O futuro que pode estar acontecendo

mais recente livro de Yuval Noah Harari tem tudo para mais dia menos dia ser daqueles livros com os quais todos irão fatalmente tropeçar em qualquer grande livraria, ou se irá bater os olhos nele nas gôndolas dos aeroportos, ou ainda saltará na sua tela, qualquer que seja ela, em recomendações algorítmicas do seu fornecedor preferido. Talvez se devesse imaginar que isso tudo se tratasse do efeito de uma grande campanha de marketing viral, a começar pelo sugestivo título do livro, e completada pelas seguidas aparições midiáticas do autor, mas o mais certo talvez fosse considerar que Yuval novamente acertou a mão (que o digam seus editores) ao escrever um livro que as pessoas desejam ler e mais ainda porque suas “lições” agora dizem respeito ao tempo presente e seus fantasmas e fantasias mais atuais.

Um leitor inocente indagaria com o livro em mãos (ou em mente): mas isso é bom ou mau? Depende, seria talvez o mais apropriado a responder-se. Dependendo, sim. Dependendo, não. Ou, sendo o mais tolerante o possível, ambas as situações e respostas ao mesmo tempo.

Num país de alegado e documentado desinteresse pela leitura, não deixa de ser interessante que um livro de divulgação científica esteja disputando a atenção dos leitores contra uma variadíssima gama de subliteratura e isto por certo pesa a seu favor. Por outro lado, por sua própria presença na posição de mais vendido, seria possível alegar-se que então se trata de mais um livro fácil, um caça-níqueis, e isto talvez pesasse contra o autor e seu novo título.

Seja como for, ambas são apreciações superficiais e, desde que são colocados à venda, o que se espera é que livros vendam bem, portanto pelo menos aparentemente não há nem um crime em vista. Além do mais, essa é uma discussão que não chega ao limiar da relevância do livro em si mesmo, que é o que deveria importar, mas apenas demonstra a intensa desconfiança que tem cercado a publicação de qualquer livro de interesse histórico.

Algumas décadas de jornalismo histórico sobressaindo-se aos livros de e sobre história (e assim sucessivamente em outros campos do conhecimento) haveria de resultar num custo destes: neste caso, uma paranoia exorbitante. Para leitores que se acostumaram a identificar por livros de história apenas aqueles fartamente ilustrados e redigidos numa linguagem coloquial extremada, para não dizer banal, é importante dizer que o livro de Harari pode e deverá ter ainda muitas leituras críticas, inclusive desta espécie taxativa. Ocorre que na maioria das vezes estas são críticas irrelevantes, enquanto que seu livro é apenas acessível e um tanto quanto repetitivo no que confere aos seus argumentos e temáticas, mas isto parece não desapontar suas legiões de leitores mundo afora.

A noção de “irrelevância”, aliás, é das mais abordadas ao longo das lições por ele propostas e rapidamente se pode perceber que se encontra no fundo de muitas de suas preocupações com o tempo presente e também com o porvir. Ao passo em que fundamenta sua crítica ao tripé narrativo preponderante no séc. XX (o fascismo, o comunismo e o liberalismo), segundo ele em vias de ruir em prol de um mundo cada vez dominado e orquestrado por algoritmos, Harari localiza na expansão da tecnologia a nova grande ruptura no modo de viver de toda a humanidade a causar não apenas uma grande onda de desemprego em massa, mas a irrelevância de pessoas e até mesmo de nações inteiras diante da emergência tecnológica e seus grandes artífices, configurados principalmente graças ao desenvolvimento das inteligências artificiais. Com um assunto assombroso como esse e trabalhando sempre numa margem de que isso tudo venha a ocorrer em algumas décadas, Harari já ganhou a atenção de meio mundo a despeito de seus exageros, sejam deliberados ou não.

Não se trata, segundo suas lições, da obsolescência de ocupações e modos de viver que estariam por acontecer, mas do que está acontecendo já e cujos sinais se fazem sentir por toda a parte. Para Harari, o tempo presente é carregado por nuvens a impedir sua percepção com a clareza que anos de estudo em Oxford, na Universidade Hebraica de Jerusalém e longos períodos dedicados à meditação Vipassana permitiram-lhe entender de forma diferenciada. Talvez por essa razão é que a clareza, ou sua busca, de fato, parece ser o tom preferencial da maioria de suas argumentações. Apesar de localizar em torno do ano de 2050 o derradeiro colapso da humanidade, Harari o faz através de uma narrativa envolvente que em muitas vezes parece-se mais a um conto de fadas sombrio no qual o grande mal espreita o mundo globalizado enquanto os incautos creem poder dormir sob uma segurança apenas aparente.

