Mas escritor se aposenta?

Há alguns dias o assunto me persegue. Do nada, parece que despencam de qualquer lugar textos que procuram discutir a ideia de quando alguém que escreve literariamente se torna, de fato, um escritor ou escritora. Esta é a ideia central de Anos de Formação: os Diários de Emilio Renzi, do argentino Ricardo Piglia. É a mesma dúvida que encontrei no texto do também argentino Cristián Vazquez, A partir de quando um escritor se torna um escritor, publicado recentemente no blogue Letras in.verso e re.verso.

Seria talvez o que se pudesse chamar hoje de platinofobia aventar-se a hipótese de que este é um assunto que obsedia os argentinos, mas, antes disso, seria uma inverdade. Acredito que, quase sem exceção, toda a pessoa que procura escrever literariamente lá pelas tantas tenta localizar em si mesma, na sua solitária trajetória diante das inumeráveis folhas ou telas em branco, em que momento que a compulsão se estabeleceu por completo e se tornou indispensável, insuportável e inconcebível deixar de dedicar-se ao habitus.

Justamente esta ideia, de irrecusabilidade ao gesto, é o que defendem os dois escritores argentinos e também uma miríade de outros escritores. Isso se pode saber através, por exemplo, das dezenas de entrevistas que a prestigiosa Paris Review fez com escritores consagrados mundialmente, do séc. XX, e que foram traduzidas e publicadas por mais de uma vez no Brasil, pela Companhia das Letras. Trata-se do livro As entrevistas da Paris Review. Mas Piglia, no caso, se desvia bastante de Vazquez e de outros escritores que falaram sobre o mesmo assunto para o que ele denomina como o momento de “autoproposição” do escritor, isto é, o fato de debater-se com a impossibilidade de uma ficção privada, por um lado, e a de impossibilidade de uma plena comunicação pública, por outro.

Aqui, como já deve estar claro, não vou mencionar nem por hipótese a ideia de vocação,  dom, etc. Na verdade, apenas gostaria de apontar pontos em comum em relação ao que penso e o que pensam estes escritores, para além da irrecusabilidade já mencionada, com a qual concordo integralmente. Aliás, talvez seja esta a razão para eu estar aqui escrevendo isso, nesse exato instante.

Piglia, segundo seu alterego Emilio Renzi, escreve como que para perseguir sua própria biografia; um itinerário que começa desde que se descobre leitor até o último suspiro, contando-se aí absolutamente todos os momentos, todas as percepções, todos os gestos, todas as ideias de onde seletivamente extrai sua matéria empírica, ficcional. Mesmo que soe como um escritor totalitário, ele embaraça-se com a vida, não se distancia dela. O que apreende é que os outros deixam de notar, as razões ocultas dos gestos, as possibilidades que consolidaram aquelas razões, a sorte e os incidentes que fazem uma biografia. O escritor como vassalo de si mesmo, mas soberano de sua narrativa. Porém alguém que, uma vez publicado, declina definitivamente da solidão e deixa-se acompanhar por quem quer que lhe encontre em seus livros e palavras.

Vazquez é radical por outro viés (e eu nesse aspecto, talvez por escrever muita poesia, tendo a concordar mais com ele) e defende a ideia de que o escritor se faz ao escrever, naquele momento preciso da ação e prescinde de quem o leia, apenas vai descartando de si o texto e não tem expectativa ou relação alguma com o que dele poderá ser feito ou não. Sua missão acaba em sua própria finalidade. Para ele, não há escritor inédito, a tomada de posse da “titulação” se daria, portanto, diretamente ao escrever. Como no poema de Auden, o escritor acaba no último ponto e talvez nunca mais retome àquilo e ao estado de ânimo que recém o mobilizara. Juan Rulfo, J. D. Salinger e Arthur Rimbaud são alguns dos exemplos que ele cita de escritores que simplesmente aposentaram-se voluntariamente da escrita, ou seja, deixaram de ser escritores.

Eu simpatizo com ambas as ideias. Tenho muitas vezes vontade de nunca mais escrever uma linha, mas sempre preciso de uma nova linha para dizer isso ou então voltar atrás… Do que antipatizo um pouco, neste caso, é de uma certa mercantilização cada vez mais presente e frequente em oficinas literárias, cursos e atividades correlatas. Nestes, cada vez mais se dá ênfase é em como se fazer lido (o que acho até difícil de imaginar – me vem em mente a violenta cena de uma pessoa obrigando outra à leitura), em como promover-se, técnicas de interação e coisas assim.

Não consigo, admito.

Se precisar disso para vir a ser um escritor, então acabou-se aqui. Então não serei. Não é humildade exagerada, mas é preciso estar claro para quem quer aventurar-se nisso de que há um universo inesgotável de magníficos, bons e razoáveis escritores na fila de cada pessoa. Sendo muito sincero, na minha própria lista eu talvez sequer figurasse (a não ser para uma correção imprevista). Certamente, não. Tenho dívidas insaldáveis com momentos incomparáveis da literatura. Como, sabendo  disso, vou querer parar o mundo e desviar a atenção alheia? Seria muita pretensão que desejasse que as pessoas viessem a interromper, para prestar atenção em mim, o seu Machado de Assis, o seu Eça de Queiroz, o seu Dostoievski e etc etc etc.

Mais uma vez: não consigo…

Por isso me autopublico e não negocio com editores cotas de exibição, autopromoção e coisas assim. Isso não apenas me desfaria como escritor como me faria, por outro lado, mercador. Nada contra os mercadores, mas cada um na sua, não? Se alguém ficar curioso eventualmente com meu nome em algum texto, alguma resenha, alguma menção, que ótimo!, talvez desperte a curiosidade a ponto de querer saber mais. Talvez até goste um pouquinho a ponto de admirar-se ou emocionar-se com uma frase bem colocada em algum parágrafo, ou um verso tocante. Pois é este o único leitor que me interessa. Não sou ilusionista nem diversionista nem bom piadista; nunca fui; sou ruim de gracejo, inclusive.

