Xarqueada ganha edição comemorativa

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 24 de fevereiro de 2018.

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Palavrês inclusivo

“Há sempre alguém que começa a falar; aquele que fala é o manifestante; aquilo de que se fala é o designado; o que se diz são as significações. O acontecimento não é nada disto: ele não fala mais do que dele se fala ou do que se o diz.” (Deleuze, Gilles. Lógica do sentido)

Os linguistas, pessoas que se dedicam a estudar entre outras coisas significados e significâncias dos signos linguísticos, devem ser das pessoas mais atormentadas do mundo. É tanta polissemia, sinonímia, antonímia, paronímia (e pantomima, sobretudo) que muitas vezes é um verdadeiro milagre uma pessoa qualquer conseguir se fazer entender perante os demais. Mas isso é em toda parte e, pelo jeito, acontece mesmo com todo mundo.

No mundo educacional não seria diferente. Nele, dificilmente alguém se entende mesmo ao procurar usar as mesmas palavras para abordar uma mesma realidade. Às vezes, é desanimador tentar entabular um diálogo, principalmente quando as pessoas envolvidas têm vivências e interesses muito díspares em relação ao que é verbalmente tratado.

Vou procurar ser mais claro e tomar uma palavra do jargão (diga-se de passagem uma palavra polissêmica, que tanto pode significar “discurso especializado” quanto “discurso incompreensível”) educacional como exemplo. Mas não vou escolher aleatoriamente. Vou tomar como exemplo nada mais nada menos que o termo “inclusão”.

Isso mesmo! Acho que é uma boa palavra, não parece? Não haverá (espero) de representar maiores problemas semânticos.

Bem, como se sabe, há no mundo educacional muitos usos e empregos que se desejam para o termo “inclusão” ou seus derivados “inclusiva/o”, assim como seus opostos diretos “exclusão” ou derivados “exclusivo”, “excludente”, etc. Além dos opostos diretos, há também que se tomar em consideração os significantes indiretos: “segregado”, “especial” e por aí vai.

Eu, ainda que isso seja um tanto quanto incomum, incluiria outro na lista, com o qual implico muito mais do que os acima citados. É o termo “regular”.

Trata-se de palavra/conceito consagrado tanto na pedagogia quanto na legislação educacional e diz respeito à seriação escolar convencional: aquela que começa no primeiro do fundamental e termina no terceiro ano do ensino médio.

Além de que “regular” costume aparecer nos dicionários como “mediano” e “conforme as regras” me parece um tanto quanto inadequada a conjugação de seu uso com “inclusivo”. Quer dizer, “inclusivo conforme as regras” ou “inclusivo convencional” me soam sempre combinações no mínimo estranhas.

Corrobora minha argumentação o uso cada vez mais crescente de espaços educacionais que aboliram a seriação e aproveitaram para também democratizar o currículo. Cabe lembrar o exemplo pioneiro da Escola da Ponte, de Portugal, mas também outra miríade de experiências mundo afora, como a Die Kleinen Pankgrafen, em Berlim ou na Vittra School Telefonplan, na Suécia. Se o leitor não quiser ir muito longe, tem a bem conhecida Politeia, logo ali em São Paulo, que não me deixa mentir. E outras, conforme se pode conhecer ao menos nos muitos documentários que se têm produzido sobre o tema recentemente.

Mas, como a vida não comporta exceções para todo mundo, a regra é que se incluam mesmo os alunos dentro desse conceito de escola “regular”, seriada, disciplinar e progressiva. Muito embora, como já disse, tudo o que é “regular” me soe como o exato oposto de “inclusivo”.

Dito de outra forma, acho apenas pouco imaginativo (ou singelo) pensar que todas as pessoas irão adaptar-se (ou tenham como único direito) perfeitamente bem à normalidade dos equipamentos educacionais “regulares” providos (ou autorizados a funcionar como se fossem) pelo Estado. Como se a instituição escolar tivesse, num passe de mágica ou pela abertura de compartimentos burocráticos, avançado conceitualmente acerca de processos e finalidades que perduram há muito e muito tempo. Ou, como dizia o sociólogo francês Pierre Bourdieu, extrapolado de seus próprios limites de produção de hierarquias e sentidos.

Mas será mesmo que chegamos a isso, já? Ou ainda fazemos o caminho da circularidade, centrípeto, que joga para a margem o “irregular”, o “diferente”, mas agora com a legitimidade normativa, constitucional?

Não olhem para mim. Não tenho respostas. Tenho apenas perguntas e a vaga impressão de que ao menos conceitualmente a escola “regular” é tão oposta ao significado do conceito de inclusão quanto consegue ser a escola especial. E, por mais que se reafirme que “incluir” não é o mesmo que meramente “aceitar”, então não se trata mais de invocar crença e amor como instrumentação pedagógica. Não que sejam dispensáveis, claro! Mas é preciso decidir o que se deseja edificar: se serão aproveitados os alicerces de um projeto cultural institucional que sempre primou por acabar com as exceções, como afirmava Nietzsche, ou se especulará pela utopia de uma escola inclusiva, esta sim para todos e não apenas para os mais bem adaptados, continuamente seletiva e meritocrática por definição.

