Outros outubros virão

Em torno ao ano de 1978, a parceria musical entre Elis Regina e Milton Nascimento já andava em vias de debutar, quer dizer, acontecia há pelo menos quinze anos. Suas carreiras, embora acontecessem em planos transversais, marcaram-se mutuamente como um dos mais emblemáticos encontros da música brasileira dos anos 60 e 70. De suas composições sempre muito dramáticas e provavelmente das mais politizadas do repertório dela, Elis colheu momentos de intensidade inigualável. Isso desde as primeiras gravações de Morro Velho e Canção do Sal até a derradeira O Que Foi Feito Devera, registrada por primeiro no Clube da Esquina Nº 2 de Milton.

Foi no livro Os Sonhos Não Envelhecem que encontrei uma história muito interessante a respeito da dupla letra composta para a melodia de Milton. Márcio Borges, o autor do livro e de uma das versões da letra, conta que pouco antes de voltar ao estúdio para gravar o Clube da Esquina Nº 2, Milton andava viajando muito ao exterior e angariava onde passava o reconhecimento de prestigiados músicos de jazz, rock e principalmente da crítica internacional. Um dia, de volta ao Brasil, ele então pediu aos seus dois principais letristas – o próprio Márcio Borges e Fernando Brant – para que fizessem, sem sabê-lo, cada um uma letra em separado para a melodia. Márcio compôs a que ficou conhecida como O que foi feito de Vera, alusão a letra de Vera Cruz, composição de 1968 gravada em Courage e na qual Márcio fala sobre os muitos exílios políticos que andavam acontecendo em “Terra de Vera Cruz”, o primeiro nome dado pelos conquistadores portugueses ao Brasil. Uma década após a Vera Cruz original, finalmente se anunciavam os ares da abertura e o retorno de muitos dos exilados de então, com “a tribo toda reunida” surgindo como esperança central da abertura e campanha pela anistia.

De sua parte, Fernando Brant escreveu a letra de para O que foi feito devera. “Devera” do futuro mais que perfeito do verbo “dever”. E, da mesma forma que Márcio, buscou na redemocratização emergente do país inspiração para imaginar e prever que “outros outubros virão, outras manhãs, plenas de sol e de luz”. Fernando parecia impregnar-se de um esforço maior em responder à indagação que Milton teria também lançado aos dois, junto à melodia proposta: “o que foi feito de nós?” Esta última pergunta/último verso presente nas duas letras.

Nesse ponto é interessante notar que enquanto Márcio recorria ao passado idílico e o drama dos povos indígenas (nas parcerias dele com o irmão Lô Borges e Nelson Ângelo, a temática indígena aparecia com muita força, basta ver as faixas Pão e Água, Ruas da CidadeTestamento e Canoa, canoa do mesmo Clube da Esquina Nº 2), Fernando procurava realizar um espécie de acerto de contas com o passado recente e, ao mesmo tempo, uma autocrítica, porém lançada em direção ao porvir. “E o que foi feito / É preciso conhecer / Para melhor prosseguir”, ele compôs para que a voz de Elis Regina logo tratasse de imortalizar letra e melodia, como acontecia com praticamente tudo o que cantava.

Em 1978, enquanto Milton buscava realizar o sonho de fazer um disco tão colaborativo quanto havia sido o primeiro Clube da Esquina, Elis fazia a tournée de Transversal do Tempo, disco em que mais uma vez reunia a fina flor dos compositores brasileiros seus contemporâneos. O que foi feito devera, no entanto, só apareceria em disco em Saudade do Brasil, de 1980 e no póstumo O trem azul, de 1982. Mais ou menos cinco anos antes de sua morte, Elis continuava a fazer o que se habituara ao longo dos últimos anos: procurar entre novos compositores da música brasileira o que vislumbrar em matéria autoral. Ela, que havia arrebanhado ao seu repertório e discografia uma amostragem muito significativa de uma ou duas gerações de compositores de todo o Brasil, tinha o costume de receber em casa dezenas de gravações de compositores que viam nela certamente mais que um radar musical ou uma merchant avançada, mas alguém bastante livre de preconceitos para com o que pudesse despontar de novo na música popular. Isso se comprova na sua muito bem conhecida última entrevista, na qual, entre outras coisas, dizia estar atenta à emergente cena paulistana. Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, principalmente. Ao mesmo tempo, continuava a rever seus “fornecedores” mais antigos. Milton, no caso, muitas vezes declarou sua total devoção e até mesmo que compunha pensando mais na interpretação dela do que na sua própria.

Na minha humilíssima opinião, O que foi feito devera na versão de Fernando Brant e cantada por ela tornou-se o grande bastião musical da redemocratização e da campanha pela anistia e de uma ou duas gerações de brasileiros que, retomando a democracia, tinham, além do direito de sonhar um país mais livre e menos desigual, convicção de que deviam e poderiam fazê-lo. No entanto, quarenta anos após sua composição (1978 – 2018), a pergunta que me cala ainda é – “o que foi feito de nós?” – e que se repete como se num jogo infinito: o que foi feito de nós do que foi feito de nós do que foi feito de nós e assim ad infinitum

Há três anos, em 2015, faleceu Fernando Brant, talvez a única pessoa em condições de responder sinceramente a essa pergunta. Seria, sem dúvida, uma pergunta um tanto quanto indelicada. Não se trataria de colocar em julgamento o desejo utópico de uma geração embalada pelo sonho de um mundo melhor, mas de saber dela própria o juízo sincero a respeito não de como as coisas deveriam ser e estar a essa altura da história nacional, mas se efetivamente seriam pessoas satisfeitas com o seu próprio empenho e desempenho, ou se não.

Através da própria letra de Fernando, creio muito que ele teria a coragem necessária de dizê-lo “por acreditar / que é cobrando o que fomos / que nós iremos crescer”. Então, sem mais demora, são essas as mesmas perguntas que eu gostaria de fazer, se pudesse, aos meus contemporâneos e adjacentes: em algum momento cobramos mesmo o que fomos? Acreditamos ainda hoje mesmo no que dizíamos e dizemos? Crescemos, afinal, com o passar do tempo, ou permanecemos à deriva do sonho (e ao bel prazer dos mares revoltos do real)?

