Achados, salvados, perdidos

Certamente parecerá estranho afirmá-lo, mas o meu objetivo como quem escreve é um dia não escrever mais nada. Nem uma linha. Encerrar o expediente das palavras.

Certa vez ouvi do romancista Cristóvão Tezza que a escrita é um ato de falta, não de excesso. Que quem vai sentar-se para escrever espera com isso preencher uma falta, uma carência, uma lacuna. De outro modo, a pessoa iria fazer outra coisa, que há muitas ao alcance de qualquer um, seja simplesmente andar por aí e olhar o mundo, seja cozinhar um punhado de arroz, fritar um ovo, ferver água.

Pois o meu objetivo também é esse e vou escrevendo naturalmente cada vez menos. Estou sendo polido como se por pedra-pomes. E já sem muito alarde, sem muita eloquência. Talvez piorando no estilo e no espírito, agora mais seco sem ser necessariamente mais sábio.

De dois em dois anos eu tento ver o que escrevi, se é possível conferir unidade às coisas que passo ao papel. Nem sempre dá certo. Sou naturalmente muito suscetível às emoções e fatos do mundo, então preciso equalizar a expressão para alcançar as coisas que quero dizer. Nem sempre há um conjunto, mas um apanhado de ideias e pensamentos que se evadiram da mente em direção à escrita e ali se consolidaram sob muitas formas, com maior ou menor felicidade.

Para montar este livreto, em virtude da pequena produção, tive de recorrer a anos passados, poemas que havia dado por prejudicados e que a releitura permitiu que os salvasse do destino mais fatal da poesia. Estes são de anos mais antigos e chamam-se “salvados”. Os mais recentes, organizados em ordem cronológica, chamei de “achados” e mais porque os encontrei mais pelo acaso da inspiração do que por um esforço da vontade.

Por fim, ainda fui a um baú dos mais estranhos, de poemas um tanto místicos que nunca encontrei direito onde publicá-los e, por isso, me pareciam destinados a ficar perdidos para sempre na memória dos poucos que os haviam lido. De certa maneira, continuam perdidos numa investigação sui generis que realizei da subjetividade na forma de algumas alegorias.

São poemas “perdidos” para o mundo e que agora não estarão mais “perdidos” para mim, porque incorporados num registro mais definitivo. Não é sem receio que pego destes poemas, pois sei que soarão estranhos se comparados aos mais recentes e mesmo aos “salvados”, mas, por outro lado, constituem forma de mostrar um “eu” ainda mais internalizado e que luta para lidar com a fonte das emoções e da subjetividade. É mais ou menos como mostrar a cobra depois de matá-la com o pau, e não vice-versa, e quem for lê-los entenderá depois porque afirmo isso.

Isso é tudo que posso dizer a respeito dessa coleção. Aqui está o mais recente conjunto de poemas que tenho. Daqui a dois anos, em 2023, nem sei se terei ainda o que exibir. Não é que vá esgotando ou secando a fonte, é que espero locupletar-me mesmo mais com a vida do que com as palavras. Posso estar iludido com isso, eu sei, mas é meu objetivo real – não ser preciso mais isso. No entanto, como não tenho bola de cristal nem quanto a mim mesmo, tudo isso eu mesmo ainda verei como se dará.

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Anotação

Porque escrevo a respeito dos outros, parece que posso entendê-los. Não é verdade isso. Tudo é apenas uma tentativa e tenho certeza que errei em interpretação muitas vezes. Escrever a respeito da poesia de alguém é altamente arriscado porque é um encontro entre duas vontades: o desejo expressivo e o receptivo.

Não é diferente de quando alguém liga o rádio para escutar uma música ou seleciona uma faixa de um músico que nunca escutou antes. A não ser entre os mais previsíveis, a poesia é como uma composição que não se tem ideia de como vai se desenvolver ou concluir. Talvez as formas fixas permitam que o leitor anteveja o impacto sensível de um soneto ou a cadência de um ritmo exato, mas a poesia que usa de versos livres é mais ou menos como o jazz – exige uma atenção ainda maior para que se a compreenda em sua harmonia e centralidade.

Eu sei muito bem que não são pareáveis, música e poesia, mas, em muitos aspectos, são sim. Qualquer pessoa que tente tocar um instrumento sabe o quão podem ser complicadas as soluções de uma harmonia, o quão pode ser estranho um motivo, o quão incompleta e parcial a expressão de uma ideia. Já na literatura, esta simultaneidade está definitivamente impedida.

Como acontece ao poeta de não saber o que fazer das palavras, ao saxofonista acontece algo parecido. Ele atravessa a harmonia, assopra sem tocar, a nota sai pela metade e completa a melodia inaudita, que só alguns podem escutar. Com a poesia dá-se mais ou menos o mesmo. É uma revelação feita pelo leitor. Melhor se completada por ele.

