Poesia

05 de setembro, dia da Bandeira

bandeira

05 de setembro não é o dia da bandeira, mas, em 2016,
serão completados 159 anos do falecimento de Augusto Comte,
filósofo francês considerado o “pai” do positivismo,
doutrina política que inspirou os ideais republicanos nacionais
e adorna a bandeira brasileira
(cuja data de comemoração é 19 de novembro)
com o dístico “Ordem e Progresso”
escritos em uma faixa branca e curvada dentro de um círculo azul
que emula o céu e tem o mesmo número de estrelas
que estados federados no Brasil
mais o Distrito Federal no qual se encontra Brasília,
capital do Brasil, quinto maior país do mundo
em área territorial e com população total que ultrapassa já
200.000.000 de pessoas, segundo o IBGE – Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística, criado em 1935, ano em que
Augusto Comte completaria 137 aniversários se estivesse vivo.

No dia 05 de setembro comemora-se o dia da Amazônia,
o dia da Farmácia,
nasceu a beata Teresa de Calcutá
e em 75 dias se comemorará o dia da Bandeira, instituído
em 1889, quando da proclamação da República brasileira. Há
127 anos comemora-se o dia da Bandeira. É menos tempo do
que o perfaz do nascimento de Augusto Comte, “pai” do positivismo.

Dia 05 de setembro comemora-se o dia do irmão, da Amaz0101010101,
do oficial da justiça e para o dia da Bandeira brasi010101010
faltam 75 dias. 75 % 7 = 10,7 semanas para o dia da Bandeira.
Verde, amarela, azul e com o dístico positivista
inspirado na doutrina de Augusto Comte, filósofo que nasceu
em Montpellier há 218 anos, neste 05 de setembro, dia da Ban10101.

No caminho de Sefelá

sefela

Germina – Revista de Arte e Literatura

Therefore I will wail and howl, I will go stripped and naked:
I will make a wailing like the dragons, and mourning as the owls.

Micah 1:8

É quase tudo a mesma coisa, pensando bem.
O anelo inútil dos anjos; a esperança sofrida dos crentes;
o desapego trôpego dos bêbados; o desafogo tácito do pranto;
o desespero vago dos sons. E o imperdível número dos astros
cumprindo sua trajetória, até a hora de dormir das crianças.
É quase tudo o mesmo, visto de longe. E a face serena esculpida
sem mármore, na carne, é ainda mais bela à distância.

No caminho de Sefelá as corujas bicam meus braços.

Depois, quando daquele lado estiver Zaanã e forem outros
os escravos, e os barcos partirem para além, eles levarão
na sola dos pés um pouco dessa areia para moldar
a tristeza dos olhos dessa mãe, e as esperanças famintas minguando
nos farrapos dos seus trajes esgarçados.

Mas, por enquanto, vou a caminho.

Eu tive conforto. Pouco, mas bom. Dividi meu pão e meu vinho e,
na época de fartura, joguei até às raposas uns pedaços. A floresta nós
acabamos com ela revezando as mãos no machado. Nossa caça
era pobre e quando as crianças começaram a morrer
nós partimos. Estas as nossas razões.

Antes de partir, carreguei as pedras para o interior da casa.

Tentaram-me as palavras simpáticas mais que promessas descabidas;
mais a saúde do rebanho que uma possível riqueza; o sono justo
e um lugar definitivo mais que sacolas de sal; a madeira com que
fazer um barco que o mar aberto.

Trêmulo, sei que a febre retorna.

O verão sempre foi insípido e seco. A lua sempre esteve lá em cima
e, como um pêndulo, sempre voltava. Mas eu nunca mais voltarei.
O inverno nunca fora tão frio.

Dei nome aos ladrões e virei eu mesmo o bandido.

Não toco flauta ou tambor. Já não bebo. O ar me alimenta
e o vento quente diz que eu devo flutuar. É como fazem
as aves para sobreviver. Deixei provisões sob a cama.
Tenho um grito que deseja fazer-se ouvir e isso é o que importa,
por enquanto. A miséria é maior do que previra.

Distribuo ordens que ninguém ouve. Pelo menos as corujas se foram.

Gosto de sentir as pedras nos pés. Gosto do perfume do mar
e do incenso que eu nem lembrava mais. Do olor da terra
túrgida pela manhã e ter de subir bem alto para entender
onde estou e que o futuro é.

As aves já não vêm aqui.

