Uma pequena fábula taoista

Contam que Laozi, o “nascido velho”, durante a dinastia Zhou em pleno Período dos Estados Belicosos, foi historiador, bibliotecário do Império e compilou de memória o Tao Te Ching, seu legado para a filosofia oriental e de todo o mundo. Um contemporâneo seu, chamado Sun Tzu, estrategista militar que nem sempre sabia como agir diante da violência dos clans e tribos que manchavam de sangue o país de dimensões continentais, algumas vezes foi ao encontro do ancião para aconselhar-se. Sun Tzu sabia do risco de encontrar o outro num estado de humor alterado, quando ele preferia simplesmente ler poesia ou caçar borboletas a meditar sobre o caminho perfeito. Ainda assim, por meio de uma tijoleta rejuntada apenas recentemente, soube-se que, de fato, houve um último encontro pouco antes dele montar num búfalo e partir da China para sempre. Na tijoleta, os ideogramas revelaram que Sun Tzu implorou por que o outro o esclarecesse quanto a melhor forma de apaziguar os ânimos dos conterrâneos e a quem dentre os contendores deveria poupar. Lá pelas tantas, teria chegado a exasperar-se, dizendo-lhe algo que, mal traduzido ao português, soaria como: “Mas mestre, todos estão esperando por sua sabedoria e, enquanto isso, vão acabar todos se matando como animais…” Laozi teria cessado seus preparativos para a viagem, erguido os olhos na direção do militar e dito-lhe: “Mas eu estou também esperando, general. Quando restarem apenas as pessoas sensatas, eu voltarei aqui e terei algo a lhes dizer.” O general finalmente entendeu o caminho dos pensamentos do homem e desistiu de vez daquela filosofia, entregando-se ele também de uma vez por todas à guerra insana. Num último gesto, ao conferir o estado do búfalo para sua partida final daquele lugar terrível, Laozi ofereceu de recordação ao general a tijoleta na qual um aprendiz havia gravado a conversa entre os dois. Sun Tzu a desprezou e, tapeando-a, jogou-a ao chão quebrando-a em muitos pedaços. Em silêncio, Laozi confirmou entristecido que o general buscava apenas justificativas para agir como pretendia, e não sabedoria. Mas um zaragateiro sobrevoou o lugar e ele voltou a sorrir. E foi na direção dele que prosseguiu ao montar o búfalo e finalmente partir.

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Uma pequena fábula silenciosa

corticeira

Contam que a sua alma era tão silenciosa que ela podia ouvir até a desafinação das linhas de um caniço ao pescar lambaris. Ela chegava às suas conclusões calculando a razão entre o abaulamento da corda e a velocidade do vento, que descobria através da quantidade de folhas que caía das corticeiras ou dos fios de cabelo que acabavam dentro da sua boca, jogados lá por esse mesmo vento, essa criatura indomável. Sua boca era tão quieta que ela falava pelos olhos e era por eles que também conseguia escutar. Para viver, usava mais os sentidos que os pensamentos, como um animal selvagem. Os peixes que ela pescava eram tão pequenos que todos os demais pescadores os desprezavam e riam do seu minúsculo tamanho e ameaçavam oferecê-los aos bicos dos pintassilgos, mas mesmo estes preferiam o tamanho e o sabor ralo das formigas e cascudinhos. Normalmente eles serviam de isca para os pescadores tentarem peixes cada vez maiores. Era disso que os tentava secretamente salvar. Então ela ficava olhando os peixinhos no côncavo das mãos e eles iam entrando mais para dentro das poucas gotas de água que sua prudência escassa encontrava de juntar, até que parecessem agonizar de sede, diminuindo, diminuindo.. Como estava longe dos rios e aguadas, sentada sobre uma pedra inalcançável da qual ninguém sabia o paradeiro, onde ia para pensar em nada e debater com a criatura que mora dentro do vento, temeu tanto pelos pequenos lambaris que quase se desesperou. Naquele momento sofrido, o vento se apiedou dela e, de encontro a um canavial ali perto, começou a cantarolar uma melodia mais triste que a tristeza. Ela ouviu impassível, mas quando sentiu o que o vento queria provocar-lhe, lágrimas correram pela face e jorraram de seus olhos como numa cachoeira, até encontrar a palma de suas mãos. Os pequenos peixinhos não cessavam de minguar, quase desparecendo, mas ao toque salgado das gotas encontraram forças para subir através e foram morar lá dentro dela. Naquela água escondida.