Por mais que um poeta diga, pincele, esculpa, burile, se ele diz tudo, o leitor se enfara, sente-se inútil, resta-lhe apenas a admiração sem êxtase. O êxtase é compartilhar dos silêncios, do entrevisto, do sugerido. É o arrebatamento que se compartilha instantaneamente. Nesse aspecto, o músico é muito mais feliz que o poeta, pois ele pode experimentar isso ao vivo. O poeta, não. É de um efeito retardado, a posteriori, que ele obtém o efeito estético. Daí que provavelmente a poesia sempre traga consigo uma melancolia (mesmo a mais feliz e coloquial), que é do poeta estar sozinho naquele instante, consigo mesmo e numa distância total para com quem quer que seja.

Por isso, o que se pede muitas vezes aos poetas é que deixem um mísero espaço ao leitor, para que este possa imaginar-se, consolar-se naquele mesmo desconsolo, esquecer-se nos vazios subitamente interrompidos.

É claro que há também poetas romancistas, prosaicos, como um Duke Ellington, Cole Porter, Beethoven, Mozart, Brahms.. Sinfônicos, grandiosos e épicos, claro que há, mas não são de deixar resíduos, compartilham pouco, temem mostrar um pouco da carne e, por essa razão, parecem madeira, gesso, ou etéreos demais.

Sua obra não é de silêncios e nem os comporta, mas do vazio estrondoso que deixam em seu lugar. O vazio do assombro e também da estupefação.

E há ainda os poetas palestrantes que pensam na sua metapoesia como essência de linguagem, num delírio narcisista. Na música, seriam como aqueles músicos a quem a banda dá uma palhinha e o sujeito nunca mais para de solar, convicto de que chegará aos céus sozinho. Não raro, por mais talentosos que sejam, acabam tragicamente chegando mesmo.. Exemplos formidáveis não faltam.

Sinto muita compaixão pelos poetas. Parecem(os) criaturas um pouco desesperadas, às vezes, mas é uma projeção indevida. No mais das vezes, bem como os saxofonistas, fazem um voo solo sem nem saber quando ou onde aterrissar. Pois é esse momento do voo, que ninguém vê e não é espetacular, que os poetas desejariam (em vão) compartilhar.

Relatos póstumos de um suicida

Muitas vezes eu me pergunto se é necessário que se goste de um livro para que ele seja bom. Ele não pode ser bom independentemente de que se goste dos seus elementos centrais: enredo, personagens, desfecho?

Eu acho que sim. E também que há muitas razões para que o juízo de um leitor estabeleça esse critério mais que particular, inalienável. Não é preciso ser empirista, mas, no apogeu da crítica baseada em ícones (likes e loves), admirar um livro de que não se gosta pode ser, além de tudo, indício de maturidade intelectual. É o que falta cada vez mais às pessoas e sua adolescência prorrogada na qual o narcisismo e o hedonismo são imperativos.

Há poucos dias terminei de ler o (último?) livro que o Cassionei Niches Petry escreveu. Vai ser muito difícil para que ele angarie avaliação positiva nas críticas baseadas em ícones com um livro como o seu Relatos póstumas de um suicida.

É um livro que reúne várias características que o tornam refratário a uma classificação do tipo “amei”. A saber: é uma narrativa amargurada de um personagem em crise moral e criativa vivendo num tópos dos mais áridos que pode existir na contemporaneidade: a vida escolar no ambiente educacional (me parece que o livro todo pode muito bem ser lido como uma metáfora do estado caótico desse ambiente). O protagonista é pouquíssimo convidativo, quase espinhoso e não refreia pulsões mais instintivas da irracionalidade humana. A narrativa breve não impede uma quebra total da expectativa de linearidade, ou seja, é uma novela que não pensa em entregar nada. O leitor que lute. E é pessimista também em vários aspectos sociais e culturais.

Quem é que vai gostar de um livro desses? Ora, as pessoas buscam cada vez mais histórias que redimam e garantam a priori suas convicções. Ponto. Pouquíssimos leitores estão dispostos a dar de cara com situações desagradáveis. Foi-se o tempo de leitores habituados ao realismo mais cru. Pede-se escapismos de todo o tipo. Escapismos do real. Mesmo nas distopias mais áridas, as alegorias são leves, remotas, suportáveis. Eu quero ver é encarar a tepidez da sala dos professores. O bullying sistemático que vem como tempero às relações forjadas nas redes sociais.

Se eu dissesse que “amei” o livro do Cassionei eu estaria mentindo. Complicado apreciar aquele conflito todo. Mas posso dizer seguramente que amei não amar. É um livro imprevisível, muito diferente de certa idealização que permeia o mundo social brasileiro de hoje, no qual o sujeito heroico é invariavelmente um triunfante moral. Mas na ficção cabe tudo ou, pelo menos, deveria caber. E é bom sobretudo para os leitores que abram suas prateleiras para livros que não se encaixam rapidamente no “desejável”, no “correto” e suas derivações identitárias.

