Para assistir a “Longe da árvore”

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, 19/10/2019.

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A não ser em publicações duvidosas, “filosóficas” entre aspas, é muito difícil encontrar-se alguém interessado em escrever honestamente acerca da aceitação humana. Em 2012, ao invés de facilitar as coisas, o jornalista norte-americano Andrew Solomon conseguiu torná-las ainda mais difíceis com a publicação de Longe da árvore: pais, filhos e a busca da identidade. Imenso em tamanho (o livro publicado pela Companhia das Letras em 2013 contém mais de 800 páginas) e incomensurável em conteúdo, Longe da árvore é ainda mais espantoso quando se sabe que resultou do trabalho de uma década em que seu autor esteve envolvido tanto na escuta de centenas de pessoas quanto no exame detalhado da literatura ficcional, científica e documental publicada a respeito das condições e situações existenciais a que ele se propôs investigar.

Ao tratar da trajetória familiar e afetiva de pessoas que cometeram crimes ou daquelas cujos filhos nasceram em decorrência de casos de estupro, ou pessoas que nasceram com deficiência intelectual, autismo, doenças mentais, nanismo, bem como casos de superdotação ou surdez e chegando até as questões de identidade de gênero, Solomon concretizou uma espécie de fenomenologia do afeto. Uma espécie de compêndio informal e demonstrativo do percurso de cada uma das pessoas em afirmar-se num mundo muitas vezes refratário e violento. Ao invés de hipóteses científicas, Solomon confrontou as ideias sociológicas e políticas contemporâneas às diferentes realidades com que se defrontam as pessoas nas suas peculiaridades existenciais. Mais do que uma reportagem extensiva acerca das situações-limite possíveis de experimentar-se, Longe da árvore é um divisor de águas sobretudo por abordar a experiência humana onde ela costuma ser mais invisibilizada.

Finalizado em 2017 e com uma breve passagem no Brasil no Festival do Rio do ano passado, Longe da árvore chega agora aos cinemas brasileiros em documentário homônimo realizado pela produtora e diretora Rachel Dretzin, ativista feminista e realizadora de diversos documentários acerca das questões identitárias nos Estados Unidos. Dentre as muitas pessoas interessadas em adaptar o livro de Solomon para as telas, Dretzin conquistou a confiança do autor ao procurar ampliar ainda mais o alcance do seu livro. Ao invés de simplesmente transferir e buscar as pessoas já entrevistadas por Solomon, ela foi buscar novos depoimentos e então costurar a sua própria versão da ideia original de Solomon. O resultado é um filme tão corajoso e tocante quanto o livro original e que tem sido aplaudido e premiado nos festivais em que vem sendo exibido, como nos recentes RiverRun International Film Festival e Montclair Film Festival’s.

Além de continuar ampliando o reconhecimento do livro original, o documentário realizado por Dretzin consegue por mérito próprio viabilizar a expansão da ideia central de Solomon. Baseado muito em sua própria experiência individual e familiar, de que a aceitação e o amor constituem valores que fundamentam e oferecem sentido à experiência humana, Solomon relata e compara a própria experiência em torno de sua homossexualidade às de pessoas em outras situações em que a diferença migra do sentido de distinção para o de diversidade. Mesmo nas situações mais dramáticas, como as que envolvem famílias de filhos envolvidos em crimes terríveis como os massacres de Columbine e outros semelhantes, Solomon assume a prevalência da afetividade e deixa para trás qualquer noção estigmatizante do ser humano.

Como uma sociologia às avessas, Longe da árvore é muito mais exemplar do que explicativo e sua força documental decompõe em certa medida as noções de identidade organizadas, por exemplo, em Erving Goffman, onde estão como que consolidadas. A “busca” empreendida em seu livro não se dá pela trajetória de personagens e nem pelo sopesamento de categorias teóricas, mas pela experiência humana como ela é e sem qualquer verniz de fantasia, indulgência ou, principalmente, vitimização. Pelo contrário, trata-se de pessoas que buscam reconstruir-se apesar das expectativas sociais e familiares mais corriqueiras. Não há um drama existencial específico em questão, mas a dramatização da vida social em seu sentido mais amplo.

Longe da árvore é um livro e agora documentário crucial para a compreensão da dimensão de complexidades que atendem a aceitação familiar e a inclusão social e afetiva das pessoas. Para além dos estereótipos, dos preconceitos e dos destinos inescapáveis, sua contribuição reside em alargar a experiência humana das bordas da trivialidade e da previsibilidade. Embora trate apenas indiretamente de pessoas com gigantismo (ele também trata disso), é um livro gigante em todos os aspectos. Se não é possível a ninguém escapar do inesperado, seu trabalho é humanizante em todos os aspectos. Premiado também por O demônio do meio-dia, que aborda a problemática da depressão, e Lugares distantes, no qual trata do drama do desterro das populações migrantes, recentemente também publicou uma série de textos inéditos e conferências sobre a a temática do suicídio. Também professor de psicologia clínica da Universidade de Columbia e consultor de saúde mental LGBT em Yale, com Um crime da solidão Solomon consolidou o seu nome entre os autores mais comprometidos com as questões contemporâneas mais sensíveis.