Em algum trecho de seus livros, é dito que Freud teria antecipado algo de visionário sobre a visão dos poetas a respeito do mundo. Não sei em qual livro ele o teria escrito, mas a frase solta diria algo como “os poetas sabem antes”. O que teria sido, de acordo com Leyla Perrone-Moisés*, confirmado por Jacques Lacan em seus estudos sobre o psiquismo literário em Fernando Pessoa. Imagino que não se trate de um dom premonitório que atenda aos poetas e escritores, mas de uma concepção de espaço/tempo e do drama humano numa dimensão não usualmente tomada em consideração. Para mim, que situo Fernando Brant entre os mais importantes poetas/cancionistas da música brasileira, confere em apenas verificar na sua letra que, de acordo com ele, a projeção do futuro naquele momento incluía também uma autocrítica geracional e o sopesamento da própria história.

Nesses últimos quarenta anos (1978 – 2018) mais de uma geração nasceu e cresceu por aqui. Meus próprios filhos são posteriores aos millenials, aos nativos digitais, à geração “Z”. Elis Regina não chegou sequer a ver a concretização da abertura e as eleições presidenciais de 1989; morreu em 1982, ano em que se iniciava a grande mobilização popular em torno das Diretas-Já e que culminariam na ascensão da Nova República, no pós-constituinte de 1988. Também já não há as letras politizadas de um Fernando Brant a embalar os sonhos geracionais de agora (se é que os há), subitamente despejados na vertigem da realidade da derrocada do projeto da esquerda e no surgimento de uma resposta à direita, como a que deverá se confirmar, de acordo com as pesquisas eleitorais recém divulgadas, nas eleições de depois de amanhã, no próximo domingo (28/10), o último do mês de outubro deste ano.

Para mim, que fui praticamente embalado sob a trilha do Clube da Esquina Nº 2, é impossível evitar de que voltem a martelar mentalmente os versos de O que foi feito devera, principalmente no que dizem “outros outubros virão” e da condição incessante da história. Ainda que chegue eu mesmo derrotado de véspera a uma eleição cujos protagonistas me parecem estranhíssimos sobretudo às necessidades futuras do país, não encontro mais onde (talvez esse sentimento se repita de uma ou outra forma em toda a minha geração) depositar esperanças, justamente a “matéria-prima” das letras mais duradouras compostas pela dupla Milton e Fernando e interpretadas por Elis.

“Mais vale o que será”, diziam os gigantes da música brasileira em plena década de 70. Mas o que “seria” não necessariamente “foi” e o assombro deste “vir a ser” ainda hoje adiado, sobretudo quando diz respeito a uma nação pacífica e solidária, parece cada vez mais extinto nos versos daqueles poetas e também nas esperanças populares. Certamente “outros outubros virão”, mas agora somente mesmo para as novas gerações. O sentimento de fracasso que me acomete é o de não poder lhes entregar – a meus filhos (e nosso filhos e netos) – o que lhes seria devido, já que nossas melhores intenções deveriam visar muito mais o seu futuro do que o nosso próprio.

Há várias versões – todas desconhecidas – sobre a origem de uma frase por certo muito antiga que afirma que “não herdamos a terra dos nossos ancestrais, mas a tomamos emprestada dos nossos filhos”. Parece que ela pode ter origem na Índia, na China ou em algum povo ameríndio pré-colombiano. Só não tenho dúvidas de que ela NÃO é brasileira, a não ser que entrevista no que tentou nos dizer o “verso menino que escrevi há tantos anos atrás” de um Fernando Brant e ninguém parece ter prestado a devida atenção, porque desatendemos deliberadamente o futuro sem nenhuma solenidade – a minha geração – como se fosse seu principal direito a desconstrução indiscriminada de tudo: esperança, democracia, passado, presente e até mesmo o futuro dos nossos. Como Fernando, “falo assim sem tristeza”, mas com uma muito profunda vergonha dos meus filhos e netos por isso.

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* Perrone-Moisés, Leyla. Pessoa e Freud: “translação” e “sublimação”. Ide (São Paulo) [online]. 2011, vol.34, n.52, pp. 237-246. ISSN 0101-3106. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31062011000100025

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Amélia

Foi bem quando meu filho entrou no primeiro ano escolar que conheci uma linda menina chamada Vanessa, de quem lembrei muito nesses dias. Dela e de sua mãe. O nome da mãe era Amélia e, assim como aquela outra celebrizada na marchinha de carnaval, também era ela uma “mulher de verdade”, ainda que por razões muitíssimo diversas.

Antes mesmo de nascer, num ultrassom, Vanessa foi diagnosticada com uma condição chamada disgenesia do corpo caloso, ou síndrome de Aicardi. Não vou entrar em detalhes sobre tudo o que pode envolver a condição, apenas que é uma alteração neurológica que costuma implicar em algumas dificuldades no desenvolvimento neuropsicomotor e cognitivo. No caso da Vanessa, havia um pouco das duas situações, uma hipotonia muscular relevante e a necessidade permanente de controle de convulsões.

Como nós, Amélia também estava buscando escolarizar a filha, o que é seu dever e sem o que estaria sujeita à fiscalização pelo conselho tutelar, ministério público e sanções judiciais previstas na forma da lei. Esse tipo de fiscalização normalmente decorre de suspeita de negligência da família quanto à escolarização e frequência e pode acarretar desde um processo judicial a até mesmo a perda do pátrio poder em casos mais graves.

Convivi com a Vanessa e a Amélia por cerca de três meses. Foi o tempo que permanecemos na escola. Depois, como mudamos para outra, perdi completamente seu contato, mas nunca as tirei da minha memória. Naqueles meses na escola pública, conheci também crianças que iam à escola para ter sua primeira refeição às 3 horas da tarde, na hora da merenda. É inimaginável que haja pessoas que roubam e desviem recursos da merenda escolar de crianças, mas há, e o braço da lei quase nunca alcança os autores desses crimes, o que nos joga num abismo civilizacional desesperador, inacreditável.

