Montante

a vida são coisas perdidas
são louças no momento de partir
e os cacos quando se perdem de nossa menor menção
são lugares pelos quais sem dúvida passamos
e não nos ocorre que possamos lembrá-los

são inúteis regressos a uma vida que não merecemos
e os passos que demos de onde nossa esperança
se reverte em desistência e remorso

a vida são ainda as coisas por perder
fragmentos do tempo que almejamos e vemos desgastados
sem que nos tivéssemos prometido mesmo alcançá-los
porque, ao fim, tudo se debate dentro de sua própria força
e nosso cansaço não podemos remetê-lo
ao montante do tempo só por estarmos convencidos de que lutamos

tais coisas são apenas desprendimentos da vida cotidiana
e, certo, sempre há o momento em que alguém nos chama:
– Aqui, ó Fulano! –
e, ao contrário de toda a desesperança,
essa é uma certeza que ainda requisita nossa comoção
mas sempre parece que alguém nos chama

(1990)

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Amazona ferida

Jennifer Franklin
trad. do inglês

Com seu rosto sereno e inclinado que não
denunciará a dor, posso procurá-la outra vez.

Você sempre a amou – a primeira obra de arte
Que você conheceu pelo nome. Toda a semana

Você me trouxe até ela. Desatenta pelo
Vislumbre do mármore e de seu tamanho

Eu não sabia que você estava mostrando a quem
Eu precisava tornar-me para protegê-la

De tudo o que não você não entendia –
A mulher poderosa surgindo acima de tudo,

Tendo de aprender a sentir cada açoite, cada corte
E continuar em pé, com olhos vazios,

Registrando tudo. Você sabia que ela era
A mãe que você precisava, que desnudaria

Seu peito para você e sangraria sem demonstrar
Tristeza nem arrependimento. Eu só espero

Ter aprendido suas lições o quanto antes e você
Não tenha me visto derramar-me em lágrimas. Eu

Deveria pairar sobre você como uma rocha,
Apoiando-me em uma coluna, com o braço

Sobre a cabeça e a ferida estancada. Você
Me quer assim, o terror branco ocultando meus olhos

Vazios, o freio do animal amarrando meu traje rasgado –
Nua, para que visse o côncavo do meu vazio o bastante

Para suportar o peso de todo o seu temor. Eu finjo
Ser ela, em pé sobre as pernas fortes que se recusam

A sustentar-me. Ela não pode amá-la. Se eu tivesse
Toda essa força, você estaria perdida. Ela não iria

Permitir que você enterrasse a cabeça sob o braço amputado,
Em seu peito frio, e cantasse sua canção indistinguível.

O corpo de minha filha

Jennifer Franklin
trad. do inglês | http://bostonreview.net/franklin-my-daughters-body

Se você a visse, pensaria em como ela é linda.
Estranhos me param na rua para dizê-lo.

Se falasse com ela, veria que essa beleza
Não significa nada. Sua visão se desloca para os pombos

Na calçada. Seu contato com os olhos torna-se
tão precário quanto o dela e escapam lentamente

Com diferentes graus de graça. Eu nunca sei
O quanto dizer para explicar o desgosto.

Às vezes, lhes digo. Mais frequentemente fico
Em silêncio. Com o sorriso dela me cauterizando, firmo

Sua mão por todo o caminho até em casa, embalando-nos.
As mãos da florista entregam-lhe uma rosa já morta que ela guarda

Suavemente, sem rasgar as pétalas, como ela faz
Com as tulipas que olham para nós com sua expressão insípida,

Fingindo que podem aguentar o meu sofrimento
Em seus copos alongados, porque eu os conhecia

Antes de conhecer a dor. Eles não entendem que
Estão arruinados para mim agora. Eu plantei quinhentos

Bulbos que, como ela, germinaram dentro de mim, seu cérebro já
Formado por fios de nosso dna danificado

Ou qualquer outra coisa que os médicos não entendem.
Após o banho, ela se enrola em mim para eu niná-la –

A única vez durante o dia que seu pequeno corpo permanece quieto.
Então eu canto, respiro nos cabelos lavados e penso

Nos esqueletos no Musée de Préhistoire
Em Les Eyzies. Os ossos da mãe e do bebê

Deitados em uma caixa de vidro na mesma posição em que estamos
Agora. Eles foram enterrados em uma posição incomum:

A criança enrolada na curva do braço da mãe.
Os arqueólogos estão intrigados com a posição.

Isso não me surpreende de todo. Seria fácil
Morrer dessa maneira, cada uma de nós em seu último suspiro

Com rimas infantis em nossos lábios abertos
E a promessa de um sono tranquilo.

Gostaria que o meu amor morresse

Jennifer Franklin
trad. do inglês

___________a partir de Beckett

Gostaria que o meu amor morresse
Ou pelo menos que eu não te amasse

Tanto. Se eu pudesse levar meu coração
Até ao inverno, eu não poderia fazer isso

Por mais ninguém. Se você não sorrisse
Ao dormir, ou não tocasse meu rosto

Com ternura, eu poderia ter ido embora
Desde quando você partiu através

Das portas do meu coração camuflado
Sem olhar para trás. Eu gostaria de não amá-la

Tanto. Gostaria que o meu amor morresse
Então eu não teria que matar tudo o que há

Em torno de mim. Então eu não teria de ser
A caçadora que me tornei. Mas você

Não vai me liberar do seu abraço poderoso.
Você me faz permanecer a seu lado com o seu

Braço delicado em meu pescoço. Ele não parece
Forte nem para pegar um animal pequeno, mas ele é.

