Ficções

Por via das dúvidas

O caminho ele conhecia bem, mas, por mais que andasse, nunca tanto a ponto de prestar atenção em tudo que ia mudando com o tempo. Ou eram as gretas nas paredes da casa antiga da dona Mariana Saraiva, desbotando diariamente a pintura amarelada, ou era o empedrado cada vez mais liso e escorregadio do calçamento. Por aquele caminho, se tombasse a essa altura da vida, seria um problema tamanho. Pelo menos uma fratura bem grave nos ossos porosos, mais parafusos, próteses ou outra dessas tragédias que espreitam os passos dos velhos. Era também a largura intransponível dos bueiros destapados que a prefeitura prometia sempre consertar e nunca vinha ninguém para fazer nada ou o jogo de bola das crianças, no campinho abaixo, sempre essencialmente confuso e auto-organizado. Aquela voz, entretanto, metida no meio do jogo dos guris, era estranha demais para que ele não a notasse. Não era a voz de uma menina e tampouco tinha a pressa costumeira dos moleques. Nem ele tinha certeza se já tinha ouvido antes voz num tom agudo assim entre os meninos. Ele realmente não sabia de quem era nem muito menos quem seria a figura esquálida que apontava com o indicador para o rés do chão ao seu lado e dizia: “A bola… Ali! O senhor pode alcançar?”

Olhando a bola e os olhos da criança alternadamente, não sabia o que fazer e parecia clamar por uma orientação. No chão, encostada junto ao gradil enferrujado de ventilação do porão da casa da Dona Mariana, era onde estava a bola e bastaria que ele esticasse o pé e a puxasse de encontro ao corpo para entregá-la à criança e seguir em paz seu destino. Mas também por duvidar de que o gesto não fosse causar o desastre de uma queda em plena rua, possibilidade que o amedrontava, decidiu não fazer nada e, sem voltar outra vez os olhos para qualquer uma das crianças, seguiu adiante, rumo da sua casa, logo ao fim do quarteirão. O pedido daquela voz, entretanto, fez com que cessasse os passos, estancando em plena rua, e que voltasse a atenção e os olhos uma vez mais para trás. “A bola… Eles não vão me perdoar se eu não levar ela de volta. E eu não consigo subir até aí…”, disse a criança. Acostumado a andar sempre de olhos baixos, cuidando cada imperfeição do terreno, ele ergueu os olhos e viu o declive que o separava primeiro dos olhos azulados e cabelo louro desgrenhado do menino e, ao longe, de todo o bairro do Povo Novo, margem das sangas que levavam ao Rio Negro e aos limites da cidadezinha.

A vista cansada mal reconhecia, na planície estendida abaixo daquele declive abissal, os mesmos limites de praticamente quando era criança e que continuavam iguais. O mato de unhas de gato e espinilhos ainda estava lá, mesmo que quase reduzido a nada. Ao contrário de antes, quando poucas casinhas de madeira margeavam a rua principal de terra batida, estava agora o asfalto e, em torno da faixa dividida por uma risca branca intermitente, algumas dúzias de casas de alvenaria, comércio miúdo e um pequeno movimento de automóveis e carroças. Bem mais para lá, onde apenas adivinhava o que havia de memória, o que sobrara do matagal, do riacho e dos pequenos afluentes. Para enxergar a claridade daqueles pequenos olhos desesperados, todavia, sua vista ainda era o suficiente. E a mente ainda límpida para perceber que o dono daquela voz estridente como a de uma menina não estava inventando ou imaginando sobre estar em perigo por causa da bola. Não seria uma bola e não seria por ele preferir atravessar as ruas quase incógnito que daria causa à estupidez dos moleques da rua, cujo comportamento ele conhecia bem.

Então, ao passar-lhe a bola com as mãos, cuidou mais de olhar bem de perto a expressão da criança que o aguardava inquieta que propriamente em ser rápido. A despeito da gritaria e do alvoroço que os outros faziam ao longe, ele queria certificar-se do que a intuição estava lhe dizendo sobre aquele menino. E em meio aos gritos dos que já ensaiavam vir tirar satisfação pela demora, ele perguntou: “Como é o teu nome, meu filho…? Nunca te vi antes aqui…”

“Anda velho! Devolve logo a bola!”, gritou ao longe um dos outros, que estavam ainda mais abaixo no declive. Também por reconhecer a voz, ele sabia de quem se tratava: era o neto do seu Amaro Almeida, dono do armazém do quarteirão acima onde ele eventualmente fazia compras, porém não mais a crédito como antigamente, isso porque o seu Almeida também nunca fora justo no preço e metido a valentão, assim como o seu filho falecido e também agora, pelo visto, este seu neto. O menino, franzino quase um fiapo de gente, segurou a bola entre os dedos compridos e fez menção de ir de uma vez e, na sua ida atrapalhada, descendo aos solavancos do barranco onde estava, teve tempo de responder ao seu interlocutor: “É Rafael. Meu nome é Rafael dos Santos Jacinto, mas eu preciso voltar duma vez se não vão me matar…”, mas as últimas palavras do nome e do que veio após dele ele mal pode ouvir. Apenas conseguiu perceber com algum espanto que ele tinha o seu mesmo nome, mas podia quase ter certeza de que aquele sobrenome não era de ninguém que vivesse nas redondezas. Não que pelo menos ele soubesse.

