Esquiladores

“Nunca le interessou seguir a comparsa?”, perguntou-me a seco o noviço, como se fosse de intimidade, gente do meu sangue ou do meu conhecer. Ali eu estava por comando do padrinho e não apreciava dar respostas a meu respeito. Não bastava que lhe entregasse a borrega pronta pra carga das tesouras? Agora o que mais queria saber de mim esse daí?

“Nunca.. Sou das casas.”, resmunguei bem quando levava a mão no quarto de uma outra, lanuda, uma corriedale sebenta que, na brasa certa, perfumaria até o pago vizinho. Mas uma borrega assim o patrão deveria reservar pra cria, só num ato de desespero le passaria a faca. Ou então em reunião de domingo, quando algum parente se apachorrasse no casarão a modo de desassossegar a peonada da casa e impedir que a Jandira arredasse o pé do fogão.

Ah, Jandira! Pedaço de torresmo apertado.. Faz pouco a vi passando com um tacho pras goiabas e figadas. Doçura que ela passaria daqueles olhos melados de pronto ao açúcar que se emenda nos bocados que ela saber fazer igual a ninguém mais. Os outros só sabem de ouvir dizer, mas eu, que me assentei como sota por confiança do padrinho, sei porque ela me alcança de vez em quando uns apanhaditos nuns potes de matéria plástica que agora andam chegando com tudo por aqui, comida, remédios e o que mais. Esse o nosso namoro.

“Devia… O amigo é bem bueno de martelo!”, disse-me no que não soube interpretar como elogio sincero ou adulação. Tem dias que o guri anda me cercando, querendo saber de quem é quem, do quanto é quanto, do porque de cada por quê. Eu com a minha carranca quieta pensei que o afugentaria, mas que nada… Agora vive a querer saber de tudo, até mesmo da Jandira, o desaforado.

O noviço esse é mais um a esticar o olho comprido a cada vez que ela passa ao longe, todo mundo estica, mas o certo é que se eu arranjo mesmo um ranchito pra nós, o padre da vila nos faz o ofício de casar direito, que eu faço é muita questão. E ter uma vida direita, de trabalho, retidão. Mas o guri, é claro, olha pra ela como fêmea, não vê a mulher nem muito menos a pessoa. E porque ele olha pra ela, eu também olho pra ele e assim parecemos um rodeio parado numa tronqueira, que nem o gado, examinando-se.

“E aquela cabocla, que parece? É Jurandira que chama?”, indagou com ares de inocente ignorância. “Jandira”, corrigi de pronto. “Que tem ela?”, aticei o linguarudo a dar com os dentes na língua enquanto olhava o velo pela metade no lombo da borrega aos seus pés, esperando o fim daquela prosa que os demais nem podiam ouviar, pois o patrão sintonizara o rádio sobre um tonel alto ali de modo a entreter a comparsa inteira. Por ali, dos nove homens mais o noviço, todos eram sabidos de alguma conversa das redondezas e gostavam de prosear, mas a programação e o noticiário da cidade calava a todos, subitamente interessados em coisas como carnaval, futebol, telenovela. Menos o noviço que então continuou seu inquérito e sentenças: “Lindaça!”

“Mas não é pro teu bico!”, adverti e ele riu meio debochado, como se quisesse mesmo é testar meu interesse nela. Mas falei mais alto ainda que o rádio, alterado, e os outros levantaram os olhos em nossa direção. “E já vai terminando essa borrega que o curral tá até a boca!”, concluí e ele fechou o cenho, olhando pra baixo e torceu o nariz pelo corridão que lhe dei.

O calor grande de novembro perto do meio dia me levou à cozinha do mais velho deles, que lhes servia também de cozinheiro, deixando o toc-toc das tesouras pra trás e a montanha de velo e garreio acumulada no galpão por embolsar, eu e o guri, nos embolsadores emparelhados bem ao lado do portão. Tomei com o homem um ou dois mates e decidi almoçar por minha conta, sem a conversalhada dos esquiladores. No meu quartinho, tomei do carreteiro encostado, acresci um punhado mais de arroz do pote e, coisa de nunca, levei a mão na caninha que alguém esqueceu por ali. Azeda, não me entrou lá muito bem, mas sequei o que havia na garrafa pensando que a Jandira talvez não se desse tanto ao respeito e se aparecesse demais agora que a comparsa se instalara. Que tanta curiosidade tinha, afinal, a chinoca, se já nos havíamos até prometido? Ora, o que faz a aguardente com um hombre, não é mesmo? Leva a confabulações sem sentido, talvez…

