Outonal

Tenho uma memória bastante antiga da infância que, sempre quando é outono, ela regressa. E nunca tenho certeza se realmente a vivi, sonhei ou imaginei. Não faz diferença. Este ângulo muito particular com que o sol encontra as paredes, a luminosidade muito amarelada e inclinada de um sol parecendo cansado e que quer se derrubar de encontro aos muros, desmascarando nos tijolos as ranhuras de sua verdadeira idade, e de súbito envelhece carregando consigo, em direção ao tempo, tudo o que vive e nada pode escapá-lo. Nestes dias, sem que note a maneira, subitamente essa luz me traz de volta a cena de ter conhecido a um lugar que não tenho certeza se existiu e ou se é inteiramente devaneio da minha memória.

A situação, familiar e recente como se fosse de hoje mesmo, me fez implorar à mãe que me deixasse ir com a família de um vizinho à casa de sua avó, em São Sebastião, vilarejo limítrofe a Bagé, Lavras do Sul e Dom Pedrito. O vilarejo era como um dos arrabaldes de Bagé, sem pavimentação, e restrito a meia dúzia de quarteirões incompletos que, vistos desde o alto, revelariam uma cidadela aos pedaços, como se roída pelas bordas por algo maior que ela.

Este amigo, amigo do bairro, que é do tipo de amizade mais íntima que alguém pode ter, era filho de um professor do meu colégio que há não muito tinha vindo morar ali perto de casa, numa casa modestíssima, de piso acimentado, e era casado com uma professora igual a ele. A memória me apagou seus nomes, mas não o dele, Rafael. Uma mulher muito bonita, alta, de pele morena e olhos escuros miúdos, a mãe do meu amigo e vizinho Rafael. Na sua casa, brincávamos com a liberdade que era a regra naquele tempo de casas de portas abertas. E eu não notava como noto hoje o aperto em que eles viviam ali dentro. Na época, nada disso lhes denunciava a expressão. Eram felizes e bonitos, todos os quatro integrantes da família do Rafael, que tinha um irmão mais novo, de talvez quatro ou cinco anos de idade de quem também esqueci o nome.

Com o pedido concedido, fomos os quatro a São Sebastião como quem partisse de Nice a Monte Carlo, desfeita qualquer desproporcionalidade. A expectativa era exatamente a mesma e a sensação de estar num lugar sem a vigilância da minha própria mãe, pai ou irmãos era promessa de aventuras que não cabiam sequer no que eu podia imaginar.

Lá, naquelas ruelas semidestruídas, na estação ferroviária abandonada e nos currais internos aos pátios, todavia era quase o mesmo de estar na campanha. Como se o campo tivesse invadido a cidade e tomado conta de tudo, como se numa retomada da natureza sobre a pequena civilização disponível na pequena São Sebastião. E o dia inteiro foi isso, descobrir galpões abandonados, salvar coisas dos galinheiros e dos pátios e brincar de mansão. Para o meu amigo, a avó vivia num palácio de muitos cômodos, quartos antigos com mobiliário pesado, rústico e, no banheiro central da casa, até uma antiga banheira esmaltada branca que continuava em atividade.

A tarde denunciava que em não muito tempo voltaríamos. As aventuras estariam portanto suspensas e o outro dia, previsível e igual a todos os dias, seria o de acordar cedo e a rotina escolar de todo o dia. Na calçada esboroada defronte às paredes de granitina marrom escuro e gasto, o sol rebrilhava seu prenúncio crepuscular dizendo que o dia se acabaria assim mesmo, entre perfume de bergamotas e roupas guardadas de uma casa mal arejada. Por um último ímpeto de brincar, meu vizinho resolveu jogar futebol mais um pouco. Havia um portão de madeira que nos servia de perfeita goleira e ali alternaríamos cobranças de pênaltis.

Quando ele fez menção de jogar, decidi que buscaria eu mesmo, dentro da casa, a bola. Sabia onde estava. Bastava atravessar o corredor e chegaria lá, na última porta à direita, quase em frente à cozinha onde a avó de Rafael passava a maior parte do tempo. Desse rompante, dispensando o ritual da porta, pulei a janela e, quando percebi, estava dentro do quarto de casal que tinha uma porta interna ao banheiro. Fechado para o corredor, mas aberto para o lado de dentro, a mãe do meu vizinho banhava-se como se não houvesse amanhã no seu gesto, desde dentro da banheira de louça branca. E vi pasmado ela levantar-se sem pressa alguma buscando com o braço esticado a toalha para enrolar-se. Os cabelos curtos e escuros espargiam gotas por tudo e, com a impressão de que seus olhos tivessem me encontrado, não sei como, num movimento felino, fiz um movimento estranho de volta à rua, mas também o Rafael não estava ali.

