Poesia

Vigor

na caixa de esperanças trincadas
que mantenho sobre o armário
há coisas que devia ter jogado fora
mas o tempo as embaraçou a outras
e assim, nesse contexto impreciso,
reconheço que lá adormecem juntas
cenas exaustas do futuro,
promessas pagas com novas promessas,
adiamentos uns nos outros empilhados

se eu vivesse do que vivem os animais
ou pelo menos tivesse para mim
o gratuito entusiasmo das árvores,
a chuva imensa repousando nas nuvens
ela viria e me afagaria –
eu quisera dormir um pouco mais
e sonhar os mundos solenes
que ressecam e espatifam
esse pequeno vigor da poesia

Só lembrando

posso usar
o quanto quero
a memória
mentir com ela
ou para ela

se isso tivesse
por exemplo
efeitos deletérios
eu os faria só
supérfluos

mas conjeturo
coisas insensatas
(por previdência)
e fúteis
no futuro

e perco tempo
como lembrasse
sem medo
e revelasse tudo
o que é segredo

Pedra pome

Cada vez mais vou ficando incapaz do meu tamanho.
Devia fazer cada vez menos.
Demorar-me cada vez mais.
Até restar quem sou, preciso ir cedendo.
A cada dia um tanto.
E nem notar como isso vai me acontecer.
Perder todo os pedaços que sobram.
Exceder do que não preciso.
Vertê-lo de mim para fora.
Invadir-me ao contrário.
E lavar minhas palavras do que elas parecem ser.

Mas tenho também novas capacidades.
Mal caibo em mim, por exemplo.
Dou mais do que minhas economias suportam.
Estranho que pudesse até ter sido diferente.
Ter uma imagem para os outros maior ou menor que eu mesmo.
Muitas que sequer me frequentavam.

A minha voz, por exemplo, eu nem sei o que ela ainda sabe dizer.
Meu nome é diminutivo de outro maior que o meu.
Mas eu não vivo sob sua sombra.
Afastei-me a seu pedido.
Eu nunca o obedeci mesmo.

O nome é a única palavra de todas que chama o indivíduo por quem ele é.

Um dia farei o mesmo comigo.
Desobedecer-me.

E todo os meus tentáculos romperão de pronto.
Estou aprendendo como fazer.
A cada ano aprendo mais.

Dizem que no final há um vazio ou um novo lugar.
Eu só espero que tenha doces por lá.
Doces argentinos.
Ou um tango sureño.
Ou outra boa razão para salivar bastante.

A essa altura eu deveria ter também novas esperanças.
Não as tenho.
As que tinha gastaram-se como pedra pome.
E ainda assim as mantenho.
Mesmo que seu poder tenha se desmantelado eu as provoco.
Se forem mesmo boas, sobreviverão a mim.
Serão para meus filhos.
Que sejam.

A pedra pome é um esfoliante mineral usado para remover a pele morta dos calcanhares.

Mas os minérios não trocam com o corpo.
Isso só um corpo faz ao outro.
Os corpos são independentes e avulsos demais.
Deveriam muitos ser o mesmo.
Através de algum modo eles poderiam tentar.
E alegrar-se por isso.
As palavras são aves que avançam sobre as pontes.
Se eu pudesse trocar-me por outro eu penso que escolheria melhor.
Um mais sábio. Ou mais rico. Outro qualquer.
Mas gosto desse, ainda.
Nem tanto que o considere demais.
E nem tão pouco para levar-me tão a sério assim.

Sobrevivo

sobrevivo na palavra
sou seu arresto
e do que fica dela
me infesto

sobrevivo no que sobra
fui por ela aviltado
é o que meu corpo hoje cobra
de tanto ter suportado

antes da palavra eu suspiro
o ar da noite arrefece
e eu a ele inquiro
mas ele não tem interesse

sobrevivo e caso me falte
eu faço com que de repente
do nada eu a assalte
(ou então me cale somente)

Exercício

continuo o caminho que minhas retinas dão
e os passos mesmo sem saber onde vão

continuo do ponto em suspenso
igual a antes, sem ainda saber o que penso

trocando a vida por bagatelas
gastando a pouca comida sem grandes cautelas

continuo o trabalho incansável de quem permanece subindo
o fardo de Sísifo não é ter de fazê-lo sorrindo?

continuo e é por vingança incontida –
por um tempo maior, talvez, que a própria vida

continuo e devo ir até o fim
dizem que farei isso por mim

apesar da palavra e do corpo, todavia
me contagie do amor, da tristeza, da alegria

continuo sob a lua imensa ou o sol a pino
inutilizando as lições que me ensino

continuo, eu espero, mais vivo que outrora
o tempo, ele começa agora

no rastro das nuvens, túneis, estradas apagadas,
elevadores, caminhos, fronteiras, escadas

continuo e onde estou nunca estive
aqui me deixaram, aqui me detive

e ainda eu penso o que deve haver mais além
e busco alhures o que não pode estar em ninguém

continuo mesmo do último verso:
viver é minha exigência, não a função que exerço

À tona

não sei o quanto vale este passado
esfarelando-me em seus dedos –
que espécie de animal é esse
que se alimenta sem fome
apenas por um hábito atroz
de comer sem entender o que come?

eu fui eviscerado decerto
para que entendessem qual a cor
que tenho por dentro –
o profundo eu
de inesperado azulado
então é meu mesmo?

que espetáculo privado
é saber-me um universo inteiro –
eu já cheguei ao seu final
e lá não penso em voltar –
se não há mesmo tempo,
azar..

agora me espero de lugares
bem mais próximos:
a esquina e seus acidentes
costumeiramente fatais,
os pontos certos da rotina
aguardam-me tão pontuais..

posso cantar com essa voz ainda
e nem sempre isso me anima
(porque então voltei a dizer)
mas me conforta –
e isso é de tudo, afinal,
o que me importa

é tão longe buscar o novo
o mais certo é fazer o mesmo
e ainda que pareça a esmo
sei o quanto há de delírio
em emergir no vazio
e me encontrar inteiro