Um novo olhar qualquer

Várias vezes por ano, por mês, semana ou até mesmo dia sou convocado por bueníssimas razões (pelo menos quero acreditar nisso) a experimentar um “novo olhar”, um “outro olhar” sobre o mundo e suas situações. As aplicações são as mais diversificadas possíveis: vão desde situações abstratas como um “novo olhar” para a “existência” ou a “diversidade”, até um “outro olhar” para o mundo concreto, social, seus fenômenos e contingências. Acontece que a convocação, como são todas as convocações, costuma ser bastante imperativa, isto é, deve-se acatar de imediato as perspectivas da postulação, sem o qual o “novo” olhar não ganha sentido, não opera, simplesmente ele não funciona.

Trata-se de um paradigma quase, mas também de uma metáfora, quase uma sugestão. Há que se escolher bem os termos com que se colocar este “novo” e este “outro”, portanto, para que não se empreenda, ao invés de convencimento e diálogo, imposição violenta e arbitrariedade.

Parece exagero dizer que há uma postulação violenta na proposição de uma novidade e que, pelo menos em tese, todas as novidades são benéficas, o que é essencialmente falacioso. Porém, desde que seja necessária uma inutilização prévia de meu instrumental para ir à aventura do “novo”, do “outro”, ou do que assim seja apresentado, cai por terra de imediato a conotação construtiva da novidade, pois ela ocorre a partir de uma demolição e não de uma consertação. Por outro lado, se mera metáfora fosse, seria uma metáfora um tanto enganosa, ou pelo menos uma promessa que substituiria em poucas palavras uma construção histórica, uma série de condições e acontecimentos duradouros, e não uma proposição equivalente.

Se neste caso usássemos uma metáfora, seria como dizer que a mudança partir de  um “outro olhar” ou de um “novo olhar”, seria mais como mudar o ângulo de visão do que substituir uma lente por outra.

Não há quem ignore que a metáfora é figura de linguagem das mais corriqueiras, isso tanto na literatura quanto na linguagem coloquial. Em campos e domínios nos quais é preciso delimitar o real e clarear suas circunstâncias, todavia, seu uso às vezes pode mais atrapalhar do que ajudar. Poucos parecem perceber isso, afinal a metáfora, antes de qualquer coisa, é um suavizante da compreensão, isso dito já um tanto quanto metaforicamente.

É sobretudo nos textos jornalísticos nos quais mais tem prosperado o uso de figuras de linguagem em lugar de uma análise precisa das situações. Mas isso bem pode ser mais literatura do que jornalismo propriamente dito. O que acontece é que, ao valer-se de metáforas como formas de explicar o mundo concreto, aquele que a redige passa a agir plenipotenciariamente sobre os elementos de seu discurso. O mundo já não acontece como é de fato, linearmente, mas da forma pela qual o postulante escolhe narrá-lo e assim torna-se episódico, datado. O artífice dessa escrita é, portanto, dotado de poderes sem limite acerca dos fatos e os minora ou amplifica de acordo com a sua exclusiva vontade. É um poder invejável. Em tempos nos quais a eloquência pode garantir mais leitores do que clareza ou até mesmo conteúdo, há que se verificar em quantas camadas de tintas literárias se têm encoberto o mundo real em suas cruezas.

Interpretar-se uma realidade política, por exemplo, com o uso da metáfora, pode ser um artifício poderoso na linguagem falada e consiste num traço retórico admirável, se empregado no ambiente adequado. Por outro lado, seu uso desenfreado costuma servir bem mais a um esforço evasivo e simplificador. O impacto se torna cansativo, a metáfora então exaure a si própria e, mais ainda, a quem é dirigida. O texto impregna-se de imprecisão, o discurso torna-se algo delirante, cada vez mais permeado por ambiguidades e,  consequentemente, vai dissociando-se do real e do objeto a que pretendia referir-se.

Há também que o uso deliberado da metáfora em situações realistas acaba competindo na própria desvalorização da figura de linguagem e, por tabela, da própria poesia. Quer dizer, poetizar a realidade faz muito sentido na literatura, quando a ênfase está localizada em potencializar a cognição do leitor; não faz tanto sentido se acaba por servir a desviá-lo da realidade para um seu duplo, artificial, planejado e ilusório (isso mais ou menos nos termos de Clément Rosset, em O real e seu duplo).

Aí é que está: não há que conferir-se o status poético a uma situação real. Do real pode-se depreender a poesia, porém a ele jamais atribuí-la arbitrariamente. Na poesia, especialmente, a metáfora cumpre funções que normalmente enriquecem o texto escrito, como o de expansão de significantes e uma maior mediação simbólica entre texto e leitor. Mesmo que nem sempre seja usada com acerto ou economia, literariamente a metáfora costuma abrir um leque de possibilidades interpretativas. Na interpretação da realidade, entretanto, a metáfora às vezes se converte em mera evasiva e substituição de sentidos. Dá-se então o oposto, e a metáfora passa a ser empobrecedora do discurso por um caráter de imprecisão que desvia a cognição dos fatos para uma poetização do real, mas quando já não se trata mais de poesia.

Com isso quero dizer que a metáfora de um “novo” ou “outro” olhar estabelece um contato tênue demais para representar ou fomentar a mudança social ou cultural efetiva. A quem interessa vivenciar as condições da “novidade”, é necessário perceber claramente uma alteração substanciosa nas condições concretas nas quais o “novo” e o “outro” possam prevalecer. De outro modo, não há “novo” ou “outro” algum, caso a experiência se mantenha estável, constante.

Um exemplo simples a que se pode referir é o da “Nova República”, como ficou conhecido o período político posterior à abertura democrática brasileira. O que, de fato, aconteceu de “novo” ali nas condições materiais e econômicas brasileiras, para além da retomada do direito ao voto? Mais reforma agrária? Mais e melhor educação? Quais as condições de manifestação e verificação deste “novo”, afinal? Pois com tudo o que se denomina “outro” ou “novo” costuma acontecer o mesmo, com exceção, talvez, na ciência, onde a terminologia “paradigma” faz realmente algum sentido.

