Nós, os estropiados

Artigo publicado no Suplemento DOC do jornal Zero Hora, do dia 30 de setembro de 2017.

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Yoñlu, o filme e a narrativa do suicídio na adolescência

É possível fazer um bom filme sobre o suicídio de um adolescente? Como pegar desse enredo inóspito e doloroso e daí realizar um filme que muito provavelmente irá atingir o público que ele mesmo retrata, isto é, o público adolescente? É preciso ser educativo, esclarecedor ou simplesmente basta que conte a história como aconteceu? Como fazer isso se o filme, ainda por cima de tudo, não é ficcional, mas baseado na vida de um adolescente que tomou essa decisão há pouco mais de uma década, aos dezesseis anos, num episódio que talvez tenha mais para amedrontar a sociedade do que, por exemplo, a badalada série 13 Reasons Why, produzida nos EUA e veiculada no início desde ano no canal de streaming Netflix?

Para questões como essas, não há e nem deveria mesmo haver respostas fáceis. Mostrar isso tudo, entretanto, será dos maiores desafios que terão pela frente o diretor Hique Montanari e também o ator Thalles Cabral, que reviverá nas telas o compositor e cantor Yoñlu. Yoñlu é o pseudônimo pelo qual se autodenominava e ficou conhecido este garoto (seu nome era Vinicius) nascido em 1989, em Porto Alegre, onde também veio a falecer, no ano de 2006. Também será o nome do filme que em outubro terá sua primeira exibição, no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro.

Enquanto o filme ainda não tem data para estrear nos cinemas, na internet dia a dia aumentam as visualizações da fanpage e de seu primeiro trailer já divulgado. Dificilmente poderia ser diferente: Yoñlu e a internet sempre estiveram muito próximos, quase interconectados. Foi nela que ele primeiro divulgou suas músicas, alcançando o mundo inteiro desde o seu quarto de dormir, exatamente como fazem há bastante tempo já, e no mundo inteiro, milhões de adolescentes.

Há uma década, na era pré smartphone e primórdios das redes sociais, não era tarefa das mais simples encontrar-se grupos de interesse mútuo, porém, em fóruns, blogues e grupos de discussão se podia acessar com relativa facilidade e anonimato quem quisesse compartilhar músicas, opiniões e conversas sobre quaisquer assuntos, inclusive formas de tirar a própria vida. Este território sem limites precisos ou censura, a internet, foi o único palco que o compositor e cantor Yoñlu conheceu. Pelo destino que deu a sua breve vida, foi ali também que ao longo de uma década se tornou uma espécie de mito, consagrado principalmente pelos seus contemporâneos adolescentes.

Tão logo a notícia de sua morte se espalhou, sua história foi ganhando visibilidade para além da web e reportagens na mídia impressa começaram a surgir, diferenciando-se do que costuma acontecer nos suicídios de um modo geral. No caso dele, não parecia tratar-se de mais um número entre as estatísticas, mas da morte precoce de uma mente muito criativa e com enorme talento para a música. E também porque trazia consigo uma mensagem ainda hoje complexa a respeito de um potencial um tanto quanto obscuro da web: o de, além de encerrar por muito tempo as pessoas em uma irresistível sensação de imensidão e liberdade, chocá-las de encontro a uma impessoalidade capaz de compartilhar ideias tão radicais como, por exemplo, o suicídio.

Ainda lembro-me do começo do ano de 2008 como o ano em que conheci a adaptação de Sean Penn para o cinema do livro de Jon Krakauer, Na natureza selvagem. Na verdade, conheci um pouco antes a trilha sonora que Eddie Vedder, do Pearl Jam, compôs para o filme e suas baladas folk. As letras melancólicas tratavam de um personagem real, Chris McCandless, um adolescente em franco processo de desadaptação que aos 22 anos, em 1990, resolve isolar-se da civilização e ir de encontro à solidão de uma floresta no Alasca, para lá viver por uns tempos. Quanto tempo, porém, ele teria desejado ficar mesmo por lá, isolado de todos, é algo que nunca se poderá saber ao certo. Chris, que também adotava um pseudônimo e referia a si mesmo como um certo Alex Supertramp, acabou morrendo completamente só, dentro de um ônibus, sem a ajuda de ninguém, vítima de inanição ou um possível envenenamento decorrente da ingestão de sementes tóxicas.

Naquele mesmo período, em uma revista de circulação nacional, li pela primeira vez a respeito do suicídio de Yoñlu. Retratado como um adolescente que perdia a vida após a realização de um meticuloso procedimento todo obtido e reportado na internet, ele deixara uma coleção de canções que entreviam seu talento para compor e aspectos psicológicos de sua abreviada trajetória. Logo após isso fui conhecer a sua música, disponível em registros caseiros aos quais se dedicava intensamente. Na escrivaninha do quarto onde compunha suas músicas, encontrou-se um disco com suas gravações e explicações deixadas aos pais. Além dos registros no CD, Yoñlu deixara gravados em seu computador algo em torno de cem canções. Mais tarde, parte delas seria transformada em dois discos, um produzido no Brasil e outro nos EUA, pelo selo Luaka Bop, de David Byrne dos Talking Heads.

Assim foi que as duas histórias (e músicas) se misturaram por algum tempo em minha mente. Dois adolescentes, duas espécies distintas de morte, mas duas perdas de garotos excepcionalmente inteligentes numa época da vida em que excessos (e sentir em excesso) são muito comuns, mas o único que não se deveria aceitar tão tranquilamente é o de que justamente pessoas com um potencial tremendo deixem, de repente, de acreditar que ao menos vale a pena continuar vivo.

Sempre pensei na adolescência como o momento da vida em que o tempo perde toda a linearidade e, todavia, não se pode saber ao certo quando aquilo vai acabar nem quando será possível chegar ao próximo platô, ou o que se costuma denominar por “maturidade”. Importa dizer que para muitos adolescentes este pode tratar-se de um processo muito difícil e, se o entorno não colabora, muitas vezes a sensação subjacente é a de aprisionamento, isolamento. E, diga-se de passagem, um isolamento que nem a rede das redes costuma ser capaz de romper ou ainda que, de outro modo, muitas vezes parece colaborar ainda mais em certo confinamento, dado que na internet se configura uma espécie de duplo do mundo real em suas muitas representações, declarações e uma sorte infinita de contatos indiretos e impessoais. Mesmo assim, sob o argumento de ajudar as pessoas até onde seja possível, a rede social mais utilizada no mundo, o Facebook, tem como política permitir aos seus usuários a transmissão ao vivo de tentativas de automutilação ou suicídio. Pelo menos esta é a informação obtida e que foi divulgada pelo jornal britânico The Guardian em junho passado.

A implicação de adolescentes em um mundo em que a representação da morte é banalizada e até certo ponto erotizada, como recentemente alertou na Folha de São Paulo o psicanalista Contardo Calligaris, não é exatamente uma novidade. Desde a publicação de Werther, de Goethe, em 1774, teme-se pela replicação entre o público juvenil do drama suicida e as ideias românticas, afinal, são ideias que não podem simplesmente extirpar-se da cultura. Na realidade, são ideias e valores que estão integrados a ela e nela são recicladas periodicamente. Seja na literatura, no cinema ou na música, não poderia haver medida mais infrutífera ou contraproducente do que limitar-se o acesso do público, ainda mais o adolescente, do que se pode obter na internet. Felizmente, em anos recentes, se tem procurado outras condutas e alternativas, como o esforço educativo e campanhas de esclarecimento como as que puderam ser vistas na campanha de prevenção ao suicídio Setembro Amarelo.

A ocorrência suicida entre a população adolescente parece não decorrer de mera insegurança ou exclusivamente pela falta de perspectivas econômicas, ainda que tudo isso tenha seu peso na situação de vida de qualquer pessoa. Talvez a situação seja um pouco mais complicada que isso e, para pessoas que já não são mais crianças e ainda não completamente adultas, implica muitas vezes em sentir-se e saber-se impotente em dar conta de um legado ao qual não deram causa e nunca estiveram integrados ativamente, mas que, de repente, é todo o mundo que há para existir. Como lidar com tudo isso não é algo simples ou que se resolva com simples recomendações, isto é, trata-se de um tema socialmente tenso, eu só consigo ficar muito curioso em saber como o filme que conta a história de Yoñlu irá tratar disso tudo, tendo-se em vista um ano que começou com o furor em torno a 13 Reasons Why e logo a seguir entrou em pânico com a disseminação do game de automutilação “a baleia azul”.

Se Hannah Baker, a personagem central de 13 Reasons Why causou apreensão por um suicídio decorrente da violência sexual e do bullying por que passou, nesta história não há propriamente um incômodo externo, mas um interno, e por isso mesmo de mais difícil abordagem. Não que as causas de diferentes mortes possam ser comparadas, mas enquanto é relativamente simples localizar num personagem um elemento externo, uma razão prática, do outro permanece uma nebulosa associação com a depressão e uma dificuldade de abordar-se adequadamente – e em tempo hábil – as dificuldades de natureza psicológica que muitas vezes transformam adolescentes em alvos potenciais de ideações suicidas. Seja como for, neste terreno não se tem o direito de ser leviano nem por um instante, dado que as estatísticas apontam para números crescentes entre a população dessa faixa etária. Por aqui e em todo o mundo.

Embora muitas vezes a associação entre depressão e suicídio pareça a mais óbvia, é relevante pensar que outros elementos possam colaborar tanto para o desfecho quanto para que se aventem medidas para que se o evite. No livro O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão, o jornalista e escritor norte-americano Andrew Solomon destaca que depressão e suicídio nem sempre fazem uma equação indissociável. Ele diz ainda que, embora apareçam juntos muitas vezes, a ideia e pulsão de morte são inerentes à vida e que ambas as situações têm vida própria e, portanto, generalizações deveriam ser evitadas a fim de não estigmatizar-se ainda mais as pessoas. Para a psicanalista Julia Kristeva, autora de O sol negro: depressão e melancolia, mesmo a pessoa mais deprimida debate-se com o afeto e sua expressão. Para ela, talvez seja justamente pelo afeto, pela recuperação da saúde afetiva, que passe muito do que pode ser feito em prol das pessoas, especialmente os adolescentes, antes de qualquer outro desfecho.