Sesteado, mal sesteado, acordei-me com a têmpora latejando e o suor escorrendo no pescoço empapando a camisa. E pensar que agora ainda iria me enfurnar que nem tatu num embolsador mais quente que um fogaréu. Chegando lá, quedelhe o noviço? Desgraça de guri.. Bueno, como preciso começar de algum lugar, vou eu mesmo embolsando os pacotes de lã branca e pisoteando aquilo até firmar o garrão… Dali, ouço a comparsa se arranjando no galpão ao lado e o rádio naquela hora tocando, felizmente, umas rancheiras das buenas que até me passaram um pouco o incômodo da canha em mau horário.

“Buenas!”, ouço do lado de fora e finalmente é o noviço que apareceu. “Onde andava?”, pergunto-lhe enquanto sigo no pisoteio. “Ah, fui ali na sanga lavar os pés e afiar umas tesouras…”, respondeu-me. “Menos mal…”, comentei. “E quem tava lá?”, indagou numa simulação dele mesmo me responder e continuou: “A Jandira…”

No mesmo instante, senti que não gostaria de saber o que mais ele me diria, mas o atrevido continuou: “Ela levou panelas pra ariar e me ofereci pra le ajudar, mas fique tranquilo que moça direita como aquela nunca eu vi. Não me deu confiança e me despachou pra longe com um corridão que senti medo até…” E ia contando devagarinho de modo que eu conseguia lá dentro da estopa escura imaginar a cena e pensava que se fosse ele ali dentro e eu ali fora, não me custaria nada esticar a adaga pra dentro até encerrar aquele falatório. E foi tecendo elogios e me dizendo da minha sorte de um casamento feliz que com certeza, de acordo com ele, nos destinaria o futuro. Funcionou, pois me acalmei e ainda mais porque a esquila já andava em vias de acabar e desse modo aqueles aporreados todos se iriam pra bem longe da Santa Eulália, que voltaria ao seu sossego habitual.

Passou a tarde, não restou uma felpa mais a embolsar e os rebanhos todos do padrinho foram devidamente depilados. As ovelhas ficavam meio feiotas rapadas, mas, assim, o verão lhes seria possível. O meu também, porque o entrevero todo de gente que se junta apenas por evento às vezes vai de encontro a maus elementos. Não que tivesse visto algum suspeito, mas sempre tem um mais quietarrão que a gente imagina o que tenha de oculto naqueles silêncios sem fim. No outro dia cedo já não estariam mais ali e pra logo haveria um truco ou uma bisca pra pescar dos mais animados algum trocado de aposta. Mas não me aprocheguei ao assado que montaram no costado do ombu e me aquietei cedo. A dor de cabeça, como um mau pensamento sem expressão, voltara e fizera com que me deitasse com as galinhas. Nem me dei conta que, estranho, a Jandira não passou pra dar seus boas noites. Só no outro dia fui notar, mas aí já era tarde.

Foi o chefe da comparsa quem me segredou no primeiro mate, antes da alvorada, que viu o noviço, mais cedo, tomar o rumo da estrada, não sabia pra que lado, e com a Jandira no seu costado. A informação me entrou mais amarga que a erva uruguaia do mate, mais que carqueja verde, entrou como um veneno e cogitei de encilhar o baio e me tocar atrás deles. “Mas ela saiu sorridente…”, advertiu o velho gaúcho, como se dizendo que não estava indo obrigada, de modo algum..

