Ao prato

dona senhora
dos lirismos
se puder, me diga

:

qual lirismo pode haver
nesse hábito
de atropelar os atropelados?

desde quando
de ser como por uma bomba
implodido há beleza?

me esclareça
e às minhas
ignorâncias

:

minhas vísceras
bem escuras
que luzes trazem?

teus nomes sem rosto
no futuro inexistente
saberão quem fui?

excelentíssima mestra
das metáforas e sinestesias
me responda

:

quando me serão devolvidos
minutos e minudências
nos quais fui desdobrado?

terá valido a pena
ter sido esburacado,
como por garfos, ao prato?

 

Foto: Chema Madoz
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Carvalho queimando, novembro

Joyce Carol Oates (1938-)
trad. do inglês

Ontem, encontramos o céu
todo repartido em fileiras. Ar,
quase insuficiente.
Vimos o tronco de um velho carvalho, do tamanho

de um homem, queimando sem incendiar
à beira de uma clareira – galhos estilhaçados,
raizes esmagadas e expostas.
Até as formigas negras fugiram

com o cheiro do antigo sofrimento
vindo à público, derradeiro, e as velhas esperanças reveladas –
tudo no passado! – agora sem copa, sem folhas, um toco
derrubado sobre a terra

e a alma apenas choraminga, esfumaça,
e se propaga lentamente, sem graça,
num céu indiferente que ninguém pintará,
ou fotografará, ou verá –
exceto nós: ontem.

Não dê ouvidos aos dragões

Este pequeno livreto é o que se poderia chamar tranquilamente de extravagância. Ou, para ainda melhor defini-lo, talvez fosse melhor dizer “intravagância”.

Se à primeira vista ele se parece a uma investida mística ou esotérica (no sentido ortodoxo do termo), estes são poemas que não resultam de nenhuma experiência iniciática (algo para o que me faltariam condições elementares como “tempo” e “disposição”), mas de investigações que se voltam para dentro, como espécies de uma metacognição introspectiva motivada por uma imagem metafórica que é sempre muito poderosa em qualquer cultura, a figura do “dragão”.

Acontece que a figura do dragão tem tantas representações e significados quanto se possa imaginar e, por isso, é importante dizer de que “dragão” se trata aqui. Ou de que dragões..

De modo bem resumido, falando em biologia, sempre pode-se dizer que os seres humanos, não necessariamente pela presença da consciência, constituem a espécie mais bem desenvolvida entre todas e que, para a natureza ter chegado a este estágio de especialização, foi preciso evoluir a partir de formas muito elementares de vida, provavelmente nascidas em meio aquático a questão de milhões de anos atrás. Embora pareça estranho assumir isso e nosso parentesco imediato seja mais visível em outros antropoides, nossa memória e nossa estrutura cerebral guardam em camadas profundas o mesmo cérebro destas criaturas mais primitivas e das que sucederam-nas através do tempo. É daí que se conhece o “cérebro reptiliano” como aquela porção cerebral responsável pelos instintos mais elementares, como o de sobrevivência, o instinto sexual e a agressividade, predominantes nos répteis.

Esta seria, portanto, uma das principais facetas “desses” dragões: como se fossem representações da força vital em estado bruto disputando com outras, tais como a racionalidade, a fé religiosa e a cultura de um modo geral.

Não menos relevante, outra faceta diz respeito à representação muitas vezes, digamos, demoníaca destes seres fantásticos. Especialmente na iconografia cristã, os dragões surgem quase sempre como emissários do mundo subterrâneo, quando não representam a própria encarnação do mal. Mas é preciso entender que tal narrativa e iconografia dizem respeito à adaptação judaico-cristã de mitos ainda mais antigos e também da necessidade de representar as forças maléficas sob alguma forma.

Por isso, “o mal” costuma aparecer nas escrituras e nas imagens medievais (principalmente a dos santos mártires) representado tanto por bestas em si mesmas como antropomorfizado, configurando a imagética preferencial do paganismo, repleta de monstros e estranhas divindades. Alguns destes dragões estão aqui também, apenas que lutando em prol das forças naturais mais elementares e também de sua sobrevivência.

Em outras culturas, os dragões assumem várias funções bem menos aterrorizantes. Isso nos mitos sumérios, nos do oriente extremo e também na América espanhola. Aqui, estes dragões não aparecem, mas apenas os da tradição ocidental, ainda que no mundo “dragônico” as fronteiras possam ser outras..

Seja para dar margem à erupção dos instintos mais básicos ou por corporificar um arquétipo de energia, os dragões via de regra são seres derrotados. Quer seja pela mão ou espada de um santo, seja pela costumeira prevalência da razão sobre a emoção, a imagem de um dragão enfurnado é bem representativa de um força contida, que se guarda e aniquila, mas também da qual em última análise se é dependente, porque vital.