Seria de esperar que suas 21 lições, ainda que tenham sido coligidas e baseadas nas ideias de muitos artigos, entrevistas e apresentações, trouxessem, para além de um diagnóstico circular, saídas viáveis para pelo menos boa parte da humanidade. Ao contrário daqueles que costumam postular na ascensão tecnológica a redenção da humanidade e a solução racionalizante para as mazelas tanto do corpo físico quanto social do humano, Harari prefere fazer as vezes do condutor da inevitável catástrofe, valendo-se para tanto de uma combinação de ceticismo e humanismo.

É em determinada altura de sua lição para a educação do século 21 que ele, no entanto, registra aquele que parece ser o grande conselho no que se refere ao futuro em todo o livro: “O mais importante de tudo será a habilidade para lidar com mudanças, aprender coisas novas e preservar seu equilíbrio mental em situações que não lhe são familiares. Para poder acompanhar o mundo de 2050 você vai precisar não só inventar novas ideias e produtos – acima de tudo, vai precisar reinventar a você mesmo várias e várias vezes.” Bem, para um país como o Brasil, tido como a “nação Rivotril” e que amarga o incômodo ranking de líder mundial em transtorno de ansiedade e quinto lugar em casos de depressão, segundo dados da OMS, trata-se de um conselho desanimador, ou então (preferivelmente) pueril.

Não que seja próprio do ser humano acalentar esperanças inúteis, mas esta parece ser mais uma revivificação da ideia marxista da decomposição da solidez, retomada tantas e tantas vezes sob diferentes formas durante o séc. XX a ponto de ainda conseguir parecer inédita ou, mais que isso, converter-se em aconselhamento de sobrevivência no mundo pós-capitalista. Este parece ser o ônus com o qual têm de arcar todos aqueles que se aventuram a predizer o futuro: esbarrar na muralha de antigos conceitos e da imprecisão histórica. Também parece um pouco a sina de que Philippe Ariès comenta no seu O tempo da história, da dificuldade em conceber-se claramente o contemporâneo, já que ele traz consigo o sentimento natural de uma época.

De qualquer forma, a partir da publicação da sua ambiciosa trilogia histórica, Harari tornou-se um debatedor importante ao longo da última década, ainda que muitas vezes reverbere como apenas mais uma dissonância sutil do tempo presente e seus insights fugazes enquanto o tempo engole a todos indiscriminadamente. Suas preocupações, recheadas de exemplos obtidos da história comparada, têm lastro e muitos interessados num mundo com excessiva pressa para ler e comparar e ávido por lições de quem advoga para si um misto de qualidades ímpares, tais como o ceticismo, a isenção e o distanciamento misantrópico. Condenando rapidamente aquele que talvez ainda seja o bem mais caro à civilização, o livre-arbítrio, a um papel subalterno no ordenamento dos fatos políticos e subjetivos, Harari realiza em suas lições muitos alertas importantes, mas corre o grande risco de ele mesmo acabar por denegar a espécie humana sua capacidade de discernir por conta própria.

Em sua narrativa, em lugar da consciência há cada vez mais a onisciente inteligência artificial do Google e de outras gigantes do Vale do Silício. No lugar da espontaneidade das relações humanas, a aventura seletiva das redes sociais e a desintegração das comunidades. No lugar do conhecimento e da diversidade humana, apenas algoritmos e Big Data. No lugar das idiossincrasias regionais e culturais, uma teia cultural reordenando o mundo em estruturas anômicas e situadas para além da compreensão humana.

Num mundo e tempos tão complexos como os narrados em sua não tão breve história da humanidade, é chegado o tempo em que Harari se tornou imprescindível para entendê-los e isso só pode ser muito bom para ele mesmo e seus leitores. Ocorre que mesmo em posse de livros sem dúvida bem elaborados e escritos, ainda assim é impossível garantir que o seu maior temor, o da irrelevância, não possa igualmente vir a atingi-lo numa outra narratologia superveniente, e isso não seria exatamente uma boa notícia. Bem mais prudente seria afirmar que, por enquanto, seus livros colaboram em acautelar-se com o presente e com o futuro. Trata-se de mais uma ambiguidade, mas dada a gravidade e a irrevogabilidade dos processos históricos, não cabe ser inocente nem com livros, nem muito menos com alertas apavorantes sobre o futuro.