Os demais esquiladores fingiam não ouvir a conversa, mas me olhavam de um modo compassivo e parecia que as conversas paralelas eram todos de um consolo que me ofereciam. O velho me fez sentar e contou histórias da sua vida e me fez refletir. Refletir e decidir. Perguntei-lhe aonde iriam agora que haviam acabado com a Santa Eulália. “Vamos à Santana, coisa ligeira, e depois Melo, no Uruguai…”, disse-me o esquilador com seu chapéu coco e barba espessa. Logo eles começaram a juntar as coisas e em breve partiriam num F600 dos mais bem cuidados, posse do chefe da esquila. Deixei que arrumassem suas coisas e tratassem de partir, pois precisava acertar a lida com o padrinho, igual a todos os dias. E foi o que fiz. O padrinho, quando soube do que me acontecera, lamentou minha má sorte e até me tentou consolar, mas nada mais podia fazer por mim. Ninguém podia. Talvez só eu mesmo e foi o que fiz ao me adiantar à saída da comparsa, na porteira do corredor, e levar o pouco que era meu numa mala de garupa, um par de botas, roupas gastas e duas bombachas de serviço, pra subir na carroceria e realizar outro sonho de guri: atravessar finalmente a fronteira.

Minha Santa Bárbara

Desde o começo da pandemia, venho tentando tomar algumas providências para manter o juízo. A primeira foi modular as notícias, a segunda modular a ansiedade e a terceira modular assuntos chatos. Além destas, outra, residual, foi escrever alguns contos que chamei de retrotópicos. Ou retrotopias. É o mesmo termo que Zygmunt Bauman usou para nomear o último livro que publicou, aos 91 anos de vida, a exatos 500 anos da publicação de Utopia, Thomas More. São histórias curtas que precisei escrever para evadir um pouco da explosão distópica e da minha própria ansiedade. 

Nesses dias, decidi criar um site para agrupar essa histórias que também poderia chamar de “obsoletistas”, mas não me agrada o teor depreciativo embutido no termo. São situações meio deslocadas no tempo e no espaço do interior brasileiro, mas narradas desde um ponto de vista ingênuo, infantil, meio de fim-da-infância. Depois, pretendo continuar incluindo outras histórias no site sem muito pensar no que fazer disso, por exemplo publicar, mas me agrada que fique na internet, livre, sem custo, ao Deus dará.

Talvez ao leitor aficcionado em literatura contemporânea e em seus maneirismos (porque os há) esses contos, historietas e fábulas não agradem tanto e nem interessem muito. Acho bem previsível isso. Talvez agrade mais a leitores mais velhos ou às crianças, mas não tenho ideia também se seria o tipo de história do agrado delas..

Mas o melhor de tudo que consegui foi a autorização para utilizar a belíssima imagem de “capa” foi gentilmente cedida pelo pintor chileno Luis Ramirez. É uma paisagem venezuelana, da cidade de Cubiro.

Santa Bárbara é tal cidade imaginária na qual estou criando esse mundo ainda meio povoado de sonho e de poucos temores. Achei que a Cubiro do Luis poderia se parecer bastante e ela.

Se foi o suficiente para despertar sua curiosidade, então é acessá-la para conhecer um pouco desse universo anacrônico.

Malgrado a lua cheia

Chegamos ontem de fora. Nunca mais voltaremos lá, eles disseram. O pai já tem a saudade dentro dos olhos que eu vejo, qualquer um vê. A mãe tem esperança e vive a clamar por ela. E nós, crianças, viemos porque nos ordenaram. Mas parece que tudo isso há de ser bom. Uma nova vida. Vamos finalmente ao colégio e aprenderemos a fazer contas direito, sem precisarmos mais das contas de osso dos arreios. E ler e escrever, porque as lições da tia Anastácia mal dão para ler gibi, apesar de que, pelo menos no julgar da mãe, foram um bom começo.

A casa é boa, novinha. O pai gastou acho que até o casco das vaquinhas para construí-la. E eu e o mano ajudamos em tudo o que pudemos. Carregar tijolo, fazer a massa de cimento e todo o trabalho de pá fomos nós que fizemos. Pedreiros mesmo foram o pai e o tio Antônio, que veio antes e foi quem os convenceu a segui-lo, para trabalhar com ele na construção; ele e a tia Janjona, com certeza. Todo esse lado da cidade, se entendi bem, antes fora um banhado e, com cargas de pedra e terra e socador, aplainaram tudo. Veio o conjunto de casas; dentre as quais, a nossa.

