Duas peles

Eu nunca vi um gato. Nem sei como eles são, na verdade. Na minha rua, nunca houve um deles. É como se vivêssemos num deserto ou mar adentro, onde também não há gatos.

Agora que trouxemos para casa um cão, sentimos a presença cada vez mais próxima dos gatos. É estranho. É como se eles passassem a habitar um andar suspenso, por tudo, a evitar o encontro definitivo com o cão. E é justamente por não vê-los que mais os vemos. Só ainda não sabemos porque essa curiosidade repentina quanto a nós e nossa vida. Será algo que comemos? Algo que oferecemos ao cão e eles pensariam se ofereceríamos a eles se fossem eles os animais domésticos? Ainda não vimos os gatos (pelo menos eu não), mas agora estamos sempre sentindo a sua vigilância.

Tenho certeza também que um dia serei acordado por olhos que serão de gato. Mas como saberei? Poderá ser o cão com uma máscara, mas os cães não são dados ao fingimento. Poderá também ser um gato com máscara de gato ocultando a verdadeira e desconhecida face do gato. Seja como for, como não sabemos lidar com eles, devemos apenas aceitar a sua presença.

Outra coisa que eu não duvido é que, um a um, ele nos escravizará com a sua ausência. Será como se ele pudesse chegar a qualquer momento, pois os gatos não reconhecem os limites das janelas ou portas. Não importa a cor da sua pelagem, ele chegará (espero eu) depois das seis da tarde, quando eu estiver cansado o bastante e depositar os óculos sobre a prateleira e, naquela penumbra, descansarei finalmente do dia passado na luminosidade do laboratório.

O cão, eu sei que ele já se acostumou ao perfume químico das minhas mãos e roupas, mas, e o gato? Tolerará? Eu não sei, todavia ontem mesmo providenciei nova tigela – não outra para o cão, mas uma só para ele. Dessa forma, quando ele chegar, terá certeza de ser aguardado e bem recebido. Quanto a nós, teremos um gato sem tê-lo, pois esse é o jeito certo de ser e ter do gato. Deve ser assim. Eu nunca vi um gato exceto o que veio dentro da pele do cão. Quando ele me olha daquele jeito que seleciona as camadas da realidade, eu me esqueço de tudo e fico imaginando o que ele deve ficar enxergando em mim.

Dedicatórias

Se tem uma coisa que me deixa atordoado ao comprar livros em sebos é me deparar com pequenos cartões, bilhetes e lembranças alheias dentro dos volumes. Não sinto isso e tenho nada contra anotações, grifos e marcas de leitura. Mesmo pequenos rasgões não me incomodam, mas cartões de hotel, invólucros de chocolates e até mesmo pétalas e folhas pequenas me deixam inquieto, como se estivesse invadindo a intimidade de alguém. Parece que os livros são, na verdade, simples adereços e que existem apenas para enfeitar as pequenas relíquias esquecidas ou deixadas em seu interior.

Porque ninguém é imortal ou faraó do Egito antigo, já comprei livros em sebos de pessoas conhecidas. Até mesmo de escritores famosos. Às vezes assinados, noutras autografados e dedicados, precisavam de um destino e, mesmo não sabendo que seria as minhas mãos e olhos, sei que fizeram longas, inimagináveis viagens até que eu flagrasse seus nomes ali dentro. A sensação (absurda, eu sei) é de uma espécie estranha de furto, como se estivesse me intrometendo na memória alheia, reduto último da individualidade. Muitos escritores e colecionadores têm grandes bibliotecas e às vezes, por falta de outra opção, seus livros acabam indo parar nos sebos.

Aqui, em Porto Alegre, já comprei livros que foram de Laci Osório, Manoelito de Ornellas e Caio Fernando Abreu. Também tenho alguns livros com um carimbo não identificado que muito me intriga. Um ex-libris com uma frase em latim e uma criatura mitológica que desconheço. Mas o mais estranho que já me aconteceu foi ter comprado um livro provavelmente presenteado a alguém e que tinha uma dedicatória apaixonadíssima não endereçada e nem assinada. No lugar dos nomes, apenas as iniciais “M L” no cabeçalho e uma única letra “D” no rodapé. Entre um e outro, uma declaração de amor eterno, é claro, e um convite para um encontro num banco de praça, “sob a paineira encachopada”.