Um leitor que me passe os olhos e pense que sou como um serializado egresso de um projeto de formação de escritores irá frustrar-se porque eu mesmo não procuro evitar de frustrar-me. E continuo sempre tentando mudar a narrativa, mudar o parágrafo, a forma, a linha, o verso, o caractere. Minha impressão é de que todos os livros, afinal, são como aquele livro de areia, que mais um argentino, Jorge Luis Borges, um dia imaginou. Um livro nunca igual, desfeito à mera incidência da compreensão de um leitor qualquer. Aliás, o que também concordo com Piglia nesse aspecto é o quanto o leitor faz o escritor; digo do leitor que o próprio escritor é; não o leitor de si mesmo, mas dos outros e do mundo. É este infinito que, numa perspectiva rápida, desfecha e aniquila qualquer autoilusão de relevância, status ou glória, se é que existe ainda que esteja nisso por isso.

Sim, só assim mesmo me sinto um escritor. E então, dou o braço a torcer, porque sempre costumo me definir como quem apenas gosta de escrever e o faz, sim, por compulsão, não por um objetivo extrínseco, mas pela revelação que ocorre de mim mesmo para fora de mim mesmo, naquele instante em que as palavras me organizam, já que internamente prospera o caos..

Afora isso tudo, ele, esta persona escritora, acaba mesmo sempre no último ponto, pensando que aquilo tudo que dissera pudesse ser meia verdade apenas e me deixasse insatisfeito. Pois o meu azar é que é esta mesma preferência. A deferência devida ou indevida é um critério de terceiros, não me interessa nem um pouquinho. Nesse aspecto (talvez em outros também), sou pessoano: e o resto que venha se vier, se tiver de vir ou não venha. Talvez, se meu pai lá atrás tivesse me impedido de usar sua máquina de escrever vermelha (ela me foi fundamental por ter me cedido gratuitamente sua velocidade), porque minha caligrafia sempre foi péssima, mas, pensando bem, mesmo assim… Será tudo isso, ao fim das contas, apenas dependência do som das teclas? Se for assim, o touchscreen completará um dia desses o serviço e então irei finalmente para a previdência secreta dos escritores, decerto a mais mal remunerada entre todas..

Anúncios

Fragmento de uma crítica abandonada sobre críticas negativas

Uma única vez na vida tive vontade de erguer a pena, quer dizer, os dedos ao teclado, para interpelar um autor em razão de sua obra. Felizmente desisti em tempo. Desisti porque me sentiria infeliz só de começar a pensar no assunto. Além de tudo, seria não apenas tempo perdido, seria mal empregado mesmo, afinal é muito provável que o autor (um consagrado) jamais fosse ler aquilo e eu, como disse, não me comprazo nem um pouco na tarefa de desmontar qualquer autoimagem que alguém possa ter para consigo mesmo, isto é, acho justo que todo autor nutra para com sua autoestima as melhores expectativas. Admiro, sim, por outro lado, algum zelo com uma certa tendência a megalomania, mesmo considerando que, por outro, requer-se sempre um pouco dela para uma empreitada que efetivamente valesse a pena. Quer dizer, lamento pela inevitável desfaçatez com que se tratam muitas vezes obras inovadoras, mas há que se considerar que muitas vezes, ao invés de ser efetivamente o produto inovador a despontar no horizonte da mesmice mental e cultural de um tempo qualquer, se possa estar vendo apenas um tipo de fantasmagoria, uma miragem, ou, pior de tudo, uma projeção enviesada de tendências caquéticas prestes a esfacelar-se, aí sim, num movimento inovador, mesmo que um localizado num eterno porvir. Admiro, sim, aqueles autores que tem a coragem de ver-se sob essa perspectiva, mas os amigos, infelizmente, costumam impedi-los em tempo.

Sobreviventes

Em fins da década de 70, Caio Fernando Abreu escreveu o necrológio do que havia de movimento hippie no Brasil de então. É um poema que está publicado no livro “Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu”, da Ed. Record, e chama-se “OS SOBREVIVENTES”.

Este tipo humano, exatamente assim, já meio fora de tempo e um pouco perdido, eu ainda conheci na minha infância. Pelo menos, no interior do RS, havia quem procurasse essa indumentária, essa caracterização hippie clássica: cabelos longos, batas indianas, sandálias de couro e um olhar ao mesmo tempo de resistência e estranhamento. Os anos 80 já batiam à porta e a redemocratização brasileira idem. Alguns em modos de vida realmente alternativos, sobrevivendo do artesanato e até de venda de poesia mimeografada. Lembro disso muito bem. Havia, ao lado de muita gente fantasiada, sobreviventes de verdade.

Nessa mesma época, prosperava também outro visual comum entre as pessoas mais ou menos da mesma faixa etária. Era o visual do movimento estudantil, politizado. O cabelo não era longo, motivos peruanos e/ou indianos não eram habituais, não usavam drogas e até condenavam-nas por suposto apelo à alienação. A camisa dentro das calças, a cabeça dentro de livros de formação e os ícones, ao invés dos ídolos do rock como Janis ou Lennon, concentravam-se mais em figuras revolucionárias: Che, Lenin, Trotski, etc.

Jovens demais para terem participado da resistência à ditadura ou da luta armada e de certo modo como os hippies de então, encarnavam uma fantasia espiritual: tomar o poder, mudar o mundo. Não puderam. Os anos 80 foram implacáveis, crise sem fim, inflação monstruosa, TV a cores e música pop, cultura pop, política pop.

Os 90 continuaram na mesma batida e neles foi protagonizada a grande virada política de então, nas mãos do tucano Fernando Henrique Cardoso: a primeira reforma administrativa desde os anos 60, lei das organizações, novo modelo de assistência, saúde, privatizações e a destruição definitiva do sonho de Anisio Teixeira: universalização da educação. As prioridades voltaram-se ao mercado e sua relação patológica com o Estado brasileiro: esta mesma doença da qual padecemos hoje e nos custa bilhões sem fim.

Depois veio esta história recente, a de agora, em muito levada a efeito por aquela mesma geração dos anos 80, da redemocratização, do movimento estudantil mas já sem barra pesada, sem clandestinidade, que, assim como aqueles sobreviventes hippies, parece insistir em vender o incenso da sua “luta” ideológica sem perceber (ou se fazer notar) que sua imagem ficou fatalmente anexada ao dinheiro na cueca, ao aperto de mão com Maluf e a uma iconografia dramática, feita por sessentões barrigudos como aqueles de então, financiados por esse dinheiro aí, dessa matéria prima manuseada por Odebrecht e outros milagres brasileiros.

Caio Fernando Abreu virou meme e ninguém ainda escreveu sobre esses sobreviventes, nem quem lhes tente herdar a sucessão. A história virou vapor nas redes sociais e nos falta, como Caio fez com os hippies, quem nos esclareça sobre isso. Mas não falta quem recicle, como farsa, a pantomima.