Na época, Vanessa tinha nove anos e estava no segundo ano do fundamental. Há dois, incluída ali na escola. No andar térreo da escola não havia salas de aula, apenas a estrutura burocrática. As salas de aula ficavam situadas a partir do segundo andar de um total de três andares, acessíveis apenas através de uma escada como, aliás, continua ainda hoje. Ao pé da escadaria foi onde muitas vezes conversei com a Amélia e conheci um pouco da sua vida e da Vanessa e também de seus três irmãos. Ali, numa cadeira de madeira, ela permanecia a tarde inteira, socorrendo eventualmente a filha de alguma situação que a professora não podia ou não sabia como atender. Às vezes, um mero engasgo com saliva. Outras vezes era preciso ajudá-la ao banheiro. Eventualidades dessa natureza e outras.

Sem maiores justificativas, a direção da escola não autorizava que a Amélia permanecesse nos corredores escolares e então algum colega da filha subia e descia com recados para que ela tivesse como socorrê-la. Na sala de aula, numa cadeira especial obtida através de uma entidade filantrópica, a Vanessa usufruía do que se chama na lei o “ensino regular”, e apenas depois de ser carregada no colo pela mãe acima e abaixo através dos degraus da escadaria. A Amélia tinha muita força porque carregava a pequena nos braços sem nunca demonstrar cansaço e recusava toda a ajuda oferecida nesse sentido.

Orientada pelo ministério público a buscar junto à defensoria pública forma de acionar a justiça a fim de garantir uma pessoa que auxiliasse para a Vanessa, a Amélia contou-me que, após um ano de audiências adiadas, ouviu o rumor de que o governo do estado parecia dispor de alguns poucos concursados para suprir essa demanda. Dependendo, poderia ela finalmente beneficiar-se da ação. Mas, por via das dúvidas, ficava ali a tarde inteira e às vezes um pouco mais, porque o vizinho que a levava até em casa, a bairros dali, atrasava bastante. Por sorte a platibanda da escola as protegia da chuva quando chovia e impavidamente aguardavam pela carona, mesmo que o vento nem sempre colaborasse com uma possível piedade que ele, de fato, não tem.

Em razão de complicações que às vezes aconteciam com a saúde da Vanessa, muitas vezes ela ficava longos períodos sem ir à escola, mas, graças à persistência da Amélia, continuava evoluindo a despeito da carência generalizada de tudo.

Muitas mães e pais de crianças com deficiência ou limitações, são desde cedo estimulados a participar ativamente dos cuidados, estimulação e educação dos filhos. Muitos trocam de profissão e vão estudar formas de melhor ajudá-los. A gama de pais/mães terapeutas não é precisamente sabida, mas empiricamente eu sei que é imensa. Vão desde fisioterapeutas, pedagogos, médicos e assim por diante. É fácil de entender as razões desse fenômeno. Na sala da minha casa, por exemplo, instalei um quadro-negro e não é por razões estéticas que o fiz.

A Amélia, contudo, de família muito modesta, nunca conseguiu realizar essa transformação. Separada, passou de empregada doméstica e mãe de quatro filhos a dependente da ajuda dos poucos familiares em condições de ajudá-la e dos auxílios sociais (3/4 de um salário mínimo) e serviços públicos.

Ouvindo nessa semana a decisão do Supremo Tribunal Federal em invalidar o chamado homeschooling, eu lembrei muito da Amélia e dos panos de prato e costuras que ela vendia na escola, entre professores, funcionários e outros pais e mães. E pensei que ela e a filha seriam justamente pessoas que teriam se beneficiado de um programa de educação domiciliar pensando decentemente, não necessariamente integral ou em função de credos religiosos. Mas, até aí, já estaria entrando no ramo dos devaneios, o que não é nem um pouco recomendável. Apenas fiquei chocado ao ver que muitas pessoas inteligentes estavam associando os dois comportamentos: o dos fanáticos criacionistas que querem educar seus filhos com base numa ficção religiosa e o de pessoas com múltiplas deficiências ou doenças graves.

Nessa semana passada ou no máximo na outra, passei os olhos em uma reportagem de uma revista de grande circulação nacional, falando dos benefícios do brincar e dos dilemas éticos nisso envolvidos. Ao invés de associar a leitura às crianças em si mesmo, pensava justamente no que foi feito da ética interpessoal das pessoas e no compromisso moral de autoridades com a sua dignidade. Lembrei também de uma leitura que havia feito de Ortega y Gasset, no qual ele desenvolve o seu conceito de “circunstância”: o homem e sua circunstância. E pensei o quão a política tem sido pervasiva e invasiva ao mesmo tempo, porque muitas vezes sob o pretexto normativo e formalista é que acabam se criando as formas mais violentas de anomia e exclusão.

A Vanessa, principalmente pela pobreza de sua família e também pela pobreza calamitosa do estado, é apenas uma das crianças sem esse fabuloso direito a brincar e muito menos o de estudar com conforto e decência. Amélia, sua mãe, sequer tem o direito de buscar sua sobrevivência, vivendo de favores. Para ela, nada de escola em tempo integral. Para a filha, nada de um mínima atenção individualizada. Para ambas, nada disso de uma escola perto de casa, mas o trânsito interminável de cidades que expulsam os pobres para cada vez mais longe de tudo, justamente onde rareiam os serviços e possibilidades.

No entanto, para o regozijo de famílias que tem o orçamento de uma empresa, a única circunstância que admitem para os outros é algo como a sua própria, um seu espelho. Ou a generalização de um direito que eles conhecem bem por pagar caro por ele e do qual os outros apenas ouviram falar.