Do uso mais coloquial ao meramente acadêmico, as disputas conceituais são mesmo as mais acirradas e insanas (é preciso cuidado redobrado, portanto). Há amizades que são desfeitas por um mínimo desvio de compreensão e outras que se celebram por mútuo e aparente entendimento. Ainda que no plano das ideias, é hábito consagrado na espécie humana lutar-se em prol da manutenção de certas definições. É bem natural o fenômeno. Do outro lado, o que há é um deslizamento cultural e das implicações morais entre os sujeitos. Às vezes, trata-se de fenômenos evitáveis, contornáveis. Muitas vezes, como na metáfora da avalanche, não há o que possa segurar a ruína de determinado campo conceitual. E convenhamos que edificar na imprecisão está na ordem do impossível.

No limite, apesar das minhas dúvidas, respeito e também tenho procurado abrigo no modelo predominante pelos quais se organiza o ambiente escolar brasileiro. Não há alternativas/bairro mesmo. Por outro lado, não imagino que as formas testadas até aqui de transmutação regular >>> inclusiva sejam suficientes. Não creio em passes de mágica, quanto a isso sou cético e incrédulo. Além do mais, das iniciativas douradas da experimentação, por que delas pouco se extraem soluções pedagógicas? Por que inviabilizariam a dinâmica “regular”? Pois que se o assuma, assim, então, sem mais eufemismos.

Quer dizer, transformar a educação inclusiva numa coleção de ajustes ao sistema excludente só mesmo por alquimia produzirá algo de diferente no cenário educacional. Porém, a recusa em desconstruir um modelo “regular” excludente e ali meramente adaptar os desadaptados muitas vezes beira à violência pura e simples. Ou então devo crer que especificamente no Brasil a evolução conceitual e de praxis pedagógicas em tese complexas ocorreram magistralmente e simplesmente saltamos de paradigmas como quem alterna entre poças de lama (e sem sequer enlamear-se!). Eu não sei, mas muitas vezes me parece que a adoção da educação inclusiva vem servindo justamente para abandonar-se a utopia da escola inclusiva, além de reduzir ao indivíduo/aluno e suas dificuldades o “problema” a ajustar. E, numa proposição amalucada, como forma de humanizar per se o espaço educacional. Que uns se adaptem bem a isso (eu sei que existem e respeito) nada contra. A mim, parece mais da legitimação da crueldade institucional.

Dirão os menos esperançosos que é “tudo” o que temos para o momento e que há que se conformar com isso. Porém, como sou verdadeiramente utópico (e nem um pouco panfletário), quero imaginar que no futuro melhoraremos nisso e em muito mais. Desde que não tratemos o status quo da sabida precariedade como o “melhor dos mundos possíveis”, creio que seja algo da ordem do possível, sim. Quero manter-me pensando assim, pelo menos. É minha esperança que está em jogo e não costumo entregá-la a ninguém, mas luto por ela.

BR-290: rodovia ou fronteira?

Diversamente do passado, quando tratados delimitavam a fronteira, hoje a verdadeira separação com que se depara o Rio Grande do Sul não se dá para com os hermanos nem para com o restante do Brasil, como o plebiscito informal realizado no ano passado desejaria demonstrar, mas para com um feito internamente, em seu próprio interior. Em substituição aos antigos tratados, contamos com o traçado da BR-290 e as dificuldades que ele impõe a todos aqueles que precisam deslocar-se do norte à metade sul do estado.

Logo ao sair de Porto Alegre, a BR-290 fornece uma visão aflitiva. Ali, desde a ponte inaugurada em 1958, podem ser vistas as fundações dos 12,3 km da “nova ponte do Guaíba”, obra prevista para 2014, no segundo PAC, ainda sem metade da obra concluída. Paralisados desde que a operação Lava Jato passou a desvelar as complexas relações entre empreiteiras nacionais e obras de infraestrutura, ponte e país sobrevivem num infindável compasso de espera, o que se espera encerrado em 2018.

Passando-se pelo que lembram mais ruínas que alicerces, a rodovia chega a permitir uma velocidade razoável de tráfego. Mérito da pista duplicada que, infelizmente, não alcança muitos quilômetros além do final da sobreposição com a BR-116. A partir dali, impõe-se um percurso claudicante, sendo compulsório o tráfego junto ao que se estima em torno de 800 caminhões/dia, segundo a Polícia Rodoviária Federal.

Ao longo do trajeto, há mais monumentos da duplicação mal iniciada. Há os desvios ocasionais, os engarrafamentos recorrentes, os acidentes envolvendo ultrapassagens forçadas e as vítimas desta violência já corriqueira. Além disso, o incontornável esgotamento da pista. Único caminho disponível para o transporte de cargas destinadas ao Aterro Sanitário de Minas do Leão e à Celulose Rio-Grandense, a rodovia faz um novo e perfeito limite entre o extremo sul e o restante do país, inclusive o norte do próprio estado. Sedimentada por adiamentos sem fim, pode-se dizer que a BR-290 é, de fato, a única separação em vigor com que contamos.

De uma população penalizada com anos de estagnação, todavia cada vez mais se ouve outro tipo de alerta. A BR-290 não está isolando apenas a economia da região, mas também as pessoas e não demora muito para que se torne inviável deslocar-se pela rodovia com segurança. E, por uma questão de integração nacional, talvez em breve seja preciso evitar que aconteça o pior (e mais humilhante): o isolamento humano e a tão em voga emigração ao Uruguai.

