Incrédulo

Sei que muitos que me conhecem me tomam por cético (como se isso fosse algo essencialmente ruim e não apenas um método tortuoso de pensamento que somente me dificulta as coisas), mas, na verdade, sou apenas incrédulo. Não sou nem um pouco cético quanto às pessoas desenvolverem e aplicarem suas melhores capacidades, apenas sou incrédulo quanto a que boa parte destas mesmas pessoas desejem isso efetivamente, portanto basta que me seja demonstrado o contrário e eu mudo de ideia sem dificuldade alguma.

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Defeateds

my dear B, when you died
I did not cry so much, but you don’t need
forgive me, I did
and still thank you
the few years that divided
all that misery
and our great and unforgettable friendship

I remember when you were sad
by continuous returns
to never realized hopes
“Life is like that,” I told you
without having any idea of what life was
and what happened to you

and when you fell in love
and that was inaccessible to you tell her or show it
because he never listen to you
and you taught me
to trust more in poetry than in love

today I’ll take a few heavy beers
in your memory

You knows
I have only good memories of us
and I want to thank you for having disappointed me early
about the good men and men of faith
and about yourself as well
this was your greatest proof of friendship

I remember we were looking together in books
which is not met in the streets and bars
and people had helmeted face
and dirty jokes and closed minds
like an crazy army

when things started to not give too sure
in your life
I did not know your address and your phone
or and even if you still remember me fondly
or contempt for it (I think I don’t deserve)

today I will drink white wine that I never could bear
in our memory

I need to forgive you by me
my descent and my destiny
you please to free himself from me
now that you cannot
I know that in one way or another I marked your life

the way the horses marks the abundant pasture
whales marks the forgotten water
the birds in the empty wind
and life marks the universe and history
(vainly)

because it was you that was my best memories
and no one else, when I was pure, but it was not sweet
when not yet grown accustomed to lie and to lie
when I sought to know without any suspicion
when I would rather do nothing
to live the lie of others
and you helped me understand that we were always alone
despite the love and hate that they keep for us

my dear B, when you died
I was glad to hear that you did not suffer
more than myself to know that you died

today I’ll drink the same cheap cognac with which we faced the cold
in my memory

[uma versão em português deste poema está publicado em Falso Alarde]

O leitor como metáfora (e realidade)

De década em década, o argentino naturalizado canadense Alberto Manguel refaz do seu principal objeto de estudo: a história da leitura e dos livros. No final de 2017, foi a vez das Edições SESC engrossarem sua bibliografia brasileira com a publicação de O leitor como metáfora.

Autor de dezenas de títulos, dentre os quais os já clássicos A história da leitura (1996) e A biblioteca à noite (2006), Manguel, que em 2016 voltou a Buenos Aires para dirigir a Biblioteca Nacional da Argentina, empreende em seu mais recente livro uma criteriosa investigação taxonômica a respeito dos leitores. Mesmo que possa tratar-se de modelos ideais, ou protótipos, é de pensar se seu objetivo não seria justamente identificar as pessoas potenciais com que atingir tanto através de suas obras quanto por sua atuação a frente da prestigiosa instituição. Seja como for, é bastante provável que ele se valha muitas vezes de sua própria experiência como leitor para uma das mais antigas tarefas que se realiza em bibliotecas: a classificação.

Na proposta de seu ensaio, basicamente o que se distinguiria são três espécies de leitores. Como expresso com muita clareza no título, haveria por primeiro o leitor viajante, ou seja, aquele que porta e deixa-se levar pela silenciosa aventura livresca; os que buscam o isolamento mundano e o conhecimento através da leitura (os ocupantes da torre); os que devoram (e porventura por eles são devorados) livros com avidez indiscriminada e que não poderiam ter denominação diversa de “traças”.

Embora simples, a taxonomia de Manguel tem o apuro de um leitor dos mais experimentados. Ao invés de uma proposição meramente literária ou historicista, Manguel vai organizando, das tradições literárias, as metáforas e significações que o ato de ler revela da relação do humano com o mundo; ao menos em sua experiência, não haveria interpretação do mundo sem leitura e por essa razão o ato de ler espelharia as próprias capacidades interpretativas dos indivíduos. Mas, se serve de advertência, é provável que quem buscar encontrar em seu livro apenas laivos de uma erudição afetada será, entre os leitores, o que mais se frustrará. As citações de Manguel também não obedecem a nem uma espécie de crivo acadêmico e dizem mais respeito aos encontros que escritores e leitores parecem operar durante a experiência de leitura mesmo que séculos após a morte dos primeiros; mesmo que os meios para tanto não sejam necessariamente o do texto impresso. A felicidade da leitura e de seu “ofício”, para Manguel, estaria mais relacionada ao empenho e enlevo que o leitor desenvolve pelos livros a partir do efeito da leitura do que por qualquer culto material do objeto livro.