Um tanto paralisado ou mal começando a ensaiar os passos de seu retorno, estava espantado por não ter lembrança de quem pudesse ser aquela criança esquálida e nem por associar sua lembrança a de algum conhecido ou vizinho; depois dessa breve hesitação, conformou-se em ir-se embora dali sem respostas para a sua dúvida, mas sem conseguir deixar de conferir os tapas na cabeça que os outros, no campinho, desferiram no menino que não esboçava qualquer reação a não ser baixar a cabeça e seguir-lhes os passos, ao retomarem o jogo de futebol, capitaneados pelo neto do seu Almeida, o valentão do bairro e das redondezas.

Sem o que fazer mais por ali, apenas continuou seguindo o seu caminho, igual a como fazia dia sim e dia não, quando atravessava o bairro e dirigia-se ao centro da cidade para conferir a loteria e aparar a barba com o auxílio das mãos menos trêmulas dos barbeiros e seus aprendizes. Além disso, era lá, no Salão Boeira, que ele se encontrava com os velhos conhecidos que ainda alternavam-se nas poltronas hidráulicas do salão. Com eles, gastava bons minutos falando mais de política que de futebol, assim como de tudo o que não mais havia para fazer na cidade, culpa do progresso que foi arrebatando ano a ano o cinema, o teatro, o passeio nas praças e tudo, reduzindo a vida a estar dentro de um automóvel ou dentro de casa. Ele e os outros aposentados que se reuniam no Salão pareciam às vezes que fossem uma pintura, de irreais, ou uma resistência à retaguarda no presente do pequeno município de Rosário. Eram praticamente os últimos pedestres de longa distância de toda a cidade, isso que aqueles que tinham família eventualmente falhavam, restando cada vez menos entre todos, descontando-se os dias em que chovia, porque nenhum deles era tolo de arriscar-se à toa.

Por ter de concluir ainda sua caminhada de volta a casa, ele sentia-se cansado até para conjeturar. Pensava em encontrar sua poltrona e o jornal com a leitura inacabada ainda dobrado meticulosamente sobre a banqueta de pés seria seu chamariz para o cochilo das onze da manhã, que em sua imaginação ou como pretexto pessoal, serviria para abrir o apetite. Assim que entrou em casa, contudo, pressentiu que não teria a paz necessária porque, logo ao sentar-se, escutou tocarem a campainha e aquilo era tão incomum àquela hora da manhã que simplesmente concluiu que se tratava de algo que não podia prestar. E foi com essa convicção que se viu compelido a abdicar do seu hábito para atender quem o chamava, sem ter qualquer ideia de quem pudesse ser.

“Mas que verdadeira bosta! Não se pode mais descansar?”, resmungou sozinho ao procurar colocar-se outra vez em marcha. Dentro de casa, absolutamente ninguém para testemunhar sua lamentação, nem sequer um animal de estimação.

Duvidando que o imprevisto visitante persistisse, chegou a estancar os passos e pensar em voltar ao seu intento original, mas à porta bateram novamente e aquela voz fininha como a de um pássaro incomum pareceu atravessar as frestas da esquadria de madeira dizendo quem era e porque estava ali. “Sou eu, o Rafael… O senhor pode ser rápido, por favor? Não consigo mais ficar em pé…”, a voz sussurrava do outro lado da porta, mas num tom de voz que lhe permitiu entender que o que havia ali era uma calamidade e que não seria digno, mesmo de um velho como ele, negar ajuda a uma criança que aparentava sofrer e pedia por socorro. O seu socorro pessoal, especificamente.

Não que ele fosse sentir-se um herói por auxiliar uma criança em perigo e sofrimento, não era alguém que precisasse disso, mas por reconhecer ou imaginar, talvez, a natureza da dor de uma criança como aquela, fez o que não fazia a mais tempo que poderia lembrar: correu apressadamente até a porta. Sem notar que nesse meio tempo um temporal se armara e uma chuva torrencial tornara-se iminente, percebeu apenas o olhar triste daquele pequeno anjo desamparado que parecia estraçalhado ali, junto ao rés do chão onde se aninhara e de onde mal conseguia erguer os olhos. Com muito custo, contrariando a rigidez lombar obtida em anos de escriturário e as dores crônicas da coluna, ele agachou-se e recolheu do chão aquele menino que mais parecia um pequeno pássaro abatido por um caminhão, mas não tinha sido um caminhão e ele por certo era a primeira pessoa a dar com a frágil criatura naquela situação que ele não queria nem imaginar direito qual pudesse ser.

A criança enroscou os braços em torno do seu pescoço e soluçava compulsivamente, sem qualquer condição de narrar o que teria lhe acontecido. Com os olhos muito próximos um do outro, sabiam haver entre si um parentesco não declarado e podiam ambos ver a liquidez profunda boiando mutuamente em suas retinas, como se no reconhecimento de que poderiam ser a mesma pessoa até, não fosse ele um pobre velho e a criança alguém com muitos anos de vida ainda pela frente.