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Amélia

Foi bem quando meu filho entrou no primeiro ano escolar que conheci uma linda menina chamada Vanessa, de quem lembrei muito nesses dias. Dela e de sua mãe. O nome da mãe era Amélia e, assim como aquela outra celebrizada na marchinha de carnaval, também era ela uma “mulher de verdade”, ainda que por razões muitíssimo diversas.

Antes mesmo de nascer, num ultrassom, Vanessa foi diagnosticada com uma condição chamada disgenesia do corpo caloso, ou síndrome de Aicardi. Não vou entrar em detalhes sobre tudo o que pode envolver a condição, apenas que é uma alteração neurológica que costuma implicar em algumas dificuldades no desenvolvimento neuropsicomotor e cognitivo. No caso da Vanessa, havia um pouco das duas situações, uma hipotonia muscular relevante e a necessidade permanente de controle de convulsões.

Como nós, Amélia também estava buscando escolarizar a filha, o que é seu dever e sem o que estaria sujeita à fiscalização pelo conselho tutelar, ministério público e sanções judiciais previstas na forma da lei. Esse tipo de fiscalização normalmente decorre de suspeita de negligência da família quanto à escolarização e frequência e pode acarretar desde um processo judicial a até mesmo a perda do pátrio poder em casos mais graves.

Convivi com a Vanessa e a Amélia por cerca de três meses. Foi o tempo que permanecemos na escola. Depois, como mudamos para outra, perdi completamente seu contato, mas nunca as tirei da minha memória. Naqueles meses na escola pública, conheci também crianças que iam à escola para ter sua primeira refeição às 3 horas da tarde, na hora da merenda. É inimaginável que haja pessoas que roubam e desviem recursos da merenda escolar de crianças, mas há, e o braço da lei quase nunca alcança os autores desses crimes, o que nos joga num abismo civilizacional desesperador, inacreditável.

Na época, Vanessa tinha nove anos e estava no segundo ano do fundamental. Há dois, incluída ali na escola. No andar térreo da escola não havia salas de aula, apenas a estrutura burocrática. As salas de aula ficavam situadas a partir do segundo andar de um total de três andares, acessíveis apenas através de uma escada como, aliás, continua ainda hoje. Ao pé da escadaria foi onde muitas vezes conversei com a Amélia e conheci um pouco da sua vida e da Vanessa e também de seus três irmãos. Ali, numa cadeira de madeira, ela permanecia a tarde inteira, socorrendo eventualmente a filha de alguma situação que a professora não podia ou não sabia como atender. Às vezes, um mero engasgo com saliva. Outras vezes era preciso ajudá-la ao banheiro. Eventualidades dessa natureza e outras.

Sem maiores justificativas, a direção da escola não autorizava que a Amélia permanecesse nos corredores escolares e então algum colega da filha subia e descia com recados para que ela tivesse como socorrê-la. Na sala de aula, numa cadeira especial obtida através de uma entidade filantrópica, a Vanessa usufruía do que se chama na lei o “ensino regular”, e apenas depois de ser carregada no colo pela mãe acima e abaixo através dos degraus da escadaria. A Amélia tinha muita força porque carregava a pequena nos braços sem nunca demonstrar cansaço e recusava toda a ajuda oferecida nesse sentido.

Orientada pelo ministério público a buscar junto à defensoria pública forma de acionar a justiça a fim de garantir uma pessoa que auxiliasse para a Vanessa, a Amélia contou-me que, após um ano de audiências adiadas, ouviu o rumor de que o governo do estado parecia dispor de alguns poucos concursados para suprir essa demanda. Dependendo, poderia ela finalmente beneficiar-se da ação. Mas, por via das dúvidas, ficava ali a tarde inteira e às vezes um pouco mais, porque o vizinho que a levava até em casa, a bairros dali, atrasava bastante. Por sorte a platibanda da escola as protegia da chuva quando chovia e impavidamente aguardavam pela carona, mesmo que o vento nem sempre colaborasse com uma possível piedade que ele, de fato, não tem.

Em razão de complicações que às vezes aconteciam com a saúde da Vanessa, muitas vezes ela ficava longos períodos sem ir à escola, mas, graças à persistência da Amélia, continuava evoluindo a despeito da carência generalizada de tudo.

Muitas mães e pais de crianças com deficiência ou limitações, são desde cedo estimulados a participar ativamente dos cuidados, estimulação e educação dos filhos. Muitos trocam de profissão e vão estudar formas de melhor ajudá-los. A gama de pais/mães terapeutas não é precisamente sabida, mas empiricamente eu sei que é imensa. Vão desde fisioterapeutas, pedagogos, médicos e assim por diante. É fácil de entender as razões desse fenômeno. Na sala da minha casa, por exemplo, instalei um quadro-negro e não é por razões estéticas que o fiz.

