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O paradoxo da incomunicabilidade em rede

“Como podemos nos entender (…), se nas palavras que digo coloco o sentido e o valor das coisas como se encontram dentro de mim; enquanto quem as escuta inevitavelmente as assume com o sentido e o valor que têm para si, do mundo que tem dentro de si?”

Luigi Pirandello – Seis Personagens À Procura de Um Autor (1921)

Talvez por um distanciamento ainda muito tênue, tudo o que tem se dito (e se diz muito, o tempo inteiro) a respeito da comunicação após o advento das redes sociais é bem menos relevante do que as ciências sociais e a filosofia disseram sobre comunicação de um modo geral antes desse grande divisor de águas que fundou como se uma nova internet dentro da internet. Aqui estou dizendo das modernas redes sociais, das redes comerciais como Twitter, Facebook, Instagram e não as redes de conhecimento e inteligência social tal como começaram a pipocar no mundo inteiro em torno da década de 80, apogeu do Telnet, do Alternex e quando os primeiros navegadores da incipiente world wide web penavam para carregar as primeiras imagens e fotografias de um meio até então restrito exclusivamente aos textos e aos infindáveis comandos exigidos pela sintaxe pré-Macintosh.

Então, embora presentemente diga-se muito a respeito de coisas como identidade, sociedade de massas e conectividade, uma visita rápida aos trabalhos de Jean Baudrillard, de Pierre Lévy e até mesmo dos seminais Erving Goffman e Marshal McLuhan pode ser muito reveladora sobre fenômenos que na aparência são recentes, mas que, na verdade, podem apenas estar representando a continuidade dos sistemas de comunicação que vêm se estruturando ao longo de todo o séc. XX, desembocando na profusão da concomitância de tudo, na massificação digital de um modo geral, como esta com a qual lidamos agora.

Desde a popularização dos computadores pessoais ou, desde mais cedo, da proliferação desembestada de dispositivos portáteis, soube-se que o mundo como era conhecido antes nunca mais seria o mesmo. O mesmo já havia acontecido com outros marcos comunicativos anteriores, como o advento da televisão, do rádio, dos jornais, da imprensa de Gutenberg e assim por diante. E embora esse pareça ser apenas mais um lugar-comum, o pingo de verdade que há em dizer que o mundo nunca é o mesmo é sempre ao mesmo tempo alentador e assustador. Alentador porque a mudança e a novidade sempre podem se encontrar na perspectiva positiva da esperança. Mas assustador porque temos nos acostumado a pensar o futuro como se condenados a distopias nas quais o humano costuma estar fora de controle do próprio humano e a tecnologia, divinizada, determinando ao seu bel prazer a nossa sorte enquanto espécie. A literatura de ficção, o cinema e mais recentemente os seriados veiculados em streaming media aí estão para não me deixar mentir.

Ocorre que, sem o surgimento das redes sociais, a internet não seria muito mais do que um citoplasma impreciso cujos elementos internos mal se comunicariam ou então o fariam de forma bastante precária e ocasional. Faltava injetar-se no interior dessa célula algum elemento de aderência, pois a instantaneidade por si só não caracteriza um potencial comunicativo, mas apenas um estado de pré-disposição. Pois a escalada das redes sociais no ambiente internet ocorreu, como se sabe, de forma galopante e incorporou com a mesma velocidade com que se expandiu essa função aderente, passando-se rapidamente dos obscuros fóruns e listas de e-mail até o escancaramento total do Facebook, incluindo aí outras plataformas de maior ou menor durabilidade, muitas hoje extintas ou decrépitas, como o Orkut, por exemplo.