“Meu anjo, mas o que lhe aconteceu?”, ele pensou em dizer, mas reteve as palavras porque sabia que o menino não poderia lhe dizer. A verdade é que sentia, além das roupas molhadas da chuva, uma viscosidade escorrendo entre as pernas da criança, misturando-se ao braço que o sustentava sob os joelhos. “Mas isso não pode ser…”, ele chegou a murmurar sem que o menino pudesse lhe ouvir, porque desmaiara em seus braços, sobrecarregando-lhe o peso e quase levando os dois ao chão, porque suas pernas vacilaram diante do corredor que dividia a pequena casa em duas: de um lado a saleta de descanso e a cozinha; do outro, o quarto de dormir e o banheiro.

Parado ali, tomado de horror e indefinição, não sabia absolutamente o que fazer. O socorrente agora tinha mais necessidade ou tanto quanto o socorrido. O certo a fazer talvez fosse abrir a porta ou a janela e gritar por ajuda, mas para quem? Em meio ao temporal, não haveria ninguém que se atrevesse a andar pela rua e o vento por si só impediria que abrisse a persiana de madeira que dava justamente para onde poderia andar algum passante. Sentindo o vento no rosto e vendo os cabelos do menino movendo-se por sua ação, tamanha sua força, decidiu por levá-lo a banheira e lavar seu corpo ferido, tomando o cuidado de verificar antes sua respiração que agora parecia leve como a de um anjo que dorme, sem culpa nenhuma de nada, como qualquer criança aparenta ao dormir.

Pensava em quem teria feito aquilo e imediatamente lembrou-se imediatamente das outras crianças do jogo de bola, especialmente o neto do seu Almeida, que lhe parecia insuportável mesmo à distância. Porém não tinha quaisquer meios de comprovar sua desconfiança. Além do mais, daquele momento na rua até aquele um bom tempo havia se passado. Tempo suficiente para uma tragédia passar-se em qualquer lugar, perpetrada por qualquer pessoa. “Um crime… Quanta monstruosidade, meu Deus…”, ele pensava alto enquanto despia a criança e o colocava cautelosamente dentro da banheira, sem imaginar a extensão e profundidade dos ferimentos que tinha ou o que havia lhes causado. Sem automóvel e sem telefone, só lhe ocorria sustentar a cabeça do menino para fora da água, sem lembrar-se ou perceber que o contato com a própria água poderia agravar ainda mais a hemorragia.

O tempo que passou a seguir não foi muito, mas também não foi pouco. Sem ter feito seu descanso nem sequer ter almoçado a comida que a vizinha preparava e lhe vendia de dois em dois dias em viandas, estava fraco de repente até para erguer-se nas próprias pernas. A ideia de clamar por ajuda, mesmo se ainda chovesse forte, seria mais que razoável, entretanto não tinha como fazer nada a não ser tentar sair daquela situação de alguma maneira e evitar que uma tragédia inominável viesse a acontecer sem que ele tomasse qualquer atitude, pelo qual já se culpava e lamentava em gritos que se fizeram ouvir através da janela e pelos quais essa vizinha que lhe fazia as viandas e que morava ao lado da sua casa entendeu por acudir, acreditando estar acontecendo um assalto ou sabe-se lá o que ela conseguiu pensar a respeito. Interessa saber que foi ela a providenciar um chamado à polícia, que não tardou em chegar e atravessar a porta aos pontapés, cientes apenas de uma suspeita terrível e imprecisa que se lhes denunciaram.

Ao encontrarem-no de cócoras, ao lado da banheira, foi impossível saber-se o que os policiais entenderam, mas as medidas que tomaram foram remover a criança imediatamente para o hospital e ele para a delegacia. Lá, às perguntas que lhe fizeram, ele não tinha como responder a nenhuma delas e isso por si só selou a suspeita de que, se algum crime ocorrera, teria sido por sua ação, já que a criança não era conhecida de ninguém e não podia testemunhar, porque estava desfalecida ao chegar ao Pronto-Socorro e provavelmente custaria muito a falar, ainda mais em dar explicações.

Se existia alguém que poderia salvá-lo daquilo, era alguém que não podia falar e seu testemunho, vindo de um velho solitário e recluso, era por si só suspeito. Ocorreu-lhe pedir a ajuda dos outros poucos velhos que se reuniam no salão do barbeiro, mas a verdade é que nem tinha certeza se ainda havia mesmo algum que frequentasse o lugar ou se aquilo era uma obra que a sua memória gasta tentava inculcar-lhe, fantasiando com outras. Não sabia, simplesmente. E isso era tudo o que conseguia dizer ao delegado cada vez mais convicto de sua culpa: “Eu não sei… Nunca vi antes essa criança… Mas como eu não abriria a porta numa situação assim?”