Por meio de uma promoção do Instituto Alana em parceria com o selo Believe Films, as exibições de Longe da árvore ocorrem desde o dia 19 de setembro em várias cidades brasileiras, em sessões que contarão com todos os recursos de acessibilidade (audiodescrição, libras e legendas em português para surdos usuários da Língua Portuguesa) e com a realização simultânea de debates abertos a respeito do filme e do livro. Além das exibições comerciais, também poderão ser programadas exibições do filme por escolas e entidades a partir de uma plataforma on-line mediante um cadastro simples e orientações que já estão disponíveis na internet.

O descolamento da poesia contemporânea

Não há nada melhor para fixar o retrato de uma geração de escritores do que a publicação de uma antologia “definitiva”. Isso é um dado histórico na literatura, não suposição pessoal. Idealmente, se chancelada por um figurão acadêmico, um “entendido”, a antologia costuma ser ao mesmo tempo celebração de alguns e pá de cal na esperança de muitos outros em pleitear um espacinho na glória, essa ambição imaterial e supostamente perpétua que tanto fascina os mais incautos espíritos quanto envenena as relações entre as pessoas. O paradoxo não é meu, eu apenas o noto e gostaria muito mesmo de estar errado em minha interpretação acerca da competitividade desembestada que há no meio literário contemporâneo e, talvez, de todos os tempos.

Há cerca de dois anos atrás, o livro é de 2017, coube à compositora, cantora e diletante Adriana Calcanhoto a fixação de um cânone da poesia contemporânea. Escolhida pela mais influente editora nacional, a Companhia das Letras, Adriana simplesmente fez reunir o que a ela pareceu “ter a ver” (sic) com o seu próprio filtro. Com a ressalva de trazer em seu próprio título a denominação de “incompleta”, a antologia, segundo reportagem da Folha de São Paulo, poderia ter sido realizada em muitos volumes, mas a organizadora teria optado por fazê-la em um apenas, reunindo exemplos de 41 autores nascidos entre 1970 e 1990. Pouco tempo antes, uma antologia preparada a pedido da Folha de São Paulo tinha abarcado um universo um pouco maior, com 70 poetas.

Datando uma contemporaneidade essencialmente “jovem”, a antologia de Adriana parece ser sobretudo um mostruário de uma determinada dicção “jovem”. Para mim, que penso em “jovem” como um atributo dos adolescentes, o termo se esgotaria lá pelos vinte e poucos anos. Depois disso, o que vejo são adultos, muito embora nunca tenha sido tão complexa a definição destes limites. Seja como for, a antologia preparada por Adriana é realmente um cardápio de boa poesia, a meu gosto, embora certamente tenham ficado de fora dela outros excelentes poetas. É o imponderável em questão. Mas, ao contrário de denominá-la por “contemporânea” eu diria “recente” ou, sendo irônico mesmo, “descolada”.

Para além das acepções sociológicas, é preciso clarificar o fato de que contemporâneas são todas as pessoas vivas de um mesmo período de tempo, quer tenham vinte e poucos ou oitenta e tantos anos de vida. No que me importa dizer aqui, é a definição a que me atenho. Sob esse ponto de vista absolutamente geracional, é bem interessante o uso da antologia de Calcanhoto para observarem-se características comuns, influências, etc. No caso da antologia em questão, salta aos olhos uma semelhança notável no uso do verso livre, do coloquial quase crônica e também de uma estética liberal, ainda que não necessariamente libertária ou politicamente engajada. Se essas características podem resumir as qualidades de toda a poesia realizada atualmente, este é outro debate e, para mim ao menos, muito mais inacessível.

Não é preciso que eu diga o quão polêmico foi a publicação da antologia e o número de reclamações, postagens, discussões e etc. A julgar pelo prêmio Oceanos, um dos principais do país e no qual centenas de poetas anualmente inscrevem seus livros no afã de concorrer, é compreensível a grita. Não compreendê-la, sim, é o que seria incompreensível.

Ainda que noutra qualidade de polêmica, no mesmo ano, 2017, foi escolhido para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras o poeta, critico e professor de filosofia Antônio Cícero. Porque as unanimidades quase sempre ocorrem aos já falecidos, obviamente a escolha suscitou desagrados. Como o dito logo acima, seria incompreensível é se não suscitasse. Pode-se, sem dúvida, objetar pela qualidade literária de seus livros, pertinência, pela própria credibilidade da Academia, o que seja, mas a indicação sobretudo ofende exatamente essa noção de contemporaneidade. Cícero é um poeta que tanto escreve dentro de uma vertente formalista quanto mais livre, mas também flerta com a canção popular e, o mais grave de tudo, com a filosofia.

Nesse ponto, realmente a porca torce o rabo, desculpem-me o dito abrupto, porque se há um preconceito visceral da poesia brasileira é em relação à filosofia. Uma não pode ser a outra e, de fato, não ocupam o mesmo espaço nem requerem as mesmas características, mas fazem um namoro fascinante que poucos, como Cícero, conseguiram levar a um casamento. Isso é minha opinião. Os namoros da poesia brasileira com a filosofia ou, noutro extremo, com a canção popular, são sempre muito mais reclamados do que com uma possível tradição com o bom humor. Quando o flerte é com a filosofia, simplesmente ocorre o veto e a determinação estranhamente provém (no mais das vezes) mais dos poetas que dos filósofos. Nesse sentido, pelo menos, ocorreram recentemente debates acalorados nas páginas do mais importante jornal brasileiro e daí afora (ver o artigo em que Mariella Masagão acusa a poesia contemporânea de “sisuda” e “hermética”).

