Quintana e a produção social da poesia

Um dia perguntaram ao Mário Quintana como ele fazia poesia, se ele trabalhava muito nos versos, essas perguntas que sempre fazem aos poetas. O Quintana bateu com a mão no peito esquerdo (procurando cigarros) e depois fez da mão um copo vazio, voltado para cima. Ele disse que não fazia nem uma coisa nem outra. Que se a poesia é de ser feita, então ela seria uma coisa qualquer, como um tijolo ou uma geladeira. Que se ela é de criar, então seria uma criatura, uma manifestação do divino além das capacidades humanas. E antes de conseguir acender o cigarro e soltar a primeira baforada, o alegretense concluiu que o mais provável mesmo é que a poesia seja de encontrar. E é por isso, disse já no meio da fumaça, que estamos todos perdidos..

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Velho

velho de doer
e muito sério, um rato
vai a correr – a casa
é de quem quiser –
a alma é só
um corpo em paz,
não é um ser

envolto em linhas
e outras coisinhas
bebendo algo
com uma colher – tudo
o que lembra
(como é feliz!)
pode esquecer

enfrentou guerra
e gangrena
derrame
e safena
tudo bem antes
de morrer

um rato
muito velho
pelo bigode
pata, unha
e corcunda
se pode ver

velho
de doer
osso e nervura
agora só
o que ele faz
é remoer

O fim da trilogia prisional de Drauzio Varella

O maior risco que há ao escrever-se sobre um autor muito conhecido provavelmente seja o de recair em obviedades, isto é, o risco de não trazer nada de novo, de dizer nada além do que já tenha sido dito e de qualquer tentativa parecer de antemão algo como mero envernizamento da obra. Por outro lado, este mesmo risco consiste também em um desafio interessante: o de que se torna indispensável fugir de qualquer leitura prévia. A tarefa volta a complicar-se quando se trata de um livro de não ficção e de um autor amplamente conhecido, como é o caso do escritor, pesquisador, comunicador e médico Drauzio Varella.

Com o seu mais recente livro, Prisioneiras, Drauzio retoma o tema da vida prisional e diz estar concluindo a trilogia iniciada em 1999, com Estação Carandiru, e entremeada por Carcereiros, de 2012. Ao todo, completam-se cerca de vinte anos de trabalho em unidades prisionais que conduziram Drauzio a uma posição ímpar entre os escritores brasileiros, de quem não está fazendo propriamente jornalismo, nem etnografia ou historiografia, mas ao mesmo tempo está fazendo tudo isso. Além disso tudo, como não muitas vezes acontece, ele acaba sempre por colocar nas mal afamadas listas de mais vendidos uma temática das mais espinhosas: a vida e as condições de vida de uma parcela da população que de outro modo só ganha notoriedade ao figurar nas páginas policiais dos jornais, via de regra por crimes cometidos e, mais raro, por vítimas também.

Sobre a temática, nem se poderia dizer que Drauzio a estaria tirando da invisibilidade. Trata-se de uma situação conhecida e estudada no âmbito da criminologia brasileira desde a década de 70 pelo menos. Desde O cemitério dos vivos, pioneiro trabalho de Julita Lemgruber e os posteriores Mulheres encarceradas, de Maud Fragoso de Albuquerque Perruci e O mundo do crime, de José Ricardo Ramalho, estudos sobre a cultura prisional e recortes mais específicos proliferaram no âmbito das ciências sociais. É a partir daí, pelo menos, que se consolida no Brasil a antropologia criminal enquanto campo de investigação. O mérito e diferencial do trabalho de Drauzio decorrem, talvez, mais da popularização da temática e de um caráter menos tecnicalista na abordagem das condições de vida dentro dos presídios e unidades carcerárias. Seus dois livros anteriores, por exemplo, respectivamente foram transformados em filme e série televisiva e é provável que algo assim venha também a acontecer com Prisioneiras.