Os rostos são inexpressivos

Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Os rostos são inexpressivos.
O riso, o pranto, são de um a um e não de alguém a niguém.
Quanto tempo ante ao pampa desolado!
Com quem rir? Por quem chorar?
O silêncio nos lábios é tão habitual, que a palavra consoladora de nada serviria.
Somente ante a si mesmo o homem pensa e sua expressão transborda introspecção.
Rugas não virão senão como marcas do tempo.
E idades há apenas três:
A idade em que tudo o que se diz é: eu ainda não posso. A idade em que se pode sem dizer. A idade em que se diz: não posso mais.
Mas é na maturidade que se unificam a alegria de ter chegado já e o pressentimento da decadência.
Não protestamos porque para nós tudo é aceitação.

Carvalho queimando, novembro

Joyce Carol Oates (1938-)
trad. do inglês

Ontem, encontramos o céu
todo repartido em fileiras. Ar,
quase insuficiente.
Vimos o tronco de um velho carvalho, do tamanho

de um homem, queimando sem incendiar
à beira de uma clareira – galhos estilhaçados,
raizes esmagadas e expostas.
Até as formigas negras fugiram

com o cheiro do antigo sofrimento
vindo à público, derradeiro, e as velhas esperanças reveladas –
tudo no passado! – agora sem copa, sem folhas, um toco
derrubado sobre a terra

e a alma apenas choraminga, esfumaça,
e se propaga lentamente, sem graça,
num céu indiferente que ninguém pintará,
ou fotografará, ou verá –
exceto nós: ontem.

A paixão tranquila de Emily Dickinson

Germina – Revista de Arte & Literatura

No Brasil, recebeu o título de Além das palavras o filme de Terence Davies, A quiet passion, sobre a vida da poeta norte-americana Emily Dickinson. Penso eu que uma tradução literal, como jamais se devesse recomendar para a poesia de Dickinson, talvez tivesse um resultado melhor. Resultaria em algo como Uma paixão silenciosa, o que não me agrada tanto, ou então como o que me parece bem melhor: Uma paixão tranquila.

Além das palavras (afinal é preciso que se utilize seu nome comercial) é mesmo um filme silencioso, mas também está bastante longe de ser um filme tranquilo. Como se a tela estivesse sutilmente escurecida por uma luminosidade crepuscular, quase âmbar, e os ruídos amortecidos como que por uma coberta de veludo, tudo o que não se percebe ao acompanhar os passos de Emily e sua transmutação da juventude até sua morte é tranquilidade. É bem um contraste que se tem para com as poucas imagens reais disponíveis da poeta, cuja expressão, ao mesmo tempo solene e ascética, parece muitas vezes pairar sobre tudo.

Uma outra explicação que me ocorre para não preferir o título Uma paixão silenciosa é o fato de que ele poderia ser creditado ao suposto apego que Emily poderia ter desenvolvido para com o Pastor Charles Wadsworth, no filme, vivido por Eric Loren. O diretor Terence Davies, talvez premido pela necessidade de inserir qualquer efeito mobilizador em um roteiro tão linear, dá a entender claramente que os sentimentos de Emily por Wadsworth ultrapassaram em muito a amizade. A tomada em que ela aparece abalada quando ele parte em viagem sem se despedir pessoalmente dispensa qualquer explicação. Não obstante acreditar-se que alguns de seus poemas de cunho mais amoroso possam referir-se mesmo a ele, essa é apenas mais especulação biográfica que Davies preferiu considerar no lugar de outras. Bem, quando se trata de Dickinson, especulações nunca são o bastante, mas para que se chegue a um roteiro e daí a um filme é preciso que se faça opções. As de Terence Davies menosprezam outros enlevos amorosos que, segundo alguns biógrafos, a poeta teve além de Wadsworth.

No filme, a despeito dos silêncios prolongados, a intranquilidade a que me refiro se torna muito evidente pela expressão um tanto atormentada que a atriz Cynthia Nixon, que intrepreta Emily na idade adulta, escolheu para estampar na fisionomia da grande poeta norte-americana. É compreensível, afinal a atriz está encarando um imenso desafio, isto é, dar gesto e aparência a uma poeta, esta, sim, reservada e da qual muito pouco se sabe ou se testemunhou. Mesmo assim, o efeito obtido pela atriz é poderoso, ao mesmo tempo enérgico e contido. Para uma personagem que passa pelo menos a metade do filme dentro de casa, chega a ser exasperante, em alguns momentos, exasperante como uma mente inquieta como a de Emily tenha sobrevivido a uma reclusão tão absoluta, mas justamente são as cenas em que ela aparece envolvida com a escrita que acabam colaborando para afastá-la do mito da poeta exasperada. Pelo menos no filme de Davies, Emily é, felizmente, mostrada em franca concentração ao escrever e, mais que isso, aparentemente muito satisfeita por fazê-lo.

De resto, na vida diária, envolvida nos cuidados que dedica junto à irmã Lavinia a uma mãe que convalesce por longos anos, Emily aparece perfeitamente resignada à condição que a austera família protestante lhe reserva, principalmente através da autoridade paterna. Nos longos e arrastados dias em que já pouco sai de casa, ela entrega-se à escrita de forma cada vez mais integral e é bem dessa tranquila devoção que acaba consolidando-se o legado de seus volumes de poesia, apenas conhecidos após a sua morte, em 1886. É por isso que minha impressão é de que a paixão a que pretendia referir-se o diretor Terence Davies na escolha do título em inglês seja unicamente a que ela dedicava à poesia e a ninguém mais.

