Principalmente

No meu passado, tive um amigo que tinha uma grande, imensa simpatia pela miséria humana. A esse amigo não comoviam a grandiloquência dos gestos de bravura, o desprendimento, a proclamação de uma moral, a narrativa de uma aventura, nada disso. A ele, importava mais conseguir viver sem notar as mesquinharias, tolices e futilidades mundanas, mas inutilmente.. A ele, interessava imunizar-se dos maus sentimentos e da indiferença, para ele o território ideal de todo o mal, mas não podia.. Buscar uma vida feliz, igualmente, lhe parecia sempre algo do inacessível, uma vez que dependia de cruzar diuturnamente com o que mais lhe fascinava e atraía nas pessoas: suas fraquezas. Este amigo bebia incansavelmente, como se pudesse purgar no próprio figado toda a amargura que testemunhava e da qual não podia livrar-se, não conseguia, não sabia como fazê-lo. Na verdade, este amigo não bebeu, mas foi bebido. Foi mascado e tragado em casamentos infelizes, negócios malfadados, afetos interrompidos. Tudo que imagino ou posso imaginar sobre a verdadeira aventura humana, ele que o viveu, de fato. Eu, um pouco apenas.. Não sei o quanto.. Sobre este meu amigo, não será provavelmente escrita jamais uma biografia. Talvez um rasgo de sua história se encontre em um trecho de Roberto Arlt ou John Fante, por mera semelhança. Nada de bustos, medalhas, honrarias. Lembranças fugidias sem registro, perdidas numa baforada ou em palavras ditas na rua ou num bar evasivo, de lugar nenhum do mundo ou então qualquer lugar, precisamente. Não tive bons nem maus momentos em sua companhia, mas tive, sim, sua companhia. Como ele levou-me consigo, de certo modo, deu-me vontade de estar com ele outra vez, por aí. Mas, como não posso mais, não é possível, sinto que pelo menos posso tentar guardá-lo aqui e agradecê-lo, de certo modo constrangido, por sua tolerância para comigo. Não foi em vão, era apenas o que eu desejaria lhe dizer. Mesmo que isso não lhe fizesse diferença alguma saber. Ou principalmente por isso.

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BR-290: rodovia ou fronteira?

Diversamente do passado, quando tratados delimitavam a fronteira, hoje a verdadeira separação com que se depara o Rio Grande do Sul não se dá para com os hermanos nem para com o restante do Brasil, como o plebiscito informal realizado no ano passado desejaria demonstrar, mas para com um feito internamente, em seu próprio interior. Em substituição aos antigos tratados, contamos com o traçado da BR-290 e as dificuldades que ele impõe a todos aqueles que precisam deslocar-se do norte à metade sul do estado.

Logo ao sair de Porto Alegre, a BR-290 fornece uma visão aflitiva. Ali, desde a ponte inaugurada em 1958, podem ser vistas as fundações dos 12,3 km da “nova ponte do Guaíba”, obra prevista para 2014, no segundo PAC, ainda sem metade da obra concluída. Paralisados desde que a operação Lava Jato passou a desvelar as complexas relações entre empreiteiras nacionais e obras de infraestrutura, ponte e país sobrevivem num infindável compasso de espera, o que se espera encerrado em 2018.

Passando-se pelo que lembram mais ruínas que alicerces, a rodovia chega a permitir uma velocidade razoável de tráfego. Mérito da pista duplicada que, infelizmente, não alcança muitos quilômetros além do final da sobreposição com a BR-116. A partir dali, impõe-se um percurso claudicante, sendo compulsório o tráfego junto ao que se estima em torno de 800 caminhões/dia, segundo a Polícia Rodoviária Federal.

Ao longo do trajeto, há mais monumentos da duplicação mal iniciada. Há os desvios ocasionais, os engarrafamentos recorrentes, os acidentes envolvendo ultrapassagens forçadas e as vítimas desta violência já corriqueira. Além disso, o incontornável esgotamento da pista. Único caminho disponível para o transporte de cargas destinadas ao Aterro Sanitário de Minas do Leão e à Celulose Rio-Grandense, a rodovia faz um novo e perfeito limite entre o extremo sul e o restante do país, inclusive o norte do próprio estado. Sedimentada por adiamentos sem fim, pode-se dizer que a BR-290 é, de fato, a única separação em vigor com que contamos.

De uma população penalizada com anos de estagnação, todavia cada vez mais se ouve outro tipo de alerta. A BR-290 não está isolando apenas a economia da região, mas também as pessoas e não demora muito para que se torne inviável deslocar-se pela rodovia com segurança. E, por uma questão de integração nacional, talvez em breve seja preciso evitar que aconteça o pior (e mais humilhante): o isolamento humano e a tão em voga emigração ao Uruguai.

Mas escritor se aposenta?