Até que se possa saber mais e chegue em definitivo aos cinemas, não se pode dizer como será recebido Yoñlu, o filme. Antes mesmo de seu lançamento, entretanto, já é possível perceber o quanto tem despertado o interesse. Seja como for, o inegável é que cada pessoa é única e tem sua história, seu percurso inigualável e sua forma peculiar de lidar com a informação. Por enquanto, não se pode saber se o filme dará mais eco ao que nunca se entenderá por completo, isto é, a morte em si mesma, ou então da vida e do que se pode fazer por ela. Como uma está imbricada na outra e compõem espontaneamente o drama humano, não se trata de simples desmistificação, mas de uma perspectiva a qual todos estão vulneráveis e para a qual, ao mesmo tempo, ninguém nunca está preparado.

Mito que é cada vez mais decomposto, o suicídio continua assombrando e fascinando as pessoas justamente porque, dos gestos humanos, talvez seja o que mais desestabiliza o mundo como ele é, isto é, o mundo de quem fica. Tudo ao que se confere apreço, que está imbuído de valor e pelo que se preza, em um momento apenas se evapora diante de quem confere sentido ao mundo e lhe dá significação. Se o adolescente está especialmente vulnerável ao suicídio, assim como também a outras formas de violência, e isso em qualquer classe social ou geografia, seu gesto fala não apenas de si, mas de todo o seu entorno afetivo e social. É preciso falar sobre suicídio, sem dúvida, mas também do que isso importa à família, à escola, à sociedade e, já que não se restringe exclusivamente aos adolescentes, aos sentimentos de todas as pessoas.

* * *

Há quase duas décadas atrás, no ano de 2000, a OMS publicava um guia voltado aos profissionais da mídia na intenção de instruir as abordagens e notícias sobre o suicídio. Em linhas gerais, as recomendações giravam em torno de evitar-se o detalhamento de métodos, certa tendência à espetacularização, associações diretas com outros transtornos mentais, alusões que possa levar a uma estigmatização das pessoas e suas famílias, bem como destacar-se informações alternativas e fontes de informação confiáveis sobre o assunto.

Seguindo o exemplo da OMS, há cerca de uma década o governo federal, através do Ministério da Saúde, publicou as Diretrizes Nacionais para Prevenção ao Suicídio, oferecendo indicações a respeito da necessidade de ações de prevenção ao suicídio e de sua caracterização como um problema de saúde pública. Apenas desde 2004 a OMS passou a publicar relatório exclusivo sobre o tema. Dois anos atrás, em 2015, foi instituído no Brasil o “Setembro Amarelo”, iniciativa conjunta do Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) dedicada a reflexão e medidas de enfrentamento ao suicídio.

Na última semana (21/09), o Ministério da Saúde divulgou o primeiro Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio no Brasil, contendo dados obtidos entre 2011 e 2015. Importante destacar que a interpretação cuidadosa de estatísticas, o evitamento de generalizações e comparações geográficas, recomendações publicadas pela OMS no longínquo ano de 2000, parecem ainda muito distantes de serem observadas.

 

Os links abaixo remetem aos conteúdos publicados em alguns meios de comunicação sobre a publicação do boletim:

Mapa dos suicídios no Brasil coloca Rio Grande do Sul em alerta (Zero Hora)

Brasil registra uma tentativa de suicídio por hora, diz boletim inédito (Correio Braziliense)

Núcleo identifica uma tentativa de suicídio a cada 10 horas na Capital

Suicídio é a quarta maior causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos (Agência Brasil)

Brasil registra 30 suicídios por dia; problema afeta mais idosos e índios (Folha de São Paulo)

Cerca de 11 mil pessoas tiram a própria vida todos os anos no Brasil… (UOL)

Suicídios aumentam 12% em 4 anos e preocupam Ministério da Saúde (Estadão)

 

Fontes e links de apoio:

CVV – Centro de Valorização da Vida (Tel: 188)

FIOCRUZ – Especial sobre suicídio

Setembro Amarelo

Suicídio e vida

Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio

Befrienders

A estropiada identidade do gaúcho

Há no populário rio-grandense um termo que muitas vezes me parece em tudo resumitivo do que parece ser ainda hoje o grande drama identitário do povo gaúcho: trata-se da palavra “estropiado”. Primeiro, pelo seu cunho histórico, tendo em vista que o nascimento das primeiras povoações daqui parece ter ocorrido a partir das tropas empreendidas ao longo desta precursora das rodovias que até os dias atuais riscam o mapa físico do estado. Não das tropas de animais em si mesmo, mas do encontro interpessoal travado entre os nativos indígenas e colonizadores, principalmente paulistas comerciantes ou desertores militares. Deste encontro vis-à-vis ocorrido às margens e ao longo do Caminho das Tropas originaram-se, obviamente não de uma tacada apenas, as primeiras vilas e habitantes do estado. Também dessa época colonial ou pouco depois disso, o termo que deu origem ao nosso gentílico: o gaúcho.

Não parece ser um erro tão grosseiro apresentar a ideia de que tanto o gaúcho (o tipo humano, não o gentílico) quanto o Rio Grande do Sul tenham tido origem num projeto político quase imponderável: o da captura do gado alçado ou chimarrão, o comércio dos bens daí extraídos e a defesa da fronteira contra os insistentes espanhóis. Parecem ambos nascer, dentro dessa perspectiva, de uma necessidade pouco pacífica, de um ir e vir, e de um povo que, debalde isso tudo, foi fixando aqui e ali os limites primeiros do estado, depois autoproclamada república, logo a seguir estado novamente.

Este o sentido linguístico do termo estropiado, aquele que se desviou da tropa; tropa, a reunião de seres em marcha de um lugar a outro no espaço físico. Há alguns sentidos mais, porém, para o uso do termo: o de cunho militar, isto é, de um agrupamento de indivíduos em pé de guerra e constantemente em marcha, essencialmente belicoso; o de cunho literal, que diz daquele sujeito inutilizado, desfigurado, inválido; outro ainda de cunho figurado ou literário, de quem se aparta dos demais não voluntariamente, mas por cansaço, por machucados, por tácita impossibilidade. Já para as questões identitárias, a convergência de todos esses significados parece mesmo resultar no gaúcho conforme a acepção literária, ou seja, ao final de tudo há o errante e o espaço da errância, o gaúcho, o gaudério, o sem lugar.

No mundo, talvez não haja quem mais se debruce tanto sobre si mesmo, quanto nós, gaúchos. Esta preocupação para lá de antropológica, aliás, tem rendido ao longo dos anos muito bons resultados editoriais. Bastaria lembrar dos dois volumes de coletâneas “Nós, os gaúchos”, organizados pelos professores Sergius Gonzaga e Luis Augusto Fischer, editados pela Ed. da Universidade (UFRGS), ou de seus continuadores “Nós, os ítalo-gaúchos”, “Nós, os teuto-gaúchos” e “Nós, os afro-gaúchos”, publicados pela mesma editora em 1996. Mais recentemente, em realização conjunta da UFRGS com a Appoa e reunindo dezenas de conferências realizadas em 2015, publicou-se o volume “NósOutros gaúchos: as identidades dos gaúchos em debate interdisciplinar”. A bem da verdade, há uma ampla literatura a respeito de muitas questões sobre o secular problema identitário no Rio Grande do Sul, apenas que os citados resumem hipóteses que de certo modo atualizam os estudos anteriores, sejam literários, historiográficos ou culturais amplo senso. Isso tudo, todavia, parece sempre pouco guiar a quem se interessa e acaba fazendo esta pergunta ao mesmo tempo banal e cabal: quem afinal somos, os gaúchos?

A dificuldade principal em responder à indagação reside, talvez, em que ela honestamente poderia ser respondida somente por uma série de outras perguntas. Uma série interminável, contextual, que inviabilizaria até que, nesta tentativa, se pudesse chegar a um mínimo termo satisfatório. Sem dúvida, a qualquer um parece existir um apelo quase místico ao termo gaúcho. Se o gentílico por um lado denota um tipo humano indubitável, trajado em toda sua indumentária, por outro descaracteriza e enfumaça por completo todos aqueles não suportados nessa representação. A estes, gaúchos não-gaúchos, resta apenas uma como a daqueles gaúchos mais antigos, históricos e literários: são estropiados da representação, ocorrem fora da cultura, quase alijados de qualquer identidade.

Por outro lado, caso se respondesse ainda àquela mesma pergunta “quem somos?” com o que parece mais óbvio, a resposta correta deveria ser nada mais nada menos que “todos”, mesmo que com isso fosse criado o caldo de cultura para algo como uma nova conflagração. Nada do que não estejamos acostumados. E embora a reivindicação do termo, da palavra-chave, ocorra bem mais por quem esteja longe de sua paisagem original, a região da campanha rio-grandense, é possível ou pelo menos poético pensar que a ideação do gentílico de certo modo foi agindo através dos tempos como um tipo de tentativa inconsciente de auto-pacificação. Em que pese a caracterização estereotipada, desde que pelo menos nascidos aqui, todos gaúchos são. Resolve-se ao menos nominalmente a situação. Não obstante, é difícil imaginar que os interessados deem-se por satisfeitos. A generalização, como costuma ocorrer com todas elas, não pode atender a todas as particularidades e anseios e o que ocorre a partir disso é mais ou menos o que economista indiano Amartya Sen chamou, no seu “Identidade e violência”, de deturpação.

Mais aferrados que desunidos, é curioso notar que tem sido difícil para nós, gaúchos, abrirmos mão mais até do que do uso vocabular do gaúcho, mas de sua poderosa simbologia. Não estou pensando aqui na esterotipia da bravura e da valentia, mas apenas no que às vezes me parece ser uma espécie de desterro coletivo ao qual, curiosamente, nos apegamos sobremaneira. Como se não precisássemos ser de todo brasileiros, mas nem por hipótese gostaríamos de que nos associassem em definitivo aos hermanos castelhanos. Como se fosse mesmo rançoso e difícil responder às troças infinitas sobre a masculinidade e provincianismo (como se fossemos os únicos no mundo afetados por essa moléstia maligna) e quiséssemos acessar o cosmopolitismo bem como somos e com nossos muitos sotaques e modos de dizer.