Dickinson, que entre a década de 50 e 60, do séc. XIX, foi publicada anonimamente no The Republican, jornal sediado em Springfield e de propriedade de Samuel Bowles, um amigo da família, parece que, na realidade, deixou-se atormentar pela poesia poucas vezes. Isso é mostrado no filme quando ela percebe que seus poemas foram editados por Bowles à sua revelia e então ela tem oportunidade de reclamar-lhe a intrusão. Apesar de que a Emily recriada e interpretada por Cyntia Nixon na adultez (na adolescência ela é interpretada pela atriz Emma Bell) se mostrasse sagaz e incisiva nos diálogos com seus irmãos ou com sua grande amiga e depois cunhada, Susan Gilbert, sua disposição para a vida social declina e o filme que começa solar e luminoso vai, aos poucos, tomando ares bem mais taciturnos.

Esse é bem um intervalo da biografia de Emily que o filme aborda muito convencionalmente, sem incorrer em interpretações muito ousadas. Sua relação com a cunhada Susan, com quem Emily trocou centenas de cartas, segundo algumas especulações biográficas poderia ter tido também uma conotação passional, mas Davies passa ao largo de qualquer insinuação a esse respeito. Nesse caso, mesmo para essa possibilidade, o título Uma paixão silenciosa soaria inadequado, já que nada sobre isso é aventado. Por isso, assumir que a paixão de Emily pela poesia pudesse ser maior que as paixões mundanas é um caminho bem menos pedregoso para quem pretende entrever a vida de uma poeta que, afinal, viveu a maior parte de sua vida longe da vista de todos.

Dessa mesma época, embora já tivesse sido publicada nos jornais locais anonimamente, é quando Emily vai buscar contato com Thomas Higginson, conhecido abolicionista e crítico considerado na Nova Inglaterra, a quem envia alguns de seus poemas. Mas Higginson, que após sua morte viria a ser o seu primeiro editor aconselhou-a a retardar qualquer iniciativa de publicação e tornou-se um de seus principais leitores. Higginson trouxe, por sua vez, mais da intranquilidade externa justamente no período em que ela mais se dedicava à poesia. Talvez, graças ao seu contato com ele e seu escasso encorajamento à publicação, Dickinson tenha se debatido tanto com o dilema do reconhecimento e acabado por entregar-se à poesia pela própria satisfação. Da poeta “pouco apurada”, segundo ele, hoje se conhece muito bem os versos que comparam a busca por publicação a um julgamento da mente, algo a que ela decidiu-se bem por essa época a não mais submeter-se (publication is the auction/of the mind of man – J709 – Fr788), reservando seu legado para a posteridade.

Não muito depois disso, coincidindo com o afastamento dos poucos amigos e o agravamento do estado de saúde da mãe, ela passa a viver cada vez mais enclausurada e se até então exibia-se em passeios externos aos jardins e, eventualmente, até mesmo teatros de ópera, o filme, a essa altura, já está radicalmente interiorizado. Mantendo quase apenas as relações com os irmãos Lavinia, Austin e a agora cunhada Susan, seu círculo social restringe-se cada vez mais à família e de sua opção pelo cuidado materno parece proceder ao hábito (questionável, segundo alguns biógrafos) de utilizar a partir daí um vestuário exclusivamente branco e a falar com os raros visitantes à distância ou por trás de uma porta.

Ainda assim, como ficção biográfica que é, o filme de Davies incorre em muitas licenças. A de entrar onde consta que ninguém tenha entrado é, sem dúvida, a maior delas. Mesmo que ele conduza a narrativa com serenidade e intercalando leituras que a atriz Cynthia Nixon faz de alguns dos poemas de Emily, o terço final do filme — ou um pouco mais que isso — mostra momentos dolorosos de sua vida, quando a doença renal que acabará por levá-la a morte começa a causar-lhe dores e desconfortos imensos.

Sua opção em mostrar que mesmo uma poeta marcada por uma dicção quase etérea padecia das dores humanas não parece casualidade, mas uma tentativa de humanização do mito, de dissolução do enigma que ao longo do tempo foi associando-se ao nome de Dickinson. De fato, parece que quanto maior o desejo de reclusão e obscurecimento de um escritor, mais isso acaba colaborando no desejo de saber-se mais e mais e de mostrá-lo, isso no caso específico do cinema. Mesmo que se incorra no risco de sobrevalorizar alguns aspectos em detrimento de outros, trata-se de um irresistível desejo especulativo que, no caso de Emily, apenas aumenta em razão de que se refere a um gênio literário que está por trás da renovação da moderna poesia lírica em todo o mundo e pensar que tudo isso tenha sido feito quase em completo segredo só pode mesmo aumentar o fascínio em torno ao seu nome.

Ao final do filme, certo é que mais e melhor pode-se imaginar sobre a reclusa vida de Emily, embora pouco a respeito do seu repertório poético tão inovador, suas influências e motivos muitas vezes tão herméticos. Realmente, essa é uma tarefa que se faz melhor à leitura do que à exibição cinematográfica, sem desabono do excelente filme de Terence Davies que, por outro lado, é muito competente em mostrar que uma vida reservada e pequena para os outros não implica necessariamente em uma vida pequena nem reservada para a poesia.

A judicialização kafkiana do direito à inclusão

Há poucos dias, tomei conhecimento de uma decisão proveniente do STJ, exarada através do ministro Hermann Benjamin, sobre recurso interposto pela Defensoria Pública do Distrito Federal, que me causou a impressão de estar diante de mais um típico enredo kafkiano. Não há muita novidade aqui, o sistema jurídico boa parte das vezes se parece mesmo assim: propositalmente incompreensível. Basta o indivíduo estar situado no lugar de quem pleiteia um direito fundamental qualquer e, do outro lado, a muralha procedimental e normativa do direito concretizada como poder de Estado a impugnar-lhe as demandas numa canetada.

