“Marrom e Amarelo” e o racismo no Brasil dos anos 10

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 11/01/2020.

O mais recente livro de Paulo Scott, Marrom e amarelo, publicado em 2019 pela Companhia das Letras/Alfaguara, é um livro que não deixa muitas dúvidas, mas deixa algumas (e é bom que as deixe). Desde o primeiro parágrafo, quase um libelo, logo se fica sabendo de sua intenção política: a denúncia da persistência do racismo estrutural no Brasil dos anos 10. É indubitável. Ainda assim, é dessa mesma certeza que provém o seu maior potencial de questionamento e que aos poucos prolifera em dúvidas dirigidas, por sua vez, aos leitores. É que é impossível deixar de pensar em como, ao final de um período político histórico em tese favorável às questões relacionadas aos direitos humanos, não se conseguiu debelar a semente dura, aparentemente inabalável, do racismo em sua forma brasileira.

Ambientado na Porto Alegre contemporânea, o romance é protagonizado por dois irmãos que se reúnem justamente em função de libertar a filha de um deles (sobrinha e afilhada de outro). Ela acaba de ser presa por envolver-se em manifestações políticas emergentes realizadas em torno à desocupação de um prédio no Centro Histórico de Porto Alegre e o responsável pela prisão é justamente um antigo conhecido e desafeto dos irmãos.

Contrapondo experiências de duas gerações de ativistas, o romance de Scott coloca em comparação momentos distintos da história brasileira e também do ativismo negro, apesar de que temporalmente bastante próximos. O primeiro, anterior, e que remonta à redemocratização e aos anos 80 e 90 do séc. XX; o outro, recente, forjado no Brasil pós-2013, no qual uma jovem ativista equipada tecnologicamente vê-se ainda às voltas com o drama inarredável do preconceito e da discriminação.

O romance, no entanto, diz muito mais do que o produto dessa justaposição e desse desconforto político. Lido assim parece resumir uma pedagogia que, de fato, não corresponde ao painel que indiretamente ele conta da vida de uma das capitais com menor distribuição étnico-racial do Brasil. De acordo com o IBGE, Porto Alegre é capital do estado brasileiro com o menor percentual de pessoas pardas em sua população, isto é, de pessoas com múltiplas ascendências étnicas (10,6%). O número de autodeclarados negros também está entre os menores da federação (5,5%). No Brasil inteiro, não poderia mesmo haver cenário mais favorável para um convívio social tão conflitivo.

No livro de Scott, essas diferenças falam da geografia dos bairros de uma cidade ocupada de forma radicalmente diferenciada, mas ainda mais de uma cultura cindida, pouco solidária e, por isso mesmo, violenta. De um lado, toda uma estrutura inacessível e refratária dos bairros ricos e de classe média, dos clubes, das instituições tradicionais da cidade. De outro, as ruas, as escolas precárias e vidas familiares permanentemente acossados por várias espécies de agressão, desde a violência casual, o tráfico, o permanente convite à delinquência e a violência institucional. É curioso, aliás, o modo pelo qual Scott nomeia insistentemente, ao longo do livro, nomes de siglas por extenso. É forma, talvez, que encontrou de imprimir no papel a certeza de que o racismo estrutural chama-se dessa forma justamente por agir muitas vezes desde e a partir das estruturas e instituições sociais e políticas.

Mesmo com um pano de fundo como este, resumi-lo como um livro de denúncia, no entanto, significaria apagar a intensa vitalidade conduzida pelo narrador/protagonista. Seja quando participa da burocracia estatal e manifesta sua crise para com as discussões políticas destinadas ao acesso por cotas ao ensino superior, seja quando retorna à cidade natal e percebe intocada a cultura discriminatória e o cotidiano de pequenas violências, Federico precisa reaver-se com o próprio passado e com as diferenças afetivas com o próprio irmão Lourenço. Não bastasse isso, os dois irmãos são também diferentes na cor da pele (enquanto Lourenço a tem mais escura, Federico é mais claro e tem cabelo liso) e, principalmente, na forma como encararam o drama do racismo individualmente.