É meio estranho dizer, eu sei, mas urge gostar do que não se gosta. Para o bem da compreensão que a literatura pode fornecer às pessoas, nem que seja por meio dos livros. Pode não ter tantos “ameis”, mas é muito mais parecido com a vida.

Relatos póstumos de um suicida
de Cassionei Niches Petry, (publicação da Class, 2020).

A flauta de Sepé

José Tyarayu.

O índio que bateu-se contra gauchos e portugueses, sendo mais tarde adotado por sua tradição.

Não suficientemente português. Não o bastante espanhol. Assassinado por ambos.

Não comunista que clamasse ser o “dono” das terras, mas independente.

O santo cuja graça mal se alcança, pois sequer compreende-se o que ele oferta.

O herói que morreu protegendo a vanguarda dos índios em fuga.

O vilão das tribos inimigas charruas, minuanos, arachanes, insubordinadas para sempre.

O índio e os violinos improváveis, e seus livros em grego e latim.

Chaga aberta do Ocidente na memória da América Latina. Uma de tantas.

O personagem padrinho daquele Pedro Missioneiro.

O tio de tantos piás. Seu ídolo e exemplo

José, cujo nome é tão comum quanto uma folha de sepé.

Intrépido e temerário, jogando o peito nu de encontro aos bacamartes.

E no escuro da noite, um gemido de flauta e o lunar tremeluzente, por entre as nuvens e o tempo.

Entre outras mil

Não sei se por culpa da aceleração de tudo, da pressa ou do que mais, mas eu tenho tido nos últimos tempos cada vez mais dificuldade para me concentrar na ficção. Ficção de um modo geral, mas especialmente novelas e romances. Já venho assim há uns anos: deixo para o fim do ano, para os meses de verão, a leitura de prosa longa. Durante o ano, prefiro ler não-ficção (cabe bastante coisa aí nessa gaveta) e poesia.

No fim do ano passado, entretanto, pouco antes do Natal e logo depois do Ano-Novo, nesse intervalo, eu li de enfiada uns quantos livros de ficção que não me causaram aquele desvio mental que essa esse tipo de leitura vinha me proporcionando. Quer dizer, pude me concentrar com muito mais facilidade. Vão me chamar de bairrista, eu não me importo, mas todos eram de autores gaúchos. Em função e em razão da Sepé, eu procurei ler os autores e poetas daqui que eu não conhecia ainda e outros que conhecia e que haviam publicado recentemente.

A pilha ainda não acabou, mas já encontrei vários livros muito bons. De alguns já comentei por aí, de outros ainda não. Mas hoje eu queria comentar a respeito de um o qual especialmente gostei muito. É o Entre outras mil, da Rochele Bagatini e publicado pela Diadorim, editora daqui de Porto Alegre.

Antes de qualquer coisa, eu digo que não faria isso se não tivesse gostado mesmo do livro. Se não tivesse gostado, não teria inclusive lido até o final. Teria o Entre outras mil ido parar literalmente entre os outros mil inacabados que referi acima. Eu sei que há leitores que têm paciência para encantar-se com um livro lá pela página 139. Não é o meu caso. Isso se aplica – para mim – tanto para autores iniciantes quanto para consagrados. Eu estimo que esse meu comportamento seja muito mais adotado que assumido, mas não vejo problema nenhum em admiti-lo e isso também não cria em mim uma regra. Há autores cuja narrativa exige um tempo maior para que a gente se acostume por uma exigência estilística, um contexto cultural específico ou coisa assim. Não é de livros assim a que me refiro, mas daqueles que enroscam o leitor na tentativa de aprisioná-lo e acabam sufocando-o.

Entre outras mil passa longíssimo dessa situação e isso eu pude ver nele logo ao ler suas duas primeiras páginas. Em primeiro lugar, a novela me pegou pela maciez da prosa e pela objetividade narrativa. Entenda-se bem que, para mim, maciez não é o mesmo que melosidade. Tem mais a ver com a prosódia mesmo, com o modo de dizer e de projetar na mente do leitor a voz das personagens. Pode-se trocar o termo por “fluidez” também, mas eu prefiro “maciez” porque é também a qualidade de um texto que não se vale de tombos, golpes bruscos ou efeitos assim. Nada disso. Trata-se de uma prosa que dispensa airbags e não sacrifica a suspensão do leitor.

E essa metáfora mecânica, automobilística, ou melhor, a sua falta é justamente uma das características que muitas vezes me tem feito abandonar uma novela ou romance. Trafegar cento e tantas páginas aos solavancos exige do leitor muito mais do que paciência. Exige um kit de primeiros socorros com direito a calmante ou estimulante, a depender.

