I retired (Hamilton Leithauser)

Neste ano, depois de conhecê-lo em 13 Reasons Why, ouvi muito o west side Hamilton Leithauser.

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Falso Alarde (o livro)

Após um período de testes, coloquei à venda minha coleção de poemas “Falso Alarde”. O livro é uma seleção de poemas, entre inéditos e publicados em revistas literárias, escritos mais ou menos no período que compreende a última década. Pode ser comprado exclusivamente na versão impressa através do link abaixo, na Amazon.com, no valor de US$ 8.00 + taxas de entrega (as taxas são um pouco mais altas que as praticadas no Brasil porque a impressão e o transporte são feitos a partir dos EUA).

Down House, 1858: o inquérito de Arthur

Hoje me inscrevi na 2ª edição do Prêmio Kindle de Literatura, concorrendo com uma pequena novela histórico-biográfica sobre a qual me debrucei nos últimos 5 anos, mais ou menos, isso desde que comecei a pesquisar até sua conclusão. Chama-se “Down House, 1858: o inquérito de Arthur”.

Não é todo mundo que sabe que o décimo filho do naturalista inglês Charles Darwin tenha nascido com uma deficiência, provavelmente a síndrome de Down (e isso antes mesmo de que ela fosse descrita pela ciência). Embora ainda hoje haja algumas dúvidas em relação a esse diagnóstico, depois de conhecer a imagem de um daguerreótipo em que Emma Darwin aparece com o filho em seu colo e outros documentos e relatos, para mim ficou quase certo que realmente esta era a condição do bebê Charles Waring. O bebê Charlie morreu aos 18 meses de vida, justamente em meio à primeira divulgação de A Orígem das Espécies, em 1858, um período muito tumultuado na vida familiar dos Darwin.

Desde que vi aquela imagem, fui tomado de uma curiosidade que foi virando obstinação. Queria entender mais e mais a situação daquele bebê e, em decorrência disso, fui tomando conhecimento da biografia disponível a respeito de Darwin e de sua família, bem como da sua documentação, da ambientação histórica da Inglaterra naqueles dias e, sobretudo, do impacto emocional que o nascimento e a condição do bebê tiveram sobre sua família e, possivelmente, também sobre alguns de seus objetos de investigação. Como encontrei uma documentação lacunar em muitos aspectos biográficos, aos poucos fui mentalmente preenchendo estas lacunas a partir de situações reais, biográficas e documentadas com outras ficcionais, depois que consegui encontrar (talvez, isso nunca se sabe) uma voz narrativa competente.

Foi muito difícil para mim superar a primeira parte desta escrita porque me decidi começar pela parte mais difícil: a situação de falecimento do bebê. Depois desse primeiro momento, me dediquei a intensificar a pesquisa para só depois reorganizar o roteiro que imaginara e retomá-lo, refazendo-o a cada vez que me deparava com algum elemento que poderia integrar a narrativa. Este foi o processo mais custoso, porque precisei rever e rever e rever muitas vezes o texto, a fim de tentar torná-lo crível a partir do ponto de vista pelo qual optei.

Isso tudo e um pouco mais eu procurei explicar no prólogo do livro. Acho que são dúvidas que estão abordadas com a seriedade que se espera ao tratar da biografia (embora o livro seja ficção biográfica) de uma das pessoas mais decisivas na história da ciência e da humanidade. Assim espero eu, pelo menos.

Minha decisão em inscrever a novela nesta premiação se deve ao fato de que preciso, quero e sinto necessidade de retirar isso das minhas gavetas e achei a oportunidade interessante, mas sobretudo porque me permitiu finalmente tornar isso tudo público, de alguma forma. Minha paciência para lidar com o ramo editorial não é das maiores e então, de certa forma, a oportunidade me serviu para dar uma primeira forma ao livro, na forma exigida pelo concurso. Depois, se premiado ou não, vou tentar ver – se o livro sobreviver ao impacto que ele mesmo causa – se encontro outra forma de publicá-lo. Isso ainda não sei como será. Se premiado, ele sai pela Ed. Nova Fronteira, parceira da Amazon no certame, o que não seria nada ruim…

Então é isto. Quem desejar conhecer a minha versão ficcional (importante dizer isso pela terceira vez) da breve vida do bebê Charles Waring e de seu significado humano na vida de um dos maiores gênios da humanidade e de sua família, basta acessar o link abaixo e adquirir o livro na sua versão digital (infelizmente os patrocinadores não permitem que se inscreva na versão impressa). É possível lê-lo a partir do aparelho Kindle e das apps disponíveis para praticamente todas as plataforma digitais. O preço que coloquei foi o menor possível (mas era obrigatório colocá-lo), porque o objetivo do concurso é promover a plataforma e então ocorre inteiramente sob ela. Assinantes do Kindle Unlimited podem ler sem custo algum.

Se, após a leitura, desejarem qualificar o livro, acho que isso talvez pode ajudar a aumentar suas chances, eu não sei. Trata-se de um concurso aberto, sem uso de pseudônimo, então não entendo direito como isso pode afetar a avaliação. A mim interessou escrever essa história e o fiz com devoção ao tema e com o máximo de respeito e fidedignidade que pude. Tenho certo que há muitas limitações na abordagem que consegui, mas garanto que não há má-fé nem o desejo de explorar indevidamente a imagem de quem quer seja. Se resultará num livro aproveitável, isso não sou eu quem decide. Se alguém gostar e quiser ajudar a divulgar eu só posso agradecer a gentileza.