Pois é bem essa disputa e dilema que viemos travando às vezes silenciosamente, às vezes mais ruidosamente. Em um de seus últimos trabalhos, o antropólogo norte-americano Clifford Geertz assinalava que “cosmopolitismo e provincianismo já não se opõe; ligam-se e se reforçam. À medida que aumenta um, aumenta o outro”. Nada disso, porém, nos acalma por completo. E ainda que se discuta, sobretudos no mês farroupilha, se somos mais silenciosos do que barulhentos, milongueiros ou fandangueiros, serranos ou fronteiriços, de chiripá, bombacha ou jeans, índio vago ou bochincheiro, se a pé ou a cavalo, china, prenda ou tão simplesmente mulher, interessa saber que, sendo tudo isso bom ou ruim, temos culpa no que somos, isto é, sem dúvida alguma fomos nós que nos fizemos assim. Temos, portanto, o dever de minimamente aturarmos uns aos outros. O estranho agradável de tudo o mais é que, embora ainda precisemos pensar um pouco antes de arriscar a dizer quem e como somos, de um modo ou de outro preferimos que, por via das dúvidas, essa dúvida permaneça exclusivamente nossa. E como diria não um intelectual, mas a voz do mais incauto pensador popular, o passofundense Teixeirinha, é não nos “pisar no pala” e estamos conversados.

Parece até mentira

Sei que muitos que me conhecem (ou julgam conhecer) me tomam por alarmista, talvez até um arauto preferencial de más notícias. É uma injustiça pensarem isso de mim. Sou um otimista quase doentio. E mesmo quando não há possibilidade alguma, eu luto talvez a luta mais infame de todas, que é a de mesmo na adversidade manter viva alguma esperança. Só o que não me permito é ser lunático, este é meu limite, especialmente quando estão em questão a vida e a realidade dos outros.

De vez em quando, entretanto, minha esperança recebe reforços. E embora eu procure tentar ser parcimonioso ao falar sobre mim, hoje me deu vontade de contar sobre um reforço desses, que se passou comigo mesmo, na realidade. Eu diria até que foi tão inédito e imprevisto que fiquei desarmado na situação, durante o dia inteiro, e só agora, com o dia já acabando, caiu a ficha do que me aconteceu e não sei se eu tanto havia esperado por ouvir uma coisa dessas, mas na hora a porção mais racional da minha mente computou a coisa toda como se fosse absolutamente lógica e natural. No fundo, inconscientemente, percebi que estivera esperando ouvir (trata-se de um diálogo que ouvi furtivamente) aquela conversa por anos a fio. Na verdade, parece até mentira, uma década já…

Imagem editada que mostra um soldado subindo a escada de um helicóptero sobre o mar do qual emerge uma baleia orca em sua direção. A imagem foi por muito tempo alvo de debate sobre edição de imagens e divulgação de imagens falsas na internet.

Tudo se passou hoje próximo ao meio-dia, pela manhã. Fui à escola dos meus filhos para resolver uma burocracia sobre matrículas e presenciei sem querer a conversa de uma família que visitava a escola para conhecê-la pessoalmente com a orientadora pedagógica, nos corredores que dão ao pátio interno. Este é um ritual que conheço bem e que, mesmo que somente nesse último ano tenha vivido relativos momentos de tranquilidade, duvido que as pessoas que não têm filhos com deficiência consigam imaginar em que tormento isso pode se tornar, quando deveria ser o mais trivial dos gestos para qualquer cidadão e sua família.

Bem, feito o esclarecimento, continuo meu relato. A conversa não me chamaria a atenção, provavelmente (não, eu não sou fuxiqueiro nem indiscreto), se no meio da charla eu não tivesse ouvido o nome do meu filho. Bem, não que ele me dê grandes problemas disciplinares (o meu anjinho…), mas os alertas paternais soaram instantaneamente, por via das dúvidas. O que diabos estaria fazendo o nome do meu filho naquela prosa tão animada?

Então foi que ouvi o que me pareceu por um instante ser mesmo o óbvio a ser dito, que foi mais ou menos assim: “Que ótimo saber disso! Nós queremos mesmo uma escola com inclusão! Com pessoas de todo jeito! É isso que queremos para o nosso filho, esse convívio, porque isso conta muito para nós! Deveriam todas ser assim!” Parece óbvio se você tem também um filho com deficiência, não é? Mas e se não tem? Pois este era justamente o caso! Eu estava ouvindo a conversa de uma família de um aluno sem deficiência que gostaria de matricular seu filho numa escola onde houvesse, naturalmente, crianças com deficiência. Não era uma realidade imprevista que lhes estava sendo apresentada, era o desejo deles, de sua livre e espontânea vontade. E eles declaravam que se importavam com isso, que isso pesaria na sua avaliação.

Nada mais natural, não é verdade? Deveria, mas, sendo realista, não mesmo. Aqui também, parece até mentira… Não sei porque não saí atrás da família e me abracei neles e lhes dei beijos e abraços, mas algo do meu temperamento me conteve e eu, ali, no calor do momento, não entendi tão bem quanto descrevo agora do que se tratava. A ficha custou a cair. Falta de hábito dá nisso, não é verdade?

Não que isso justifique um denuncismo quase obsessivo que se vê por toda a parte, sobretudo redes sociais, mas a verdade é que para a infelicidade de todos, não exclusivamente a minha, há um cenário que tem favorecido sobremaneira o surgimento abundante de más notícias a respeito de situações que se na lei estão resolvidas, na prática continuam boiando no amplo mar da precariedade. É com o que temos nos virado como sociedade.

Pois bem, diante de tudo isso não seria eu a menosprezar os sofrimentos autênticos de ninguém e, apesar de ser obrigado a concordar com a máxima que diz que o mal alheio pesa como um fio de cabelo, somente uma criatura sem alma usaria de seu direito de livre expressar para tripudiar do sofrimento alheio, embora um recente caso ocorrido na vizinha Argentina sobre o qual escrevi algumas poucas linhas me mostre que provavelmente, sim, existam bem mais de uma alma assim.

Não sei o porquê (isso é retórica, sei muito bem) mas sinto como agressões não apenas aquelas situações que ocorrem ao arrepio da lei, mas também as que ocorrem à revelia do mínimo senso de humanidade. A mim, particularmente, a indiferença aos problemas dos demais também me passa uma potentíssima sensação de agressão. Ainda que de um teor menos violento, trata-se de uma outra espécie de violência que, se no âmbito moral individual pode ser considerada inofensiva, institucionalmente ela costuma encobrir muitas vezes casos de covardia política ou até mesmo omissão criminosa. Não gosto nem um pouco, mas acontece, e em volume muito maior do que eu desejaria. E também não tenho admiração alguma por sentimentos de compadecimento e piedade; aliás, duvido muito de que alguém goste de ser objeto deles.

Enfim, entendo que às vezes não há para as pessoas soluções em vista e, assim, há que se ter bom senso para não julgar os demais desconsiderando o seu contexto particular. Embora isso não costume vir nos manuais de empatia, trata-se de não prejudicar os interessados da atenção que lhes alcança e muitas vezes é premente, fundamental. Às vezes, a única efetivamente possível. A isso se chama civilidade. Sou avesso, portanto, a qualquer comportamento à Maria Antonieta. Pelo menos no terreno inclusivo, sejamos honestos, não há tantos brioches assim a oferecer. Há que ser compreensivo com situações duras, excludentes e até mesmo ilegais, que ainda subsistem porque, afinal, o processo costuma seguir mais o percurso acidentado da realidade que o terreno argiloso da idealização.

O fato dentre os fatos é que, se dependemos muito mais dos outros do que dispomos muitas vezes de nossa própria força, acho justo que, ao lado de tantas denúncias, abusos e violências também se possa oferecer um pouco de reforço para quem porventura estiver precisando dele. Se me engrandeço por isso, por seu meu filho o exemplo? É claro que, por isso especificamente, não. E nem se trata disso. Para mim, pessoalmente, muitas vezes tem sido difícil romper essa contenção a que nos amarra a realidade social, e também a individual (acredito que como todo mundo), mas, como ouvi quase sem querer o que ouvi, apenas quis dar eco a esse empurrão que recebi sem nem entender direito a razão… Se alguém que tiver lido até aqui estivesse precisando ouvir isso também, saiba que é real, não é ficção. Como li há um tempo no blogue do Paratodos, em texto da Fabiana Ribeiro, é muito bom às vezes poder ouvir um “Vai, meteoro” desses. Em eventos inúmeros a que fui e em palestras, já ouvi coisas das mais fantásticas e singelas sobre inclusão, mas nunca como essa, que a gente recebe sem precisar nem pedir, por acaso, de graça, a troco de nada.

Como assim celebrar a exclusão?

Vem da vizinha Argentina uma notícia forte candidata a ser, pelo menos no que toca ao direito fundamental à educação, campeoníssima no quesito crueldade do ano. Fartamente reproduzida nos periódicos de lá, foi o El Pais Brasil que a trouxe para cá ao contar em não muitas linhas a história de um aluno diagnosticado com a síndrome de Asperger que foi removido do convívio de seus colegas em decorrência de mobilização contrária a sua presença em sala de aula.

Sim, não há erro de leitura aqui: a mobilização reportada foi realmente empreendida por familiares desejosos da remoção da criança para outra sala de aula, uma que a mantivesse longe dos “nuestros“, que assim finalmente estariam “aliviados” daquele convívio.

Também não há erro de leitura algum nas comemorações dos familiares em sua campanha exitosa. Sim, há exclamações, euforia e muitos emojis esfuziantes pelo obtido em mensagens que foram trocadas em grupos de WhatsApp pelos sequiosos progenitores envolvidos, vazadas e tornadas públicas logo a seguir. Foi o bastante para o fato vir a tornar-se polêmica nacional e até mesmo a atravessar fronteiras, decerto por ser uma espécie de situação até certo ponto de conhecimento universal.

