Eu perdi algo nas montanhas

Sibylle Baier
trad. do inglês

Nos últimos tempos
Eu sempre choro
Quando passo pelas montanhas
Oh, o que as imagens me trazem
Oh, eu espero tanto
Pelas raízes da floresta
A origem das minhas brutalidades

Eu perdi algo nas montanhas
Eu perdi algo..

Eu cresci na montanha
Outros crescem nas cidades
Onde primeiro o amor e a alma surgem
Lá vão os tempos da minha vida
Quando me sentia doida, desvairada
E somente a campina me dava esperança

Quando minha perna passar da grama alta, eu morrerei
Eu vou morrer sob o jasmineiro
Sob a árvore mais velha
Então eu não preciso estar preparada
Eu vou morrer sob o jasmineiro
E sob uma velha árvore
Eu não preciso me preparar para um novo dia
Onde vou preencher a profundidade do que sinto?
Você vai dizer que eu não sou Robin na floresta
Mas como eu poderia não deixar sinais
De que perdi algo na montanha?

Eu perdi alguma coisa na montanha
Oh, eu perdi algo nas montanhas..

Agora eu me inclino no peitoril da janela
E eu choro, embora seja bobagem
E eu estou sonhando completamente..
Oh eu sei, mais a oeste existem estas montanhas
Marcadas por macieiras, sulcadas pela corredeira
Isso me leva aonde eu quiser
Bem, eu perdi algo nas montanhas
Eu perdi algo nas montanhas..
Oh, eu perdi algo..

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O berro de fera

Foi através da música popular, não da literatura, que por primeiro tomei conhecimento do tensionamento existente entre a expressão cultural negra e sua receptividade social amplo senso no Brasil. A polêmica encarada frontalmente entre as figuras de Noel Rosa e Wilson Batista, nos anos 30, ainda hoje é demonstrativa da dificuldade de trânsito social das manifestações culturais entre a população, desmistificando em muito a noção freyreana de democracia racial e de nação mestiça. Não é curioso, portanto, que este tensionamento tenha persistido e volte a expressar-se na contemporaneidade mesmo sob manifestações culturais não necessariamente originadas no Brasil, como é o caso do rap (rythm and poetry). O fenômeno vem ocorrendo através das décadas, desde o surgimento de Gabriel o Pensador, passando por Marcelo D2 e desembocando em artistas mais recentes, tais como os grupos Haikaiss e Costa Gold, integrados exclusivamente por compositores e cantores brancos.

Por esbarrar ou mesmo adentrar o território das ciências sociais e da política, é muito difícil analisar-se a produção e recepção cultural do trabalho destes compositores sem tomar em consideração critérios sociológicos atualmente muito presentes nos debates públicos nos quais a questão étnico-racial do negro é entrevista. O que ocorre hoje, no entanto, não resulta diretamente da interposição de uma interpretação deslocada, mas da continuidade de discussões anteriores propostas por intelectuais negros e interessados nas questões raciais, tais como as noções de emparedamento, embranquecimento, eugenia e dissimulação. Trata-se de conceitos trabalhados mais ou menos desde os anos 50 do séc. XX e que, na atualidade, parecem ter desembocado numa concepção mais abrangente da vida social, envolvendo desde as práticas culturais até as políticas e micropolíticas.

Desde esse ponto de vista mais sociológico é que tem sido possível analisar em perspectiva a obra literária de nomes que fazem parte de todo o legado cultural brasileiro, como Machado de Assis, Lima Barreto e Cruz e Sousa, para ficar nos mais conhecidos. Seria, em minha opinião, uma miopia, uma espécie de deslocamento, a atribuição de um caráter premeditadamente político na obra desses escritores. Pelo contrário, a mim parece que se trata de processos criativos que ocorreram naturalmente a partir das condições e do desenrolar da própria vida (e também da visão de mundo) dos autores. Além disso, há que considerar a realidade política em que viveram e na qual cada um deles experimentou o drama da distinção racial e a tomada de consciência quanto a isso.