É meio triste e não sei onde isso vai dar, mas agora só consigo sentir saudade dos primeiros sobreviventes.

__________________

OS SOBREVIVENTES
Caio Fernando Abreu

Os sobreviventes
às vezes ainda aparecem
em busca de papo
ou qualquer coisa assim.

Ainda trazem os cabelos compridos
duas ou três pulseirinhas
alguns panos coloridos
ou um incenso nas mãos.

Só os olhos mudaram.
Aquela loucura das pupilas
aterrizou, virou espanto
de ter virado espanto.

Pois um sobrevivente
nunca imaginou que pudesse um dia
virar sobrevivente de um tempo
e de si mesmo. Mas virou.

Pelas tardes, de repente,
os sobreviventes ainda aparecem
procurando nos meus olhos
o que nos olhos deles já não existe.

Mas nada encontram.
Faz tempo, rasguei as fantasias
pendurei os colares nas paredes
mandei o pano indiano pra lavanderia.

Nos reconhecemos assim
esbarrando pela noite ou pelas tardes
feito zumbis de almas para sempre perdidas
no sonho que se foi. E que não volta.

O ofício agora é navegar sozinho.
Sem razão, sem porto, sem destino,
sem irmão nem mapa. Sobre-vivendo
à nossa própria morte. E isso é tudo.

Sampa. 23 de julho de 1979.

O meu amigo Levi

Por essas tristes fatalidades da vida, precisei há cerca de um ano trocar de chip no meu aparelho celular. O antigo, infectado por um vírus, depois de promover uma onda monumental de spam em meu nome, de um dia para o outro bateu as botas e nunca mais funcionou, o finado e bom número. O novo, radiante e aparentemente intacto, trouxe com ele o nome da pessoa mais indesejável que há no planeta Terra, quiçá no sistema solar inteiro, galáxia, universo e mundos paralelos: o Levi. Guardem esse nome: L – E – V – I.

Quem me conhece sabe muito bem que eu não sou nem nunca fui o Levi. Mas o maldito sujeito, além de um dia ter possuído o número que a operadora de telefonia me legou, era o maior calavera da paróquia. Um devedor contumaz. Fichado na SERASA e em todos os sistemas de fichamento de crédito sabidos no mundo inteiro, devedor do Bradesco, do Itaú, do Banco do Brasil, do Unibanco, da Caixa Federal, do HSBC, do Santander, do Citibank e outros mais. Acho que até do Banco Safra e outras iniciativas igualmente calaveras ele era cliente. Cliente e inadimplente, diga-se de passagem.

Evidente que, por ter herdado seu número, herdei também as cobranças desta nobre pessoa, o Levi.

Teve dias que temi pela vida do Levi, é justo que o diga. Não porque eu desejasse matá-lo (isso nunca passou pela minha cabeça), mas imaginei que se ele devia para tantas pessoas jurídicas, tranquilamente ele deveria também para pessoas físicas… Daí a ser um alvo de um esquadrão de matadores de aluguel seria uma passo relativamente simples, basta você ser um pouco chato e isso, bem… Mas não, nunca desejei nada de ruim ao Levi. Eu queria apenas que me desassociassem do seu nome e do seu CPF e então estaríamos de boas pela vida. Não sou de guardar rancor, como se vê. Basta que me deixem em paz e estamos bem!

Por um tempo, cessaram as incontáveis ligações em busca do Levi e mensagens SMS e até os convites para grupos de credores no WhatsApp. Na minha inocência, julguei que estava finalmente livre da memória dessa criatura subitamente íntima. Vã ilusão… Um dia recomeçaram, primeiro sutil e depois enfaticamente, as cobranças, agora unificadas numa única empresa especializada. Especializadíssima, soube mais tarde. O alívio, transitório como todos os alívios, acabou por revelar-se o maior dos tormentos. A empresa desejava realmente caçar, incomodar, infernizar a vida do Levi e, para ela, se o número estivesse no meu nome ou no do Papa Francisco, eles não se comoveriam.

Sistemáticos, eles passaram a ligar cerca de 7 vezes por turno do dia, através de números os mais diversos, de prefixos de localidades tão estranhas quanto o município de Anta Gorda, no RS, como de Jijoca de Jericoacoara, no CE. Eu, por pensar que poderia ser uma herança de um remoto e desconhecido parente milionário, por um tempo fui atendendo as ligações, confiando naquela hipótese do raio cair bem na minha cabeça. Logo, vi que era apenas mais da herança e do legado do Levi e suas operações bancárias.

O suprassumo aconteceu num dia em que, estando na escola para buscar meu filho junto a outros pais e familiares, a ligação foi ineditamente convidativa. Uma gravação convidava-me a dizer SIM ou NÃO após ouvir o bip e tudo estaria para sempre resolvido. Na hora, subitamente emocionado, disse o que estava entalado na minha garganta por meses a fio. Disse um comprido NÃO. Representado graficamente, saiu mais ou menos assim: NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO! E, por um momento absolutamente descontrol, continuei: NÃO, EU NÃO SOU O LEVI, NÃO SOU, NUNCA FUI, NÃO CONHEÇO, ODEIO, QUERO MATAR!!

Houve olhares. Algum estranhamento também. Mas logo expliquei expressamente a minha situação, no afã de ser compreendido, e não foi com pouca surpresa que meus interlocutores revelaram que tinham, cada qual, o seu equivalente ao Levi. Nem digo que fiquei aliviado, mas serviu, sim, de consolo, saber que, afinal de contas, não sou apenas eu o condenado à chateação telefônica. Somos todos ou, pelo menos, um bom número…

De resto, serviu-me o aprendizado com o meu amigo Levi a desconsiderar solenemente ligações que não sejam do meu mais restrito círculo de conhecidos. Eu até continuo oferecendo de bom grado meu número, e agora sem nenhum cuidado, para qualquer farmácia e padaria que quiser me cadastrar, sabe-se lá com que objetivos, eu informo. Não vou atender mesmo… Então, já sabem, se quiserem falar comigo, não me liguem. Depois do Levi, todos são potenciais Levis. E, sinceramente, um já me foi o bastante pela vida inteira.

Era só o que faltava

poetas

Durante todo o ano de 2016 tive uma companhia que há anos eu vigiava a uma distância respeitosa, mas ainda não tinha para mim: a poesia completa do Mario Quintana. Ele, um gaúcho sem o menor gauchismo, pessoa com um senso de observação do humano atiladíssimo, foi dos primeiros poetas cosmopolitas e verdadeiramente universais destes pagos sulinos, senão o primeiro (ou o único).