Canino

nunca mais seu cão apareceu aqui
ele que era um bom assassino de minutos vãos
e com quem eu gostava tanto de passear à toa
melhor do que qualquer outra diversão

onde ele foi há ossos maiores (eu imagino)
e uma cama fofa tão diferente do meu desabrigo –
merece mesmo flocos de nuvens, não espinhos,
este seu cão que nunca mais vi

às vezes eu o vejo numa estrada, resoluto
e andando sempre em frente – sem ladrar –
chego a tocar sua cabeça e então (do jeito antigo)
ele vem me lamber os pés, me adorar

canino é o que era este seu cão, nunca falhava
em me ouvir e se o incomodava
com incertezas e imprecações sombrias
ele me abria o peito e lá dizia: “a vida é boa,

slow down, olhe ao redor”, mas há tempos
que faço isso: olho ao redor, procuro noite e dia,
mas desde que ele nunca mais voltou aqui
eu o alucino

Desleixo

desde o começo
caminho nos rastros da areia –
sei bem que não há um só lugar
aonde ir (apenas)

mas não gosto de que desapareçam
o tempo que gastei
detrás de mim
e o que não fiz

eu tomarei daquilo que deixo
e o que acabava deixará de acabar –
o futuro nunca foi algo
de que quisesse me arrepender

depois de amanhã
e dos meus dias ruins
me apartarei dali em diante
(tal meu desleixo)

Porto Alegre, 4

quem me contou sobre ti foram os pés
congelados de frio de alguém que vi descendo através
do Menino Deus, dia desses, rumo ao Cristal

ele não tinha sapatos, mas tinha muletas e um cão alquebrado
que farejava no vento o inverno e se encolhia, tiritando e
latindo entre a buzina dos carros, todo assustado

ele não temia a ti e todo valente encarou
os meus olhos como a um parente, tu não os viste
porque já não olhas direito a mais nada

pensas em ti mesma como um museu de museus fechados
procura entre os passantes quem te visite
e depois lhe fecha as portas na cara

o tempo vem passando por sobre ti e mim
sem indulgência ou rancor
onde fica a cidade? eu me pergunto – e é sempre para lá de uma ponte

o interior te espreme e oprime como se tua função
fosse exortá-lo ao teu abraço indolente
e dissesses-lhe para que da mesma forma te evitasse

por aqui há mortes à toa e a toda hora
como nas piores metrópoles do mundo
mas tu te candidatas (ensandecida) aos mais belos poentes

o mais triste em ti sempre pensei que fosse teu nome
tão impeditivo da melancolia
tão necessária à autocrítica

ai de ti que não podes sequer lacrimejar
senão te vão juntar as lágrimas
poetas ruins que nem te amam

eu que sempre vivi num bairro apenas
te vivo como aldeia
e isso me reforça o teu assombro

e cada vez que desço ao térreo para te receber
tu não te entregas
tomas do troco e desapareces a seguir

tu nunca madrugas, amanheces
tu não descansas, adormeces
tu não sorris sempre, sempre perfeita –

eu bem sei que te ampararia
mas não tenho com o que
e devo poupar-te desse embaraço

às vezes olho para baixo de algum prédio alto
e então entendo onde escondes tua beleza:
nas coisas que não te fizemos

mas foste roubada e rapinada
como a uma vizinha velha
que os ladrões não perdoam

e foste mal vestida por gosto, parece,
a uma festa
em teu próprio louvor

por isso pareces cada vez mais a este velho e seu cão
e enxotá-los é exigência de uma vaidade inútil
que te compara a lugares que não te merecem

(mas eu não te comparo a ninguém)
meu ônibus já vem chegando
e vou para ainda mais dentro de ti

é onde teu verdadeiro coração
mantém a vingança
de me recusar por inteiro

(mas eu te amo ainda assim)

 

Carvalho queimando, novembro

Joyce Carol Oates (1938-)
trad. do inglês

Ontem, encontramos o céu
todo repartido em fileiras. Ar,
quase insuficiente.
Vimos o tronco de um velho carvalho, do tamanho

de um homem, queimando sem incendiar
à beira de uma clareira – galhos estilhaçados,
raizes esmagadas e expostas.
Até as formigas negras fugiram

com o cheiro do antigo sofrimento
vindo à público, derradeiro, e as velhas esperanças reveladas –
tudo no passado! – agora sem copa, sem folhas, um toco
derrubado sobre a terra

e a alma apenas choraminga, esfumaça,
e se propaga lentamente, sem graça,
num céu indiferente que ninguém pintará,
ou fotografará, ou verá –
exceto nós: ontem.

Quintana e a produção social da poesia

Um dia perguntaram ao Mário Quintana como ele fazia poesia, se ele trabalhava muito nos versos, essas perguntas que sempre fazem aos poetas. O Quintana bateu com a mão no peito esquerdo (procurando cigarros) e depois fez da mão um copo vazio, voltado para cima. Ele disse que não fazia nem uma coisa nem outra. Que se a poesia é de ser feita, então ela seria uma coisa qualquer, como um tijolo ou uma geladeira. Que se ela é de criar, então seria uma criatura, uma manifestação do divino além das capacidades humanas. E antes de conseguir acender o cigarro e soltar a primeira baforada, o alegretense concluiu que o mais provável mesmo é que a poesia seja de encontrar. E é por isso, disse já no meio da fumaça, que estamos todos perdidos..