Alunos afastados, convidados a procurar outros estabelecimentos, encaminhados para tratamentos e instituições ou simplesmente expulsos não consistem novidade alguma por aqui, no Brasil. Bastaria lançar a pergunta em aberto “Quem já passou por isso ou semelhante?” e choveriam casos e mais casos escabrosos de ofensa aos direitos da criança, aos direitos humanos de um modo geral e até mesmo de violências mal reportadas, mal conduzidas e muitas vezes simplesmente deixadas por isso mesmo, tal o desamparo que costuma atingir quem atravessa a situação ou situações semelhantes. Isso no âmbito da educação pública e privada, frise-se bem. A novidade aqui, neste caso, é poder verificar-se sem sombra de dúvida que isso muitas vezes ocorre para o regozijo dos demais e isto é por si só bestificante, paralisante, demolidor.

É preciso aceitar, em face disso, que boa parte do esforço em prol de qualificar as relações humanas na escola tem sido literalmente em vão. E isso se uma pessoa apenas comemorasse a exclusão de um aluno com autismo ou outra deficiência qualquer. Quando isso atinge uma comunidade, é de pensar que muito mais vai mal, a começar pela noção de que se pode dispor dos direitos individuais em prol do suposto desejo da maioria. Conflito este que é absurdo e falacioso, vale dizer.

Não há um desejo democrático quando ele visa suprimir os direitos mesmo que sejam de uma pessoa apenas. Não há legitimidade alguma neste pleito de exclusão ou, pelo menos, se há, tem a mesma legitimidade do que o seu próprio direito à educação. Esta é a base do estabelecimento dos direitos humanos e a democracia moderna se adapta a isto, jamais o pode suprimir, porque então haveria um regresso a um justificado estado de supressão de direitos. Quantos outros anseios da maioria se justificariam da mesma forma partindo-se dessa conduta? Ou melhor, que qualidade de anseios? Que projeto de sociedade estaria sendo defendido e efetivado dentro desse leque de hipóteses educacionais e sociais?

Está muito certo que não se possa controlar o que move o desejo e a felicidade de ninguém. Não é um processo fácil mesmo a mudança de mentalidades, nunca foi. E o exemplo de tragédias antigas nunca brecou por si só o surgimento de outras mais novas, ou renovadas. É preciso, portanto, cuidar dos direitos humanos a fim de que mesmo por desejos rumorosos não se dê causa a qualquer tipo de violência, abuso ou ilegalidade.

Desde que ocorra sem prejuízo de nenhuma espécie a quem quer que seja, não deveria custar muito imaginar soluções de outra ordem tanto no âmbito educacional quanto legal quando se vai resolver conflitos e é bastante normal que situações assim confluam para os espaços públicos, como por exemplo a escola. É duro admitir que a opção mais fácil tem sido esta mesmo: dar oportunidade ao esvaziamento do conflito, ao seu apagamento mesmo que custe a exclusão de um ou outro aluno, afinal isolando-se um a um parecem mesmo que são pouco significativos, mas não são. Nem um é.

Neste caso dos “hermanos“, o que é entristecedor é que se percebe o quão poucos notam a dimensão da violência que perpetram. E que fiquem felizes e extasiados pelo sucesso da violência é quase um espancamento coletivo que fazem, ainda que invoquem a privacidade do diálogo e a casuística do fato em si. Que a educação (amplo senso) das crianças não vai bem não é exatamente uma novidade, mas ocasiões assim são esclarecedoras a respeito de pelo menos parte da origem do “problema”. Bem, pelo menos nesse caso pode-se admitir com boa dose de franqueza que a educação (amplo senso) dos pais também não está lá essas coisas.

Heterogêneses de Björk

Dos músicos em geral é costume dizer que estão preparando novos discos, mesmo que em boa parte dos casos trate-se, a bem da verdade, em coleções de singles que nem sempre guardam entre si uma sonoridade comum ou identidade. Já quando se fala que é Björk quem está preparando algo novo, não se pode pensar apenas num disco, deve-se alargar de imediato a expectativa sobre esse “algo”, além de procurar-se não classificá-lo prematuramente. Pois Björk está lançando seu novo algo em forma de álbum: é o décimo primeiro de sua discografia. Mesmo sem contar ainda com nome ou capa, a islandesa o anunciou recentemente, no começo de agosto, em suas redes sociais.

Desde o último equinócio de setembro (21/09/2016), ao mesmo tempo em que se preparava para iniciar na Somerset House, em Londres, uma exposição imersiva em realidade virtual de parte do seu repertório, entre 1 e 23 de outubro, Björk subiu ao palco do Royal Albert Hall, também em Londres, para o que talvez fosse melhor chamado por “aparição”, ao invés de um show. Foi quando começou a desenhar-se algumas das sonoridades que estão prestes a materializar-se neste seu novo álbum, ainda inominado.

Ali, como uma sacerdotisa que há tempos logrou por meio dos seus experimentos conceituais unir a um tempo só a mais avançada tecnologia e a mais recôndita biologia, usando uma máscara luminosa e vestindo o que pareceu a Neil McCormick, do Telegraph, uma flor ou uma anêmona marinha, ela cantou músicas do seu mais recente disco, Vulnicura (2015) e também apresentou inéditas acompanhada apenas pela orquestra de cordas “Aurora”, sem mais artefatos tecnológicos. Em Vulnicura, disco no qual registrou os momentos derradeiros de seu relacionamento com o cineasta e artista plástico Matthew Barney, há quase uma liturgia sentimental dando conta de uma experiência demasiadamente humana que colocou em evidência, bem mais que nos trabalhos anteriores, a pessoalidade intrínseca da islandesa. É como se a experiência tivesse minado um pouco do apelo quase extraterreno da estética da cantora e de sua obra.

Neste novo disco, por declarações em entrevistas e em suas redes sociais, Björk parece que investirá em sonoridades mais amenas e introspectivas, reflexo direto do seu novo momento de vida. Ainda assim, ela tem dito que seu processo criativo continua basicamente o mesmo, nascendo de longas caminhadas que empreende nas montanhas da Islândia, sua terra natal. Certo que, por isso mesmo, é possível contar-se desde já com melodias decompostas e tão estranhamente eficazes quanto as de seus discos anteriores. Também não se deve imaginar que ela repetirá no registro de estúdio a fórmula acústica de suas aparições ao vivo. Aliás, é dessa síntese ambiciosa entre a natureza mais intratável e a tecnologia mais virtual que ela consolidou ao longo das últimas décadas a sua peculiaridade sonora: insuportável para muitos e objeto de veneração para outros tantos.

Não é nenhuma novidade para seus admiradores diletos encontrar na paisagem sonora proposta por Björk argumentos comunicativos ao mesmo tempo áridos e biológicos. Eles estão presentes desde seus tempos mais ligados ao acid e ao trip-hop da banda Sugarcubes e que vão se encontrar, mais tarde, com o que se pode chamar de reestreia da cantora. É com Vespertine (2001) que ela finalmente consolida o casamento entre a sonoridade esdrúxula dos cânticos viscerais do folclore nórdico e as vertentes tecnológicas da música eletrônica no nascente século XXI, emplacando singles (e escândalos) com os clipes de Cocoon e Pagan Poetry (em função de cenas de nudez e de uma possível conotação sexual). Neste mesmo ano, ela e Matthew tiveram a filha Isadora, cuja guarda vêm sendo disputada pelo ex-casal desde a separação, em 2013.

Por outro lado, entre seus muitos detratores, há quem acuse a cantora de estar sempre buscando os holofotes da mídia. Isso principalmente desde que, na premiação do Oscar em 2001, surgiu no tapete vermelho trajando um vestido que mimetizava um cisne cujo longo pescoço enlaçava o seu. Também o uso de uma panaceia eletrônica de seus áudios e vídeos é motivo de recorrente simplificação, debitando-se a isso o que poderia ser uma clausura de estilo. Talvez por isso mesmo, para contrariar seus críticos, ela eventualmente lance-se em aparições inteiramente acústicas, como esta recente no Royal Albert Hall. Se há, de fato, uma fetichização do tecnológico em Björk, também é inegável que seu uso não é casual, mas cumpre diversos objetivos estéticos, como a fuga ao simples e a constituição de uma performance contínua, na qual às vezes ela consegue situar-se no futuro insondável, ao invés de simplesmente adotar a repetição de motivos desgastados e bem conhecidos pelo pop.

Nessa cruzada, muitas tecnologias passaram pelo seu olhar e pela sua manipulação. Desde filmagens obtidas no interior do seu corpo, como em Mouth Mantra, até a extensa materialização espacial de Oceania  sempre com o apoio de referências experimentais, como a poesia do norte-americano E. E. Cummings ou músicos da vanguarda hi-tech, ela agora parece querer ir desaguar seu arsenal criativo no terreno da realidade virtual. Na sua exposição, atualmente em Londres e que deve percorrer cidades da Europa e de outras partes do mundo, óculos de VR são distribuídos aos visitantes que são convidados a imergir hipersensorialmente no seu universo criativo. E, para além disso tudo, há sempre a sua musicalidade inconfundível.

Ao contrário de um tempo em que o avanço tecnológico é um tanto temido por ainda inconcebíveis que pareçam suas possibilidades, o gesto de atirar-se a ele sem freios vem mesmo conferindo cada vez mais a Björk o status de sacerdotisa da tekhnè. Como ela não o recusa, pelo contrário, consegue sempre renascer e ressurgir dentro dessa perspectiva, é como se ela concretizasse o que Pierre Levy chamou no seu Cibercultura de “heterogênese virtual”.

Como poucos outros artistas parecem conseguir, ela vem mantendo em paralelo as duas vidas, como se pertencendo a dois mundos, e conseguindo trazer ao insípido mundo dos bits tantos as dores humanas de uma separação quanto a certeza de que continuaremos sendo sempre seres biológicos. Este talvez seja o grande casamento que ela tem celebrado ao longo de sua prolífica e premiada carreira (além de inúmeros prêmios musicais, ela levou a Palma de Ouro de melhor atriz no ano de 2000, por sua atuação no filme Dançando no Escuro, de Lars Von Trier): o de uma natureza incorrigível e o de uma tecnologia sempre insatisfatória, daí sua permanente renovação.

