Anti-Heráclito

Os rios molham é pés diferentes.
Os que descansam (meramente) e os que se afundam.

Nesta água toda, pouco pode ser buscado:
peixes, seixos, limo e outras criaturas.

A terra ao fundo compacta tudo, qual sepultura.
O moinho, como um relógio de outro tempo,

olha para mim enquanto aderno. O rio da infância
ainda vive, mas, como eu, menos profundo.

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De qualquer jeito

A que horas foi mesmo dormir
o cão que adoeceu agora?

E quais uvas foram bicadas
quando ninguém mais as cuidava?

A cratera que havia aqui,
quem a cobriu?

Qual som parece o melhor
para tempestades?

E o caminho daqui até aí,
como encurtá-lo?

O sol desde marte, mantém-se
no mesmo lugar?

Travo ao dizer porque prefiro
ou devo?

Posso dizer que não gosto
do espetáculo?

E que aprecio mais as nuvens
desaparecidas?

Retiro da lixeira, ou deixo,
os velhos poemas?

Parco, o porco que perca
o que ele conspurca?

Eu, do que duvido, mantenho
em silêncio (e se me parte o peito?)?

Ainda que seja preciso acabar com isso
de qualquer jeito?

 

Lucio Carvalho (1971—)

Poemas de “Falso Alarde” na Escamandro. 18/09/2018

escamandro

Lucio Carvalho nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1971.  Tradutor bissexto, publicou a coletânea de contos A aposta, o livro de artigos e ensaios Inclusão em pauta e o livro de poemas Falso alarde. Há uma década, é redator e co-editor da revista Inclusive – Inclusão e Cidadania. Escreve ficção, poesia, crítica e artigos jornalísticos para diversas publicações.

* * *

Antílope

andei muito por aqui
mas hoje esqueço
se há marcas para encontrar
como em João e Maria
ou se houve, de repente,
nova devastação
de tanto em tanto
os cometas invadem o espaço
e suas caudas de luz e detrito
espalham terror e espanto
mas elas não fazem por si sós
dependem dos outros portanto
com meus cabelos nas árvores é diferente
são marcas de mim mesmo
e o chão fez brotar
de uma forma indecente
tudo o que derreti
no seu…

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Defeateds

my dear B, when you died
I did not cry so much, but you don’t need
forgive me, I did
and still thank you
the few years that divided
all that misery
and our great and unforgettable friendship

I remember when you were sad
by continuous returns
to never realized hopes
“Life is like that,” I told you
without having any idea of what life was
and what happened to you

and when you fell in love
and that was inaccessible to you tell her or show it
because he never listen to you
and you taught me
to trust more in poetry than in love

today I’ll take a few heavy beers
in your memory

You knows
I have only good memories of us
and I want to thank you for having disappointed me early
about the good men and men of faith
and about yourself as well
this was your greatest proof of friendship

I remember we were looking together in books
which is not met in the streets and bars
and people had helmeted face
and dirty jokes and closed minds
like an crazy army

when things started to not give too sure
in your life
I did not know your address and your phone
or and even if you still remember me fondly
or contempt for it (I think I don’t deserve)

today I will drink white wine that I never could bear
in our memory

I need to forgive you by me
my descent and my destiny
you please to free himself from me
now that you cannot
I know that in one way or another I marked your life

the way the horses marks the abundant pasture
whales marks the forgotten water
the birds in the empty wind
and life marks the universe and history
(vainly)

because it was you that was my best memories
and no one else, when I was pure, but it was not sweet
when not yet grown accustomed to lie and to lie
when I sought to know without any suspicion
when I would rather do nothing
to live the lie of others
and you helped me understand that we were always alone
despite the love and hate that they keep for us

my dear B, when you died
I was glad to hear that you did not suffer
more than myself to know that you died

today I’ll drink the same cheap cognac with which we faced the cold
in my memory

[uma versão em português deste poema está publicado em Falso Alarde]

Amazona ferida

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Com seu rosto sereno e inclinado que nunca
denunciaria a dor, posso procurá-la outra vez.

Você sempre a amou – a primeira obra de arte
Que conheceu pelo nome. Toda a semana

Você me trouxe até ela. Desatenta pelo
Vislumbre do mármore e de seu porte

Eu não sabia que você estava mostrando a quem
Eu precisava tornar-me para protegê-la

De tudo o que não você não entendia –
A mulher poderosa surgindo acima de tudo,

Tendo de aprender a sentir cada açoite, cada corte
E continuar em pé, com olhos vazios,

Registrando tudo. Você sabia que ela era
A mãe que você precisava, que desnudaria

Seu peito e sangraria sem demonstrar
Tristeza nem arrependimento. Eu gostaria de ter

Aprendido cedo suas lições e que você
Não me tivesse visto derramar-me em lágrimas. Eu

Deveria pairar sobre você como uma rocha,
Apoiando-me em uma coluna, com o braço

Sobre a cabeça e a ferida estancada. Você me quer assim,
O terror branco ocultando meus olhos vazios,

O freio do animal amarrando meu traje rasgado –
Nua, para que visse minhas costas curvas e vazias o bastante

Para suportar o peso de todo o seu temor. Eu finjo
Ser ela, em pé sobre as pernas fortes que se recusam

A sustentar-me. Mas ela não pode amá-la. Se eu tivesse
Toda essa força, você estaria perdida. Ela não permitiria

Que você enterrasse a cabeça sob o braço amputado,
Em seu peito frio, e cantasse sua canção indistinguível.