Há alguns dias o assunto me persegue. Do nada, parece que despencam de qualquer lugar textos que procuram discutir a ideia de quando alguém que escreve literariamente se torna, de fato, um escritor ou escritora. Esta é a ideia central de Anos de Formação: os Diários de Emilio Renzi, do argentino Ricardo Piglia. É a mesma dúvida que encontrei no texto do também argentino Cristián Vazquez, A partir de quando um escritor se torna um escritor, publicado recentemente no blogue Letras in.verso e re.verso.

Seria talvez o que se pudesse chamar hoje de platinofobia aventar-se a hipótese de que este é um assunto que obsedia os argentinos, mas, antes disso, seria uma inverdade. Acredito que, quase sem exceção, toda a pessoa que procura escrever literariamente lá pelas tantas tenta localizar em si mesma, na sua solitária trajetória diante das inumeráveis folhas ou telas em branco, em que momento que a compulsão se estabeleceu por completo e se tornou indispensável, insuportável e inconcebível deixar de dedicar-se ao habitus.

Justamente esta ideia, de irrecusabilidade ao gesto, é o que defendem os dois escritores argentinos e também uma miríade de outros escritores. Isso se pode saber através, por exemplo, das dezenas de entrevistas que a prestigiosa Paris Review fez com escritores consagrados mundialmente, do séc. XX, e que foram traduzidas e publicadas por mais de uma vez no Brasil, pela Companhia das Letras. Trata-se do livro As entrevistas da Paris Review. Mas Piglia, no caso, se desvia bastante de Vazquez e de outros escritores que falaram sobre o mesmo assunto para o que ele denomina como o momento de “autoproposição” do escritor, isto é, o fato de debater-se com a impossibilidade de uma ficção privada, por um lado, e a de impossibilidade de uma plena comunicação pública, por outro.

Aqui, como já deve estar claro, não vou mencionar nem por hipótese a ideia de vocação,  dom, etc. Na verdade, apenas gostaria de apontar pontos em comum em relação ao que penso e o que pensam estes escritores, para além da irrecusabilidade já mencionada, com a qual concordo integralmente. Aliás, talvez seja esta a razão para eu estar aqui escrevendo isso, nesse exato instante.

Piglia, segundo seu alterego Emilio Renzi, escreve como que para perseguir sua própria biografia; um itinerário que começa desde que se descobre leitor até o último suspiro, contando-se aí absolutamente todos os momentos, todas as percepções, todos os gestos, todas as ideias de onde seletivamente extrai sua matéria empírica, ficcional. Mesmo que soe como um escritor totalitário, ele embaraça-se com a vida, não se distancia dela. O que apreende é que os outros deixam de notar, as razões ocultas dos gestos, as possibilidades que consolidaram aquelas razões, a sorte e os incidentes que fazem uma biografia. O escritor como vassalo de si mesmo, mas soberano de sua narrativa. Porém alguém que, uma vez publicado, declina definitivamente da solidão e deixa-se acompanhar por quem quer que lhe encontre em seus livros e palavras.

Vazquez é radical por outro viés (e eu nesse aspecto, talvez por escrever muita poesia, tendo a concordar mais com ele) e defende a ideia de que o escritor se faz ao escrever, naquele momento preciso da ação e prescinde de quem o leia, apenas vai descartando de si o texto e não tem expectativa ou relação alguma com o que dele poderá ser feito ou não. Sua missão acaba em sua própria finalidade. Para ele, não há escritor inédito, a tomada de posse da “titulação” se daria, portanto, diretamente ao escrever. Como no poema de Auden, o escritor acaba no último ponto e talvez nunca mais retome àquilo e ao estado de ânimo que recém o mobilizara. Juan Rulfo, J. D. Salinger e Arthur Rimbaud são alguns dos exemplos que ele cita de escritores que simplesmente aposentaram-se voluntariamente da escrita, ou seja, deixaram de ser escritores.

Eu simpatizo com ambas as ideias. Tenho muitas vezes vontade de nunca mais escrever uma linha, mas sempre preciso de uma nova linha para dizer isso ou então voltar atrás… Do que antipatizo um pouco, neste caso, é de uma certa mercantilização cada vez mais presente e frequente em oficinas literárias, cursos e atividades correlatas. Nestes, cada vez mais se dá ênfase é em como se fazer lido (o que acho até difícil de imaginar – me vem em mente a violenta cena de uma pessoa obrigando outra à leitura), em como promover-se, técnicas de interação e coisas assim.

Não consigo, admito.

Se precisar disso para vir a ser um escritor, então acabou-se aqui. Então não serei. Não é humildade exagerada, mas é preciso estar claro para quem quer aventurar-se nisso de que há um universo inesgotável de magníficos, bons e razoáveis escritores na fila de cada pessoa. Sendo muito sincero, na minha própria lista eu talvez sequer figurasse (a não ser para uma correção imprevista). Certamente, não. Tenho dívidas insaldáveis com momentos incomparáveis da literatura. Como, sabendo  disso, vou querer parar o mundo e desviar a atenção alheia? Seria muita pretensão que desejasse que as pessoas viessem a interromper, para prestar atenção em mim, o seu Machado de Assis, o seu Eça de Queiroz, o seu Dostoievski e etc etc etc.