Joseph K. é o conhecido personagem do tcheco Franz Kafka que, em O Processo, sucumbe ao maquinário da burocracia e depois de ser processado de forma inclemente é levado à pena capital sem nunca ter entendido direito do que estava sendo acusado. Dizem que é em razão deste livro e não do mais conhecido de Kafka, A Metamorfose, que se começou a usar o termo “kafkiano” para definir tudo o que é real e ao mesmo tempo incompreensível. No linguajar comum, “kafkiano” passou a significar tudo aquilo a que se está irremediavelmente submetido e que acontece à revelia de qualquer racionalidade, embora travestido de razoabilidade e coerência.

A decisão em questão (REsp 1.667.748 – 2.ª Turma – j. 27/6/2017) trata especificamente do pleito de um aluno com deficiência em contar com o acompanhamento de um monitor exclusivo em sala de aula, da redução no número de alunos e o direito a adaptações pedagógicas. O aluno, menor de idade, representado por sua mãe e no caso defendido pela Defensoria Pública do Distrito Federal, tem 15 anos de idade e diagnosticado com a síndrome de Asperger, variação do Transtorno do Espectro Autista. A decisão em primeiro grau, atendida parcialmente e apelada em segunda instância ao STJ, foi ali novamente negada.

No inteiro teor da decisão, pode-se saber o argumento utilizado pelo ministro Hermann Benjamin: “a necessidade da pessoa com deficiência deve ser contrabalançada com a parca capacidade financeira do Estado de prover monitores exclusivos para todos os alunos especiais que demandam judicialmente acerca desse serviço”.

Ora, se isso não significa negar de uma vez só a todos aqueles que acreditam que a Constituição Federal, a Convenção sobre Os Direitos da Pessoa com Deficiência e a Lei Brasileira de Inclusão devem provisionar o atendimento a cada aluno em sua necessidade, é que deve me estar faltando capacidade interpretativa.

Se isso não significa oferecer de mão beijada ao poder executivo em suas diversas instâncias um precedente que o autoriza a descumprir o marco legal, está me faltando capacidade interpretativa.

Se tal decisão não ofende o Art. 24 da CPCD (Dec. 6949, de ), que prevê que as pessoas com deficiência recebam o apoio necessário com vistas a facilitar seu acesso à educação, está também me faltando capacidade interpretativa.

E está me faltando capacidade interpretativa sobretudo se uma decisão como esta não se confronta, na realidade, diretamente com o Art. 16 do mesmo diploma legal, favorecendo a violência institucional, liberando seus agentes de qualquer responsabilidade e expondo justamente o elemento vulnerável da relação, objeto final das leis e tratados internacionais com força de emenda constitucional a situações de abuso e exclusão.

Mas como o poder judiciário poderia estar agindo nesse sentido, favorecendo o descumprimento legal ao invés de provisionar a responsabilização coletiva e a segurança jurídica dos mais elementares direitos fundamentais, como é o acesso à educação? Como pode punir indiretamente pessoas vulneráveis, usuárias dos serviços públicos, e liberar de qualquer responsabilidade gestores que, estes sim, deveriam responder pela falência das contas públicas? Como pode justificar, por esse tipo de razão, a não observância sistemática de um marco legal celebrado por todos, mas seguido à risca, como se vê, por muito poucos?

Pois não se trata de mera má vontade pessoal do ministro em simplesmente denegar o direito social a um aluno com deficiência em específico. O mais duro de admitir é que o engessamento institucional afronta especialmente os direitos dos mais pobres, tendo em vista que no âmbito privado todas as soluções que se somam à garantia do acesso à educação do alunado com deficiência costumam ser muito bem vindas e endossadas, quando não dadas como exemplares.

Já no caso da educação pública, a mera menção de disponibilizar apoio individualizado costuma representar nada menos que a falência do Estado. É uma espécie de ameaça que a população pobre conhece de muitas outras situações e para a qual, infelizmente, conta sempre com muito pouca solidariedade e empatia social.

O mais duro de admitir é que o papel exercido pela corte de apelação acaba sendo este mesmo: proteger o Estado de cumprir as políticas que ele mesmo optou, com o respaldo da ampla maioria dos congressistas que votaram favoravelmente à Constituição Federal, ao status de emenda constitucional da Convenção Sobre Os Direitos da Pessoa com Deficiência e também à Lei Brasileira de Inclusão. Será preciso mostrar as fotografias festivas de tais eventos para lembrá-los disso? Ou então será preciso apenas reforçar a certeza da precariedade da efetivação dos direitos? Aceitar, como o Joseph K. de Kafka, que a burocracia é inapelável e condenatória? Ou tomar por certo que o império da lei está em vigor, mas que isso pouco significa quando o que está em jogo é a vida real das pessoas?

Por certo é exigir demais do Estado e de sua saúde financeira que atenda com decência às pessoas com deficiência. Nessa mesma visão de reserva do possível se deveria, inclusive, desincumbir o Estado de seus menores deveres para que, enfim, pudesse dedicar-se a outras finalidades mais nobres e inenarráveis. Não bastam as dificuldades inerentes às mais diferentes condições de deficiência, é preciso sempre contar com a irracionalidade política, a impassibilidade jurídica, a impermeabilidade social e a indiferença de classe socioeconômica. Eu sinto informar, mas um modelo social baseado neste modelo de sociedade, com poderes de Estado atuando da forma como atuam, é um modelo que nos tem servido de muito pouco, que é uma maneira delicada de dizer “nada” mesmo.