De mais a mais, é conveniente muitas vezes passar-se a ideia, dar a entender de que se está diante de um “novo”, mas o que há de real e metafórico nisso tudo? Ou seja, é possível convencer a alguém de que é fundamental para a constituição do “novo” a adequação de um “novo” olhar, mas não qualquer “novo olhar”: apenas aquele que se deseja fazer vigorar. Além disso, não vivemos num tempo etapista, no qual as condições são sumariamente eliminadas em prol de outras. Pelo contrário, a dinâmica social é da diversidade e a diversidade é nesse aspecto mais caótica do que harmônica. Mudanças uniformes já aconteceram na sociedade, nas mudanças de regime político, nas mudanças legais e formais, mas nunca atingiram as pessoas da mesma maneira e isso porque elas não ocupam a mesma posição social.

Eu não duvido nem um pouco que os “convites” e “convocações” sobre os quais estou tentando comentar continuarão chegando. Mensalmente, semanalmente, diariamente… Eu apenas quero dizer que, usando da mesma metáfora já utilizada, é muito difícil que eu mudasse meu ângulo de visão, mas apenas testasse a lente dessa nova promessa. Mudar o lugar das coisas costuma ser bem mais trabalhoso (e bem menos poético), que a instituição de uma palavra ou um “novo” qualquer.

A poesia, a crítica e um tanto mais de Antonio Cicero

Muito estaria pacificado a respeito da compreensão e da definição de poesia se todos pensassem como o Prof. David Lurie, personagem central de Desonra, romance publicado em 1999 por J. M. Coetzee, nobelizado em 2003. É logo nas primeiras páginas do livro que ele trata do assunto com Melanie Isaacs, aluna de seu curso de romantismo e pivô do escândalo que o precipita ao périplo de desonras que dá título ao romance.

No romance, o professor procura convencê-la de que não é possível aprender a gostar da poesia em determinado ponto de um diálogo que mantêm sobre Blake e Wordsworth:

“(…) Mas na minha experiência a poesia nos fala à primeira vista, ou não fala nunca. Um estalo de revelação, um estalo de reação. Como um relâmpago. Como se apaixonar.”

Nos estudos literários, contudo, não é bem assim e este argumento, de apaixonamento súbito, nem sempre é bem-vindo ou dado como critério suficiente. O pacífico de aceitar a poesia meramente como objeto estético mais ou menos agradável na realidade tem estado tão remoto hoje quanto sempre esteve. E as discussões em torno do gênero enquanto fenômeno literário e estético são, como se sabe, intermináveis e dadas na maior parte das vezes por opiniões estas sim muitas vezes apaixonadas. Daí que chegar-se a uma conclusão ou pelo menos a um consenso sobre o “problema” é algo bastante complicado.

No Brasil recente, poucos críticos têm se debruçado a respeito do assunto de lugares tão diversificados como o poeta, crítico, filósofo e letrista Antônio Cicero, que acaba de lançar pela Companhia das Letras seu novo livro, A poesia e a crítica, que reúne 13 ensaios nos quais volta a esmiuçar detalhes dos limites e das breves incursões mútuas que filosofia e poesia às vezes realizam uma nos domínios da outra e em seus contornos. Cicero, é bom que se diga desde já, não é simpático à ideia e mesmo sendo uma das poucas pessoas a atuar nos três segmentos, prefere manter os campos bem delimitados e dedicar-se a eles cada qual em seu tempo. Também em seu próprio tempo, isto é, ao longo dos ensaios, o livro esclarece em detalhes e generosas explicações as razões desta sua opção.

Não seria de todo errado afirmar que o seu novo livro continua os estudos e ensaios de Poesia e filosofia, que publicou em 2012, e o aprimora em muitos aspectos. Tanto neste de agora como naquele, Cicero realiza várias digressões e retomadas em torno da intricada e nem sempre amistosa relação do fazer poético com o fazer reflexivo. Para tanto, neste ele se vale de analisar o trabalho de seus poetas diletos, como Hölderlin, Fernando Pessoa, Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade e Armando Freitas Filho, bem como do romancista Thomas Mann, especialmente em A montanha mágica, a quem atribui a formação de seu mais importante laço emocional com a literatura. É o único dos ensaios sobre escritores que não aborda um poeta, mas que está ali, como ele mesmo diz, por razões sentimentais. Realmente é um capítulo a parte, mas sem o qual, como se perceberá, talvez não existisse o excelente escritor que Cicero, para além de poeta e filósofo, também é.

Nos ensaios em que não está dedicando-se a examinar o trabalho de outros poetas, Cicero aproveita para também abordar outras relações pouco pacíficas da poesia, tais como com a prosa, com a própria crítica, a contracultura, a canção musical e a cultura popular. Faz todo o sentido, pois não só ele mesmo transita muito bem por todos estes territórios como consegue, por uma questão de abrangência, adentrá-los com naturalidade, mérito de sua prosa fluída e muito agradável. Conta muito também, para tanto, o fato de que Cicero não tem interesse em conflagrar os domínios, mas apenas esclarecer no que e em como um atinge fatalmente o outro, assim como as razões pelas quais eventualmente mais ou menos eles se distanciam ou parecem competir. Também é desde este trânsito fácil e de uma compreensão abrangente dos temas que ele avalia, por exemplo, tanto a contribuição da música para a popularização da expressão poética no mundo contemporâneo quanto avaliza a contribuição da tropicália e da bossa nova para a poesia brasileira e a polêmica premiação de Bob Dylan com o Nobel de literatura em 2016.

A relação de Cicero com a música popular dispensa maiores explicações. Recentemente, em homenagem que compositores e músicos realizaram em torno dos 70 anos de Fernando Brant, dito por ele mesmo como “um dos maiores poetas da MPB”, Cicero gravou a leitura da canção Encontros e despedidas, faixa título do álbum homônimo de Milton Nascimento. Por estes dias, além de aguardar o resultado da decisão da Academia Brasileira de Letras em torno da cadeira nº 27, a qual é candidato a ocupar, ele está na estrada com a irmã Marina Lima, dividindo irmanamente o palco com as canções que ela interpreta e os poemas que ele lê. Dois irmãos é não curiosamente o título do espetáculo que tem viajado o Brasil.