Como o tio Antônio sempre tem razão em tudo o que diz, bastou o aceite da mãe para ele se convencer ainda mais rápido e logo ela começou a desfazer-se das coisas que não queria mais ver pela frente. Trastes de couro, latas, plásticos, caixinhas e caixotes, tudo foi queimado numa fogueira imensa; salvaram-se as roupas apresentáveis, segundo o seu juízo, para nós e os filhos das comadres incrédulas, mais as panelas, louça, talheres e os quadros da família do pai que decoravam nosso rancho, além da imagem do Sagrado Coração de Jesus, benzida sei lá por quem, mas a quem ela destinava rezas e promessas quando as coisas não iam bem e isso era, nos últimos tempos, mais do que frequente. Por isso viemos. Chegamos ontem de fora e, por enquanto, só o pai mostra um pouco de desassossego e abandono, mas sem dar um pio. Mostra só pelo modo de olhar e no silêncio de quem toma o mate ainda do mesmo jeito, repassando mentalmente a lida, sabe-se lá de que jeito ou por quê.

Eu não penso que seria melhor ter ficado e nem aposto todas as minhas fichas que vai ser um folguedo, mas vou procurar viver cada dia como se fosse único e tratar de buscar com o que me entreter quando largarem um pouco de mim. Que mais poderia me ocorrer?

Nos fundos da casa há um arrabalde, um pátio abandonado de uma casa do bairro antigo virada em tapera, onde já vi que tem jogo de bola, mas só vou lá com permissão, que não se pense coisas a meu respeito. Respeito, aliás, é o que a mãe disse para eu nunca esquecer, mesmo quando eu mal entendia o que isso poderia ser, mas pressentia que tudo se resumia em ficar quieto e obedecer, que o resto nunca era coisa de criança. E responsabilidade também era outra palavra de que ela gostava muito e eu entendia como podia sobre o que é certo e o que não é, apesar de que, de acordo com ela, isso deveria depender apenas de mim mesmo.

Acho que a nossa casa nova é pequena, mas que é melhor do que a que tínhamos antes não resta dúvida. Nosso rancho na campanha era mais espaçoso, mas cheio de frinchas. Ali os chupões gostavam de dormir e o medo de pegar doença sempre estava no rol de rezas da mãe, que contaminou dos próprios medos as gurias, se bem que guria é sempre meio fiasquenta mesmo. Instalar a cozinha nos fundos da casa não agradou a mãe, que gosta de bombear o movimento, mas ela vai se acostumar, é o que diz o tio Antônio. A mana diz que ele fala isso para tudo e chora escondida sem razão aparente. Anda assim desde que chegamos, a pobrezinha. Acontece que decisão é decisão e não há mais o que se possa fazer. O tio não sabe consolá-la e diz coisas horríveis sobre viver na miséria e outras barbaridades. Quando exagera, o pai intervém: “Mas já não estamos aqui? Pra que tudo isso, che?”

Quem é que quer viver na miséria? Que eu saiba, ninguém. Por isso viemos. Chegamos ontem. E agora, como é quase noite, no arrabalde a gurizada já está jogando bola. Sem jeito, peço ao pai para ir até lá. Ele parece ficar pensando, mas não tanto e deixa que eu me vá, desde que volte antes de cair a noite cerrada e que leve o Miguel comigo e tome conta dele.

São quatro guris jogando uma bola meio murcha, feita de um couro grosseiro, mas melhor que todas as bolas de meia ou esterco de vaca com que nos virávamos lá fora, em partidas que sempre se esfarelavam em guerras campais. Encostei-me no muro e, longe, para dentro do pátio, vejo que no fundo do arrabalde há árvores crescidas, pereiras e não sei que outras. E um casarão em ruínas, com as paredes pela metade. É bem lá no meio dele que, depois de um chutão de alguém, a bola vai cair. Os outros guris se exclamam puta merda e puta aquilo, mas ninguém se apresenta para ir até lá; eu e o Miguel nos aproximamos e eu me ofereço para ir lá buscar a bola. “Deixa que eu busco!”, falei. Os outros ficaram quietos, mas o maior deles, ainda assim menor um pouco do que eu, foi quem me alertou: “Dizem que lá tem fantasma, uma mulher velha que, Deus o livre, é horrorosa e prende quem vai até lá.” Eu me ri da conversa do outro. “Que nada. Vou lá e já volto”, anunciei e disse ao Miguel para que ficasse com eles. Em coisa de um instante eu estaria de volta com a bola perdida.

