Pedra pome

Cada vez mais vou ficando incapaz do meu tamanho.
Devia fazer cada vez menos.
Demorar-me cada vez mais.
Até restar quem sou, preciso ir cedendo.
A cada dia um tanto.
E nem notar como isso vai me acontecer.
Perder todo os pedaços que sobram.
Exceder do que não preciso.
Vertê-lo de mim para fora.
Invadir-me ao contrário.
E lavar minhas palavras do que elas parecem ser.

Mas tenho também novas capacidades.
Mal caibo em mim, por exemplo.
Dou mais do que minhas economias suportam.
Estranho que pudesse até ter sido diferente.
Ter uma imagem para os outros maior ou menor que eu mesmo.
Muitas que sequer me frequentavam.

A minha voz, por exemplo, eu nem sei o que ela ainda sabe dizer.
Meu nome é diminutivo de outro maior que o meu.
Mas eu não vivo sob sua sombra.
Afastei-me a seu pedido.
Eu nunca o obedeci mesmo.

O nome é a única palavra de todas que chama o indivíduo por quem ele é.

Um dia farei o mesmo comigo.
Desobedecer-me.

E todo os meus tentáculos romperão de pronto.
Estou aprendendo como fazer.
A cada ano aprendo mais.

Dizem que no final há um vazio ou um novo lugar.
Eu só espero que tenha doces por lá.
Doces argentinos.
Ou um tango sureño.
Ou outra boa razão para salivar bastante.

A essa altura eu deveria ter também novas esperanças.
Não as tenho.
As que tinha gastaram-se como pedra pome.
E ainda assim as mantenho.
Mesmo que seu poder tenha se desmantelado eu as provoco.
Se forem mesmo boas, sobreviverão a mim.
Serão para meus filhos.
Que sejam.

A pedra pome é um esfoliante mineral usado para remover a pele morta dos calcanhares.

Mas os minérios não trocam com o corpo.
Isso só um corpo faz ao outro.
Os corpos são independentes e avulsos demais.
Deveriam muitos ser o mesmo.
Através de algum modo eles poderiam tentar.
E alegrar-se por isso.
As palavras são aves que avançam sobre as pontes.
Se eu pudesse trocar-me por outro eu penso que escolheria melhor.
Um mais sábio. Ou mais rico. Outro qualquer.
Mas gosto desse, ainda.
Nem tanto que o considere demais.
E nem tão pouco para levar-me tão a sério assim.

A democratização e o impeachment por Fernando Gabeira

O lado bom de resenhar um autor muito conhecido é que qualquer apresentação da pessoa é desnecessária e pode-se passar diretamente à obra em questão. Este é justamente o caso de Fernando Gabeira e seu novo Democracia tropical. O livro, que reúne a recente crônica política publicada por Gabeira na imprensa brasileira e o seu caderno de notas, é o décimo segundo do jornalista, ativista e ex-deputado federal.

Tomando como pontos de inflexão a redemocratização a partir da anistia, em 1979, e o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, Gabeira unifica a reflexão de quem viveu a luta armada e o combate à ditadura militar e o desfecho político do processo de consolidação da alternativa de esquerda no poder. Uma vantagem, se é que se pode chamá-la assim, de Democracia tropical em relação aos recentes lançamentos editoriais sobre o impedimento de Dilma, é o fato de que suas análises estão calcadas no trabalho jornalístico e na observação dos fatos no calor dos acontecimentos. Quer dizer, não se trata de um trabalho que visa justificar quaisquer condutas políticas, mas tão simplesmente esmiuçá-las como quem examina o tempo presente e seus atores, tão bem conhecidos dele mesmo pelo tempo em que esteve envolvido na política partidária e por ser um cronista das desventuras do poder no Brasil desde, pelo menos, meio século.

O livro poderia ser tranquilamente dado como pessimista, e isso não porque ele faça previsões tenebrosas a respeito do futuro político brasileiro, mas por ter podido confirmar as piores expectativas que vêm sendo reveladas nos últimos anos. Para o autor, a dinâmica democrática foi colocada em risco justamente porque o projeto de esquerda tornou-se nominal e apartou a política do social, configurando-se por moldar-se rapidamente aos principais núcleos de corrupção existentes. A corrupção, segundo Gabeira, é tanto o elemento de aglutinação de uma política deteriorada quanto o fenômeno pelo qual a sociedade pode depurar-se, caso aceite enfrentá-la sem reservas e exceções.