Acho que comprei o livro mais pela dedicatória que pelo conteúdo, é provável que sim… Logo ao sair do sebo e procurar o caminho de casa e depois de tanto ficar ali dentro, precisava fumar (nessa época ainda fumava) e, de preferência, acompanhado de um bom café. Ali perto não havia onde encontrar o café, mas a carteira de cigarros consegui comprar numa tabacaria modesta. Pensava em quando teria disposição para abandonar o vício, andava pensando muito nisso naqueles dias, mas não seria naquele momento. “Um dia desses eu paro”, era como eu me auto enganava sobre a resolução, sempre adiada.

Com o cigarro entre os lábios e fumaceando a avenida, decidi atalhar pela Redenção. Ganharia uns bons quinze minutos se o fizesse e ainda aproveitaria o restinho do sol da tarde de inverno. Já não havia tanto por ali namorados fazendo hora, mas, à direita do meu caminho, notei que havia um casal bem jovem que brigava amargamente, entre lágrimas, gestos e as costumeiras e inúteis reparações discursivas. A cena lamentável, de amargar, chegava a pedir que tentasse ajudá-los a encontrar um acordo, mas o bom senso mantinha-me à distância. Se tivesse apressado o passo, poderia tê-la escutado dizer qualquer coisa antes de dar as costas ao jovem e partir rumo a Osvaldo Aranha de onde eu viera. Mesmo assim, o chão de terra teria abafado o impacto de um livro que ela deixou no chão e ele não sabia se a seguia ou se pegava o volume do chão. No fim das contas, não se agachou e foi atrás dela até um pedaço do caminho sem, no entanto, alcançá-la. Depois, parecendo ter caído em si, parou e tomou a direção oposta. Rumo ao chafariz central ou além.

Desacelerando o passo, observei a cena o quanto pude. Os dois caminhos distintos, os destinos de um e de outro também. No meu trajeto, ficara apenas o livro abandonado e, por força do hábito, agachei-me para pegá-lo do chão, quase ao pé de uma árvore de tronco espinhento que havia ali (não posso dizer se uma paineira, porque não guardo nome de árvores). Julgando-o pela capa, não parecia valer mais que o jornal do dia. Mesmo assim, folheei rapidamente sem saber o que fazer com a brochura. Jogaria ao lixo? Correria atrás de um deles para devolvê-lo? Atrás dele? Dela? Não, melhor nada. Talvez o livro fosse aproveitável, porque nenhum livro deve ser julgado pela capa, não é mesmo? Levaria comigo. Algum espacinho haveria para guardá-lo em casa. Na verdade, já tinha tudo planejado: guardaria o comprado junto ao encontrado e leria a ambos, um dia desses, com o mesmo cuidado, pelo menos até onde fosse possível.. Mais cedo ou mais tarde eu perceberia que ilustravam um e outro a mesma dedicatória, apesar de outras iniciais. Sem dúvida não se tratava das mesmas pessoas, mas nenhuma dúvida que do mesmo amor.

As ideias felizes, 2

Se antes a vida estivesse boa, eu nem atinava de perceber o quão ruim ela anda agora, nesses dias fechados, engavetados, reprisados de outros idênticos. Tem dias que nem mesmo o sol amarelo-azulado do inverno, à contra luz, conduz a minha vontade às ruas. Isso que a planura do Menino Deus quase não sacrifica meus joelhos nem o quadril titânico, onde acabei vindo morar.

Porém agora eu encontrei com o que me ocupar na falta do jogo de canastra dos vizinhos e dos livros e filmes aborrecidos. É que eu não tolero mais encontrar na televisão os atores do TCM, velhos quando eu ainda era um menino, perpetuamente jovens, bonitos e saudáveis. Sem pinos e nem ressalvas especiais na vida.

E também os livros me enfaram de uma tal maneira que nem é bom comentar ou pensar, afinal, vá que se ofendam os fantasmas desses gigantes todos e decidam por me punir de alguma maneira, eu não sei, quitando a minha memória num golpe só, que no fundo eles são bandidos mesmo. Esses sujeitos. É que cansa sobremaneira (se eu te contasse) ter de topar com a sombra dos outros, esses semideuses.