Mas eu não diria isso apenas de Cícero, outros poetas vivos (não tão joviais quanto os antologizados por Adriana) e atuantes também vão à berlinda com os temas metafísicos, do pensamento e da reflexão. Penso que são contemporâneos também e sobretudo porque sua temática não é casuística ou delimitada temporalmente. Nem maiores nem melhores que os outros, isso não, pois não é meu critério, mas me parece absolutamente incompreensível apontar a poesia contemporânea e, ao mesmo tempo, sepultar em vida poetas produtivos e com uma obra complexa ou obliterá-los em razão, ora veja-se, da sua “lírica”. Esse, aliás, é que me parece ser o descolamento mais impressionante da poesia contemporânea: para com a subjetividade. Isso que não estou falando aqui dos que não publicam ou deixaram de publicar (por n razões), mas continuam escrevendo. Ou seus “títulos” de poetas foram cassados porque seus nomes não estão nas feiras e festas literárias e antologias da hora?

Seja como for, na minha opinião, há muita injustiça no mundo e continuará havendo; sou muito pessimista em relação a isso. Eu apenas considero relevante apontá-la e suas nuances e implicações secundárias. Espero que seja tolerado por isso.

***

A título de curiosidade, porque foge ao assunto (ou o circunscreve), só há pouco fui assistir ao filme realizado em homenagem ao cantor Freddie Mercury, compositor e vocalista da banda de rock britânica Queen. No filme, além dos nostálgicos momentos musicais, há um momento breve que é muito tocante em meu ponto de vista. A cena transcorre quando a banda está dissolvida, antes do regresso no Live Aid, e Mercury está solitário, já se sabe soropositivo e tenta reatar com o restante dos músicos pois deseja volta a cantar com o grupo.

Num encontro promovido pelo produtor, os músicos aceitam conversar com aquele que os havia dispensado num surto arrogante. Antes de recebê-lo, porém, o guitarrista Brian May, devoto à genialidade do cantor e amigo, resolve dar um “gelo” em Mercury. Os demais integrantes da banda não irão simplesmente recebê-lo com uma festa. Então ele simplesmente alega que a banda tem de conversar um pouco sem a presença de Freddie para decidir. Acontece que os integrantes da banda não falam absolutamente nada. Não trocam uma palavra porque não tinham nada a dizer, mas queriam que o astro de carisma irresistível pensasse um pouco com seus botões, sozinho, e percebesse que precisava dos outros mais até do que eles precisavam dele. Faz parte de ser uma melhor pessoa reconhecer o caráter intrinsecamente humilhante que há na vaidade excessiva.

Essa noção de coadjuvar, de simplesmente “estar com” e de não “estar para este ou aquele” é em meu ponto de vista uma das faltas mais melancólicas da literatura, ainda que não expressa em versos e nem sempre mostrada tão bem quanto após o advento das redes sociais. Como diz o autor (também não antologizável, já que rapper) Mano Brown, “ninguém quer ser coadjuvante de ninguém”. Alguém o refutaria? É que é muito próprio das sociedades violentas, como o Brasil, a escassíssima simpatia para além das listas vip, dos círculos preferenciais, das panelinhas tediosas. Reconhecer a necessidade da presença dos outros não é um traço de grandeza ou nobreza, mas de reconhecimento devido, sobretudo de respeito interpessoal. E de um viés democrático que, infelizmente, não está tão evidente quanto gostaríamos em nosso cordial modo de ser.

Mas notem que nem sempre fomos assim ou, não sei, talvez tenhamos sido mesmo e só agora nos é facultado esclarecê-lo. Sempre que penso nisso, lembro-me dessa foto e, ainda que seja impossível entender o que passaria naquelas cabeças, eu nunca vejo um pódio. Mas eu sou um lírico, não contem comigo para espezinhar a malevolência humana. O que eu tenho mais dos poetas é um pouco de pena, porque julgo entender um pouco do que os anima. Para mim, são pobres estrelas desconsteladas, sobrando no vazio noturno, com suas arestas ferindo a poesia inacessível da noite..

Não se discute

Tem duas situações específicas que me deixam p da vida com Jorge Luis Borges. Nenhuma delas diz respeito a ele mesmo, mas ao que dele fizeram e continuam a fazer.

A primeira delas é uma tradução deturpada de um poema seu, o “Poema de los dones”, no qual ele narra o drama da perda da visão num dos períodos da vida em que trabalhou na Biblioteca Nacional da Argentina.

Nesses tempos de “objetificação bibliófila”, quando a exposição do objeto livro vale pelo menos o triplo do seu conteúdo – seguidamente me aparece uma tradução capciosa de Borges, na qual ele teria dito que “o paraíso é uma forma de livraria”. Uma homenagem ao estabelecimento comercial que Borges, com efeito, nunca produziu, porque o original de seus versos, no “Poema de los dones“, diz apenas o seguinte: “Lento en mi sombra, la penumbra hueca / exploro con el báculo indeciso, / yo, que me figuraba el Paraíso / bajo la especie de una biblioteca.”