Em linhas gerais, isto é o que mais importa dizer a respeito do livro, mas ainda há mais, porque o seu texto, diferentemente da historiografia acadêmica ou da ciência política, está mais amparado na experiência do que na coleta de impressões ou na organização de fatos isolados. Além disso, Gabeira empresta à análise dos fenômenos políticos recentes a profundidade que falta aos trabalhos, digamos, hagiográficos que têm por efeito enaltecer o heroísmo da classe política e de seus exemplares. Pelo contrário, a história que Gabeira constrói não é narrada, mas flagrada nos sucessivos tropeços e muitos passos atrás que os projetos políticos costumam dar no Brasil, sejam protagonizados pelo PT, PMDB ou PSDB, partidos que dominaram o cenário nacional nas últimas décadas e cujas figuras máximas reuniram-se melancolicamente, em tempos recentes, na posição de investigados da operação Lava Jato.

Melancolia e não heroísmo, portanto, é o substrato das crônicas de Gabeira. Poderia ser enquadrado até como peça trágica, pois afinal não se trata de uma obra de ficção. A tragédia do real, apesar de tudo o que se diga a seu respeito, é a de sempre fazer-se sentir na vida mais imediata das pessoas e também na credibilidade das instituições democráticas. Contra o sentimento generalizado de falência e de embretamento, Gabeira consegue ser por ele mesmo alentador, já que não está nem nunca esteve conformado pela “governabilidade” e, ainda que não seja nem pleiteie ser um entreposto da unanimidade, é dos raros jornalistas que procuram manter uma visão límpida da história política e dos acontecimentos recentes. Para quem pensa ainda nos termos de “nós contra eles” ou outras dicotomias igualmente simplórias, talvez seja bastante difícil ou forçoso localizar nele qualquer traço de identificação ideológica. Isso importa pouco, porque de quem foi compelido a limpar de e em si mesmo os vestígios e ranços a que tantos se apegam como se conteúdo fosse, apenas se deveria exigir clareza e tranquilidade, e isso é o que não falta nas análises e registros do seu livro.

O meu amigo Levi

Por essas tristes fatalidades da vida, precisei há cerca de um ano trocar de chip no meu aparelho celular. O antigo, infectado por um vírus, depois de promover uma onda monumental de spam em meu nome, de um dia para o outro bateu as botas e nunca mais funcionou, o finado e bom número. O novo, radiante e aparentemente intacto, trouxe com ele o nome da pessoa mais indesejável que há no planeta Terra, quiçá no sistema solar inteiro, galáxia, universo e mundos paralelos: o Levi. Guardem esse nome: L – E – V – I.

Quem me conhece sabe muito bem que eu não sou nem nunca fui o Levi. Mas o maldito sujeito, além de um dia ter possuído o número que a operadora de telefonia me legou, era o maior calavera da paróquia. Um devedor contumaz. Fichado na SERASA e em todos os sistemas de fichamento de crédito sabidos no mundo inteiro, devedor do Bradesco, do Itaú, do Banco do Brasil, do Unibanco, da Caixa Federal, do HSBC, do Santander, do Citibank e outros mais. Acho que até do Banco Safra e outras iniciativas igualmente calaveras ele era cliente. Cliente e inadimplente, diga-se de passagem.

Evidente que, por ter herdado seu número, herdei também as cobranças desta nobre pessoa, o Levi.

Teve dias que temi pela vida do Levi, é justo que o diga. Não porque eu desejasse matá-lo (isso nunca passou pela minha cabeça), mas imaginei que se ele devia para tantas pessoas jurídicas, tranquilamente ele deveria também para pessoas físicas… Daí a ser um alvo de um esquadrão de matadores de aluguel seria uma passo relativamente simples, basta você ser um pouco chato e isso, bem… Mas não, nunca desejei nada de ruim ao Levi. Eu queria apenas que me desassociassem do seu nome e do seu CPF e então estaríamos de boas pela vida. Não sou de guardar rancor, como se vê. Basta que me deixem em paz e estamos bem!

Por um tempo, cessaram as incontáveis ligações em busca do Levi e mensagens SMS e até os convites para grupos de credores no WhatsApp. Na minha inocência, julguei que estava finalmente livre da memória dessa criatura subitamente íntima. Vã ilusão… Um dia recomeçaram, primeiro sutil e depois enfaticamente, as cobranças, agora unificadas numa única empresa especializada. Especializadíssima, soube mais tarde. O alívio, transitório como todos os alívios, acabou por revelar-se o maior dos tormentos. A empresa desejava realmente caçar, incomodar, infernizar a vida do Levi e, para ela, se o número estivesse no meu nome ou no do Papa Francisco, eles não se comoveriam.

