Denúncia

Uma ambição? O tesouro
favorável da manhã
transportado em galhos
em bicos de pássaro.
Um a cada vez.

Cada galho e folha sem destino
assentados numa construção alheia.

Escora de vento na folha
num sopro de boca nenhuma.
Só mesmo esse dia que vai passar.
Passar ou ficar, tanto faz.

Bendito o sol e seus cabelos
dourados, de criança.
Denúncia da brotação
excedente dos trigais.

Porque não o notamos,
há dias em que o mundo é infalível.

Quimeras, 2

Para esta página,
nem uma palavra a mais.

Para os dias que se seguem,
nada de retroceder.

Para esta vida sem governo,
um parlamento em ruinas,

uma eloquência vazia,
a fuligem das minas.

2

Nada de obter de volta
os velhos caminhos vazios.

Dei parte de um silêncio tamanho
e agora não sei o que sinto,

mas é como estar de volta –
sempre estranho

(como ouvir vozes trocadas
contra a mesma porta).

3

A melhor parte? Perdeu-se
em algo que eu acho que disse

por obra de outra pessoa
num conto ou lenda infantil.

O que eu vejo não tem importância.
De sobra, a memória de herança

(uma poça de álcool queimando
e um vento eternamente frio).

4

Para quem deseja decifrá-la,
a noite sussurra em cifras.

Para quem busca encontrar
algum sentido em tudo,

resta pouco – e ninguém sabe dizê-lo.
Parece que entendi agora

com alguém que passou no escuro,
mas já não está, já sumiu.

5

De volta ou adiante,
há um momento indiferente.

Não há ninguém olhando
e, no espelho,

um rio atravessa ileso
como um chamado de Iara

(o mistério de estar indefeso
à vida e suas quimeras).

Circular Urca

ela tinha um cabelão
e contei uma história
que não lembrava mais
de um pássaro que se acomodou
em meio aos seus miolos moles
uma vez

de um tempo cheio de horas vagas
de quando não havia no que gastar
dinheiro que tb não existia

(na verdade, iguais às sombras
encostadas sob a marquise
à espero do ônibus, na volta:
circular Urca)

ela tinha uns olhos verdes
onde eu nunca mergulhei –
nunca teria mergulhado –
com minha sombra
eu protegia do solaço
a pele branca, por inteiro,
que mormaço..

(outra vez quase afundei
não pq eu soubesse nadar,
mas pq ela estava lá)

e tinha um entusiasmo
que era gigante
cantava comigo qualquer coisa
sem melodia, sem letra
nada que é bom
a gente na hora
pensa que presta

(nessas horas
há um silêncio sempre
que vai se acordando
ao mesmo tempo
abafando tudo –
hoje um estrondo)

2

se eu passar ao seu lado
outra vez
não soe alarmes

(deixa quieto,
fica na tua –
mas não se afaste..)

enquanto há tempo
a manhã perdura –
enquanto há tarde,
noite que baste

com ela o atraso
era um breve torpor,
depois acordava, e passou
sempre cedo demais

foi menos grave ao seu lado
e mais eu sonho por isso
dos sinos que batem
sem muito alarde

não tão mais perto
nem tão mais longe
é que apenas nos seus olhos
eu fiquei sempre acordado

Quercus faginea, 2

Tirar tudo de cima de mim.
Tudo o que está me dizendo
essa árvore plasmada
em segredos.

Também eu posso
trocar o silêncio da casa
à tua partida.

Ou parece justo
essa tanto de espera
por outra despedida?

2

Sob o peso dos frutos
do passado, tu te aprofundas.

Tuas raízes
entrelaçaram em mim, no futuro
que ainda não vimos.

3

E se me levasses contigo,
concordarias
em aliviar teu jugo?

4

Teu olho pesa ainda
como o primeiro e último juiz.
O único que sabe perdoar sem esquecer.

5

O teu mundo me apequena tanto…

6

Porém, se eu quiser sair, tu não permitas.

Por alguma razão
sanguínea, incompreensível,
acomodei-me em ti.

7

O tempo contigo é livramento.
Nunca foi castigo.

Falso alarde, 2

Quantos estão morrendo
agora, pensa melhor,
quantos morreram antes
no coração que os carregava
indolentemente?

Quantos estão ferindo
ou já feriram, por
espetar na memória
bocados de esperanças
que nem eram suas?

Quantos estão sorrindo
ao encontrar o seu nome
a salvo, ou num escudo
partido, a ilusão
de não estar ali também?

Quantos de nós, ou nós mesmos,
estão morrendo muito antes
do que deveriam
por não aprenderem nunca
a viver do modo que é certo?

Quantos no incógnito
instante e um documento
embebido em fogo
anunciando ao passado,
talvez, quem eles foram?

Do ser apaga-se a essência
com a mesma solenidade
que a nuvem se dissolve
em águas. Como o estrondo
do trovão passado.

Esse rumor de que a manhã
já é tarde é mesmo prenúncio
de outro futuro? Ou é mais
do que pensamos, mas não fazemos,
falso alarde?

O beijo do dragão

Nunca estou
para onde posso olhar.

Eu sempre me detenho nisso
(parece vício).

Os doces permanecem na mesa.
Não os provei.

E o troco do tempo perdido sempre
me é suprimido.

Nessa conta nula, menos zero,
vou procurar por mim ao espelho.

Fui em quem pôs ali
a imensidão desse furo?

Como não vi que me arrombava
quando te conheci, quando te amava?

Era um dragão que se manobrava
e agora, quieto, não voa, está solto.

Tonto de tanto mar revolto,
às vezes paro aqui.

E, às vezes, quando não me queres,
eu volto.

Antílope, 2

Por um momento só
o paraíso abre suas portas.

Lá dentro não há um deus,
mas um antílope

e ele tem a clavícula quebrada
e usa uma bengala torta

que guarda
num leito de relva e veludo.

Um deus que soubesse
seu nome o chamaria,

mas nem ele e nem eu
estamos interessados.

Há dor demais com que lidar
e os ossos internos a percutir

um parentesco remoto
entre nós (mas nós esquecemos

de tudo em solidão). E roemos
com as mãos as unhas dele,

do casco que nos engasga
e a pele com que nos cobrimos.

Furtivamente nos procuram,
mas sem nos identificar.

A porta aberta continua aberta.
Nós já não queremos sair.

Deixamo-nos confundir
pelo sol. E as árvores

nos derrubam como a folhas
soltas, perdidas, que voam.

Não estão mais aqui.
Não estamos.

Ambiente de testes

Ninguém viu ainda –
ao que se saiba –
um pássaro testando o ar.

E nunca se soube também
como os peixes se preparavam
antes do primeiro mergulho.

Há coisas que
sempre se deram
ou uma vez começaram?

Ouve o que eu digo:
não há muito o que entender
quando se está dentro de uma caixa,

mas, por parti-la,
os pedaços às vezes acusam
o inimaginável.

No limite, qualquer coisa se acaba.
Sem acúmulo nem edificações,
só uma sucessão de desmanches.

De eterno mesmo, só o abraço dessa criança
apertando sem desespero
a um boneco, sem esperança.

Mesmo o eterno dura poucos dias
e sua desfeita maior
é dissolver utopias.

Como pode pássaro ou peixe
viver num universo destes
que não admite testes?