Por meio de muitas idas e vindas ao passado, o romance chega a uma culminância muito mais afetiva do que política. É no seu reencontro com a família, os antigos amigos do Partenon e com a projeção das dificuldades enfrentadas agora pela sobrinha que ele precisa tomar a decisão de reirmanar-se aos seus e voltar ou não a viver em Porto Alegre. Até chegar a isso, Scott terá reconstruído uma história e um lugar para Federico que extrapola em muito a jornada pessoal e diz respeito ao destino comum daqueles com quem se importa. O impasse ético de Federico não poderia ser mais crucial. Dividido entre a possibilidade de fixar-se longe de todos, num ativismo cada vez mais anódino e burocratizado, ou a de estar disponível à sua família e comunidade, Federico é recolocado à força nos trilhos da história por problemas tão antigos quanto reincidentes. Suas dúvidas, apesar disso, são o que lhe fazem mais humano e, por tabela, resolvem o romance não numa equação previsível, mas por uma trama que se mostra convincente porque derivada da complexidade inerente às relações humanas e políticas quando tomadas honestamente.

 

Livros de vidro

Com o tempo branqueando em definitivo o que restou de minha cabeleira, vou concordando cada vez mais com Guimarães Rosa, que disse literalmente que “um autor jamais deveria falar de outros autores, mesmo que não os aprecie. Disto não resulta nada de razoável; penetra-se em mundos estranhos, e isto não conduz a nada.” Bem se vê que o escritor de Cordisburgo tentou sempre conservar a elegância interiorana, que reside praticamente toda no recato e na prudência.

Eu já cometi o deslize do elogio, mas agora o evito como o diabo foge da cruz. Nem por isso assumo o outro lado da moeda, de quem vive a perseguir a falha alheia, e apontá-la como um facho de luz em noites de lua nova, em público e tampouco em privado. Não faço isso porque sei dos meus muitos erros e fraquezas e já experimentei infelizmente o ruído do meu próprio telhado de vidro se espatifando. Não digo que seja a pior coisa do mundo (a autocrítica é muito pior), mas é, dos aprendizados, um dos mais desagradáveis.

Por essa razão, ainda como Guimarães Rosa, não acho mais possível falar da literatura dos contemporâneos. Melhor e menos comprometedor falar dos que já morreram e o tempo não pode dissolver. Ou então, como tenho tentado fazer, falar apenas de tendências ou de livros de não-ficção, ainda que custe estudá-los, mas, por isso mesmo, o que se pode revelar mais proveitoso.

Por agora, a se confirmar a tendência de uma literatura cada vez mais politizada, engajada, comprometida com ideias políticas, o terreno dos comentadores de livros (onde me insiro, lances de escada abaixo dos verdadeiros críticos) vai ficando cada vez mais movediço. Eu, pelo menos, assumo meus problemas com isso tudo.

O que eu quero dizer é que o meu problema com a literatura politizada, engajada, identitária e etc. é que, a meu ver, ela coloca um xeque-mate de partida a qualquer olhar crítico. Ou seja, ela não se coloca em jogo, mas confunde-se completamente em autoria, enredo e estilo. Essa opção autoral (que não questiono) torna impossível dissociar efeito formal e efeito político, mesmo que não signifique que seja a única ou a forma por excelência de abordar questões políticas na literatura.

Quer dizer: é impossível segmentar o olhar em direção ao objeto porque então o leitor ou se vê no impasse de comprar o livro como um pacote, ou parece escamotear uma interpretação política quando poderia (ou até deveria) ser apenas formal. Essa é a faca de dois gumes da literatura politizada e eu, embora sinta vontade de comentar bons livros que tenho lido nessa linha, penso que, sendo assim, é melhor evitá-lo. Apenas lamento que a crítica então se resuma a uma que só possa ser feita ao apanágio da simpatia ideológica (como equivalentes a likes das redes sociais, mas talvez seja essa espécie a única crítica literária possível), ou outra toda reunida na pecha de reacionária.

Se então foi-se mesmo o tempo em que se podia compreender a ficção como ficção, poesia como poesia, religião como religião, filosofia como filosofia e assim por diante, não é que os livros estão deixando de ser impressos em papel, mas gravados em vidro polido e repolido e repolido e assim por diante também. Bem dizia Rosa, é bem melhor falar de Flaubert, Dostoievski, Tolstoi ou dele mesmo e outros que já não são de vidro, mas de bronze mesmo. Pelo menos assim não resta dúvida de que não se vão quebrar.