A segunda característica que me ganhou em Entre outras mil foi a objetividade narrativa que a autora maneja com muita maturidade. Não é lá muito bom que a gente saiba do que trate todo um romance para gostar do livro, mas a identificação de um contexto, de um enredo, principalmente quando não se está num projeto psicológico e introspectivo, parece ser cada vez mais dispensável na prosa contemporânea. Sabe aquela sensação de estar por horas a fio navegando na bruma da imprecisão (e aos solavancos sintáticos)? Em Entre outras mil a gente não sente isso e o resultado dessa combinação não é outro que um texto agradável, fluido e nem por isso frio, dado que a narradora é inteligente e observadora: uma mulher em busca de resolver dramas familiares complexos vivendo o que deverá marcar a transição para a sua vida adulta.

Além disso, há um enredo muito rico no qual personagens não são casuais, mas indispensáveis à construção da personalidade da protagonista/narradora e um panorama da condição feminina na história recente, marcada sobretudo pela presença da telenovela como fonte mediadora das mentalidades. Raquel, a protagonista de Entre outras mil, é uma personagem que vem do interior para disputar na capital do Rio Grande do Sul a emancipação de um passado no qual o fantasma do abandono familiar a revisita provocando-a a questionar-se (e muito) em relação as suas próprias expectativas de vida. Não sei se pode dizer que é um romance de formação porque ali não está a formação uma escritora, mas alguém que ambiciona a carreira de juíza. Então talvez se pudesse dizer um romance formativo. Formativo e muito fecundo para um lançamento de uma autora que se diferencia bastante e positivamente de um contexto de livros de ficção um tanto apáticos como os que marcaram as primeiras décadas da novelística rio-grandense deste novo século. A determinação e inteligência da jovem Raquel garantem ao livro uma prosa vigorosa, de uma autora também vigorosa como sempre estamos precisando muito.

Liberdade e opressão em Simone Weil

Revista Amálgama

Em julho de 2020, a editora Âyiné fez jorrar para o público brasileiro um tanto mais da obra da filósofa francesa Simone Weil (1909-1943). Por meio da tradução de Pedro Fonseca, um dos sócios da editora nascida veneziana e já naturalizada brasileira, veio a público o trabalho que Simone terminou de redigir quando contava com apenas 25 anos de idade, em 1934, Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social (Âyiné, 2020). É um opúsculo que impressiona desde a primeira página (leia no Estado da Arte a reprodução do trecho inicial do livro) tanto por constituir uma crítica contundente (e precoce) em relação à experiência revolucionária russa de 1917 quanto mais por situá-la e situar-se ainda mais em favor daqueles que, de acordo com ela, continuaram submetidos à tirania produtiva que a revolução de outubro em nem um momento cessou ou fez modificar a relação de opressão exercida dali em diante pelo regime bolchevique por intermédio do Estado.

Trata-se de uma cronologia bibliográfica que aos poucos se vai montando, apesar de que apenas nos melhores sonhos dos seus leitores imagine-se vertida ao português uma obra que em sua edição critica é composta por sete tomos, dezesseis volumes e cerca de sete mil páginas, de acordo com o projeto editorial da Gallimard para as suas Ouvres Completes. O público brasileiro, acostumado à oferta em conta-gotas de trabalhos esparsos e coletâneas de Simone, ganha agora a possibilidade de conhecer esta que, de acordo com ela própria, seria sua “primeira grande obra”, e que ela redigiu pouco antes de partir para as linhas de montagem da Renault na qualidade de operária.

Alguns anos antes, em 2018, a Âyiné já havia publicado de Simone o ensaio/manifesto Pela supressão dos partidos políticos (Âyiné, 2018). Escrito logo após a ocupação nazista e sob o impacto do colapso político francês de 1940, o texto foi um dos reunidos por Albert Camus para a coleção Espoir para a Gallimard em 1948, sob o título geral Écrits historiques et politiques. Camus, aliás, reconheceu desde o primeiro momento em Simone a consistência do seu pensamento político, principalmente a partir da sua leitura de L’Enracinement (O Enraizamento, em edição esgotada e publicada no Brasil pela EDUSC – Editora da Universidade Sagrado Coração, em 2001).

Obra derradeira e, de acordo com ela, sua “segunda grande obra”, O Enraizamento (cujo título completo em português seria O Enraizamento. Prelúdio a uma declaração aos deveres relativos ao ser humano) teve o texto interrompido pela morte de Simone, em 1943. No entanto, desde sua publicação póstuma, em 1949, logrou a consideração de filósofos que confirmaram a impressão de Camus quanto à consistência teórica da sua percepção ética e política e clareza de princípios, tais como como Hannah Arendt, Giorgio Agambem, Michel Serres, Maurice Blanchot, Georges Bataille e Emmanuel Levinas.