O delegado, no mesmo dia, mandou fazer buscas dentro e em torno da casa, a fim de localizar evidências. Por via das dúvidas, o velho ficaria ali preso. A única cela viável para ele passar talvez uma apenas uma noite, se tivesse sorte de encontrar-se prova de sua inocência, estava ocupada por um homem jovem, de cabelos louros como os seus. Exaurido, sem nenhuma energia, deixou levar-se à cela e lá encontrou para procurar descansar o corpo desmontado de dor apenas um banco de madeiras cruas e cheias de felpas, cujo encosto era a própria parede nua. O outro ocupante estava como que amontoado no chão, com as pernas enroladas pelos braços e onde escondia o rosto. Mais que qualquer outro suplício, talvez por um senso de cordialidade ancestral, sentiu-se compelido a iniciar uma conversa e estremeceu da ponta dos pés ao último fio das cãs só ao ouvir o som rascado da primeira sílaba daquele nome amaldiçoado pela segunda vez, num dia mais triste que o inferno, da boca de mais um desesperado. E quando seus olhos finalmente se encontraram, ambos choraram o que a cada um pareceu que pudessem ser até as mesmas lágrimas.

O insepulto

Conto publicado na Ed. 1.368 (setembro/outubro de 2016) do Suplemento Literário Minas Gerais, entre as páginas 17-19. Para acessar, usar o link abaixo:

suple2

Ou leia a seguir:

“Que esperança! Se acertei uma boiada, não aceito um animal a menos!”, disse o comprador do Frigorífico Santa Úrsula, homem retaco e calvo que só faltou espumar diante dos homens que trouxeram as vacas que ele acertara com o seu Arlindo de Menezes, naquela que era a sua última ponta de gado. O estancieiro estava liquidando um a um os rodeios após vender a propriedade, cujo destino seria servir para a plantação de eucaliptos, cultura que chegava à região a fim de alimentar a indústria da celulose. Por dois dias consecutivos, quase todos os seus animais foram transportados e finalmente embarcados rumo ao frigorífico e o serviço nem tinha sido tão penoso quanto os compradores imaginaram, apenas demorado, porque o transporte fôra todo feito a cavalo. O gado do velho homem minguava há tempos e, entre as vacas da última tropilha, vinham também bois velhos, refugados por qualquer motivo, mas que por condescendência os compradores aceitaram carregar junto. Esta, aliás, era uma das razões do atraso todo.

A dificuldade maior em fazer o transporte pela estrada residia em que os campos do seu Arlindo eram muito interiorizados e, por isso, o ajuste com tropeiros a cavalo fôra indispensável. Não havia caminhão que pudesse fazer aquele caminho de forma mais expedita, ainda mais em agosto, quando o barro inutiliza as estradas vicinais de chão batido. Provavelmente por ter se cansado da espera, o homem parecia impaciente. O transporte dos animais já durava cerca de três dias de trabalho ininterrupto dos peões que iam e vinham por dentro dos campos vizinhos do seu Arlindo, como os tropeiros de antigamente, e precisavam fazer grandes voltas em campos onde muitas vezes já não existia mais ninguém para dar passagem e apenas o matagal principiava a florescer, dando amostras da primavera que se anunciava.

Ao contar o gado pela terceira vez, na mangueira improvisada, o homem do frigorífico parecia estar fazendo o maior trabalho da face da terra, porque não podia falar sem dar escândalo ou esbravejar. Os peões se entreolhavam e até duas crianças que estavam acompanhando o pai no serviço percebiam o exagero nos gestos dele. Ele claramente valorizava-se, porque de longe, numa caminhonete estacionada junto à mangueira que o frigorífico alugou para receber o gado que andava comprando naqueles dias, encontrava-se outro homem a quem aquele parecia dedicar sua atenção e explicações; um seu superior: gerente ou alguma outra função superior a que ele exercia.

Este homem, depois de falar um instante ao telefone e fazer anotações num pequeno bloco de notas, sob a sombra rala de um cinamomo, chamou o outro para perto de si e qualquer um que andasse ali perto teria ouvido o final da conversa, que se deu quase aos gritos. “Pois mande um deles no caminho de volta. Este boi velho deve ter ficado por aí, se misturado com o gado nos campos de alguém ou se escondido…”, disse o sujeito. O comprador concordou tapeando-se a testa, como se estivesse a dizer a si mesmo: “Como não pensei nisso?”. Porém não pensara e, ajeitando-se na japona quadriculada, estendeu a mão para pegar da cuia de chimarrão que o outro lhe alcançava. Eram colegas de firma, estava visto. E provavelmente teriam de arcar com o prejuízo do extravio se ninguém encontrasse o animal ou então tomar outra providência. De longe, mais ou menos longe, eles observavam os homens que, apeados, dali poderiam dispersar-se para a cidade, porque o seu serviço estaria concluído. Bastava dar-se o pagamento e “tchau e gracias“.

Os tropeiros improvisados tinham um fogo incipiente no chão onde aqueciam duas cambonas de água e uma panela de ferro em que era fervido um cozido de charque e batatas, preparado pelo mesmo homem velho que distribuía de mão em mão a cuia de mate. Alguns cuidavam dos cavalos, ajustando arreios ou apenas observando para que não fossem pastar longe demais. Com exceção de Anastácio, que mantinha o palheiro sobre uma das orelhas, todos fumavam. Até os dois meninos ainda pouco crescidos fumavam cigarros de marca. Um ou outro tinha uma sacola de fumo em ramas, e faziam cigarros enrolados em papel acetinado; o velho Anastácio era o único que sacava da faca para picotar o crioulo, enrolando-o vagarosamente na palha. Enquanto os mais novos tragavam expressamente, o velho fazia tudo em etapas, parecendo bem mais atento à comida que preparava, reacendendo o pito apenas quando não precisava mexer nas panelas ou usar as mãos em outra coisa.