O que houve com o espírito inclusivo que agora pode passar sem o menor pingo de ética e compaixão? No momento em que lutar por uma lei ou por um pacto normativo qualquer se torna mais importante do que as pessoas, é que algo vai muito, mas muito mal com a sociedade. Estou falando em pessoas de verdade, não portfólios de Facebook, claro. Como Vanessa, Amélia e tantas outras que nem sabemos quantas. Nossas estatísticas, nosso Big Data estatal, sequer nos permite distinguir entre o que é real e ilusão. E achamos que sabemos de alguma coisa e com base nesse misto de ignorância e arrogância vamos consertar o mundo.

Cinco anos depois, não tenho ideia de onde andarão a Amélia e a sua filha. Alienado num mundo apenas um pouco mais confortável, me entristece muito a falta de oportunidades e um modelo educacional craquelado de tão engessado. Mas me entristece ainda mias verificar que para defender o suposto modelo inclusivo seja necessário invisibilizar histórias como essa. Bom, comigo não funciona. Não consigo. Em algum momento, não sei quando, eu me incluí fora dessa. Perdi a empatia com o cinismo. Passei a sentir saudade é da Amélia.

 

Cantognake

Há uns dias assisti a um filme que mostrava os últimos dias de vida do chefe indígena sioux Touro Sentado. Um belo filme, baseado na história real de uma pintora e retratista norte-americana, Caroline Weldon, que arriscou a vida para retratar o legendário sioux. O filme se chama “Woman walks ahead” e não sei se já se encontra nos meios habituais, Netflix, etc.. Eu o consegui num torrent.

Além do idioma cheio de sonoridades e estalos bucais dos indígenas, fabuloso por si só, e do morticínio final da tribo liderada por Touro Sentado, terrível por si só, o filme tem alguns momentos muito bonitos sem resvalar inteiramente à pieguice, o que é meio raro em se tratando de filmes que retratam povos indígenas.

Uma cena em especial, de um diálogo entre Sitting Bull e Caroline, dão conta de uma imagem invisivelmente poética daquele momento histórico (1890). Na tomada, ambos cavalgam lentamente através da pradaria. O cacique sabe que não pode mais fugir ao seu destino e de qualquer modo irá morrer lutando contra o exército norte-americano que deseja confinar a nação dakota em regiões inóspitas e impróprias ao cultivo. A essa altura, a maioria das tribos já abandonara o modo de viver dos ancestrais e começava a conformar-se à agricultura e aos “negócios” com o homem branco. Inclusive o próprio Touro, que já havia deixado para trás sua liderança, modo de vida e a sua impressionante indumentária original. Há dessa mesma época inclusive retratos de Touro usando traje ocidental e chapéu coco. Mas, mesmo adaptando-se já às novas condições, Touro e outros guerreiros e xamãs continuavam a buscar em eventos místicos a ideia de liberação transcendental da situação em que viviam.

Por outro lado, ele sabia muito bem que lutar seria morrer, mas também que não poderia mais recusar o confronto. A retratista, tendo chegado ali naquele momento crucial onde se “celebrava” nova demarcação e indígenas reviviam momentos de violência para com seus velhos e crianças famintas, assiste aquele momento sem volta na história daquele sujeito impressionante que tantas baixas havia causado ao exército norte-americano, entre eles o também legendário General Custer.

Mas, naquele caminho silencioso em que ela buscava dissuadi-lo do confronto pelo qual seria eternizado (quer dizer, outro massacre), ele lhe explica o significado de uma palavra lakota: “cantognake”. No filme, com estas palavras:

“Para achar nosso caminho
na pradaria,
às vezes paramos…

E olhamos… Recordamos.

Com as pessoas também.

Às vezes paramos
e olhamos e recordamos.

Isso se chama ‘cantognake’.

Colocar e manter
no nosso coração.

Este momento.”

Na tomada anterior, numa assembleia promovida pelo exército a fim de explicar o que seria feito na nova demarcação, Touro havia surgido na sua veste magnífica e com seu cocar de grande chefe e uma fala muito impactante, uma declaração de guerra, sobre os sacrifícios do seu povo, os nomes dos guerreiros e chefes abatidos em confrontos e daquela forma mostra-se finalmente pronto para o que tiver de ser, justamente o que pretendiam os militares federais que também desejavam vingar-se de perdidas batalhas anteriores.

É claro que Touro Sentado entrou para a história e é lembrado até hoje pelos seus feitos militares, mas achei aquela outra cena bem mais tocante, até porque expressa verbalmente e com um significado tão poderoso. A pessoa perceber o momento presente e sua relevância é cada vez mais incomum, diante da efusão de eventos e fatos sem fim. Não estar na vida em modo piloto automático requer o sacrifício de muitas coisas. Essa é, para mim, a verdadeira percepção do épico. O resto é a mais pura neurose: viver, guerrear, morrer.

Lojinha mágica

Morar no limiar da Cidade Baixa, em Porto Alegre, tem me proporcionado ao longo dos anos diversas experiências. A maioria eu classifico como boas. Gosto do bairro e das coisas do bairro no qual Érico Veríssimo gostava de perambular para observar de esgueira a vida da pequeníssima burguesia da Porto Alegre dos anos 30 do século passado.

Também eu gosto de perambular por ali, mas isso justamente tem me causado recentemente algumas más experiências.

Não faz muito tempo que passei a acompanhar o trânsito pela Lima e Silva não apenas dos frequentadores noturnos habituais, mas também de um cada vez maior público interessado em certo estabelecimento espiritual (isso mesmo) aqui por perto inaugurado. Embora o lugar ostente uma placa que faz as vezes de pórtico, ainda hoje não consegui identificar sob que credo ou credos ocorrem aquelas práticas religiosas.

De que são religiosas e de diversas matizes eu cada vez mais tenho certeza. Há ali vários símbolos esotéricos, muitos que não sei distinguir, mas me parece claro que há influências maçônicas, haja vista a pirâmide bem ao centro do anúncio, o famoso olho de Hórus, mas também há cruzes, crescentes, uma miniatura do deus indiano Ganesh e um machado que me parece ser de Xangô, o deus da justiça das religiões africanas. Bem se vê que o pessoal ali não tem problema com sincretismo.