Encostado à fachada brilhosa da casa, olhava contra o sol poente de outono para tentar em vão diluir a imagem que a retina fixava (e gravava) na minha memória. Não importava o que fizesse ou tentasse, era inútil. E logo retornaríamos pela estrada de terra poeirenta comigo fugindo permanentemente do seu olhar. Em casa, não tinha fome para comer o que fosse. Minha mãe perguntava o que eu tinha e eu dizia sempre o mesmo “nada”… E embora Rafael fosse um bom amigo, nunca tornei à sua casa. Minha mãe, zelosa, perguntava se algo havia me acontecido, mas “nada”. Só o que queria era não voltar lá e destruir, trocar, substituir aquela visão por outra. Por uma condição solar, permanente, todo ano me vejo alguma vez com aquela luz. Não custo a reconhecê-la, porque é a luz da infância, quando temos a pretensão de congelar o tempo como um improvável deus do tempo que, fora da memória, não podemos ser, mas que o sol é.

Eu ontem beijei teus lábios

Pedro Salinas (1891-1951)
trad. do espanhol

Foi ontem que beijei tua boca.
Os lábios, a tensão
rubra. Foi um beijo tão curto,
durou mais que um raio,
mais que um milagre. Depois disso
não quis mais nada
e também nada havia pretendido antes.
Começou e terminou nele.

Hoje estou beijando um beijo;
e só, só com a minha boca.
Tocar a sua com meus lábios,
não, não mais …
– Como fui perder isso? –
Eu os coloquei
no beijo que te dei,
ontem, com as bocas juntas
do beijo que eles beijaram.
E esse beijo dura mais tempo
que o silêncio, que a luz.
Porque não é mais a carne
nem a boca o que eu beijo,
tudo isso foge de mim.
Não. Mas o beijo de
agora está durando mais.

Duas poetas

Comprei um livro de voz traduzida
e agora sou assombrado pela voz errada
me dizendo tudo em voz trocada,
mesmo errado o que era da voz sentida.

Assim, os versos de H Arendt foram vertidos
na minha mente como se arranca
poesia do alemão incompreendido. Como se
amasse M Heidegger igual a uma F Espanca.

Poesia para quê

Não foram muitos os críticos (críticos de verdade, com carreira nisso) que comentaram comigo sobre coisas que andei escrevendo nessa última década. Afora estes poucos, recebi de alguns outros até em mais evidência um “gostei”, um “impressionante” e alguns “lindos”, embora estes, para o efeito de crítica, valham muito pouco, se é que valem algo. Mas esses poucos a quem me refiro foram muito especiais. Detiveram-se em mim muito mais que eu merecia e, aparentemente, mais que habitualmente críticos e estudiosos hoje parecem reservar à leitura, haja vista seu afinco e comparecimento nas redes sociais.

Curioso é que as duas pessoas em questão, os professores Cícero Galeno Lopes e Carlos Felipe Moisés, leram coisas diferentes. O prof. Cicero leu minha prosa, meus contos rurais, enquanto que o prof. Carlos Felipe Moisés leu minha poesia, a primeira versão dos poemas de Falso Alarde. Trágico, mas não curioso, é o fato de que meu diálogo com eles foi brutalmente interrompido pela morte de ambos, fatos que aconteceram num período relativamente curto, de poucos meses, no ano de 2017. Certamente não perdi apenas eu com sua partida, mas para mim foram muito impactantes, ainda mais porque a ambos fiquei devendo respostas que, por minha demora, não lhes chegaram nunca.

No Rio Grande do Sul, o professor Cícero estudava – como pouco se estuda hoje – a vertente literária que trata do mundo rural do interior do estado. E eu só posso restar agradecido, senão espantado, porque ele não apenas leu como entendeu o propósito daqueles contos tão sentimentais que reuni em A aposta. E notou, como eu havia notado por outros caminhos, a ausência paulatina tanto de uma aproximação temporal ao presente (e um consequente congelamento histórico), quanto do preconceito crítico e acadêmico quanto aos temas rurais e do interior, fundantes (e de repente abandonados) da literatura rio-grandense.