Eles conversavam baixo e calaram-se ao perceber que mais uma vez o comprador vinha falar-lhes, mas ele vinha sem a bolsa de dinheiro nas mãos. Embora os mais velhos conhecessem e já tivessem estado a serviço do Seu Arlindo para uma tropeada rápida ou outro serviço ocasional, não gostaram de saber que seu pagamento estava ao encargo, dessa vez, de estranhos. Como não tinham escolha, aceitaram. O serviço andava difícil e a cidade prometia cada vez menos, tirando-se pequenos serviços e muitas chances para entreveros no pequeno comércio das periferias.

Buenas, indiada… Tá faltando um boi nas conta. E vou les dizer… Ou descontamos da paga ou…”, ele nem chegou a falar e o cozinheiro, o mais velho entre todos, como se estivesse esperando o anúncio, adiantou-se: “O senhor não se apoquente… Eu já me vou buscar este animal. É um dos bois velhos… Sei onde ele pode ter ficado… Me dê só até o fim da tarde para regressar com ele, que tal pro senhor?”

O comerciante estava visivelmente contrariado e, sacando do telefone, consultou outro colega, não o que continuava suas anotações dentro da caminhonete, mas alguém que estaria provavelmente longe dali, na sede do frigorífico, sabe-se lá em que cidade isto ficasse. Desde lá, recebeu alguma ordem e ruminou mentalmente como dizer ao velho, nitidamente respeitado por todos os demais. Desligou o telefone e anunciou: “Pois o senhor pode ir. Mas… Se não voltar até o fim da tarde, nós vamos embora. Deste modo, que o boi velho então será seu… Nos acertamos?”

Entonces está mui bien…”, disse o seu Anastácio Nunes, no seu portunhol. O homem voltou à caminhonete e o tropeiro ao seu mate e à sua panela de carreteiro. O palheiro continuava a dormir sobre a orelha.

Dos homens que o seu Arlindo conseguira reunir para o serviço, o único do qual ele se lembrava era justamente o velho Anastácio. Incontáveis vezes ele estivera cruzando aquelas coxilhas e por um tempo fôra seu capataz, por isso quase nem era mais anunciado pelos quero-queros que o sabiam tão comum por ali quanto os pedregais que apontam de Caçapava ou Lavras, parecendo às vezes que poderiam a qualquer momento despencar ladeira abaixo. Desta vez, até crianças vinham em companhia dos mais velhos, duas ao total, apesar de que o seu Arlindo não gostasse muito de ver criança em serviço. A presença do seu Anastácio entre os tropeiros foi o que fez com que ele cedesse. De mais a mais, o gado já não era mais seu e nem suas eram aquelas coxilhas, cerros e sangas, então não estava mais se importando muito com nada.

Antes de soltar o gado na invernada dos fundos, rumo dos campos do seu compadre Maneco Freitas e dali para o corredor, o seu Arlindo postara-se ao lado do velho peão, para a última contagem do gado. Do lado oposto da cancela, estava uma das crianças, que talvez até fosse neto do seu Anastácio, porque tinha a mesma pele cobreada e lustrosa, os olhos escuros e os cabelos retintos escapando por um boné amarelo, que mais lhe realçava a tez. Todavia, todos aqueles homens tinham essa aparência. Ele visivelmente perdera-se nas contas, mas os dois homens velhos não.

“Este boi velho vai também, Anastácio… Tem paciência com ele, o coitado…”, disse o estancieiro. “Vai le doer sair da querência…”, o peão respondeu, continuando a seguir: “Mas eu ponho o guri no seu costado e tudo vai andar bem, o senhor não se preocupe…”

A mangueira foi esvaziando-se rapidamente entre gritos e assovios dos tropeiros, erguendo a polvadeira composta por terra, esterco e pedregulhos que caiaram mais uma vez as tronqueiras e moirões dali. O seu Arlindo caminhou de volta ao automóvel onde se encontrava seu único filho. Era com quem iria viver de agora em diante, na cidade. Por não querer flagrá-lo no momento triste de dar adeus ao lugar, o velho Anastácio não virou a cabeça nem puxou as rédeas do seu cavalo, mas sabia que o outro só podia ir de cabeça baixa, sem ter ideia certa de para onde mesmo se dirigia, com a única certeza de que não estaria mais ali, na Estância do Angico, mais uma a ser tomada pelo cultivo de eucaliptos.

Seu Arlindo tomou o rumo da estrada à direita, ao contrário da tropa, que foi para a esquerda. No seu caminho, a poeira que encontrou foi causada pelas patrolas da prefeitura, que vinham no sentido contrário, em mais uma arrumação provisória da estrada. E, depois, a solidez escura do asfalto e a cidade.