Eu antes preferia as pombas de longas tardes à toa, que pelo menos parecem nunca serem as mesmas. Pombas avulsas em frente ao banco onde vinha tomar meu punhado de sol antes de substituí-lo definitivamente por cápsulas de vitamina e recomendações de mais cautelas e quietudes intermináveis. Eu sei que vai chegar o dia em que vou preferir as cápsulas, mas, enquanto posso, deixo que o sol banhe a estrutura do corpo. Com a fronte protegida de qualquer coisa, é claro. E um comprimido de aspirina no bolso da frente pro caso de um enfarte. Quem é que sabe?

Mas eu vinha dizendo que a vida era suportável, agora melhorou muito com esse trumbico que o vendedor me instalou no aparelho novo, presente dos netos. Diz ele que é de “encontros”. E me deu, de atrevido, um perfil falso. Pra mim, é diversão pra horas e também a coisa de ir pra cima e pra baixo dá uma noção de movimento, de algum movimento nessas tardes pachorrentas, intermináveis.

Agora, quando até respirar virou quase desaconselhável e as figuras vão mudando, como num interminável menu de gente, e se repetindo, eu me confundo a elas e parece que desapareço da mesma forma que no footing do Centro, ainda que não se compare vida de verdade com isso.

Só convite mesmo nunca pensei que pudesse acontecer, de alguém, por me conhecer. A foto que depois troquei não é má, mas tampouco realista. Deveria me sentir um enganador por isso? Não… Também não faço ideia se essa Maria Helena é essa pessoa mesmo, apesar de que, se tem uma coisa que velho não se engana, é o ouvido (apesar da surdez). Mesmo rareando, lá dentro a gente sabe quando a voz se encolhe na garganta, rascante, e atinge as ondas sonoras com seu traço inconfundível de ave antiga, naquela rouquidão que sempre entende de se instalar e inundam as cordas vocais às vezes, e as embaraçam.

A Maria Helena não há de ser golpista e, mais a mais, vai me roubar o quê? Minha niqueleira? Os documentos? O cartão da formidável aposentadoria? Prejuízo sem monta, que me leve tudo se for mesmo mais sábia que eu (o que também não é difícil), e souber que podemos por um momento também congelar o tempo, como num beijo de três segundos, Cary e Ingrid. Ou três vezes três…

E, se for golpe, sequestro, o que seja, pelo menos olhei pra cima um pouco, tirei o mofo e me iludi. Não dizia aquele outro que a vida é sonho? Ah.. Maria Helena, olhe pra mim… O meu estado de nervos. E não repare em nada. Olhe em meus olhos, não seja tola de me comparar. Não é verdade que todo mundo fica perfeito quando não é comparado? Agora, se for pra me roubar, que roube direito, com gentileza. Porque tem muito diferença entre ser enganado ou bem roubado.

Conforme o prometido

Se não tivesse ainda alguma dúvida, o cartazinho esfarrapado colado ao poste nem teria me chamado a atenção. Teria passado os olhos por ele e me fixado no céu azul por detrás do arvoredo da rua. Limpo e azul, céu de um frio tão impermeável que até os passarinhos o evitavam, escondidos nos galhos mais grossos, sem um pio que se ouvisse.

Esperando a vez no dia mais gélido do ano, sem ir pra frente nem pra trás e sem mais o que olhar de tanto tempo ali, não sei como, mas guardei o número comigo, como se ele tivesse sido por mágica impresso por dentro das pálpebras. Logo eu, que nunca fui bom de guardar números.

Mas aquele era um cartaz que tinha tanta eficácia de promessa que eu me vi obrigado a repensar se ainda usaria uma chance mais de vê-la na minha frente. A sua cara mais inconfundível. Desenxabida mor.

Só que, pra cumprir a sua promessa, “trazer de volta”, a criatura ainda precisava ser minha. Ainda precisava ser o “meu amor”, mas será que era mesmo? Amor? E meu?

Eu não sei…

Desde quando a gente sabe, aliás, que deixa de ter o outro, se o outro é sempre mais hábil em esconder isso do coração da gente do que a gente pode perceber?