Tinha ele uma simplicidade que chegava a ser hermética. E um anti hermetismo total capaz de extrair poesia (para muitos rasa e superficial) do seu contato com a própria superfície das coisas, das pessoas, do tempo, dos lugares e às vezes parece que de quase tudo sobre o que pensava ou colocava os olhos. A poesia nele não era fácil, difícil nele era o que não convertesse em poesia.

Poeta da ironia e da sutileza, Quintana não precisava adentrar na mente alheia para entendê-la. Por outro lado, parecia ter um sentido de revelação que dispensava qualquer caráter invasivo ou colonizador. Não a revelação mágica ou divina, que muitas vezes impõe ritos e hiper interpretação onde muitas vezes nem os há, mas aquela de desvendar os pequenos mistérios da vida e estes para ele eram justamente os maiores: o de notar o traço humano que se oculta na trivialidade cotidiana e a irreverência em apontar que há poesia nisso, e muita.

Hoje, por tudo que leio dos contemporâneos, penso que o Quintana seria um transgressor incompreendido. Mas talvez outros poetas e escritores geniais do passado também o fossem (ou continuassem a ser).

Junto a ele, bem ao lado da sua poesia completa, coloquei a nova edição completa de Adélia Prado e também a poesia de Wislawa Szymborska traduzida e publicada neste ano pela Companhia das Letras, num lindo trabalho de tradução. Os três ali, um pouco mais afastados de outros até mais festejados, mas que me importa? Foram estes os que me acompanharam durante o ano, como se os tivesse colocado a conversar entre si. Até procurei me intrometer na conversa deles, às vezes, em objeções idiotas, só para criar caso. Mas eles insistiram em permanecer naquela perenidade dos já eternizados e, por isso mesmo, não precisaram se ocupar das minhas tolices e advertências, Quintana principalmente. Era só mesmo o que faltava.

Cara de corrupto

noite

Desde que assumi a subsindicância do condomínio onde vivo tenho sido permanentemente aliciado para a corrupção. É impressionante. Depois da experiência, estou até quase perdoando os corruptos contumazes. É mesmo um feito resistir às vantagens ilícitas que são oferecidas a qualquer um, mesmo em se tratando de um reles subsíndico como eu.

Esses dias precisamos arrumar o portão do prédio, que dá para a garagem. Aproveitei a ocasião e pedi para verificaram um problema no meu portão interno, que o condomínio não tem nada a ver, em absoluto. Na hora de fazer o pagamento, a oferta com aquele sorriso diabólico do corruptor: “Deixa que eu ponho tudo na mesma nota…”, disse o nobre prestador de serviços.

Senti-me como Eva diante da maçã e a nota ali na minha frente, bastando uma rubrica para ficar tudo por isso mesmo, a própria serpente da danação. “Não precisa, imagina…”, respondi ao sujeito que, depois disso, acabou tendo de ficar sozinho no seu constrangimento.

Ontem, outro prestador de serviço. Dessa vez um eletricista que veio consertar a célula fotoelétrica. Orçamento acordado, aquela coisa e, na saída, pimba! De novo! Dessa vez a oferta era a de colocar também na nota de serviços o material que foi preciso comprar na ferragem, para o qual já tinha nota, não precisava de outra. Mais uma vez o convite malicioso, tipo assim me convidando para o estranho paraíso dos pequenos pilantras, junto a um cartão para o caso de “outras necessidades”. De novo apliquei a minha cara zen-budista até o sujeito perceber que não me interessava a sua proposta.

Na hora fiquei pensando: dois chamados, duas ocorrências. Vai ver todo mundo é corrupto mesmo e eu achando que esse era um papo furado aplicado apenas para o caso de amigos ou amados flagrados em malversações. Ou então, desgraçadamente, eu é que tenho cara de quem está sempre apto e a fim de levar um “purfa”… Pode ser, afinal quem sabe o que os outros veem na gente? De repente, tenho cara de malandro mesmo. Paciência, que é que eu vou fazer?

E também fiquei pensando que, se na ínfima burocracia condominial a ocorrência de aliciamentos é de 100%, que dirá nas altas esferas e altos empreendimentos pagos com dinheiro público. Deve ser 100% de corrupção fora o ágio.

Só lamento é que, no meu universo de observação, os envolvidos não sejam pilantras graúdos, desses que eu desejaria ver mofando na cadeia, mas pessoas humildes, provavelmente habituadas nisso por vantagens menores, muitas vezes insignificantes. Provavelmente, sim. Isso mesmo. Mas a questão de definir o que é significante é muito individual. Tem muitas coisas e gestos que eu acho mesmo insignificantes, pequenos crimes, e jamais me ocorreria puni-los ou bancar o moralista. Casos assim são recorrentes, lamentáveis e normalmente julgados com rigor absurdo, enquanto outros incrivelmente não são.

Seja como for, me enche de tristeza ver trabalhadores humildes recorrendo a expedientes desse tipo. Decerto não temem por isso, mas o fato é que se expõem de uma forma muito absurda, quase obscena. Sei que há nisso uma violência embutida que quase ninguém percebe, ainda mais nesses tempos de justiçagem generalizada, mas, paciência… A pessoa decide que vale a pena correr o risco e aí, no fim das contas, acho que não está nem aí para o que os outros pensam ou vão pensar. É um modus vivendi dos mais comuns.

Essa e outras intercorrências, com outras espécies de estupidez deliberada, têm me feito pensar que os síndicos são pessoas talhadas para os mais duros desafios da vida contemporânea. Ou é o assédio incansável de corruptores ou é o desleixo deliberado do seu vizinho de porta. Quer dizer que a pessoa assume a incumbência de ajudar a coletividade e é levado a provações morais incalculáveis, de quebra tendo de ser um exemplo de cortesia e civilidades e, obviamente, sendo o suspeito preferencial da corrupção endêmica que parece assolar a sindicância de um modo geral.

Bem dizia um amigo meu, com experiência no assunto, que se pode exigir tudo de um síndico, menos fé na humanidade. A frase é de letreiro de caminhão, mas tem 110% de verdade, já descontada a Lei do Gérson embutida.