Ainda que pudesse parecer uma interpretação apressada, A poesia e a crítica está longe de ser um livro pacificador ou um empreendimento em prol da pacificação entre todos os elementos culturais com os quais a poesia tem precisado lidar ao longo dos anos. Pelo contrário, muitas vezes chega a tratar-se quase de uma luta pela sobrevivência e a poesia, que seguidamente é dada como em vias de extinção nas avaliações mais alarmistas, às vezes é preciso defendê-la. Não é tarefa fácil, dado que a leitura da poesia costuma obrigar o leitor a dilatar sua perspectiva pragmática do tempo e a abrir mão das formas usuais de lidar com a própria informação, principalmente em tempos de tanta aceleração digital. Mesmo quando precisa retornar ao episódico debate sobre a “utilidade” da poesia, Cicero defende que o poema, em suas diferentes formas, continua a ser um poderoso agente de catarse subjetiva, mobilizando o aparato sensorial das pessoas, sua cultura, memória, inteligência e, claro, a sensibilidade de cada um.

O gênero, que costuma ser tomado como das mais fáceis formas da literatura, estranhamente às vezes parece necessitar de requisitos muito intricados ou então muito simples de eficácia. Ou é a paixão instantânea, como expressa no livro de Coetzee, ou uma série de complexos quesitos culturais e formais. Chega a ser curioso como se pode chegar a um cânone tão exigente tendo de lidar-se com uma oposição e extremos tão radicais. Ou seja, ou a poesia é inútil ou está para além da compreensão. Ou o poeta é um iluminado ou um alienado do mundo real e imediato, como um ser lunático obcecado pela própria expressividade. Como se vê, é um ataque multilateral que se pratica contra a poesia e é um mistério real sua sobrevivência enquanto experiência literária, ainda mais quando se sabe que entre todos os gêneros é justamente o que menos vende. É o ouro sem valia de quem falou Ferreira Gullar em artigo publicado na Folha de São Paulo ainda em 2012, mas que provável e felizmente provêm de uma fonte inesgotável, já que nem assim poetas cessam de criar e publicar.

A epopeia não finda aí, pois da mesma forma engana-se quem supõe que esta é a única oposição com que precisa se debater a poesia; não é. Outra, e não menos importante, é o tempo. Além de qualquer outra coisa, a poesia requer tempo, apesar da forma muitas vezes expedita passar a ideia de que tanto a criação quanto a leitura fossem eventos voláteis e passageiros. Segundo Cicero, trata-se de outra coisa. A experiência da poesia seria como quase uma fração dimensional da percepção rompida voluntariamente pela pessoa, isto é, por cada leitor. Além disso, ainda que as discussões em torno da materialidade e da concretude dos elementos e das figuras poéticas sejam inesgotáveis, é inevitável pensar que não há meios de conhecer-se a poesia de quem quer que seja sem um mínimo contato com a sua subjetividade e, daí, para a sua cosmogonia. Pois é da retina para dentro que o poeta examina o que lhe chega e acontece, enquanto o filósofo exterioriza as ideias e examina o concreto e o real em si mesmo, como se examinasse o mundo em chapas de microscópio ou nas amostras que lhe estejam disponíveis. Requer-se tempo e, principalmente, o tempo de dar tempo à comunicação poética, tão diferente da que ocorre sob o texto informativo ou discursivo.

Mas o nonsense maior de alguns dos debates travados alhures por poetas e críticos consiste em fabricar um sentido dissociativo ou de disputa entre uma e outra: poesia e filosofia. Se a poesia importa mais ou menos que a filosofia, por exemplo, ou se uma estaria contida na outra. Se irmãs siamesas ou parentes longínquas. Se o poeta é um filósofo pouco instruído ou o filósofo uma espécie de superpoeta. Neste ponto, Cicero costumeiramente é taxativo e é bom que o seja: “Digo às vezes que sou esquizofrênico, porque é como se eu tivesse dois cérebros diferentes (…). Mas são coisas muito diferentes, filosofia e poesia”, ele declarou há pouco em entrevista ao jornal O Globo quando do lançamento do livro de ensaios.

De uma forma muito agradável, porque sua escrita é ao mesmo tempo profunda e acessível, tanto em Poesia e filosofia como agora em A poesia e a crítica, Cicero presta um grande serviço a todos os interessados em ambos os assuntos, qual seja o de romper uma hierarquia sem sentido entre o erudito e o popular e o de poder aproveitar caso a caso cada forma e campo, cada especificidade e manifestação do pensamento devotado à poesia em si mesma ou, por outro lado, ao estudo da estética e de sua compreensão. Isso tudo além da sua própria poesia, pois o autor dos bem conhecidos versos a seguir

“Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.”
In: Guardar: poemas escolhidos, Rio de Janeiro, Record, 1996.

já declarou que pretende dedicar-se, mesmo, cada vez mais à poesia.

A este ponto, a não ser para fins catalográficos, distinções qualitativas não fazem muito ou mesmo nem um sentido. Provavelmente, não há mesmo vantagem ou desvantagem a cotejar entre poesia e filosofia. Ou então, como disse a polonesa Wislawa Szymborska ao receber em 1996 o Nobel de literatura, “não há professores de poesia”, e a filosofia só lhe estaria em relativa vantagem porque poderia ser adornada por um título que ao poeta falta. De resto, poeta ou filósofo, como Cicero diz, costumam ter a cabeça nas suas respectivas nuvens. Pois mesmo podendo ser denominado como professor de filosofia, poucos críticos e pensadores poderiam ser tão cuidadosos e corroboradores do fazer poético no Brasil contemporâneo quanto ele. Aí está o seu novo A poesia e a crítica para que se possa compreender ainda melhor isso tudo e um tanto mais.

Questão de verossimilhança

Inclusive

A cada reportagem que programas de TV fazem sobre pessoas com síndrome de Down, vai se enraizando em mim um sentimento cada vez mais dúbio, duplofacetado. Uma face dele fica feliz, sente-se gratificada por exibir pessoas fazendo coisas, realizando e atuando positivamente no mundo. A outra face do sentimento é de desconforto, como se estivesse sempre diante de um freak show às avessas, mas ainda assim um freak show. E as pessoas exibindo-se (ou sendo exibidas) como exemplares incomuns da espécie humana, conquistando, vejam só, uma vida comum.

É claro que isso me ocorre porque tenho interesse direto no assunto, mas não consigo evitar o estranhamento (estranhamento não é o mesmo que rejeição total, vale dizer). Acho que isso se deve em muito ao fato de que não vejo tão frequentemente esse tipo de reportagem e exposição com outras deficiências ou minorias. Não lembro de ter visto alguma vez uma empresa só de cegos ou de pessoas com paralisia cerebral, por exemplo. De outras minorias então, muito menos. Chego a imaginar o barulho que seria feito nas redes sociais num caso destes. Mas com o pessoal trissômico, por outro lado, sempre é passada a ideia de uma iniciativa “legal” e socialmente desejável. Eu não sei. Acho estranho. Não me acostumo.