O dragão não é um agente da civilização, mas da aniquilação sem a qual nada no mundo se renova. Como ocorre nos mitos nórdicos, são seres de um sono profundo e suas guinadas repentinas levam muitas vezes à destruição. Já que não se pode domesticá-los, eventualmente são mortos como uma forma definitiva de libertação, mesmo que se trate de uma libertação da própria liberdade que, muitas vezes, só mesmo eles podem propiciar..

Viver em paz com os dragões ou com o que eles significam nem sempre é das tarefas mais fáceis. Trata-se de monstros tão mais autênticos quanto mais ficcionais. Dispensáveis e detestáveis como qualquer outros monstros, mas irresistíveis como nem um outro pode ser. Talvez a porção reptiliana em cada um permita ver-se refletida nele em sua forma exuberante, pois o desejo do homem é ver-se sempre como alguém capaz de enfrentar o que seja ou a qualquer outro poder.

Sibilinos, sibilantes e ciciantes, os dragões são seres que não existem nem nunca existiram, mas que, a despeito disso, permanecem enfurnados dentro de cada um. Estes poemas têm o objetivo de deixá-los falar um pouco. Apenas não se deve esquecer um antigo conselho germânico que manda não se dar ouvido aos dragões.

Quintana e a produção social da poesia

Um dia perguntaram ao Mário Quintana como ele fazia poesia, se ele trabalhava muito nos versos, essas perguntas que sempre fazem aos poetas. O Quintana bateu com a mão no peito esquerdo (procurando cigarros) e depois fez da mão um copo vazio, voltado para cima. Ele disse que não fazia nem uma coisa nem outra. Que se a poesia é de ser feita, então ela seria uma coisa qualquer, como um tijolo ou uma geladeira. Que se ela é de criar, então seria uma criatura, uma manifestação do divino além das capacidades humanas. E antes de conseguir acender o cigarro e soltar a primeira baforada, o alegretense concluiu que o mais provável mesmo é que a poesia seja de encontrar. E é por isso, disse já no meio da fumaça, que estamos todos perdidos..

05 de setembro, dia da Bandeira

bandeira

05 de setembro não é o dia da bandeira, mas, em 2016,
serão completados 159 anos do falecimento de Augusto Comte,
filósofo francês considerado o “pai” do positivismo,
doutrina política que inspirou os ideais republicanos nacionais
e adorna a bandeira brasileira
(cuja data de comemoração é 19 de novembro)
com o dístico “Ordem e Progresso”
escrito em uma faixa branca e curvada dentro de um círculo azul
que emula o céu e tem o mesmo número de estrelas
que estados federados no Brasil
mais o Distrito Federal no qual se encontra Brasília,
capital do Brasil, quinto maior país do mundo
em área territorial e com população total que ultrapassa já
200.000.000 de pessoas, segundo o IBGE – Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística, criado em 1935, ano em que
Augusto Comte completaria 137 aniversários se estivesse vivo.

No dia 05 de setembro comemora-se o dia da Amazônia,
o dia da Farmácia,
nasceu a beata Teresa de Calcutá
e em 75 dias se comemorará o dia da Bandeira, instituído
em 1889, quando da proclamação da República brasileira. Há
127 anos comemora-se o dia da Bandeira. É menos tempo do
que o perfaz do nascimento de Augusto Comte, “pai” do positivismo.

Dia 05 de setembro comemora-se o dia do irmão, da Amaz0101010101,
do oficial da justiça e para o dia da Bandeira brasi010101010
faltam 75 dias. 75 % 7 = 10,7 semanas para o dia da Bandeira.
Verde, amarela, azul e com o dístico positivista
inspirado na doutrina de Augusto Comte, filósofo que nasceu
em Montpellier há 218 anos, neste 05 de setembro, dia da Ban10101.

No caminho de Sefelá

sefela

Germina – Revista de Arte e Literatura

Therefore I will wail and howl, I will go stripped and naked:
I will make a wailing like the dragons, and mourning as the owls.

Micah 1:8

É quase tudo a mesma coisa, pensando bem.
O anelo inútil dos anjos; a esperança sofrida dos crentes;
o desapego trôpego dos bêbados; o desafogo tácito do pranto;
o desespero vago dos sons. E o imperdível número dos astros
cumprindo sua trajetória, até a hora de dormir das crianças.
É quase tudo o mesmo, visto de longe. E a face serena esculpida
sem mármore, na carne, é ainda mais bela à distância.

No caminho de Sefelá as corujas bicam meus braços.

Depois, quando daquele lado estiver Zaanã e forem outros
os escravos, e os barcos partirem para além, eles levarão
na sola dos pés um pouco dessa areia para moldar
a tristeza dos olhos dessa mãe, e as esperanças famintas minguando
nos farrapos dos seus trajes esgarçados.

Mas, por enquanto, vou a caminho.

Eu tive conforto. Pouco, mas bom. Dividi meu pão e meu vinho e,
na época de fartura, joguei até às raposas uns pedaços. A floresta nós
acabamos com ela revezando as mãos no machado. Nossa caça
era pobre e quando as crianças começaram a morrer
nós partimos. Estas as nossas razões.