No entanto, mais do que tentar identificar a simbologia exuberante, nunca tentei me informar muito a respeito. Por certo há ali um ou mais espiritualistas a praticar suas especialiades e provavelmente a contabilizar alguns rendimentos, dado que o empreendimento não faz muito foi expandido ao prédio vizinho. Certamente é a forma de melhor atender a clientela que nas noites de quarta-feira costuma fazer fila desde a metade da Lima e Silva até boa parte da Venâncio Aires, dobrando a esquina, para obter seu aconselhamento espiritual ou outro dos serviços que ali devem ser prestados.

É bom que diga que nunca tive e nada tenho contra o estabelecimento e muito menos com a prática religiosa aparentemente diversa que ali é praticada. Não entendo dos desígnios do além mais do que minha ignorância permite e por muito tempo apenas me espantava com o crescente da fila e da aglomeração. Sinal de que os tempos não estão fáceis e o conforto espiritual anda cada vez mais necessário. Às vezes as duas necessidades se acompanham, a material e a espiritual. Eu sinceramente acho isso tudo bastante compreensível.

Apenas não consigo achar compreensível é que pessoas em busca dessa espécie de conforto, aconselhamento e etc pretendam purificar seu interior, espírito, alma, o que seja, deixando em seu rastro uma trilha de imundície e sujeira sem explicação.

Como morador, atualmente me incomodam muito menos os bêbados da Cidade Baixa que essas pessoas “espiritualizadas”. Devem se achar puros espiritualmente os fregueses do comércio esse, mas, na verdade, não saem de lá nem um tantinho melhores cidadãos, senão teriam a vergonha de pelo menos juntar a imundície abandonada às ruas e calçadas.

Espiritualidade muito pouco sustentável essa. Se é que vale mesmo esse nome o negócio da lojinha mágica.

O raio problematizador farroupilha

Os gaúchos têm todo o direito de detestar o mês de setembro. Eu detesto do fundo do meu coração este mês maldito que num dia faz um frio enregelante e, noutro, calor insuportável, tudo isso entremeado por um vento contínuo e sibilante, virações repentinas e os próprios gaúchos, que nesse mês se revelam pessoas das mais enfadonhas do universo.

É o mês em que se volta aos grande temas sulistas, a saber, o tradicionalismo, o hino rio-grandense, farroupilhas e outras coisas totalmente irrelevantes ao resto do mundo, mas que aqui, por tédio ou traumas, costumam despertar a ira e o contencioso de pessoas que nos outros onze meses do ano até parecem inteligentes. Em setembro costumeiramente essa máscara cai por completo.

De todos os dramas locais, poucos me parecem tão inabordáveis quanto a presença dos dois seguintes versos no refrão em nosso hino, composto, dizem, no ano de 1838.

“Sirvam nossas façanhas / De modelo a toda terra.”

Sob variáveis argumentos que vão desde uma suposta manifesta e atávica arrogância até os argumentos históricos que dão conta da ausência de qualquer façanha, é impressionante o grau de devoção semântica a dois versos de um hino. Pois o raio problematizador do hino consegue ser tão ou mais tacanho que o próprio hino, porque deveria parecer óbvio a qualquer pessoa que os hinos costumam ter o objetivo de exaltar o ânimo pátrio de um povo e não o de aniquilar sua auto-estima ou confrontá-lo em seus exageros.

Há quem inclusive saque do exemplo de como o hino é cantado nos estádios de futebol e pátios escolares, a plenos pulmões, para “comprovar” que somos todos, sem exceção, separatistas ou neonazistas por isso mesmo. Ora, a comprovação final dessa brilhante dedução seria a forma com que se cantaria o hino. Bah.. Tri complexo esse raciocínio..

Acontece que é um hino fácil e efetivamente entusiasmado, muito ao contrário do hino nacional, todo cheio de inversões e apassivamentos que parece até que foi compsto pelo meste Yoda, de Star Wars. E com frases de um entusiasmo fabuloso, como na frase “deitado eternamente em berço esplêndido”. Alguém consegue mesmo ouvir isso sem sentir ganas de amor pela pátria-mãe?

Seja como for, numa demonstração de chatice ímpar, toda essa tradição critica (porque de tanto repetir-se os argumentos já pode ser chamada de tradição) acabou conseguindo o impensável, que é tornar-se tão ou mais impalatável quanto os aspectos mais toscos do culto ao passado, seja o real ou o inventado. Mas esta parece também uma tradição dos gaúchos, essa luta frátria, esse sectarismo doentio.

Desde 1893, entre republicanos e federalistas tem havido bastante disso por estes pagos. Mas, lá pelo menos, tinha a emoção de um eventual entrevero mais sério ou até uma degola. Agora a briga é no Facebook e, como todas as brigas de Facebook, ridículas e sonolentas. Mas, cada tempo com as suas respectivas façanhas, não é verdade?

Haja saco de ser gaúcho..