Mais uma vez: não consigo…

Por isso me autopublico e não negocio com editores cotas de exibição, autopromoção e coisas assim. Isso não apenas me desfaria como escritor como me faria, por outro lado, mercador. Nada contra os mercadores, mas cada um na sua, não? Se alguém ficar curioso eventualmente com meu nome em algum texto, alguma resenha, alguma menção, que ótimo!, talvez desperte a curiosidade a ponto de querer saber mais. Talvez até goste um pouquinho a ponto de admirar-se ou emocionar-se com uma frase bem colocada em algum parágrafo, ou um verso tocante. Pois é este o único leitor que me interessa. Não sou ilusionista nem diversionista nem bom piadista; nunca fui; sou ruim de gracejo, inclusive.

Um leitor que me passe os olhos e pense que sou como um serializado egresso de um projeto de formação de escritores irá frustrar-se porque eu mesmo não procuro evitar de frustrar-me. E continuo sempre tentando mudar a narrativa, mudar o parágrafo, a forma, a linha, o verso, o caractere. Minha impressão é de que todos os livros, afinal, são como aquele livro de areia, que mais um argentino, Jorge Luis Borges, um dia imaginou. Um livro nunca igual, desfeito à mera incidência da compreensão de um leitor qualquer. Aliás, o que também concordo com Piglia nesse aspecto é o quanto o leitor faz o escritor; digo do leitor que o próprio escritor é; não o leitor de si mesmo, mas dos outros e do mundo. É este infinito que, numa perspectiva rápida, desfecha e aniquila qualquer autoilusão de relevância, status ou glória, se é que existe ainda que esteja nisso por isso.

Sim, só assim mesmo me sinto um escritor. E então, dou o braço a torcer, porque sempre costumo me definir como quem apenas gosta de escrever e o faz, sim, por compulsão, não por um objetivo extrínseco, mas pela revelação que ocorre de mim mesmo para fora de mim mesmo, naquele instante em que as palavras me organizam, já que internamente prospera o caos..

Afora isso tudo, ele, esta persona escritora, acaba mesmo sempre no último ponto, pensando que aquilo tudo que dissera pudesse ser meia verdade apenas e me deixasse insatisfeito. Pois o meu azar é que é esta mesma preferência. A deferência devida ou indevida é um critério de terceiros, não me interessa nem um pouquinho. Nesse aspecto (talvez em outros também), sou pessoano: e o resto que venha se vier, se tiver de vir ou não venha. Talvez, se meu pai lá atrás tivesse me impedido de usar sua máquina de escrever vermelha (ela me foi fundamental por ter me cedido gratuitamente sua velocidade), porque minha caligrafia sempre foi péssima, mas, pensando bem, mesmo assim… Será tudo isso, ao fim das contas, apenas dependência do som das teclas? Se for assim, o touchscreen completará um dia desses o serviço e então irei finalmente para a previdência secreta dos escritores, decerto a mais mal remunerada entre todas..

Fragmento de uma crítica abandonada sobre críticas negativas

Uma única vez na vida tive vontade de erguer a pena, quer dizer, os dedos ao teclado, para interpelar um autor em razão de sua obra. Felizmente desisti em tempo. Desisti porque me sentiria infeliz só de começar a pensar no assunto. Além de tudo, seria não apenas tempo perdido, seria mal empregado mesmo, afinal é muito provável que o autor (um consagrado) jamais fosse ler aquilo e eu, como disse, não me comprazo nem um pouco na tarefa de desmontar qualquer autoimagem que alguém possa ter para consigo mesmo, isto é, acho justo que todo autor nutra para com sua autoestima as melhores expectativas. Admiro, sim, por outro lado, algum zelo com uma certa tendência a megalomania, mesmo considerando que, por outro, requer-se sempre um pouco dela para uma empreitada que efetivamente valesse a pena. Quer dizer, lamento pela inevitável desfaçatez com que se tratam muitas vezes obras inovadoras, mas há que se considerar que muitas vezes, ao invés de ser efetivamente o produto inovador a despontar no horizonte da mesmice mental e cultural de um tempo qualquer, se possa estar vendo apenas um tipo de fantasmagoria, uma miragem, ou, pior de tudo, uma projeção enviesada de tendências caquéticas prestes a esfacelar-se, aí sim, num movimento inovador, mesmo que um localizado num eterno porvir. Admiro, sim, aqueles autores que tem a coragem de ver-se sob essa perspectiva, mas os amigos, infelizmente, costumam impedi-los em tempo.

Sobreviventes

Em fins da década de 70, Caio Fernando Abreu escreveu o necrológio do que havia de movimento hippie no Brasil de então. É um poema que está publicado no livro “Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu”, da Ed. Record, e chama-se “OS SOBREVIVENTES”.