A Amélia, contudo, de família muito modesta, nunca conseguiu realizar essa transformação. Separada, passou de empregada doméstica e mãe de quatro filhos a dependente da ajuda dos poucos familiares em condições de ajudá-la e dos auxílios sociais (3/4 de um salário mínimo) e serviços públicos.

Ouvindo nessa semana a decisão do Supremo Tribunal Federal em invalidar o chamado homeschooling, eu lembrei muito da Amélia e dos panos de prato e costuras que ela vendia na escola, entre professores, funcionários e outros pais e mães. E pensei que ela e a filha seriam justamente pessoas que teriam se beneficiado de um programa de educação domiciliar pensando decentemente, não necessariamente integral ou em função de credos religiosos. Mas, até aí, já estaria entrando no ramo dos devaneios, o que não é nem um pouco recomendável. Apenas fiquei chocado ao ver que muitas pessoas inteligentes estavam associando os dois comportamentos: o dos fanáticos criacionistas que querem educar seus filhos com base numa ficção religiosa e o de pessoas com múltiplas deficiências ou doenças graves.

Nessa semana passada ou no máximo na outra, passei os olhos em uma reportagem de uma revista de grande circulação nacional, falando dos benefícios do brincar e dos dilemas éticos nisso envolvidos. Ao invés de associar a leitura às crianças em si mesmo, pensava justamente no que foi feito da ética interpessoal das pessoas e no compromisso moral de autoridades com a sua dignidade. Lembrei também de uma leitura que havia feito de Ortega y Gasset, no qual ele desenvolve o seu conceito de “circunstância”: o homem e sua circunstância. E pensei o quão a política tem sido pervasiva e invasiva ao mesmo tempo, porque muitas vezes sob o pretexto normativo e formalista é que acabam se criando as formas mais violentas de anomia e exclusão.

A Vanessa, principalmente pela pobreza de sua família e também pela pobreza calamitosa do estado, é apenas uma das crianças sem esse fabuloso direito a brincar e muito menos o de estudar com conforto e decência. Amélia, sua mãe, sequer tem o direito de buscar sua sobrevivência, vivendo de favores. Para ela, nada de escola em tempo integral. Para a filha, nada de um mínima atenção individualizada. Para ambas, nada disso de uma escola perto de casa, mas o trânsito interminável de cidades que expulsam os pobres para cada vez mais longe de tudo, justamente onde rareiam os serviços e possibilidades.

No entanto, para o regozijo de famílias que tem o orçamento de uma empresa, a única circunstância que admitem para os outros é algo como a sua própria, um seu espelho. Ou a generalização de um direito que eles conhecem bem por pagar caro por ele e do qual os outros apenas ouviram falar.

O que houve com o espírito inclusivo que agora pode passar sem o menor pingo de ética e compaixão? No momento em que lutar por uma lei ou por um pacto normativo qualquer se torna mais importante do que as pessoas, é que algo vai muito, mas muito mal com a sociedade. Estou falando em pessoas de verdade, não portfólios de Facebook, claro. Como Vanessa, Amélia e tantas outras que nem sabemos quantas. Nossas estatísticas, nosso Big Data estatal, sequer nos permite distinguir entre o que é real e ilusão. E achamos que sabemos de alguma coisa e com base nesse misto de ignorância e arrogância vamos consertar o mundo.

Cinco anos depois, não tenho ideia de onde andarão a Amélia e a sua filha. Alienado num mundo apenas um pouco mais confortável, me entristece muito a falta de oportunidades e um modelo educacional craquelado de tão engessado. Mas me entristece ainda mias verificar que para defender o suposto modelo inclusivo seja necessário invisibilizar histórias como essa. Bom, comigo não funciona. Não consigo. Em algum momento, não sei quando, eu me incluí fora dessa. Perdi a empatia com o cinismo. Passei a sentir saudade é da Amélia.

 

Cantognake

Há uns dias assisti a um filme que mostrava os últimos dias de vida do chefe indígena sioux Touro Sentado. Um belo filme, baseado na história real de uma pintora e retratista norte-americana, Caroline Weldon, que arriscou a vida para retratar o legendário sioux. O filme se chama “Woman walks ahead” e não sei se já se encontra nos meios habituais, Netflix, etc.. Eu o consegui num torrent.

