O rio

Recconhecer meus infortúnios
é tarefa da qual não declino.

A desdita é poderosa companhia,
a maldita.

Ando ao meio-dia e o sol a pino
leva-me a uma sombra fugidia.

A nuvem anda. O cão anda.
O tempo. E a outra nuvem.

Ainda um dia poderei cantar
no tom certo, dramático, efetivo.

Até lá sigo errando abertamente.
Translúcido agora, sinto-me nu.

Neste silêncio há o incômodo
do que diria e calei.

No calendário,
os dias que continuarão a faltar.

Sorte é o que preciso, apenas.
Mas nego-me a crer. Não me fio.

Não se trata de perder ou ganhar.
Não se trata disso.

Eu vejo a água passar, tudo vai passar.
Mas eu sou o rio.

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Lamento grego, 2

Há pouco o céu tocava minha mão
e o céu morreu agônico, num trinado.

Há pouco o gosto da lembrança chegava
e o esquecimento lhe veio cedo demais.

E agora pretendem me raptar
os desperdícios duradouros da vida.

Mas eu, que não rapino sequer uma fresta,
sigo errando ao meu desígnio:

fustigam-me um remoto deus do tempo
e mãos que não são minhas.

Eu, que nunca previra o castigo infernal, mortal,
que se pratica a si mesmo, sem fim.

Por outro haveria uma parte por entender
mais suave que a dor – eu a esqueci -,

mas destinei-me a não saber o que fazer de mim.
É tão torturante ouvir o lamento dos ossos,

mas ouço agora o que apenas eles souberam:
“Não há nada para mim aqui”, disseram.

Em minha teimosia, penso que um dia
terei de volta o que me arrancava.

Se para ser uma tela aos pedaços,
a reconstituição errada de um mapa

(para que precisei aprender dessa forma
– e não outra – o quanto custa viver?),

agora a noite me romperá, como a um tecido,
neste som infinito e indistinguível –

a minha voz entreguem-na ao colo de minha mãe
e à terra marrom que sempre me permitiu.

O que tinha mantido num engasgo subiu aos meus olhos,
é disso que o poema rompeu.

E agora, novamente fechado, voou daqui para longe.
Não sei porque pensei que isso bastava.

O trapezista

Sam Bean (1974 – )
trad. do inglês

Por favor, lembre-se de mim
com alegria,
ainda próximo à roseira, rindo
e cheio de machucados no queixo.
Na época em que
contávamos cada carro preto que passava
em sua casa, abaixo da colina,
e acordados, até que
alguém nos pegou na cozinha
com mapas, uma cadeia de montanhas,
um cofrinho de porco
e uma remota visão do futuro.

Mas, por favor, lembre-se de mim
carinhosamente…
Ouvi dizer que você continua linda
e que
eles ficaram dizendo
que os portões perolados
tinham graffitis eloquentes
tipo “nós nos encontraremos de novo”
e “foda-se o homem”
e “diga para minha mãe não se preocupar”
e anjos com seus cumprimentos
cinzentos
feitos sempre com tanta pressa.

E, por favor, lembre-se de mim
no Halloween
fazendo todos os vizinhos de idiotas
com nossos rostos pintados de branco.
Pela meia-noite
nós esquecemos um ao outro
e quando a manhã chegou
eu estava morto de vergonha.
Somente agora parece tão bobo:
aquela época deixou este mundo
e depois retornou
e agora você está iluminada pela cidade.

E então, por favor, lembre-se de mim
de uma forma errada.
Na janela da mais alta torre
eles passam por nós,
mas alto demais
para ver a estrada vazia no happy hour.
Partem e ressoam
iguais aos portões
em torno do reino sagrado
com palavras como
“Achados e Perdidos” e “Não olhe para baixo” e
“Alguém me salve da tentação”.

E, por favor, lembre-se de mim
como no sonho,
éramos como bebês esfolados
entre as árvores caídas
e dormindo rápido
à parte os leões e as damas
que lhe chamaram como você gosta
e podem até mesmo
presenteá-la pelo seu comportamento
e uma chance efêmera de ver
um trapézio
balançar tão alto quanto o seu salvador.

Mas, por favor, lembre-se de mim
em minha miséria
e como eu perdi tudo o que queria…
Aqueles cachorros que amam a chuva
a perseguir trens.
Os pássaros coloridos lá em cima correndo
em círculos em volta do poço
e onde ele descansa
na parede atrás do St. Peter
tão brilhante no cinza
com tinta spray
“Quem diabos pode sempre entender?”

E, por favor, lembre-se,
raramente…
No carro atrás do carnaval,
com minha mão entre seus joelhos
e você virou para mim
dizendo “O espetáculo do trapezista foi maravilhoso,
mas nunca foi feito para durar”…
O palhaço que passava
me viu cheio de raiva
quando o estacionamento lotou
com os cachorros do circo.
Tinha algo perigoso.

Então, por favor, lembre-se de mim,
finalmente,
machucando-me em minha subida,
querida…
Mas se eu alcançar os portões perolados
farei o meu melhor desenho
de Deus e Lucifer,
um garoto e uma garota,
um anjo beijando um pecador,
um macaco e um homem
e uma banda marchando
ao redor dos amedrontados trapezistas.

Comprovação

Muito ao contrário
do amplamente disseminado
pelas radiografias
e aparições mediúnicas,
a alma é também vertebrada.