Mesmo que se quisesse, hoje seria impossível reconstituir as condições culturais do princípio do período republicano no Brasil. Por documentos e pela literatura pode-se ter uma noção aproximada do quanto a questão abolicionista mobilizou a vida política e cotidiana daquela época, mas, quanto a compreender-se a intensidade do tensionamento e do trânsito das ideias no âmbito das subjetividades, esta parece ser uma ponderação das mais complexas. Seja como for, a obra destes autores em sua época parece ter ocorrido muito mais por um movimento em direção ao universo hegemônico branco do que pelo contrário. Todos os elementos africanos, aliás, permaneceram marginais à cultura letrada e somente mesmo na música popular e no apogeu da era do rádio se fez notar pelo reconhecimento da musicalidade de origem negra, como o maxixe, o choro e principalmente o samba. Voltamos, dessa forma, ao pugilato verbal e musical entre Noel Rosa e Wilson Batista recentemente reencenado pelas discussões em torno da primazia dos negros no rap e do embranquecimento do estilo por artistas brancos.

Se desde um ponto de vista ideológico e contemporâneo a produção cultural dos autores negros da virada do séc XIX e princípios do séc. XX parece ter ocorrido sob uma tendência inexorável de modernização política, por outro parece muito claro que a legitimação dos elementos culturais negros no Brasil tem historicamente passado pelo crivo de intérpretes brancos. Não se trata de culpabilizar nem mesmo justificar a expressão discriminatória através do complexo contexto histórico de um mundo dominado pelas ideias eugenistas de superioridade racial, no entanto a manutenção dessas condições atesta em muito a falência do mito da democracia racial em horizontalizar as condições materiais e culturais de uma imensa parcela da população identificada como negra.

O fato notório de desperceber-se deliberadamente tais condições – como expressas atualmente em outros campos culturais -, apenas corrobora, portanto, a percepção de uma sociedade alicerçada nas distinções de classe, mas também raça, também gênero e também relevância política. É daí, penso eu, que a cultura literária negra ou afrobrasileira, não pretendo me deter aqui nessa distinção, aferre-se como patrimônio de uma identidade fragmentada, de um país que não hesita em vender-se externamente como exemplo mais-que-perfeito de convívio solidário, mas internamente sobrevive pela manutenção do status quo da discriminação e do preconceito.

Dessa forma, pelo menos em meu ponto de vista, penso com muita consideração na literatura e manifestações culturais contemporâneas de cunho mais militante, engajado. Não penso realmente que toda a literatura deva ser militante direta ou indiretamente, mas que se reconheça que este não é um fenômeno gratuito e que decorre da necessidade de denúncia e reconhecimento público de uma realidade constantemente sonegada: o racismo em suas diferentes formas. Discordo, todavia, que toda a arte produzida pelos negros deva necessariamente reivindicar este papel político e que não tenha por sua conta outros atrativos estéticos, porém reconheço a necessidade de que assim se manifeste sempre que desejar. É que simplesmente é intolerável que ainda hoje exista quem pretenda transformar a cultura negra e seus traços peculiares num “feitiço decente”, como desejava Noel Rosa e insistir em domesticar o tão salutar e necessário “berro de fera” “que vem de longe pra nos fazer companhia”, como cantou Milton Nascimento. É que estar junto, no mundo social, implica em muito em ouvirmos uns aos outros. Eliminando-se isso, o reconhecimento dessa necessidade, como poderíamos coletivamente nos entender e evoluir socialmente? Fica a dúvida. E é bom que fique.

O canto dos helenos

No que mais é estranho (e ao mesmo tempo familiar) na ancestralidade greco-latina da cultura ocidental, a poesia, comparando-a a outras manifestações tais como a arquitetura ou a escultura, exibe-se ao observador contemporâneo inexperiente como a mais incomparável das artes. Resultante de uma musicalidade inaudita, da confluência de diversos idiomas, dialetos e de um apuro técnico-performático que ainda hoje, dadas as condições materiais da antiguidade, parece exageradamente elaborado, a poesia grega chama a atenção pela abrangência temática e, simultaneamente, por sua dadivosidade formal. É possível que possa situar-se no repertório, no conjunto de ideias mitológicas e históricas e também numa muito peculiar forma do humano perceber e lidar com o seu destino terreno a maior identificação que o sujeito contemporâneo pode estabelecer com esta poesia que, ao ouvido despreparado, soa incomum e pouco familiar, muito embora a partir e através dela tenham ocorrido as mais duradouras contribuições gregas ao mundo ocidental desde as obras de Homero e dele para as demais derivações da poesia grega como hoje pode ser concebida e estudada.