Transportando as suas diferentes “espécies” de leitores através dos tempos, ele vai dessa forma dirigindo os leitores às suas respectivas metáforas; em determinado momento chega a parecer que deseja mesmo encaminhar os leitores de encontro aos autores que vai identificando em sua taxonomia. Remetendo-se desde a antiguidade sumeriana, através da epopeia cuneiforme de Gilgamesh, passando pelos manuscritos de Dante, os códices de Leonardo e chegando aos já impressos Shakespeare, Cervantes e Montaigne, Manguel avança em direção ao séc. XX ao mesmo tempo em que regressa livremente a autores de todas as épocas, sempre que um autor possa lhe servir na exemplificação das muitas formas de existir no mundo, de comportar-se nele e também de recriar continuamente a experiência da vida, esta que seria a tarefa inadvertida dos escritores de todos os tempos e culturas.

Ao passo em que pode ser percebido tanto quanto uma continuidade de sua permanente exortação à leitura, para leitores menos experientes, todavia, seu livro pode ter um efeito, digamos, acachapante. Ou como poderiam sentir-se leitores inexperientes diante de um desfile intermitente de nomes, títulos e citações? Dotado de um conhecimento que se poderia denominar por enciclopédico e não fossem escritos sem o menor traço de pedantismo, seus livros poderiam muito bem ser tomados como proselitismo cultural ou fútil ostentação. Porém não é disto que se trata; longe disso.

Antes de qualquer coisa, é preciso saber que se trata de um autor cuja principal preocupação é a difusão do hábito da leitura e, a menos que se tenha inventado alguma espécie de malabarismo telepático, parece totalmente impossível a qualquer um a tentativa de advogar em nome dos livros sem mencioná-los. Além disso, em sua gestão na Biblioteca Nacional da Argentina, notadamente Manguel vem investindo em todas as frentes: na conservação de originais, na expansão de coleções, na digitalização e difusão intermidiática e na promoção e atração de novos leitores. Em entrevista concedida ao portal Perfil, logo ao assumir o cargo ele já afirmava desejar perseguir a ideia de uma biblioteca para todos os leitores e interessados. Parece que a ideia borgeana de uma biblioteca universal, pelo menos em solo argentino, encontrou finalmente quem a desejasse continuar.

Não é à toa. Enquanto ao mesmo tempo abandonava a instrução formal da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, por considerar os estudos formais aborrecidos, o diletante Manguel iniciava sua carreira literária concomitantemente a de editor. Em meados da década de 60, tornara-se “ledor” de um Jorge Luis Borges já cego e que coincidentemente dirigia a Biblioteca Nacional da Argentina na mesma época; desse encontro é como se houvesse estabelecido para ele um encantamento pela literatura e, sobretudo, pela leitura enquanto hábito individual. Sua formação, completada pelo trabalho como jornalista e editor, é a de quem erigiu uma carreira viajando através de vários países e investigando incessantemente a história literária. É muito provável, portanto, que Manguel tenha desenvolvido a taxonomia do seu novo livro também a partir da auto-observação.

Quanto ao que se refere ao desejo de fomentar a curiosidade nos demais, este parece ser um hábito comum entre os bibliófilos de um modo geral. Porém, como parece ser recorrente a quem tem por missão institucional propagar o livro e a leitura, um impasse oculto às vezes mostra suas sombras em seu livro. Trata-se da irresolução peremptória da efetividade de qualquer política cultural voltada ao assunto e expressa na dicotomia estabelecida entre, por um lado, a popularização do hábito da leitura e, por outro, a especialização do público leitor.