Eu mesmo já flagrei algumas delas
curvadas como horizontes exaustos
e cumprindo um interminável acordo
consigo mesmas. Para almas assim,
o mundo é um espelho despercebido
sem antes ou depois, um intrincado
enigma, um discurso ventríloquo.

Mas é inútil tentar convencê-las
do seu estado. E é inútil recuperar
para elas seu tempo perdido. Até
que entendam o próprio peso
contra o chão, as almas mantém
a compostura negligente de mal notar
as causas de suas fraturas.

Deitadas, despidas de qualquer
decência, elas sequer
alcançam os joelhos com seus olhos
oblíquos. Faltam-lhes vértebras.
A vida é incontornável
e ao que foi rompido
de pouco valem suturas.

A despeito disso, suas histórias,
longas como estradas incomuns,
entrecruzam-se, perdem-se,
misturam-se, sem se entenderem
jamais, isso porque a um poeta
nunca se contradiz.

Então, como estava dizendo,
a alma também é vertebrada.
E com meus maus argumentos
posso muito bem comprová-lo.

Não vais

Não vais tocar o mundo
nem por um instante,
deve ser a maldição
do mundo.

Se pensas que pode
acordá-lo, detê-lo,
detém a ti mesmo.
Acorda enquanto podes.

Ele, incompreensivelmente,
exige tão pouco de ti.
Basta que acomodes
um pouco a cabeça

em meu ombro.
E, sem ter ideia
de como, ou sem desejar,
vê-me sorrir.

Nesta noite, neste mundo

Alejandra Pizarnik (1936-1972)
trad. do espanhol

nesta noite, neste mundo
as palavras do sonho de infância de quem morreu
nunca são o que alguém deseja dizer
a língua materna esteriliza
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de todo o poema
castrado por sua própria língua
que é o órgão da recriação
do reconhecimento
porém não o da ressurreição
nem o da negação
do meu horizonte de maldades e seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(tudo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio –
apenas que o silêncio não existe

não
as palavras
não criam o amor
criam a ausência
se digo água, beberei?
se digo pão, comerei?

nesta noite, neste mundo
é extraordinário o silêncio desta noite
o que acontece com a alma é que não se vê
o que acontece com a mente é que não se vê
o que passa com o espírito é que não se vê

de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
são recintos viscosos onde se oculta
a pedra da loucura –
os corredores escuros
percorri a todos
oh! fica um pouco mais entre nós

minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem ergue uma faca na escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh! fica um pouco mais entre nós!

os resquícios das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
o que fizeste do dom do sexo?
oh! meus mortos
eu os engoli, me engasguei
não posso mais dominar

palavras abafam-se
tudo desliza
até a negra liquefação

e o cão da maldade
nesta noite, neste mundo
onde tudo é possível
salvo
o poema

eu digo
sabendo que não se trata disso
nunca se trata disso
oh! me ajude a escrever o poema mais prescindível
o que não sirva nem para
ser imprestável
ajude-me a escrever palavras
nesta noite, neste mundo

Indesejável

essa história escrita alheia a toda vontade
essa corrente marítima arrastando o sal do mar
esses pontos desamarrados das retas
essa insinuação de alguma certeza nos astros
esse destino a posteriori que jamais conforta
esse abraço do passado empurrando-nos à frente
essa solidão adivinhada nos poucos silêncios
essa eternidade com data marcada
essas ideias em arpejo, irresistivelmente infinitas
essa máscara sem olhos para vestir
essa trança infindável de Rapunzel para subi-la
essa voz de animal machucado
essa mão, manopla, de gigante, atorada
esse cansaço de camelo exaurido no deserto
essa fúria inútil de bêbado
esse discurso repelente e arredio e indesejável
sim, esse mesmo

A ponto de.

Você dá o que lhe parece.
Mostra não mais do que percebe.
Encontra apenas o que imagina.

Nesse silêncio quadrado,
nesse quadrado há um grito
estilhaçado em si mesmo.

É bom guardar os vestígios,
deitar fora as lembranças,
borrar a verdade, vendar o futuro.

Para nós não há uma última palavra.
Você deveria saber o que é preciso
para não ser feito em névoa.

Você parece, mesmo, é o que não dá.
Nem percebe mais o que lhe é mostrado,
prefere permanecer a ponto de.

Mas o mundo já partiu do seu lugar
e ninguém mais é igual a outrora.
Quem há, ainda, para encontrar?

Veja o quão sem graça
é não haver graça em sorrir
quando não há mais a quem convencer.

Basta repetir os próprios passos
para chegar ao ponto de partida
de volta. E mais uma vez.

Tanto quanto necessário
a água escorrerá pelas frestas
e o vento se espalha sempre em seus lamentos.

Se, pelo menos, você estivesse a ponto de
reconstituir o número habitual
pelo qual pranteavam estátuas.

Se, pelo menos, você estivesse a ponto de
enfileirar exércitos de homens escolhidos um a um
e levá-los a algum destino.

Com que esforço
esse pássaro abre as asas
e parte, quando está livre.

De longe, cada vez mais longe,
ao olhar para baixo, felizmente
todos parecem borboletas.

De perto,
poucos estão
a ponto de.

Muitos nem estão e nem nunca estiveram
e, finalmente,
pode-se entender que sempre tem sido assim.

(2012)