E pra ser “meu”? Não é preciso mais que eu assim o sinta? Ou que ela, vá lá, que esperança… ela também se sinta assim? Ou basta só a vontade de um e outro dobrando os joelhos, justo, ao sentimento vizinho, mas, ainda assim…

Por essas dúvidas e outras que talvez seja melhor deixar tudo isso de lado. Melhor, muito melhor, é adiantar o passo e deixar anúncio e poste pra trás. Deixar tudo pra trás. Isso sim seria uma solução e nada disso de trazer de volta, nada disso de revolvido, nada disso de requentado.

Além do mais, “de volta” vai quem foi pra voltar dali há pouco e não pra sempre, conforme o prometido. De volta vai quem a quem o destino é o mesmo nosso, ou pelo menos o pretende como seu.

Mas será que não?

“Posso pagar em vezes?”, eu perguntaria quando o nome me atendesse.

Não. Parar com isso, já, meu amigo, digo-me. Oriento-me. E a fila, sem falar nisso, já vai andando mesmo.

Mas, se voltar, de fato, que seja sem promessa alguma. Não mais. Seja naquele vestido de flores escondidas em seu nome, que só eu soube. A única maneira admissível.

Sete dias e, então, na próxima terça-feira, de volta.

E no rádio vai tocar a música do nosso noivado, num bandolim de cordas dobradas como se fosse tocado por anjos – e verdadeiros.

Ou então não pago nada. Ou o dobro, pra que tome distância segura. Desapareça ainda que isso me abandone na desassistência de mim mesmo, que tanto se me dá? Que vai mudar? Não pago nada e ponto. Já me gastei de tudo o que devia e o que não era devido. E tudo anotado aqui ó.

Sete dias é tempo o bastante até pra que eu me ponha longe daqui e, quando ela voltar, eu não esteja mais. E é só por isso mesmo que aceito pagar. Use o que for preciso. Feitiço, vela, mandinga, que me importa… O “meu” amor de volta, contanto que eu não esteja mais aqui.

Um assalto

Quis me assaltar (eu não deixei) um homem muito velho, ali na André da Rocha. Ali um pouco antes da escadaria.

É que eu fiquei um instante só olhando a luz do sol do outono desabando pelos degraus, naqueles caquinhos de azulejos, e me perdi um pouco da hora da minha consulta e ele então me alcançou.

Eu acho que ele estava antes numa padaria que tem por ali (não lembro o nome) e, ao me ver passar, decidiu-se por me perseguir. Teria abandonado o pingado à meia taça, o cacetinho fornido de queijo e mortadela, a troco de quê, meu Deus? Por minha causa? Teria deixado o jornal de lado, a esvoaçar sozinho sobre a mesa, por quê?

Sabendo que estava atrás de mim, pensei que imediatamente precisava de um ou mais planos de fuga.

Vou subir a escadaria, pensei, assim eu mato o velho do coração antes que ele chegue na Duque, e me safo.

Vou adiante e peço ajuda na lavanderia de onde vem lá, parece, um meninote carregando um pacote de papel pardo muito maior do que ele, como se fosse um cadáver verde, sobre o ombro.

Vou até o fim da rua (não me custa!) e dobro a lomba do viaduto e ganho o centro. Logo chego na Salgado Filho e ali estará o meu bom doutor sorrindo sempre com minhas manias de doença e exames sempre por fazer.

Se eu paro e olho pra trás, aí então é que ele me alcança. Não posso deixar que isso aconteça. Não volto. Sigo em frente. Os passos atrás.

Num momento chego a pensar tê-lo ouvido a me chamar pelo nome, mas é incerto que tenha acontecido. Sinto um arfar no peito que nunca senti das tantas vezes, inumeráveis, que atravessei o Menino Deus inteiro (e a Cidade Baixa) para estar ali. É velho esse indivíduo, eu posso saber, mas ligeiro também: já está no meu calcanhar.

Também chego a ver sua sombra esparramar-se entre meus pés, no chão, e penso que se eu tivesse a mesma decência de quando cheguei aqui, eu pararia imediatamente, olharia em seus olhos, perguntaria seu nome, adivinharia a sua nascença no seu sotaque e me deixaria levar por ele. Que tanto mal assim um pobre velho, afinal, me poderia causar?

Foi como evitei o assalto.