Provavelmente por ser um autor prolífico e a primeira vez que Manguel está atuando institucionalmente (e logo na mesma biblioteca que Borges dirigiu), outras reflexões a respeito do assunto deverão advir da experiência. Isso no que toca aos interessados no assunto deverá ser um deleite por si só, ainda mais que, após a morte de Umberto Eco, há cada vez mais poucos autores notabilizados pela devoção e divulgação da cultura livresca universal quanto Manguel. Há com certeza os historiadores que se dedicaram ao tema, como Roger Chartier e Robert Darnton, mas em ambas as investidas historiográficas o que se mais pode notar são preocupações que giram em torno de explicar a evolução da tecnicidade da instrumentação escrita, sua reprodutibilidade, análises sobre o colapso do espaço físico das bibliotecas, a expansão contínua dos formatos digitais e a segurança e conservação do conhecimento em vista ao desenvolvimento das tecnologias da informação.

Sem dúvida que todas as preocupações e iniciativas em utilizar beneficamente os recursos tecnológicos são bem vindas e necessários, mas em absoluto não é este o centro das inquietações de Manguel. Para ele, interessa mais seduzir e cativar ao leitor do que porventura ele possa estar perdendo do que condená-lo à danação da ignorância, como, aliás, convém a um bibliotecário proceder. De todo o modo, não se imagine que equilibrar uma equação dessa natureza é tarefa fácil do ponto de vista da gestão cultural de acervos bibliográficos. O que não parece faltar em Manguel, todavia, é o cimento de não desviar-se de um trabalho de lenta e muitas vezes invisível consolidação dos espaços afetivos e também físicos com que uma sociedade se relaciona com a cultura letrada, que parece cada vez mais dispensar de quem a organize, valorize e promova.

Seja como for, na vizinha Argentina ou aqui mesmo, no Brasil, as dificuldades são inumeráveis e o cenário educacional e cultural um tanto quanto amedrontador. Não são comparáveis, portanto, aos moinhos do Quixote, os desafios de quem propugna por valorizar os livros e a leitura. Neste caso, os gigantes podem ser compreendidos em dados obtidos regularmente através de pesquisas e levantamentos que se fazem em todo o mundo, inclusive no Brasil.

No Brasil, quanto e como se lê?

Dos indicadores e estatísticas a respeito do Brasil contemporâneo, poucos soam tão assustadores quanto os dados sobre proficiência em leitura levantados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Banco Mundial através do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa).

No relatório, pode-se saber entre outras coisas que no que diz respeito à eficiência com que um texto escrito é interpretado, o Brasil mantém-se estável desde 2006, mas com indicadores mais distantes da média dos demais países aferidos e, por outro lado, mais próximos das piores taxas, além de projetar uma defasagem em relação aos países desenvolvidos que se resolveria em séculos ainda (cerca de 256 anos). Unindo-se os resultados aos de outras pesquisas, como a Retratos da Leitura no Brasil, promovida pelo Instituto Pró-Livro e realizada pelo IBOPE, a sensação é de premência de uma calamidade. Trata-se, porém, de uma calamidade silenciosa e que ao longo do tempo tem ensurdecido autoridades, editores, educadores, bibliotecários, autores e também o público leitor.

De que se trata de uma situação complexa quase ninguém duvida e não raro as manchetes dos periódicos triunfam com os maus indicadores brasileiros. O caminho da resignação, sempre o menos escarpado, todavia parece sempre conduzir a um senso de conformidade reincidente. Ajuda menos ainda a combalida autoestima nacional a também reincidente comparação com os dados de leitura da vizinha Argentina. Ainda que a afirmação de que apenas Buenos Aires (ou, num arroubo platino, apenas a Calle Corrientes) pudesse ter mais livrarias do que o Brasil inteiro seja fantasiosa, dados da Market Research World, no assim denominado Índice de Cultura Mundial, informam que, apesar da veracidade comparativa, o país vizinho também não anda fazendo um retrato dos mais excepcionais.

O que se sabe definitivamente é que, de fato, a situação da leitura é grave e afeta o desempenho cognitivo e cultural de toda a sociedade e de muitos países. Uma vez que o possível amparo da resignação mostra-se incapaz de recolocar em movimento a dinâmica e complexa relação entre a cultura letrada e uma população que ainda deveria ser mais e melhor estimulada a relacionar-se com o livro e os bens culturais literários, o que se pode antever é muito trabalho coletivo pela frente e a necessidade de reflexões ponderadas tanto no que confere ao sistema educacional quanto ao literário.