De que forma “biblioteca” passou a ser “livraria” nessa versão muito difundida pela internet eu não consigo explicar. Se Borges tivesse utilizado “librería” ainda vá lá, mas “biblioteca” traduz-se para “biblioteca” do espanhol ao português. Dirão que é preciosismo meu e que são quase sinônimos e que o sentido não se altera.

Como assim não se altera?

De uma instituição pública e não comercial a uma outra inteiramente mercantil há uma diferença abissal. Além do mais, neste poema Borges comenta da crescente cegueira que o acometia no período em que atuara como bibliotecário e depois como diretor da Biblioteca Nacional da Argentina. Desta forma, se ao menos o poema se referisse a uma improvável experiência dele como livreiro ou vendedor de livros, acho que seria mais aceitável a deturpação. Como essa passagem biográfica efetivamente não confere com a realidade, não se justifica o uso. E o mais curioso (mas pouco engraçado) é que através do Google, Vossa Quintessência da era digital, prospera muito mais a versão deturpada da citação do que a correta. A bem dizer, curioso mesmo seria caso se desse o contrário..

Acho essa deturpação muito grave e triste para os bibliotecários de um modo geral, que assim veem surrupiado (não me ocorre outro termo) o seu direito a reivindicar o coleguismo e patronato do caríssimo Jorge. É como se os futebolistas não pudessem mais falar em Pelé, por exemplo, mas apenas num vendedor de chuteiras. Ou Maradona, a fim de que não se entre na querela geopolítica que anima as nações vizinhas.

Mas é da vida e ela, como se sabe bem, nem sempre é justa.

De todo o modo, toda a cultura livresca gosta muito de se referir a Borges e sua devoção ao hábito da leitura. É como se fosse um patrono universal do livro, reconhecimento supremo para um escritor. E justíssimo no caso dele, diga-se de passagem. No Brasil, entretanto, o objeto livro é informalmente patronado por Monteiro Lobato. O escritor, cuja obra (e biografia) hoje está envolvida em polêmicas raciais, além de editor (foi co-fundador da Brasiliense com Caio Prado Júnior e outros), transformou em pontos livreiros cada casa de comércio interior do Brasil adentro, entre farmácias e padarias, chegando a 2.000 pontos de venda – número hoje muito provavelmente inexistente… Mas temos o Google aí, que sempre serve para alguma coisa.

Assim como Lobato, Borges também é eventualmente criticado – e duramente – por razões estranhas à literatura. No seu caso, por declarado conservadorismo e simpatia para com o governo militar argentino. Posicionamentos condenáveis quanto a política e momentos políticos evidentemente não são privilégios de conservadores, mas, pelo menos aqui nesse texto despretensioso, não fazem diferença e não têm interesse algum. Os objetos de minha encrenca com Borges aqui são outros e o segundo deles diz respeito à certa apropriação indébita que explico melhor a seguir.

Bem, se estivesse conhecendo-o agora, julgaria que Jorge Luis Borges fosse porto-alegrense. Logo ele, que tão pouco se preocupou com os assuntos dos vizinhos de cá do Rio da Prata. É sério isso. Às vezes me parece que nem os buenairenses têm tanta devoção a Jorge Luis Borges quanto os porto-alegrenses. Eu classifico a “coisa” como obsessão. Não encontro termo melhor.

Nada contra, em absoluto, à relevância literária de Borges, mas às vezes tanta citação e reverência me parecem revelar certo desejo inconfesso dos gaúchos imaginarem-se platinos e em imaginarem Porto Alegre como um prolongamento fantasioso de Buenos Aires. Também classifico a isso como obsessão. E repito, nada disso é contra Borges nem muito menos contra Buenos Aires, mas às vezes acho muito deslocado (para não dizer afetado) encontrar na população riograndense de um modo geral identificação tão plena e rápida com Borges. E Porto Alegre, bem, procurando ser justo com a prata da casa, creio que não necessita tanto assim desse frenético platinismo.

Por mais que considere incomparáveis a obra de um e de outro, acho que Porto Alegre ainda deve muito a sua própria caracterização e identidade a Mario Quintana, que dedicou à cidade versos de autêntico carinho e inspiração peculiares. Mas Quintana, assim como nunca foi bom o bastante para a Academia Brasileira de Letras, parece ainda hoje não ser uma referência suficientemente boa para os próprios porto-alegrenses. E olha que o homem escreveu “O Mapa”..

Não basta. Na síndrome de vira-latismo porto-alegrense, quaisquer valores locais são menosprezados diante do menor efeito blasé vindo do exterior, nem que seja logo ali do Mampituba. Isso acontece com Quintana, com Érico e até com o seu filho Luis Fernando, cronista ímpar e inigualável da literatura brasileira. Todos “superados”. Às vezes desconfio, aliás, que um escritor gaúcho é superado desde antes de começar a escrever. E o mais estranho de tudo, por seus próprios pares e críticos… Mas a Argentina, ah a Argentina… Tem Cortazar, Saer, Sábato, Arlt, Piglia e mais um monte de escritores colossais. E, ainda por cima, Borges.