Ainda que Björk não possa ser ela mesma a síntese dessa união, e é provável que nunca ninguém venha a conseguir isso de forma completa, ela deverá ser ainda por muito tempo o seu maior ícone. É de conferir o que seu próximo disco tem a dizer sobre isso. Como emissária de um tempo ainda mal compreendido e sem contornos precisos, não é necessário a ninguém ser um seu acólito para entender a relevância do seu trabalho para a cultura da virada do milênio, afinal poucos (enquanto muitos entraram em loop) como ela paginaram tão decididamente a inflexão que a tecnologia vem determinando ao mundo contemporâneo e, mesmo que pareça paradoxal, de forma cada vez mais indelével.

Agua escondida

Agua Escondida, sem acento, é o nome de um distrito da província de Mendoza, norte da Argentina, quase fronteira com o Chile, beirando o leste da Cordilheira dos Andes. É também o nome de uma zamba composta por uma mulher, Antonieta Paula Pepin Fitzpatrick, a Nenette, esposa do compositor Héctor Roberto Chavero Aranburu, mais conhecido pelo pseudônimo Atahualpa Yupanqui.

Numa época em que a presença feminina na música argentina, especialmente a de cunho folclórico, era impensável, a pianista e compositora Paula Pepin dividiu com o marido inúmeras composições que foram celebrizadas através de suas gravações e interpretações, além de seus muitos outros intérpretes. Luna tucumana, Chacarera de las piedras, El alazán, Guitarra dímelo tú entre outras zambas, vidalas e chacareras são obras de ambos, criadas a quatro mãos.

Paula Pepin, todavia, por vezes compôs sozinha também. Assinando sob o pseudônimo Pablo del Cerro (Cerro Colorado é o local onde viveram e hoje encontra-se a Fundación Atahualpa Yupanqui – o pseudônimo alude ao lugar), ela criou algumas composições que o marido gravou também, entre elas esta Agua escondida, zamba especialmente delicada, como costumam ser as zambas, em que é notável como o andamento e a harmonia parecem dar a entender a presença de uma melodia subjacente, exatamente como água escondida.

Originalmente, as zambas são ritmos de acompanhamento à dança folclórica e seu nome deriva do quéchua zamacueca. No Chile, o nome do estilo que permaneceu foi a cueca enquanto que norte argentino consolidou-se a zamba. Outra possibilidade de explicação para o nome estaria em que as composições eram dirigidas às mulheres do norte argentino, cuja pele matizada pela cor indígena remeteria ao jambo. As zambas poderiam ser, nesse caso, corruptelas do termo.

De um ou outro modo, o ritmo é um dos mais populares da Argentina. Yupanqui, sendo um dos principais recompiladores das tradições populares, teria em suas viagens pelo interior encontrado diversas delas cantadas popularmente. Além de recompilá-las, Yupanqui também criou outras tantas, contribuindo assim para imortalizar as tradições populares locais, como era seu objetivo.

Uma confusão bastante comum que se faz a respeito das zambas é traduzi-las como se fossem o samba argentino. Exceto pela popularidade, os ritmos são muito diferentes entre si. O que pode ser apontado de comum entre uma forma e outra talvez seja a delicadeza harmônica, os arpejos alongados e contrapontos silenciosos. Mas a semelhança, neste caso, é mais perceptível com o choro do que com o samba propriamente dito. Além do mais, o acento hispânico está muito marcado no estilo, assim como em todos os demais ritmos argentinos, gatos, malambos, estilos, milongas, habaneras… Ainda que um pouco menos que nas vidalas, mesmo assim é notável o silêncio entoado da música indígena, mal soprada em queñas ou cantadas quase a boca fechada.

As zambas, portanto, estabelecem uma espécie de confluência entre a música dos gauchos do pampa e a dos indígenas e seus descendentes moradores dos desertos de Tucumán, Santiago del Estero e Cachamarca, províncias onde o ritmo prolifera abundantemente. E também importa dizer que não são uma criação de Yupanqui, já que, além dele, inúmeros instrumentistas celebrizaram o estilo em solo argentino e mundo afora, notadamente com Abel Fleury, Roberto Lara, Tito Francia, Eduardo Falu, Cacho Tirao, entre tantos outros.

Sobre Paula Pepin, ou “Pablo del Cerro”, tudo indica que não compunha ao violão, mas ao piano. Sua formação, iniciada na França e completada na Argentina, aconteceu justamente em meio a uma época de florescimento da música folclórica, do qual o futuro marido viria a ser o principal expositor.

Ela mesma, sendo um tipo de “agua escondida” sob um nome masculino, criou por si própria músicas que viriam a fixar-se mais tarde como clássicos da música popular argentina. Esta Agua escondida, nesse caso, oculta-se entre suas muitas composições; embora, em minha opinião, é a mais notável delas, tanto se executada ao piano (neste link com Hilda Herrera) ou “a las seis cuerdas“, como se pode ver na execução do violonista Carlos Roldan.

2

Pelo menos aparentemente, não há muitos pontos de contato entre as influências e matizes musicais dos dois países, Brasil e Argentina. Os gêneros pelos quais são mais conhecidos, por exemplo, não poderiam ser mais distantes e antagônicos. O samba, no caso brasileiro e o tango, do lado de lá do Rio da Prata, são quase como água e azeite. É quase impossível encontrar-se algum registro que unifique os estilos.

O baiano Caetano Veloso bem que tentou, em O samba e o tango, mas não chegou a deslocar-se do ritmo brasileiro e o resultado, se não foi completamente infeliz quanto seria una pareja de Maradona com Pelé, por exemplo, não chega a ser emocionante, apesar de ser uma bela homenagem.

Então talvez fosse melhor, desde já, impetrar uma divisória cultural arbitrária entre os dois países, da mesma forma pela qual a geográfica foi imposta através de tratados forjados em guerras de fronteira. Acontece que essa tentativa também seria arbitrária e impediria de antemão que se pudesse perceber alguns elementos coincidentes na música de lá e de cá.

No Rio Grande do Sul, pelo menos, a influência mútua dos países ocorreu de forma bem mais natural do que em estados mais acima, como seria previsível. Mesmo considerando que a faixa de fronteira é pequena, há um Uruguai entre ambos os paises que, ao mesmo tempo, unifica paisagem e cultura locais. Trata-se do pampa, a planura que se estende das encostas do planalto médio que divide o Rio Grande do Sul praticamente ao meio e vai até quase ao centro da Argentina, onde começa a apontar, mais ao sul, a Patagônia.

A fronteira do Brasil com a Argentina, portanto, se delimita ao norte do Rio Grande do Sul, no contato que se dá entre o estado e as províncias de Corrientes e Misiones. E a música, nesta região específica, tem outros matizes diferentes da música do pampa, remetendo mais às influências guaraníticas comuns também a um terceiro país que está mais ou menos nas mesmas latitudes, o Paraguai. A música do Paraná e do Mato Grosso, especialmente, guarda bem mais em comum com as guaranias e chamamés dos correntinos e paraguaios que a feita no Rio Grande do Sul.

Quando conheceu a Argentina, o multinstrumentista Hermeto Paschoal declarou que se tratava de um dos únicos países com tantas variedades e estilos musicais capaz de disputar quantitativamente com o Brasil. Evidentemente, a formação étnica de ambos os países é distinta e, ao passo em que o Brasil absorveu a intensa musicalidade da herança africana matizada com a música europeia, os argentinos obtiveram dos espanhóis e dos povos indígenas locais o fermento para a sua expressividade sonora, já que a presença africana por lá sempre foi reduzida, comparando-se ao Brasil.

Assim, de forma muito elementar, é possível dizer que é por essa razão, por essa influência diversa, que mesmo a música contemporânea dos dois países não costuma encontrar-se com frequência. Com exceção de alguns nomes internacionais como Fito Paez, Charly Garcia ou Pedro Aznar (ou de Mercedes Sosa, que gravou o repertório de muitos compositores da música popular brasileira nas décadas de 1970 e 1980 e tornou-se uma espécie de ícone continental), não é tarefa das mais fáceis constatar essa aproximação.

3

Acompanhante preferencial da música popular, o violão conta, tanto lá quanto aqui, com excepcionais expositores e isso no que diz respeito tanto ao que se refere à execução como à composição, evidentemente que mantidas as diferenças estilísticas de cada um.

Se no Brasil foram o samba e o choro que notabilizaram o virtuosismo de gênios das seis cordas como Dilermando Reis, Baden Powell, Raphael Rabello e tantos outros, a guitarra criolla alcançou sua máxima expressividade, sobretudo nos gêneros folclóricos que, a partir da década de 1940, foram objeto de intenso trabalho de recompilação histórica. Isso aconteceu não somente na Argentina, mas também no Chile e Uruguai, chegando ao sul do Brasil mais ou menos na mesma época, mas não necessariamente com as mesmas influências.

A profusão de estilos folclóricos e as características geográficas e humanas argentinas fazem do país um imenso universo musical, apesar de que o tango portenho tenha sido alçado como exemplo por excelência de sua musicalidade. Acontece que mesmo o tango tem origem nos arrabaldes de Buenos Aires (e de Montevideo também), para onde foram  viver pessoas do interior do país, trazendo seus sotaques, motivos e sonoridades. A milonga, gênero tipicamente pampeano, pode-se até dizer que contribuiu em cerca de 70% na formação do tango. Os outros 30% talvez digam mais respeito à influência europeia, sobretudo a italiana, além das próprias transformações que o estilo sofreu ao transformar-se em símbolo internacional, principalmente pela voz e imagem de Carlos Gardel.

No tango, porém, a guitarra criolla é praticamente secundária, quando não ausente. Foram o bandoneon, o piano e até o violino que acabaram por definir sua entonação mais conhecida; principalmente o bandoneon, marca evidente da influência europeia, que universalizou-se em um segundo momento através da obra magistral de Astor Piazzolla. Apesar disso, em muitas composições, é o violão o instrumento de composição, principalmente naqueles tangos compostos popularmente.

