Curso para Facebook

Perto aqui de casa, a avenida João Pessoa é em tudo resumitiva da pobreza que nunca se concretiza, que é claudicante, que se demora em prédios que vão se arruinando ano a ano e sem qualquer reparo. Ao mesmo tempo, é avenida das mais rápidas de toda a Porto Alegre. Ônibus nos dois sentidos são atravessados pelas ambulâncias apressadas rumo ao Pronto-Socorro o dia inteiro. O parque que desde o tornado ficou mais capenga e o pequeno comércio dos briques a mercantilizar móveis de segunda mão, roupas usadas e a normalizar o pequeno furto fazem um cenário depauperado que nunca figura nos cartões postais da cidade, mas que sempre esteve ali e dessa mesma forma: como uma paisagem condenada a permanecer exatamente assim pela cidade e seus habitantes. Foi num desses pequenos comércios que se deu a tragédia da Juliana.

A Juliana é a zeladora do meu prédio vizinho, trabalha ali há tanto tempo que eu me lembre. Se moro por aqui há treze anos, a Marianna então tem treze anos também. Ela é a filha da Juliana e com quem, na verdade, tudo se passou.

Provavelmente foi ao saltar do ônibus que elas viram uma nova placa no andar superior do edificiozinho acanhado. Para a Marianna, o comércio da João Pessoa é o mais rico do mundo porque elas moram numa travessa aberta de um beco da Cruzeiro do Sul e lá o único comércio é o bar. No bar, elas são supridas por tudo o que precisam, menos a farmácia e o gás, que vem no caminhão do cachorrinho (é a marca do gás, um cachorrinho azul). Entre elas, falar do cachorrinho é sempre falar do caminhão do gás. Quando querem falar de um animal, elas dizem “cusco”. O pai da Marianna morreu no bar, engasgado com um pedaço de churrasco numa sexta-feira à noite. A ambulância não chegou a tempo. Não houve mesmo o que fazer pelo Antônio.

A plaquinha tinha uma promessa que veio a calhar com o presente que a Juliana lhe deu no Natal: um book para postar inteirinho e um curso para o Facebook com as fotos que ela tiraria com o celular. Para que mesmo serve um curso de Facebook? Foi o que ela se perguntou e não soube responder, mas queira muito ter fotos bonitas e convenceu a mãe a subir a escadinha estreita e conhecer o fotógrafo, cujo nome era Sebastian e nome estrangeiro, que sempre parece de coisa melhor.

“Dona Juliana”, ele teria dito com muitas gentilezas e um café em copinho plástico fervente. “É um investimento pra vida! Vai valer cada centavo! Sábado de tarde, no feriado, pode ser pra vocês?”, perguntou-lhes. Ficou ótimo, a Juliana mais tarde me contou. Seria folga do serviço e a previsão do tempo era ótima também. Eles aproveitariam vários lugares da cidade e uma grande surpresa ainda por cima. Segundo o Sebastian, “a cereja do bolo”.

No sábado, tomaram da linha Jardim Botânico e desceram no parque, parando em cada lugar e ele tomava fotos sem fim da Mari, que exultava de tão linda, nos seus trezes anos que pareciam vinte de tão grandona e exuberante. Dali, foram ao Shooping. Do Shooping à Praia de Ipanema e de lá a outro Shopping, Mc Donalds, fotos em frente às vitrines e até dentro dos provadores das lojas de departamentos, com roupas que não poderiam pagar porque o décimo terceiro da Juliana ficaria mesmo todo é com o Sebastian.

Na porta do Shopping, prontos a partir e depois de receber a instrução de postar as fotos ao longo do ano, a Juliana pagou cada centavo devido, conforme o combinado. O Sebastian já estava quase entregando o telefone de volta com as fotos e tudo o que tinha ali quando lembrou-se de que podia mesmo tentar com um amigo a entrada num clube ali perto, de gente rica. “Não tem foto igual àquelas”, ele disse-lhes já com elas seguindo atrás dele, rumo ao clube. Pelo telefone, ele conseguiu acessar o amigo, um certo Josualdo, e entraram pela porta dos fundos, na área de serviço do Clube Associativo Velejadores da Zona Sul.

