Comprovação

Muito ao contrário
do amplamente disseminado
pelas radiografias
e aparições mediúnicas,
a alma é também vertebrada.

Eu mesmo já flagrei algumas delas
curvadas como horizontes exaustos
e cumprindo um interminável acordo
consigo mesmas. Para almas assim,
o mundo é um espelho despercebido
sem antes ou depois, um intrincado
enigma, um discurso ventríloquo.

Mas é inútil tentar convencê-las
do seu estado. E é inútil recuperar
para elas seu tempo perdido. Até
que entendam o próprio peso
contra o chão, as almas mantém
a compostura negligente de mal notar
as causas de suas fraturas.

Deitadas, despidas de qualquer
decência, as almas sequer
alcançam os joelhos com seus olhos
oblíquos. Faltam-lhes vértebras.
A vida é incontornável
e ao que foi rompido
de pouco valem suturas.

A despeito disso, suas histórias,
longas como estradas incomuns,
entrecruzam-se, perdem-se,
misturam-se, sem se entenderem
jamais, isso porque a um poeta
nunca se contradiz.

Então, como estava dizendo,
a alma também é vertebrada.
E com meus maus argumentos
posso muito bem comprová-lo.

 

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Não vais

Não vais tocar o mundo
nem por um instante,
deve ser a maldição
do mundo.

Se pensas que pode
acordá-lo, detê-lo,
detém a ti mesmo.
Acorda enquanto podes.

Ele, incompreensivelmente,
exige tão pouco de ti.
Basta que acomodes
um pouco a cabeça

em meu ombro.
E, sem ter ideia
de como, ou sem desejar,
vê-me sorrir.

Indesejável

essa história escrita alheia a toda vontade
essa corrente marítima arrastando o sal do mar
esses pontos desamarrados das retas
essa insinuação de alguma certeza nos astros
esse destino a posteriori que jamais conforta
esse abraço do passado empurrando-nos à frente
essa solidão adivinhada nos poucos silêncios
essa eternidade com data marcada
essas ideias em arpejo, irresistivelmente infinitas
essa máscara sem olhos para vestir
essa trança infindável de Rapunzel para subi-la
essa voz de animal machucado
essa mão, manopla, de gigante, atorada
esse cansaço de camelo exaurido no deserto
essa fúria inútil de bêbado
esse discurso repelente e arredio e indesejável
sim, esse mesmo

A ponto de.

Você dá o que lhe parece.
Mostra não mais do que percebe.
Encontra apenas o que imagina.

Nesse silêncio quadrado,
nesse quadrado há um grito
estilhaçado em si mesmo.

É bom guardar os vestígios,
deitar fora as lembranças,
borrar a verdade, vendar o futuro.

Para nós não há uma última palavra.
Você deveria saber o que é preciso
para não ser feito em névoa.

Você parece, mesmo, é o que não dá.
Nem percebe mais o que lhe é mostrado,
prefere permanecer a ponto de.

Mas o mundo já partiu do seu lugar
e ninguém mais é igual a outrora.
Quem há, ainda, para encontrar?

Veja o quão sem graça
é não haver graça em sorrir
quando não há mais a quem convencer.

Basta repetir os próprios passos
para chegar ao ponto de partida
de volta. E mais uma vez.

Tanto quanto necessário
a água escorrerá pelas frestas
e o vento se espalha sempre em seus lamentos.

Se, pelo menos, você estivesse a ponto de
reconstituir o número habitual
pelo qual pranteavam estátuas.

Se, pelo menos, você estivesse a ponto de
enfileirar exércitos de homens escolhidos um a um
e levá-los a algum destino.

Com que esforço
esse pássaro abre as asas
e parte, quando está livre.

De longe, cada vez mais longe,
ao olhar para baixo, felizmente
todos parecem borboletas.

De perto,
poucos estão
a ponto de.

Muitos nem estão e nem nunca estiveram
e, finalmente,
pode-se entender que sempre tem sido assim.

(2012)

Samsara

O problema dos mortos
não é o tanto que eles deixam
para resolvermos mais tarde,
mas o que nos levam
e que não tem solução nenhuma.

Como se as partes do nosso nome
– as pronunciáveis –
nunca mais fossem encontradas
porque já sem qualquer eco
e sem o antigo furor

(como em um catálogo de ítens
de carnes e ossos que se batem
girasse inexpugnavelmente
a energia que se entrega
aos nossos nervos e músculos)

e a forma como éramos chamados
quando se perdia de vista
alguma coisa qualquer
e éramos os titulares
desse resgate impossível.

Sim, o máximo que fazemos na vida
é sermos compenetrados
salvadores de grandes miudezas
para os outros
gastarem-nos.

Mas não é por isso
que seremos lembrados ou lembraremos:
a memória é um torpor tímido
de que existir é esse instante
que casualmente nos é exibido.

E se as muitas palavras despencadas
e as cores travadas no breu,
ao arrepio de qualquer forma,
o inconcebível, o único inconcebível,
é que você finalmente morreu.