Este tipo humano, exatamente assim, já meio fora de tempo e um pouco perdido, eu ainda conheci na minha infância. Pelo menos, no interior do RS, havia quem procurasse essa indumentária, essa caracterização hippie clássica: cabelos longos, batas indianas, sandálias de couro e um olhar ao mesmo tempo de resistência e estranhamento. Os anos 80 já batiam à porta e a redemocratização brasileira idem. Alguns em modos de vida realmente alternativos, sobrevivendo do artesanato e até de venda de poesia mimeografada. Lembro disso muito bem. Havia, ao lado de muita gente fantasiada, sobreviventes de verdade.

Nessa mesma época, prosperava também outro visual comum entre as pessoas mais ou menos da mesma faixa etária. Era o visual do movimento estudantil, politizado. O cabelo não era longo, motivos peruanos e/ou indianos não eram habituais, não usavam drogas e até condenavam-nas por suposto apelo à alienação. A camisa dentro das calças, a cabeça dentro de livros de formação e os ícones, ao invés dos ídolos do rock como Janis ou Lennon, concentravam-se mais em figuras revolucionárias: Che, Lenin, Trotski, etc.

Jovens demais para terem participado da resistência à ditadura ou da luta armada e de certo modo como os hippies de então, encarnavam uma fantasia espiritual: tomar o poder, mudar o mundo. Não puderam. Os anos 80 foram implacáveis, crise sem fim, inflação monstruosa, TV a cores e música pop, cultura pop, política pop.

Os 90 continuaram na mesma batida e neles foi protagonizada a grande virada política de então, nas mãos do tucano Fernando Henrique Cardoso: a primeira reforma administrativa desde os anos 60, lei das organizações, novo modelo de assistência, saúde, privatizações e a destruição definitiva do sonho de Anisio Teixeira: universalização da educação. As prioridades voltaram-se ao mercado e sua relação patológica com o Estado brasileiro: esta mesma doença da qual padecemos hoje e nos custa bilhões sem fim.

Depois veio esta história recente, a de agora, em muito levada a efeito por aquela mesma geração dos anos 80, da redemocratização, do movimento estudantil mas já sem barra pesada, sem clandestinidade, que, assim como aqueles sobreviventes hippies, parece insistir em vender o incenso da sua “luta” ideológica sem perceber (ou se fazer notar) que sua imagem ficou fatalmente anexada ao dinheiro na cueca, ao aperto de mão com Maluf e a uma iconografia dramática, feita por sessentões barrigudos como aqueles de então, financiados por esse dinheiro aí, dessa matéria prima manuseada por Odebrecht e outros milagres brasileiros.

Caio Fernando Abreu virou meme e ninguém ainda escreveu sobre esses sobreviventes, nem quem lhes tente herdar a sucessão. A história virou vapor nas redes sociais e nos falta, como Caio fez com os hippies, quem nos esclareça sobre isso. Mas não falta quem recicle, como farsa, a pantomima.

É meio triste e não sei onde isso vai dar, mas agora só consigo sentir saudade dos primeiros sobreviventes.

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OS SOBREVIVENTES
Caio Fernando Abreu

Os sobreviventes
às vezes ainda aparecem
em busca de papo
ou qualquer coisa assim.

Ainda trazem os cabelos compridos
duas ou três pulseirinhas
alguns panos coloridos
ou um incenso nas mãos.

Só os olhos mudaram.
Aquela loucura das pupilas
aterrizou, virou espanto
de ter virado espanto.

Pois um sobrevivente
nunca imaginou que pudesse um dia
virar sobrevivente de um tempo
e de si mesmo. Mas virou.

Pelas tardes, de repente,
os sobreviventes ainda aparecem
procurando nos meus olhos
o que nos olhos deles já não existe.

Mas nada encontram.
Faz tempo, rasguei as fantasias
pendurei os colares nas paredes
mandei o pano indiano pra lavanderia.

Nos reconhecemos assim
esbarrando pela noite ou pelas tardes
feito zumbis de almas para sempre perdidas
no sonho que se foi. E que não volta.

O ofício agora é navegar sozinho.
Sem razão, sem porto, sem destino,
sem irmão nem mapa. Sobre-vivendo
à nossa própria morte. E isso é tudo.

Sampa. 23 de julho de 1979.

O meu amigo Levi

Por essas tristes fatalidades da vida, precisei há cerca de um ano trocar de chip no meu aparelho celular. O antigo, infectado por um vírus, depois de promover uma onda monumental de spam em meu nome, de um dia para o outro bateu as botas e nunca mais funcionou: o finado e bom número. O novo, radiante e aparentemente intacto, trouxe com ele o nome da pessoa mais indesejável que há no planeta Terra, quiçá no sistema solar inteiro, galáxia, universo e mundos paralelos: o Levi. Guardem esse nome: L – E – V – I.