Nem a Juliana nem a Mari viram, mas o Sebastian entregou uma nota enrolada ao tal amigo e apenas ouviram ele dizer: “Só não demorem!”

Eles foram caminhando por tudo, pela área verde, a grama recém aparada, o restaurante ao ar livre fechado (era feriado), piscinas e quadras de esporte. Quando decidiram fazer uma foto numa escadaria florida, o Sebastian sacou do telefone da Mari e não viu que por detrás dele chegavam dois seguranças do lugar. Antes da foto, a Juliana gritou-lhe que vinha gente, mas ele não teve tempo de desviar do soco e do empurrão que tomou, caindo ao chão. Ao longe, elas viram o tal amigo espiando a cena e fugindo entre as árvores, como um saci.

Na queda, salvou-se o telefone porque um dos sujeitos foi rápido em arrancá-lo da mão do fotógrafo que não teve remédio a não ser entregá-lo, com todas as fotos da Mari ali dentro. Sob a ameça de perder dentes e apanhar, foram embora do lugar. O aparelho estava perdido, mas não era tudo. Ali dentro, as fotos mais lindas que a Mari já tinha feito na vida.

“Eu lhe arranjo outro, minha filha, não te preocupa”, a Juliana procurou lhe confortar. “Eu faço tudo de novo pra ti, querida…”, prometeu em lágrimas o Sebastian. A Mari chorava, mas dizia apenas “Tudo bem, não se preocupem…”.

Três meses depois, feitas faxinas e outros serviços, a Juliana conseguiu comprar um celular novo para a filha no cartão que o supermercado lhe ofereceu, parcelado em dez vezes. Pelo menos tirou da cabeça a ideia do book, nunca mais desejou fazer de novo apesar da oferta da mãe e do Sebastian, que ofereceu descontos. “Não, não quero mais…”, ela disse. Ficou com o telefone e um dia encontrou as próprias fotos num anúncio de acompanhantes, mas nunca contou à mãe ou a ninguém mais. Nas fotos estava tão bonita que nem parecia ela e se admirava como se olhasse para dentro de um espelho quebrado e a outra, não ela, é quem lhe parecia feliz.

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Guri

Conto publicado na ed. 1.383 (março/abril de 2019) do Suplemento Literário Minas Gerais, entre as páginas 34-39.

Uma pequena fábula taoista

Contam que Laozi, o “nascido velho”, durante a dinastia Zhou em pleno Período dos Estados Belicosos, foi historiador, bibliotecário do Império e compilou de memória o Tao Te Ching, seu legado para a filosofia oriental e de todo o mundo. Um contemporâneo seu, chamado Sun Tzu, estrategista militar que nem sempre sabia como agir diante da violência dos clans e tribos que manchavam de sangue o país de dimensões continentais, algumas vezes foi ao encontro do ancião para aconselhar-se. Sun Tzu sabia do risco de encontrar o outro num estado de humor alterado, quando ele preferia simplesmente ler poesia ou caçar borboletas a meditar sobre o caminho perfeito. Ainda assim, por meio de uma tijoleta rejuntada apenas recentemente, soube-se que, de fato, houve um último encontro pouco antes dele montar num búfalo e partir da China para sempre. Na tijoleta, os ideogramas revelaram que Sun Tzu implorou por que o outro o esclarecesse quanto a melhor forma de apaziguar os ânimos dos conterrâneos e a quem dentre os contendores deveria poupar. Lá pelas tantas, teria chegado a exasperar-se, dizendo-lhe algo que, mal traduzido ao português, soaria como: “Mas mestre, todos estão esperando por sua sabedoria e, enquanto isso, vão acabar todos se matando como animais…” Laozi teria cessado seus preparativos para a viagem, erguido os olhos na direção do militar e dito-lhe: “Mas eu estou também esperando, general. Quando restarem apenas as pessoas sensatas, eu voltarei aqui e terei algo a lhes dizer.” O general finalmente entendeu o caminho dos pensamentos do homem e desistiu de vez daquela filosofia, entregando-se ele também de uma vez por todas à guerra insana. Num último gesto, ao conferir o estado do búfalo para sua partida final daquele lugar terrível, Laozi ofereceu de recordação ao general a tijoleta na qual um aprendiz havia gravado a conversa entre os dois. Sun Tzu a desprezou e, tapeando-a, jogou-a ao chão quebrando-a em muitos pedaços. Em silêncio, Laozi confirmou entristecido que o general buscava apenas justificativas para agir como pretendia, e não sabedoria. Mas um zaragateiro sobrevoou o lugar e ele voltou a sorrir. E foi na direção dele que prosseguiu ao montar o búfalo e finalmente partir.