Uma pequena fábula gigantesca

cabras

Contam que numa tarde remota de um tempo mais remoto ainda, o gigante Golias foi visto cuidando de uma cabra doente que havia se perdido da companhia cautelosa de seu pastor, que teria desabado de sono após um mês ininterrupto de pastoreio forçado. O gigante estava numa de suas muitas peregrinações pelo Neguev, quando testava sua resistência física à fome e à sede e viu a cabra extraviada pastando no que a princípio lhe pareceu ser um oásis e que, logo a seguir, se confirmou como um oásis mesmo. Numa cena que tempos mais tarde lhe passou pela cabeça, pouco antes de receber em plena testa a pedrada do futuro rei Davi, ele viu a si mesmo, como se fosse um deus, fazendo uma concha com a palma da mão e colocando gotas de água dentro da boca da cabra sedenta. Mas isso, contam as cabras, foi uma cena que passou pelos olhos dela antes de ser trucidada pelas mãos do gigante famélico, que viu nele o que ele não era e foi somente depois da ocorrência de tais fatos que se criou o significado para a palavra miragem.

Uma pequena fábula joaninha

joaninha2

Contam que ela tinha tanto carinho pela vida que resolveu viver no pátio da casa, junto às coisas que as pessoas fizeram trastes. Bem cedo de manhã, no orvalho que se depositava nas madeiras das cadeiras quebradas, no metal das latas furadas ou no verde das folhinhas do jardim mal cuidado, ela lavava as mãos e o rosto, cuidando de não fazer um ruído sequer que atrapalhasse o sono das pessoas dentro de casa. No pátio, viviam outros bichos também. Um cão atropelado que dependia totalmente dos outros. Passarinhos que tinham ninho no telhado carente de conserto. Até uma comunidade militar de formigas que às vezes doava gentilmente algumas folhas para o húmus da terra. Lá pelas sete horas da manhã, todo o dia, uma velha senhora abria a porta do pátio e olhava para cima, adivinhando o clima que iria fazer, e olhava para baixo, como se procurasse alguém que estivesse ali escondido ou passando ou dormindo. O cão virava os olhos em sua direção e sacudia o rabo, mas em seguida se acomodava novamente. Ela, paralisada, esperava que a velhinha voltasse para dentro de casa para continuar sua higiene. Às vezes, dormia na casa da velhinha uma netinha sua, criança de seus oito anos. Ela acordava mais cedo que a avó e, mais cedo ainda, já estava a correr pelo pátio, numa insolência que todos os bichos toleravam. Apenas a joaninha não aguentava que interrompessem o seu rito, ainda mais com dedos apressados, e saía voando.

Uma pequena fábula ribeirinha

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Contam que o vento deu sete voltas na capoeira, antes de chegar às palafitas, para avisar que era hora de as crianças irem para dentro de suas casas. As mães chegavam às janelas e contavam na poeira do chão batido as pegadas de seus filhos e descansavam. Quando uma delas distraiu-se, uma criança bem pequena – pela altura de uns quatro anos de idade – achou de procurar um pedaço de qualquer coisa que se escondia no meio da escuridão que a chuva fez. A chuva choveu e, quando ela vem desse jeito, ela alaga e invade tudo que vê pela frente. Quando a pequena caiu e a torrente já quase a levava embora, foi que sua irmã com cara de lua percebeu a tragédia e pulou dentro da água. A lua crescente que morava sempre em seu sorriso então brilhou, fazendo com que tudo lá embaixo se iluminasse e a pequena pudesse lhe alcançar a mão, pulando fora dali. A água tinha sede e fome de luz e, através do sorriso de lua, achou um jeito de guardar consigo um feixe de luz que a lua dá e que a menina tinha na boca, misturando-se ao seu corpo franzino. A água é boba, pensou a menina, não pode pegar a luz; a água, que não era boba, pegou. Só não pegou e levou consigo a lembrança da bravura da menininha. Que a bravura nem a água não leva e essa ficou na lembrança daqueles que jamais lhe esqueceram. Uma iara perto dali logo pegou a menina para sua companhia e, quando a lua faltava no céu, ela parava de cantar e lhe contava histórias sem pé nem cabeça. E a menina enchia o lugar de luz e de sorrisos.

(Baseado nesta notícia.)