Quem me conhece sabe muito bem que eu não sou nem nunca fui o Levi. Mas o maldito sujeito, além de um dia ter possuído o número que a operadora de telefonia me legou, era o maior calavera da paróquia. Um devedor contumaz. Fichado na SERASA e em todos os sistemas de fichamento de crédito sabidos no mundo inteiro. Devedor do Bradesco, do Itaú, do Banco do Brasil, do Unibanco, da Caixa Federal, do HSBC, do Santander, do Citibank e outros mais. Acho que até do Banco Safra e outras iniciativas igualmente calaveras ele era cliente. Cliente e inadimplente, diga-se de passagem.

Evidente que, por ter herdado seu número, herdei também as cobranças desta nobre pessoa, o Levi.

Teve dias que temi pela vida do Levi, é justo que o diga. Não porque eu desejasse matá-lo (isso nunca passou pela minha cabeça), mas imaginei que se ele devia para tantas pessoas jurídicas, tranquilamente ele deveria também para pessoas físicas… Daí a ser um alvo de um esquadrão de matadores de aluguel seria uma passo relativamente simples, basta você ser um pouco chato e isso, bem… Mas não! Nunca desejei nada de ruim ao Levi. Eu queria apenas que me desassociassem do seu nome e do seu CPF e então estaríamos de boas pela vida. Não sou de guardar rancor, como se vê. Basta que me deixem em paz e estamos bem!

Por um tempo, cessaram as incontáveis ligações em busca do Levi e mensagens SMS e até os convites para grupos de credores no WhatsApp. Na minha inocência, julguei que estava finalmente livre da memória dessa criatura subitamente íntima. Vã ilusão… Um dia recomeçaram, primeiro sutil e depois enfaticamente, as cobranças e agora unificadas numa única empresa especializada. Especializadíssima, soube mais tarde. O alívio, transitório como todos os alívios, acabou por revelar-se o maior dos tormentos. A empresa desejava realmente caçar, incomodar, infernizar a vida do Levi e, para ela, se o número estivesse no meu nome ou no do Papa Francisco, eles não se comoveriam.

Sistemáticos, eles passaram a ligar cerca de 7 vezes por turno do dia, através de números os mais diversos, de prefixos de localidades tão estranhas quanto o município de Anta Gorda, no RS, como o de Jijoca de Jericoacoara, no CE. Eu, por pensar que poderia ser uma herança de um remoto e desconhecido parente milionário, por um tempo fui atendendo as ligações, confiando naquela hipótese do raio cair bem na minha cabeça. Logo vi que era apenas mais da herança e do legado do Levi e suas operações bancárias.

O suprassumo aconteceu num dia em que, estando na escola para buscar meu filho junto a outros pais e familiares, a ligação foi ineditamente convidativa. Uma gravação convidava-me a dizer SIM ou NÃO após ouvir o bip e tudo estaria para sempre resolvido. Na hora, subitamente emocionado, disse o que estava entalado na minha garganta por meses a fio. Disse um comprido NÃO. Representado graficamente, saiu mais ou menos assim: NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO! E, por um momento absolutamente descontrol, continuei: NÃO, EU NÃO SOU O LEVI, NÃO SOU, NUNCA FUI, NÃO CONHEÇO, ODEIO, QUERO MATAR!!

Houve olhares. Algum estranhamento também. Mas logo expliquei expressamente a minha situação, no afã de ser compreendido, e não foi com pouca surpresa que meus interlocutores revelaram que tinham, cada qual, o seu equivalente ao Levi. Nem digo que fiquei aliviado, mas serviu sim de consolo saber que, afinal de contas, não sou apenas eu o condenado à chateação telefônica. Somos todos ou, pelo menos, um bom número…

De resto, serviu-me o aprendizado com o meu amigo Levi a desconsiderar solenemente ligações que não sejam do meu mais restrito círculo de conhecidos. Eu até continuo oferecendo de bom grado meu número. E agora sem nenhum cuidado, para qualquer farmácia e padaria que quiser me cadastrar sabe-se lá com que objetivos, eu informo. Não vou atender mesmo… Então, já sabem, se quiserem falar comigo, não me liguem. Depois do Levi, todos são potenciais Levis. E, sinceramente, um já me foi o bastante pela vida inteira.

Era só o que faltava

poetas

Durante todo o ano de 2016 tive uma companhia que há anos eu vigiava a uma distância respeitosa, mas ainda não tinha para mim: a poesia completa do Mario Quintana. Ele, um gaúcho sem o menor gauchismo, pessoa com um senso de observação do humano atiladíssimo, foi dos primeiros poetas cosmopolitas e verdadeiramente universais destes pagos sulinos, senão o primeiro (ou o único).

Tinha ele uma simplicidade que chegava a ser hermética. E um anti hermetismo total capaz de extrair poesia (para muitos rasa e superficial) do seu contato com a própria superfície das coisas, das pessoas, do tempo, dos lugares e às vezes parece que de quase tudo sobre o que pensava ou colocava os olhos. A poesia nele não era fácil, difícil nele era o que não convertesse em poesia.