Além do idioma cheio de sonoridades e estalos bucais dos indígenas, fabuloso por si só, e do morticínio final da tribo liderada por Touro Sentado, terrível por si só, o filme tem alguns momentos muito bonitos sem resvalar inteiramente à pieguice, o que é meio raro em se tratando de filmes que retratam povos indígenas.

Uma cena em especial, de um diálogo entre Sitting Bull e Caroline, dão conta de uma imagem invisivelmente poética daquele momento histórico (1890). Na tomada, ambos cavalgam lentamente através da pradaria. O cacique sabe que não pode mais fugir ao seu destino e de qualquer modo irá morrer lutando contra o exército norte-americano que deseja confinar a nação dakota em regiões inóspitas e impróprias ao cultivo. A essa altura, a maioria das tribos já abandonara o modo de viver dos ancestrais e começava a conformar-se à agricultura e aos “negócios” com o homem branco. Inclusive o próprio Touro, que já havia deixado para trás sua liderança, modo de vida e a sua impressionante indumentária original. Há dessa mesma época inclusive retratos de Touro usando traje ocidental e chapéu coco. Mas, mesmo adaptando-se já às novas condições, Touro e outros guerreiros e xamãs continuavam a buscar em eventos místicos a ideia de liberação transcendental da situação em que viviam.

Por outro lado, ele sabia muito bem que lutar seria morrer, mas também que não poderia mais recusar o confronto. A retratista, tendo chegado ali naquele momento crucial onde se “celebrava” nova demarcação e indígenas reviviam momentos de violência para com seus velhos e crianças famintas, assiste aquele momento sem volta na história daquele sujeito impressionante que tantas baixas havia causado ao exército norte-americano, entre eles o também legendário General Custer.

Mas, naquele caminho silencioso em que ela buscava dissuadi-lo do confronto pelo qual seria eternizado (quer dizer, outro massacre), ele lhe explica o significado de uma palavra lakota: “cantognake”. No filme, com estas palavras:

“Para achar nosso caminho
na pradaria,
às vezes paramos…

E olhamos… Recordamos.

Com as pessoas também.

Às vezes paramos
e olhamos e recordamos.

Isso se chama ‘cantognake’.

Colocar e manter
no nosso coração.

Este momento.”

Na tomada anterior, numa assembleia promovida pelo exército a fim de explicar o que seria feito na nova demarcação, Touro havia surgido na sua veste magnífica e com seu cocar de grande chefe e uma fala muito impactante, uma declaração de guerra, sobre os sacrifícios do seu povo, os nomes dos guerreiros e chefes abatidos em confrontos e daquela forma mostra-se finalmente pronto para o que tiver de ser, justamente o que pretendiam os militares federais que também desejavam vingar-se de perdidas batalhas anteriores.

É claro que Touro Sentado entrou para a história e é lembrado até hoje pelos seus feitos militares, mas achei aquela outra cena bem mais tocante, até porque expressa verbalmente e com um significado tão poderoso. A pessoa perceber o momento presente e sua relevância é cada vez mais incomum, diante da efusão de eventos e fatos sem fim. Não estar na vida em modo piloto automático requer o sacrifício de muitas coisas. Essa é, para mim, a verdadeira percepção do épico. O resto é a mais pura neurose: viver, guerrear, morrer.

Lojinha mágica

Morar no limiar da Cidade Baixa, em Porto Alegre, tem me proporcionado ao longo dos anos diversas experiências. A maioria eu classifico como boas. Gosto do bairro e das coisas do bairro no qual Érico Veríssimo gostava de perambular para observar de esgueira a vida da pequeníssima burguesia da Porto Alegre dos anos 30 do século passado.

Também eu gosto de perambular por ali, mas isso justamente tem me causado recentemente algumas más experiências.

Não faz muito tempo que passei a acompanhar o trânsito pela Lima e Silva não apenas dos frequentadores noturnos habituais, mas também de um cada vez maior público interessado em certo estabelecimento espiritual (isso mesmo) aqui por perto inaugurado. Embora o lugar ostente uma placa que faz as vezes de pórtico, ainda hoje não consegui identificar sob que credo ou credos ocorrem aquelas práticas religiosas.

De que são religiosas e de diversas matizes eu cada vez mais tenho certeza. Há ali vários símbolos esotéricos, muitos que não sei distinguir, mas me parece claro que há influências maçônicas, haja vista a pirâmide bem ao centro do anúncio, o famoso olho de Hórus, mas também há cruzes, crescentes, uma miniatura do deus indiano Ganesh e um machado que me parece ser de Xangô, o deus da justiça das religiões africanas. Bem se vê que o pessoal ali não tem problema com sincretismo.