Dito isso, deveríamos os gaúchos deitarmo-nos ao chão e esperar a passagem triunfal dos hermanos sobre as nossas cabeças medíocres. O povo daqui, se ouvisse o ruído dos crânios partindo-se, decerto não faria nada e citaria como exemplo de autor o velho Borges, num masoquismo muito particular e nosso. Principalmente isso: nosso.

Humildade, aliás, é exatamente a segunda razão que me faz ficar p com Jorge Luis Borges. Por mais glorioso e valoroso que seja, quanto a livros e bibliotecas e talvez postura de vida, me identifico muito mais com o “simplório” Quintana. Acho magnífica essa foto dele, sentado anônimo em uma de mesas da Biblioteca Pública do Estado, lendo tão absortamente quanto perfeito pode ser o gesto da leitura: íntimo, silencioso e discreto.

Quanto a Borges, há inúmeras e majestosas imagens suas na Biblioteca Nacional da Argentina, como esta que uni arbitrariamente a de Quintana. Mas é esse o ponto a que queria chegar: me enraivece Borges não por ele mesmo, nunca isso me passou pela cabeça, mas me irrita a reverência excessiva com que os gaúchos muitas vezes lhe tratam, quando é apenas mais um entre os escritores e que provavelmente não daria a menor importância à importância que por aqui lhe dão. E além do mais, não se trata de admirá-lo como gaúcho fosse, mas como argentino que é, no que isso é bom e mau.

Os gaúchos, portanto, não Borges, me fazem muitas vezes cansar de (e por) Borges e às vezes preferir a ele qualquer quadrinha infantil do Mário Quintana, numa comparação ridícula porque ridícula é toda essa veneração. Mas Borges é inocente de ambas as culpas que ele não têm e mal lhe atribuo, eu sei. Mesmo assim, na ausência de qualquer melhor argumento e na presença de uma comparação esdrúxula como essa, Quintana era muito mais simpático e quanto a isso não se discute.

Educação 2.0

Amálgama

De uma forma que aparenta ser muitas vezes incoerente à realidade presente, especialmente a brasileira, o campo educacional é dos mais exuberantes quando percebido como território da experimentação e instrumentalização do conhecimento. Isso se deve tanto ao incremento de aplicações tecnológicas e de renovadas formas de mediação entre conteúdo e aprendentes quanto à proliferação massiva de dispositivos de interface digitais. No entanto será a conjugação destes dois elementos – irrefreáveis ao que tudo indica – o suficiente para dar conta de providenciar uma melhor educação às comunidades escolares brasileiras e de incluir ao tecido social do século 21 um dos maiores contingentes de analfabetos funcionais de todo o mundo?

Há cerca de uma década, numa ação conjunta do Instituto Paulo Montenegro (IBOPE) e da ONG Ação Educativa, vem sendo mensurado no Brasil o nível de analfabetismo funcional da população. Acredite-se ou não, o índice alarmante de 30% da população dentro da condição já foi ainda mais expressivo. Teria chegado a 39% da população entre 15 e 65 anos de idade no ano de 2001, mais ou menos quando a pesquisa mudou seus critérios de classificação. De acordo com a metodologia atualmente empregada na pesquisa, as faixas de classificação compreendem desde o analfabetismo absoluto e ausência de qualquer letramento até o denominado analfabetismo rudimentar, critério no qual está presente a compreensão dos signos numéricos e linguísticos, mas escassa capacidade interpretativa e relacional.

De todos os números obtidos na pesquisa, provavelmente o mais impactante seja o que informa que cerca de 4% dos estudantes universitários brasileiros poderiam ser enquadrados dentro do critério. A informação, além de servir de alerta quanto às formas de ingresso no ensino superior, também é demonstrativa da distinção cada vez mais evidente entre aprendizagem, conhecimento e acesso à educação. Mais do que propriamente atestar a permeabilidade dos sistemas educacionais, a informação prejudica em muito a obtenção do que talvez seja a maior ambição das nações neste século 21: a educação de qualidade.

Esta é uma das preocupações que o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens e Homo Deus, acaba de trazer em seu mais recente livro: 21 Lições para o século 21. Uma educação de qualidade, segundo Harari, seria um produto cada vez mais complexo a depender tanto de autonomia de pensamento quanto da busca pela libertação da influência algoritmos, bancos de dados e demais recursos tecnodependentes.

O que ele mais reitera em seu livro é o fato de que as duas situações fazem como um paradoxo, tendo em vista a expansão da inteligência artificial num ritmo bastante superior à expansão educacional. De acordo com Harari, “pela primeira vez na história, não fazemos ideia do que ensinar às crianças na escola ou aos estudantes na faculdade” e isto se deveria ao declínio da noção humanista da educação em detrimento da profusão tecnológica. Enquanto que na primeira a ênfase do processo educacional estaria na internalização da aprendizagem e dos métodos científicos, na outra este processo seria substituído pela mediação do acesso ao conhecimento e sua instrumentalização pragmática. Trata-se de processos divergentes que, em face da desigualdade de desenvolvimento das nações no processo de globalização, acentuaria ainda mais a irrelevância dos processos educacionais como nos acostumamos a conhecê-los.