Sistemáticos, eles passaram a ligar cerca de 7 vezes por turno do dia, através de números os mais diversos, de prefixos de localidades tão estranhas quanto o município de Anta Gorda, no RS, como de Jijoca de Jericoacoara, no CE. Eu, por pensar que poderia ser uma herança de um remoto e desconhecido parente milionário, por um tempo fui atendendo as ligações, confiando naquela hipótese do raio cair bem na minha cabeça. Logo, vi que era apenas mais da herança e do legado do Levi e suas operações bancárias.

O suprassumo aconteceu num dia em que, estando na escola para buscar meu filho junto a outros pais e familiares, a ligação foi ineditamente convidativa. Uma gravação convidava-me a dizer SIM ou NÃO após ouvir o bip e tudo estaria para sempre resolvido. Na hora, subitamente emocionado, disse o que estava entalado na minha garganta por meses a fio. Disse um comprido NÃO. Representado graficamente, saiu mais ou menos assim: NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO! E, por um momento absolutamente descontrol, continuei: NÃO, EU NÃO SOU O LEVI, NÃO SOU, NUNCA FUI, NÃO CONHEÇO, ODEIO, QUERO MATAR!!

Houve olhares. Algum estranhamento também. Mas logo expliquei expressamente a minha situação, no afã de ser compreendido, e não foi com pouca surpresa que meus interlocutores revelaram que tinham, cada qual, o seu equivalente ao Levi. Nem digo que fiquei aliviado, mas serviu, sim, de consolo, saber que, afinal de contas, não sou apenas eu o condenado à chateação telefônica. Somos todos ou, pelo menos, um bom número…

De resto, serviu-me o aprendizado com o meu amigo Levi a desconsiderar solenemente ligações que não sejam do meu mais restrito círculo de conhecidos. Eu até continuo oferecendo de bom grado meu número, e agora sem nenhum cuidado, para qualquer farmácia e padaria que quiser me cadastrar, sabe-se lá com que objetivos, eu informo. Não vou atender mesmo… Então, já sabem, se quiserem falar comigo, não me liguem. Depois do Levi, todos são potenciais Levis. E, sinceramente, um já me foi o bastante pela vida inteira.

Sobrevivo

sobrevivo na palavra
sou seu arresto
e do que fica dela
me infesto

sobrevivo no que sobra
fui por ela aviltado
é o que meu corpo hoje cobra
de tanto ter suportado

antes da palavra eu suspiro
o ar da noite arrefece
e eu a ele inquiro
mas ele não tem interesse

sobrevivo e caso me falte
eu faço com que de repente
do nada eu a assalte
(ou então me cale somente)

Exercício

continuo o caminho que minhas retinas dão
e os passos mesmo sem saber onde vão

continuo do ponto em suspenso
igual a antes, sem ainda saber o que penso

trocando a vida por bagatelas
gastando a pouca comida sem grandes cautelas

continuo o trabalho incansável de quem permanece subindo
o fardo de Sísifo não é ter de fazê-lo sorrindo?

continuo e é por vingança incontida –
por um tempo maior, talvez, que a própria vida

continuo e devo ir até o fim
dizem que farei isso por mim

apesar da palavra e do corpo, todavia
me contagie do amor, da tristeza, da alegria

continuo sob a lua imensa ou o sol a pino
inutilizando as lições que me ensino

continuo, eu espero, mais vivo que outrora
o tempo, ele começa agora

no rastro das nuvens, túneis, estradas apagadas,
elevadores, caminhos, fronteiras, escadas

continuo e onde estou nunca estive
aqui me deixaram, aqui me detive

e ainda eu penso o que deve haver mais além
e busco alhures o que não pode estar em ninguém

continuo mesmo do último verso:
viver é minha exigência, não a função que exerço

À tona

não sei o quanto vale este passado
esfarelando-me em seus dedos –
que espécie de animal é esse
que se alimenta sem fome
apenas por um hábito atroz
de comer sem entender o que come?

eu fui eviscerado decerto
para que entendessem qual a cor
que tenho por dentro –
o profundo eu
de inesperado azulado
então é meu mesmo?

que espetáculo privado
é saber-me um universo inteiro –
eu já cheguei ao seu final
e lá não penso em voltar –
se não há mesmo tempo,
azar..

agora me espero de lugares
bem mais próximos:
a esquina e seus acidentes
costumeiramente fatais,
os pontos certos da rotina
aguardam-me tão pontuais..