O cada vez mais difícil de contestar é o fato de que o impasse que a crescente expansão tecnológica deveria colocar entre leitor e leitura vem na realidade esgarçando-se cada vez mais. Não se trata de imaginar que isoladamente e sem projetos consistentes o emprego dos recursos tecnológicos resolverá a situação. Conforme os mesmos dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o constatável é um decréscimo constante do tempo dedicado à leitura (24% entre a preferência total) em comparação ao incremento do uso individual da internet (47% entre a preferência total).

Nos ensaios e artigos que publicou na imprensa a respeito das questões da escrita e do livro reunidos no livro Papel-Máquina, de 2001, o filósofo franco-magrebino Jacques Derrida veio reforçar sua ideia visionária de 1969, em Gramatologia, quando afirmou que desde aquela época o leitor passava a exercer papel imperativo em relação aos meios e suportes de leitura. Derrida, apesar de ter sido a princípio mais um dos estudiosos a denunciar o “fim do livro”, teve a prudência de ponderar igualmente pela infinitude desse processo. Resta entender se a isso convém chamar de impasse ou paradoxo e aguardar por que outros estudiosos venham também refletir a respeito, afinal trata-se de tema de interesse permanente e universal.

De um modo muitas vezes reducionista, boa parte das análises a respeito da vereda tecnológica e da sobrevivência do livro e do texto literário têm, desde o início do novo século, refletido por vezes mais das apreensões individuais do que uma observação mais apurada do contexto cultural amplo senso. Se na história da civilização certa vez a leitura ocupou papel central na formação cultural e de identidade das nações, de fato é preciso admitir que a tecnologia expandiu boa parte dos limites e cerceamentos que havia até meados do séc. XX. Se já foi o veículo de informação por excelência, fonte de entretenimento e suporte privilegiado de comunicação dos bens culturais, hodiernamente a leitura parece-se mais ao substrato multitudinário de uma gama imensa de informações que o veículo de um determinado cânone literário.

A esse ponto, verificar a inundação de livros (e livros nem sempre são obras, como adverte Derrida) e outros formatos de informação é tarefa de facílima constatação. Se a literatura, de fato, vem convertendo-se em testemunhos autorais de um interesse ao mesmo tempo segmentado e restrito e se há como ainda hoje vivificar o interesse de novas gerações por um mundo distante ou por um passado remoto, livros como os de Manguel, usando aqui de metáfora, parecem-se a faróis avulsos de um mundo mais profundo, instigante e enriquecedor que a leitura criteriosa certamente ainda dá a desvendar às pessoas. Pois a prevalência do livro agora possivelmente esteja mais relacionada a uma necessária recuperação e valoração da leitura propriamente dita do que uma substituição de técnicas e formatos. A falta de tempo, justificativa reiterada pelos desinteressados contumazes na leitura, não é furto que se flagre ou perda que aconteça isoladamente, mas a perda (tanto para pessoas quanto para instituições) é lamentavelmente irreparável e o tempo, como se sabe, brevíssimo.

Montante

a vida são coisas perdidas
são louças no momento de partir
e os cacos quando se perdem de nossa menor menção
são lugares pelos quais sem dúvida passamos
e não nos ocorre que possamos lembrá-los

são inúteis regressos a uma vida que não merecemos
e os passos que demos de onde nossa esperança
se reverte em desistência e remorso

a vida são ainda as coisas por perder
fragmentos do tempo que almejamos e vemos desgastados
sem que nos tivéssemos prometido mesmo alcançá-los
porque, ao fim, tudo se debate dentro de sua própria força
e nosso cansaço não podemos remetê-lo
ao montante do tempo só por estarmos convencidos de que lutamos

tais coisas são apenas desprendimentos da vida cotidiana
e, certo, sempre há o momento em que alguém nos chama:
– Aqui, ó Fulano! –
e, ao contrário de toda a desesperança,
essa é uma certeza que ainda requisita nossa comoção
mas sempre parece que alguém nos chama

(1990)

Amazona ferida

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Com seu rosto sereno e inclinado que não
denunciará a dor, posso procurá-la outra vez.