Seu Teixeirinha, o faz-tudo

teixeira

Hoje cedo recebi, pelo interfone daqui de casa, uma chamada de um senhor chamado Teixeirinha. Teixeirinha, no Rio Grande do Sul, ainda hoje é o maior ícone da música popular tradicionalista. Em vida, gravou cerca de trinta discos ou mais, participou de pelo menos dez filmes e incontáveis vezes suas músicas tocaram nas rádios daqui, principalmente as de onda média, de larga penetração nas cidades do interior do estado. É claro que não eram a mesma pessoa, porém, como eu não via o seu semblante, mas ouvia seu modo de falar em tudo interiorano, tive uma conversa estranha com o seu Teixeirinha. Não o fantasma do músico, mas este outro: sujeito aposentado que procurava serviços gerais para ajudar a “criar os neto”, conforme ele disse.

O homem ia falando lá de baixo e eu, cá em cima, montava a fisionomia do outro Teixeirinha mentalmente. Imaginava um homem atarracado como o outro, já falecido. Cabelos escuros improváveis e bigode à gaúcha, como o da imagem do Teixeirinha que eu conservava em mente. À medida em que a conversa progredia, entretanto, fui perdendo a imagem do cantor mitológico, mas restava um modo tão simples e direto de dizer as coisas que era como se eu estivesse falando com qualquer pessoa “de antigamente”. E a conversa, como tinha para ele um propósito e eu, estando impedido de descer no momento, acabou transcorrendo daquela forma impessoal, separados nós por três andares do prédio e camadas e mais camadas de pisos e paredes que impediam que nos enxergássemos frontalmente.

O que ele queria é que eu anotasse o número do seu telefone e, na eventualidade de uma necessidade de qualquer serviço, como de encanador, eletricista, pedreiro, o que fosse, não hesitasse em lhe chamar. Aposentado ele estava agora, mas não tão tranquilamente quanto fosse digno para estar de pernas esticadas numa praia ou numa varanda, mas vagando pela Cidade Baixa, de Porto Alegre, em busca de serviços ocasionais (ou changas, no modo de dizer rural), para ajudar no sustento da família e na “criação dos neto”, com o perdão da repetição da sua fala.

Não sou o síndico do prédio onde moro, mas sou casado com a síndica. Ao contrário de outras composições políticas semelhantes, atuamos em comum acordo e jamais me ocorreu, por exemplo, sabotar sua gestão ou coisa equivalente. A pessoa prevenida inclusive jamais deveria incorrer numa parceria feita à sorrelfa, com pessoas que não se confiam. Se assim não pode ser na vida política, na vida pessoal é completamente inviável ser de outro modo.

Como a titular da pasta não estava em casa, atendi eu mesmo o que ele pedia. Guardei seus telefones e sugeri que me aguardasse um instante, que em minutos eu desceria até lá para falar com ele diretamente. Com o seu Teixeirinha. “Não se incomode”, ele falou, porque estava visitando os prédios todos do bairro e de cada um onde estivera antigamente a serviço ele lembrava do nome dos antigos moradores, inclusive do nosso, com quem teria “tratado serviço” há muitos anos atrás. Esta pessoa, já falecida, havia sido major do exército, pracinha da FEB na 2ª Guerra Mundial, e fôra síndico por muitos anos. Na nossa conversa, citar o seu nome funcionava como um atestado de idoneidade. Interiorano como sou, entendi assim a menção a este antigo vizinho que era vivo ainda quando viemos morar aqui. E, na lógica da conversa, era isso mesmo o que ele queria dizer, que não era um ninguém, mas era o seu Teixeirinha, conhecido deste, daquele e daquele outro. Alguém cuja credibilidade era dada quase por uma tradição. Seja como for, foi o suficiente para que eu acreditasse nele.

A conversa não foi longa, mas o bastante para que eu percebesse que a firmeza na voz do meu interlocutor seria exatamente a mesma do seu empenho em qualquer trabalho que fosse fazer. Há não muito tempo atrás eu havia tomado um calote de um sujeito bem jovem que veio fazer um serviço de encanamento aqui em casa e pensei que era uma lástima eu não ter desde antes o contato do seu Teixeirinha. Esse outro fez um serviço péssimo que tive eu mesmo de reparar, ainda que tivesse pago e não pouco pela sua execução. Paciência. Pagava em dobro para ele não pisar mais na minha casa.

Não tenho de imediato um serviço para oferecer ao seu Teixeirinha nem aqui em casa nem no condomínio, mas sou bem capaz de quebrar um cano ou estragar uma coisa qualquer de propósito a fim de chamá-lo. E nem tanto para me certificar de que não se trata de uma reencarnação do antigo cantor de música gauchesca, mas porque se isso fosse ajudá-lo a completar a aposentadoria miserável que pagam aos velhos no Brasil, já valeria a pena. Antes investir diretamente no seu Teixeirinha do que nesses gatunos que agora se resolveu chamar de “gestores”. E, mais a mais, apesar de que certamente fosse mais digno e justo que uma pessoa nessa idade estivesse sossegada, de tanto e tanta pilantra que se é obrigado a ver nas “mídias” e “redes sociais”, sempre é bom ver com os próprios olhos um índio velho desses que não se entrega assim “no más”.

A vida mesma, ela é outra coisa

ajedrez_captura_al_paso_del_peon

Há uns dias recebi um convite inusitado. Para mim pelo menos, completamente inusitado. Tratava-se de escrever uma biografia de uma pessoa viva. Instantaneamente o recusei.

Não que eu considere que os vivos não podem ser biografados, afinal não há nada que impeça isso e biografias de pessoas vivas, especialmente celebridades, são abundantes. Não que eu tivesse pudor de qualquer espécie em saber detalhes íntimos de alguém para realizar uma encomenda assim. Não é nisso que estamos sempre interessados ao querer entender uma pessoa? Entender o que move suas decisões? Seus sentimentos e motivações mais entranhados?  Estou querendo dizer que somos todos um pouco fuxiqueiros? Claro que somos!…

Porém não se trata disso e a pessoa em questão tem uma história de vida, que conheço en passant, duríssima. Dificílima mesmo. E o primeiro que me veio em mente foi que seria duríssimo para mim também contá-la de qualquer maneira, porque não saberia me desvincular da pessoa biografada. Não tenho essa capacidade de distanciamento de ouvir um relato e não me envolver emocionalmente com ele.

