Porto Alegre, 6

Março é quando te crudelizas mais.
Desde que te conheço é assim.
O calor te excede de súbito,
ficas irrespirável.

E desértica, em ruas sem vida,
escorregas sob os pés
e te tornas mais fantasiosa.
Ninguém nunca te disse?

É o que me diz tua bocarra insone,
variando a pele camaleônica,
os olhos esbugalhados
repetindo anúncios que não cumprirás.

Nós dois sabemos que em algum momento
resolveste que era melhor mentir
a aceitar um destino modesto
como o dos teus residentes.

Na minha rua, uma senhora muito
velha está sofrendo há anos
a tua falta de bom senso
e, até agora, nada de ti. Enlouqueceste?

E se me dizes que não tens nada com isso
(como assim, nada com isso?),
eu estranho é o mau jeito
com que acordaste, em 1772.

É o porto para lugar nenhum
que te embaraça os sentidos? É
que o tempo te cerca cada vez mais
e não encontras saída?

Eu te digo, então, que não morreste
e para o futuro te empresto
meses da minha vida
sem esperar que sobrevivas.

Março é do pior calor que há.
É como um suor colado às roupas
e um vento inoportuno, do sul,
viesse te gelar os ossos por dentro.

Teus horizontes,
fímbria da noite e do dia,
sofrem de resgatar a ti mesma
e nossa bestificação.

Depois da chuva, encharcada
e triste como os becos mais alagados,
encontraremos as razões pelas quais
nunca escapamos completamente do teu amor.

E então colocaremos ao sol
o que resto da alegria em teu nome
ou porque enlouquecemos também
ou para que já não te salves de nós.

Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Eu já me perdi de mim mesmo.

Às vezes, tomo as lembranças entre as mãos, com carinho, e busco a infância distante, onde ficaram minha fé e minha força. Eu as vejo ainda lá, detrás de uma intransponível transparência no tempo mostrando com desprezo minha impropriedade de agora e mais admiro a chama tremeluzente de sua firmeza.

Perdi-me de mim mesmo quando mais fundo me busquei, como se a força de viver houvesse morrido.

Levo meus braços a frente e o que há é um sem fim. Como alcançar?

Espero.

Uma voz maior me dirá: Vem!

E, a partir daí, caminharei com tudo revelado, de joelhos, num campo de feridas, carregando na garganta o travo da vitória.

O fim dessa dor será antecipado pela foice dos meus passos, como uma saudação do trigo ante a segadora.

Perdi-me de mim mesmo e espero.

Senhor, eu tenho os braços estendidos…

O homem sofre a sua vergonha na minha carne.

As palavras hostis e as ofensas me parecem a verdadeira fortuna.

A culpa de cada um é de nós todos. Por que não sofrê-la? Preciso aprender:
a resistência à dor que tuas mãos me impõem;
serenidade intransponível ante a quem me ultraja.

E, melhor que julgar aos demais, limpar-me das próprias imundícies.

Se tenho ao alto as mãos, quanto mais baixo meu gesto aconteça, que ele então seja esquecido.

[Fé. In: Poemas místicos. 200 exemplares publicados por Adelina del Carril de Guiraldes. Buenos Aires, 1928.]

Os dragões me vencem

Juan Eduardo Cirlot (1916-1973)
trad. do espanhol

Vasculho no silêncio da gruta
as runas sob o branco da lua.
E, enquanto vou procurando,
afio minha espada com o nada.
Há algo no coração que é de dragão.

Eu luto contra um monstro, mas não o mato.

Buscar, continuo buscando:
o castelo do anel,
o estreito nessa voz branca.

Tenho um nome de sombra;
o meu não é um nome de homem.

Eu rasgo de preto para branco,
arranco do branco para o rubro,
eu rasgo do rubro; eu quero o ouro –
o ouro do seu ser e seu morrer,
cálice azul em que a luz descoberta
sela a lucidez do infinito.

Eu ontem beijei teus lábios

Pedro Salinas (1891-1951)
trad. do espanhol

Foi ontem que beijei tua boca.
Os lábios, a tensão
rubra. Foi um beijo tão curto,
durou mais que um raio,
mais que um milagre. Depois disso
não quis mais nada
e também nada havia pretendido antes.
Começou e terminou nele.

Hoje estou beijando um beijo;
e só, só com a minha boca.
Tocar a sua com meus lábios,
não, não mais …
– Como fui perder isso? –
Eu os coloquei
no beijo que te dei,
ontem, com as bocas juntas
do beijo que eles beijaram.
E esse beijo dura mais tempo
que o silêncio, que a luz.
Porque não é mais a carne
nem a boca o que eu beijo,
tudo isso foge de mim.
Não. Mas o beijo de
agora está durando mais.