Parados os dois, quase no meio fio, olhamo-nos com uma estranheza total, e uma familiaridade ainda mais estranha. Era óbvio que ele me conhecia porque me ria e não era um riso cínico e nem me ameaçava. Pelo contrário, seus olhos me faziam um convite impossível de responder, como se me oferecesse ao mesmo tempo voltar e prosseguir.

Sim, ele parecia mesmo um parente antigo ou amigo que eu nem lembrava de que tinha tanta vontade de voltar a falar. Falar sem olhar no relógio, que é o jeito certo de falar aos amigos.

A mesa da padaria continuava vazia e só víamos as folhas do jornal executando uma dança muito particular, dança das palavras e das notícias do dia. Não havia dúvida de que eu precisava sentar e perder a hora do médico, esquecer um pouco da mania de doença e falar até do jogo que eu não assisti ontem pra lhe fazer companhia. Inventar gols e lances que ninguém viu sempre foi o meu forte mesmo…

Sentamos. Quase defronte, o sol ainda escorria na escadaria. Sem pressa, porque Deus fez o sol ter a velocidade certa para que ninguém percebesse o tempo que está passando.

Sem falarmos, sabíamos que um dia, numa corrida, subiríamos por ela até o final. Pode ser… Que remédio? É inescapável mesmo. Mas, quando for, há de ser num dia assim, de maio, com ele ao meu lado – não mais atrás de mim. Então eu lhe darei tudo o que ele quer. Esse mesmo nada pelo que tanto a gente teme.

Acídia ficcional

Há um ano, mais de um ano, dois talvez, fui tomado pela acídia ficcional. Romances não me pegam mais: nem lançamentos premiados, às vezes nem monstros consagrados.

A doença chegou a levar que eu desenvolvesse a teoria da segunda chance, na qual uma pessoa teria uma chance de escrever um romance e outra, definitiva, no verso do mesmo romance. E acabou. Depois disso, gastos cara e coroa da moeda, soaria às esperanças do escritores como que o estridor do corvo de Poe: nunca mais..

A teoria não é injusta, de modo algum, e inclusive daria chance aos novos e incessantes autores. Seria como um ticket literário. Gastou, acabou. A vantagem secundária seria a de que poderíamos conhecer muito mais autores e não nos prenderíamos às garras do bom nome e da reputação. Afinal, mesmo autores de excelentes romances praticaram iniquidades e muitos publicaram às vezes mais por exigências contratuais do que por ânimo sincero.

Ânimo é a palavra, mas desânimo também. Eu sei, entendo que o problema está em mim e não nos livros. Não sempre. Há uma falta de paciência generalizada e essa é sempre uma boa ideia: dividir responsabilidades…

Mas não é isso. O problema também está menos na capacidade estilística dos autores que propriamente nas ideias. O problema são justamente as ideias e romances também são ideias. Às vezes, uma ideia só desenvolvida ao máximo. Mas, se por isso, por que não escrever a ideia simplesmente? Ou, melhor, porque a expressão da ideia não basta e é preciso lançar mão de tantas metáforas, alegorias, enredos?

Pensando bem, às vezes é isso mesmo que tem me atordoado nos romances. Certo exagero de engenhosidade ou, por outro lado, extremo apreço às ideias – tão extremo que se vê bem que sua principal qualidade é serem justamente ideológicos. E cansativos, por essa mesma razão, já que uma ideia apenas oferece o mesmo que um livro de duzentas páginas. Diante disso, é muito difícil que meu demônio do meio-dia não se manifeste. Logo ele (a acídia ficcional) aponta suas garras e toma – não raro para sempre – os livros das minhas mãos. E o pior: eu deixo…

E é tão real essa doença que ela não se verifica com outros gêneros. Livros teóricos, de não ficção (onde cabe o mundo), ou ensaios, ou contos o monstro preserva e leio com prazer, pois também é uma leitura como a da internet, em links e interrupções (talvez aí esteja a chave da questão). E a poesia também, que eu tenho repetido que vai salvar a literatura por sua brevidade de forma – mas também por sua carga concentrada de sentido, às vezes muito maior que toda a lista da ficção mais vendida da semana.

