Desterro

Um dia todo mundo aterra sentimentos.
No barro, um miasma avança sob a pele
do que os pés calcinaram sem notar.

Havia aqui uma canção cantada a sós,
à noite, sob as cobertas, mas não embala
mais. O desalento de quem esperava

manter a vida sob uma esfinge foi
desvelado. É sabido teu tesouro: é pó
juntado ao pó de todo mundo.

Um arrepio distante, lembrança remota
de um sentimento sem desafio, percorre
o corpo. A nossa morte também dá calafrios.

Paisagem noturna

antes

duas pétalas discutem a flor
uma recusa-se
e a flor sobrevive

mais tarde

num abraço em aberto
decidem debandar
da flor defunta

no mais escuro

sonâmbulos insetos
medem a violência
da morte obtida

outra vez amanhece

e o que sobrevive
percute ainda os tímpanos
moucos da flor

O vale

Se o sol já era alto,
se a lua fatigara-se
e as nuvens se esboroaram,
a que horas nasceste?

Se o que havia escondeu-se,
se o que se escondera voltou
e no vale o olhar dos carneiros
e o olhar dos peixes no aquário,
e o das pessoas, na vida,
não te percebeu?

Se o tempo já havia passado
e era preciso criar ainda mais dele,
extrai-lo de misérias e paisagens,
erguê-lo pelas costelas
no ponto de velhas fraturas?

A que horas nasceste?
Perguntarei a sua mãe
e sua atenção totalitária.

A que horas nasceste?
Perguntarei aos retratos
que me escondeste.

A que horas, afinal, nasceste,
se o sol já era alto
e a lua fatigara-se
como pêndulo esdrúxulo
de um relógio calcificado?

Ou aponta-me para onde devo olhar,
afora o verde mastigado (a utopia)
e uma escuridão desconhecida.

Ou aponta-te para mim mesmo
e diz tu, nem que com a minha voz,
a que horas foi isso?

Precisamente, pois não?
Nem um minuto a menos
dos tomados a mim.

O sol já era alto.
A lua fatigara-se.
Eu sei (sabemos).
Como tu demoras..

Liturgia

“bebida amarga da raça
que adoça meu coração”
João da Cunha Vargas

Quer me torne incapaz
de ouvir a tarde passando,

quer trespasse sem lâminas
as montanhas de papel,

quer quebre o cabo das facas
a fim de examinar meu sangue,

quer escute-o direito
(se é para animar o mundo),

quem recomeçará meu dia
se a noite não acabar?

Mas nunca esperei por isso.
Faço eu minha liturgia.

Verbete

Deixo esse traço só:
veludo do lado anverso,
começo e fim da minha vida.

Verbete sempre em rascunho.
Mar que oferta, por revolta,
a calmaria.

Mas, se olho bem, todos são assim.
Testemunhos de espaço e tempo
que nos desviam.

Por precaução, cuidado, cidadania,
disse o que disse. Eu disse?
Mas que esquecido..

Se lembro bem, três noites só fui demovido.
Nunca entendi.. Viver é estreito demais
nas biografias.

A montanhesa

Vês que puno tudo ao pior juízo
e nem as lástimas escuto?
Vês no que me tornei?

Com o coração nas mãos,
eu não vou,
mas podes levá-lo
(sem um sacrifício).

O horizonte deposto
pelos teus olhos montanheses
acobertará meus sonhos.

Mountaineer
Jens Ferdinand Willumsen 1863 – 1958