Às vezes me parece uma coisa meio compulsiva já, isso de juntar pessoas com síndrome de Down num grupo à parte e narrar sua vida como algo que “eles também conseguem fazer”, mesmo que essa ideia seja transmitida apenas subliminarmente. Parece uma coisa que as famílias têm sido acostumadas a fazer desde a tenra infância, desde a promoção de calendários só com crianças com síndrome de Down, grupos exclusivos de convívio de adolescentes e outras iniciativas que não costumam dialogar muito com o social amplo senso (nem com outras deficiências), mas, provavelmente por zelo e outras preocupações, mantêm-se relativamente estáveis e homogêneas.

Tenho algumas suspeitas de porque isso ocorre, mas seria leviano fazer generalizações a respeito disso até mesmo porque, como disse, a outra face do sentimento fica feliz, fica mesmo muito feliz porque compreendo muito bem a jornada que é a conquista das coisas diante de tantas adversidades afetivas, sociais e de toda a ordem, mesmo em se tratando de iniciativas que não costumam se repetir com a população de baixa renda e isso seja frustrante por si só. Mas é uma felicidade que me cai, não sei explicar o porquê, melancólica. Penso que se ao menos fosse cancelado esse efeito de “curiosidade” eu me sentiria melhor ou, pelo menos, o incômodo não seria tanto assim.

Para além disso, vejo tantas necessidades reais e pautas reais a tratar, que isso me parece uma coisa circense (e isso mais me irrita que entristece), como um “veja só” sem fim. Eu sugeriria, por exemplo, pautas e situações diferentes, mais igualmente muito reais. Por exemplo, a situação de desemprego das pessoas com deficiência intelectual. Também situações de violência social, familiar, etc. E como esquecer da qualidade da educação, evasão escolar e falta de indicadores sociais e controle social eficiente… Mas não. A opção mais simples parece continuar a ser a duradoura excepcionalização de qualquer coisa do que abordar a situação geral que afeta a todos e especialmente aqueles de menor alcance econômico, ainda muito dependentes de iniciativas comunitárias e assistenciais.

Enfim, quero dizer que não há que vilanizar preliminarmente a nada nem a ninguém, nem muito menos promover uma caça às bruxas, porque esse comportamento é dissociativo e contraproducente em todos os seus aspectos. Trata-se apenas de entender mais e melhor a situação das pessoas com deficiência e isso às vezes pode requerer menos “show da vida” do que encarar a dureza da vida real. Ou, para atender as duas faces da moeda, pelo um pouco das duas coisas. No mínimo, por uma questão de verossimilhança.

Bauman póstumo

Pode-se dizer que Retrotopia é o epílogo da bibliografia de Zygmunt Bauman. Ao que tudo indica, o último livro do sociólogo falecido em janeiro último será publicado no Brasil até o final deste ano. Segundo a Zahar, detentora dos direitos de publicação de Bauman no Brasil, há outros livros ainda anteriores na lista, como O retorno do pêndulo, que está saindo agora e reúne quatro ensaios derivados de sua correspondência com o psicanalista argentino Gustavo Dessal e que confluem para uma aproximação do seu conceito de modernidade líquida com as teorias psicanalíticas, especialmente a de matriz freudiana.

O encontro do leitor brasileiro com Retrotopia, portanto, fica brevemente adiado, a não ser que ele corra para as edições e livrarias estrangeiras. Mas por que ele faria isso se, ao menos aparentemente, os livros de Bauman parecem reaplicar suas teses sobre “a liquidez” indefinidamente? É simples. Retrotopia não é um livro que repete a ideia de modernidade líquida, tema que popularizou definitivamente Bauman por aqui, mas que aborda desta vez os impasses do futuro, mas um futuro que, nas suas palavras, foi “quitado pela História” e que sucumbiu ao imediato do tempo contínuo, isso a despeito das tentativas desastrosas de recuperar ou malversar o passado e suas condições já extintas.

Mais ou menos ao mesmo tempo da publicação de Retrotopia, Bauman integrou ainda o livro O grande retrocesso: um debate internacional sobre as grandes questões do nosso tempo, também ainda inédito no Brasil. Não se trata de um livro inteiramente seu, mas um conjunto de ensaios em que diversos autores, entre os quais Nancy Fraser, Arjun Appadurai, Donatella della Porta, Bruno Latour e Slavoj Zizek propõem-se a debater questões candentes da contemporaneidade, tais como os descaminhos das democracias liberais e a crescente onda de populismo, xenofobia e autoritarismo. Em seu ensaio, Bauman preconiza cautela para com possíveis tempos árduos para a democracia e repletos de incerteza, já que situados no interregno entre dois tempos: o de concretização da crise econômica global e o de um estado de ignorância generalizada acerca das condições de sua manutenção ou resolução, ainda por vir. Não são inquietações de todo distintas das que se poderão conhecer melhor em Retrotopia.

Lançado simultaneamente em diversos países e escrito no pré-Brexit e no pré-Trump, Retrotopia foi publicado exatos 500 anos após a primeira aparição de Utopia, de Thomas More. É de certo modo emblemático que a publicação registre um lapso tão grande de tempo e no qual as impressões daquele Hitlodeu, ao que parece, jamais se realizaram objetivamente no mundo ou em qualquer parte dele; a saber, um tempo pacífico, solidário e ecumênico.

Apesar do título, em Retrotopia não é promovido nenhum tipo de celebração do pessimismo ou de melancolia e tampouco Bauman pretende com ele reafirmar ou fazer o lançamento de uma nova utopia, assim como cogitar uma tentativa desesperada de retorno ao passado. Efetivamente, não. Para Bauman, é preciso aceitar que vivemos à deriva da História e, por isso mesmo, seria preciso ajustar noções rígidas a respeito do progresso, dos limites políticos entre os povos e, também, das esperanças para com o futuro.

Por isso, e provavelmente por ter sido escrito nos seus noventa anos de vida, é um livro preocupado com um futuro e, evidentemente, de um futuro o qual ele sabia de antemão que não testemunharia. Pois é bem este o tipo de pensamento e de preocupação que fez com que o sociólogo tenha se tornado dos pensadores mais acessíveis e comunicativos em tempos recentes, goste-se mais ou menos de suas ideias. Ou seja, suas preocupações encontram-se sem muita dificuldade com as preocupações do homem comum e daí é muito natural que se realize uma inevitável aproximação entre ele e o leitor comum, não necessariamente aquele acadêmico.