O recluso Keaton Henson

Por suas raríssimas aparições na mídia brasileira, é possível que poucas pessoas tenham sabido que, no último dia 25 de outubro, o cantor folk, poeta, artista plástico e compositor Keaton Henson lançou o sétimo álbum da sua resguardada carreira. Talvez seus seguidores brasileiros nas redes sociais tenham sabido, mas tampouco isso é suficiente para que seu nome se diferencie no limbo que a depauperada mídia musical nacional vem colocando compositores que não sabe classificar ou entender, porque habituada e constrangida sempre aos mesmos estilos, às mesmas pegadas, aos mesmos nomes, tudo o mesmo de sempre, como um moto-contínuo inescapável.

Com seu novo disco, Six lethargies, Keaton confirma o que se supunha desde 2014, quando lançou Romantic works: trata-se de alguém que sabe se expressar muito bem também na ausência de palavras. Acompanhado pela The Royal Liverpool Philharmonic Orchestra, Keaton vinha lançando amostras do seu mais recente trabalho em suas redes sociais, em gravações ao vivo. No Facebook, vídeos nos quais ele trabalhava suas composições ou as ensaiava foram vistos por milhares de pessoas. No trabalho a ansiedade se desfaz, segundo ele diz.

Keaton não vive dando as caras por aí. Longe disso. Se artistas “reclusos” vivem dando sopa na internet, ele parece fazer questão de dosar suas aparições. A explicação para o comportamento é sua agorafobia e dificuldade de exposição pública. Também suas repetitivas crises de ansiedade e pânico paralisantes, letárgicas. Daí, aliás, o título de seu trabalho sinfônico.

Este novo disco de Keaton não traz seu canto lamentoso nem as queixas de amor de Dear ou Five years. Sua matéria agora são transcriações que ele desejou fazer de seus estados mentais. Keaton não escreve ou lê a linguagem musical das partituras, é um compositor intuitivo cuja criação se inicia com a elaboração de mapas mentais ilustrados que mais tarde ele transforma em música. Ao longo dos três anos que usou para a elaboração de Six lethargies, Keaton afastou-se dos motivos folk e enveredou para uma música baseada em experiências neurocientíficas. Sua busca é, segundo ele mesmo diz, por “tentar comunicar algo mais complexo e abstrato, explorando a ansiedade, a depressão e a ausência de sentimentos”.

Não é que essa intenção seja uma novidade, afinal, mais do que as outras expressões artísticas, a música é capaz de reproduzir os sentimentos e sensações humanas que são essencialmente abstratos, indescritíveis. Compositores que em outros tempos e circunstâncias procuraram criar para causar emoções por sinal fazem quase a regra. Por outro lado, Keaton busca nas emoções a fonte direta para a criação e acredita que sua expressão pode contribuir na geração de empatia para com as questões que envolvem sofrimento mental. Para ele, “a música é uma ferramenta poderosa para criar empatia e comunicar sentimentos incrivelmente complexos de uma maneira que qualquer pessoa possa entender, sem nenhuma explicação”.

Se o resultado de seu trabalho remete muito ao minimalismo de Philip Glass, aos devaneios experimentais de Ólafur Arnalds ou ao neobarroco de Max Richter, Keaton é um músico de expressividade poderosa que a cada novo registro imprime um passo a mais no sentido de afirmar-se como um artista completo. Para ele, nada importa que se saiba de sua vida pessoal e é mais um a defender que um artista deve responder apenas a partir de sua obra. Seja como poeta, como pintor, cantor ou compositor, nunca se pode saber aonde o inglês recluso pode chegar, mas certo é que muitas vezes ele responde à música desde a poesia. Mas nada embaralha mais os sentidos de quem o escuta que a sinceridade de sua expressão.

A terra inabitável

O twitter de David Wallace-Wells nunca mais foi o mesmo depois de 09 de julho de 2017. Nesse dia, na New York Magazine, onde é editor-assistente e articulista, ele publicou um artigo desconcertante a respeito das mudanças climáticas em curso no mundo contemporâneo. Além do título assustador, A terra inabitável, digno dos clássicos filmes do gênero catástrofe, no artigo Wallace-Wells fazia o apanhado visionário distópico mais aterrador sobre as condições climáticas e ambientais do planeta desde que o ex-vice-presidente Al Gore lançou em 2006 o seu documentário Uma verdade inconveniente.

Desde então, o jornalista se tornou um dos grandes protagonistas da retomada das discussões em torno dos impactos imediatos que cercam a questão ambiental, absorvendo tanto o pânico da população quanto críticas severas de setores que tentam minorar sua advertência e converter seu livro apenas numa indigesta presença entre os bests-sellers de cabeceira lançados no início deste século. A estratégia de esfumaçamento seria mais eficiente se Wallace-Wells estivesse mal informado, usando de má-fé ou escrevesse mal. Nada disso acontece. Seu livro consegue ser um trabalho de reportagem de primeira linha e obra de não ficção que não se consegue largar desde a primeira frase.