Talvez por praticar constantemente a escuta como instrumento de trabalho clínico, Drauzio é um escritor dotado de grande capacidade observadora. Isso se reflete tanto no que se refere ao ambiente físico, material, quanto ao psicológico e comportamental. Sua capacidade em totalizar o ambiente e mapeá-lo desde seu componente institucional até as suas estruturas de poder nem sempre perceptíveis proporciona algo como uma imersão segura no ambiente prisional, embora ele mesmo ateste que muitas vezes se sinta em maior segurança lá dentro do que fora. O que parece incompreensível para aqueles que jamais estiveram perto dos corredores carcerários, para ele é, portanto, o corriqueiro. Ao longo de todo esse tempo, desde o início de seu trabalho sobre AIDS no antigo Carandiru, ele nunca se afastou completamente do trabalho voluntário nos presídios. A inclinação decorre, segundo ele, de uma atração sobre situações limite que sempre teve, desde a infância, o que acabou desenvolvendo nele uma visão muito particular e abrangente da vida no cárcere.

A linha condutora da narrativa de Drauzio parte de uma visão quase historicista que ele permanentemente evoca para comparar situações semelhantes do passado, no Carandiru e em outros estabelecimentos nos quais atuou, com as quais se debatem as prisioneiras da Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo. Desde aí, narrando situações verídicas e ao mesmo tempo tecendo comentários mais distanciados, provavelmente feitos tardiamente, ele assenta incontáveis situações dramáticas envolvendo desde o abandono familiar, a solidão, o envolvimento com situações limite, o crime, drogadição, filhos, sexualidade e a organização social que vem se estabelecendo ali como na maior parte do sistema penitenciário brasileiro, através das regras e ordenamento providos e executados nem mais tanto pelo Estado, mas por quem efetivamente está no controle da situação, ou seja, facções e organizações complexas como o poderoso Primeiro Comando da Capital.

Não é um trabalho de reincriminação, porém, que Drauzio faz dos casos que descortina ao longo do livro e nem um tratado da criminalidade feminina e suas variantes. Pelo contrário, o que mais se pode conhecer através de Prisioneiras são histórias de vida a quem, via de regra, não se imputa narrativas nem muita importância, mas uma fartura de ocorrências. De tudo, chama a atenção que ele não busque uma visão patológica do crime ou das prisioneiras, mas uma compreensão empírica mesmo, até certo ponto etnográfica, de quem está interessado em seu interlocutor e não o está meramente reportando ou reinterpretando.

Não por outra razão, quer dizer, por nunca empreender uma objetificação de seus motivos de interesse, seu nome não possa mais ser menosprezado entre os mais autênticos escritores de não ficção do Brasil contemporâneo. Se o fato de ser um nome conhecido e fenômeno editorial serve para aumentar a visibilidade do tema, que mal isso poderia causar a alguém? Como seus outros livros, é provável que desperte o interesse de quem de outro modo não se interessaria no assunto. Afinal, não é uma má razão para um livro estar na lista de mais vendidos. Há, em quase todos os estilos, formas mais efetivas de inutilizar o capital dos leitores. Com este Prisioneiras sequer se corre esse risco.

Ning’Un

perdida naquelas dinastias
a chinesinha sabia olhar
para onde mais nada havia

(este um dom que lhe fora dado
num tempo remoto ao seu
por um seu antepassado)

os joelhos espremidos ao peito
às folhas clamava perdão
que juntas diziam: aceito

música, cante agora,
e era a árvore ou o vento
correndo sem mais demora

eterna, como o que perdura,
quero essa paisagem, dizia
(e o céu virava pintura)

olhou pela primeira vez
àquele riacho correndo e mais quis
de tudo o que a água desfez

(se o mundo parasse por ora
de ser o que nunca é –
mas sua força é demolidora)

ao longe bois e arados
– como tanta gente –
no mesmo sulco, parados

o sofrimento? nem um
que perdurasse ao erguer dos olhos
da chinesinha Ning’Un

Parte nisso

se isso tudo acabar
o que é que vamos fazer
com as cebolas no fundo do cesto
(se fossemos o quitandeiro)
com as estrelas que não descobrimos
(ou se então fossemos astrônomos)
com o final daquele livro interrompido
(se ainda o estivéssemos lendo)
com a decisão que tanto adiamos
(como quando estivemos em dúvida)
com a parte que nos cabe nisso
(como se houvesse alguma)?