Retrotopia é também, definitivamente, um livro sobre a utopia e a história das ideias utópicas, apenas que projetado às avessas; quer dizer, é um livro que foi pensado após a relativa falência e extinção de alguns dos projetos utópicos que nortearam o mundo no transcorrer do século XX, como o socialismo e o liberalismo igualitário. Para chegar a tanto, Bauman está aqui bem mais ousado do que é comumente encontrado em seus trabalhos mais populares, aqueles em torno da ideia de “liquidez”, e percorre os séculos, desde Hobbes e More, sem nunca empregar um objetivo formal ou finalidade cabal à ideia de utopia.

Comparando-se à noção rawlsiana de utopia realista ou enfrentando-a desde a desconstrução de sua potência como em Derrida, o projeto de Bauman é, em teoria, bem mais simples e consiste em superar o bloqueio ao futuro e desmantelar a perspectiva de uma utopia perfeita, passando-se a uma dinâmica política de ajustes dentro do real e dentro do possível. Na prática, não é algo tão simples assim e, por isso mesmo, mantém-se ainda assim como utopia. Porém este não é um desejo que ele tem para consigo mesmo ou por alguma espécie de nostalgia, mas totalmente inclinado para o porvir.

Bauman, que viveu desde o período posterior à Segunda Guerra Mundial e sobreviveu à devastação que o nazismo realizou na Polônia, é dos raros cientistas sociais que conseguiram notabilizar-se para além do meio acadêmico. No Brasil, por exemplo, esteve muitas vezes e é muito fácil dele obter entrevistas nas quais se manifesta a respeito de temas contemporâneos, como a nova onda de migrações na Europa ou o impacto da hiperconectividade via redes sociais, entre outros. Isto tudo aliado aos seus muitos lançamentos bibliográficos por aqui, contribuiu para torná-lo bastante conhecido e popular.

Embora seu trabalho não possa ser considerado exatamente inovador em virtude de que dá prosseguimento a muitas análises marxistas clássicas, a questão de Bauman talvez seja mais seu foco e uma facilidade comunicativa e clareza argumentativa que, de outra sorte, costumam faltar a autores em tese mais complexos (às vezes a autores mais simples também). Este, porém, seja talvez seu maior mérito, pois conseguiu explorar esta sua capacidade em prol da discussão de ideias emergentes e de torná-las acessíveis às pessoas de um modo geral, não se restringindo ao público especializado. Para o bem ou para o mal, se não há grande ou inovadora contribuição sua ao pensamento ocidental, é certo que popularizar e atualizar preocupações como as que propôs ao longo dos últimos anos de sua vida é algo que está muito longe de causar danos ou enfaro, dada a sorte das preocupações e a disponibilidade dos pensadores pop de que dispomos no Brasil contemporâneo.

Na fila com Roberto DaMatta

Para o antropólogo Roberto DaMatta, o brasileiro é um povo avesso à igualdade e a qualquer vestígio de horizontalidade social. Segundo ele, estas seriam noções e práticas sociais por aqui fadadas à burla, à negligência e a serem ignoradas. Ideias como estas, na verdade, ele vem desenvolvendo desde o célebre ensaio “Sabe com quem está falando? – Um ensaio sobre a distinção entre indivíduo e pessoa no Brasil”, presente no livro Carnaval, malandros e heróis, de 1978. Agora, em Fila e democracia, seu mais recente livro publicado pela Rocco, ele de certo modo reposiciona estas ideias e procura confirmar seu vigor quarenta anos após a primeira exposição, examinando o lugar da fila (isso mesmo, a fila) enquanto prática coercitiva e instrumento de ocupação igualitária do espaço público.

Escrito a quatro mãos e tendo como substrato uma pesquisa de campo desenvolvida para a pós-graduação de Alberto Junqueira, o livro retoma a investigação do individualismo e da igualdade como valor no Brasil contemporâneo, temas já explorados por ele em sua bibliografia. O livro, entretanto, não fica apenas nisso e indiretamente aborda também os contornos culturais da democracia brasileira, sempre tão permeável aos fenômenos de distinção social, e também as características da cultura política nacional. Entre as hipóteses dos autores, a aversão à alternância no poder e a formação de reservas de atuação e de mercado seriam alguns exemplos de como a mentalidade do “preferencial” se reproduz e ganha escala nas estruturas sociais e do Estado, encontrando nos partidos políticos os instrumentos ideais de ocupação do poder, tal como um coronelismo redivivo.

DaMatta, já apontado como o continuador do legado de Gilberto Freyre e de Sérgio Buarque de Holanda, sendo o mais citado escritor brasileiro na produção acadêmica de ciências humanas e já laureado dezenas de vezes pelo alcance e profundidade de seus trabalhos, é alguém que está sempre pensando o Brasil desde as suas exterioridades mais explícitas, tanto as comuns e corriqueiras quanto as mais entranhadas em tabus e no nosso modo de ser. Não é por outra razão, inclusive, que ele não deixa de examinar as mazelas políticas brasileiras, ainda que por isso muitas vezes desagrade aos setores e intelectuais que estiveram nos últimos anos, por exemplo, ao lado dos governos do PT, os quais ele não tem poupado em suas críticas.

Crítico desde a primeira hora das formas de congraçamento dos partidos brasileiros e do nominalismo político, ele chegou a considerar em entrevista concedida ao jornal Panorama Mercantil que a experiência do PT no poder comprovaria a tese de que as utopias podem ser enganativas e de que muito acaba ficando pelo caminho na promoção e venda de esperanças. Mais tarde, ao vislumbrar na ida do candidato do PSDB, Aécio Neves, ao segundo turno na eleição de 2014 a possibilidade de, conforme disse, “defenestrar o PT do poder, mas não da política”, foi alçado a posição de inimigo político do partido.

