Última ode

num ataúde
guardei a última ode
aguentei-a o quanto pude
matei-a sem piedade
agora prefiro a quietude

eu me tornei inclemente
sem nem notar como foi
eu sempre fora contente
a ode sempre imponente
fazia notar como dói

um grito lançado ao nada
a ode é de um boi à boiada
um berro sem nem um sentido
como se de um imenso animal
restasse somente um balido

matando-a acabei por completo
com o que ela me matava
o exagero insolúvel do “não”
sem música como o que é ouvido
do cão pela cachorrada

melhor que esteja bem morta
e que nunca mais a escute
latejar no que é dito
ser a única voz do coração
– mas que nada!

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Noé

os primeiros iguais aos últimos
na sombra combinada com o sol

um pé de maçã e uma alface
dafasando a mesma terra

a minha sede e a sua água
é o que nos dará uma trégua

se a escuridão das cavernas à noite
é bem mais amena

então me apague essa luz excessiva
dos olhos, eu quero dormir

e deixe que os lave com o que sei
e é imenso

com a recusa esquecida na memória
virão até a mim

os camelos e eu irei recebê-los
e todos os outros animais famintos

os sensatos cavalos e as tartarugas
há muito vêm preparando-se

de modo intenso (não viste?)
para a nossa fuga

Lucio Carvalho (1971—)

Poemas de “Falso Alarde” na Escamandro. 18/09/2018

escamandro

Lucio Carvalho nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1971.  Tradutor bissexto, publicou a coletânea de contos A aposta, o livro de artigos e ensaios Inclusão em pauta e o livro de poemas Falso alarde. Há uma década, é redator e co-editor da revista Inclusive – Inclusão e Cidadania. Escreve ficção, poesia, crítica e artigos jornalísticos para diversas publicações.

* * *

Antílope

andei muito por aqui
mas hoje esqueço
se há marcas para encontrar
como em João e Maria
ou se houve, de repente,
nova devastação
de tanto em tanto
os cometas invadem o espaço
e suas caudas de luz e detrito
espalham terror e espanto
mas elas não fazem por si sós
dependem dos outros portanto
com meus cabelos nas árvores é diferente
são marcas de mim mesmo
e o chão fez brotar
de uma forma indecente
tudo o que derreti
no seu…

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A dríade

Quando isso,
se ontem mesmo
na relva erguera-se
uma inconcebível
forma de vida,
a dríade?

Quando foi,
se tenho certeza
de que amarrei
bem nos seus pulsos
as minhas
veias?

Quando, afinal,
que ela morreu (morremos),
se era ela
porque era ela
e (eu)
porque era eu?

Quando ela
abandonou o poder
que tinha sobre mim,
se havia lhe dado tudo
– e tudo já
era seu?

Quando, por
não poder,
podei a mão
que a suportava,
sem perceber
que assim eu a matava?

E, sem evidências,
deixei de ver
que a floresta
esgotava-se em
nossa ausência,
abandonada?

E todas as formas
vivas do amor
do qual a extraira
se aborreceram
de viver. A dríade morrera
e eu também: mais nada.

Meia-pataca

Sob a sombra
dos galhos secos
de um ombu,

Santiago
olhava nas mãos
o bilhete.

Ao seu lado,
o cavalo arfava
com sede

e pela boca
borbulhava
espessamente.

Sua missão
era nunca
esquecer

o que viera
fazer ali,
mas esquecera.

As letras
nada
lhe diziam

e, em suas costas,
inclemente,
o sol ardia.

Pobre Santiago
que aceitara
a incumbência

de agir
para os outros
sem entender.

Do laço
puxou
e o pendurou

na árvore.
Pensava
mais com os olhos

do que com a mente
entre a distância
de fugir,

a sede do animal
e a vontade
de morrer.

Perto dali
(se bem lembrava) havia
um riacho seco.

Era com o que
o cavalo
teria de se haver.

Livre da carga,
ele o esperava
junto à corda toda esticada.

Santiago,
índio vago
a quem

meia-pataca
contrata
el empleo

de vida
ou de morte
e cuja memória

depois
de acabado
seu último serviço

será esquecida
como se tratasse
de ninguém.

 

Naturezas

Nuvens sempre há tantas
quanto decisões precipitando-se.

Mas tantas pedras, francamente,
são impensadas.

No fundo do mar
há uma montanha delas
acotovelando-se.

Tudo ou nada lhes aconteça,
seguirão para sempre
acotoveladas.

Por certo artifício da natureza,
nem nunca elas morrerão.

Por causa de uma insabida ciência,
terão vivido em perpétuo repouso.

Mas as nuvens,
cuja vida inteira é só um momento,
resistem o quanto podem
sem discernimento.

Todas as suas decisões são precipitadas.
Tudo o que têm a oferecer: a precipitação.

Desocupado

quanto podem sonhar
os sonhos desocupados
eu não sei

e o que mostrariam as fotografias
ainda por fazer
não também

eu não sei
quanto posso supor
e o que será meu

ou se tudo o mais
que havia
está perdido

não saber
é um alívio
que me daria

se a noite densa
não me aprumasse
em antigos ontens

nós sabemos (não sabemos?)
com desinteressado
desdém

que sempre há fantasmas
rondando
o não havido

Rompimento

Dizer a ninguém essas palavras
não é o mesmo que não dizê-las.
Estavam cobertas de pó.
Eu vim ventilá-las ao céu da manhã.

Livres, vejo que
nunca me pertenceram, e que
teriam se perdido de mim
caso pudesse perdê-las.

Estavam como se numa barreira,
presas por uma pedra só,
mas respiram melhor agora
do que aqui, amanhã.

Teria as sufocado, gritado
ou, de outro modo,
duvido que me salvassem de todo.
Seu limite é duro, preciso,

e servem para aquele momento,
mais nada. Ainda que
não desejasse, mais tarde
estariam todas erradas.