E antes que perguntem se é um acaso que o divulgue no dia dos pais, não é mesmo. De um gênio como Darwin, a honradez de sua percepção e do acolhimento para o bebê Charles Waring, assim como sua família toda, em 1858, repito, 1858, nada disso é casual. Descobrir e trabalhar nisso foi, de fato, impressionante e bastante emocionante para mim, além de ser uma aventura que eu compararia, talvez, a do Beagle…

Por fim, mas por fim mesmo, queria dizer que sei bem o quanto gênero “romance histórico” é bastante contestado tanto na literatura quanto nos estudos históricos. Há quem o considere um tipo de evasão ou uma tentativa de forjar-se fatos históricos com pseudoliteratura. Tudo isso é possível, mas nada disso foi suficiente para me fazer abandonar a ideia (outras coisas quase conseguiram). Para mim, o que aconteceu ontem já é história e não acredito em literatura sobre o presente contínuo, então não dou muita atenção a isso. Também não sou escritor profissional que venha fazendo ou queira fazer disso um ramo comercial, então estou muito tranquilo, até porque hoje estou me dedicando a projetos muito diferentes deste. Fiz porque a história me chamou e eu senti que podia interagir literariamente com ela e que o faria com o máximo de decência possível. Agora, já é sem volta. Minha parte está pronta. É bom dizer que isso já não é mais comigo…

Ex libris

Finalmente, graças ao belo trabalho do Paulo Pedott, da Exlibris Bookstamps, tenho meu Ex libris personalizado.

A frase é de Lúcio Aneu Sêneca e quer dizer “somente a sabedoria é liberdade”. A ilustração é a representação da sapientia entre as sete virtudes cardinais, esculpida na tumba do Papa Clemente II na Catedral de Bamberg, em 1047.

Não somos deuses (Lúcio Cardoso)

Hoje recebi pelos correios um livro em que revivi uma das primeiras leituras de poesia que fiz na minha vida, sabendo que se tratava de poesia. O livro era de um amigo que brincava pelo fato de que tínhamos praticamente o mesmo nome (até Lúcio Car) e não sossegou até que eu o lesse. Eu não imaginava que me ocorreria um tipo de experiência ali, naquele instante, porque nunca tinha reparado que se podia utilizar as palavras para escrever coisas como aquela, e daquela forma, mas ocorreu. Logo depois deste poema, que transcrevo abaixo, digitado por mim mesmo (sem Ctrl C + Ctrl V), nunca mais parei de ler poesia nem de comprar livros de poesia. Estas “Poesias Completas” do Lúcio Cardoso eu não tinha, mas é um livro maravilhoso. Nem é tão caro que pareça um investimento, mas é, de fato, um investimento. Lúcio Cardoso, este meu quase xará, nunca imaginaria que com sua poesia lírica e metafísica me comprometeria tanto até hoje de uma forma que eu na época não poderia imaginar. Reler um poema lindo e absoluto como este, hoje, depois de tantos anos, não é uma experiência como aquela, mas me explica a mim mesmo o que me causou ser o que sou.

[Não somos deuses,]
Lúcio Cardoso, Poesia Completa, EDUSP, 2011, p. 462-464

Não somos deuses,
nem criamos terras para o esquecimento
ou para a luz do sentimento.
Somos frágeis demais para não morrermos
desta grande aspiração de luto e ousadia
que é a nossa existência.

Não somos deuses
porque não somos puros como as plantas
nem nos damos ao vento como as flores,
nem somos música, como as águas.
Ai de nós, somos homens. Somos homens
na febre com que um dia pedimos ao amor
que nos desse um motivo para a luta.

Somos homens apenas,
e não morremos como os galhos esgotados
e renascemos outros, assim que o outono passa.
Não somos como os peixes e as estrelas,
não somos como as catedrais e o firmamento,
é a vertigem que nos mata.

Quando o dia nasce
o tempo aviva em nossos olhos a esperança
e amamos as formas pelo que elas são
como promessas à nossa fome.
Em nossas mãos o amor é como a vida,
e sabemos que em cada movimento
traçamos a história e o desejo,
alma secreta e longe que fitamos sempre
quando o infinito se abre
– azul sem terno ou céu sem nome.

E não poderíamos ter sido outros,
pois o que se misturou à nossa carne
foi a noite, o barro e o desespero.
Sabemos que a aventura é um caminho
– se voar é possível, só o sono
nos entrega à cantiga nua das estradas.

O sonho é possível – mas sonhos
de homens, de carne dilacerada e fria,
pensando a informe aspiração do vago.
E quanto sangue apunhalado e quente,
não jorra nestas searas de ousadia,
quando ousamos fugir?

Sim, não somos deuses,
nem criamos terras para o esquecimento.
Somos pequenos e tristes, somos
como os animais que fitam o mar iluminado,
sem compreender. Pagamos a nossa dívida
minuto por minuto – mas os deuses
já não sofrem senão com a paixão,
ai deles, que é humana.

E não somos então um pouco como deuses,
quando, por loucura, atiramos nesta febre
o que em nós resiste, o que de puro
constrói em nós a alma permanente?
Somos um pouco como deuses, talvez
sejamos deuses simplesmente, se com virtude
desvendamos a estrada.

Agora fica, inspiração: o nome que te dou
não é em vão que não possa recriá-lo.
Só eu te sei a flor informe e lenta
deste desespero – eco, sombra e murmúrio
da luta que me ergue sozinho neste céu,
corpo de pedra – e já me faz pensar um Deus.
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Lúcio Cardoso, Poesia Completa, EDUSP, 2011, p. 462-464