A tropilha de vacas era de tamanho mediano e exigia atenção dos condutores. Tinha duas madrinhas que disputavam entre si a liderança da manada e por isso mesmo volta e meia dispersavam, principalmente quando se derribavam de uma coxilha mais alta ou de um cerro. Os dois ovelheiros acoavam de longe, mas eventualmente era preciso que um dos homens pegasse a galopear, a fim de conter um estouro maior ou o encontro com o gado dos campos por onde passavam. “Pega, guri…”, costumava dizer nesses casos o velho Anastácio, dirigindo-se aos meninos para que eles corressem em seu lugar, porque ele mesmo já não corria, apenas seguia a trote, culatreando a tropa. Ao ouvir aquilo, os meninos pareciam desembestar e varavam os campos como flechas. No mais das vezes, eles levavam os animais no costado do aramado, ora feio e judiado, ora caprichado, justamente quando lindavam com os arvoredos novos.

Não era a primeira vez que crianças acompanhavam uma tropa a comando do seu Anastácio e, para elas, muitas vezes o seu cavalo tordilho parecia ter um jeito mágico de aproximar-se das vacas. Muitas chegavam a crer que o animal falasse com elas, porque elas simplesmente aprumavam-se à sua aproximação. Ou era a voz do homem, talvez. Na maior parte do tempo, eles viam aquilo acontecer diante dos seus olhos sem entender nada, porque entretinham-se mais mesmo era com as suas correrias. O velho gostava de dar com os olhos na criançada, bem como uma vaca com cria olha satisfeita para a sua prole. Ao perceber, entretanto, que desta vez uma delas havia deixado um dos bois velhos de lado por descuido, lastimou-se, culpando-se por delegar a crianças um serviço que requer paciência e atenção, como é o de acompanhar gado velho, ainda mais de um animal que não quer se bandear em viagem.

Precisando decidir com rapidez o que fazer, acabou optando por acompanhar os demais. Os outros não podiam prescindir dele, afinal também era o cozinheiro e levava nos arreios os avios do mate, cambonas e até o charque para o almoço. “Antes um boi que a boiada”, pensou alto antes de seguir os demais rumo à sanga forte, no potreiro vizinho aos campos do seu Maneco Freitas, a meio caminho de chegar à estrada. O boi ficara por ali ou escondera-se num capão de mato. Fosse como fosse, não era hora de pensar muito nisso, mas de tocar a tropilha para a frente em direção ao seu último destino.

Mais tarde, ao decidir seguir de volta para buscar o boi estropiado, Anastácio imaginava saber por onde o animal seguira ao perder-se do controle de um dos meninos. Ou imaginava que o boi, tão velho quanto ele, reconheceria o seu assovio e daria as caras dentre as árvores de algum mato de sanga.

O velho changueiro, acostumado a palmilhar cada touceira daquele lugar, sempre a serviço de outros, ganhou os campos logo ao deixar a cidade, a trote, permitindo que os demais levassem o seu pagamento e, porque não gostava da companhia de cachorros, ia sozinho, emitindo ao assovio uma velha toada que aprendera de seu avô: a única que guardara de memória e que aprendera ao acompanhá-lo em tropeadas de outras dimensões e distâncias, muitos anos atrás.

Ao lado do empedrado, era naquele lugar escondido por uma canhada que logo dava início um longo platô entre as coxilhas onde ele imaginava que o boi fôra esconder-se. O lugar se estendia até a curva que o antigo corredor fazia com campos vizinhos pertencentes aos netos ou bisnetos desse Joca Tavares que dava nome ao lugar e, mesmo próxima à estrada nova, era de difícil acesso, porque sobrevinha de uma biboca. O peão subiu com calma o alto declive sinuoso e teve dó do tordilho por estar lhe promovendo aquela canseira toda.

Se custasse a encontrar o animal perdido, dali a pouco sobreviria o crepúsculo e logo a sombra se espalharia sobre a súbita planície, porque a noite chega rápido no inverno. Talvez ele já soubesse que seu tempo de voltar em tempo de receber o pagamento pelo boi se acabava. Encontrar ou não o boi extraviado, agora sua propriedade, a essas alturas dava no mesmo. De um dos tentos que tinha preso aos arreios, ele foi buscar uma vasilha pequena onde guardava água fresca e tomou um gole que lhe pareceu até gelado demais, por ter estado por um longo tempo junto ao corpo do cavalo. O calor sutil que o dia ensolarado depusera nos campos aos poucos se desvanecera dando lugar ao frio trazido pela aragem do sul. Num atino, o velho pensou em acender o fogo ali mesmo e tapar-se com o poncho para passar a noite, como por muitas noites fizera, mas o cansaço impedia seus movimentos, além da friagem ir encarangando-lhe pouco a pouco o corpo todo.

Não fosse o pedregal que formava quase uma parede, seria impossível resistir sem um fogo de chão, mas ele tinha vontade apenas de acender o seu crioulo e ficar imaginando onde estaria o boi velho, para ir buscá-lo no outro dia. O cansaço impedia movimentos maiores e, alternando os lábios entre o assovio da toada que insistia em permanecer saindo da sua boca e do palheiro, Anastácio voltou a olhar para o lugar, comum e familiar em tudo, com o cigarro tostando seus lábios sem que ele, de repente, atinasse até de cuspi-lo fora.