No entanto, mais do que tentar identificar a simbologia exuberante, nunca tentei me informar muito a respeito. Por certo há ali um ou mais espiritualistas a praticar suas especialiades e provavelmente a contabilizar alguns rendimentos, dado que o empreendimento não faz muito foi expandido ao prédio vizinho. Certamente é a forma de melhor atender a clientela que nas noites de quarta-feira costuma fazer fila desde a metade da Lima e Silva até boa parte da Venâncio Aires, dobrando a esquina, para obter seu aconselhamento espiritual ou outro dos serviços que ali devem ser prestados.

É bom que diga que nunca tive e nada tenho contra o estabelecimento e muito menos com a prática religiosa aparentemente diversa que ali é praticada. Não entendo dos desígnios do além mais do que minha ignorância permite e por muito tempo apenas me espantava com o crescente da fila e da aglomeração. Sinal de que os tempos não estão fáceis e o conforto espiritual anda cada vez mais necessário. Às vezes as duas necessidades se acompanham, a material e a espiritual. Eu sinceramente acho isso tudo bastante compreensível.

Apenas não consigo achar compreensível é que pessoas em busca dessa espécie de conforto, aconselhamento e etc pretendam purificar seu interior, espírito, alma, o que seja, deixando em seu rastro uma trilha de imundície e sujeira sem explicação.

Como morador, atualmente me incomodam muito menos os bêbados da Cidade Baixa que essas pessoas “espiritualizadas”. Devem se achar puros espiritualmente os fregueses do comércio esse, mas, na verdade, não saem de lá nem um tantinho melhores cidadãos, senão teriam a vergonha de pelo menos juntar a imundície abandonada às ruas e calçadas.

Espiritualidade muito pouco sustentável essa. Se é que vale mesmo esse nome o negócio da lojinha mágica.

O raio problematizador farroupilha

Os gaúchos têm todo o direito de detestar o mês de setembro. Eu detesto do fundo do meu coração este mês maldito que num dia faz um frio enregelante e, noutro, calor insuportável, tudo isso entremeado por um vento contínuo e sibilante, virações repentinas e os próprios gaúchos, que nesse mês se revelam pessoas das mais enfadonhas do universo.

É o mês em que se volta aos grande temas sulistas, a saber, o tradicionalismo, o hino rio-grandense, farroupilhas e outras coisas totalmente irrelevantes ao resto do mundo, mas que aqui, por tédio ou traumas, costumam despertar a ira e o contencioso de pessoas que nos outros onze meses do ano até parecem inteligentes. Em setembro costumeiramente essa máscara cai por completo.

De todos os dramas locais, poucos me parecem tão inabordáveis quanto a presença dos dois seguintes versos no refrão em nosso hino, composto, dizem, no ano de 1838.

“Sirvam nossas façanhas / De modelo a toda terra.”

Sob variáveis argumentos que vão desde uma suposta manifesta e atávica arrogância até os argumentos históricos que dão conta da ausência de qualquer façanha, é impressionante o grau de devoção semântica a dois versos de um hino. Pois o raio problematizador do hino consegue ser tão ou mais tacanho que o próprio hino, porque deveria parecer óbvio a qualquer pessoa que os hinos costumam ter o objetivo de exaltar o ânimo pátrio de um povo e não o de aniquilar sua auto-estima ou confrontá-lo em seus exageros.

Há quem inclusive saque do exemplo de como o hino é cantado nos estádios de futebol e pátios escolares, a plenos pulmões, para “comprovar” que somos todos, sem exceção, separatistas ou neonazistas por isso mesmo. Ora, a comprovação final dessa brilhante dedução seria a forma com que se cantaria o hino. Bah.. Tri complexo esse raciocínio..

Acontece que é um hino fácil e efetivamente entusiasmado, muito ao contrário do hino nacional, todo cheio de inversões e apassivamentos que parece até que foi compsto pelo meste Yoda, de Star Wars. E com frases de um entusiasmo fabuloso, como na frase “deitado eternamente em berço esplêndido”. Alguém consegue mesmo ouvir isso sem sentir ganas de amor pela pátria-mãe?

Seja como for, numa demonstração de chatice ímpar, toda essa tradição critica (porque de tanto repetir-se os argumentos já pode ser chamada de tradição) acabou conseguindo o impensável, que é tornar-se tão ou mais impalatável quanto os aspectos mais toscos do culto ao passado, seja o real ou o inventado. Mas esta parece também uma tradição dos gaúchos, essa luta frátria, esse sectarismo doentio.