Por isso que prefiro escrever ficção a tratar rigorosamente a realidade. Na ficção, por pior que seja uma situação humana, há uma projeção e uma certeza antecipada de que, terminada a narrativa, nada terá acontecido de real a ninguém. Mesmo na pior tragédia, não restarão mortos e feridos e isso representa um alívio considerável a quem escreve, embora sua intenção possa ser muitas vezes erigir uma vida como se real ela fosse. Felizmente, pelo menos no meu caso, não é. A realidade é intocada pela ficção e a maneira mais efetiva que um escritor pode contatá-la eu acredito que seja, por incrível que pareça, através da poesia; isso porque a poesia fala diretamente com o real, ainda que de modo simbólico e metafórico.

Uma outra coisa a considerar é que um relato oral, por si só ele já é ficcional. Qualquer um que relate um fato ou tente apreender a realidade irá fatalmente depositar suas impressões ou pelo menos estabelecer um ângulo específico de apreciação. Nem sobre a própria vida é dado ao ser humano ser rigorosamente integral e sincero. Quantos, ao falarem de si mesmos, não acabam aplicando-se um lustro exagerado ou sonegando sombras comprometedoras? Talvez, num inquérito policial, ou em juízo, alguém poderia ser totalmente imparcial consigo mesmo e relatar os fatos com concretude total. Ainda assim, ao tratar da motivação humana, toda essa arquitetura realista simplesmente evapora. Sobram impressões, antevisões, tentativas, aproximações, coisas assim.

Por isso, pelo menos no que diz respeito a mim, a subjetividade dificilmente comporta uma narrativa e fazê-la com competência requer um tipo de empreendimento literário altamente complexo que nem se produz muito hoje, como no Brasil Clarice Lispector ou Lucio Cardoso fizeram tão bem nos anos 50 do séc. XX.

Porque variável por natureza, a subjetividade é o reino da poesia. E, por mais apreço que eu possa ter ou vir a ter para alguém, jamais me sentiria capaz de subjugar à linearidade narrativa que uma biografia exige a subjetividade de quem quer que seja. Daí a necessidade de expurgar de mim a psicologia dos outros na ficção, porque simplesmente chega um momento em que um personagem não cabe mais dentro da gente e precisa ganhar vida própria, mesmo que uma vida imaginária, e encerrar sua trajetória, cerrar seus olhos e calar sua voz para sempre.

Porque a vida real é muitas vezes insuportável de ser conhecida em detalhe, criou-se talvez a ficção. Para que pudéssemos tomar conhecimento das piores tragédias, mas com a possibilidade de fechar o livro e nunca mais se incomodar com isso. A vida mesma, bem, ela é inteiramente outra coisa.

Irrecuperáveis

guigoeyo

Não são muitas as vezes em que sinto necessidade de falar ou escrever sobre meu filho. É sério isso. Nestes quase dez anos, posso contar nos dedos de uma mão apenas as situações em que isso me ocorreu. Isso de não resistir ao ímpeto de lançar-se ao recurso caudaloso da escrita. Isso é estranho para mim mesmo porque, desde o seu nascimento, boa parte (ou pelo menos a melhor parte) de tudo o que tenho feito ou pensado tem a ver direta ou indiretamente com ele, embora isso não signifique que me coloque antes dele em nada nem situe ele no centro absoluto e copernicano da minha vida. Até porque ele tem a sua própria vida e a sua particular maneira de interagir com o mundo e de ser quem e o que ele é. Porém, porque sou seu pai, é obvio que, assim como eu o tenho, ele também tem a mim, daí ser isso tudo um sistema, vamos chamar assim, dinâmico.

Mas hoje, desde muito cedo, diferente da maioria dos outros dias, quando a rotina ordena idas e vindas, enumera atividades, lista deveres e faz agenda até mesmo dos nossos minutos, hoje acordei pensando muito em que, talvez de um modo um pouco diferente do que sinta a maioria dos pais e mães de crianças com deficiência intelectual que tenho conhecido, eu sinto necessidade de falar menos dos meus “sucessos” que dos meus “fracassos”. E por pensar num fracasso em especial entre os muitos que eu devo estar acumulando nesse meio tempo sem nem ter conhecimento pleno deles ou de que assim o sejam, esse sentimento me invadiu de uma maneira irrefreável.

E logo cedo uma certeza se tornou inegável para mim mesmo: a de que fracassei em ensinar ao meu filho ou em fazê-lo perceber que, praticamente desde a sua concepção intrauterina, quando era um mero amontoado de células multiplicando-se alucinadamente, e que isso está escrito no seu genoma como uma espécie assustadora de sistema operacional inextirpável, que ele nasceu com e tem e terá pela vida inteira a síndrome de Down.

Pois é isso: eu fracassei. E percebi claramente a dimensão do meu fracasso ao perceber que o trouxe comigo nesta enrascada: nem eu e nem ele sabemos o que é a síndrome de Down. Nem ele para notá-la em si mesmo; nem eu para ensiná-lo do que não sei ao certo o que seja.

Pelo menos quanto a mim, sei muito bem de onde vem essa falha. Vem de eu não saber nem como definir a mim mesmo. O que sou, afinal, além de um genérico ser humano, como os outros 8 bilhões de genéricos seres humanos praticamente todos essencialmente iguais a mim mesmo? Salvo algumas particularidades visíveis e outras nem tão visíveis, ser “humano” é o que de melhor posso dizer a meu próprio respeito, mas posso e desejo dizer isso a respeito de todos os outros 8 bilhões também. Então isso embora pareça relativamente pouco, é o máximo para exatamente todos.

Posso dizer também minha profissão, minha  identidade de gênero e orientação sexual, minha idade, minha condição econômica e, talvez, a cultural. Posso dizer também, se isso me definir para alguém, o salário que declaro à receita federal, minhas últimas opções eleitorais e outros pormenores do mesmo gênero. Além disso ou, ainda com tudo isso, que diferença isso tudo faz à minha condição de humanidade? Pois é. Isso mesmo. Nenhuma. Mas, por um convenção social a meu ver completamente equivocada, para ele, meu filho, isso deveria fazer toda a diferença.

Quanto a ele, talvez eu devesse ajudá-lo a ter maior autoconsciência, maior metacognição. Mas a verdade é que ninguém pode, a rigor, ensinar a quem quer que seja uma consciência arbitrada sobre si mesmo. A verdade é que somos como podemos ser e como podemos nos imaginar. Meu filho com certeza não imagina que tenha a síndrome de Down. E nem eu imagino que ele devesse imaginar uma coisa dessas.

Eis a complexidade da situação.