Porém o interesse por sua obra não tem se limitado, desde então, ao mundo dos estudos formais. Se for certo que a recepção de seu trabalho possa ter repercutido mais em função da intensidade do seu desfecho biográfico e suas inclinações místico-religiosas do que por ter deitado influências em seguidores acadêmicos, por outro lado é possível entendê-la como uma pensadora não autolimitada, mas definitiva em si mesma. Talvez por essa razão seu nome seja frequentemente lembrado em momentos de crise política e moral.

Deste modo foi que provavelmente descobriram-na os norte-americanos embrenhados nos conflitos dos anos 60 do séc. XX, por influência de Susan Sontag; de maneira semelhante, redescobrem-na hoje, em meio à era Trump, por intermédio da recriação proposta por Patti Smith em Devoção (Companhia das Letras, 2018); e, talvez do mesmo modo, a editora Âyiné tenha pensado no Brasil contemporâneo ao lançar por aqui um trabalho de forte crítica ao mundo politico como em Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social.

Não deixa de ser curioso que é na autora que aos 25 anos já havia compreendido as limitações da ordem politica e viu as utopias revolucionárias bordarem-se do sangue de inocentes e procurou ver e viver na própria pele a experiência da opressão pelo trabalho – ao mesmo tempo que recusava qualquer entusiasmo partidário e a frivolidade burguesa – que se busque alguma forma de inspiração ou, que seja, consolo. Há mesmo na filosofia de Simone Weil o sentido de devastação histórica que é muito presente nos artistas que viveram a vertigem do entre guerras e a ascensão do horror nazista. É equivocado pensar que, todavia, trate-se de uma pensadora de fragmentos levada ao sabor da história ou da loucura, como insinuaram personalidades que travaram contato com ela, tais como De Gaulle, que a denominou por “louca”, e Leon Trotsky, que a definiu como uma “revolucionária melancólica” e “anarquista barata”. Ainda assim, não é menos sintomático de um século em chagas que tenham sido poetas como T. S. Eliot, W. H. Auden, Czeslaw Milosz, Seamus Heaney e Flannery O’Connor a perceber a potência do pensamento de Simone e a redimir sua memória.

Eliot, que prefaciou a primeira edição em inglês de O Enraizamento, em 1952, recomendou àqueles que buscam conhecer o trabalho de Simone para que não evitem seus paradoxos, mas que busquem compreendê-los tanto no que se referem às questões religiosas ou políticas, e que procurem ao máximo evitar a refração moral e o simples antagonismo intelectual na sua leitura. Para o poeta de The Waste Land, “she appears as a stern critic of both Right and Left; at the same time more truly a lover of order and hierarchy than most of those who call themselves Conservative, and more truly a lover of the people than most of those who call themselves Socialist / ela surge como crítica severa tanto da direita quanto da esquerda; ao mesmo tempo mais verdadeiramente uma amante da ordem e da hierarquia do que a maioria daqueles que se autodenominam conservadores e, mais verdadeiramente, amantes das pessoas do que a maioria daqueles que se autodenominam socialistas”.

Essa percepção totalizante da visão de mundo e do trabalho de Simone que, de acordo com uma de suas principais estudiosas no Brasil, Maria Clara Bingemer, está presente nela desde suas inclinações infantis e juvenis, transparece na consistência e contundência com que formula sua crítica desde os rascunhos que resultaram nestas Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social.

Desde que iniciou seu trabalho como professora até sua morte, Simone Weil viveu intensamente o período mais intenso da história do séc. XX e justamente em seu epicentro. Simone esteve na Alemanha, lutou na Espanha, participou da resistência francesa, esteve em Londres, viajou aos Estados Unidos, à Itália e viveu a vida como uma experiência religiosa, de aprendizagem sensível. Além de encontrar-se com a vivência da experiência mística e da leitura precoce de muitas tradições (sejam orientais ou ocidentais), nunca deixou de pensar a filosofia política. Possivelmente, também por evitar alienar o seu pensamento ou ter seccionado o ser político do espiritual, tenha-lhe sido tão natural entregar-se ao pensamento teológico. Mesmo assim, até o último momento de sua vida, Simone manteve a critica política ao purismo religioso em face sua repulsa ainda maior à violência, jamais deixando de lado a consideração da Inquisição e das suas ideias sobre a força política (1) e seus usos moralmente cediços.