Poeta da ironia e da sutileza, Quintana não precisava adentrar na mente alheia para entendê-la. Por outro lado, parecia ter um sentido de revelação que dispensava qualquer caráter invasivo ou colonizador. Não a revelação mágica ou divina, que muitas vezes impõe ritos e hiper interpretação onde muitas vezes nem os há, mas aquela de desvendar os pequenos mistérios da vida e estes para ele eram justamente os maiores: o de notar o traço humano que se oculta na trivialidade cotidiana e a irreverência em apontar que há poesia nisso, e muita.

Hoje, por tudo que leio dos contemporâneos, penso que o Quintana seria um transgressor incompreendido. Mas talvez outros poetas e escritores geniais do passado também o fossem (ou continuassem a ser).

Junto a ele, bem ao lado da sua poesia completa, coloquei a nova edição completa de Adélia Prado e também a poesia de Wislawa Szymborska traduzida e publicada neste ano pela Companhia das Letras, num lindo trabalho de tradução. Os três ali, um pouco mais afastados de outros até mais festejados, mas que me importa? Foram estes os que me acompanharam durante o ano, como se os tivesse colocado a conversar entre si. Até procurei me intrometer na conversa deles, às vezes, em objeções idiotas, só para criar caso. Mas eles insistiram em permanecer naquela perenidade dos já eternizados e, por isso mesmo, não precisaram se ocupar das minhas tolices e advertências, Quintana principalmente. Era só mesmo o que faltava.

Cara de corrupto

noite

Desde que assumi a subsindicância do condomínio onde vivo tenho sido permanentemente aliciado para a corrupção. É impressionante. Depois da experiência, estou até quase perdoando os corruptos contumazes. É mesmo um feito resistir às vantagens ilícitas que são oferecidas a qualquer um, mesmo em se tratando de um reles subsíndico como eu.

Esses dias precisamos arrumar o portão do prédio, que dá para a garagem. Aproveitei a ocasião e pedi para verificaram um problema no meu portão interno, que o condomínio não tem nada a ver, em absoluto. Na hora de fazer o pagamento, a oferta com aquele sorriso diabólico do corruptor: “Deixa que eu ponho tudo na mesma nota…”, disse o nobre prestador de serviços.

Senti-me como Eva diante da maçã e a nota ali na minha frente, bastando uma rubrica para ficar tudo por isso mesmo, a própria serpente da danação. “Não precisa, imagina…”, respondi ao sujeito que, depois disso, acabou tendo de ficar sozinho no seu constrangimento.

Ontem, outro prestador de serviço. Dessa vez um eletricista que veio consertar a célula fotoelétrica. Orçamento acordado, aquela coisa e, na saída, pimba! De novo! Dessa vez a oferta era a de colocar também na nota de serviços o material que foi preciso comprar na ferragem, para o qual já tinha nota, não precisava de outra. Mais uma vez o convite malicioso, tipo assim me convidando para o estranho paraíso dos pequenos pilantras, junto a um cartão para o caso de “outras necessidades”. De novo apliquei a minha cara zen-budista até o sujeito perceber que não me interessava a sua proposta.

Na hora fiquei pensando: dois chamados, duas ocorrências. Vai ver todo mundo é corrupto mesmo e eu achando que esse era um papo furado aplicado apenas para o caso de amigos ou amados flagrados em malversações. Ou então, desgraçadamente, eu é que tenho cara de quem está sempre apto e a fim de levar um “purfa”… Pode ser, afinal quem sabe o que os outros veem na gente? De repente, tenho cara de malandro mesmo. Paciência, que é que eu vou fazer?

E também fiquei pensando que, se na ínfima burocracia condominial a ocorrência de aliciamentos é de 100%, que dirá nas altas esferas e altos empreendimentos pagos com dinheiro público. Deve ser 100% de corrupção fora o ágio.

Só lamento é que, no meu universo de observação, os envolvidos não sejam pilantras graúdos, desses que eu desejaria ver mofando na cadeia, mas pessoas humildes, provavelmente habituadas nisso por vantagens menores, muitas vezes insignificantes. Provavelmente, sim. Isso mesmo. Mas a questão de definir o que é significante é muito individual. Tem muitas coisas e gestos que eu acho mesmo insignificantes, pequenos crimes, e jamais me ocorreria puni-los ou bancar o moralista. Casos assim são recorrentes, lamentáveis e normalmente julgados com rigor absurdo, enquanto outros incrivelmente não são.

Seja como for, me enche de tristeza ver trabalhadores humildes recorrendo a expedientes desse tipo. Decerto não temem por isso, mas o fato é que se expõem de uma forma muito absurda, quase obscena. Sei que há nisso uma violência embutida que quase ninguém percebe, ainda mais nesses tempos de justiçagem generalizada, mas, paciência… A pessoa decide que vale a pena correr o risco e aí, no fim das contas, acho que não está nem aí para o que os outros pensam ou vão pensar. É um modus vivendi dos mais comuns.

