Lagostas

Se sabes latir,
é melhor que cantar.

Ou tens com o que aferir
o tamanho intransponível da noite?

Ou então deixai-me levá-la.
Preciso resolver essa distância.

Queres saber o meu nome
e eu irei ladrá-lo agora.

Presta atenção na palavra:
é a última vez que ela fala.

É tão pouco razoável tudo isso,
não parece?

Antes um meteoro atravessasse o céu
e os entusiasmasse.

As baleias (lembras?) que sempre passavam
também já pararam de vir

e em algum retrato de algum lugar do mundo
agora começou a chover para sempre.

Eu, que encharquei-me dos pés à cabeça
por tua causa,

tudo o que tinha não me acontece mais.
São presunções e tolices

de uma régua sem trastes,
de uma balança sem pesos.

Se queres saber-me, desiste.
Há quem nos espere sem nada pedir

e nos sabemos sua propriedade.
Mas nada disso importa,

deste livro restará uma estaca
atravessando-lhe a intenção.

Portanto quando desistires
então aparecerei.

Quem pudesse me dizer
é melhor que esquecesse.

Voltemos à praia e às baleias,
pois não?

Ou nesse retrato há alguém
mais interno que eu?

Vamos comparar nossos desígnios
enquanto compramos lagostas.

Nunca comi lagostas.
Acho isso medonho.

Se ainda sabes tirar-me da sombra das palavras,
então tires.

Eu evitaria afanar-me o tempo
e o desejo, mas ainda não posso.

É tão boa a decoração do ambiente,
algum desenhista adiou o seu fim

e emprestou-me seus lápis
e levou consigo as margens de tudo.

Todos que se sonham Deus
seriam na verdade ladrões?

Conheci vários que tinham compulsões
verdadeiramente divinas

e outros nem tanto, mas, ao contrário,
resumiam-se como ninguém.

Se precisarmos de batatas
para o acompanhamento das lagostas

elas não irão comê-las?
Que má ideia servi-las vivas!

Mas assim pelo menos lembramos
de que estamos sendo preparados vivos

e nada restará de nós
exceto a forma de soletrar essa dor.

 

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Continuum

Uma das boas coisas do vento
é que ele não dá testemunhos.

Outra grande vantagem nele
é de sempre levar a si mesmo.

É o que o faz dispensar de uma só vez
motores, turbinas, asas e lemes.

Sob a nuvem ou sobre ela
o vento lhe é imune

e, mesmo que quisesse,
ele nunca desapareceria.

Sem pedaços, cor ou idade,
quem saberia defini-lo?

“É só o vento”, minha mãe dizia
sempre procurando dentro de casa

o estado da poeira nos móveis
e qualquer coisa em meus olhos.

E talvez encerrasse ali mesmo,
se desejasse, sua trajetória:

um moto-contínuo
e que não para um instante

mediante súplica
ou, que seja, advertências.

Mas o melhor do vento
ainda é ventar sem o entender.

Aos que duvidam de sua existência,
saibam que nem ele sabe de si

na sua ausência perpétua
de pensamentos.

O vento é o que ele faz
nas outras coisas

e nunca se encontrou nele
vestígios de arrependimento.

É o que faz nas outras coisas
e nem ele sabia disso.

 

 

O rio

Recconhecer meus infortúnios
é tarefa da qual não declino.

A desdita é poderosa companhia,
a maldita.

Ando ao meio-dia e o sol a pino
leva-me a uma sombra fugidia.

A nuvem anda. O cão anda.
O tempo. E a outra nuvem.

Ainda um dia poderei cantar
no tom certo, dramático, efetivo.

Até lá sigo errando abertamente.
Translúcido agora, sinto-me nu.

Neste silêncio há o incômodo
do que diria e calei.

No calendário,
os dias que continuarão a faltar.

Sorte é o que preciso, apenas.
Mas nego-me a crer. Não me fio.

Não se trata de perder ou ganhar.
Não se trata disso.

Eu vejo a água passar, tudo vai passar.
Mas eu sou o rio.

Lamento grego, 2

Há pouco o céu tocava minha mão
e o céu morreu agônico, num trinado.

Há pouco o gosto da lembrança chegava
e o esquecimento lhe veio cedo demais.

E agora pretendem me raptar
os desperdícios duradouros da vida.

Mas eu, que não rapino sequer uma fresta,
sigo errando ao meu desígnio:

fustigam-me um remoto deus do tempo
e mãos que não são minhas.

Eu, que nunca previra o castigo infernal, mortal,
que se pratica a si mesmo, sem fim.

Por outro haveria uma parte por entender
mais suave que a dor – eu a esqueci -,

mas destinei-me a não saber o que fazer de mim.
É tão torturante ouvir o lamento dos ossos,

mas ouço agora o que apenas eles souberam:
“Não há nada para mim aqui”, disseram.

Em minha teimosia, penso que um dia
terei de volta o que me arrancava.

Se para ser uma tela aos pedaços,
a reconstituição errada de um mapa

(para que precisei aprender dessa forma
– e não outra – o quanto custa viver?),

agora a noite me romperá, como a um tecido,
neste som infinito e indistinguível –

a minha voz entreguem-na ao colo de minha mãe
e à terra marrom que sempre me permitiu.

O que tinha mantido num engasgo subiu aos meus olhos,
é disso que o poema rompeu.

E agora, novamente fechado, voou daqui para longe.
Não sei porque pensei que isso bastava.

Comprovação

Muito ao contrário
do amplamente disseminado
pelas radiografias
e aparições mediúnicas,
a alma é também vertebrada.

Eu mesmo já flagrei algumas delas
curvadas como horizontes exaustos
e cumprindo um interminável acordo
consigo mesmas. Para almas assim,
o mundo é um espelho despercebido
sem antes ou depois, um intrincado
enigma, um discurso ventríloquo.

Mas é inútil tentar convencê-las
do seu estado. E é inútil recuperar
para elas seu tempo perdido. Até
que entendam o próprio peso
contra o chão, as almas mantém
a compostura negligente de mal notar
as causas de suas fraturas.

Deitadas, despidas de qualquer
decência, elas sequer
alcançam os joelhos com seus olhos
oblíquos. Faltam-lhes vértebras.
A vida é incontornável
e ao que foi rompido
de pouco valem suturas.

A despeito disso, suas histórias,
longas como estradas incomuns,
entrecruzam-se, perdem-se,
misturam-se, sem se entenderem
jamais, isso porque a um poeta
nunca se contradiz.

Então, como estava dizendo,
a alma também é vertebrada.
E com meus maus argumentos
posso muito bem comprová-lo.

Não vais

Não vais tocar o mundo
nem por um instante,
deve ser a maldição
do mundo.

Se pensas que pode
acordá-lo, detê-lo,
detém a ti mesmo.
Acorda enquanto podes.

Ele, incompreensivelmente,
exige tão pouco de ti.
Basta que acomodes
um pouco a cabeça

em meu ombro.
E, sem ter ideia
de como, ou sem desejar,
vê-me sorrir.