Tempo perdido

Hoje não há lembranças,
mas, ao contrário,
lembro tanto.. Lembro de tudo..

E tudo que é bom
adormece em lacunas
jamais preenchidas.

É como se o tempo
desocupasse aquilo tudo
para sempre (como ao sagrado).

Se não há lembranças,
é como se não houvesse vida.
Não houvesse antes. Não houvesse ontem.

Além do mais, quem garante
que estamos datando
realmente o acontecido?

Além do mais, a quem importa
se num lapso de horas –
ou minutos mal contados –

a beira de um mundo desfaz-se
noutra, e nos ocupamos
com o inconcebível?

Que perda de tempo
é calcular prazos para o passado
(não adianta, ele não entende)..

Por que razão (maldito arrependimento)
vamos nos incomodar
com o que não aconteceu?

Pois a questão que importa
não são as lembranças
com hora marcada. Não..

Por outro lado, importa mesmo
é a qualidade do tempo perdido
em que sou teu.

Canto fúnebre sem música

Edna St. Vincent Millay (1892-1950)
trad. do inglês

Não aceito que vão abaixo, à terra dura, os corações afáveis.
Eu sei que é assim, tem sido assim, desde sempre:
Vão-se de uma vez só sábios e amáveis. Coroados
Com louros e lírios, partem; mas não me peçam que aceite.

Amantes e pensadores, todos ao fundo da terra!
Unam-se ao indistinto, à poeira, ao pó.
Um trecho ou dois é o que resta
Do que sentiam, mas está perdido o melhor.

Os chistes, o olhar honesto, o riso, o amor,
Eles se foram. Para o alimento das rosas curvilíneas. Elegantes
São as flores. E perfumadas, eu sei. Mas não aprovo.
Mais preciosa era a luz em seus olhos do que todas as rosas do mundo.

E descem, descem, descem à escuridão da campa
E delicadamente vão. O belo, o bravo, os bons quase perfeitos.
Tranquilamente os engraçados e valorosos a morte encampa.
Eu sei. Mas eu não aprovo. Eu não aceito.

Ao meio-dia

Com o coração num embrulho
e as pernas trêmulas,
vejo vazia e imensa
uma estrada pela frente.

A solidão nessa hora
não parece boa. Há menos
o que fazer de mim mesmo
a cada dia.

Num atrito entre as malas,
veja, não caibo mais.
Onde fui parar?
Eu não sei.. Mas, além disso,

o bom mesmo é não ir
a lugar algum.
Era ter em você
o que respirar.

Cápsula desacoplada
de tudo (temos um
problema) a que ninguém
pode acoplar…

Ao meio-dia, a noite
não assusta tanto
e o tempo… Ele só se move
mesmo por um defeito.

Viver é uma estupidez
a exigir menos
coragem
que covardia.

Olhe (não muito)
o meu beijo de adeus
para aguentar ver
cacos do meu coração (juntos dos seus)

Potinhos

quando o silêncio me interpela
é igual a uma rachadura na voz

isso me faz em caquinhos –
caso você não possa ver –

e me faz em pedacinhos
como se me fosse dissolver

(uma palavra ao fim do dia
basta para uma noite macia?)

quando o silêncio me diz melhor
é seu discurso que me remodela

como, depois disso tudo,
eu pensaria em resistir?

tudo o que penso foi refletido
por eras a fio, de espera –

quebrar-me, certo, mas para
voltar e caber em seus potinhos

Forasteiro

Já deste tudo
e resta o sangue
ventilando as memórias
que se apagam.

Deste tudo
e não resta nada
em minhas mãos
que te alcance.

Eu era teu
e, igual a uma sombra,
repetia teu carinho,
me escondia nele.

Em meus olhos,
nunca duraram as lágrimas.
Tu estavas sempre
ao nosso tempo.

Quantos invernos
me consituiram teus sonhos?
Mas, por tua causa, nunca o frio
me atingiu.