Em que pese julgar-se a correção ou incorreção de suas avaliações e a considerar a posição que ocupa nas ciências sociais, suas opiniões costumam causar tumulto. Porém, é muito relevante para a saúde de qualquer democracia que seus intelectuais sujeitem-se efetivamente ao debate público, mesmo que no calor eleitoral. Em se tratando de DaMatta, desqualificá-lo não é tarefa das mais simples, embora não falte quem queira refutar suas colocações e encontre alguma reverberação – dado que o debate político é aberto, nunca esteve tão aberto, chegando a ser obsceno muitas vezes. Talvez por possuir uma visão abrangente e histórica dos problemas brasileiros, crítica tanto do comportamento social quanto do institucional, suas opiniões contundentes, bem como seus livros, costumam repercutir bastante. Além disso, o fato de ser um partidário de políticas inclusivas e de ações afirmativas o descola da identificação de uma critica à direita ou conservadora, dificultando sobremaneira qualquer apressado enquadramento ideológico.

Como não há tantos cientistas sociais no Brasil com o seu histórico, ou empenhados em investigar a forma como noções de seletividade e distinção social permeiam as relações humanas e políticas, quase sempre é preciso referir-se ao trabalho de DaMatta para se falar apropriadamente do Brasil. A verdade é que poucos pensadores vêm registrando, como ele, o trânsito dos valores da casa para a rua e da rua para as instâncias políticas. Neste trabalho, ao observar a relutância do indivíduo a sujeitar-se à norma social – e isso configurando uma espécie de nota distintiva do modo de ser brasileiro –, é difícil não associar o comportamento civil às razões pelas quais têm prosperado por aqui sentimentos avessos ao menor republicanismo, como a impunidade e outras violações normativas, e manifestações derivadas do seminal “jeitinho”. Se uma mera fila de pessoas é capaz de ensejar o desejo de excepcionalizar a regra, é bem compreensível que o comportamento venha a se estender, diante de uma cultura que o valida e autoriza, a outras searas, inclusive a política.

Seja de esquerda ou direita, terminará frustrado o leitor de Fila e democracia que procurar encontrar nele a sedimentação de um estereótipo comportamental ou a definição taxativa do caráter do brasileiro. Pelo contrário, DaMatta e Junqueira atravessam muitos olhares, à luz de leituras clássicas e contemporâneas nas ciências sociais, sobre o estado de coisas que resultam no indivíduo e seus valores compartilhados. Abordando temas candentes como a oposição entre identidade x diferença, igualdade x desigualdade, e sem deixar de olhar para os significantes da antropologia cultural, este seu novo trabalho permite que se entreveja um pouco mais do estado de espírito da cultura brasileira em sua complexidade, mesmo ao abordar comportamentos aparentemente banais, como deveria ser um simples “aguardar a vez”. De fato, para o olhar antropológico nada deve ser inteiramente banal, se pensado com cuidado e visto mais de perto, e o Brasil, como é sabido, ainda está longe de ser um lugar dos mais simples no mundo.

O paradoxo da incomunicabilidade em rede

“Como podemos nos entender (…), se nas palavras que digo coloco o sentido e o valor das coisas como se encontram dentro de mim; enquanto quem as escuta inevitavelmente as assume com o sentido e o valor que têm para si, do mundo que tem dentro de si?”

Luigi Pirandello – Seis Personagens À Procura de Um Autor (1921)

Talvez por um distanciamento ainda muito tênue, tudo o que tem se dito (e se diz muito, o tempo inteiro) a respeito da comunicação após o advento das redes sociais é bem menos relevante do que as ciências sociais e a filosofia disseram sobre comunicação de um modo geral antes desse grande divisor de águas que fundou como se uma nova internet dentro da internet. Aqui estou dizendo das modernas redes sociais, das redes comerciais como Twitter, Facebook, Instagram e não as redes de conhecimento e inteligência social tal como começaram a pipocar no mundo inteiro em torno da década de 80, apogeu do Telnet, do Alternex e quando os primeiros navegadores da incipiente world wide web penavam para carregar as primeiras imagens e fotografias de um meio até então restrito exclusivamente aos textos e aos infindáveis comandos exigidos pela sintaxe pré-Macintosh.

Então, embora presentemente diga-se muito a respeito de coisas como identidade, sociedade de massas e conectividade, uma visita rápida aos trabalhos de Jean Baudrillard, de Pierre Lévy e até mesmo dos seminais Erving Goffman e Marshal McLuhan pode ser muito reveladora sobre fenômenos que na aparência são recentes, mas que, na verdade, podem apenas estar representando a continuidade dos sistemas de comunicação que vêm se estruturando ao longo de todo o séc. XX, desembocando na profusão da concomitância de tudo, na massificação digital de um modo geral, como esta com a qual lidamos agora.

Desde a popularização dos computadores pessoais ou, desde mais cedo, da proliferação desembestada de dispositivos portáteis, soube-se que o mundo como era conhecido antes nunca mais seria o mesmo. O mesmo já havia acontecido com outros marcos comunicativos anteriores, como o advento da televisão, do rádio, dos jornais, da imprensa de Gutenberg e assim por diante. E embora esse pareça ser apenas mais um lugar-comum, o pingo de verdade que há em dizer que o mundo nunca é o mesmo é sempre ao mesmo tempo alentador e assustador. Alentador porque a mudança e a novidade sempre podem se encontrar na perspectiva positiva da esperança. Mas assustador porque temos nos acostumado a pensar o futuro como se condenados a distopias nas quais o humano costuma estar fora de controle do próprio humano e a tecnologia, divinizada, determinando ao seu bel prazer a nossa sorte enquanto espécie. A literatura de ficção, o cinema e mais recentemente os seriados veiculados em streaming media aí estão para não me deixar mentir.

Ocorre que, sem o surgimento das redes sociais, a internet não seria muito mais do que um citoplasma impreciso cujos elementos internos mal se comunicariam ou então o fariam de forma bastante precária e ocasional. Faltava injetar-se no interior dessa célula algum elemento de aderência, pois a instantaneidade por si só não caracteriza um potencial comunicativo, mas apenas um estado de pré-disposição. Pois a escalada das redes sociais no ambiente internet ocorreu, como se sabe, de forma galopante e incorporou com a mesma velocidade com que se expandiu essa função aderente, passando-se rapidamente dos obscuros fóruns e listas de e-mail até o escancaramento total do Facebook, incluindo aí outras plataformas de maior ou menor durabilidade, muitas hoje extintas ou decrépitas, como o Orkut, por exemplo.