Defeateds

my dear B, when you died
I did not cry so much, but you don’t need
forgive me, I did
and still thank you
the few years that divided
all that misery
and our great and unforgettable friendship

I remember when you were sad
by continuous returns
to never realized hopes
“Life is like that,” I told you
without having any idea of what life was
and what happened to you

and when you fell in love
and that was inaccessible to you tell her or show it
because he never listen to you
and you taught me
to trust more in poetry than in love

today I’ll take a few heavy beers
in your memory

You knows
I have only good memories of us
and I want to thank you for having disappointed me early
about the good men and men of faith
and about yourself as well
this was your greatest proof of friendship

I remember we were looking together in books
which is not met in the streets and bars
and people had helmeted face
and dirty jokes and closed minds
like an crazy army

when things started to not give too sure
in your life
I did not know your address and your phone
or and even if you still remember me fondly
or contempt for it (I think I don’t deserve)

today I will drink white wine that I never could bear
in our memory

I need to forgive you by me
my descent and my destiny
you please to free himself from me
now that you cannot
I know that in one way or another I marked your life

the way the horses marks the abundant pasture
whales marks the forgotten water
the birds in the empty wind
and life marks the universe and history
(vainly)

because it was you that was my best memories
and no one else, when I was pure, but it was not sweet
when not yet grown accustomed to lie and to lie
when I sought to know without any suspicion
when I would rather do nothing
to live the lie of others
and you helped me understand that we were always alone
despite the love and hate that they keep for us

my dear B, when you died
I was glad to hear that you did not suffer
more than myself to know that you died

today I’ll drink the same cheap cognac with which we faced the cold
in my memory

[uma versão em português deste poema está publicado em Falso Alarde]

Montante

a vida são coisas perdidas
são louças no momento de partir
e os cacos quando se perdem de nossa menor menção
são lugares pelos quais sem dúvida passamos
e não nos ocorre que possamos lembrá-los

são inúteis regressos a uma vida que não merecemos
e os passos que demos de onde nossa esperança
se reverte em desistência e remorso

a vida são ainda as coisas por perder
fragmentos do tempo que almejamos e vemos desgastados
sem que nos tivéssemos prometido mesmo alcançá-los
porque, ao fim, tudo se debate dentro de sua própria força
e nosso cansaço não podemos remetê-lo
ao montante do tempo só por estarmos convencidos de que lutamos

tais coisas são apenas desprendimentos da vida cotidiana
e, certo, sempre há o momento em que alguém nos chama:
– Aqui, ó Fulano! –
e, ao contrário de toda a desesperança,
essa é uma certeza que ainda requisita nossa comoção
mas sempre parece que alguém nos chama

(1990)

Amazona ferida

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Com seu rosto sereno e inclinado que não
denunciará a dor, posso procurá-la outra vez.

Você sempre a amou – a primeira obra de arte
Que você conheceu pelo nome. Toda a semana

Você me trouxe até ela. Desatenta pelo
Vislumbre do mármore e de seu tamanho

Eu não sabia que você estava mostrando a quem
Eu precisava tornar-me para protegê-la

De tudo o que não você não entendia –
A mulher poderosa surgindo acima de tudo,

Tendo de aprender a sentir cada açoite, cada corte
E continuar em pé, com olhos vazios,

Registrando tudo. Você sabia que ela era
A mãe que você precisava, que desnudaria

Seu peito para você e sangraria sem demonstrar
Tristeza nem arrependimento. Eu só espero

Ter aprendido suas lições o quanto antes e você
Não tenha me visto derramar-me em lágrimas. Eu

Deveria pairar sobre você como uma rocha,
Apoiando-me em uma coluna, com o braço

Sobre a cabeça e a ferida estancada. Você
Me quer assim, o terror branco ocultando meus olhos

Vazios, o freio do animal amarrando meu traje rasgado –
Nua, para que visse o côncavo do meu vazio o bastante

Para suportar o peso de todo o seu temor. Eu finjo
Ser ela, em pé sobre as pernas fortes que se recusam

A sustentar-me. Ela não pode amá-la. Se eu tivesse
Toda essa força, você estaria perdida. Ela não iria

Permitir que você enterrasse a cabeça sob o braço amputado,
Em seu peito frio, e cantasse sua canção indistinguível.

O corpo de minha filha

Jennifer Franklin
trad. do inglês | http://bostonreview.net/franklin-my-daughters-body

Se você a visse, pensaria em como ela é linda.
Estranhos me param na rua para dizê-lo.

Se falasse com ela, veria que essa beleza
Não significa nada. Sua visão se desloca para os pombos

Na calçada. Seu contato com os olhos torna-se
tão precário quanto o dela e escapam lentamente

Com diferentes graus de graça. Eu nunca sei
O quanto dizer para explicar o desgosto.

Às vezes, lhes digo. Mais frequentemente fico
Em silêncio. Com o sorriso dela me cauterizando, firmo

Sua mão por todo o caminho até em casa, embalando-nos.
As mãos da florista entregam-lhe uma rosa já morta que ela guarda

Suavemente, sem rasgar as pétalas, como ela faz
Com as tulipas que olham para nós com sua expressão insípida,

Fingindo que podem aguentar o meu sofrimento
Em seus copos alongados, porque eu os conhecia

Antes de conhecer a dor. Eles não entendem que
Estão arruinados para mim agora. Eu plantei quinhentos

Bulbos que, como ela, germinaram dentro de mim, seu cérebro já
Formado por fios de nosso dna danificado

Ou qualquer outra coisa que os médicos não entendem.
Após o banho, ela se enrola em mim para eu niná-la –

A única vez durante o dia que seu pequeno corpo permanece quieto.
Então eu canto, respiro nos cabelos lavados e penso

Nos esqueletos no Musée de Préhistoire
Em Les Eyzies. Os ossos da mãe e do bebê

Deitados em uma caixa de vidro na mesma posição em que estamos
Agora. Eles foram enterrados em uma posição incomum:

A criança enrolada na curva do braço da mãe.
Os arqueólogos estão intrigados com a posição.

Isso não me surpreende de todo. Seria fácil
Morrer dessa maneira, cada uma de nós em seu último suspiro

Com rimas infantis em nossos lábios abertos
E a promessa de um sono tranquilo.