Essa e outras intercorrências, com outras espécies de estupidez deliberada, têm me feito pensar que os síndicos são pessoas talhadas para os mais duros desafios da vida contemporânea. Ou é o assédio incansável de corruptores ou é o desleixo deliberado do seu vizinho de porta. Quer dizer que a pessoa assume a incumbência de ajudar a coletividade e é levado a provações morais incalculáveis, de quebra tendo de ser um exemplo de cortesia e civilidades e, obviamente, sendo o suspeito preferencial da corrupção endêmica que parece assolar a sindicância de um modo geral.

Bem dizia um amigo meu, com experiência no assunto, que se pode exigir tudo de um síndico, menos fé na humanidade. A frase é de letreiro de caminhão, mas tem 110% de verdade, já descontada a Lei do Gérson embutida.

Seu Teixeirinha, o faz-tudo

teixeira

Hoje cedo recebi, pelo interfone daqui de casa, uma chamada de um senhor chamado Teixeirinha. Teixeirinha, no Rio Grande do Sul, ainda hoje é o maior ícone da música popular tradicionalista. Em vida, gravou cerca de trinta discos ou mais, participou de pelo menos dez filmes e incontáveis vezes suas músicas tocaram nas rádios daqui, principalmente as de onda média, de larga penetração nas cidades do interior do estado. É claro que não eram a mesma pessoa, porém, como eu não via o seu semblante, mas ouvia seu modo de falar em tudo interiorano, tive uma conversa estranha com o seu Teixeirinha. Não o fantasma do músico, mas este outro: sujeito aposentado que procurava serviços gerais para ajudar a “criar os neto”, conforme ele disse.

O homem ia falando lá de baixo e eu, cá em cima, montava a fisionomia do outro Teixeirinha mentalmente. Imaginava um homem atarracado como o outro, já falecido. Cabelos escuros improváveis e bigode à gaúcha, como o da imagem do Teixeirinha que eu conservava em mente. À medida em que a conversa progredia, entretanto, fui perdendo a imagem do cantor mitológico, mas restava um modo tão simples e direto de dizer as coisas que era como se eu estivesse falando com qualquer pessoa “de antigamente”. E a conversa, como tinha para ele um propósito e eu, estando impedido de descer no momento, acabou transcorrendo daquela forma impessoal, separados nós por três andares do prédio e camadas e mais camadas de pisos e paredes que impediam que nos enxergássemos frontalmente.

O que ele queria é que eu anotasse o número do seu telefone e, na eventualidade de uma necessidade de qualquer serviço, como de encanador, eletricista, pedreiro, o que fosse, não hesitasse em lhe chamar. Aposentado ele estava agora, mas não tão tranquilamente quanto fosse digno para estar de pernas esticadas numa praia ou numa varanda, mas vagando pela Cidade Baixa, de Porto Alegre, em busca de serviços ocasionais (ou changas, no modo de dizer rural), para ajudar no sustento da família e na “criação dos neto”, com o perdão da repetição da sua fala.

Não sou o síndico do prédio onde moro, mas sou casado com a síndica. Ao contrário de outras composições políticas semelhantes, atuamos em comum acordo e jamais me ocorreu, por exemplo, sabotar sua gestão ou coisa equivalente. A pessoa prevenida inclusive jamais deveria incorrer numa parceria feita à sorrelfa, com pessoas que não se confiam. Se assim não pode ser na vida política, na vida pessoal é completamente inviável ser de outro modo.

Como a titular da pasta não estava em casa, atendi eu mesmo o que ele pedia. Guardei seus telefones e sugeri que me aguardasse um instante, que em minutos eu desceria até lá para falar com ele diretamente. Com o seu Teixeirinha. “Não se incomode”, ele falou, porque estava visitando os prédios todos do bairro e de cada um onde estivera antigamente a serviço ele lembrava do nome dos antigos moradores, inclusive do nosso, com quem teria “tratado serviço” há muitos anos atrás. Esta pessoa, já falecida, havia sido major do exército, pracinha da FEB na 2ª Guerra Mundial, e fôra síndico por muitos anos. Na nossa conversa, citar o seu nome funcionava como um atestado de idoneidade. Interiorano como sou, entendi assim a menção a este antigo vizinho que era vivo ainda quando viemos morar aqui. E, na lógica da conversa, era isso mesmo o que ele queria dizer, que não era um ninguém, mas era o seu Teixeirinha, conhecido deste, daquele e daquele outro. Alguém cuja credibilidade era dada quase por uma tradição. Seja como for, foi o suficiente para que eu acreditasse nele.

A conversa não foi longa, mas o bastante para que eu percebesse que a firmeza na voz do meu interlocutor seria exatamente a mesma do seu empenho em qualquer trabalho que fosse fazer. Há não muito tempo atrás eu havia tomado um calote de um sujeito bem jovem que veio fazer um serviço de encanamento aqui em casa e pensei que era uma lástima eu não ter desde antes o contato do seu Teixeirinha. Esse outro fez um serviço péssimo que tive eu mesmo de reparar, ainda que tivesse pago e não pouco pela sua execução. Paciência. Pagava em dobro para ele não pisar mais na minha casa.