Você sempre a amou – a primeira obra de arte
Que você conheceu pelo nome. Toda a semana

Você me trouxe até ela. Desatenta pelo
Vislumbre do mármore e de seu tamanho

Eu não sabia que você estava mostrando a quem
Eu precisava tornar-me para protegê-la

De tudo o que não você não entendia –
A mulher poderosa surgindo acima de tudo,

Tendo de aprender a sentir cada açoite, cada corte
E continuar em pé, com olhos vazios,

Registrando tudo. Você sabia que ela era
A mãe que você precisava, que desnudaria

Seu peito para você e sangraria sem demonstrar
Tristeza nem arrependimento. Eu só espero

Ter aprendido suas lições o quanto antes e você
Não tenha me visto derramar-me em lágrimas. Eu

Deveria pairar sobre você como uma rocha,
Apoiando-me em uma coluna, com o braço

Sobre a cabeça e a ferida estancada. Você
Me quer assim, o terror branco ocultando meus olhos

Vazios, o freio do animal amarrando meu traje rasgado –
Nua, para que visse o côncavo do meu vazio o bastante

Para suportar o peso de todo o seu temor. Eu finjo
Ser ela, em pé sobre as pernas fortes que se recusam

A sustentar-me. Ela não pode amá-la. Se eu tivesse
Toda essa força, você estaria perdida. Ela não iria

Permitir que você enterrasse a cabeça sob o braço amputado,
Em seu peito frio, e cantasse sua canção indistinguível.

O corpo de minha filha

Jennifer Franklin
trad. do inglês | http://bostonreview.net/franklin-my-daughters-body

Se você a visse, pensaria em como ela é linda.
Estranhos me param na rua para dizê-lo.

Se falasse com ela, veria que essa beleza
Não significa nada. Sua visão se desloca para os pombos

Na calçada. Seu contato com os olhos torna-se
tão precário quanto o dela e escapam lentamente

Com diferentes graus de graça. Eu nunca sei
O quanto dizer para explicar o desgosto.

Às vezes, lhes digo. Mais frequentemente fico
Em silêncio. Com o sorriso dela me cauterizando, firmo

Sua mão por todo o caminho até em casa, embalando-nos.
As mãos da florista entregam-lhe uma rosa já morta que ela guarda

Suavemente, sem rasgar as pétalas, como ela faz
Com as tulipas que olham para nós com sua expressão insípida,

Fingindo que podem aguentar o meu sofrimento
Em seus copos alongados, porque eu os conhecia

Antes de conhecer a dor. Eles não entendem que
Estão arruinados para mim agora. Eu plantei quinhentos

Bulbos que, como ela, germinaram dentro de mim, seu cérebro já
Formado por fios de nosso dna danificado

Ou qualquer outra coisa que os médicos não entendem.
Após o banho, ela se enrola em mim para eu niná-la –

A única vez durante o dia que seu pequeno corpo permanece quieto.
Então eu canto, respiro nos cabelos lavados e penso

Nos esqueletos no Musée de Préhistoire
Em Les Eyzies. Os ossos da mãe e do bebê

Deitados em uma caixa de vidro na mesma posição em que estamos
Agora. Eles foram enterrados em uma posição incomum:

A criança enrolada na curva do braço da mãe.
Os arqueólogos estão intrigados com a posição.

Isso não me surpreende de todo. Seria fácil
Morrer dessa maneira, cada uma de nós em seu último suspiro

Com rimas infantis em nossos lábios abertos
E a promessa de um sono tranquilo.

Gostaria que o meu amor morresse

Jennifer Franklin
trad. do inglês

___________a partir de Beckett

Gostaria que o meu amor morresse
Ou pelo menos que eu não te amasse

Tanto. Se eu pudesse levar meu coração
Até ao inverno, eu não poderia fazer isso

Por mais ninguém. Se você não sorrisse
Ao dormir, ou não tocasse meu rosto

Com ternura, eu poderia ter ido embora
Desde quando você partiu através

Das portas do meu coração camuflado
Sem olhar para trás. Eu gostaria de não amá-la

Tanto. Gostaria que o meu amor morresse
Então eu não teria que matar tudo o que há

Em torno de mim. Então eu não teria de ser
A caçadora que me tornei. Mas você

Não vai me liberar do seu abraço poderoso.
Você me faz permanecer a seu lado com o seu

Braço delicado em meu pescoço. Ele não parece
Forte nem para pegar um animal pequeno, mas ele é.