De outro lado, o professor Carlos Felipe Moisés tinha (como eu tenho) preferência declarada e manifesta a respeito da poesia mais subjetiva, não tão voltada ao mundo da concretude e objetividade. Além disso, tinha ele um dos estudos mais consistentes a respeito da poesia de Fernando Pessoa no Brasil, talvez comparável apenas ao da professora Leyla Perrone Moisés. Eu, como diletante admirador da obra pessoana, pude ter uma nesga da sua compreensão a respeito de Pessoa e, por felicidade empírica, muitas impressões coincidentes. No entanto, para além disso e ao contrário do que aconteceu com Cícero, a interrupção brutal de nossa correspondência pode ser continuada pela leitura de seus livros de teoria literária. O mais recente deles, este do qual quero comentar um trecho e vai a capa anexa, foi lançado em 2019 pela editora da UNESP, uma editora fabulosa mesmo, talvez hoje a melhor do Brasil em humanidades.

Eu não tinha ideia de que também compartilhava com ele um sentimento dúbio, dúbio de duvidoso, na relação entre poesia e sua “presença” virtual, nas redes sociais. Apesar de seu livro ocupar-se de outras coisas, como as questões políticas e sociais da poesia e suas peculiaridades, de alguns temas já tradicionais como a “inspiração” e a sobrevivência da poesia e suas linguagens, mas é a respeito da leitura, do momento da leitura, que ele decide fazer um voto de desconfiança em relação ao substrato de permanente diluição das redes sociais, no qual pelo ralo temporal fundem-se todas as qualidades de texto e de metáforas, conformando um todo avassalador baseado muito mais na excitação alterada do que na reflexão, muito mais em pensamentos descartáveis que em fluxos de consciência.

Se eu houvesse combinado com ele de unirmos impressões, provavelmente o resultado não seria mais coincidente, mas nunca tratamos desse assunto. Eu ainda hoje não sei dizer se sinto mais estranheza ou complacência quando vejo poesia circulando nas redes sociais. Não é que pense que não possam ou devam poetas deitar seus versos no fluxo contínuo das redes, mas sempre isso me acaba acusando a sensação de anulação do ritmo poético, de dissolução mesmo. Já não se trata mais de uma pesca sem isca, mas de outra ainda mais efêmera, sem linha, sem anzol, só mesmo uma aparência do que de fato é. E isso, todo esse potencial, acaba sempre soterrado pela digressão hostil, pelo sarcasmo e, não raro, pelo escárnio, uma espécie de anti-poesia essencial. É um convívio impossível e cada vez mais doloroso esse.

Também não é só a poesia que é agredida nesse meio ambiente, isso é evidente. A própria comunicação interpessoal acaba reduzida a um ritual simbólico elementar no qual a palavra, a palavra mesmo, é no mais das vezes dispensável. A reação emocional vale mais e é mais visível em seus likes, smiles e loves. A significação empobrece e as relações são diluídas e às vezes simplesmente perdidas no vácuo virtual. Não me espanta que tanto o professor Cícero quanto Carlos Moisés fossem pessoas não afeitas às redes. Mas gastavam e gostavam de gastar muitas e muitas palavras para se fazer entender e isso numa oferta desinteressada.

Essa “coisa”, que é uma coisa rara e ao mesmo tempo poética e prosaica vai se transformando com a internet, é isso que eu sinto, assim como a leitura paciente, demorada e que cumpria a tarefa de nos ensinar a perceber como se da primeira vez, o nunca imaginado nem sentido, como ponderava Carlos Felipe Moisés. Agora é reforço sobre reforço no próprio viés de confirmação. Like sobre like, love sobre love. Há de haver bons poetas nesse mundo assim, sem tempo, certamente há, mas vai ser muito mais difícil para eles nessa disputa interminável pelo mais novo, quando já não há mais opção entre durar e não durar se tornou para a poesia o único tempo possível.

Fora de escala

Boa parte dos erros de avaliação dos seres humanos deve-se a deliberados erros de escala, a uma peculiar capacidade de superestimar-se o potencial de realização do homem diante da natureza e dos outros homens. Parece necessário, como medida de afirmação, colocarmos o esforço social como total, mas a verdade é que sabemos que não conseguimos nos organizar nem proporcionalmente nem equitativamente.

Assim que o coronavírus é o exato oposto da ameaça meteórica, previsível, mensurável. A catástrofe humana é sempre aumentada até a glória, nem que seja a glória anônima e bestial de uma guerra. Também as soluções tecnológicas e científicas buscam e reportam o super-humano, a criatura regenerada pela intervenção magnífica. O ser humano como magnum opus dele próprio. E, no entanto, é por obra de uma comunidade de seres acelulares, mas com memória, que nossos esforços parecem medíocres ao ponto de batermos cabeça contra cabeça pois a nossa solução social é vaporosa, insuficiente.