À medida que se insere no cotidiano pessoal de uma maneira aparentemente incoercível, cada vez mais vai parecendo natural que a tecnologia ganhe mesmo mais espaço no cotidiano escolar. Não se trata apenas de recursos eventuais, mas de toda uma nova cadeia de produtos educacionais talhados para atender as comunidades escolares num padrão com o qual os alunos, principalmente, seriam beneficiados com customização, interatividade e construção de conhecimento em ambientes supostamente mais colaborativos do que competitivos. Caso tudo ocorra conforme o imaginado e prometido pelos desenvolvedores em tecnologia, tudo isso deveria caminhar no sentido de atender as pessoas cada vez mais em suas particularidades e este parece ser o grande canto da sereia tecnológica no ramo educacional. Ocorre que essa mesma tendência, por outro lado, pode competir em que mais e mais se automatize todo o processo cognitivo, eliminando-se as nuances da percepção humana e opacizando-se as características sócio-emocionais dos indivíduos.

Ainda que em algum momento possa tornar-se impossível resistir ao encanto da tecnologia educacional, é inegavelmente importante testá-la ao extremo e confrontá-la com desafios mais complexos que aplicações demonstrativas. Segundo o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, um dos principais críticos da sociedade digital e do que chama por homo digitalis, dispositivos digitais costumam funcionar de forma repetitiva e através de estímulos centrados unicamente em recompensas. A construção de hipóteses e sua refutação, elementos fundantes do método analítico, seriam substituídas por estímulos quase behavioristas e, de acordo com ele, cognitivamente empobrecedores. Yuval Harari também é um pensador contemporâneo que costuma cercar-se de cautela ao conjugar os assuntos. Para ele, o predomínio da tecnologia sobre o controle humano vem sendo menosprezado e estaríamos caminhando com pressa rumo a uma sociedade do biocontrole extremo. Harari vai ainda mais além em suas previsões, chegando mesmo a temer por que contingentes populacionais imensos (e também nações inteiras) em breve se tornem irrelevantes e venham a enfrentar problemas graves como o desemprego em massa e a desassistência. Algo como nem Michel Foucault teria imaginado em suas digressões micropolíticas mais sombrias a respeito do século 20.

Com tudo isso, porém ainda inexiste um consenso internacional a respeito do emprego massivo de recursos tecnológicos na educação. Na França de Emanuel Macron, por exemplo, neste ano proibiu-se completamente o uso de celulares nas escolas. A legislação aprovada no parlamento francês abre como única exceção para o uso de tecnologias assistivas que beneficiam alunos com deficiências físicas ou dificuldades motoras. Mesmo assim, todos os casos são analisados individualmente. A França, é bom lembrar, é dos poucos países ocidentais que do orçamento público destinam a maior fatia para a educação. Na China gigantesca, de outro modo, a realidade é outra e seu entusiasmo com a tecnologia educacional é crescente a ponto de projetarem-se para o país os maiores investimentos de que se tem notícia. Lá é onde o megainvestidor Lee Kai-Fu, ex-presidente local do Google, pretende desenvolver um ambicioso projeto de inteligência artificial, tendo em vista atingir a hiperpopulação chinesa assim como colaborar nas pretensões globais do país.

Quanto ao Brasil e os dados locais, a realidade presente é bem outra. Ou então, mais apropriadamente, trata-se de “outras realidades”. Como em quase tudo no país, por aqui são encontráveis desde ilhas de excelência tecnológica até um vasto território de anomia e visível deterioração. Permeada por carências tão bem conhecidas como socialmente mal enfrentadas, continua padecendo a educação pública, por exemplo, com uma série histórica de maus indicadores em tudo semelhantes aos demais indicadores nacionais sobre distribuição de renda e mobilidade social. De acordo com o IBGE, a chance de que os filhos tenham ocupações semelhantes aos seus pais é muito grande, ou seja, no Brasil os filhos costumam herdar de seus pais, além das condições econômicas, as culturais. O que também é sintomático da estagnação da qualidade educacional.

É o que informa, por exemplo, o Censo Escolar de 2017 (o de 2018 se encontra em finalização) ao apontar que 61% das escolas municipais não contam sequer com bibliotecas. Enquanto isso, uma minoria de projetos educacionais de alto desempenho e alto custo começam a avançar no mercado da educação privada. Na Bett Educar 2018, uma das principais feiras de produtos educacionais realizadas no Brasil, não havia apenas em exposição recursos de inteligência artificial que nada devem aos desenvolvidos no estrangeiro, mas uma miríade de outros recursos. Trazendo da tecnologia toda uma terminologia até então estranha à educação (mas comum aos estudantes), por ali nem se pensa tanto em bibliotecas como em hubs. Pouco se fala em sala de leitura e livros, mas bem mais em gadgets e mobiles. Quase não se vê quem mencione conceitos como “política educacional”, mas muito se comenta a respeito de objetos de aprendizagem. Muito pouco em pedagogia e, em contrapartida, muitíssimo mais em neuroaprendizagem.