Neste momento crucial brasileiro, a publicação de seus textos políticos é muito bem vinda, uma vez que permitem e convidam a uma reflexão desembaraçada e desimpedida. Longe de qualquer comparatismo, é relevante perceber-se que o tempo de agora não pode parecer acelerar-se mais do que aquele que no espaço de menos de uma década levou o mundo de uma mera eleição ao colapso geopolítico mundial. Ao publicar os trabalhos de Simone Weil, a editora Âyiné lança a esperança de que possa continuá-lo, talvez, a seguir, com O Enraizamento. Uma obra que trata de reconstruir o mundo devastado pode colaborar e muito em que não se desperdicem esforços políticos e vidas humanas em vão.

(1) Assista no link a seguir a leitura dramática que Simona Giurgea, professora titular de inglês no University Theatre, Colgate University, fez de Ilíada ou o poema da força, ensaio no qual Simone Weil explora o trabalho de Homero para ilustrar a sua tese a respeito da força. O texto encontra-se publicado no Brasil nos livros Simone Weil: a força e fraqueza do amor, de Maria Clara Bingimer (Rocco, 2007) e Ilíada, de Homero, trad. de Trajano Vieira (Ed. 34, 2020).

A nota amarela

Meu caro Gustavo

Começo a te escrever sem ter concluído inteiramente teu livro. Quando isso me acontece, é porque nele algo me capturou como a presa que deve, talvez, ser idealmente todo o leitor. Ah, que história fabulosa a dessa violoncelista, meu caro amigo! Eu imagino que longos devem ter sido os dezesseis anos que o tempo desse concerto gotejou em tua mente! Imagino nem porque já passei envolvido com histórias alheias, de pessoas reais, por longo tempo também, e sei que, ao mesmo tempo em que desejamos avançar na narrativa, às vezes precisamos apenas parar e entender o que estamos fazendo e muitas vezes retardar imprevisivelmente qualquer insinuação de desfecho.

Mas não é por compartilhar da angústia de escrever que fui capturado, mas pelo desejo absurdo, sei que absurdo, de escrevê-la contigo. Não intrometer-me no teu fluxo mental, longe disso, mas de ver junto a ti e compartilhar aquele momento em que tu, como escritor, agias já mediunicamente. Bem, isso não é uma teoria minha nem tenho ensaio escrito a respeito disso, mas a sensação de se apoderar da biografia de alguém eu acho que fatalmente leva a que experimentemos até fisicamente sua condição.

No teu caso, que tratou de uma musicista que é possível inclusive assistir em execução em vídeo, penso que deve ser irresistível experimentar a sensação e a descoberta de que por meio da própria execução musical algo esteja ocorrendo sensorialmente, fisicamente. Que ousado isso, Gustavo! Muito corajoso mesmo!

Bem, até onde sei o amigo não é músico. Ou é? Ou, pelo menos, já experimentou utilizar dessa linguagem perecível, a menos duradoura dentre todas? Bom, não tenho essa resposta e nem acho que precise tê-la afirmativamente, mas eu te garanto que tua percepção do ato musical, mesmo externo, internalizou-se muito bem. Se estou errado, todavia, e pelo menos brincas de tocar um instrumento (e esse é o meu caso também), então deves saber a espécie de sensações e insights que a execução musical causa. Mas eu intuo que não, que tudo seja um exercício devocional. Devocional e especulativo. Depois me contas.

Voltando à leitura, bom, a sua primeira parte é de ler num instante só. Na duração do próprio concerto, se possível. Ou de alguns replays. E aqui eu confesso algo que poucos sabem, sou um escritor músico-dependente. Quero dizer que a música faz parte inteiramente da minha forma de concentração. Quando começo a escrever narrativas longas, preciso saber antecipadamente que trilha sonora me acompanhará e até o que estarei escutando no momento de atingir determinado momento. Isso tudo me aconteceu com o livro do pequeno Darwin, claro, mas, depois, com tudo o mais que escrevi. Sejam contos, novelas ou mesmo o romance Trapézio. Duvido que os leitores percebam isso, mas o andamento narrativo de cada um está/foi determinado por trilhas sonoras ouvidas exaustivamente. É uma pesquisa prévia que faço logo ao começar a escrever e não é apenas de motivação minha, mas de modulação, ritmo, harmonia e melodia. Para mim, ao menos, não há forma mais rápida de voltar ao estado de concentração anterior que sendo retomado pela música. Dito isso, volto ao teu livro e a sua segunda parte. Esta, eu ainda estou concluindo e me demorando bastante em refletir a respeito da tua experiência e percepção e comparando com minhas próprias convicções (?) ou impressões.