Principalmente

No meu passado, tive um amigo que tinha uma grande, imensa simpatia pela miséria humana. A esse amigo não comoviam a grandiloquência dos gestos de bravura, o desprendimento, a proclamação de uma moral, a narrativa de uma aventura, nada disso. A ele, importava mais conseguir viver sem notar as mesquinharias, tolices e futilidades mundanas, mas inutilmente.. A ele, interessava imunizar-se dos maus sentimentos e da indiferença, para ele o território ideal de todo o mal, mas não podia.. Buscar uma vida feliz, igualmente, lhe parecia sempre algo do inacessível, uma vez que dependia de cruzar diuturnamente com o que mais lhe fascinava e atraía nas pessoas: suas fraquezas. Este amigo bebia incansavelmente, como se pudesse purgar no próprio figado toda a amargura que testemunhava e da qual não podia livrar-se, não conseguia, não sabia como fazê-lo. Na verdade, este amigo não bebeu, mas foi bebido. Foi mascado e tragado em casamentos infelizes, negócios malfadados, afetos interrompidos. Tudo que imagino ou posso imaginar sobre a verdadeira aventura humana, ele que o viveu, de fato. Eu, um pouco apenas.. Não sei o quanto.. Sobre este meu amigo, não será provavelmente escrita jamais uma biografia. Talvez um rasgo de sua história se encontre em um trecho de Roberto Arlt ou John Fante, por mera semelhança. Nada de bustos, medalhas, honrarias. Lembranças fugidias sem registro, perdidas numa baforada ou em palavras ditas na rua ou num bar evasivo, de lugar nenhum do mundo ou então qualquer lugar, precisamente. Não tive bons nem maus momentos em sua companhia, mas tive, sim, sua companhia. Como ele levou-me consigo, de certo modo, deu-me vontade de estar com ele outra vez, por aí. Mas, como não posso mais, não é possível, sinto que pelo menos posso tentar guardá-lo aqui e agradecê-lo, de certo modo constrangido, por sua tolerância para comigo. Não foi em vão, era apenas o que eu desejaria lhe dizer. Mesmo que isso não lhe fizesse diferença alguma saber. Ou principalmente por isso.

BR-290: rodovia ou fronteira?

Diversamente do passado, quando tratados delimitavam a fronteira, hoje a verdadeira separação com que se depara o Rio Grande do Sul não se dá para com os hermanos nem para com o restante do Brasil, como o plebiscito informal realizado no ano passado desejaria demonstrar, mas para com um feito internamente, em seu próprio interior. Em substituição aos antigos tratados, contamos com o traçado da BR-290 e as dificuldades que ele impõe a todos aqueles que precisam deslocar-se do norte à metade sul do estado.

Logo ao sair de Porto Alegre, a BR-290 fornece uma visão aflitiva. Ali, desde a ponte inaugurada em 1958, podem ser vistas as fundações dos 12,3 km da “nova ponte do Guaíba”, obra prevista para 2014, no segundo PAC, ainda sem metade da obra concluída. Paralisados desde que a operação Lava Jato passou a desvelar as complexas relações entre empreiteiras nacionais e obras de infraestrutura, ponte e país sobrevivem num infindável compasso de espera, o que se espera encerrado em 2018.

Passando-se pelo que lembram mais ruínas que alicerces, a rodovia chega a permitir uma velocidade razoável de tráfego. Mérito da pista duplicada que, infelizmente, não alcança muitos quilômetros além do final da sobreposição com a BR-116. A partir dali, impõe-se um percurso claudicante, sendo compulsório o tráfego junto ao que se estima em torno de 800 caminhões/dia, segundo a Polícia Rodoviária Federal.

Ao longo do trajeto, há mais monumentos da duplicação mal iniciada. Há os desvios ocasionais, os engarrafamentos recorrentes, os acidentes envolvendo ultrapassagens forçadas e as vítimas desta violência já corriqueira. Além disso, o incontornável esgotamento da pista. Único caminho disponível para o transporte de cargas destinadas ao Aterro Sanitário de Minas do Leão e à Celulose Rio-Grandense, a rodovia faz um novo e perfeito limite entre o extremo sul e o restante do país, inclusive o norte do próprio estado. Sedimentada por adiamentos sem fim, pode-se dizer que a BR-290 é, de fato, a única separação em vigor com que contamos.

De uma população penalizada com anos de estagnação, todavia cada vez mais se ouve outro tipo de alerta. A BR-290 não está isolando apenas a economia da região, mas também as pessoas e não demora muito para que se torne inviável deslocar-se pela rodovia com segurança. E, por uma questão de integração nacional, talvez em breve seja preciso evitar que aconteça o pior (e mais humilhante): o isolamento humano e a tão em voga emigração ao Uruguai.

Mas escritor se aposenta?

Há alguns dias o assunto me persegue. Do nada, parece que despencam de qualquer lugar textos que procuram discutir a ideia de quando alguém que escreve literariamente se torna, de fato, um escritor ou escritora. Esta é a ideia central de Anos de Formação: os Diários de Emilio Renzi, do argentino Ricardo Piglia. É a mesma dúvida que encontrei no texto do também argentino Cristián Vazquez, A partir de quando um escritor se torna um escritor, publicado recentemente no blogue Letras in.verso e re.verso.

Seria talvez o que se pudesse chamar hoje de platinofobia aventar-se a hipótese de que este é um assunto que obsedia os argentinos, mas, antes disso, seria uma inverdade. Acredito que, quase sem exceção, toda a pessoa que procura escrever literariamente lá pelas tantas tenta localizar em si mesma, na sua solitária trajetória diante das inumeráveis folhas ou telas em branco, em que momento que a compulsão se estabeleceu por completo e se tornou indispensável, insuportável e inconcebível deixar de dedicar-se ao habitus.

Justamente esta ideia, de irrecusabilidade ao gesto, é o que defendem os dois escritores argentinos e também uma miríade de outros escritores. Isso se pode saber através, por exemplo, das dezenas de entrevistas que a prestigiosa Paris Review fez com escritores consagrados mundialmente, do séc. XX, e que foram traduzidas e publicadas por mais de uma vez no Brasil, pela Companhia das Letras. Trata-se do livro As entrevistas da Paris Review. Mas Piglia, no caso, se desvia bastante de Vazquez e de outros escritores que falaram sobre o mesmo assunto para o que ele denomina como o momento de “autoproposição” do escritor, isto é, o fato de debater-se com a impossibilidade de uma ficção privada, por um lado, e a de impossibilidade de uma plena comunicação pública, por outro.

Aqui, como já deve estar claro, não vou mencionar nem por hipótese a ideia de vocação,  dom, etc. Na verdade, apenas gostaria de apontar pontos em comum em relação ao que penso e o que pensam estes escritores, para além da irrecusabilidade já mencionada, com a qual concordo integralmente. Aliás, talvez seja esta a razão para eu estar aqui escrevendo isso, nesse exato instante.