Graças ao enguiço das patrolas da prefeitura que remendavam a estrada pedregosa, no outro dia bem cedo dois patroleiros perceberam na planície elevada, próximas daquele amontoado de pedras coberto de líquen branco, alguns objetos esparramados no chão e ambicionaram-nos. Coisas perdidas e sem dono que eles faziam o favor de recolher ao tempo em que atravessavam a estradinha, para lá e para cá.

A dupla estacionou a patrola e o pequeno caminhão no vão entre o arame e o caminho de terra e adentraram-se nos campos sem dificuldade, alçando a perna entre os fios esticados. Os objetos que recolheram num saco de estopa eram miseráveis, bem como a qualidade dos arreios e cordas que um cavalo perdera por ali, sabe-se lá em que condições, porque eles esticaram os olhos em volta, mas de imediato não viram nem rastro do animal. Um deles, mais corpulento, ao topar com uma cambona escurecida e amassada, depositada no chão, deu-lhe um pisão, decerto por avaliá-la mal. O outro deu um chute em uma pequena bola enrolada em couro desgastado, possivelmente uma pedra, presa a um tira de couro que voou para ali perto.

Ainda assim, já desmotivados porque julgaram precipitadamente que teriam melhor sorte nos achados, subiram um pouco mais a encosta empedrada. Todos diziam que, naquele lugar, era possível enxergar-se os limites de quatro municípios: Bagé, Dom Pedrito, Lavras e, bem mais distante, as pontas ao sul de São Gabriel. “Vamo lá?”, perguntou um deles, já no caminho da subida. O outro, a quem não restavam muitas opções, foi subindo também.

Num dos lados do pedregal, lá em cima, antes mesmo de olhar para aquelas lonjuras, os dois encontraram um boi de aspas imensas que jazia com uma pata presa no lajeado e porque grandes corvos e alguns caranchos começavam a dar conta do cadáver, decidiram afastar-se e dar meia volta, em resmungos e em combinações de olhar, quase sem dizer nada.

Um pouco abaixo, na direção do sol nascente, estava o cavalo que perdera parte dos arreios e não saía do lugar. Um deles desceu para tentar sujeitar o animal, mas o cavalo não permitiu que tomassem das rédeas amarradas em torno ao pescoço e acabou desabalando-se canhada abaixo, num galope desconcatenado que parecia ir desabar e desmontar-se todo. Nenhum dos dois homens sequer cogitou em persegui-lo e nem tinham ideia de para onde ele poderia ir, se para um capão de mato ou para as plantações de eucalipto que proliferavam na paisagem, entre porteiras abertas. E como os corvos e tatus dão jeito apenas em vísceras e desprezam carne dura e osso, os dois cadáveres terminariam mesmo daquela maneira e nunca mais seriam vistos, de tão escondido o lugar, se ninguém mais os fosse buscar.

Uma pequena fábula silenciosa

corticeira

Contam que a sua alma era tão silenciosa que ela podia ouvir até a desafinação das linhas de um caniço ao pescar lambaris. Ela chegava às suas conclusões calculando a razão entre o abaulamento da corda e a velocidade do vento, que descobria através da quantidade de folhas que caía das corticeiras ou dos fios de cabelo que acabavam dentro da sua boca, jogados lá por esse mesmo vento, essa criatura indomável. Sua boca era tão quieta que ela falava pelos olhos e era por eles que também conseguia escutar. Para viver, usava mais os sentidos que os pensamentos, como um animal selvagem. Os peixes que ela pescava eram tão pequenos que todos os demais pescadores os desprezavam e riam do seu minúsculo tamanho e ameaçavam oferecê-los aos bicos dos pintassilgos, mas mesmo estes preferiam o tamanho e o sabor ralo das formigas e cascudinhos. Normalmente eles serviam de isca para os pescadores tentarem peixes cada vez maiores. Era disso que os tentava secretamente salvar. Então ela ficava olhando os peixinhos no côncavo das mãos e eles iam entrando mais para dentro das poucas gotas de água que sua prudência escassa encontrava de juntar, até que parecessem agonizar de sede, diminuindo, diminuindo.. Como estava longe dos rios e aguadas, sentada sobre uma pedra inalcançável da qual ninguém sabia o paradeiro, onde ia para pensar em nada e debater com a criatura que mora dentro do vento, temeu tanto pelos pequenos lambaris que quase se desesperou. Naquele momento sofrido, o vento se apiedou dela e, de encontro a um canavial ali perto, começou a cantarolar uma melodia mais triste que a tristeza. Ela ouviu impassível, mas quando sentiu o que o vento queria provocar-lhe, lágrimas correram pela face e jorraram de seus olhos como numa cachoeira, até encontrar a palma de suas mãos. Os pequenos peixinhos não cessavam de minguar, quase desparecendo, mas ao toque salgado das gotas encontraram forças para subir através e foram morar lá dentro dela. Naquela água escondida.