Claro que lá não tinha nada mesmo, só uma casa velha com umas madeiras destruídas no chão, resto de piso e vidros quebrados, mas a bola mesmo eu não consegui encontrar. E procurei tanto quanto pude. De longe, de repente notei que o Miguel não estava mais com eles e então fiquei pensando no que deveria fazer: se continuava procurando a bola entre os escombros da casa para exibi-la como um troféu ou se corria para ver onde se enfiara o maldito guri. Antes de me decidir, resolvi procurar mais um pouco. E um pouco mais. E o tempo foi passando e a noite foi caindo. De repente, já não havia mais luz o suficiente para procurar o que quer que fosse e decidi voltar. “Onde está o maninho?”, perguntei a eles, embolados perto da cerca que divisava o campinho improvisado junto ao arrabalde da tapera. O maior deles, de novo, foi quem veio falar: “Ele se foi. Saiu correndo e eu é que não ia sair atrás dele. Nem sei onde vocês moram…”. Sem apresentar-me nem jogar um instantezinho que fosse, saí correndo atrás do Miguel. Deus me livre se algo lhe acontece, a tunda que eu vou tomar…

A noite já caíra e a hora de estar em casa já estava quase passando. Talvez o Miguel estivesse já com eles ou brincando com as gurias na frente de casa, mas ele nunca fez isso comigo, sempre me esperou para tudo. Desgraça de guri! Onde se enfiou essa merda de guri?

Estivesse onde estivesse, eu não voltaria para casa sem ele. Pensei em fazer a volta pelos fundos das outras casas, atravessar o cercado dos pátios e ir conferir se ele estava lá dentro ou não, mas a cachorrada não deixaria que eu me aproximasse em silêncio. E pensei também no pior, como não pensaria? E se um carro ou caminhão tivesse pegado ele de frente? Mas aqui mal passa carroça, ainda mais a essa hora da noite, isso não pode ser… Vou chegando pela rua de terra, pulo a valeta dos esgotos e, ao longe, vejo na porta da casa o pai sozinho, tomando o mate no seu mochinho enquanto a mãe, decerto, apronta a janta com as gurias; nada do Miguel por lá, pelo jeito. Como fui deixar uma criança pequena como ele sozinha, com estranhos? Agora está perdido sei lá onde; agora estou perdido também… Melhor que eu me suma no mundo… Que sei eu do que vai ser de mim se volto para casa sem ele e se ele nunca mais aparece… O pai não vai me matar, mas nunca mais fala comigo. A mãe me perdoa porque seu coração é grande e medroso demais para me esconjurar da própria vida. As manas eu nem sei, aquelas choronas. Por que não trouxe uma delas para botar o Miguel a cabresto, como fazíamos aos cavalos quando brincávamos lá fora, todos juntos, na taipa do açude, de açular tachãs e maçanicos?

Sem ideia mais nenhuma do que seria a minha vida nesse lugar de desgraça, pensei em fugir ao tio Antônio, mas também me faltava coragem. Acho que nunca mais ergueria os olhos para ninguém, envergonhado até o fundo dos ossos. Orgulho da minha coragem também não me serviria mais para nada. No fundo, eu era só mais um covarde. O covarde que perdeu o irmão para se aparecer em um jogo de bola de estranhos de quem nem o nome sabia direito. Um merda legítimo. Por que vou viver com isso na minha vida? E que fedor é esse que sobe da água que vai por essa sanga? Podridão? Esgoto? Quem sabe me atiro aqui dentro e causo uma tragédia na vida da família inteira, que chegou ontem de fora, cheia de esperança para uma vida nova na cidade?

De repente, entendo que não posso fazer nada e devo ir para casa e mostrar minha cara estúpida para a mãe e para o pai e receber deles o que eles julgarem certo, nada mais que isso, mesmo que seja uma sova com o rabo-de-tatu que, com certeza, o pai não jogou fora. E lembro-me do Miguelito aprendendo a cavalgar ao meu lado, no petiço gateado e de como gostava de galopear nas minhas costas, brincando e rolando no pasto, fosse de dia ou de noite. Sento-me numa pedra ao lado do sangão, apesar do fedor tremendo, e minhas lágrimas caem misturando-se em sabe-se lá o que corre ali dentro, embora o aspecto não deixe muitas dúvidas, malgrado a lua cheia. Mas então sinto aquelas mesmas cócegas de sempre por baixo dos braços e penso que não pode ser quem parece ser, mas felizmente é justamente quem é. É o Miguelito. E eu nem preciso virar a cabeça para conferir que é ele mesmo.