Antes de partir, carreguei as pedras para o interior da casa.

Tentaram-me as palavras simpáticas mais que promessas descabidas;
mais a saúde do rebanho que uma possível riqueza; o sono justo
e um lugar definitivo mais que sacolas de sal; a madeira com que
fazer um barco que o mar aberto.

Trêmulo, sei que a febre retorna.

O verão sempre foi insípido e seco. A lua sempre esteve lá em cima
e, como um pêndulo, sempre voltava. Mas eu nunca mais voltarei.
O inverno nunca fora tão frio.

Dei nome aos ladrões e virei eu mesmo o bandido.

Não toco flauta ou tambor. Já não bebo. O ar me alimenta
e o vento quente diz que eu devo flutuar. É como fazem
as aves para sobreviver. Deixei provisões sob a cama.
Tenho um grito que deseja fazer-se ouvir e isso é o que importa,
por enquanto. A miséria é maior do que previra.

Distribuo ordens que ninguém ouve. Pelo menos as corujas se foram.

Gosto de sentir as pedras nos pés. Gosto do perfume do mar
e do incenso que eu nem lembrava mais. Do olor da terra
túrgida pela manhã e ter de subir bem alto para entender
onde estou e que o futuro é.

As aves já não vêm aqui.

Prefiro que não haja espelhos e que não me digam. O meu estado
fui eu mesmo quem causou. Comunico estas dores às cabras e em
suas pegadas. As cãibras? Não contem a ninguém sobre elas, eu disse.
O melhor de falar com os pastores é que eles jamais nos entendem.

Não deixei para trás um camelo, uma tenda, uma sombra.

Sei cantar como as aves e não o faço. Sei cultivar o trigo e não o faço.
Sei aborrecer os demais e não o faço. Sei agradar os ímpios e não o faço.
Sei insultar quem merece e não o faço.

O peso das minhas roupas eu deixarei nesta enseada.

Quero que saibam o que vim fazer aqui. Vim buscar as pedras da
minha lapidação. Vim riscar meu nome no couro. Vim fazer com que
jamais esqueçam que sou imperdoável, como este deserto vem sendo comigo.
E que fui habituado a perecer e não deixo que me toquem ou alcancem.

Quando deveria fugir, esperei.

Os cravos são ásperos e velhos. A tarde é mais longa que o normal.
Seus pulsos são cruéis como espadas, mas não há espadas em Samaria.
O que me dói,então, que o grito natimorto encerra e define? São os
outros? É o mundo? O futuro? A espécie de sinais que me deixaram
eu entendi como quis. Se este caminho não me leva a Sefelá, eu vi tudo o
que precisava. De longe, daqui, de onde posso ver, é igual a de onde eu
vim.

Deixai-me aqui.

Katanas

Germina – Revista de Arte e Literatura

traço partes da palavra
__como em lâminas
____com meu nome todo
______e o sangue púrpura do meu corpo
_________dilata e desvia meu olhar do resto

____________sou tudo eu mesmo
______________até que não vaze de mim
________________ar nenhum e eu encontre
___________________no escuro
_____________________o alvo inteiro

_______________________tenho a velhice nos cabelos
________________________e nos dentes
_________________________eu já não posso
________________________demorar o meu olhar
_______________________inutilmente

_____________________é sempre quando preciso
___________________que me faltam armas —
_________________de sobrevivência
_______________só tenho meia chance
_____________sendo honesto

__________meu passo agudo
_______pode falhar a meio caminho
____a idade é que
__plantou em mim
um conselheiro

Tão simplesmente (a flautista de porcelana)

porcelana

Germina – Revista de Arte e Literatura

1

tire seus dentes de mim
por favor, com delicadeza
até que minha pele esqueça
até que ela amoleça
mais uma vez, entre os dedos
do futuro, onde tudo se oculta

2

bom mesmo é quebrar
ou partir ao meio os lugares
remover a casca das palavras
com unhas indelicadas
e, à inacessível invocação
do silêncio, blasfemar

3

o domingo dentro de cada dia
se espreguiça latejando
na mesma punção que ele causa
e balança como os cabelos
de uma boneca esquecida
no vento

4

seus olhos parados
o que veem ou sabem?
não têm desastres
ou recomeços por dentro
só um inútil esquecer-se
no corpo imenso

5

ela leva uma flauta
que não sabe soprar
e pede ao vento que toque
mas ele recusa
e olhando em seus olhos
a refuta

6

a visão enorme dos dentes
interrompe a passagem do tempo
e numa corte de insetos
um vagalume
a levará sem que ela queira
ao caminho do azar e da sorte

7

(a flauta em sua mão
objeta
ela quer apenas
ser aquela coisa
que ela não é
inaudita)

8

o que eu faço de melhor
são desenhos nas nuvens
que tapam o sol inclemente
só eles não chovem
nem podem ser vistos
tão simplesmente