Uma pequena fábula gigantesca

cabras

Contam que numa tarde remota de um tempo mais remoto ainda, o gigante Golias foi visto cuidando de uma cabra doente que havia se perdido da companhia cautelosa de seu pastor, que teria desabado de sono após um mês ininterrupto de pastoreio forçado. O gigante estava numa de suas muitas peregrinações pelo Neguev, quando testava sua resistência física à fome e à sede e viu a cabra extraviada pastando no que a princípio lhe pareceu ser um oásis e que, logo a seguir, se confirmou como um oásis mesmo. Numa cena que tempos mais tarde lhe passou pela cabeça, pouco antes de receber em plena testa a pedrada do futuro rei Davi, ele viu a si mesmo, como se fosse um deus, fazendo uma concha com a palma da mão e colocando gotas de água dentro da boca da cabra sedenta. Mas isso, contam as cabras, foi uma cena que passou pelos olhos dela antes de ser trucidada pelas mãos do gigante famélico, que viu nele o que ele não era e foi somente depois da ocorrência de tais fatos que se criou o significado para a palavra miragem.

Uma pequena fábula joaninha

joaninha2

Contam que ela tinha tanto carinho pela vida que resolveu viver no pátio da casa, junto às coisas que as pessoas fizeram trastes. Bem cedo de manhã, no orvalho que se depositava nas madeiras das cadeiras quebradas, no metal das latas furadas ou no verde das folhinhas do jardim mal cuidado, ela lavava as mãos e o rosto, cuidando de não fazer um ruído sequer que atrapalhasse o sono das pessoas dentro de casa. No pátio, viviam outros bichos também. Um cão atropelado que dependia totalmente dos outros. Passarinhos que tinham ninho no telhado carente de conserto. Até uma comunidade militar de formigas que às vezes doava gentilmente algumas folhas para o húmus da terra. Lá pelas sete horas da manhã, todo o dia, uma velha senhora abria a porta do pátio e olhava para cima, adivinhando o clima que iria fazer, e olhava para baixo, como se procurasse alguém que estivesse ali escondido ou passando ou dormindo. O cão virava os olhos em sua direção e sacudia o rabo, mas em seguida se acomodava novamente. Ela, paralisada, esperava que a velhinha voltasse para dentro de casa para continuar sua higiene. Às vezes, dormia na casa da velhinha uma netinha sua, criança de seus oito anos. Ela acordava mais cedo que a avó e, mais cedo ainda, já estava a correr pelo pátio, numa insolência que todos os bichos toleravam. Apenas a joaninha não aguentava que interrompessem o seu rito, ainda mais com dedos apressados, e saía voando.

Uma pequena fábula ribeirinha

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Contam que o vento deu sete voltas na capoeira, antes de chegar às palafitas, para avisar que era hora de as crianças irem para dentro de suas casas. As mães chegavam às janelas e contavam na poeira do chão batido as pegadas de seus filhos e descansavam. Quando uma delas distraiu-se, uma criança bem pequena – pela altura de uns quatro anos de idade – achou de procurar um pedaço de qualquer coisa que se escondia no meio da escuridão que a chuva fez. A chuva choveu e, quando ela vem desse jeito, ela alaga e invade tudo que vê pela frente. Quando a pequena caiu e a torrente já quase a levava embora, foi que sua irmã com cara de lua percebeu a tragédia e pulou dentro da água. A lua crescente que morava sempre em seu sorriso então brilhou, fazendo com que tudo lá embaixo se iluminasse e a pequena pudesse lhe alcançar a mão, pulando fora dali. A água tinha sede e fome de luz e, através do sorriso de lua, achou um jeito de guardar consigo um feixe de luz que a lua dá e que a menina tinha na boca, misturando-se ao seu corpo franzino. A água é boba, pensou a menina, não pode pegar a luz; a água, que não era boba, pegou. Só não pegou e levou consigo a lembrança da bravura da menininha. Que a bravura nem a água não leva e essa ficou na lembrança daqueles que jamais lhe esqueceram. Uma iara perto dali logo pegou a menina para sua companhia e, quando a lua faltava no céu, ela parava de cantar e lhe contava histórias sem pé nem cabeça. E a menina enchia o lugar de luz e de sorrisos.

(Baseado nesta notícia.)

Uma pequena fábula budista

Contam que o Sakiamuni tinha grande amor pelos animais. Que os elefantes se enfileiravam para o levar nas costas. Que as formigas disputavam para limpar o terreno de todo obstáculo diante de si, até se prenderem nas teias ímpares que as aranhas teciam para que ele, nelas, repousasse os pés. Antes mesmo de entender a necessidade da compaixão, o buda se deitava na relva para brincar com o Destino e com o Tempo, seus dois gatos, livre de qualquer ambição e com um sorriso entre os lábios que poderia suspender até mesmo o sol no horizonte ou as intenções de Mara. Ao contrário de seus seguidores, o Sakiamuni nunca meditou em silêncio. Dentro de si, uma grande gargalhada de felicidade vazava por seus poros numa miríade de borboletas que cultivava sem saber e que tinham, cada uma, um nome diferente para o amor. Sua grande lição, até hoje mal compreendida, insiste que se procure sempre a fonte daquele riso, extirpada pelo uso danoso da razão. Algumas pessoas, com olhos de buda, conseguem isso com uma facilidade que costuma espantar aqueles que andam por aí caçando borboletas.