Zazen, 2

o silêncio
para deter-me
em mim

à parte isso
deito tudo fora
(até que enfim)

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Reduzido

do vocabulário senil
com que dominava o mundo
perdi, aos poucos,
quase todas as palavras

já não domino o verde das florestas
e o som que ressoa
nos violinos e cachoeiras
eu quase nem posso dizer

perdi como se andasse
com a cabeça longe demais
e as chaves onde guardava os livros
onde foram parar eu não sei

meu mundo agora é menor
e suprimida a esperança
eu posso simplesmente
desvencilhar-me da dor

eu tenho causado males
que são tão singelos
e guardo o furor imenso
por desmazelos

quando eu voltar a dizer novamente
igual ao silêncio dos hiatos
nada haverá de melhor
ou mais belo

restará o que não despi de mim
um conjunto igual às palavras
ossos e músculos igualmente senis
dois ou três sonhos ingratos

o mais que isso, as mentiras,
de mim elas já se fartaram –
não sou o que elas pensavam
o que tinha de surpresa acabou

eu costumava saber como era
mudei tantas vezes de pele
que agora já se acabaram
pois este é meu novo formato

assim que devo nascer:
exato e nu, como um ovo –
só deus me livre, se exista,
de ser como aquele de novo

Desde quando

desde quando essa morte nos ambiciona?
e desde quando os animais passaram a agir de forma estranha?

e as estrelas, quando passaram a nos insultar à distância?

desde quando não esperei mais e me perdi em meus passos?
e desde quando desistimos ao centro do labirinto?

e as fagulhas que o fogo faz, quando renunciaram a nós?

desde quando passamos a preferir os gradis à floresta?
e quando nos decidimos pelo assassinato que nos preparavam?

e a duração provisória da noite, desde quando nos foi o bastante?

desde quando nos mastros dos navios as fragatas já não descansam?
e desde quando o horizonte se tornou tão inviável?

e o passado, desde quando foi feito dele um refúgio?

desde quando foi indescritível dizer do modo pelo qual sobrevivemos?
e desde quando a panaceia de tudo se tornou indiferente?

e do que temos tido para sonhar, desde quando nos acordaram?

desde quando os calendários decidiram embaralhar-se?
e as promessas que nunca fizemos, quando foi que se tornaram indispensáveis?

e o que temos um do outro, desde quando nos permitimos furtar?

desde quando retomar o destino deixou de ser um suplício?
desde quando nos perdemos nos extremos a que nos compelimos?

e isto que perdura, por quanto tempo nos permitirá sobreviver?

desde quando desacreditamos no que a doçura do hálito nos explicou?
e desescrevemos a memória, como um pedaço de areia exposto ao mar?

e o que fizemos do que mal víramos para além deste inconcebível terror?

Dois caminhos, 2

estradas que abanam às árvores
não são mais longas, mas cansam mais –

não como a vida de pessoas muito velhas
que sempre andaram em frente

ou como o reflexo de um espelho
cansado da sua clausura,

cansam apenas porque trataram
de fazer delas o que não se esperava –

levassem aonde não se imaginava
ao escuro ou ao calor imprevistos,

levassem a ermos ou descaminhos
sem retorno,

aos esquecidos abandonos aguardando
a cada dia –

mas quanto a mim eu não sei,
nunca mais vou saber –

teria inventado um modo, talvez, de ficar para trás
e cuidar do que morreria,

escolheria a mim mesmo e só:
talvez não pudesse ser de outro jeito –

a estrada é perdida e eu a vejo ainda
e mesmo que ela não me busque mais,

eu, sempre que a observo,
desejo, pretendo, esqueço, desisto