Eu não tenho dúvidas que a doença é minha ou está em mim (é pelo que eu torço – e que ela se vá dia desses). Mas vai se ver na pilha de débitos e livros abandonados de cada um e se poderá perceber que se trate, talvez, de insuspeita pandemia…

Adaptações

Se tem algo que eu não tenho dúvida é de que basta uma semana no inferno e até São Pedro e os apóstolos já estão aclimatados. Dúvida nenhuma mesmo. Zero dúvidas.

Uma vez eu tive uma experiência no trabalho que me instruiu para a vida. Até hoje, na memória, me espanta. Foi quando eu percebi que a capacidade de adaptação do ser humano não tem limites e nem sempre age em seu benefício, mas com certeza sempre age sob a condução da necessidade.

O fato se deu com uma prestadora de serviços terceirizada que veio trabalhar conosco para suprir as férias da prestadora habitual e essa pessoa tinha a incomum capacidade de ficar sentada horas na mesma posição, olhando para um parede de azulejos, sem nem mexer num celular pra matar tempo ou jogar cobrinha, sem folhear um livro ou um jornal, acho que nem coçar o nariz ela coçava aproveitando a discrição do ambiente metro por metro que é a nossa cozinha improvisada.

Num primeiro momento, pensei que ela pudesse ter algum tipo de autismo, ou ainda tivesse alguma condição especial que a aparência uniformizada não me permitia perceber. Depois de algumas trocas de frases com ela, vi que não era nada disso. O que havia é que ela tinha um roteiro de trabalho com alguns momentos de espera e horários de controle e se movia criteriosamente por isso. No restante do tempo, fazia absolutamente nada de uma forma extremamente perturbadora, pois ela realmente não era impedida por ninguém de se ocupar com o que desejasse no seu tempo de espera, mas ela simplesmente não fazia questão. Era como se estivesse num estado contemplativo inacessível aos demais, de repouso completo e absoluto, igual a um monge em meditação vipássana.

Por um tempo eu achei que ela podia estar descansando de um rotina noturna pesada, talvez um terceiro turno de trabalho, talvez uma situação familiar difícil – ninguém sabia e nem seria discreto assuntar assim a pessoa que, como uma espécie de transe, passava longos períodos de tempo sentada na mesma e absoluta posição, em completo silêncio. Além do mais, ela não deixava de fazer suas atribuições e aceitava a condição pela mesma razão que leva o ser humano a tolerar o insuportável: a necessidade, sem demonstrar a menor contrariedade com aquilo e suas implicações.

É difícil imaginar que alguém suporte olhar para uma parede de azulejos por horas a fio sem surtar, mas acontece se essa é a sua melhor opção de sobrevivência. Também é difícil suportar que alguém se comporte de maneira tão passiva diante de uma situação tão precária. Acontece também, pois é preciso respeitar a condição das pessoas mesmo que nos pareçam aviltantes, ainda mais quando elas precisam daquilo e sua sobrevivência depende disso. Parece óbvio, não é? É óbvio mesmo, mas, por outro lado, é bem complicado…

Eu lembrei hoje cedo da situação dessa pessoa (com que convivi por cerca de três dias) porque realmente fiquei impactado com a sua capacidade de adaptação a uma condição de trabalho que nem é violenta no sentido ortodoxo da expressão, mas que é resultante de uma combinação de coisas que, apesar da estranheza, consegue gerar comportamentos limítrofes como esse.

Eu lembrei porque eu já percebo que vamos acabar nos adaptando tanto às mortes incessantes quanto à condição de ter de viver sob essa condição. Nós nos adaptamos, essa é a verdade. Subiremos aos ônibus. Entraremos em filas. E às vezes deliberadamente sabotaremos a condição do próximo, seja lambendo a maçaneta do seu carro – como já foi filmado – ou menosprezando os cuidados com a máscara e o distanciamento. Seja editando um decreto, uma medida legal, uma norma, uma regra qualquer que vai nos submeter ao comportamento do vírus ao invés de enfrentá-lo com racionalidade e conhecimento. Essa capacidade de adaptação nos leva a criar tanto um pensamento distorcido (para saciar a própria crença), quanto a submeter o maior número de pessoas a esse ordenamento. É olhar para o Estado brasileiro (ou o governo do RS) para notar que estamos já sendo governados pela ótica do COVID e que pouco a pouco (a cada fim de semana esticávamos essa corda, agora já fazemos isso todos os dias) vamos abandonando a noção social do cuidado.