Encontrar choros igualmente delicados como a zamba de Paula Pepin, Agua Escondida, também é tarefa de relativa simplicidade. Talvez o próprio Delicado, de Waldir Azevedo, seja o exemplo perfeito para isso, mas este foi criado para cavaquinho. Mas é facílimo lembrar também dos clássicos choros de Ernesto Nazareth, João Pernambuco, Garoto, Pixinguinha e a lista interminável de compositores do ritmo brasileiro. Mesmo que sejam ambas tradições musicais que se mantém através de novos instrumentistas, não são muitas as novas gravações, principalmente no caso do choro brasileiro.

Coincidentemente, é um gaúcho, o violonista Yamandu Costa, que vem fazendo a seu modo a ponte entre os estilos, mesclando tanto as influências platinas quanto o samba e o choro. O resultado nem sempre é suave e delicado, pois como se sabe, Yamandu é um instrumentista vigoroso. O que importa saber é que um violonista do seu porte está fazendo justamente o que me propunha a fazer pelas palavras, ou seja, a aproximação entre duas tradições musicais tão distintas quanto identificadas com as seis cordas.

No disco Mafuá, na faixa título, Yamandu mostra a exuberância de sua técnica em um choro desgovernado. Em outro mais recente, Continente, há inclusive uma homenagem a Atahualpa, na faixa Don Atahaulpa. Além de evidenciar uma influência já sabida, é um momento em que se pode perceber de onde vem a suavidade que há, também um pouco escondida, no violão de Yamandu. É quando ele deixa de ser um pouco violão e soa, talvez, um pouco mais como guitarra.

Não costumo fazer disputa entre minhas preferências musicais, como se gostasse “mais” disso que daquilo. Para mim, a graça da música é justamente a diversidade estilística e a proliferação de melodias e harmonias encontradas pela expressividade de compositores e instrumentistas. Resumir essa riqueza como se a uma disputa de seleções, mesmo que entre Brasil e Argentina, é o mesmo que fechar os olhos para a evidência de que tanto os hermanos compõem com delicadeza quanto os brasileiros exageram, às vezes, no riscado.

Só não deixa de ser curioso que a zamba Agua Escondida tenha sido composta por uma mulher que precisou inclusive ocultar-se em meio a uma cultura eminentemente masculina para divulgar seu trabalho. Evidentemente, não é essa a razão de sua preciosidade, mas isso serve, de certo modo, para demonstrar que, mesmo sob culturas dominantes, criam-se preciosidades. O violão ou a guitarra criolla, lá ou aqui, por ser o instrumento popular por excelência, parece mesmo talhado a entoar o inaudito e o secreto entre o intenso e inevitável ruído ao redor.

Um novo olhar qualquer

Várias vezes por ano, por mês, semana ou até mesmo dia sou convocado por bueníssimas razões (pelo menos quero acreditar nisso) a experimentar um “novo olhar”, um “outro olhar” sobre o mundo e suas situações. As aplicações são as mais diversificadas possíveis: vão desde situações abstratas como um “novo olhar” para a “existência” ou a “diversidade”, até um “outro olhar” para o mundo concreto, social, seus fenômenos e contingências. Acontece que a convocação, como são todas as convocações, costuma ser bastante imperativa, isto é, deve-se acatar de imediato as perspectivas da postulação, sem o qual o “novo” olhar não ganha sentido, não opera, simplesmente ele não funciona.

Trata-se de um paradigma quase, mas também de uma metáfora, quase uma sugestão. Há que se escolher bem os termos com que se colocar este “novo” e este “outro”, portanto, para que não se empreenda, ao invés de convencimento e diálogo, imposição violenta e arbitrariedade.

Parece exagero dizer que há uma postulação violenta na proposição de uma novidade e que, pelo menos em tese, todas as novidades são benéficas, o que é essencialmente falacioso. Porém, desde que seja necessária uma inutilização prévia de meu instrumental para ir à aventura do “novo”, do “outro”, ou do que assim seja apresentado, cai por terra de imediato a conotação construtiva da novidade, pois ela ocorre a partir de uma demolição e não de uma consertação. Por outro lado, se mera metáfora fosse, seria uma metáfora um tanto enganosa, ou pelo menos uma promessa que substituiria em poucas palavras uma construção histórica, uma série de condições e acontecimentos duradouros, e não uma proposição equivalente.

Se neste caso usássemos uma metáfora, seria como dizer que a mudança partir de  um “outro olhar” ou de um “novo olhar”, seria mais como mudar o ângulo de visão do que substituir uma lente por outra.

Não há quem ignore que a metáfora é figura de linguagem das mais corriqueiras, isso tanto na literatura quanto na linguagem coloquial. Em campos e domínios nos quais é preciso delimitar o real e clarear suas circunstâncias, todavia, seu uso às vezes pode mais atrapalhar do que ajudar. Poucos parecem perceber isso, afinal a metáfora, antes de qualquer coisa, é um suavizante da compreensão, isso dito já um tanto quanto metaforicamente.

É sobretudo nos textos jornalísticos nos quais mais tem prosperado o uso de figuras de linguagem em lugar de uma análise precisa das situações. Mas isso bem pode ser mais literatura do que jornalismo propriamente dito. O que acontece é que, ao valer-se de metáforas como formas de explicar o mundo concreto, aquele que a redige passa a agir plenipotenciariamente sobre os elementos de seu discurso. O mundo já não acontece como é de fato, linearmente, mas da forma pela qual o postulante escolhe narrá-lo e assim torna-se episódico, datado. O artífice dessa escrita é, portanto, dotado de poderes sem limite acerca dos fatos e os minora ou amplifica de acordo com a sua exclusiva vontade. É um poder invejável. Em tempos nos quais a eloquência pode garantir mais leitores do que clareza ou até mesmo conteúdo, há que se verificar em quantas camadas de tintas literárias se têm encoberto o mundo real em suas cruezas.

Interpretar-se uma realidade política, por exemplo, com o uso da metáfora, pode ser um artifício poderoso na linguagem falada e consiste num traço retórico admirável, se empregado no ambiente adequado. Por outro lado, seu uso desenfreado costuma servir bem mais a um esforço evasivo e simplificador. O impacto se torna cansativo, a metáfora então exaure a si própria e, mais ainda, a quem é dirigida. O texto impregna-se de imprecisão, o discurso torna-se algo delirante, cada vez mais permeado por ambiguidades e,  consequentemente, vai dissociando-se do real e do objeto a que pretendia referir-se.

Há também que o uso deliberado da metáfora em situações realistas acaba competindo na própria desvalorização da figura de linguagem e, por tabela, da própria poesia. Quer dizer, poetizar a realidade faz muito sentido na literatura, quando a ênfase está localizada em potencializar a cognição do leitor; não faz tanto sentido se acaba por servir a desviá-lo da realidade para um seu duplo, artificial, planejado e ilusório (isso mais ou menos nos termos de Clément Rosset, em O real e seu duplo).

Aí é que está: não há que conferir-se o status poético a uma situação real. Do real pode-se depreender a poesia, porém a ele jamais atribuí-la arbitrariamente. Na poesia, especialmente, a metáfora cumpre funções que normalmente enriquecem o texto escrito, como o de expansão de significantes e uma maior mediação simbólica entre texto e leitor. Mesmo que nem sempre seja usada com acerto ou economia, literariamente a metáfora costuma abrir um leque de possibilidades interpretativas. Na interpretação da realidade, entretanto, a metáfora às vezes se converte em mera evasiva e substituição de sentidos. Dá-se então o oposto, e a metáfora passa a ser empobrecedora do discurso por um caráter de imprecisão que desvia a cognição dos fatos para uma poetização do real, mas quando já não se trata mais de poesia.

Com isso quero dizer que a metáfora de um “novo” ou “outro” olhar estabelece um contato tênue demais para representar ou fomentar a mudança social ou cultural efetiva. A quem interessa vivenciar as condições da “novidade”, é necessário perceber claramente uma alteração substanciosa nas condições concretas nas quais o “novo” e o “outro” possam prevalecer. De outro modo, não há “novo” ou “outro” algum, caso a experiência se mantenha estável, constante.

Um exemplo simples a que se pode referir é o da “Nova República”, como ficou conhecido o período político posterior à abertura democrática brasileira. O que, de fato, aconteceu de “novo” ali nas condições materiais e econômicas brasileiras, para além da retomada do direito ao voto? Mais reforma agrária? Mais e melhor educação? Quais as condições de manifestação e verificação deste “novo”, afinal? Pois com tudo o que se denomina “outro” ou “novo” costuma acontecer o mesmo, com exceção, talvez, na ciência, onde a terminologia “paradigma” faz realmente algum sentido.

De mais a mais, é conveniente muitas vezes passar-se a ideia, dar a entender de que se está diante de um “novo”, mas o que há de real e metafórico nisso tudo? Ou seja, é possível convencer a alguém de que é fundamental para a constituição do “novo” a adequação de um “novo” olhar, mas não qualquer “novo olhar”: apenas aquele que se deseja fazer vigorar. Além disso, não vivemos num tempo etapista, no qual as condições são sumariamente eliminadas em prol de outras. Pelo contrário, a dinâmica social é da diversidade e a diversidade é nesse aspecto mais caótica do que harmônica. Mudanças uniformes já aconteceram na sociedade, nas mudanças de regime político, nas mudanças legais e formais, mas nunca atingiram as pessoas da mesma maneira e isso porque elas não ocupam a mesma posição social.

Eu não duvido nem um pouco que os “convites” e “convocações” sobre os quais estou tentando comentar continuarão chegando. Mensalmente, semanalmente, diariamente… Eu apenas quero dizer que, usando da mesma metáfora já utilizada, é muito difícil que eu mudasse meu ângulo de visão, mas apenas testasse a lente dessa nova promessa. Mudar o lugar das coisas costuma ser bem mais trabalhoso (e bem menos poético), que a instituição de uma palavra ou um “novo” qualquer.