Não tenho de imediato um serviço para oferecer ao seu Teixeirinha nem aqui em casa nem no condomínio, mas sou bem capaz de quebrar um cano ou estragar uma coisa qualquer de propósito a fim de chamá-lo. E nem tanto para me certificar de que não se trata de uma reencarnação do antigo cantor de música gauchesca, mas porque se isso fosse ajudá-lo a completar a aposentadoria miserável que pagam aos velhos no Brasil, já valeria a pena. Antes investir diretamente no seu Teixeirinha do que nesses gatunos que agora se resolveu chamar de “gestores”. E, mais a mais, apesar de que certamente fosse mais digno e justo que uma pessoa nessa idade estivesse sossegada, de tanto e tanta pilantra que se é obrigado a ver nas “mídias” e “redes sociais”, sempre é bom ver com os próprios olhos um índio velho desses que não se entrega assim “no más”.

A vida mesma, ela é outra coisa

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Há uns dias recebi um convite inusitado. Para mim pelo menos, completamente inusitado. Tratava-se de escrever uma biografia de uma pessoa viva. Instantaneamente o recusei.

Não que eu considere que os vivos não podem ser biografados, afinal não há nada que impeça isso e biografias de pessoas vivas, especialmente celebridades, são abundantes. Não que eu tivesse pudor de qualquer espécie em saber detalhes íntimos de alguém para realizar uma encomenda assim. Não é nisso que estamos sempre interessados ao querer entender uma pessoa? Entender o que move suas decisões? Seus sentimentos e motivações mais entranhados?  Estou querendo dizer que somos todos um pouco fuxiqueiros? Claro que somos!…

Porém não se trata disso e a pessoa em questão tem uma história de vida, que conheço en passant, duríssima. Dificílima mesmo. E o primeiro que me veio em mente foi que seria duríssimo para mim também contá-la de qualquer maneira, porque não saberia me desvincular da pessoa biografada. Não tenho essa capacidade de distanciamento de ouvir um relato e não me envolver emocionalmente com ele.

Por isso que prefiro escrever ficção a tratar rigorosamente a realidade. Na ficção, por pior que seja uma situação humana, há uma projeção e uma certeza antecipada de que, terminada a narrativa, nada terá acontecido de real a ninguém. Mesmo na pior tragédia, não restarão mortos e feridos e isso representa um alívio considerável a quem escreve, embora sua intenção possa ser muitas vezes erigir uma vida como se real ela fosse. Felizmente, pelo menos no meu caso, não é. A realidade é intocada pela ficção e a maneira mais efetiva que um escritor pode contatá-la eu acredito que seja, por incrível que pareça, através da poesia; isso porque a poesia fala diretamente com o real, ainda que de modo simbólico e metafórico.

Uma outra coisa a considerar é que um relato oral, por si só ele já é ficcional. Qualquer um que relate um fato ou tente apreender a realidade irá fatalmente depositar suas impressões ou pelo menos estabelecer um ângulo específico de apreciação. Nem sobre a própria vida é dado ao ser humano ser rigorosamente integral e sincero. Quantos, ao falarem de si mesmos, não acabam aplicando-se um lustro exagerado ou sonegando sombras comprometedoras? Talvez, num inquérito policial, ou em juízo, alguém poderia ser totalmente imparcial consigo mesmo e relatar os fatos com concretude total. Ainda assim, ao tratar da motivação humana, toda essa arquitetura realista simplesmente evapora. Sobram impressões, antevisões, tentativas, aproximações, coisas assim.

Por isso, pelo menos no que diz respeito a mim, a subjetividade dificilmente comporta uma narrativa e fazê-la com competência requer um tipo de empreendimento literário altamente complexo que nem se produz muito hoje, como no Brasil Clarice Lispector ou Lucio Cardoso fizeram tão bem nos anos 50 do séc. XX.

Porque variável por natureza, a subjetividade é o reino da poesia. E, por mais apreço que eu possa ter ou vir a ter para alguém, jamais me sentiria capaz de subjugar à linearidade narrativa que uma biografia exige a subjetividade de quem quer que seja. Daí a necessidade de expurgar de mim a psicologia dos outros na ficção, porque simplesmente chega um momento em que um personagem não cabe mais dentro da gente e precisa ganhar vida própria, mesmo que uma vida imaginária, e encerrar sua trajetória, cerrar seus olhos e calar sua voz para sempre.

Porque a vida real é muitas vezes insuportável de ser conhecida em detalhe, criou-se talvez a ficção. Para que pudéssemos tomar conhecimento das piores tragédias, mas com a possibilidade de fechar o livro e nunca mais se incomodar com isso. A vida mesma, bem, ela é inteiramente outra coisa.