Chorando quase a soluçar, abraço-me nele, gordinho como sempre. “Que foi? Pra que tudo isso?”, ele pergunta. Vejo que tem nas mãos dois caniços finos e compridos de taquara. “Nada, desgraçado… Onde te enfiaste? Fugiu de mim por quê? Por que não esperou, filho de uma égua?”, emendei perguntas no coitadinho. “Eu fui buscar os caniços, não vê? Olha essa lua cheia lá em cima… A gente nunca perdeu uma assim…”, disse daquele jeito ainda meio desengonçado de criança pequena. Enxuguei o rosto para que ele não percebesse que eu chorava e peguei o meu caniço das suas mãos, pouco maior que o dele. Ele trazia moscas e pedaços de minhoca para isca de lambari e jogamos juntos as linhas naquela água duvidosa. De onde estávamos, via-se a luz apagadiça da porta da nossa casa nova e o vulto do pai ainda sentado ali na frente, tomando um mate a essa altura já bem lavado, não duvido. As manas estavam para dentro, provavelmente ajudando em alguma coisa ou tentando ajustar a TV nova, presente do tio Antônio e da tia Janjona, ai que ela me escute dizer seu nome assim. É Maria das Graças, por gentileza… O Miguel me cutucou de lado, sem dizer uma palavra e perguntei: “O que foi?”

“Não vamos voltar mais lá mesmo?…”, perguntou. Quando eu ia responder qualquer coisa, nem imagino o que seja, ouvimos o grito da mãe, em pé na soleira da porta, “José! Miguel! Olha a janta!” e corremos para junto do pai sem um lambari sequer nas mãos. Ele colocou o Miguel no seu colo e, olhando de frente para mim, com aqueles olhos que ainda não aprenderam a esconder a melancolia, ofereceu pela primeira vez um mate, que não é brinquedo de criança, segundo o seu costume. Parei quieto ao seu lado, acocorado. Ele perguntou: “Jogou, entonces?”.

“Capaz… Fomos pescar nesse arroio daqui, mas não tinha peixe, só bosta”, e rimos juntos até que a mãe veio quase nos puxar pela orelha para ir para dentro e apreciar, pelo menos ali no interior da casinha apertada, o perfume que ela haveria de produzir pelo resto do nosso tempo em São Gonçalo, que só poderia ser muito e bom, afinal chegamos ontem de fora e fez bem rir um pouco depois de tudo o que passei porque não sabemos, ninguém sabe, o que será a partir de amanhã.

Há cinco anos publiquei meu primeiro livro. Um livro de contos que a Ed. Movimento do Prof. Carlos Appel me ajudou a publicar. Vencidos os cinco anos contratuais, assumo de volta os direitos de publicação e reprodução. Há um tempo resolvi que vou reescrever todos os contos e republicar o livro logo mais, com o nome que tinha pensado por primeiro para ele. De “A aposta” voltará a “Interiores”. A reescrita se deve a problemas de revisão e ao meu açodamento habitual, que acabou empobrecendo muitos trechos e contos inteiros, cujas ideias não eram de todo más e que penso em salvar da minha própria negação. São contos em sua maioria rurais, eu prefiro chamá-los assim do que “regionalistas”. De gente pouco opulenta e pouco identificável com esse “gaúcho” histórico que hoje se quer descontruir e até mesmo combater. Enfim, este é o primeiro conto reescrito, chamado “Malgrado a lua cheia”.

Imperceptível

Na falta de dicionários, lia listas telefônicas. Às vezes, lia os nomes como versos; às vezes, como se gente viva e conhecida.

Lembrava-se das viagens que imaginara ter feito, por exemplo, Antonieta de Medeiros Albuquerque por Paris depois do último bombardeio e as lágrimas das pessoas lendo Éluard, mas, porque num sonho, na tradução a quatro mãos de Bandeira e Drummond.

Antonieta pensando em português enquanto caminhava em Montparnasse, onde só se pensa em francês e ao som das taças dos cafés. Antonieta afetando o vento de Paris e dizendo em meia boca: “vida besta”.