Do mesmo modo, nossas supostas vantagens, o instinto de cooperação e outros igualmente superfaturados no imaginário ocidental, vacilam e pendem para a luta pela sobrevivência no seu estado mais natural e agressivo. E apesar de decalcarmos para nós mesmos a nobreza, o esforço desinteressado e as melhores características de um catálogo de grandes exemplares da nossa espécie, nessa mesma sombra megalomaníaca regressamos a um estado primitivo o qual muitas vezes é difícil crer que abandonamos.

Para a natureza, que cicla pela adaptação e variabilidade, o ser humano está sempre em teste. Não ocupa lugar privilegiado sequer na pirâmide alimentar, haja vista do que nos alimentamos. A volta dos meteoros, nosso fascínio pelos dinossauros, bombas tremendas e explosivos devastadores é expressão alegórica da nossa irredutível miséria. É o mesmo julgamento da espécie para o qual nos inclina a reflexão indutiva, moral e religiosa. Mas a natureza tem outra forma de nos conformar. Micromilimetricamente exuberante, ela tenta apenas reordenar a população, a ocupação espacial e colaborar com a seleção natural. O problema do ser humano é ele achar que escolhe bem no lugar da natureza quando isso mesmo é uma escolha dela. Mal escolher, nesse caso, é uma indignidade atroz.

Amígdala

Nem um apelo à resposta
agrediria a dúvida
por tanto.

E nem uma chance inoportuna
nasceu alguma vez
do nada.

O deus do acaso
pode muito bem calar
numa recusa

e permitir ao vento que volte
a ser vento e volte
e vente.

E, óbvio,
salte tão alto
quanto impossível.

Como um olhar de cão
que pareceria eterno
e decidiu dormir;

a amígdala
que arderia sempre,
mas precisou ceder.

Só eu resisto à noite. Eu,
sem nem uma dúvida,
não saberia viver.

Má conselheira

Má conselheira é a vigília, mas a noite tem pensamentos muito mais alongados que o dia, encurtados das pressas. Pensamentos que vão mais longe, buscam outros tempos, recolhem palavras dos outros e botam na nossa mente como se fossem nossas.

Nessa noite, não sei que horas, não fui olhar, despertei com os olhos buscando entender pela claridadezinha das janelas se devia ou não pular da cama. Se acordo assim e passou das cinco e meia eu não hesito, levanto para o mate da madrugada, o melhor de todos, cevado num silêncio sem um pio, e fico esperando o momento que o céu se torna uma abóbada alaranjada para o parto do sol. Mas era cedo até para o sol e permaneci deitado, tão quieto quanto possível, e lembrei-me de cenas que vi mundo afora, no oriente, Europa, Itália de meus bisavós maternos.. E do nada, desse vazio, me veio uma palavra que não era minha, mas do meu pai e das pessoas antigas, do campo. Uma palavra terrível, o pior dos agouros do homem campeiro: o tendal.

Vivi uma vez um tendal sem saber que o viveria. Um tendal é uma simples corda esticada onde pendurar o couro dos animais mortos. No entanto, para que se o use, é preciso antes um longo trabalho, o trabalho silente e às vezes atropelado das tragédias.

Não consigo imaginar o que estejam passando os médicos, enfermeiros e trabalhadores italianos nem o que talvez logo passem os brasileiros. Não consigo porque é muito difícil trabalhar com a vida e, sendo humana, eu acho que é coisa para pessoas muito, mas muito especiais. Viver a morte de um ser vivo não é uma coisa banal. E o custo emocional não é também uniformemente distribuído. Por culpa disso, muitos enlouquecem nas guerras, nas grandes secas, nas misérias. E há os que passem ilesos e não são insensíveis por isso, talvez apenas mais resistentes. Mas que não se exija de ninguém esse comportamento. Há as pessoas naturalmente racionalizadoras, e há também as profundamente emocionais. É nestes últimos que tenho pensado mais e, ao menos mentalmente, solidarizo-me totalmente.

O tendal que eu vivi foi de certo modo causado por mim mesmo, por minha imperícia. Eu tinha por volta de dezoito anos e estava passando aquele ano inteiro no meio rural do interior do RS, na campanha. “Pra fora”, como se diz. Último filho de cinco, era o último a decidir o que iria fazer da vida, estudar o quê, fazer o vestibular. Depois de um ensino médio tortuoso ao extremo, havia me recolhido no interior de Bagé, às bordas do rio Camaquã, onde meu pai trabalhara a vida inteira e naquele momento vivia.