posso cantar com essa voz ainda
e nem sempre isso me anima
(porque então voltei a dizer)
mas me conforta –
e isso é de tudo, afinal,
o que me importa

é tão longe buscar o novo
o mais certo é fazer o mesmo
e ainda que pareça a esmo
sei o quanto há de delírio
em emergir no vazio
e me encontrar inteiro

A pedra no fundo do rio

fui seu amigo por muito tempo
como uma espada é da bainha
insinuando-se laminamente
no rastro de uma gota de sangue
que não por acaso era minha

mas por ser tomada erradamente
(e cega como um livro fechado)
também sucumbiu para sempre
inacessivelmente sólida
como uma pedra no fundo do rio

e todos os seres não sabem
a força necessária para demovê-la dali
para não sangrar aos domingos
guardar-se outra vez em si mesmo
esconder dos demais os respingos

Outros jeitos de ler Rupi Kaur

Outros jeitos de usar a boca - Rupi Kaur

A escritora e ilustradora canadense Rupi Kaur é mesmo alguém aparentemente fadada a colecionar feitos inéditos. Sua entrada na lista de mais vendidos da Folha, no sábado de 8 de abril, será apenas mais um entre eles e, mesmo assim, afirmar-se como um fenômeno literário, e não meramente editorial, exigirá bastante do seu livro de estreia: Outros Jeitos de Usar A Boca. Os demais feitos de Rupi não se referem ao fato de ela ter rompido o lacre das listas de mais vendidos, mas por ter indiretamente abalado várias crenças a respeito da escrita e da publicação de poesia, gênero que, a despeito de alguma popularidade, é dos mais insignificantes em vendas no mercado brasileiro de livros.

Rupi, que é filha de pais indianos de origem sikh, ganhou notoriedade após publicar pelos próprios meios um livro de poemas também ilustrado por ela mesma. Os poemas eram divulgados no Instagram e, em função de uma postagem censurada, onde ela aparecia de costas exibindo seu sangue menstrual, sua popularidade multiplicou-se vertiginosamente. Em poucos meses, o livro autopublicado estourou em números e venceu sua primeira barreira: finalmente encontrou um editor disposto a investir comercialmente. Antes, havia tido apenas a sorte comum a grande maioria dos livros de poesia, ou seja, a simples negativa. Por isso, Rupi fez ruir de uma vez só um duplo estigma: o de que poesia não vende e de que a autopublicação não seria uma alternativa editorial.

Tido como um libelo em versos, Rupi trata em Outros Jeitos de Usar A Boca (Milk and Honey, no original em inglês) de temas muito difundidos no movimento feminista: abusos, relações familiares e o termo dos termos: empoderamento. E eis que aparece aqui a segunda barreira para o seu livro, a de sobrepujar o apelo temático e afirmar-se como valor mais poético do que identitário. É o que muitos se perguntam sobre o seu sucesso: se ele se deve à qualidade literária ou à identificação com uma causa das mais candentes no mundo contemporâneo. O que muitos dizem é que não seria porque Rupi vende um milhão de livros de poemas que há um milhão de pessoas interessadas em ler poemas. Num mercado marginal, a publicação de poesia cumpre um trânsito breve e bastante restrito a iniciados e poucos admiradores. Nas prateleiras das livrarias, via de regra apenas os nomes consagrados, em sua maioria mortos há muito tempo, é que estão disponíveis.

Muitos incrédulos apostam que o fenômeno Rupi deve esgotar-se em si mesmo e há muitas indagações a respeito de sua vocação poética. Se é poesia mesmo ou apenas autoajuda escrita em versos, por exemplo. Que a vocação política da poesia é antiga não há novidade alguma em dizer e que de uma autora de 24 anos não se pode exigir um projeto estético e literário definitivo, igualmente. Por que então não dar a Rupi o tempo que todos dispõem, ou seja, o tempo de amadurecer ou de perecer, se este for mesmo o caso?

Qualquer pressa nesse sentido, o de determinar definitivamente o valor do seu trabalho pode ser apenas a pressa pela desqualificação. Porque Rupi surgiu e cresceu assim mesmo, encarando o descrédito editorial e a incredulidade da crítica, é bem possível que ela venha a sobreviver, e ainda mais forte, porque amparada em leitores de todo o mundo e e de todas as idades. Eu não sei, penso que tanto quem gosta de versos (e desde que não esteja preocupado em escalonar os valores poéticos) quanto quem apenas se interessa pelo tema é quem sairá ganhando. Trata-se de apenas dar o tempo de uma autora em seu primeiro livro. E, sejamos um pouco decentes nesse aspecto, não há crime algum nisso.