Darwin e o instinto de simpatia

Durante o tempo em que estive pesquisando e escrevendo sobre a breve vida do bebê Charles Waring Darwin, embora meu foco fosse muito mais o aspecto biográfico que científico, foi inevitável esbarrar nas minuciosas investigações e também nas inúmeras vezes em que os conceitos desenvolvidos por seu pai, o naturalista Charles Darwin, precisaram ser por ele mesmo reavaliados, questionados ou colocados em dúvida. É claro que, por ter sua ciência baseada em sua maior parte na observação direta de fenômenos naturais, isso lhe aconteceu muitas vezes. Esta, aliás, é maior tendência de seus principais biógrafos:privilegiar mais o cientista que o ser humano, mas “ambos” são fascinantes.

Darwin, um conhecedor tanto das características da vida mais minúscula, como a biologia dos menores insetos, quanto dos processos que levaram à extinção grandes mamíferos e outros seres que se situaram por longos tempos no topo da cadeia alimentar, cunhou uma teoria que, como qualquer teoria mal conhecida, resultou ao longo do tempo em enormes simplificações e deturpações. Assim que encontrar por aí a replicação de ideias como “a sobrevivência do mais forte” ou “de quem se adapta melhor” ou de que “prevalecem os que mais colaboram” são das coisas mais corriqueiras que se atribuem falsamente a ele.

No mais das vezes, Darwin não se ocupou das mazelas humanas com o mesmo “método”, digamos assim, com que investigava o mundo natural, replicando para estes sua mecânica sutil e suas ideias principais, embora outros cientistas o pudessem tentar. Estava muito claro para ele que, sob o primado da razão, seria tolice esperar que seres humanos obedecessem tendências inevitáveis como são a maioria das leis biológicas. Quando, cerca de uma década após a divulgação de A Origem das Espécies (1858), movido por essa tentativa, tentou enquadrar os seres humanos e sua complexa evolução em seus parâmetros evolutivos acabou ele mesmo incorrendo neste erro e resultando num livro que mesmo na época quase lhe custou a credibilidade anteriormente conquistada. Embora A Descendência do Homem (1871) tenha especulações pertinentes, seu resultado final não é melhor que uma protoantropologia. Atenua bastante o fato de que o livro possa ter resultado, talvez, de uma pressão social e cultural que se criara em torno do naturalista a respeito de suas opiniões acerca do homem moral de então e de como se chegara até ele. O mesmo não se pode dizer de A expressão das emoções no homem e nos animais, de 1872, fruto mais de seu incansável trabalho de observador do que de especulações.

É dessa época e em razão de suas especulações a respeito do homem e dos antropoides que apareceram nos jornais da época charges que procuravam ridicularizá-lo, como a exibida abaixo, publicada na revista Hornet, em 1871. A bem da verdade, tratava-se bem mais de uma retaliação promovida pelos criacionistas de então à popularização de sua obra do que uma antipatia específica a ele mesmo, que vivia afastado da vida urbana de Londres na época.

Charge de Charles Darwin, na revista Hornet, em 1871

Acontece que Darwin favoreceu imensamente a que surgisse e prosperasse em todo o mundo uma série de ideias que contrastavam as ideias religiosas predominantes, por um lado, e uma pressa em forjar-se uma nova teoria social, por outro. Muitos cientistas e pensadores da época o procuraram para cotejar suas ideias, inclusive Karl Marx, que vivia em Londres na época, teria lhe enviado exemplares de seus livros. Darwin, porém, parece não ter lhe dado muita atenção, bem como fez a muitos outros, inclusive seu primo irmão Francis Galton, o “pai” da eugenia (técnica muitas vezes também erroneamente atribuída a Darwin). Muito depois do frisson inicial de A Origem e ainda depois de sua morte, acabou se popularizando justamente o caráter menos científico de sua obra e mais ideológico, e então o darwinismo, isto é, a livre adaptação de suas ideias para explicar quaisquer fenômenos sociais, tornou-se um febre no mundo inteiro, chegando com força até meados do séc. XX. Isto era bem uma tendência de uma ciência que se refundamentava em poderosos pilares e o conhecimento obtido por Darwin, mesmo deturpado aqui e ali, era justamente um dos mais poderosos entre todos.

A “Árvore da vida” em desenho e anotações de próprio punho de Charles Darwin.

Em minha pesquisa, como mencionei, pouco me ative aos detalhes investigativos de sua trajetória, apenas o fiz indiretamente. Acontece que, em se tratando dele, isso é algo irresistível. Em sua teoria da evolução, ao contrário do que muito se imagina e divulga erroneamente, não é a ideia de preponderância do mais forte que predomina, ou de seleção, mas a das vantagens adaptativas. Grosso modo, significa mais ou menos dizer que as espécies, no caminho evolutivo, perdem ou descartam características que as impedem de prosperar e sobreviver na natureza adversa em prol de outras que a capacitam melhor para tal “luta”. As vantagem adaptativas, pode-se resumir assim, significam aqueles potenciais biológicos que capacitam uma espécie para a sobrevivência. No caso dos seres humanos, obviamente a consciência e a razão decorrente são suas maiores vantagens adaptativas, embora seja preciso sempre considerar um mau uso eventual em tais capacidades.

