Extinção

Para mim, o mais incrível na música é a sua dissolução à execução. Você ouviu um acorde que acabou nesse instante e que ainda assim se mantém no espanto que ele causou. O arpejo que já deixou de existir e levou sua imaginação sabe-se lá para onde. A dissonância que há pouco agredira os ouvidos e foi convertida numa harmoniosa e inusitada solução. O improviso ao tema feito um subtexto imperceptível, mas também irrepetível. Não há perenidade na música, permanência, história. Trata-se de percebê-la e senti-la ou nada. Acho que por isso, de todas as artes, a música é a mais convidativa, aérea e insinuante. É a que contraditoriamente menos e mais fala. E definitivamente a que mais tira as palavras dos ineptos musicais. Enquanto as outras artes lutam para permanecer no tempo, a música se realiza justamente ao se desfazer nele. Há meios de competir com isso?

Num arranha céu

John Hartford – (1937 – 2001)
trad. do inglês

Um dia desses, quando eu for um homem
E outros me ensinarem
O máximo que eles puderem
Me venderão um terno
E cortarão meu cabelo
E me enviarão a trabalhar num arranha céu

Isto significa dar adeus ao sol
E adeus ao orvalho
Adeus às flores
E adeus a você
Eu estou indo para o metrô
Não devo me atrasar
E ir ao trabalho num destes arranha céus

Agora, quando eu me aposentar,
E minha vida voltar a ser minha
E eu já não dever mais nada a ninguém
Será hora de ir para casa
Eu me pergunto o que houve
Nem uma coisa e nem outra
Quando fui trabalhar nos arranha céus

E é adeus ao sol
Adeus ao orvalho
Adeus às flores
E adeus a você
Eu estou indo para o metrô
Eu não devo me atrasar
E ir trabalhar num arranha céu