Pavane

No tempo em que estive realmente dedicado a escrever a respeito da vida do bebê Charles Waring Darwin, o tempo de redação, não o de pesquisa, precisei de um grau de concentração que não imaginei que poderia conseguir. O tempo efetivo de que dispunha para a escrita sempre foi exíguo, urgente, em períodos isolados entre meses e às vezes até mesmo anos.

A maneira com que mais rapidamente eu conseguia me concentrar era relendo o que já havia escrito, sempre desde o começo, e colocando a tocar uma playlist de alguns compositores em sua maioria contemporâneos de Darwin (F. Chopin, R. Schumann, …).

Em algum momento, acabei colocando irresponsavelmente na lista uma peça  extemporânea de Ravel. Esta abaixo… Enquanto tocava a melodia era impossível para mim escrever uma vírgula, mas, se não fosse por ela e por uma outra melodia que me demovia internamente, nunca eu teria ido até ao final do livro. Se tivesse sido escrito no papel, aqueles originais teriam marcas que apenas eu vi e entendi.

Porto Alegre, 4

quem me contou sobre ti foram os pés
congelados de frio de alguém que vi descendo através
do Menino Deus, dia desses, rumo ao Cristal

ele não tinha sapatos, mas tinha muletas e um cão alquebrado
que farejava no vento o inverno e se encolhia, tiritando e
latindo entre a buzina dos carros, todo assustado

ele não temia a ti e todo valente encarou
os meus olhos como a um parente, tu não os viste
porque já não olhas direito a mais nada

pensas em ti mesma como um museu de museus fechados
procura entre os passantes quem te visite
e depois lhe fecha as portas na cara

o tempo vem passando por sobre ti e mim
sem indulgência ou rancor
onde fica a cidade? eu me pergunto – e é sempre para lá de uma ponte

o interior te espreme e oprime como se tua função
fosse exortá-lo ao teu abraço indolente
e dissesses-lhe para que da mesma forma te evitasse

por aqui há mortes à toa e a toda hora
como nas piores metrópoles do mundo
mas tu te candidatas (ensandecida) aos mais belos poentes

o mais triste em ti sempre pensei que fosse teu nome
tão impeditivo da melancolia
tão necessária à autocrítica

ai de ti que não podes sequer lacrimejar
senão te vão juntar as lágrimas
poetas ruins que nem te amam

eu que sempre vivi num bairro apenas
te vivo como aldeia
e isso me reforça o teu assombro

e cada vez que desço ao térreo para te receber
tu não te entregas
tomas do troco e desapareces a seguir

tu nunca madrugas, amanheces
tu não descansas, adormeces
tu não sorris sempre, sempre perfeita –

eu bem sei que te ampararia
mas não tenho com o que
e devo poupar-te desse embaraço

às vezes olho para baixo de algum prédio alto
e então entendo onde escondes tua beleza:
nas coisas que não te fizemos

mas foste roubada e rapinada
como a uma vizinha velha
que os ladrões não perdoam

e foste mal vestida por gosto, parece,
a uma festa
em teu próprio louvor

por isso pareces cada vez mais a este velho e seu cão
e enxotá-los é exigência de uma vaidade inútil
que te compara a lugares que não te merecem

(mas eu não te comparo a ninguém)
meu ônibus já vem chegando
e vou para ainda mais dentro de ti

é onde teu verdadeiro coração
mantém a vingança
de me recusar por inteiro

(mas eu te amo ainda assim)

 

O atado de ervas de Ana Mariano

Conheci tardiamente a autora gaúcha Ana Mariano. Se tivesse conhecido antes, já a teria lido. Ao fechar a última página do seu Atado de ervas (e ao abrir a primeira de Pra amanhecer ontem) foi muito difícil evitar a sensação de tempo perdido em outras leituras e autores. Se isso parece um elogio, então é porque consegui me expressar com clareza: é disso mesmo que se trata.

Sempre detestei, para falar de um livro ou autor, compará-los a outros. Penso que cada qual tem seu valor e demérito próprios e que a graça dos livros, pelo menos no que diz respeito aos leitores, reside justamente na diversidade de estilos, tendências, dicções, etc. Algumas vezes, porém, é muito difícil evitar comparar-se um autor com uma tradição, seus contemporâneos ou, principalmente, às tendências de determinada época. A despeito de tudo isso, minha impressão final ao concluir a leitura de Atado de ervas é de quem esteve por muitos momentos diante do inusitado. E de que as vantagens comparativas do romance acabaram quase sempre por superar suas desvantagens.