Depois, as palavras de Antonieta sumindo à medida que os olhos escorregavam para Antônia Soares do Carmo, cujo sobrenome era mais português que os poemas de Fernando Pessoa escritos em inglês. O português do nome de Antônia era salgado de mar aberto, coisa que o poeta não viu por muito em sua vida, apenas imaginou demasiadamente ao anoitecer de um dia em que sentia-se tão diferente de si mesmo que inventou ser outra pessoa. Sentia-se ou sabia-se, vá saber-se.

Antônia Soares, como Bernardo; e depois “do Carmo”, como a igreja.

Quando eram nove horas da manhã, perguntou aos relógios até que horas mais os nomes lhe ocorreriam em sua forma viva. Havia que retomar os afazeres, as leituras sérias e os cuidados com a higiene física.

É meia-noite e os nomes estão fechados na lista telefônica.

Num papel branco, marcando uma página importante, o número 555167279877 sublinhado, e esse silêncio em que ela imagina sentir-se ou saber-se examinada também.

Uma pequena fábula taoista

Contam que Laozi, o “nascido velho”, durante a dinastia Zhou em pleno Período dos Estados Belicosos, foi historiador, bibliotecário do Império e compilou de memória o Tao Te Ching, seu legado para a filosofia oriental e de todo o mundo. Um contemporâneo seu, chamado Sun Tzu, estrategista militar que nem sempre sabia como agir diante da violência dos clans e tribos que manchavam de sangue o país de dimensões continentais, algumas vezes foi ao encontro do ancião para aconselhar-se. Sun Tzu sabia do risco de encontrar o outro num estado de humor alterado, quando ele preferia simplesmente ler poesia ou caçar borboletas a meditar sobre o caminho perfeito. Ainda assim, por meio de uma tijoleta rejuntada apenas recentemente, soube-se que, de fato, houve um último encontro pouco antes dele montar num búfalo e partir da China para sempre. Na tijoleta, os ideogramas revelaram que Sun Tzu implorou por que o outro o esclarecesse quanto a melhor forma de apaziguar os ânimos dos conterrâneos e a quem dentre os contendores deveria poupar. Lá pelas tantas, teria chegado a exasperar-se, dizendo-lhe algo que, mal traduzido ao português, soaria como: “Mas mestre, todos estão esperando por sua sabedoria e, enquanto isso, vão acabar todos se matando como animais…” Laozi teria cessado seus preparativos para a viagem, erguido os olhos na direção do militar e dito-lhe: “Mas eu estou também esperando, general. Quando restarem apenas as pessoas sensatas, eu voltarei aqui e terei algo a lhes dizer.” O general finalmente entendeu o caminho dos pensamentos do homem e desistiu de vez daquela filosofia, entregando-se ele também de uma vez por todas à guerra insana. Num último gesto, ao conferir o estado do búfalo para sua partida final daquele lugar terrível, Laozi ofereceu de recordação ao general a tijoleta na qual um aprendiz havia gravado a conversa entre os dois. Sun Tzu a desprezou e, tapeando-a, jogou-a ao chão quebrando-a em muitos pedaços. Em silêncio, Laozi confirmou entristecido que o general buscava apenas justificativas para agir como pretendia, e não sabedoria. Mas um zaragateiro sobrevoou o lugar e ele voltou a sorrir. E foi na direção dele que prosseguiu ao montar o búfalo e finalmente partir.

Pavane

No tempo em que estive realmente dedicado a escrever a respeito da vida do bebê Charles Waring Darwin, o tempo de redação, não o de pesquisa, precisei de um grau de concentração que não imaginei que poderia conseguir. O tempo efetivo de que dispunha para a escrita sempre foi exíguo, urgente, em períodos isolados entre meses e às vezes até mesmo anos.

A maneira com que mais rapidamente eu conseguia me concentrar era relendo o que já havia escrito, sempre desde o começo, e colocando a tocar uma playlist de alguns compositores em sua maioria contemporâneos de Darwin (F. Chopin, R. Schumann, …).

Em algum momento, acabei colocando irresponsavelmente na lista uma peça  extemporânea de Ravel. Esta abaixo… Enquanto tocava a melodia era impossível para mim escrever uma vírgula, mas, se não fosse por ela e por uma outra melodia que me demovia internamente, nunca eu teria ido até ao final do livro. Se tivesse sido escrito no papel, aqueles originais teriam marcas que apenas eu vi e entendi.