Desde 1893, entre republicanos e federalistas tem havido bastante disso por estes pagos. Mas, lá pelo menos, tinha a emoção de um eventual entrevero mais sério ou até uma degola. Agora a briga é no Facebook e, como todas as brigas de Facebook, ridículas e sonolentas. Mas, cada tempo com as suas respectivas façanhas, não é verdade?

Haja saco de ser gaúcho..

A tirania do amor

Em dado momento do mais recente livro de Cristóvão Tezza, (A tirania do amor – Todavia, 2018) a personagem de Rachel, recém-separada do protagonista do romance, de sugestivo nome Otávio Espinhosa, é revelada como uma “leitora voraz de romances”; alguém capaz de resumi-los em duas ou três frases. O protagonista, por seu turno, embora tenha o perfil intelectual de quase um gênio matemático, trata-se de alguém que nunca foi um grande leitor de literatura. Autor sob pseudônimo de um best-seller de auto ajuda, o economista em vias de ser demitido de uma importante financeira lembra-se de ter aprendido tudo o que importa saber da alma humana em Crime e Castigo, de Dostoievski e a avaliá-la consultando a Ética de seu “antepassado” Baruch Espinosa. E o que mais ele se interessa em ler são as notícias da economia sobre as flutuações cambiais, mercadológicas e economicistas do Brasil do ano de 2017.

Este pequeno esclarecimento de Tezza a respeito de seus personagens centrais é irrisório diante de tudo o que ao longo do livro se pode saber a seu respeito, mas, ainda assim, não deixa de ser uma amostra simbólica de suas personalidades e também um disfarçado elogio do autor à literatura. No caso, o intensamente racionalizador Otávio é contraposto a supostamente acolhedora Rachel. Fosse o contrário, ele o ávido leitor e ela a economista insípida, não se alteraria o valor do que é proposto e se saberia exatamente o mesmo, isto é, que o interesse pela literatura pode favorecer no indivíduo o florescimento e amadurecimento de suas capacidades compreensivas e afetivas e que a matemática, áspera e gélida, pode muito pouco no sentido de melhorar o humano, embora em muitas situações possa ajudar a explicá-lo.

Mesmo longe de ser o mais relevante a ser dito a respeito do mais novo romance do autor do realmente best-seller O filho eterno, a relação do casal em processo de desfazimento para com a literatura diz muito a respeito de seu protagonista (e também de seu autor). Tendo por nome quase um trocadilho, Otávio Espinhosa é pessoa de uma afetividade opaca e de uma inteligência lógico-matemática vibrante. De sua biografia, pouco se sabe além de sua formação em Harvard e um presente caótico, no qual sua capacidade de cálculo magnífica e a obsessão por contabilizar até mesmo os passos na rua se mostra incapaz de ampará-lo da ruína iminente. É de um estado de descalabro afetivo, existencial e moral, isto é, totalmente generalizado, que Tezza deseja nos mostrar os descaminhos do mais tormentoso dia da vida de seu difícil e pouco empático personagem de meia-idade.

Não leva muito para que se consiga notar o caos mental e existencial em que se encontra Otávio Espinhosa. No mesmo dia em descobre que a mulher tem um amante e deseja separar-se e está por perder o emprego, ele decide abdicar em definitivo da vida sexual ao mesmo tempo em que passa a entabular mentalmente todo um jogo de racionalizações que vão conduzindo-o como que para dentro de um furacão. Espinhosa parece muitas vezes nem respirar e é jogado de lá para cá pelos fatos presentes, pelas suas projeções futuras e por lembranças de um passado que pouco a pouco já não lhe diz respeito e do qual vai se alheando cada vez mais, a despeito das tentativas de fixar-se e conter os efeitos das decisões dos outros e também as decorrentes de suas próprias ações e passividade.

Diante do futuro imponderável, a amargura de quem foi preparado pelas convicções de seu pai para ser nada menos que um gênio, o “seu Mozart”, ele topa-se frontal e incessantemente contra a autonomia da alteridade. A essa altura da vida, tudo lhe soa vulgar e seu cambiante heterônimo filosófico, Kelvin Oliva, com seu livro de dicas milagreiras de bem estar financeiro e emocional, parece constantemente punir-lhe com suas pregações inúteis e filosofia de quinta categoria, além do “parente” Espinosa.