Uma pequena fábula silenciosa

corticeira

Contam que a sua alma era tão silenciosa que ela podia ouvir até a desafinação das linhas de um caniço ao pescar lambaris. Ela chegava às suas conclusões calculando a razão entre o abaulamento da corda e a velocidade do vento, que descobria através da quantidade de folhas que caía das corticeiras ou dos fios de cabelo que acabavam dentro da sua boca, jogados lá por esse mesmo vento: essa criatura indomável. Sua boca era tão quieta que ela falava pelos olhos e era através deles que também conseguia escutar. Para viver, usava mais os sentidos que os pensamentos, como um animal selvagem. Os peixes que ela pescava eram tão pequenos que todos os demais pescadores os desprezavam e riam do seu minúsculo tamanho e ameaçavam oferecê-los aos bicos dos pintassilgos, mas mesmo estes preferiam o tamanho e o sabor ralo das formigas e cascudinhos. Então ela ficava olhando os peixinhos no côncavo das mãos e eles iam entrando mais para dentro das poucas gotas de água que sua prudência escassa encontrava de juntar, até que parecessem agonizar de sede, diminuindo, diminuindo.. Como estava longe dos rios e aguadas, sentada sobre uma pedra inalcançável da qual ninguém sabia o paradeiro, onde ia para pensar em nada e debater com a criatura que mora dentro do vento, temeu tanto pelos pequenos lambaris que quase se desesperou. Naquele momento sofrido, o vento se apiedou dela e, de encontro a um canavial ali perto, começou a cantarolar uma melodia mais triste que a tristeza. Ela ouviu impassível, mas, quando sentiu o que o vento queria provocar-lhe, lágrimas correram pela face e jorraram de seus olhos como numa cachoeira, até encontrar a palma de suas mãos. Os pequenos peixinhos não cessavam de minguar, quase desparecendo, mas ao toque salgado das gotas encontraram forças para subir através e foram morar lá dentro dela: naquela água escondida.

Uma pequena fábula gigantesca

cabras

Contam que numa tarde remota de um tempo mais remoto ainda, o gigante Golias foi visto cuidando de uma cabra doente que havia se perdido da companhia cautelosa de seu pastor, que teria desabado de sono após um mês ininterrupto de pastoreio forçado. O gigante estava numa de suas muitas peregrinações pelo Neguev, quando testava sua resistência física à fome e à sede e viu a cabra extraviada pastando no que a princípio lhe pareceu ser um oásis e que, logo a seguir, se confirmou como um oásis mesmo. Numa cena que tempos mais tarde lhe passou pela cabeça, pouco antes de receber em plena testa a pedrada do futuro rei Davi, ele viu a si mesmo, como se fosse um deus, fazendo uma concha com a palma da mão e colocando gotas de água dentro da boca da cabra sedenta. Mas isso, contam as cabras, foi uma cena que passou pelos olhos dela antes de ser trucidada pelas mãos do gigante famélico. Contam que a cabra viu nele o que ele não era e foi somente depois da ocorrência de tais fatos que se criou o significado para a palavra miragem.