Das epifanias mais aterradoras que as pessoas podem ter, a de compreender que não estão no governo dos fatos, mas organizados por estruturas maiores, é das mais acachapantes. Diante da compreensão, muitos optam por não entender e normalmente fantasiam formas de imaginar um controle da realidade, uma negociação qualquer, teorias, religiões, qualquer coisa. Comportamento neurótico clássico. Depois de se espalhar por todo o mundo com a nossa colaboração, o vírus vai aprendendo, claro, modos de conviver conosco. Ele vai se aclimatando em nós, na sua “vida” acelular.

De alguma maneira que não requer uma inteligência ou instrução, ele nos testou entre outras espécies e decidiu que seríamos um bom mecanismo estratégico para a sua própria sobrevivência. Por nos adaptarmos a viver em péssimas condições, em condições desumanas mesmo, e por não cuidarmos uns dos outros, o vírus sacou qual era a nossa. E todas as nossas sabotagens e artifícios o vírus conta exatamente com isso para ir exterminando-nos sem pressa, até que passemos a suportar. Desse maneira, o vírus está nos adaptando a ele, é lógico. E a miséria dessa situação é maior do que qualquer um de nós suportaria imaginar.

Scroll-down

O normal para as pessoas de todas as épocas sempre foi viver num ou noutro período de guerra, em períodos de dificuldade tremenda, de escassez e penúria. Dificilmente uma geração passaria inteira sem atravessar ou vivenciar alguns eventos histórico marcantes. Me basta pensar nos meus pais, por exemplo, que nasceram antes da Segunda Guerra Mundial. Ou dos meus avós. Esses atravessaram duas guerras, pandemias, ditadores de toda a espécie e nem antibiótico tinha. Meus bisavós viveram uma época em que chegar aos cinquenta anos já era longevidade. E nem havia infância para esse pessoal. Eles pulavam direto das calças curtas para a vida adulta, de trabalho sem facilidades e tecnologia rudimentar, morando em lugares sem estrada, num interior sem horizonte e nem tempo certo.

Mas o destino teria me oferecido (por alguma razão mágica) viver nessa paz perpétua, nessa fruição consumista sem dano e nem tragédia à vista. Nem a ditadura militar, o período mais complicado da história recente, eu vivi direito. Quando dei por mim como ser vivente, já estava tudo se encaminhando para Tancredo e a Nova República. E depois, o mundo político foi mais ou menos sempre um levar com o abdômen o status quo, sem grandes mudanças.

Nas aulas de História no colégio eu até ficava pensando em como teria sido viver em situações e momentos terríveis, mas como um exercício mental mesmo. E não é que se vivesse um estado de coisas equilibrado, mas aparentemente estava meio dado que as coisas seriam meio essa pasmaceira. Sem muro de Berlim, as crises seriam sempre apenas marolinhas na boca dos experts e logo a pujança capitalista sanaria – num passe de mágica – dificuldades imensas, heranças terríveis como a escravidão e uma desigualdade econômica incontornável, sem par no mundo civilizado e que alimenta uma sociedade abertamente violenta, só na fachada feliz.

Não me espanta que morram agora 4000 pessoas/dia e nada aponte no cenário que a sociedade possa mudar o rumo das coisas. É claro. É claro que não. Vivemos no show de Truman, no show do Zuckerberg, causando uns aos outros e não queremos acreditar que essa é uma época trágica protagonizada por nós mesmos e que nos pegou infantilizados ao extremo. E quando eu vejo a geração de septuagenários morrendo, octogenários, eu fico meio em pânico porque com a sua memória se vai a lembrança de como era necessário ser bravo para viver.

Dê uma senha de wifi e umas moedas ao povo e está garantido o show de patetas que nós nos tornamos. Nem originalidade temos nas lamúrias todas iguais. É dar Ctrl + C e Ctrl + V e seguir adiante, num scroll-down sem fim. Mas se essa pandemia e esse governo for apenas o começo de uma crise maior, muito maior, nós ainda assim não hesitaremos em mentir aos nossos filhos e netos de que fizemos todo o possível. Na verdade, fizemos nada. Quase menos que salvar a própria pele, andando que nem baratas tontas, tal o nosso estado de desorientação.