Minha filha

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Se você a visse, pensaria em como ela é linda.
Estranhos me param na rua para dizê-lo.

Se falasse com ela, veria que essa beleza
Não significa nada. Sua visão se deslocaria para os pombos

Na calçada. Seu contato com os olhos se tornaria
tão precário quanto o dela e escapariam lentamente

Com diferentes graus de graça. Eu nunca sei
O quanto dizer para explicar o desgosto.

Às vezes, lhes digo. Mais frequentemente fico em silêncio.
Com o sorriso dela cauterizando-me, firmo

Sua mão por todo o caminho até em casa, embalando-nos.
As mãos da florista entregam-lhe uma rosa já morta

Que ela guarda suavemente, sem rasgar as pétalas, como faz
Com as tulipas que olham para nós com sua expressão insípida,

Fingindo que podem aguentar o meu sofrimento
Em seus copos alongados, porque eu os conhecia

Antes de conhecer a dor. Eles não entendem que
Estão arruinados para mim agora. Eu plantei quinhentos

Bulbos que, como ela, germinaram dentro de mim, seu cérebro já
Formado por fios de nosso dna danificado

Ou qualquer outra coisa que os médicos não entendem.
Após o banho, ela enrola-se em mim para eu niná-la –

A única vez durante o dia que seu pequeno corpo permanece quieto.
Então eu canto, respiro nos cabelos lavados e penso

Nos esqueletos no Musée de Préhistoire
Em Les Eyzies. Os ossos da mãe e do bebê

Deitados em uma caixa de vidro nessa mesma posição
em que estamos. Eles foram enterrados de maneira incomum:

A criança enrolada na curva do braço da mãe.
Os arqueólogos estão intrigados com a posição.

Isso não me surpreende de todo. Seria fácil
Morrer dessa maneira, cada uma de nós no último suspiro,

Com rimas infantis em nossos lábios abertos
E a promessa de um sono tranquilo.

Gostaria que o meu amor morresse

Jennifer Franklin
trad. do inglês

___________a partir de Beckett

Gostaria que o meu amor morresse
Ou pelo menos que eu não a amasse

Tanto. Se eu pudesse inclinar meu coração
Para o inverno, eu não precisaria da rotação

da terra para isso. Se você não sorrisse
Ao dormir, ou não tocasse meu rosto

Com ternura, eu poderia ter ido embora
Desde quando você partiu através

Das portas do meu coração camuflado
Sem olhar para trás. Eu gostaria de não amá-la

Tanto. Gostaria que o meu amor morresse
E então eu não teria que matar tudo o que há

Em torno de mim. Então eu não teria de ser
A caçadora que me tornei. Mas você

Não vai me liberar do seu abraço poderoso.
Você me faz permanecer a seu lado com o seu

Braço delicado em meu pescoço. Ele não parece
Forte nem para pegar um animalzinho, mas ele é.

Carvalho queimando, novembro

Joyce Carol Oates (1938-)
trad. do inglês

Ontem, encontramos o céu
todo repartido em fileiras. Ar,
quase insuficiente.
Vimos o tronco de um velho carvalho, do tamanho

de um homem, queimando sem incendiar
à beira de uma clareira – galhos estilhaçados,
raizes esmagadas e expostas.
Até as formigas negras fugiram

com o cheiro do antigo sofrimento
vindo à público, derradeiro, e as velhas esperanças reveladas –
tudo no passado! – agora sem copa, sem folhas, um toco
derrubado sobre a terra

e a alma apenas choraminga, esfumaça,
e se propaga lentamente, sem graça,
num céu indiferente que ninguém pintará,
ou fotografará, ou verá –
exceto nós: ontem.

Não dê ouvidos aos dragões

Este pequeno livreto é o que se poderia chamar tranquilamente de extravagância. Ou, para ainda melhor defini-lo, talvez fosse melhor dizer “intravagância”.

Se à primeira vista ele se parece a uma investida mística ou esotérica (no sentido ortodoxo do termo), estes são poemas que não resultam de nenhuma experiência iniciática (algo para o que me faltariam condições elementares como “tempo” e “disposição”), mas de investigações que se voltam para dentro, como espécies de uma metacognição introspectiva motivada por uma imagem metafórica que é sempre muito poderosa em qualquer cultura, a figura do “dragão”.