“É pior, muito pior do que você imagina”, ele adverte a seus leitores para que deitem fora de imediato suas ilusões quanto aos efeitos perniciosos e devastadores das mudanças climáticas não serem tão sérios assim. Neste ponto do livro, em sua primeira frase, talvez as pessoas mais amedrontadas já desistam de encarar a série de evidências que ele vai descortinar num livro que o premiado jornalista Andrew Solomon classificou como “um meteoro”. Não fosse uma metáfora do desastre que possivelmente levou à extinção no passado remoto do planeta os grandes répteis e as primeiras formas de vida, talvez se pudesse dizer que seu livro tem a pretensão de evitar que efeito semelhante àquele possa ocorrer novamente, mas agora por obra exclusiva dos seres humanos e suas opções de produção e sobrevivência.

Cerca de dois anos após a publicação do artigo, Wallace-Wells o expandiu e aprimorou até transformá-lo no livro que a Companhia das Letras está lançando agora no Brasil. Acrescido do subtítulo sugestivo “uma história do futuro”, ele inicialmente parece seguir a linha de outros autores que têm se dedicado a perscrutar o futuro iminente. Ocorre que, diferentemente de historiadores como o israelense Yuval Noah Harari, autor de Sapiens e 21 lições para o século XXI, Wallace-Wells especula calcado na realidade presente e demonstra com clareza científica suas teses para lá de desconfortáveis. Em seu livro não há, portanto, suposições, mas constatações documentadas. É o tipo de exigência que todo jornalista científico, aliás, deveria fazer antes de provocar estardalhaço ou, da mesma forma, quando visa amortecer narrativamente a realidade. As razões de sua preocupação, se não fossem comuns ao interesse de sobrevivência da humanidade, poderiam ser descartadas solenemente. Seria o mesmo que legar às gerações futuras (não as remotíssimas, mas as que já estão aí) mais do mesmo descaso ambiental que nos trouxe ao colapso da vida marinha, ao esgotamento da camada de proteção à radiação ionizante, ao comprometimento da potabilidade dos mananciais de água e até mesmo das condições atmosféricas.

Nesse desdobrar de capítulos que não permite descanso, consolo ou desculpas, Wallace-Wells desbarata as camadas de coragem que qualquer pessoa minimamente consciente consegue ter quanto à realidade das condições ambientais do planeta. Este efeito é evidentemente por ele pretendido ao dar forma e conteúdo ao seu livro, mas consegue ser ainda mais eficaz pela capacidade de não aliviar nem por um instante os temores mais singelos em relação ao breve futuro ou, ainda mais grave, ao próprio tempo presente. Explica-se sua estratégia argumentativa: a todo o tempo Wallace-Wells lembra que a capacidade adaptativa dos seres humanos é muito grande e, por essa razão, a margem de tolerabilidade com condições degradadas vem ampliando-se na mesma proporção em que se deterioram as condições de vida do planeta decorrentes da atividade econômica e da imprudência humana.

Uma das mais contundentes críticas que A terra inabitável vem recebendo diz respeito justamente a um suposto enfrentamento das condições de produção capitalistas. Não é para tanto, pois Wallace-Wells guarda algumas de suas apostas em medidas de contenção e, principalmente, reorganização produtiva. Apesar de que ele não deixe de apontar soluções políticas e medidas de enfrentamento para situações críticas, é natural que seu livro venha a conflitar com projetos políticos calcados no extrativismo, na economia baseada em alto consumo e taxas de emissão de carbono e numa industrialização inconsequente. Em sua defesa, Wallace-Wells tem dito que privilegiou o enfoque na problemática sem deixar de lado o trabalho já existente em prol da sustentabilidade. Apenas este aspecto não foi mais explorado em seu livro, segundo ele, porque os investimentos irresponsáveis têm sido cada vez mais agressivos e atingido sobremaneira os países menos comprometidos em educar a sociedade para o desafio de iminentes – ou já presentes – pequenos colapsos que, se não freados, conduzirão o século 21 a um momento verdadeiramente dramático na história da humanidade.