A revolução educacional tecnológica do século 21, como se pode perceber, já está acontecendo também no Brasil. Apenas que por enquanto acessível somente a quem pode custear um investimento mensal de cinco dígitos, como o cobrado pelas novas escolas da elite paulistana, como a Avenues ou a Concept. Ocorre que, como dificilmente seria diferente, a introdução dessas mudanças acaba refletindo-se também no universo das escolas tradicionais. Assim que ninguém deverá ser pego de surpresa quando, ao invés de um trabalho coletivo de finalização do ano escolar, seja proposto como objeto de estudo o desenvolvimento de um app, um torneio de videogames ou uma feira de coding (programação).

Mesmo que o cenário da tecnologia adentrando as salas de aula não seja mais exatamente uma novidade, é uma ideia que ainda causa algum assombro. Longe de tratar-se de uma guinada súbita, é preciso lembrar que a preparação para tudo isso vem sendo feita em casa, individualmente. De posse de smartphones, tablets e da oferta de conexões até mesmo em geladeiras, a imagem mais cristalizada do processo educativo – o professor e a lousa preta – parece cada vez mais defasada e vintage. No mundo real e contemporâneo, muitos ambientes educacionais atualmente já não estão recebendo alunos e apostilas, mas hackers potenciais em vias de civilização e aprimoramento. É uma perspectiva nova, sem dúvida, mas como freá-la? E, principalmente, como democratizá-la para que não se aprofunde ainda mais o abismo da desigualdade e da irrelevância?

Talvez o que mais aflija os interessados na essência do trabalho trabalho educacional e no seu encontro fatal com a revolução tecnológica digital possa ser a natureza das competências que estão sendo desenvolvidas nesse novo ambiente. Além disso, também é bom lembrar que ocorrem na escola bem mais coisas do que aprendizagem, reprodução, testagem, criação, etc. Há também laços sociais, convivência, ética mútua e sobretudo diversidade humana. E o desafio de universalizar o ensino e o acesso à educação como bem social, além de constituir um dos eixos central da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, talvez continue sendo algo como o equilíbrio possível entre o desejo francês por igualdade de condições e o chinês por inovação.

Seja como for, sob a batuta quase invisível dos algoritmos ou sobre as linhas dos últimos livros didáticos impressos, cada vez mais vai se naturalizando a ideia de que o natural a acontecer – e muito em breve – é que um ou mais elemento tecnológico integrará a vida educacional e pelo menos alguns elementos de inteligência artificial tomarão conta também deste terreno no qual sempre estiveram pareados dois seres humanos: o ensinante e o aprendente.

Já não mais como na imagem de Aristóteles argumentando com Alexandre – a própria sagração da dialética como forma de instrução e elucidação do pensamento -, é possível que a imagem do estudante venha a tornar-se cada mais vez semelhante a nossa mesma imagem cotidiana: o olhar mais preso à tela do que ao mundo e muitos pescoços curvados. Já quanto ao que isso pode vir a proporcionar no futuro em termos de paz social e desenvolvimento equitativo ainda não se pode dimensionar ao certo. A princípio, o que se sabe muito bem é que uma das principais preocupações da indústria tecnológica tem sido para com a projeção de sua própria obsolescência e incremento comercial. Dentro dessa lógica, é possível mesmo projetar uma imagem como a de Chaplin em Tempos Modernos, mas de muitas pessoas soterradas em chips e bits sem nenhum significado, como se na grande lixeira de um sistema operacional sem grande serventia.

De outro modo, o único possível de garantir por enquanto é que, seja sob quais meios forem, continuará sendo tarefa da educação formar pessoas aptas ao livre arbítrio, a inclusão daqueles alijados da vida social por qualquer razão e a ampliação dos horizontes cultural e científico de cada um e de todos. O esforço científico e tecnológico em instrumentalizar a aprendizagem humana, dado o infinito repositório de informações da internet, terá pouca valia se não colaborar em que cada estudante possa discernir do que é real ou ilusório, do que é fato ou fake new, do que é conhecimento científico ou mera crendice.

A recente resposta elaborada pela OECD com a assessoria do pesquisador e estatístico Andreas Schleicher sobre “como construir uma escola de qualidade para século XXI“, além de valorizar os próprios métodos de avaliação, passa por que sejam sobrepujadas as desigualdades econômicas através do investimento em educação. O exemplo de países como Finlândia, Japão e Coreia do Sul, sempre lembrados como experiências a perseguir, são excepcionais principalmente porque contam com a confiança pública. Na busca por restaurá-la em situações de crise, como a brasileira, talvez fosse prudente lançar mão de valores de coesão principalmente em torno da educação básica. O investimento em tecnologia em cenários como esse nunca deveria ser como a anteposição da carroça aos bois. Neste como em outros casos, a tecnologia não deveria ser um fim em si mesmo nem uma solução que credenciasse por antecipação as melhores escolas e experiências. A depender de nós (e de nossas escolhas presumivelmente racionais) poderá vir a ser parte da solução ou então mais uma etapa dos problemas educacionais do tempo presente e futuro.