Acontece que a figura do dragão tem tantas representações e significados quanto se possa imaginar e, por isso, é importante dizer de que “dragão” se trata aqui. Ou de que dragões..

De modo bem resumido, falando em biologia, sempre pode-se dizer que os seres humanos, não necessariamente pela presença da consciência, constituem a espécie mais bem desenvolvida entre todas e que, para a natureza ter chegado a este estágio de especialização, foi preciso evoluir a partir de formas muito elementares de vida, provavelmente nascidas em meio aquático a questão de milhões de anos atrás. Embora pareça estranho assumir isso e nosso parentesco imediato seja mais visível em outros antropoides, nossa memória e nossa estrutura cerebral guardam em camadas profundas o mesmo cérebro destas criaturas mais primitivas e das que sucederam-nas através do tempo. É daí que se conhece o “cérebro reptiliano” como aquela porção cerebral responsável pelos instintos mais elementares, como o de sobrevivência, o instinto sexual e a agressividade, predominantes nos répteis.

Esta seria, portanto, uma das principais facetas “desses” dragões: como se fossem representações da força vital em estado bruto disputando com outras, tais como a racionalidade, a fé religiosa e a cultura de um modo geral.

Não menos relevante, outra faceta diz respeito à representação muitas vezes, digamos, demoníaca destes seres fantásticos. Especialmente na iconografia cristã, os dragões surgem quase sempre como emissários do mundo subterrâneo, quando não representam a própria encarnação do mal. Mas é preciso entender que tal narrativa e iconografia dizem respeito à adaptação judaico-cristã de mitos ainda mais antigos e também da necessidade de representar as forças maléficas sob alguma forma.

Por isso, “o mal” costuma aparecer nas escrituras e nas imagens medievais (principalmente a dos santos mártires) representado tanto por bestas em si mesmas como antropomorfizado, configurando a imagética preferencial do paganismo, repleta de monstros e estranhas divindades. Alguns destes dragões estão aqui também, apenas que lutando em prol das forças naturais mais elementares e também de sua sobrevivência.

Em outras culturas, os dragões assumem várias funções bem menos aterrorizantes. Isso nos mitos sumérios, nos do oriente extremo e também na América espanhola. Aqui, estes dragões não aparecem, mas apenas os da tradição ocidental, ainda que no mundo “dragônico” as fronteiras possam ser outras..

Seja para dar margem à erupção dos instintos mais básicos ou por corporificar um arquétipo de energia, os dragões geralmente são seres derrotados. Quer seja pela mão ou espada de um santo, seja pela costumeira prevalência da razão sobre a emoção, a imagem de um dragão enfurnado é bem representativa de um força contida, que se guarda e mantém, mas também da qual em última análise se é dependente, porque vital.

O dragão não é um agente da civilização, mas da aniquilação sem a qual nada no mundo se renova. Como ocorre nos mitos nórdicos, são seres de um sono profundo e suas guinadas repentinas levam muitas vezes à destruição. Já que não se pode domesticá-los, eventualmente são mortos como uma forma definitiva de libertação, mesmo que se trate de uma libertação da própria liberdade; o que, muitas vezes, só mesmo eles podem propiciar..

Viver em paz com os dragões ou com o que eles significam nem sempre é das tarefas mais fáceis. Trata-se de monstros tão mais autênticos quanto mais ficcionais. Dispensáveis e detestáveis como quaisquer outros monstros, porém irresistíveis como nem um outro consegue ser. Talvez a porção reptiliana em cada um permita ver-se refletida nele e em sua forma exuberante, pois o desejo do homem é ver-se sempre como alguém capaz de enfrentar o que seja ou a qualquer outro poder.

Sibilinos, sibilantes e ciciantes, os dragões são seres que não existem nem nunca existiram, mas que, a despeito disso, permanecem enfurnados dentro de cada um. Estes poemas têm o objetivo de deixá-los falar um pouco. Apenas não se deve esquecer um antigo conselho germânico que manda não se dar ouvido aos dragões.

Quintana e a produção social da poesia

Um dia perguntaram ao Mário Quintana como ele fazia poesia, se ele trabalhava muito nos versos, essas perguntas que sempre fazem aos poetas. O Quintana bateu com a mão no peito esquerdo (procurando cigarros) e depois fez da mão um copo vazio, voltado para cima. Ele disse que não fazia nem uma coisa nem outra. Que se a poesia é de ser feita, então ela seria uma coisa qualquer, como um tijolo ou uma geladeira. Que se ela é de criar, então seria uma criatura, uma manifestação do divino além das capacidades humanas. E antes de conseguir acender o cigarro e soltar a primeira baforada, o alegretense concluiu que o mais provável mesmo é que a poesia seja de encontrar. E é por isso, disse já no meio da fumaça, que estamos todos perdidos..