Para mim, que pesquisava a possibilidade do bebê Charles Waring, seu décimo filho, ter nascido com o que hoje se conhece como a síndrome de Down e das implicações disso em sua vida familiar (e científica também, porque sua vida era inteiramente devotada a isto), muitas, inúmeras vezes precisei parar de escrever ou ler e tentar imaginar, como se através das janelas do seu estúdio em Down House, o que lhe passava em mente ao ver em sua própria casa o que poderia ser tanto a expressão tresloucada da consanguinidade (Darwin era casado com uma prima, Emma) quanto alguém que, para estar ali, poderia representar, talvez, a prevalência de uma inusitada expressão adaptativa. Não é possível saber o que Darwin pode recolher a esse respeito uma vez que os registros são poucos e ele uma pessoa sabidamente atormentada pelos efeitos da doença, que ceifara-lhe dois de seus filhos anteriormente.

Se hoje, num mundo que tem escolhido suprimir de antemão o nascimento de pessoas com síndrome de Down a uma razão de 90% na Europa, por exemplo, o bebê Charles Waring teria chegado a nascer é algo que não se poderá nunca saber. Talvez Darwin fosse hoje um entusiasta das mais modernas técnicas de rastreamento e edição genética, eu não sei. Mas talvez fosse ainda o mesmo ser humano antiquado que, em sua viagem ao Brasil, horrorizou-se com o tratamento dispensado aos escravos no Brasil Império e que, naquele livro cheio de especulações arriscadas, A Descendência do Homem, tivesse pensado que a grande vantagem adaptativa do homem fosse, afinal, a nobreza da razão, a aplicação imediata do instinto de simpatia, embora nunca tenhamos sido tão pragmáticos, intolerantes (ou insuportáveis) na nossa breve história coletiva sobre o planeta. Eu pessoalmente prefiro crer mais nesse caráter humano de Darwin do que qualquer outro aspecto de sua inegável genialidade científica.

“A ajuda na qual somos impelidos a dar aos necessitados é principalmente um resultado incidental dos instintos de simpatia, que foi originado como parte dos instintos sociais, mas que foi subsequentemente aprimorado, como visto antes, a ser mais amigável e mais amplo. Jamais poderíamos abandonar a simpatia, mesmo aos maiores apelos da razão, sem deteriorar a parte mais nobre da nossa natureza. Um cirurgião pode hesitar enquanto perfaz uma operação, porque ele sabe que está agindo para o bem do seu paciente; mas se intencionalmente negligenciamos os fracos e necessitados, seria apenas por um beneficio contingente, junto com um enorme mal em troca.” Darwin, Charles. A descendência do homem e seleção em relação ao sexo. Londres, 1871.

Mas escritor se aposenta?

Há alguns dias o assunto me persegue. Do nada, parece que despencam de qualquer lugar textos que procuram discutir a ideia de quando alguém que escreve literariamente se torna, de fato, um escritor ou escritora. Esta é a ideia central de Anos de Formação: os Diários de Emilio Renzi, do argentino Ricardo Piglia. É a mesma dúvida que encontrei no texto do também argentino Cristián Vazquez, A partir de quando um escritor se torna um escritor, publicado recentemente no blogue Letras in.verso e re.verso.

Seria talvez o que se pudesse chamar hoje de platinofobia aventar-se a hipótese de que este é um assunto que obsedia os argentinos, mas, antes disso, seria uma inverdade. Acredito que, quase sem exceção, toda a pessoa que procura escrever literariamente lá pelas tantas tenta localizar em si mesma, na sua solitária trajetória diante das inumeráveis folhas ou telas em branco, em que momento que a compulsão se estabeleceu por completo e se tornou indispensável, insuportável e inconcebível deixar de dedicar-se ao habitus.

Justamente esta ideia, de irrecusabilidade ao gesto, é o que defendem os dois escritores argentinos e também uma miríade de outros escritores. Isso se pode saber através, por exemplo, das dezenas de entrevistas que a prestigiosa Paris Review fez com escritores consagrados mundialmente, do séc. XX, e que foram traduzidas e publicadas por mais de uma vez no Brasil, pela Companhia das Letras. Trata-se do livro As entrevistas da Paris Review. Mas Piglia, no caso, se desvia bastante de Vazquez e de outros escritores que falaram sobre o mesmo assunto para o que ele denomina como o momento de “autoproposição” do escritor, isto é, o fato de debater-se com a impossibilidade de uma ficção privada, por um lado, e a de impossibilidade de uma plena comunicação pública, por outro.

Aqui, como já deve estar claro, não vou mencionar nem por hipótese a ideia de vocação,  dom, etc. Na verdade, apenas gostaria de apontar pontos em comum em relação ao que penso e o que pensam estes escritores, para além da irrecusabilidade já mencionada, com a qual concordo integralmente. Aliás, talvez seja esta a razão para eu estar aqui escrevendo isso, nesse exato instante.

Piglia, segundo seu alterego Emilio Renzi, escreve como que para perseguir sua própria biografia; um itinerário que começa desde que se descobre leitor até o último suspiro, contando-se aí absolutamente todos os momentos, todas as percepções, todos os gestos, todas as ideias de onde seletivamente extrai sua matéria empírica, ficcional. Mesmo que soe como um escritor totalitário, ele embaraça-se com a vida, não se distancia dela. O que apreende é que os outros deixam de notar, as razões ocultas dos gestos, as possibilidades que consolidaram aquelas razões, a sorte e os incidentes que fazem uma biografia. O escritor como vassalo de si mesmo, mas soberano de sua narrativa. Porém alguém que, uma vez publicado, declina definitivamente da solidão e deixa-se acompanhar por quem quer que lhe encontre em seus livros e palavras.