Questão de verossimilhança

Inclusive

A cada reportagem que programas de TV fazem sobre pessoas com síndrome de Down, vai se enraizando em mim um sentimento cada vez mais dúbio, duplofacetado. Uma face dele fica feliz, sente-se gratificada por exibir pessoas fazendo coisas, realizando e atuando positivamente no mundo. A outra face do sentimento é de desconforto, como se estivesse sempre diante de um freak show às avessas, mas ainda assim um freak show. E as pessoas exibindo-se (ou sendo exibidas) como exemplares incomuns da espécie humana, conquistando, vejam só, uma vida comum.

É claro que isso me ocorre porque tenho interesse direto no assunto, mas não consigo evitar o estranhamento (estranhamento não é o mesmo que rejeição total, vale dizer). Acho que isso se deve em muito ao fato de que não vejo tão frequentemente esse tipo de reportagem e exposição com outras deficiências ou minorias. Não lembro de ter visto alguma vez uma empresa só de cegos ou de pessoas com paralisia cerebral, por exemplo. De outras minorias então, muito menos. Chego a imaginar o barulho que seria feito nas redes sociais num caso destes. Mas com o pessoal trissômico, por outro lado, sempre é passada a ideia de uma iniciativa “legal” e socialmente desejável. Eu não sei. Acho estranho. Não me acostumo.

Às vezes me parece uma coisa meio compulsiva já, isso de juntar pessoas com síndrome de Down num grupo à parte e narrar sua vida como algo que “eles também conseguem fazer”, mesmo que essa ideia seja transmitida apenas subliminarmente. Parece uma coisa que as famílias têm sido acostumadas a fazer desde a tenra infância, desde a promoção de calendários só com crianças com síndrome de Down, grupos exclusivos de convívio de adolescentes e outras iniciativas que não costumam dialogar muito com o social amplo senso (nem com outras deficiências), mas, provavelmente por zelo e outras preocupações, mantêm-se relativamente estáveis e homogêneas.

Tenho algumas suspeitas de porque isso ocorre, mas seria leviano fazer generalizações a respeito disso até mesmo porque, como disse, a outra face do sentimento fica feliz, fica mesmo muito feliz porque compreendo muito bem a jornada que é a conquista das coisas diante de tantas adversidades afetivas, sociais e de toda a ordem, mesmo em se tratando de iniciativas que não costumam se repetir com a população de baixa renda e isso seja frustrante por si só. Mas é uma felicidade que me cai, não sei explicar o porquê, melancólica. Penso que se ao menos fosse cancelado esse efeito de “curiosidade” eu me sentiria melhor ou, pelo menos, o incômodo não seria tanto assim.

Para além disso, vejo tantas necessidades reais e pautas reais a tratar, que isso me parece uma coisa circense (e isso mais me irrita que entristece), como um “veja só” sem fim. Eu sugeriria, por exemplo, pautas e situações diferentes, mais igualmente muito reais. Por exemplo, a situação de desemprego das pessoas com deficiência intelectual. Também situações de violência social, familiar, etc. E como esquecer da qualidade da educação, evasão escolar e falta de indicadores sociais e controle social eficiente… Mas não. A opção mais simples parece continuar a ser a duradoura excepcionalização de qualquer coisa do que abordar a situação geral que afeta a todos e especialmente aqueles de menor alcance econômico, ainda muito dependentes de iniciativas comunitárias e assistenciais.

Enfim, quero dizer que não há que vilanizar preliminarmente a nada nem a ninguém, nem muito menos promover uma caça às bruxas, porque esse comportamento é dissociativo e contraproducente em todos os seus aspectos. Trata-se apenas de entender mais e melhor a situação das pessoas com deficiência e isso às vezes pode requerer menos “show da vida” do que encarar a dureza da vida real. Ou, para atender as duas faces da moeda, pelo um pouco das duas coisas. No mínimo, por uma questão de verossimilhança.

O paradoxo da incomunicabilidade em rede

“Como podemos nos entender (…), se nas palavras que digo coloco o sentido e o valor das coisas como se encontram dentro de mim; enquanto quem as escuta inevitavelmente as assume com o sentido e o valor que têm para si, do mundo que tem dentro de si?”

Luigi Pirandello – Seis Personagens À Procura de Um Autor (1921)

Talvez por um distanciamento ainda muito tênue, tudo o que tem se dito (e se diz muito, o tempo inteiro) a respeito da comunicação após o advento das redes sociais é bem menos relevante do que as ciências sociais e a filosofia disseram sobre comunicação de um modo geral antes desse grande divisor de águas que fundou como se uma nova internet dentro da internet. Aqui estou dizendo das modernas redes sociais, das redes comerciais como Twitter, Facebook, Instagram e não as redes de conhecimento e inteligência social tal como começaram a pipocar no mundo inteiro em torno da década de 80, apogeu do Telnet, do Alternex e quando os primeiros navegadores da incipiente world wide web penavam para carregar as primeiras imagens e fotografias de um meio até então restrito exclusivamente aos textos e aos infindáveis comandos exigidos pela sintaxe pré-Macintosh.

Então, embora presentemente diga-se muito a respeito de coisas como identidade, sociedade de massas e conectividade, uma visita rápida aos trabalhos de Jean Baudrillard, de Pierre Lévy e até mesmo dos seminais Erving Goffman e Marshal McLuhan pode ser muito reveladora sobre fenômenos que na aparência são recentes, mas que, na verdade, podem apenas estar representando a continuidade dos sistemas de comunicação que vêm se estruturando ao longo de todo o séc. XX, desembocando na profusão da concomitância de tudo, na massificação digital de um modo geral, como esta com a qual lidamos agora.

Desde a popularização dos computadores pessoais ou, desde mais cedo, da proliferação desembestada de dispositivos portáteis, soube-se que o mundo como era conhecido antes nunca mais seria o mesmo. O mesmo já havia acontecido com outros marcos comunicativos anteriores, como o advento da televisão, do rádio, dos jornais, da imprensa de Gutenberg e assim por diante. E embora esse pareça ser apenas mais um lugar-comum, o pingo de verdade que há em dizer que o mundo nunca é o mesmo é sempre ao mesmo tempo alentador e assustador. Alentador porque a mudança e a novidade sempre podem se encontrar na perspectiva positiva da esperança. Mas assustador porque temos nos acostumado a pensar o futuro como se condenados a distopias nas quais o humano costuma estar fora de controle do próprio humano e a tecnologia, divinizada, determinando ao seu bel prazer a nossa sorte enquanto espécie. A literatura de ficção, o cinema e mais recentemente os seriados veiculados em streaming media aí estão para não me deixar mentir.

Ocorre que, sem o surgimento das redes sociais, a internet não seria muito mais do que um citoplasma impreciso cujos elementos internos mal se comunicariam ou então o fariam de forma bastante precária e ocasional. Faltava injetar-se no interior dessa célula algum elemento de aderência, pois a instantaneidade por si só não caracteriza um potencial comunicativo, mas apenas um estado de pré-disposição. Pois a escalada das redes sociais no ambiente internet ocorreu, como se sabe, de forma galopante e incorporou com a mesma velocidade com que se expandiu essa função aderente, passando-se rapidamente dos obscuros fóruns e listas de e-mail até o escancaramento total do Facebook, incluindo aí outras plataformas de maior ou menor durabilidade, muitas hoje extintas ou decrépitas, como o Orkut, por exemplo.

E o mundo realmente parece ter mudado bastante a partir do apogeu do Facebook entre as redes, embora seu fundador, Mark Zuckerberg, costume exagerar bastante nos poderes que sua trademark tem per se. Recentemente, num manifesto (ou textão de Facebook), ele chegou a cogitar que sua iniciativa comercial poderia incidir decisivamente para resolver-se problemas com que historicamente a humanidade tem se debatido, tais como a paz global, a fome, a pobreza, o progresso científico, ou seja, praticamente tudo o que importa, revigorando a já um tanto combalida ideia mcluhaniana de aldeia global.  Para ele, o valor da rede de sua propriedade já teria alterado inclusive seu próprio status inicial: não se trataria mais de uma mera rede sustentada por anúncios, mas de uma comunidade global, supranacional, colaborativa, solidária e altruísta. Bem como uma imagem distorcida, mas autobenevolente, o mundo como o conhecemos estaria, segundo Zuckerberg, rumando para uma nova etapa na qual o trivial “like” (ou melhor: 4,5 bilhões like/dia) propulsionaria o que há de melhor na natureza humana em prol das melhores intenções e realizações. Isso sem falar na ajudinha providenciada pelos robots e algoritmos a serviço da inteligência artificial e, por que não dizer? Até mesmo do seu conteúdo patrocinado e colaboradores…

A questão de embutir no futuro do seu empreendimento o caráter de uma utopia solidária, além de um marketing poderoso, é provável que cumpra também a função de dar a entender que os males do mundo tal como ele é poderão mesmo resolver-se assim: de forma remota e impessoal. É uma ideia que vem muito a calhar com pessoas cada vez mais apartadas dos espaços públicos e confinadas em espaços privados. Mas é a respeito desse caráter impessoal que o Facebook se mostra extrememente eficiente em aparentemente contorná-lo e colaborar em “humanizar” seus usuários, pois através das suas específicas subredes (para não usar o surrado termo “bolhas”) de confirmação, estimula-se pelo menos de forma verbal a convergência de ideias, de intenções e até de ideologias, mesmo que elas venham a converter-se rapidamente em objetos de consumo nas suas diversas formas e fenômenos “compartilháveis”: sejam simples memes, longos textos de fontes influenciadoras ou outros subprodutos.

De um modo um pouco diferente da distopia de Aldous Huxley, o admirável mundo novo da informação das redes sociais é uma ficção que não nos aperta muito os calos, muito pelo contrário, chega a ser prazeroso, pelo menos para aqueles que conseguem manter-se a salvo da crescente onda de dependência tecnológica, fenômeno que fez proliferar mundo afora as até há pouco inimagináveis rehabs digitais. Ocorre que, após as redes sociais, o virtual tornou-se por excelência o mundo da representação, como se um pano de fundo no qual cada um é livre para montá-lo com as peças e links que lhe estão disponíveis e de acordo com a sua preferência.