Piglia, segundo seu alterego Emilio Renzi, escreve como que para perseguir sua própria biografia; um itinerário que começa desde que se descobre leitor até o último suspiro, contando-se aí absolutamente todos os momentos, todas as percepções, todos os gestos, todas as ideias de onde seletivamente extrai sua matéria empírica, ficcional. Mesmo que soe como um escritor totalitário, ele embaraça-se com a vida, não se distancia dela. O que apreende é que os outros deixam de notar, as razões ocultas dos gestos, as possibilidades que consolidaram aquelas razões, a sorte e os incidentes que fazem uma biografia. O escritor como vassalo de si mesmo, mas soberano de sua narrativa. Porém alguém que, uma vez publicado, declina definitivamente da solidão e deixa-se acompanhar por quem quer que lhe encontre em seus livros e palavras.

Vazquez é radical por outro viés (e eu nesse aspecto, talvez por escrever muita poesia, tendo a concordar mais com ele) e defende a ideia de que o escritor se faz ao escrever, naquele momento preciso da ação e prescinde de quem o leia, apenas vai descartando de si o texto e não tem expectativa ou relação alguma com o que dele poderá ser feito ou não. Sua missão acaba em sua própria finalidade. Para ele, não há escritor inédito, a tomada de posse da “titulação” se daria, portanto, diretamente ao escrever. Como no poema de Auden, o escritor acaba no último ponto e talvez nunca mais retome àquilo e ao estado de ânimo que recém o mobilizara. Juan Rulfo, J. D. Salinger e Arthur Rimbaud são alguns dos exemplos que ele cita de escritores que simplesmente aposentaram-se voluntariamente da escrita, ou seja, deixaram de ser escritores.

Eu simpatizo com ambas as ideias. Tenho muitas vezes vontade de nunca mais escrever uma linha, mas sempre preciso de uma nova linha para dizer isso ou então voltar atrás… Do que antipatizo um pouco, neste caso, é de uma certa mercantilização cada vez mais presente e frequente em oficinas literárias, cursos e atividades correlatas. Nestes, cada vez mais se dá ênfase é em como se fazer lido (o que acho até difícil de imaginar – me vem em mente a violenta cena de uma pessoa obrigando outra à leitura), em como promover-se, técnicas de interação e coisas assim.

Não consigo, admito.

Se precisar disso para vir a ser um escritor, então acabou-se aqui. Então não serei. Não é humildade exagerada, mas é preciso estar claro para quem quer aventurar-se nisso de que há um universo inesgotável de magníficos, bons e razoáveis escritores na fila de cada pessoa. Sendo muito sincero, na minha própria lista eu talvez sequer figurasse (a não ser para uma correção imprevista). Certamente, não. Tenho dívidas insaldáveis com momentos incomparáveis da literatura. Como, sabendo  disso, vou querer parar o mundo e desviar a atenção alheia? Seria muita pretensão que desejasse que as pessoas viessem a interromper, para prestar atenção em mim, o seu Machado de Assis, o seu Eça de Queiroz, o seu Dostoievski e etc etc etc.

Mais uma vez: não consigo…

Por isso me autopublico e não negocio com editores cotas de exibição, autopromoção e coisas assim. Isso não apenas me desfaria como escritor como me faria, por outro lado, mercador. Nada contra os mercadores, mas cada um na sua, não? Se alguém ficar curioso eventualmente com meu nome em algum texto, alguma resenha, alguma menção, que ótimo!, talvez desperte a curiosidade a ponto de querer saber mais. Talvez até goste um pouquinho a ponto de admirar-se ou emocionar-se com uma frase bem colocada em algum parágrafo, ou um verso tocante. Pois é este o único leitor que me interessa. Não sou ilusionista nem diversionista nem bom piadista; nunca fui; sou ruim de gracejo, inclusive.

Um leitor que me passe os olhos e pense que sou como um serializado egresso de um projeto de formação de escritores irá frustrar-se porque eu mesmo não procuro evitar de frustrar-me. E continuo sempre tentando mudar a narrativa, mudar o parágrafo, a forma, a linha, o verso, o caractere. Minha impressão é de que todos os livros, afinal, são como aquele livro de areia, que mais um argentino, Jorge Luis Borges, um dia imaginou. Um livro nunca igual, desfeito à mera incidência da compreensão de um leitor qualquer. Aliás, o que também concordo com Piglia nesse aspecto é o quanto o leitor faz o escritor; digo do leitor que o próprio escritor é; não o leitor de si mesmo, mas dos outros e do mundo. É este infinito que, numa perspectiva rápida, desfecha e aniquila qualquer autoilusão de relevância, status ou glória, se é que existe ainda que esteja nisso por isso.

Sim, só assim mesmo me sinto um escritor. E então, dou o braço a torcer, porque sempre costumo me definir como quem apenas gosta de escrever e o faz, sim, por compulsão, não por um objetivo extrínseco, mas pela revelação que ocorre de mim mesmo para fora de mim mesmo, naquele instante em que as palavras me organizam, já que internamente prospera o caos..

Afora isso tudo, ele, esta persona escritora, acaba mesmo sempre no último ponto, pensando que aquilo tudo que dissera pudesse ser meia verdade apenas e me deixasse insatisfeito. Pois o meu azar é que é esta mesma preferência. A deferência devida ou indevida é um critério de terceiros, não me interessa nem um pouquinho. Nesse aspecto (talvez em outros também), sou pessoano: e o resto que venha se vier, se tiver de vir ou não venha. Talvez, se meu pai lá atrás tivesse me impedido de usar sua máquina de escrever vermelha (ela me foi fundamental por ter me cedido gratuitamente sua velocidade), porque minha caligrafia sempre foi péssima, mas, pensando bem, mesmo assim… Será tudo isso, ao fim das contas, apenas dependência do som das teclas? Se for assim, o touchscreen completará um dia desses o serviço e então irei finalmente para a previdência secreta dos escritores, decerto a mais mal remunerada entre todas..