Numa árvore qualquer
da rua, esses dias escorei
o corpo para ouvir o que
ela me poderia dizer.

Sou árvore só, não sobrevivo
nem na memória das aves.
Deixo aqui mesmo
a minha sina.

Mas tu, não… Por ti plantei
o nome bem no meio
da garganta para
me atravessares a voz.

Que eu não te possa
tapar os pés… Que eu não
atenda o teu chamado
feito à distância…

O tempo, cruel
mensageiro da solidão,
nunca há de apagar
teu nome em mim.

O teu, que é o primeiro
e último nome, ficará comigo
e evitará que alguma vez
me torne um forasteiro.

Porto Alegre, 6

Março é quando te crudelizas mais.
Desde que te conheço é assim.
O calor te excede de súbito,
ficas irrespirável.

E desértica, em ruas sem vida,
escorregas sob os pés
e te tornas mais fantasiosa.
Ninguém nunca te disse?

É o que me diz tua bocarra insone,
variando a pele camaleônica,
os olhos esbugalhados
repetindo anúncios que não cumprirás.

Nós dois sabemos que em algum momento
resolveste que era melhor mentir
a aceitar um destino modesto
como o dos teus residentes.

Na minha rua, uma senhora muito
velha está sofrendo há anos
a tua falta de bom senso
e, até agora, nada de ti. Enlouqueceste?

E se me dizes que não tens nada com isso
(como assim, nada com isso?),
eu estranho é o mau jeito
com que acordaste, em 1772.

É o porto para lugar nenhum
que te embaraça os sentidos? É
que o tempo te cerca cada vez mais
e não encontras saída?

Eu te digo, então, que não morreste
e para o futuro te empresto
meses da minha vida
sem esperar que sobrevivas.

Março é do pior calor que há.
É como um suor colado às roupas
e um vento inoportuno, do sul,
viesse te gelar os ossos por dentro.

Teus horizontes,
fímbria da noite e do dia,
sofrem de resgatar a ti mesma
e nossa bestificação.

Depois da chuva, encharcada
e triste como os becos mais alagados,
encontraremos as razões pelas quais
nunca escapamos completamente do teu amor.

E então colocaremos ao sol
o que resto da alegria em teu nome
ou porque enlouquecemos também
ou para que já não te salves de nós.

Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Eu já me perdi de mim mesmo.

Às vezes, tomo as lembranças entre as mãos, com carinho, e busco a infância distante, onde ficaram minha fé e minha força. Eu as vejo ainda lá, detrás de uma intransponível transparência no tempo mostrando com desprezo minha impropriedade de agora e mais admiro a chama tremeluzente de sua firmeza.

Perdi-me de mim mesmo quando mais fundo me busquei, como se a força de viver houvesse morrido.

Levo meus braços a frente e o que há é um sem fim. Como alcançar?

Espero.

Uma voz maior me dirá: Vem!

E, a partir daí, caminharei com tudo revelado, de joelhos, num campo de feridas, carregando na garganta o travo da vitória.

O fim dessa dor será antecipado pela foice dos meus passos, como uma saudação do trigo ante a segadora.

Perdi-me de mim mesmo e espero.

Senhor, eu tenho os braços estendidos…

O homem sofre a sua vergonha na minha carne.

As palavras hostis e as ofensas me parecem a verdadeira fortuna.

A culpa de cada um é de nós todos. Por que não sofrê-la? Preciso aprender:
a resistência à dor que tuas mãos me impõem;
serenidade intransponível ante a quem me ultraja.

E, melhor que julgar aos demais, limpar-me das próprias imundícies.

Se tenho ao alto as mãos, quanto mais baixo meu gesto aconteça, que ele então seja esquecido.

[Fé. In: Poemas místicos. 200 exemplares publicados por Adelina del Carril de Guiraldes. Buenos Aires, 1928.]