Se para qualquer pessoa definir a si mesmo é uma tarefa complicada, seja porque muitas vezes não sabemos como abordar a nós mesmos, ou porque nos falte consciência ou até mesmo coragem de assumir a integralidade da própria condição, como então esperar que uma criança, justamente uma criança, possa compreender e assumir irrevogavelmente essa condição pétrea, essa identidade fixa, isso que os adultos todos, pais, professores, médicos, comunidade e etc. dizem sempre que não faz a menor diferença, ou seja, a sua própria diferença?

É complexa e mais difícil do que parece a situação, na verdade.

Fosse tudo diferente, se soubéssemos o que estamos fazendo nesse intervalo particular a que chamamos “nossa vida”, certamente videntes, astrólogos e psicólogos estariam falidos, bem como possivelmente os poetas estariam em silêncio e viveríamos sem maiores inquietações criativas e nem haveria necessidade da arte, matriz e expressão final das mais estranhas inquietações humanas. Não é o que afirmamos implicitamente ao dizer que arte é vida e precisamos dela assim como de oxigênio: às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos?

Acho que sim. E que, ao contrário dos demais seres vivos, nós – os seres humanos – sentimos uma imensa necessidade de atribuir e conferir significado à vida, seus intervalos, etapas e, se possível, até aos mais triviais minutos e segundos. Então dizemos por aí ou assumimos como verdadeiras algumas sentenças e verdades acerca de nós mesmos porque o tempo de autorreflexão é cada vez mais exíguo diante das urgências da vida, as reais e as “virtuais”. Daí a pressa toda.

Pensamos que somos belos ou feios, estúpidos ou inteligentes, egoístas ou altruístas, legais ou chatos, ricos ou pobres e assim por diante. E muitas vezes, isso também eu suspeito que seja verdade, nos enganamos a fartar a respeito de nós mesmos. Algumas vezes até deliberadamente. Por que então não nos enganaríamos a respeito dos outros? Por que tentaríamos não deliberar sobre os outros se dispomos até mesmo da nossa própria identidade e condição humana, como kits avulsos, como rótulos de produtos e embalagens? Como nomes cujo sentido muitas vezes sequer entendemos por completo?

Por outro lado, duvido que nunca nenhum de nós tenha pensado que a vida do “deficiente”, do “doente mental” ou de um “desviante” qualquer que se possa escolher como objeto de racionalização não contenha mais verdade, ou pelo menos felicidade, do que qualquer outra vida corriqueira e cheia de rotinas e tudo isso que “faz uma vida”… E duvido por uma única e exclusiva razão: a chance desse pensamento estar correto é tão plausível quanto o seu oposto e pensar-se em uma única forma de vida válida é apenas a expressão da mais subjetiva arrogância, isso que exacerbamos como conquista e mérito na nossa cada vez mais egocêntrica e tendenciosa compreensão do mundo, dos outros e de nós mesmos.

Então, vamos ver. Pelo menos a complexidade da situação parece simplificar-se um pouco. Mas tem mais.

Lembro que logo que meu filho nasceu, ou nos seus primeiros anos de vida, acompanhei mais ou menos à distância um diálogo, num grupo de pais e mães reunidos via internet, de que determinada criança, não sei filho de quem, também nascida com a síndrome de Down, de que essa criança de não mais de quatro ou cinco anos de idade “sabia” que tinha nascido com a síndrome de Down.

Lembro de que imediatamente essa informação me pareceu chocante e estarrecedora e não somente por conhecer desde aquele momento um pouco a respeito das dificuldades cognitivas inerentes à síndrome, mas porque, na ponta do lápis, ainda hoje o que se sabe melhor a respeito da síndrome de Down é a sua etiologia, sua causa, mas não no que ela implica biológica e psiquicamente. Pelo menos não na sua totalidade. Pelo menos não com a mesma clareza que se entendem outras condições, porque o genoma humano é um complexo relacional dinâmico e não um mapa astral, de onde não se tem muita saída e ao qual se estaria fatalmente atrelado. Para completar, a síndrome também falha em ser abordada como patologia justamente porque esse é um limite impreciso que, como se vê, provém do interior da vida intracelular e chega até a vida social e em suas tentativas de explicá-la, bem mais tarde, na vida adulta propriamente dita.

Naquele momento, entretanto, a questão para mim era outra. O que me importava era entender o que essa criança efetivamente sabia sobre a síndrome e saber o que os seus tutores no assunto sabiam também a respeito dela e teriam conseguido transmitir-lhe assim tão precocemente. Ou se ela apenas dizia que “era Down” como dissesse “sou menino” ou “sou menina”.

Provavelmente era isso mesmo, mas a conversa na época não prosperou a ponto de que eu pudesse entender melhor isso porque pelo menos eu não lembro mais nada significativo que tenha se dito, a não ser o anúncio estarrecedor de que uma criança com deficiência intelectual teria hipoteticamente consciência de uma condição que, na verdade, nem hoje ainda a ciência sabe dizer o que poderia defini-la, para além da trissomia do cromossomo 21 e sua atabalhoada expressão.

Quando me lembro dessa situação, fico pensando ainda hoje em que tipo de lições ou instruções eu deveria ter fornecido e estar fornecendo ao meu filho para que ele entendesse o que é “ser Down”. E, sinceramente, duvido que ele fosse conseguir entender! E afirmo isso nem tanto pelas suas dificuldades cognitivas, mas pelo contrário: por culpa das minhas dificuldades explicativas. Não existe a possibilidade que meu filho, mesmo quase aos dez anos de idade, possa entender as implicações genéticas e bioquímicas da síndrome de Down, das quais sou assumidamente um quase total ignorante.

Esta possibilidade, portanto, está completamente descartada.

A possibilidade seguinte me parece pior ainda. Parece hedionda do ponto de vista ético e humano. Se eu procurar explicar-lhe, por exemplo, que as suas dificuldades em tudo humanas são elas mesmas a síndrome, será antes de qualquer coisa cientificamente errado, além de ser uma violência de minha parte, ou uma espécie de fuga, como é sempre o gesto de atribuir ao desconhecido a razão de ser de qualquer comportamento ou característica. Seria como admitir que a fase lunar ou a estação do ano estariam agindo nesse sentido. Seria uma fraude de minha parte. E uma violência para ele, porque eu estaria condicionando a minha visão a seu respeito com base numa fantasia pela qual optei unilateralmente, uma crença qualquer ou até mesmo uma ideologia que eu determinaria e que poderia falsear ao meu bel prazer entre o que é deficiência e o que ela não é, conforme os pressupostos e interesses ideológicos em questão, sejam meus ou tomados de empréstimo.