Fragmento de uma crítica abandonada sobre críticas negativas

Uma única vez na vida tive vontade de erguer a pena, quer dizer, os dedos ao teclado, para interpelar um autor em razão de sua obra. Felizmente desisti em tempo. Desisti porque me sentiria infeliz só de começar a pensar no assunto. Além de tudo, seria não apenas tempo perdido, seria mal empregado mesmo, afinal é muito provável que o autor (um consagrado) jamais fosse ler aquilo e eu, como disse, não me comprazo nem um pouco na tarefa de desmontar qualquer autoimagem que alguém possa ter para consigo mesmo, isto é, acho justo que todo autor nutra para com sua autoestima as melhores expectativas. Admiro, sim, por outro lado, algum zelo com uma certa tendência a megalomania, mesmo considerando que, por outro, requer-se sempre um pouco dela para uma empreitada que efetivamente valesse a pena. Quer dizer, lamento pela inevitável desfaçatez com que se tratam muitas vezes obras inovadoras, mas há que se considerar que muitas vezes, ao invés de ser efetivamente o produto inovador a despontar no horizonte da mesmice mental e cultural de um tempo qualquer, se possa estar vendo apenas um tipo de fantasmagoria, uma miragem, ou, pior de tudo, uma projeção enviesada de tendências caquéticas prestes a esfacelar-se, aí sim, num movimento inovador, mesmo que um localizado num eterno porvir. Admiro, sim, aqueles autores que tem a coragem de ver-se sob essa perspectiva, mas os amigos, infelizmente, costumam impedi-los em tempo.

Sobreviventes

Em fins da década de 70, Caio Fernando Abreu escreveu o necrológio do que havia de movimento hippie no Brasil de então. É um poema que está publicado no livro “Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu”, da Ed. Record, e chama-se “OS SOBREVIVENTES”.

Este tipo humano, exatamente assim, já meio fora de tempo e um pouco perdido, eu ainda conheci na minha infância. Pelo menos no interior do RS havia quem procurasse essa indumentária, essa caracterização hippie clássica: cabelos longos, batas indianas, sandálias de couro e um olhar ao mesmo tempo de resistência e estranhamento. Os anos 80 já batiam à porta e a redemocratização brasileira idem. Alguns viviam em modos realmente alternativos, sobrevivendo do artesanato e até de venda de poesia mimeografada. Lembro disso muito bem. Havia, ao lado de muita gente fantasiada, sobreviventes de verdade.

Nessa mesma época prosperava também outro visual comum entre as pessoas mais ou menos da mesma faixa etária. Era o visual do movimento estudantil, politizado. O cabelo não era longo, motivos peruanos e/ou indianos não eram habituais, não usavam drogas e até condenavam-nas por suposto apelo à alienação. A camisa dentro das calças, a cabeça dentro de livros de formação e os ícones, ao invés dos ídolos do rock como Janis ou Lennon, concentravam-se mais em figuras revolucionárias: Che, Lenin, Trotski, etc.

Jovens demais para terem participado da resistência à ditadura ou da luta armada e de certo modo como os hippies de então, encarnavam uma fantasia político-espiritual: tomar o poder, mudar o mundo. Não puderam. Os anos 80 foram implacáveis, crise sem fim, inflação monstruosa, TV a cores e música pop, cultura pop, política pop.

Os 90 continuaram na mesma batida e neles foi protagonizada a grande virada política de então, nas mãos do tucano Fernando Henrique Cardoso: a primeira reforma administrativa desde os anos 60, lei das organizações, novo modelo de assistência, saúde, privatizações e a destruição definitiva do sonho de Anisio Teixeira: universalização da educação. As prioridades voltaram-se ao mercado e sua relação patológica com o Estado brasileiro: esta mesma doença da qual padecemos hoje e nos custa bilhões sem fim.

Depois veio esta história recente, a de agora, em muito levada a efeito por aquela mesma geração dos anos 80, da redemocratização, do movimento estudantil mas já sem barra pesada, sem clandestinidade, que, assim como aqueles sobreviventes hippies, parece insistir em vender o incenso da sua “luta” ideológica sem perceber (ou se fazer notar) que sua imagem ficou fatalmente anexada ao dinheiro na cueca, ao aperto de mão com Maluf e a uma iconografia dramática, feita por sessentões barrigudos como aqueles de então, financiados por esse dinheiro aí, dessa matéria prima manuseada por Odebrecht e outros milagres brasileiros.

Caio Fernando Abreu virou meme e ninguém ainda escreveu sobre esses sobreviventes, nem quem lhes tente herdar a sucessão. A história virou vapor nas redes sociais e nos falta, como Caio fez com os hippies, quem nos esclareça sobre isso. Mas não falta quem recicle a pantomima.

É meio triste e não sei onde isso vai dar, mas agora só consigo sentir saudade dos primeiros sobreviventes.

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OS SOBREVIVENTES
Caio Fernando Abreu

Os sobreviventes
às vezes ainda aparecem
em busca de papo
ou qualquer coisa assim.

Ainda trazem os cabelos compridos
duas ou três pulseirinhas
alguns panos coloridos
ou um incenso nas mãos.

Só os olhos mudaram.
Aquela loucura das pupilas
aterrizou, virou espanto
de ter virado espanto.

Pois um sobrevivente
nunca imaginou que pudesse um dia
virar sobrevivente de um tempo
e de si mesmo. Mas virou.

Pelas tardes, de repente,
os sobreviventes ainda aparecem
procurando nos meus olhos
o que nos olhos deles já não existe.

Mas nada encontram.
Faz tempo, rasguei as fantasias
pendurei os colares nas paredes
mandei o pano indiano pra lavanderia.

Nos reconhecemos assim
esbarrando pela noite ou pelas tardes
feito zumbis de almas para sempre perdidas
no sonho que se foi. E que não volta.

O ofício agora é navegar sozinho.
Sem razão, sem porto, sem destino,
sem irmão nem mapa. Sobre-vivendo
à nossa própria morte. E isso é tudo.

Sampa. 23 de julho de 1979.