Se a difusão e fixação da cultura grega letrada derivaram diretamente da larga influência militar que Alexandre estabeleceu ao dominar um imenso território que compreendia desde o Egito até as fronteiras indianas, foi na culminância da Biblioteca de Alexandria, com o trabalho de Zenódoto de Éfeso (325 a.C. – 260 a.C.) que a Ilíada ganhou o que parece ter sido a sua primeira edição comentada. Além do trabalho do próprio Zenódoto, muitos outros estudiosos trabalhavam em Alexandria e, portanto, foi apenas em meio ao período helenístico que foram consolidadas, por escrito, as mais diversas contribuições épicas, líricas e elegíacas que formavam o grande conjunto a que se pode denominar por “poesia grega”. Infordunamente, apenas uma pequena parcela de todo esse conjunto de papiros e pergaminhos restou após os muitos saques e incêndios que acabaram por destruir completamente a Biblioteca e quase completamente suas coleções, conservando-se apenas aquela parte preservada no templo de Serápis, como a obra de Aristóteles, por exemplo, e cópias que a Biblioteca fornecia para coleções particulares.

O que se pode depreender, dada a extensão e qualidade deste pequeno legado que chegou ao tempo presente é que, incomparavelmente a outras civilizações, a cultura grega no seu apogeu chegou a contar com registros de qualidade formidável que tanto serviam para a educação dos cidadãos quanto como fonte de estudo para intelectuais. No entanto a circunstância histórica (e religiosa) acabou por sobrepujar e sufocar no ocidente a expressão de todo aquele arcabouço, permanecendo em estado de latência até a Renascença, sobretudo graças aos estudiosos bizantinos que o conservaram em meio ao período medieval.

Muito antes disso, isto é, desde Homero e Hesíodo, os dois principais nomes da épica no período jônico e dos poetas líricos do mesmo período que a diversificaram em suas formas mais conhecidas, como a elegia, a ode e os iambos, a poesia grega floresceu quase toda se valendo da tradição oral. Isto apenas foi possível porque então o que hoje se denomina por “poesia” integrava um conjunto de práticas performáticas que, aliadas à dança e a execução musical, consistiam no principal meio de propagação cultural e entretenimento de que os gregos dispunham. Grosso modo (muito grosso modo), equivale a afirmar que neste período da história grega, de paz militar, prosperidade econômica e efervescência cultural, os eventos públicos, competições e simpósios multiplicavam-se e, dessa forma, foram consolidando-se os nomes dos aedos que perduraram, principalmente no período de maior efervescência da tradição lírica, chegando mais tarde à performance teatral mais complexa na encenação das tragédias e comédias do período ático.

Muito embora atualmente seja bem mais simples para os estudiosos a identificação e sistematização de nomes, gêneros, estilos e tendências, em seu tempo a proliferação literária ocorria muitas vezes de modo simultâneo e os autores de que hoje restam versos e bustos provavelmente privaram uns dos outros, o que por si só parece fabuloso. Todavia nem por isso houve um florescimento absolutamente espontâneo, e a poesia grega deriva e reflete diretamente o espírito histórico das experiências políticas, militares, filosóficas, até lançar-se propriamente à expressão lírica, na autoafirmação individual que consiste no ideal de liberdade como ainda hoje é concebido no ocidente. Apesar do caráter paidêutico e da sofisticação social que os gregos aspiravam para a sua cultura, foi a poesia que restou como testemunho direto daquele modo de vida que repercutirá, por certo, até os estertores da vida terrena.

Neste intervalo, o eco duradouro da poesia grega, com seu metro estranhamente musical e peculiaridades formais e temáticas, será sempre uma oferta ao futuro do que o homem já pode fazer de si mesmo enquanto indivíduo e experiência histórica. Cada qual a seu modo, seja nos cantos de honra de Calino de Éfeso, no chamado militar de Tirteu, na vida aristocrática de Teógnis de Mégara, nos iambos satíricos de Arquíloco, nas odes de Safo, Alceu e Anacreonte, na lírica coral ou na magnificência da representação teatral, há muito mais que a mera conquista e elaboração de uma marca pessoal de cada um deles. Há, por outro lado, a noção irrefutável (e irrecusável) de que o “cadinho” da poesia grega clássica ainda nos pertence e, como nos é possível, continuamo-la.