Prefiro que não haja espelhos e que não me digam. O meu estado
fui eu mesmo quem causou. Comunico estas dores às cabras e em
suas pegadas. As cãibras? Não contem a ninguém sobre elas, eu disse.
O melhor de falar com os pastores é que eles jamais nos entendem.

Não deixei para trás um camelo, uma tenda, uma sombra.

Sei cantar como as aves e não o faço. Sei cultivar o trigo e não o faço.
Sei aborrecer os demais e não o faço. Sei agradar os ímpios e não o faço.
Sei insultar quem merece e não o faço.

O peso das minhas roupas eu deixarei nesta enseada.

Quero que saibam o que vim fazer aqui. Vim buscar as pedras da
minha lapidação. Vim riscar meu nome no couro. Vim fazer com que
jamais esqueçam que sou imperdoável, como este deserto vem sendo comigo.
E que fui habituado a perecer e não deixo que me toquem ou alcancem.

Quando deveria fugir, esperei.

Os cravos são ásperos e velhos. A tarde é mais longa que o normal.
Seus pulsos são cruéis como espadas, mas não há espadas em Samaria.
O que me dói,então, que o grito natimorto encerra e define? São os
outros? É o mundo? O futuro? A espécie de sinais que me deixaram
eu entendi como quis. Se este caminho não me leva a Sefelá, eu vi tudo o
que precisava. De longe, daqui, de onde posso ver, é igual a de onde eu
vim.

Deixai-me aqui.

Katanas

Germina – Revista de Arte e Literatura

traço partes da palavra
__como em lâminas
____com meu nome todo
______e o sangue púrpura do meu corpo
_________dilata e desvia meu olhar do resto

____________sou tudo eu mesmo
______________até que não vaze de mim
________________ar nenhum e eu encontre
___________________no escuro
_____________________o alvo inteiro

_______________________tenho a velhice nos cabelos
________________________e nos dentes
_________________________eu já não posso
________________________demorar o meu olhar
_______________________inutilmente

_____________________é sempre quando preciso
___________________que me faltam armas —
_________________de sobrevivência
_______________só tenho meia chance
_____________sendo honesto

__________meu passo agudo
_______pode falhar a meio caminho
____a idade é que
__plantou em mim
um conselheiro

Tão simplesmente (a flautista de porcelana)

porcelana

Germina – Revista de Arte e Literatura

1

tire seus dentes de mim
por favor, com delicadeza
até que minha pele esqueça
até que ela amoleça
mais uma vez, entre os dedos
do futuro, onde tudo se oculta

2

bom mesmo é quebrar
ou partir ao meio os lugares
remover a casca das palavras
com unhas indelicadas
e, à inacessível invocação
do silêncio, blasfemar

3

o domingo dentro de cada dia
se espreguiça latejando
na mesma punção que ele causa
e balança como os cabelos
de uma boneca esquecida
no vento

4

seus olhos parados
o que veem ou sabem?
não têm desastres
ou recomeços por dentro
só um inútil esquecer-se
no corpo imenso

5

ela leva uma flauta
que não sabe soprar
e pede ao vento que toque
mas ele recusa
e olhando em seus olhos
a refuta

6

a visão enorme dos dentes
interrompe a passagem do tempo
e numa corte de insetos
um vagalume
a levará sem que ela queira
ao caminho do azar e da sorte

7

(a flauta em sua mão
objeta
ela quer apenas
ser aquela coisa
que ela não é
inaudita)

8

o que eu faço de melhor
são desenhos nas nuvens
que tapam o sol inclemente
só eles não chovem
nem podem ser vistos
tão simplesmente

Bushido

Chanoyu3

Germina – Revista de Literatura e Arte

1

conservo a esgrima para as fatalidades
aos inimigos devolvo as vinganças
vou sobre os cavalos em fuga

(fumaça ardendo no olho
fratura do braço ao meio
cravo espetado no pé)

2

têm dois dias e tudo se acaba
uma semana e chega o verão
amanhã tudo de novo não

(como pode ser tão simples
o mundo sem divindades
sem sorte sem azar sem matanças?)

Cortejo oriental

surin

Germina – Revista de Literatura e Arte

uma fileira de animais japoneses, uma fogueira, uma figueira
uma dança embalada pelos pífaros, os tambores batem e são ouvidos
uma cortina sutil é uma parede, há um limite pueril que a precede
uma ideia que se completa em silêncio, uma silhueta, uma sineta
uma vez o cortejo sendo oriental, a vida não acaba tão mal