Ensaísta perfeito, e que consegue unir perspectiva de autor e leitor e ser humano ao mesmo tempo, é um deleite esta segunda metade e me cabe, sim, retardá-la e prolongar o tempo da reflexão. “Tempo”, aliás, tratado habilmente pelo amigo e isso posso ver pelo respeito que dedicas a essa dimensão física e metafísica. No capítulo IX do ensaio, encontrei como poucas vezes a expressão de um tormento que sempre me ocorre ao escrever, que é subordinação do tempo ao tempo. Ou ao tempo do tempo. Eu nunca sei… Porém compartilho inteiramente da sensação de que um narrador (especialmente se interno) dispõe de muitas camadas temporais para situar-se e, se não é possível perder-se no espaço, o tempo é, por sua vez, uma dimensão convidativa e apelativa. O amigo colocou no seu livro, com propriedade, um metrônomo e um cronômetro para instrumentalizar e “disciplinar” o tempo com conveniência e sem perder sua amplitude. Para mim, é um verdadeiro ensinamento.

Como quem padeceu igualmente de crises labirínticas, leio com calma teu ensaio e evito a vertigem da leitura desenfreada. Como aquele Teseu, adentro os domínios de Minos com cautela até porque em seu coração, além da nota amarela, sei que há um homem dominado pela paixão pela arte como poucos se encontram hoje, tenho certeza disso. De forma que agradeço muito pela oportunidade de encontrá-lo e de me permitir aumentar o momento narrado da cellista du Pré para de volta ao não-escrito, o espaço do leitor, que muito habilmente o amigo sabe respeitar.

Muito obrigado, Gustavo, pela leitura imensa que me deu no fim desse ano infindável. Vamos aumentar essas histórias, escrever outras, tomá-las e sermos tomados por elas como a música que preenche tudo e ao mesmo tempo se esvai, porque, se não, a vida é mesmo um escorrer vazio da areia que nos entontece e perturba. Por nos desfazer e a si própria no tempo, mas por nos conduzir, a música é, como insinuou Joseph Campbell, o sangue invisível dos deuses. Há livros que fixam esses momentos por uma intuição à nota amarela. O teu é um mapa muito pessoal desse encontro, mas dadivoso como é em essência a natureza humana do amigo.

Texto adaptado de correspondência enviada ao autor de
A nota amarela seguida de “sobre a escrita: um ensaio à moda de Montaigne”,
de Gustavo Melo Czekster (publicação da Zouk, 2021).

Contra o ódio

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 19/12/2020.

A editora veneziana Âyiné desembarcou no Brasil há não muito tempo. São cerca de três anos incompletos. Desde Belo Horizonte, ela vem distribuindo no Brasil um invejável catálogo de pequenas e cuidadosas brochuras que portam trabalhos de intelectuais estrangeiros que as demais editoras brasileiras costumam publicar apenas eventualmente e em tiragens restritas. Entre os autores já publicados, pode-se encontrar desde intelectuais conservadores, como Isiah Berlin e Roger Scruton, até pensadores de esquerda, como Giorgio Agamben e o melhor livro do coreano Byung-Chul Han publicado por aqui, Psicopolítica, além de outros autores e autoras menos difundidos. Em 2020, entre os muitos títulos editados, a Âyiné trouxe para o Brasil o livro Contra o ódio, da filósofa e escritora alemã Carolin Emcke. Um livro que dialoga com o sentimento que fervilha no mundo presente e é capaz de, de acordo com autora, mover o mundo em muitas direções.

Publicado na Alemanha em 2016 e em 2019 na Inglaterra, no exterior o livro foi recebido como um libelo em prol da tolerância e da democracia pluralista ao tempo da emergência do radicalismo populista. É um livro que no Brasil vai encontrar uma concorrência fraca, dado que os títulos políticos locais se mostram muito mais embaraçados com a crise do modelo econômico, a ontologia da crise político-institucional e a diagnose de seus efeitos, isto é, os libelos aqui continuam tão indefinidos quanto as previsões eleitorais para 2022. De outra sorte, os valores embutidos na moeda do ódio aqui ainda parecem não ter se definido completamente; infelizmente, não a ponto de que o jogo político pareça poder dar-se sem a sua onipresença. Apesar de que o desgaste psíquico da nação tenha sido tremendo desde antes da última eleição presidencial, a impressão mais corriqueira dentre a opinião pública é que ainda temos muito dissenso por gastar até chegar a um novo degrau de convivência e acordo, se é que não é possível mesmo descer ainda mais um pouco na incivilidade. Trata-se de um risco que se tornou permanente.

É bem nesse sentido que o livro de Carolin pode colaborar em arrefecer um estado de espírito que favoreceu todo um vernáculo odioso que se passou a experimentar na mesma medida em que os meios de comunicação foram se tornando mais permeáveis, quando não abolidos por segmentos importantes da população desde aí informados por fluxos não claramente canalizados nas redes. No entanto, o mais relevante de imediato talvez fosse não apenas erguer do chão um animal político em condições de pacificar o caos, mas um que inspirasse a sociedade a refazer-se nos seus tecidos mais sutis e esgarçados e recuperasse a relevância de temas caros a um projeto de interesse público e comum, como melhor educação, acesso à renda, segurança, direitos e proteção social. Trata-se de um vocabulário também deixado de lado pela versão nacional do neoliberalismo que resultou numa crise que vem arrastando o país por longos anos já.