Por um ano inteiro estive lá e, por incrível que pareça, não sentia falta de nada. Para as notícias, tínhamos um rádio e uma tevê cuja imagem era imprestável, um borrão em movimento com vozes entrecortadas. E livros. E almanaques que haviam sido do meu avô. E jornais velhos, de notícias usadas e também imprestáveis. Coisas de galpão.. Servia-me muito bem de uma vida espartana, quase ascética, e aproveitava os fins de semana na cidade. Naqueles dias, tinha muitos amigos em Bagé. Foi a tevê, a porcaria da tevê, que na verdade deu causa ao que nos aconteceu.

Pois andava naqueles dias um vendedor de antenas parabólicas prometendo o milagre da tevê no meio rural. Para quem havia estado anos a fio sem nem luz elétrica, parecia um consolo a possibilidade e, dessa forma, encomendou-se o serviço. Meu pai resolveu fazer ele próprio, como bom one man band que sempre foi, o pedestal para tal antena e assim ficamos dois ou três dias envolvidos na “construção” e a espera do instalador enquanto que, imperceptivelmente, de uma chuvarada da primavera, o carrapato aproveitou-se para infestar parte dos animais que criávamos ali. Imperceptivelmente para os meus olhos destreinados que mal interpretaram o risco de adiar o banho dos animais porque, enfim, o “homem da tevê” estava sempre por chegar e chegou efetivamente, absorvendo nosso tempo e atenção.

Naquela noite, conseguíramos assistir do começo ao fim o telejornal, a novela e até um pedaço de um filme qualquer. A imagem nebulosa e desconstruída ganhara nitidez como se pincelada e meu pai estava muito feliz por conseguir aquilo depois de tantos anos. Eu penso que, principalmente, porque também desejava me seduzir a ficar ali, com ele, e não fosse dali me embora, do que também não me impediria (e não impediu). A tevê seria um argumento nesse sentido, ele parecia silenciosamente sugerir.

No outro dia, cavalos encilhados, voltamos ao que deixáramos alguns dias antes, mas não estava o mesmo. Em determinado potreiro, os animais não mantinham seu hábito e, mal cruzáramos a divisa do aramado, ele percebeu que algo estava muito errado. No cocho de sal, uma vaca mugia lamuriosamente, talvez chamando o seu bezerro. Numa pequena canhada, um declive, o terneiro se acompanhava de outros animais, mas, ao longo dos nossos olhos, outras vacas e também terneiros estavam prostrados, incapazes de erguerem-se sozinhos, pelas próprias forças.

“A tristeza…”, disse o pai. “É a tristeza.. Mas tu não viste o carrapato?”, e indagou-me porque eu havia estado ali um dia antes, pela tarde, e o carrapato se recorre é pela manhã, quando está de barriga cheia do sangue dos pobres bichos que estiveram a dormir. E então ele disse a palavra: “isso vai ser um tendal!”, e apeou do cavalo para tentar aprumar uma vaca erguendo-a pela cola, no que eu tentava inutilmente ajudar. Ela não sairia por conta própria. Um bom número delas, segundo ele, sequer chegariam vivas até o banheiro onde livrá-las dos parasitas. E assim foi.

Dali em diante, levamos ao banho aqueles que conseguiram chegar lá. Os terneiros jogávamos com as mãos para dentro do remédio e da água e com um gancho puxávamos para a fora, com dificuldade. Os mais frágeis, carregávamos  empurrando com o corpo, dando a volta da escadaria e lavando-os praticamente a mão. Essa manhã durou pelo menos até o meio da tarde, quando fomos socorrer os restantes. Sobre o reboque do trator, erguemos e amontoamos vacas e crias desparceiradas, muitas que já não reclamavam mais do incômodo. E outras ficaram por ali mesmo, aguardando a fome insana de corvos, caranchos, sorros e os outros animais da noite.

Na volta “pras casas”, quietos, atordoados, meu pai, gaúcho que se recusava a usar uma faca contra um animal vivo, me disse que eu não precisava ficar com ele e que nem ele ficaria ali, se pudesse. Herdeiro de antigos estancieiros, escravo involuntário da sua genealogia, disse-me para que não fosse como ele, um prisioneiro do chão. E não disse com tristeza, mas com uma raiva imensa daquilo tudo. Uma raiva que não era daquele momento só.

De noite, a morte dos animais não nos permitiu comer. E, apesar da parabólica finalmente instalada, também não ligamos a tevê.