E o mundo realmente parece ter mudado bastante a partir do apogeu do Facebook entre as redes, embora seu fundador, Mark Zuckerberg, costume exagerar bastante nos poderes que sua trademark tem per se. Recentemente, num manifesto (ou textão de Facebook), ele chegou a cogitar que sua iniciativa comercial poderia incidir decisivamente para resolver-se problemas com que historicamente a humanidade tem se debatido, tais como a paz global, a fome, a pobreza, o progresso científico, ou seja, praticamente tudo o que importa, revigorando a já um tanto combalida ideia mcluhaniana de aldeia global.  Para ele, o valor da rede de sua propriedade já teria alterado inclusive seu próprio status inicial: não se trataria mais de uma mera rede sustentada por anúncios, mas de uma comunidade global, supranacional, colaborativa, solidária e altruísta. Bem como uma imagem distorcida, mas autobenevolente, o mundo como o conhecemos estaria, segundo Zuckerberg, rumando para uma nova etapa na qual o trivial “like” (ou melhor: 4,5 bilhões like/dia) propulsionaria o que há de melhor na natureza humana em prol das melhores intenções e realizações. Isso sem falar na ajudinha providenciada pelos robots e algoritmos a serviço da inteligência artificial e, por que não dizer? Até mesmo do seu conteúdo patrocinado e colaboradores…

A questão de embutir no futuro do seu empreendimento o caráter de uma utopia solidária, além de um marketing poderoso, é provável que cumpra também a função de dar a entender que os males do mundo tal como ele é poderão mesmo resolver-se assim: de forma remota e impessoal. É uma ideia que vem muito a calhar com pessoas cada vez mais apartadas dos espaços públicos e confinadas em espaços privados. Mas é a respeito desse caráter impessoal que o Facebook se mostra extrememente eficiente em aparentemente contorná-lo e colaborar em “humanizar” seus usuários, pois através das suas específicas subredes (para não usar o surrado termo “bolhas”) de confirmação, estimula-se pelo menos de forma verbal a convergência de ideias, de intenções e até de ideologias, mesmo que elas venham a converter-se rapidamente em objetos de consumo nas suas diversas formas e fenômenos “compartilháveis”: sejam simples memes, longos textos de fontes influenciadoras ou outros subprodutos.

De um modo um pouco diferente da distopia de Aldous Huxley, o admirável mundo novo da informação das redes sociais é uma ficção que não nos aperta muito os calos, muito pelo contrário, chega a ser prazeroso, pelo menos para aqueles que conseguem manter-se a salvo da crescente onda de dependência tecnológica, fenômeno que fez proliferar mundo afora as até há pouco inimagináveis rehabs digitais. Ocorre que, após as redes sociais, o virtual tornou-se por excelência o mundo da representação, como se um pano de fundo no qual cada um é livre para montá-lo com as peças e links que lhe estão disponíveis e de acordo com a sua preferência.

É de ficção ou de uma série embaralhada de muitas ficções que, portanto, é feito o mundo virtual. Ao contrário de engajamentos reais onde bens ou moedas são trocados, a dinâmica preponderante no ramo das redes comerciais é essencialmente declarativa (e será para sempre gratuita). E é até irônico que, no jargão do Facebook, “engajamento” signifique tão somente o produto de likes, shares e visualizações de determinado conteúdo. Por outro lado, não existe qualquer meio de certificação sobre a qualidade do empenho de um pensamento ou de um gesto de seus usuários, quaisquer que sejam eles. Assim como a intenção de confirmação, o livre falsear está franqueado e, para ampará-lo, uma poderosa indústria noticiosa (onde se incluem fake news e agentes comunicativos de segunda e terceira ordens) fornece o combustível permanente de hiperinformação, sem falar nos grandes vórtices de formulação: formadores de opinião e fontes assentadas na credibilidade, como a mídia tradicional, indústria de entretenimento e agentes institucionais.

Trata-se de um embaralhamento difícil de mensurar e do qual emergem narrativas tão múltiplas e assimétricas como inequiparáveis, realizadas ao bel prazer de qualquer pessoa. E assim, galgando-se o meio virtual através da sucessiva e infinita proliferação de informações, percebe-se às vezes muito claramente o ruído imenso que é gerado através da reverberação continuada do entrechoque das ideias e também do prolongamento da propagação de ideias idênticas, mesmo se formuladas de diferentes maneiras, reformuladas ou remixadas.

Da confluência do ruído proveniente deste intenso êxtase comunicativo (bem como Jean Baudrillard previu em meados dos anos 80, em As Estratégias Fatais) é um tanto quanto inevitável que se evidenciem sinais de exaustão do próprio modelo, porque nele não é registrado o tempo da escuta e o da leitura (que não são percebidos na interlocução), mas apenas o da expressão deliberada e, em sua ausência, um grande vazio de percepção e de sentido. É que aí está o ônus da comunicação escrita: uma precariedade de formato, de ilocução e de formas de avaliação e comparação, travadas pelas formas comunicativas do meio. Formas nas quais nunca é dado aos interlocutores avaliar a integralidade do efeito das trocas intersubjetivas. Isso porque, em última análise, é de subjetividades que se está a falar, pelo menos enquanto não se considerar o aporte e intervenções diretas de mecanismos de inteligência artificial.

Dado que qualquer convencimento extremado pode muito rapidamente transformar-se em aborrecimento continuado e as estratégias de persuasão, principalmente aquelas dirigidas aos conteúdos comportamentais e políticos, converterem-se em policiamento do outro embutido de propósitos colonizadores, a intenção comunicativa apenas cumpre seu objetivo na medida em que os interlocutores compartilhem, além do mesmo repertório, a mesma perspectiva, compreensão e significantes. Em caso contrário, o que prospera é o efeito adverso do conflito e o consequente dissenso. Além disso, é preciso considerar que os indivíduos conformam seus repertórios a partir de necessidades e interesses muito particulares, evitando-se quaisquer outras perspectivas e proposições que possam contradizer a identidade ideológica do indivíduo e dos acertos coletivos que ele tem para com sua rede de contatos. Nesse ponto é interessante notar o quanto as redes sociais comercias são pouco transparentes, pois se não se pode saber nada a respeito do que um indivíduo “não curte” ou “discorda”, pode-se conhecer, por outro lado, todo o seu histórico assertivo. Há, portanto, um sem número de informações negativas não computadas nem registradas, mas evidentemente percebidas na “comunidade”.