É de ficção ou de uma série embaralhada de muitas ficções que, portanto, é feito o mundo virtual. Ao contrário de engajamentos reais onde bens ou moedas são trocados, a dinâmica preponderante no ramo das redes comerciais é essencialmente declarativa (e será para sempre gratuita). E é até irônico que, no jargão do Facebook, “engajamento” signifique tão somente o produto de likes, shares e visualizações de determinado conteúdo. Por outro lado, não existe qualquer meio de certificação sobre a qualidade do empenho de um pensamento ou de um gesto de seus usuários, quaisquer que sejam eles. Assim como a intenção de confirmação, o livre falsear está franqueado e, para ampará-lo, uma poderosa indústria noticiosa (onde se incluem fake news e agentes comunicativos de segunda e terceira ordens) fornece o combustível permanente de hiperinformação, sem falar nos grandes vórtices de formulação: formadores de opinião e fontes assentadas na credibilidade, como a mídia tradicional, indústria de entretenimento e agentes institucionais.

Trata-se de um embaralhamento difícil de mensurar e do qual emergem narrativas tão múltiplas e assimétricas como inequiparáveis, realizadas ao bel prazer de qualquer pessoa. E assim, galgando-se o meio virtual através da sucessiva e infinita proliferação de informações, percebe-se às vezes muito claramente o ruído imenso que é gerado através da reverberação continuada do entrechoque das ideias e também do prolongamento da propagação de ideias idênticas, mesmo se formuladas de diferentes maneiras, reformuladas ou remixadas.

Da confluência do ruído proveniente deste intenso êxtase comunicativo (bem como Jean Baudrillard previu em meados dos anos 80, em As Estratégias Fatais) é um tanto quanto inevitável que se evidenciem sinais de exaustão do próprio modelo, porque nele não é registrado o tempo da escuta e o da leitura (que não são percebidos na interlocução), mas apenas o da expressão deliberada e, em sua ausência, um grande vazio de percepção e de sentido. É que aí está o ônus da comunicação escrita: uma precariedade de formato, de ilocução e de formas de avaliação e comparação, travadas pelas formas comunicativas do meio. Formas nas quais nunca é dado aos interlocutores avaliar a integralidade do efeito das trocas intersubjetivas. Isso porque, em última análise, é de subjetividades que se está a falar, pelo menos enquanto não se considerar o aporte e intervenções diretas de mecanismos de inteligência artificial.

Dado que qualquer convencimento extremado pode muito rapidamente transformar-se em aborrecimento continuado e as estratégias de persuasão, principalmente aquelas dirigidas aos conteúdos comportamentais e políticos, converterem-se em policiamento do outro embutido de propósitos colonizadores, a intenção comunicativa apenas cumpre seu objetivo na medida em que os interlocutores compartilhem, além do mesmo repertório, a mesma perspectiva, compreensão e significantes. Em caso contrário, o que prospera é o efeito adverso do conflito e o consequente dissenso. Além disso, é preciso considerar que os indivíduos conformam seus repertórios a partir de necessidades e interesses muito particulares, evitando-se quaisquer outras perspectivas e proposições que possam contradizer a identidade ideológica do indivíduo e dos acertos coletivos que ele tem para com sua rede de contatos. Nesse ponto é interessante notar o quanto as redes sociais comercias são pouco transparentes, pois se não se pode saber nada a respeito do que um indivíduo “não curte” ou “discorda”, pode-se conhecer, por outro lado, todo o seu histórico assertivo. Há, portanto, um sem número de informações negativas não computadas nem registradas, mas evidentemente percebidas na “comunidade”.

Tomando-se, por exemplo, o mais fragoroso dos debates do mundo virtual, o debate político, é notável a pouca permeabilidade de opiniões e a intensa evasão de informações que se pratica e exprime, principalmente ao deliberar-se por enunciar um ponto de vista sempre empedernido, pétreo mesmo, o qual pouco se dá a dialogar, embora sempre muito a confirmar. Segundo o professor George Loewenstein, especialista em consumo e comportamento da Universidade Carnegie Mellon (EUA), a opção “seletiva” não significaria outra coisa que um processo de garantia do bem estar, pois seria bem mais natural e seguro manter-se a salvo dentro de uma zona de conforto do que arriscar-se aos debates. Daí a deliberadamente evitar-se informações contraditórias é um passo dos menores e que requer pouco ou nenhum esforço; basta, como ele diz, “evadir-se”. O que interessa observar em seu estudo é que, nessa dinâmica de comportamento, o encapsulamento das redes acaba por competir no esvaziamento do potencial comunicativo e numa dinâmica comunicativa viciada que pode inclusive tornar as pessoas menos capazes de conviver com ideias e opiniões diferentes.

Bem, apenas por isso, todo o arrazoado de Zuckerberg, bem como as ideias de muitos teóricos que desejariam ver nas redes o substrato e a trama de uma nova política, mais transparente e acessível, fica bastante comprometido. Manuel Castells, sociólogo espanhol que esteve muitas vezes no Brasil divulgando suas ideias a respeito da sociedade em rede e autor de uma dezena de livros sobre o assunto, já disse algumas vezes acreditar que a sociabilidade humana se encontra a salvo por causa da internet. Segundo ele, a dinâmica comunicativa da internet contribuiria inclusive para diminuir efeitos nocivos da vida contemporânea, como o stress e a depressão.

Por outro lado (aqui no afã de preservar-se a opinião discordante), o historiador israelense Yuval Nohal Harari, autor dos sucessos de vendas Sapiens – Uma História da Humanidade e Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã , traz um opinião bastante diferente. Entre as muitas especulações que Harari faz em seu mais recente livro, ele que não possui sequer uma conta no Facebook, considera que a idolatria da informação pode vir a ser a dinamite fatal do humanismo, principalmente na substituição do humano pelas tecnologias de inteligência artificial e por uma nova reconfiguração da natureza humana, do saber e das relações. Para ele, a internet ser inteiramente benéfica não é outra coisa que a ficção preferencial do tempo atual, assim como outras ficções já serviram a propósitos específicos na história da humanidade. O que mais chama a atenção nas suas ponderações é, de outro modo, o esfarelamento da noção de livre arbítrio e o quanto a tecnologia poderia cumprir o papel de arregimentar as pessoas através de seus inúmeros dispositivos, ludibriando os sentidos e alterando e modificando inclusive as consciências.

O mais interessante de todo o debate em torno dos potenciais da tecnologia e da comunicação tem residido, talvez, é mesmo na disposição mais subjetiva e intrínseca do ser humano. Estejam certas ou equivocadas as suposições de todos os interessados no assunto (é bem possível que não estejam inteiramente certas nem inteiramente equivocadas), o fundamento essencial é o indivíduo e a sua capacidade de interagir e incidir em relação à informação e a outros seres humanos, para além do mundo material ou do virtual. Se as redes comerciais serão mesmo utilizadas para um ainda maior confinamento de ideias e pessoas, além da elaboração de um arsenal infinito de big data com finalidade imprecisa ou, por outro lado, poderá ser o substrato ideal para que se propiciem soluções para os males que a humanidade enfrenta e ainda enfrentará, cria-se um paradoxo dos mais cruciais: o de que as pessoas acabem tornando-se apenas umas o espetáculo das outras e não mais o seu objeto de interesse efetivo e de ação, interditados pelo distanciamento intersubjetivo.

Por outro lado, de posse da certeza de que a efetividade da comunicação se dá bem mais pela vontade das pessoas, pela prontidão de seu aparato perceptivo e por suas capacidades emissivas e interpretativas do que exatamente por uma disponibilidade dos meios, é bastante possível que os problemas comunicativos de hoje sejam muito semelhantes aos de nossos antepassados. E se é possível que se possa mesmo, como alguns temem, virmos a rumar a qualquer momento a uma espécie de colapso comunicativo, isso deverá ocorrer bem menos em função do choque de opiniões do que por uma tendência natural do ser humano em simplesmente não dar o braço a torcer, principalmente em face de prejuízos morais ou ideológicos.

Caso um meio, seja ele analógico ou digital, tenha sido tramado para favorecer valores individuais e aspectos, digamos, mais egotistas do ser (o que seria uma timeline se não esse repositório de autorreferências?), da união de vários indivíduos em torno dessa forma comunicativa inadvertidamente pode advir justamente uma comunidade de seres autocentrados e, paradoxalmente, pouco comunicativos. Como em uma rede ou em qualquer contexto coletivo não está em ninguém individualmente dosar a oferta de informações, o único que resta possível é admitir-se que o ato de comunicar pode ter sido e ainda vir a ser muito facilitado pela tecnologia e seus recursos, mas a comunicação em si mesma ainda depende de mútuo entendimento e o mínimo de consideração pelas diferenças culturais dos envolvidos.

Prova um pouco que essa tendência é muito anterior às redes sociais o registro dessa dificuldade comunicativa ao longo da história. Se filósofos e cientistas sociais eventualmente debruçaram-se direta ou indiretamente sobre estas questões, escritores também o fizeram, mesmo que sob formas literárias. Entre tantos na história da literatura, o próprio autor da epígrafe desse texto, o italiano Luigi Pirandello, já notara no começo do séc. XX que, bem como a comunicação e a incomunicabilidade, o individualismo e a bisbilhotice também são essencialmente humanos.

As redes sociais comerciais, enfim, também estão aí para que cada um possa confirmar isso (ou não) e evitar que especulações como essas pareçam mentira deslavada ou franco delírio. Isso pelo menos até que outro modelo de rede tome o lugar das atuais (e isso fatalmente deverá acontecer uma hora dessas). Um requisito interessante, neste caso, talvez fosse o de qualificar o próprio engajamento comunicativo e afetivo, pois da aprendizagem das redes o que mais se tem podido depreender são informações deturpadas, engajamento precário, um certo culto à indiferença e um pendor mal disfarçado à evasão de informações. De qualquer forma, é bem interessante pensar que, sendo isso tudo apenas uma radiografia do comportamento humano contemporâneo, talvez ainda haja muito a ser feito em prol da comunicabilidade e das próprias pessoas que não apenas mais e mais mediação tecnológica.