Ainda que a pecha de alarmismo seja de difícil remoção, é interessante lembrar que o livro de Wallace-Wells foi publicado nos EUA (segundo suas palavras, o país mais negacionista do planeta) poucos meses após a divulgação do relatório especial do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas de 2018 (IPCC). Taxado por ambientalistas mais radicais como um relatório conservador, pela primeira vez o tom emitido pelas Nações Unidas valeu-se de termos como, por exemplo, “catástrofe”. Isso ocorreria, segundo os levantamentos globais, caso não se obtenha a limitação de aumento de temperatura global em torno de 1,5 graus Celsius, a fim de que se preservem condições mínimas para a atividade agrícola e integridade da saúde humana. Isso é menos que o limite convencionado em 2 graus e Wallace-Wells prevê que sem uma transição rápida nos modelos de transporte e consumo de combustíveis fósseis, em 2050 provavelmente já se terá alcançado um incremento de 3 graus centígrados na temperatura do planeta.

2050, aliás, é uma data que os autores dedicados a pensar o futuro da humanidade costumam valer-se para traçar um limite. Enquanto Wallace-Wells aponta que será o ano em que haverá a mesma proporção de água e plástico nos oceanos, Yuval Harari diz, por exemplo, que a data coincidirá com estágio no qual o desenvolvimento de inteligência artificial terá superado a capacidade de gestão humana e passará a depender cada vez mais de si própria. Mesmo que as questões ambientais muitas vezes se confundam a séries ou filmes distópicos, é difícil de acreditar que por um passe de mágica haverá uma tomada de consciência global e mudanças efetivas no encaminhamento de soluções para os seres humanos que viverão ou atravessarão este século para o próximo. O desafio, segundo o autor de A terra inabitável, não poderia ser mais tremendo. E como os advogados das soluções estritamente tecnológicas não têm obtido melhores indicadores ou empregado recursos suficientes em prol de sanar os problemas já presentes, o livro de Wallace-Wells cumpre muito adequadamente a função de alertar a sociedade global quanto à gravidade da situação ambiental. Melhor seria se não houvesse razão para alarme, mas, havendo, não é nada mau que seja de forma tão consistente e arrebatadora quanto ele faz.

Bernabé, Bernabé!

Ao completar trinta anos da primeira edição, a Alfaguara tomou a iniciativa de publicar no Uruguai uma edição comemorativa de Bernabé, Bernabé! A novela histórica de Tomas de Mattos (1947-2016) com grande tranquilidade pode ser tomada como um divisor de águas na compreensão da relação histórica daquele país (e incidentalmente do sul do Brasil) com a etnia indígena formadora de sua população: o povo charrua. Traduzido para o português em 1992 pelo escritor Sérgio Faraco e publicado pela extinta editora Mercado Aberto, o romance de Mattos é, além de ficção histórica de notável elaboração formal, talvez o exemplo mais bem acabado do que seria uma recuperação ficcional dos fatídicos dias da etnia que emprestou ao gaucho oriental e também ao gaúcho brasileiro sua porção nativa mais ancestral e da qual, na bacia do Prata e aqui, estes povos teriam herdado mais ou menos diretamente costumes, crenças e possivelmente também uma importante herança genética.

Não se trata, em Bernabé, Bernabé!, de um testemunho direto proveniente das tradições orais indígenas como em casos hoje presentes em muitas publicações brasileiras (como o caso da excelente Coleção Tembetá, da Azougue Editorial, que também publica escritores e pensadores indígenas contemporâneos). Tendo presente que a história da etnia do Cacique Vaimaca, Senaqué, Tacuavé, e Guyunusa (imortalizados em bronze no Parque del Prado, em Montevideo) termina na data de sua partida em direção a Paris, logo após o desfecho da batalha de Salsipuedes em 1833, isto seria algo completamente impossível.

Também pelo esforço de Tomas de Mattos, a história da etnia charrua ganhou finalmente uma perspectiva menos fantasiosa da que muitos estudiosos e autores costumavam tratar a respeito do legado indígena na formação cultural do Prata e também no Rio Grande do Sul. Da mesma forma que a Iracema de José de Alencar, o poema épico uruguaio de Juan de San Martin, Tabaré, cujo protagonista é um índio charrua que vive um romance improvável com uma espanhola, perdurou desde o período romântico como fonte exemplar e seminal da relação entre os povos. Foi necessária toda a fixação de um novo repertório local, com a geração de 45 (Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti, etc.) e as investidas do romance histórico posterior ao fim do período ditatorial, do qual emerge a prosa de Mattos, para somente então tornar-se possível o esboço de novas perspectivas tanto em torno ao evento histórico de Salsipuedes como no sopesamento da herança indígena na formação da identidade cultural do país.