A verdade, ou pelo menos a única verdade que me interessa, é que eu não sei e espero nunca saber lhe explicar o que é a síndrome de Down. E isso não é uma opção simplista por viver na ignorância, mas talvez seja a opção mais difícil entre todas: a de assumir para mim mesmo que a diferença não existe. Que ela é um atributo linguístico. Uma imposição clínica determinada por uma convenção cientificamente provisória, como são todos os diagnósticos clínicos, como é todo o conhecimento científico.

A verdade é que eu penso que meu filho não precisa saber de nada disso, porque acredito que nem isso vai lhe parecer compreensível, dada a sua condição intelectual, e nem vai lhe fazer falta nenhuma saber. É o que eu penso e como tenho agido desde que ele nasceu.

Ele é assim e, a despeito de procurarmos melhorar suas condições de vida, o respeitamos. Jamais irei lhe dizer, mesmo nas previsíveis situações de discriminação, que ele não recebeu um convite de aniversário de um colega, por hipótese, porque “é Down”, e sim porque os outros são estúpidos, porque a estupidez é muito mais difícil de ser autoidentificada e assumida que uma alteração cromossômica, por mais incrível que pareça.

Também as suas dificuldades cognitivas e/ou comportamentais eu jamais pensei ou pensarei em atribuí-las a um erro de expressão de um gen qualquer, mas simplesmente vou tentar convencê-lo que dificuldades dessa ordem eu e todos os 8 bilhões de outros seres humanos temos também em relação a muitas, inumeráveis e incomparáveis situações e que, bem, temos sobrevivido com isso…

Por que haverei eu de complicar as coisas para ele? Não sou seu pai? Tudo bem que é função dos pais fornecer limites comportamentais aos filhos e não penso em fugir a essa incumbência social (está bem, às vezes penso em dar umas escapadelas, sim, a este dever…) nem em criar por minha própria vontade um selvagem, mas inculcar preconceitos precoces, além de liquidar com a autoestima de qualquer pessoa e ainda por cima dar um nome a isso, me parece de uma perfídia incomum, mas a sorte é de que ela seria pelo menos de um tipo a qual se poderia compreender e, mesmo que a duras penas, sendo o caso e caso a caso, lógico, corrigir.

Não vou lhe dar esses limites conceituais, sobretudo porque gosto de vê-lo assim, sem pensar neles nem confirmar nessa idade da vida uma identidade pétrea, um rótulo, uma caricatura humana qualquer… Suas opções, escolhas, seu desejo cheio de vontades (que coisa mais estranha isso!) às vezes até o fazem um tipo difícil, mas se eu quisesse formar uma criatura totalmente dócil e passiva eu não teria filhos, teria ficado nos animais de estimação.

Talvez seja esse sentimento, seja tudo isso, uma espécie de negacionismo tardio de minha parte. Não sei. Pode ser. Apenas sei que meu filho nasceu com a síndrome de Down e de que ele não tem a menor noção disso. Eu espero que, por respeito ao ser humano que ele é, no seu futuro pessoal não fiquem lembrando a ele disso desnecessariamente, de um nome que não faz nenhuma diferença nem muda nada na sua vida. Se alguém espera de mim, como pai, que lhe ensine isso e “seu lugar no mundo”, eu sinto muito, mas pode contar desde já com a sua própria decepção. A dar-lhe essa lição, se é a mim que caberia ensiná-la, já falhei “de nascença”. Ele com a síndrome de Down e eu como sou, nós somos mesmo irrecuperáveis.

Muito em breve em Porto Alegre

porto

Porto Alegre é uma linda cidade que encanta visitantes de todas as partes do mundo, mas que cada vez menos consegue encantar aos próprios habitantes. Suas mazelas machucam-nos, esta que é a verdade, e não há declaração oficial que nos possa trazer conforto, até mesmo porque declarações oficiais costumam ser não mais que pedidos de desculpas tardios e apenas supostamente preocupados. Dependendo de vindos de quem, bota supostamente nisso.

Esses machucados se fazem notar seja quando as enchentes desabrigam centenas ou milhares de pessoas e sabe-se que se cometem furtos nas doações espontâneas que são feitas, seja quando tornados (agora temos disso também!) evidenciam o destrato histórico que uma das capitais mais arborizadas do país (e que se jacta por disso) tem para com o seu patrimônio natural.

Isso sem falar das obras viárias intermináveis nas avenidas longitudinais, surreais, que duram desde os preparativos da Copa do Mundo de 2014 e até hoje são refeitas e refeitas, numa demonstração impressionante de complete com o que quiser aqui. E sem falar, também, do lixo urbano e seu sistema de coleta sugismundo, terceirizado e precarizado, para o qual muitas vezes a higiene acaba incidindo no trabalho “voluntário” dos próprios moradores.

Seja como for, em torno daqui a cem dias os cidadãos porto-alegrenses estarão indo às urnas para decidir os próximos quatro anos da sua administração, assim como a futura composição da sua Câmara de Vereadores. Muitos sem saber direito quem são os possíveis candidatos, isso mesmo considerando o tempo exíguo para o pleito. Culpa, talvez, da complicada situação política nacional ou estadual. Ou, como quero dizer, de uma identificação precária dos quadros políticos com as questões da cidade.

Excluindo-se alguns nomes já certos e algumas pesquisas de opinião pouco divulgadas, o que não se pode perder de vista é a possibilidade de um revival de uma disputa insossa, capaz de mencionar mais maquetes computadorizadas que a realidade das ruas e promessas que muito logo acabam por revelar-se desvios de finalidade. Também é certo que não faltarão promessas por mais segurança pública utilizando-se a guarda municipal e outras inconstitucionalidades do gênero, bem como o anúncio de novas fontes de captação de água sem que haja indício de como isso poderia ser feito e com quais recursos. Fiscalização e auditoria nas contas das concessões de transporte público então nem se fale!

A tudo isso temos sobrevivido, portoalegrenses naturais e chegados. Ônibus lotados e frota maquiada é nossa praia! Até água com gosto de lodo e efeito parquet no trânsito toleramos. Só o que não se suporta mais são debates sem graça nem sentido e promessas que não encham nem balão de ar. Isso nós todos não fizemos nem pagamos por merecer.