O livro de Carolin não traz, todavia, pacotes ou soluções econométricas para o reestabelecimento da convivência social. Tal espécie de ajustes, aliás, parece mesmo integrar cada vez mais claramente o problema do que a solução para tanto. De outro modo, Contra o ódio vai explorar mais as mazelas e manifestações políticas decorrentes da crise moral do modelo social global do que problemáticas abrangentes como as da macroenomia ou do método político. Desde que se assuma que as pessoas não experimentem ou percebam vivenciar efeitos diretos de assuntos globais como esses, é muito possível identificar que ela está mais interessada em acertar o ponto da vacina do que em eliminar radicalmente a moléstia da crise.

Não se pense, entretanto, que, dada a complexidade do tema e por notá-lo em suas manifestações mais efervescentes, trate-se de tarefa banal que a autora discorre desinteressadamente. Não é. Antes de dedicar-se a escrever ensaios filosóficos, Carolin atuou como jornalista em regiões de conflito por um bom tempo. Para a Der Spiegel, ela cobriu o árduo tema da imigração na Alemanha e as manifestações de xenofobia em solo europeu. Além disso, formou-se em Frankfurt sob a orientação do filósofo Axel Honneth, aluno dileto de Jurgen Habermas e principal desenvolvedor da Teoria do Reconhecimento. A influência desse pensamento se faz notar no livro de Carolin muito rapidamente, uma vez que seu propósito centra-se claramente em defender a noção de que a democracia contemporânea passa necessariamente pelo enfrentamento à intolerância e seus desdobramentos micropolíticos. É desde essa experiência e formação que ela toma a decisão de esmiuçar o sentimento de ódio e a violência procurando demonstrar como enfraquecê-los politicamente – este que é o objetivo central do seu ensaio.

Deste modo, o jornalismo e o relato vívido de situações contemporâneas contrapostos tanto à filosofia quanto à literatura a respeito da invisibilidade social, como o clássico O homem invisível de Ralph Ellison, fazem do livro de Carolin um ensaio truncado em temáticas, mas não em linguagem. É compreensível, pois abordar realidades violentas como as experimentadas pelo racismo, xenofobia, transfobia e outras manifestações discriminatórias radicais requer sobretudo um olhar direto e franco. Nessa perspectiva, Carolin em nem um momento permite-se teorizar a respeito dos fatos a que se refere. Pelo menos, em bem poucos momentos chega a converter a situação existencial das pessoas em especulação teórica, de gabinete. Por certo o jornalismo deu-lhe a mobilidade tão necessária a quem pretende encontrar-se com a dinâmica da exclusão, e não meramente observá-la entre os livros, à distância.

É justamente daí que a oportunidade de sua leitura compreende em facilitar a aproximação de pessoas que não experimentam ou praticam o discurso de ódio, mas tomam parte dele ao engajarem-se em outras formas não tão graves de violência, mas não livres de efeitos, como o silenciamento e a cumplicidade com gestos odiosos e suas expressões de violência. Nunca é demais lembrar que o Brasil, bem como outros lugares do mundo, vive muito a expectativa da doutrinação política, ou seja, recomendações do que se pode ou deve expressar principalmente no ambiente aberto das redes é policiado ou estimulado mais ou menos abertamente.

Quem nunca viu ou teve o azar de experimentar contra si a expressão em massa de agressões excludentes e recriminações costuma, inclusive, reportar essa espécie de abordagem como cerceamento à liberdade de expressão e outras justificativas antecedentes, como se houvesse uma razão histórica ou política solicitando essa espécie de confirmação. Contra o ódio, o livro de Carolin Emcke, não tem a pretensão de frear por completo a escalada de animosidade política e antipolitica presente. Seu livro está longe de ser, por exemplo, um manual de aplicação da lei de incitação aos crimes de preconceito ou uma defesa ideológica da criminalização da homofobia ou psicofobia. No Brasil, seria um livro quase sem efeito, pois o estatuto legal de proteção às discriminações é pouco organizado, difundido e aplicado. Seu mérito maior não está em, portanto, permitir essa aproximação ou equiparação, mas, por outro lado, em procurar inibir a exposição de pessoas vulneráveis tanto à violência interpessoal quanto institucional. Como se sabe, muitas vezes ambas as violências fartam-se na mesma mesa e com o mesmo alimento. Que o sentimento de ódio não constitua o prato principal é o que parece clamar o livro de Carolin porque, como tempero, por outro lado, parece ser infelizmente inerente à condição humana. Sua proposta não é sequer saber dosá-lo, mas nos permitir perceber quando está comprometendo a refeição e entender como evitá-lo.