Apesar de habitar o cancioneiro popular e também a literatura histórica rio-grandense (ainda que precariamente), são nítidas as atribuições que a cultura popular remete ao indígena charrua, normalmente evocado desde uma posição positiva. Diriam respeito aos hábitos (a caça com boleadeiras, a perícia na equitação, a bebida do mate), vestimentas (o chiripá, o modo de sujeitar os cabelos, o poncho tramado em lã), mas quase nada à linguagem, o que ainda hoje é pouco discutido em filolologia, e ao comportamento, ainda que a tendência dos povos gaúchos de um modo geral a certo paganismo poderia tranquilamente lhes ser debitada. Sem maiores vestígios arqueológicos e descendência direta, as etnias pampeanas (charruas, guenoas, arachanes, minuanos) por essas razões têm servido muito bem ao papel que se lhes deseje conferir.

De acordo com pesquisa recente no campo da ancestralidade genética, por exemplo, sua contribuição ao genoma da população fronteiriça do Rio Grande do Sul seria comparável apenas às populações amazônicas e, segundo seus autores, certamente de origem charrua. Além dos achados desta pesquisa, remanescentes remotos do combate de Salsipuedes poderiam ter se evadido para a região nordeste do estado, atravessado pelo menos um século na invisibilidade para presentemente granjear o reconhecimento pela FUNAI de sua etnicidade (conforme reportagem da BBC). Do mesmo modo, no Uruguai um grupo de possíveis descendentes vem reivindicando para si o direito à ancestralidade tanto quanto seus atributos culturais. Os estudos em antropologia cultural, por outro lado, preferem acautelar-se quanto a tais reivindicações em função da dificuldade de comprovação genética e também por considerar que a pretensão se prestaria sobretudo a confirmar longitudinalmente apenas traços desejáveis da formação do povo gaúcho em detrimento de povos indígenas que chegaram ao tempo presente, como o guarani ou o caigangue, e outras características.

Ainda que não pudesse esclarecer finalmente o desenlace de todo o drama charrua, o romance histórico de Mattos, que foi advogado, jornalista, bibliotecário e diretor da Biblioteca Nacional do Uruguai, converteu-se por lá em documento de interesse nacional. Mais centrado em tecer múltiplos olhares sobre os eventos que culminaram na vingança que os indígenas perpetraram contra o coronel Bernabé Rivera, sobrinho do primeiro presidente uruguaio, Fructuoso Rivera, o romance recria o conflito no qual os indígenas, antes integrados ao exército espanhol na campanha contra os portugueses, foram emboscados por Bernabé, que era amigo e privava com os caciques charruas. Na característica multiperspectiva da narrativa de Matos, a condução do enredo trágico dos charruas finalmente encontra-se à gravidade dos fatos reais e obtém o devido reconhecimento.

Desde uma perspectiva mais histórica que antropológica, o mais notável do romance sem dúvida tem sido sua potência em mobilizar os estudos históricos e culturais do país em reconhecer, senão a parcela indígena na formação da identidade de seu povo, pelo menos a natureza da relação atroz entre indígenas e colonizadores de forma mais realista e consequente. Talvez, e isso ainda é algo por esclarecer, a miscigenação não tenha ocorrido nem da forma como presentemente se deseja idealizá-la e nem deixado de acontecer de todo, o que seria apenas possível na ausência de qualquer contato social. Mas o charrua, indígena remanescente do tronco aruaque e inimigo histórico das etnias do tronco guaranítico, possivelmente teria sido mesmo o combatente militar ideal para enfrentar o estrangeiro e fatalmente miscigenar-se no indistinto popular.

Na campanha dos uruguaios contra os brasileiros e mesmo em documentos da época da Revolução Farroupilha há, de fato, indícios de sua presença entre os militares de lá e de cá. Nada, contudo, se pode comprovar a respeito de que tenham sido os mais valorosos combatentes a não ser que não restou vivo ao menos um. De alguma forma, os interesses militares e geopolíticos de brasileiros e uruguaios acabaram por expulsá-los da história de uma maneira infame. O reconhecimento que Tomas de Mattos, com Bernabé, Bernabé! ofereceu ao episódio encontrou por lá o eco que há no que é pela história mal explicado e o incômodo que, por outro lado, persiste e a literatura de qualidade e escritores corajosos, apesar do tempo e da distância, conseguem reverberar.