Leitores pouco afeitos à ficção escrita com narrador externo, onisciente, talvez se sintam um tanto deslocados ao dar com o livro. Como é sabido, em tempos recentes têm prosperado bem mais as narrativas em primeira pessoa, assim como a controversa autoficção. Há muitos destes livros que gosto bastante, mas confesso certa (na verdade uma bem significativa) saturação para com o estilo. Isto não se refere a nem um autor em específico, mas, no que me toca como leitor, preciso dizer que um livro como Atado de ervas funcionou, de fato, como um inesperado respiradouro.

Há fatores que poderia apontar para a sensação. O primeiro deles é o arejamento geográfico da trama: a paisagem ampla e inesgotável do pampa rio-grandense. A sensação, porém, não é só devida à paisagem pela paisagem, como numa finalidade em si mesma: deve-se bem mais à possibilidade de acompanhar-se a narrativa não sob o encurralamento da percepção de alguém em específico, mas de um universo mais amplo e multifacetado. Das personagens de Atado de ervas podem-se distinguir biografias, nexos afetivos e motivações psicológicas. Não se trata de uma coleção impessoal de nomes e isto por si só propicia ao leitor o escape da sensação de asfixia que muitas vezes acompanha as narrativas monocráticas. Este é bem o segundo fator de arejamento ao que me referia.

Na perspectiva de uma literatura predominantemente escrita por homens, Ana Mariano inculca na aspereza de trato da linguagem e da cultura do meio rural gaúcho uma intensidade poética não muito sensível nos autores locais, mesmo nos pontos máximos do romance histórico rio-grandense, como em Érico Veríssimo ou Luis Antonio de Assis Brasil. Isto, porém, não torna o romance nem mais fácil ou, por outro lado, mais suave. Muito pelo contrário: é uma dicção que humaniza o elemento histórico, destacando-lhe de qualquer aparência historicista ou didática. Também não custam sequer vinte páginas para perceber-se que Atado de ervas está completamente fora da detestável caixa conceitual “literatura feminina”. Se as personagens femininas são centrais ao romance, isto se deve a outra perspectiva: a de que os indivíduos diferenciam-se do cenário independentemente de qualquer característica e muito mais pela relevância de suas personalidades e em função da coerência narrativa.

Porque iniciei falando em vantagens e desvantagens (e para que não pareça elogio deslavado), evidentemente há momentos mais e menos intensos no romance, assim como personagens melhor desenhados que outros. À exceção óbvia, dos excepcionais, acho quase impossível encontrar-se um livro de ficção indefectível, constante, perfeitamente solfejado. Sempre há momentos de fraqueza, fadiga e também de alguma falha na autocrítica do autor. Tudo muito normal e humano, penso eu.

Pensando ainda melhor, admiro muito a capacidade dos escritores em contornar os maus momentos narrativos e transformá-los em peças integrantes de suas tramas. Não sei a razão, mas a mim isso (ou a atitude em salvar um personagem mediano da mediocridade, por exemplo) confere um maior realismo à ficção ou, pelo menos, maior proximidade com a vida real que, como se sabe, jamais é um enlevo permanente. É uma tarefa das mais complicadas e trabalhosas. Notar isso, portanto, não me remete a qualquer problema estrutural ou desvantagem, mas ao trabalho intenso que um romance requer.

Autoral sem deixar ser agradável e lírico sem deixar de ser reflexivo, Atado de ervas é um romance que atende unicamente por literatura. Permitindo antever uma poesia nem um pouco superficial, mas inerente às minúcias da vida das personagens, o romance evita a rudeza com que se costuma pintar a vida no meio rural e, ao mesmo tempo, providencia um sentido histórico, causal, às muitas amarrações que o romance dá entre pessoas e famílias que acompanham as mudanças históricas e políticas no Rio Grande do Sul entre as décadas de 30 e 60 do séc. XX.

Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2012, talvez devesse ter iniciado a ler e escrito sobre Pra amanhecer ontem, lançado no fim de 2017 pela L&PM, mas calhou de conhecer por primeiro seu romance de estreia. Ainda dissolvendo o efeito da leitura de um, deixo que aos poucos o enredo do outro vá imiscuindo-se em minha memória. Como se estivesse também de alguma forma amarrado, acho que vou também precisar de um “atado” de Miguelina para dar jeito nisso.