tem apenas um mérito: o econômico. Nem que eu quisesse alguém toparia editar e publicar de uma vez só oito livros e, nem que eu quisesse também, nesse modelo comercial vigente, teria eu recursos para financiar isso tudo.

Então a situação toda obedece, no fim das contas, à possibilidade de eu gerenciar a minha vida e em não ser gerenciado por demandas e exigências de ninguém mais. Eu acho isso muito bom. No entanto, nem por hipótese menosprezo o trabalho de quem se relaciona com o mercado editorial de outra maneira. Então, mesmo sabendo do preconceito em torno à autopublicação, estou bem tranquilo com a minha opção. Não há que sentir compaixão por isso porque se trata de uma atitude meramente racional. Não estou fazendo isso porque não encontrei quem me publicasse, mas, das condições que pude conhecer, nenhuma me serviu. E, depois, me enjoei um pouco da ideia de publicar, é verdade.. Se, a partir daí, me surgir uma nova ideia ou conseguir proposta menos aviltante, volto a pensar noutra forma de fazer as coisas.

Por ora, vai ser assim mesmo. Afinal, o bom da liberdade é que cada um vive como quer, escolhe o que lê ou não lê e não precisa justificar-se para ninguém. Para mim, tentar portar-me como um outsider quase aos cinquenta é apenas uma forma de resistir à desistência, por isso só peço que não sejam complacentes. Um livro (ou oito) pode ser muito bom e interessante para uma pessoa e péssima experiência para outra. Mas isso é da vida! Não há que se queixar por essa razão e, aliás, por nenhuma outra.

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