Do que me lembra Victor Jara

Em fins da década de 70 e princípio dos anos 80, ainda fazia muito sucesso principalmente entre os estudantes universitários a canção de protesto latinoamericana. Num tempo sem direito a factchek nem fakenews (pelo menos oficialmente), as notícias corriam de boca em boca, de mimeógrafo em mimeógrafo e livros e discos andavam de mão em mão e toca-discos hoje em sua maioria obsoletos.

Foi nesse tempo (hoje parece muito mais tempo do que de fato é) que conheci os discos de Victor Jara e dos demais artistas latinoamericanos da época. Era impressionante o que se produzia fonograficamente naquela época e a riqueza sonora e gráfica dos antigos discos de vinil comparados ao streaming de hoje é algo incomparável. Isso falando em qualidade de áudio mesmo. E os discos e encartes eram um deleite à parte.

Eu, uma criança em torno dos dez anos de idade, ouvia embasbacado aquela musicalidade muito poderosa toda escrita e cantada em espanhol. Assim que, aliado a ter nascido próximo à fronteira do Uruguai, fui precocemente introduzido ao idioma espanhol através da nueva canción chilena e da mixagem de folclore e canção de protesto produzida principalmente na Argentina e Uruguai. A experiência foi tão marcante que quando anos mais tarde fui ler meu primeiro livro em espanhol, parecia que dentro de minha mente se havia despertado um hispanohablante por conta própria, de tanto que riscara aqueles discos que perambulavam em minha casa trazidos pelas mãos de meus irmãos mais velhos, universitários à época.

Ao lado daquele conteúdo dramático e, mesmo naquele tempo ainda subversivo, paralelamente ouvia também a construção de toda uma mitologia em torno ao martírio revolucionário, levada a efeito em seus ícones políticos, mas sobretudo nos artistas engajados. Assim que, por muito tempo, muitos daqueles personagens misturaram-se em minha mente através do que era comentado à boca pequena, entre uma faixa e outra daquela abundante discografia.

Victor Jara, a quem quase meio século depois de sua morte finalmente é feito justiça, além de brutalmente executado com 45 tiros, teria tido antes de morrer, segundo se comentava, as mãos atoradas por torturdores. Não que isso diminua a barbárie, mas parece que na realidade não foram. Sobre o folclorista Atahualpa Yupanqui dizia-se algo semelhante: que teria tido as mãos esmagadas por uma máquina de escrever (mas antes dos militares, durante o último governo de Juan Perón) pela polícia e por isso tocava com a mão esquerda. Porém, na verdade, ele sempre fora canhoto. Violeta Parra, também chilena, teria cometido suicídio mar adentro, mas quem o fez realmente foi a poeta Alfonsina Storni, ainda na década de 30, conforme canção imortalizada por Mercedes Sosa, esta sim intérprete inigualável de todo o cancioneiro latinoamericano de protesto. Violeta, na verdade, disparou um tiro de espingarda contra si mesma em uma situação envolvendo conflitos afetivos, bem como mostra o filme Violeta subio a los cielos, antes mesmo que Salvador Allende chegasse ao poder no Chile.

Toda essa mitologia tinha o claro propósito de sensibilizar as pessoas quanto à injustiça e abusos das ditaduras e por tabela também alargar as fileiras e emoções do movimento estudantil de esquerda e simpatizantes dos opositores aos regimes totalitários.

Muitos anos mais tarde, em 2014, ninguém menos que o próprio Eduardo Galeano, o autor do clássico-anticolonial As veias abertas da América Latina, foi um dos primeiros artistas da época a admitir que seu livro era menos um documento do que um panfleto e que admitia não ter na época qualificação para escrevê-lo e que não seria capaz nem de reescrevê-lo e nem de reler esse livro: “cairia dormindo”, segundo suas próprias palavras.

Apesar da ficção e da mitologia, entretanto são inegáveis as injustiças, abusos e violências perpetradas nestes países por cerca de duas décadas, atingindo mais de uma geração de pessoas. A justiça tardia quanto ao caso de Victor Jara (e ainda por ser feita em inúmeros casos no Brasil), me traz à lembrança aquela cantata que Jara conduziu junto ao grupo musical Quilapayun sobre o massacre de mineiros grevistas na cidade de Santa Maria de Iquique em 1907, e o quanto me impactou aquele relato que de certo modo veio a se repetir na ditadura de Pinochet, na qual sucumbiu entre tantos o próprio cantor e compositor.

A condenação final, obtida inicialmente em processo movido em 2013 pela viúva do cantor em Orlando, nos Estados Unidos, chegou há poucos anos à Corte de Apelação chilena, que tem decidido por condenar violações aos direitos humanos no regime ditatorial. Seja como for, penso que faz muito bem o Chile em procurar entender-se com o seu passado. Nem estou pensando nas retratações e punições cabíveis, mas num acordo sentimental para com o seu próprio povo e história. Por outro lado, me parece que faz muito mal ao Brasil continuar a escamotear a violência entre seus compatriotas durante o período militar. Parece-me que muito do compreensível ressentimento político ainda presente teria sido dessa forma amenizado. Talvez por isso e também porque aqui se continue a trocar investigações e devido processo legal por indenizações pecuniárias, os fantasmas da violência do regime ditatorial custem tanto ainda a se recolher para sempre na sua indignidade e estupidez.