Tomando-se, por exemplo, o mais fragoroso dos debates do mundo virtual, o debate político, é notável a pouca permeabilidade de opiniões e a intensa evasão de informações que se pratica e exprime, principalmente ao deliberar-se por enunciar um ponto de vista sempre empedernido, pétreo mesmo, o qual pouco se dá a dialogar, embora sempre muito a confirmar. Segundo o professor George Loewenstein, especialista em consumo e comportamento da Universidade Carnegie Mellon (EUA), a opção “seletiva” não significaria outra coisa que um processo de garantia do bem estar, pois seria bem mais natural e seguro manter-se a salvo dentro de uma zona de conforto do que arriscar-se aos debates. Daí a deliberadamente evitar-se informações contraditórias é um passo dos menores e que requer pouco ou nenhum esforço; basta, como ele diz, “evadir-se”. O que interessa observar em seu estudo é que, nessa dinâmica de comportamento, o encapsulamento das redes acaba por competir no esvaziamento do potencial comunicativo e numa dinâmica comunicativa viciada que pode inclusive tornar as pessoas menos capazes de conviver com ideias e opiniões diferentes.

Bem, apenas por isso, todo o arrazoado de Zuckerberg, bem como as ideias de muitos teóricos que desejariam ver nas redes o substrato e a trama de uma nova política, mais transparente e acessível, fica bastante comprometido. Manuel Castells, sociólogo espanhol que esteve muitas vezes no Brasil divulgando suas ideias a respeito da sociedade em rede e autor de uma dezena de livros sobre o assunto, já disse algumas vezes acreditar que a sociabilidade humana se encontra a salvo por causa da internet. Segundo ele, a dinâmica comunicativa da internet contribuiria inclusive para diminuir efeitos nocivos da vida contemporânea, como o stress e a depressão.

Por outro lado (aqui no afã de preservar-se a opinião discordante), o historiador israelense Yuval Nohal Harari, autor dos sucessos de vendas Sapiens – Uma História da Humanidade e Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã , traz um opinião bastante diferente. Entre as muitas especulações que Harari faz em seu mais recente livro, ele que não possui sequer uma conta no Facebook, considera que a idolatria da informação pode vir a ser a dinamite fatal do humanismo, principalmente na substituição do humano pelas tecnologias de inteligência artificial e por uma nova reconfiguração da natureza humana, do saber e das relações. Para ele, a internet ser inteiramente benéfica não é outra coisa que a ficção preferencial do tempo atual, assim como outras ficções já serviram a propósitos específicos na história da humanidade. O que mais chama a atenção nas suas ponderações é, de outro modo, o esfarelamento da noção de livre arbítrio e o quanto a tecnologia poderia cumprir o papel de arregimentar as pessoas através de seus inúmeros dispositivos, ludibriando os sentidos e alterando e modificando inclusive as consciências.

O mais interessante de todo o debate em torno dos potenciais da tecnologia e da comunicação tem residido, talvez, é mesmo na disposição mais subjetiva e intrínseca do ser humano. Estejam certas ou equivocadas as suposições de todos os interessados no assunto (é bem possível que não estejam inteiramente certas nem inteiramente equivocadas), o fundamento essencial é o indivíduo e a sua capacidade de interagir e incidir em relação à informação e a outros seres humanos, para além do mundo material ou do virtual. Se as redes comerciais serão mesmo utilizadas para um ainda maior confinamento de ideias e pessoas, além da elaboração de um arsenal infinito de big data com finalidade imprecisa ou, por outro lado, poderá ser o substrato ideal para que se propiciem soluções para os males que a humanidade enfrenta e ainda enfrentará, cria-se um paradoxo dos mais cruciais: o de que as pessoas acabem tornando-se apenas umas o espetáculo das outras e não mais o seu objeto de interesse efetivo e de ação, interditados pelo distanciamento intersubjetivo.

Por outro lado, de posse da certeza de que a efetividade da comunicação se dá bem mais pela vontade das pessoas, pela prontidão de seu aparato perceptivo e por suas capacidades emissivas e interpretativas do que exatamente por uma disponibilidade dos meios, é bastante possível que os problemas comunicativos de hoje sejam muito semelhantes aos de nossos antepassados. E se é possível que se possa mesmo, como alguns temem, virmos a rumar a qualquer momento a uma espécie de colapso comunicativo, isso deverá ocorrer bem menos em função do choque de opiniões do que por uma tendência natural do ser humano em simplesmente não dar o braço a torcer, principalmente em face de prejuízos morais ou ideológicos.

Caso um meio, seja ele analógico ou digital, tenha sido tramado para favorecer valores individuais e aspectos, digamos, mais egotistas do ser (o que seria uma timeline se não esse repositório de autorreferências?), da união de vários indivíduos em torno dessa forma comunicativa inadvertidamente pode advir justamente uma comunidade de seres autocentrados e, paradoxalmente, pouco comunicativos. Como em uma rede ou em qualquer contexto coletivo não está em ninguém individualmente dosar a oferta de informações, o único que resta possível é admitir-se que o ato de comunicar pode ter sido e ainda vir a ser muito facilitado pela tecnologia e seus recursos, mas a comunicação em si mesma ainda depende de mútuo entendimento e o mínimo de consideração pelas diferenças culturais dos envolvidos.

Prova um pouco que essa tendência é muito anterior às redes sociais o registro dessa dificuldade comunicativa ao longo da história. Se filósofos e cientistas sociais eventualmente debruçaram-se direta ou indiretamente sobre estas questões, escritores também o fizeram, mesmo que sob formas literárias. Entre tantos na história da literatura, o próprio autor da epígrafe desse texto, o italiano Luigi Pirandello, já notara no começo do séc. XX que, bem como a comunicação e a incomunicabilidade, o individualismo e a bisbilhotice também são essencialmente humanos.

As redes sociais comerciais, enfim, também estão aí para que cada um possa confirmar isso (ou não) e evitar que especulações como essas pareçam mentira deslavada ou franco delírio. Isso pelo menos até que outro modelo de rede tome o lugar das atuais (e isso fatalmente deverá acontecer uma hora dessas). Um requisito interessante, neste caso, talvez fosse o de qualificar o próprio engajamento comunicativo e afetivo, pois da aprendizagem das redes o que mais se tem podido depreender são informações deturpadas, engajamento precário, um certo culto à indiferença e um pendor mal disfarçado à evasão de informações. De qualquer forma, é bem interessante pensar que, sendo isso tudo apenas uma radiografia do comportamento humano contemporâneo, talvez ainda haja muito a ser feito em prol da comunicabilidade e das próprias pessoas que não apenas mais e mais mediação tecnológica.