Algo em mente

Karen Dalton (1937-1993)
trad. do inglês

Ontem
De qualquer modo você o fez, está tudo bem
Eu vi você transformar seus dias em noites
Você não sabia
Você não pode fazer isso se não tentar
E algo está em sua mente, não é assim?
Um dia desses você vai ver que estava quebrando a cabeça
Deixando todos os seus sonhos para trás
Você não viu
Você não pode fazer isso se não tentar
E você tem algo em mente, não é?
Talvez num outro dia você vai querer sentir de outra maneira
Mas você não pode parar de chorar
E você não tem uma só coisa a dizer
E sente que quer fugir
Mas não adianta tentar, de qualquer jeito
Eu vi o que está escrito na parede
Quem não puder se manter sempre irá cair
Você não sabia?
Você não pode fazer isso se não tentar
E você tem algo mente, não é assim?
Você tem algo em mente, não tem?

Eu sou…

Alejandra Pizarnik (1936-1972)
trad. do espanhol

minhas asas?
duas pétalas apodrecidas

minha mente?
tacinhas de vinho azedo

minha vida?
vazio bem pensado

meu corpo?
um talho na cadeira

meus altos e baixos?
um gongo infantil

meu rosto?
um zero dissimulado

meus olhos?
ah! pedaços de infinito

Cecília

Publicadas em 2017 pela Global Editora, as quase 2.000 páginas dos dois volumes da Poesia Completa, de Cecília Meireles, dispensam qualquer apresentação. Cecília também dispensa apresentação porque, afinal, ao que se sabe ninguém nunca se apresentou tão decisivamente poeta quanto ela. Do pouco que sei de sua biografia, me parece tão clara a sua relação com a poesia que até soam ridículas as reivindicações que hoje se fazem ao estilo. Só fico ainda pensando em que tipo de encontro teria sido o seu com Pessoa, que evitou-a. Talvez ele soubesse de seus olhos, os olhos dessa foto acima, e temesse qualquer coisa. Ou conhecesse estes versos abaixo e temesse ainda mais…

Canção

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
o lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo…
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo…

Extinção

Para mim, o mais incrível na música é a sua dissolução à execução. Você ouviu um acorde que acabou nesse instante e que ainda assim se mantém no espanto que ele causou. O arpejo que já deixou de existir e levou sua imaginação sabe-se lá para onde. A dissonância que há pouco agredira os ouvidos e foi convertida numa harmoniosa e inusitada solução. O improviso ao tema feito um subtexto imperceptível, mas também irrepetível. Não há perenidade na música, permanência, história. Trata-se de percebê-la e senti-la ou nada. Acho que por isso, de todas as artes, a música é a mais convidativa, aérea e insinuante. É a que contraditoriamente menos e mais fala. E definitivamente a que mais tira as palavras dos ineptos musicais. Enquanto as outras artes lutam para permanecer no tempo, a música se realiza justamente ao se desfazer nele. Há meios de competir com isso?

Num arranha céu

John Hartford – (1937 – 2001)
trad. do inglês

Um dia desses, quando eu for um homem
E outros me ensinarem
O máximo que eles puderem
Me venderão um terno
E cortarão meu cabelo
E me enviarão a trabalhar num arranha céu

Isto significa dar adeus ao sol
E adeus ao orvalho
Adeus às flores
E adeus a você
Eu estou indo para o metrô
Não devo me atrasar
E ir ao trabalho num destes arranha céus

Agora, quando eu me aposentar,
E minha vida voltar a ser minha
E eu já não dever mais nada a ninguém
Será hora de ir para casa
Eu me pergunto o que houve
Nem uma coisa e nem outra
Quando fui trabalhar nos arranha céus

E é adeus ao sol
Adeus ao orvalho
Adeus às flores
E adeus a você
Eu estou indo para o metrô
Eu não devo me atrasar
E ir trabalhar num arranha céu

Acostumei-me a estar só

Ricardo Guiraldes (1886-1927)
trad. do espanhol

Acostumei-me a estar só, como o ombú foi acostumado à pampa.
Minha alma é uma esfera observando o próprio centro de sua força.
Para caminhar pela vida, mantenho-me nas pernas da vontade e da coragem.
A noção de minha própria existência me impede de desabar.
Viver é a obrigação a ser mantida.
Ignoro a covardia quando digo-me “eu devo”.