Vazquez é radical por outro viés (e eu nesse aspecto, talvez por escrever muita poesia, tendo a concordar mais com ele) e defende a ideia de que o escritor se faz ao escrever, naquele momento preciso da ação e prescinde de quem o leia, apenas vai descartando de si o texto e não tem expectativa ou relação alguma com o que dele poderá ser feito ou não. Sua missão acaba em sua própria finalidade. Para ele, não há escritor inédito, a tomada de posse da “titulação” se daria, portanto, diretamente ao escrever. Como no poema de Auden, o escritor acaba no último ponto e talvez nunca mais retome àquilo e ao estado de ânimo que recém o mobilizara. Juan Rulfo, J. D. Salinger e Arthur Rimbaud são alguns dos exemplos que ele cita de escritores que simplesmente aposentaram-se voluntariamente da escrita, ou seja, deixaram de ser escritores.

Eu simpatizo com ambas as ideias. Tenho muitas vezes vontade de nunca mais escrever uma linha, mas sempre preciso de uma nova linha para dizer isso ou então voltar atrás… Do que antipatizo um pouco, neste caso, é de uma certa mercantilização cada vez mais presente e frequente em oficinas literárias, cursos e atividades correlatas. Nestes, cada vez mais se dá ênfase é em como se fazer lido (o que acho até difícil de imaginar – me vem em mente a violenta cena de uma pessoa obrigando outra à leitura), em como promover-se, técnicas de interação e coisas assim.

Não consigo, admito.

Se precisar disso para vir a ser um escritor, então acabou-se aqui. Então não serei. Não é humildade exagerada, mas é preciso estar claro para quem quer aventurar-se nisso de que há um universo inesgotável de magníficos, bons e razoáveis escritores na fila de cada pessoa. Sendo muito sincero, na minha própria lista eu talvez sequer figurasse (a não ser para uma correção imprevista). Certamente, não. Tenho dívidas insaldáveis com momentos incomparáveis da literatura. Como, sabendo  disso, vou querer parar o mundo e desviar a atenção alheia? Seria muita pretensão que desejasse que as pessoas viessem a interromper, para prestar atenção em mim, o seu Machado de Assis, o seu Eça de Queiroz, o seu Dostoievski e etc etc etc.

Mais uma vez: não consigo…

Por isso me autopublico e não negocio com editores cotas de exibição, autopromoção e coisas assim. Isso não apenas me desfaria como escritor como me faria, por outro lado, mercador. Nada contra os mercadores, mas cada um na sua, não? Se alguém ficar curioso eventualmente com meu nome em algum texto, alguma resenha, alguma menção, que ótimo!, talvez desperte a curiosidade a ponto de querer saber mais. Talvez até goste um pouquinho a ponto de admirar-se ou emocionar-se com uma frase bem colocada em algum parágrafo, ou um verso tocante. Pois é este o único leitor que me interessa. Não sou ilusionista nem diversionista nem bom piadista; nunca fui; sou ruim de gracejo, inclusive.

Um leitor que me passe os olhos e pense que sou como um serializado egresso de um projeto de formação de escritores irá frustrar-se porque eu mesmo não procuro evitar de frustrar-me. E continuo sempre tentando mudar a narrativa, mudar o parágrafo, a forma, a linha, o verso, o caractere. Minha impressão é de que todos os livros, afinal, são como aquele livro de areia, que mais um argentino, Jorge Luis Borges, um dia imaginou. Um livro nunca igual, desfeito à mera incidência da compreensão de um leitor qualquer. Aliás, o que também concordo com Piglia nesse aspecto é o quanto o leitor faz o escritor; digo do leitor que o próprio escritor é; não o leitor de si mesmo, mas dos outros e do mundo. É este infinito que, numa perspectiva rápida, desfecha e aniquila qualquer autoilusão de relevância, status ou glória, se é que existe ainda que esteja nisso por isso.

Sim, só assim mesmo me sinto um escritor. E então, dou o braço a torcer, porque sempre costumo me definir como quem apenas gosta de escrever e o faz, sim, por compulsão, não por um objetivo extrínseco, mas pela revelação que ocorre de mim mesmo para fora de mim mesmo, naquele instante em que as palavras me organizam, já que internamente prospera o caos..

Afora isso tudo, ele, esta persona escritora, acaba mesmo sempre no último ponto, pensando que aquilo tudo que dissera pudesse ser meia verdade apenas e me deixasse insatisfeito. Pois o meu azar é que é esta mesma preferência. A deferência devida ou indevida é um critério de terceiros, não me interessa nem um pouquinho. Nesse aspecto (talvez em outros também), sou pessoano: e o resto que venha se vier, se tiver de vir ou não venha. Talvez, se meu pai lá atrás tivesse me impedido de usar sua máquina de escrever vermelha (ela me foi fundamental por ter me cedido gratuitamente sua velocidade), porque minha caligrafia sempre foi péssima, mas, pensando bem, mesmo assim… Será tudo isso, ao fim das contas, apenas dependência do som das teclas? Se for assim, o touchscreen completará um dia desses o serviço e então irei finalmente para a previdência secreta dos escritores, decerto a mais mal remunerada entre todas..