Na vida real, Espinhosa é confrontado pelos filhos adolescentes, pelos fantasmas da ex-mulher, de uma antiga e de uma nova namorada que o atormentam ao desnudá-lo mentalmente a todo o instante, como se formassem um superego abrangente sobre o qual ele necessita sobreviver. Sua situação apenas não é mais tenebrosa do que a da empresa em que trabalha, cujos escândalos prestes a serem revelados talvez lhe custem o emprego e a sobrevivência. Nesse fatídico e interminável dia, todo o mundo lhe parece tragado pela fantasia da vulgaridade econômica e cultural. Ele mesmo, em perspectiva, vê-se como um embuste, principalmente em razão de sua realização intelectual mais notória: o sucesso provisório de seu livro A matemática da vida.

Contra o pano de fundo da contemporaneidade brasileira, Otávio Espinhosa (nome que de acordo com a ex-mulher Rachel se parece a um ouriço), é um personagem acidulado que vai buscando reorganizar-se mentalmente (sempre muito mais mentalmente do que emocionalmente) a fim de sobreviver à própria percepção de inadequação de um modo de vida que, afinal, lhe trouxe aonde trouxe, mas do qual não sabe sequer se deseja mesmo livrar-se ou superá-lo.

Se o senso comum dita que a idade traz a sabedoria, Espinhosa parece tão imaturo e renitente quanto seu filho Daniel, um estudante de jornalismo engajado em novíssimos movimentos sociais que em arroubos pseudoindependentes vem deflagrando uma guerra contínua contra ele, o modo de vida burguês que ele representa e o filho naturalmente abomina. Ele também não conta com a mesma placidez da filha Lucila ao buscar diante de um futuro vestibular um caminho em que apenas lhe interessa a auto realização. Espinhosa, entretanto, parece cada vez mais influenciado e obsidiado pelos conselhos do pai falecido há muitos anos, pelos fantasmas de seus relacionamentos anteriores e até mesmo pelo alterego Kelvin Oliva, o filósofo de mentirinha que vive de conselhos fajutos.

Talvez o que Otávio Espinhosa procure vislumbrar ao fim desse dia, vencidas as exigências interpessoais para ele insuportáveis, seja um pouco de liberdade. Em sua perspectiva calculista, entretanto, o resultado a que pode chegar independe de trabalhar ou não para uma instituição comprometida com a corrupção financeira, independe de ser dispensado de um casamento no qual se acomodara por duas décadas. Tudo isso para ele está perdido. Com exceção de Débora, um affair repentino com a herdeira da financeira que aparentemente vai-se arruinando, Espinhosa deixa-se levar pelo núcleo do furacão com a vitalidade que lhe é ainda disponível, depois de tudo.

Bem como em O filho eterno, Tezza constrói um personagem geracional e complexo. No caso, alguém em tudo revelador da decomposição moral de uma geração que tendo alcançado o poder político e financeiro e flagrada em plena crise, parece incapaz de sustentar-se discursivamente de forma convincente. O brilhante economista que dava conta perfeitamente bem de uma atenção multitarefa e a três monitores sobre a mesa de trabalho, em algum momento (não por suas brilhantes deduções, mas porque viver é mesmo emaranhado) vê-se compelido a ter de viver na transitoriedade de sua condição e a lidar com a vida conforme ela se apresenta. Nada que evidentemente lhe garanta que ela logo mais não venha a apresentar-se, cedendo aqui finalmente ao trocadilho, ainda mais espinhosa.

Num arranha céu

John Hartford – (1937 – 2001)
trad. do inglês

Um dia desses, quando eu for um homem
E outros me ensinarem
O máximo que eles puderem
Me venderão um terno
E cortarão meu cabelo
E me enviarão a trabalhar num arranha céu

Isto significa dar adeus ao sol
E adeus ao orvalho
Adeus às flores
E adeus a você
Eu estou indo para o metrô
Não devo me atrasar
E ir ao trabalho num destes arranha céus

Agora, quando eu me aposentar,
E minha vida voltar a ser minha
E eu já não dever mais nada a ninguém
Será hora de ir para casa
Eu me pergunto o que houve
Nem uma coisa e nem outra
Quando fui trabalhar nos arranha céus

E é adeus ao sol
Adeus ao orvalho
Adeus às flores
E adeus a você
Eu estou indo para o metrô
Eu não devo me atrasar
E ir trabalhar num arranha céu

Acostumei-me a estar só

Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Acostumei-me a estar só, como o ombú foi acostumado à pampa.
Minha alma é uma esfera observando o próprio centro de sua força.
Para caminhar pela vida, mantenho-me nas pernas da vontade e da coragem.
A noção de minha própria existência me impede de desabar.
Viver é a obrigação a ser mantida.
Ignoro a covardia quando digo-me “eu devo”.