E o mundo realmente parece ter mudado bastante a partir do apogeu do Facebook entre as redes, embora seu fundador, Mark Zuckerberg, costume exagerar bastante nos poderes que sua trademark tem per se. Recentemente, num manifesto (ou textão de Facebook), ele chegou a cogitar que sua iniciativa comercial poderia incidir decisivamente para resolver-se problemas com que historicamente a humanidade tem se debatido, tais como a paz global, a fome, a pobreza, o progresso científico, ou seja, praticamente tudo o que importa, revigorando a já um tanto combalida ideia mcluhaniana de aldeia global.  Para ele, o valor da rede de sua propriedade já teria alterado inclusive seu próprio status inicial: não se trataria mais de uma mera rede sustentada por anúncios, mas de uma comunidade global, supranacional, colaborativa, solidária e altruísta. Bem como uma imagem distorcida, mas autobenevolente, o mundo como o conhecemos estaria, segundo Zuckerberg, rumando para uma nova etapa na qual o trivial “like” (ou melhor: 4,5 bilhões like/dia) propulsionaria o que há de melhor na natureza humana em prol das melhores intenções e realizações. Isso sem falar na ajudinha providenciada pelos robots e algoritmos a serviço da inteligência artificial e, por que não dizer? Até mesmo do seu conteúdo patrocinado e colaboradores…

A questão de embutir no futuro do seu empreendimento o caráter de uma utopia solidária, além de um marketing poderoso, é provável que cumpra também a função de dar a entender que os males do mundo tal como ele é poderão mesmo resolver-se assim: de forma remota e impessoal. É uma ideia que vem muito a calhar com pessoas cada vez mais apartadas dos espaços públicos e confinadas em espaços privados. Mas é a respeito desse caráter impessoal que o Facebook se mostra extrememente eficiente em aparentemente contorná-lo e colaborar em “humanizar” seus usuários, pois através das suas específicas subredes (para não usar o surrado termo “bolhas”) de confirmação, estimula-se pelo menos de forma verbal a convergência de ideias, de intenções e até de ideologias, mesmo que elas venham a converter-se rapidamente em objetos de consumo nas suas diversas formas e fenômenos “compartilháveis”: sejam simples memes, longos textos de fontes influenciadoras ou outros subprodutos.

De um modo um pouco diferente da distopia de Aldous Huxley, o admirável mundo novo da informação das redes sociais é uma ficção que não nos aperta muito os calos, muito pelo contrário, chega a ser prazeroso, pelo menos para aqueles que conseguem manter-se a salvo da crescente onda de dependência tecnológica, fenômeno que fez proliferar mundo afora as até há pouco inimagináveis rehabs digitais. Ocorre que, após as redes sociais, o virtual tornou-se por excelência o mundo da representação, como se um pano de fundo no qual cada um é livre para montá-lo com as peças e links que lhe estão disponíveis e de acordo com a sua preferência.

É de ficção ou de uma série embaralhada de muitas ficções que, portanto, é feito o mundo virtual. Ao contrário de engajamentos reais onde bens ou moedas são trocados, a dinâmica preponderante no ramo das redes comerciais é essencialmente declarativa (e será para sempre gratuita). E é até irônico que, no jargão do Facebook, “engajamento” signifique tão somente o produto de likes, shares e visualizações de determinado conteúdo. Por outro lado, não existe qualquer meio de certificação sobre a qualidade do empenho de um pensamento ou de um gesto de seus usuários, quaisquer que sejam eles. Assim como a intenção de confirmação, o livre falsear está franqueado e, para ampará-lo, uma poderosa indústria noticiosa (onde se incluem fake news e agentes comunicativos de segunda e terceira ordens) fornece o combustível permanente de hiperinformação, sem falar nos grandes vórtices de formulação: formadores de opinião e fontes assentadas na credibilidade, como a mídia tradicional, indústria de entretenimento e agentes institucionais.

Trata-se de um embaralhamento difícil de mensurar e do qual emergem narrativas tão múltiplas e assimétricas como inequiparáveis, realizadas ao bel prazer de qualquer pessoa. E assim, galgando-se o meio virtual através da sucessiva e infinita proliferação de informações, percebe-se às vezes muito claramente o ruído imenso que é gerado através da reverberação continuada do entrechoque das ideias e também do prolongamento da propagação de ideias idênticas, mesmo se formuladas de diferentes maneiras, reformuladas ou remixadas.

Da confluência do ruído proveniente deste intenso êxtase comunicativo (bem como Jean Baudrillard previu em meados dos anos 80, em As Estratégias Fatais) é um tanto quanto inevitável que se evidenciem sinais de exaustão do próprio modelo, porque nele não é registrado o tempo da escuta e o da leitura (que não são percebidos na interlocução), mas apenas o da expressão deliberada e, em sua ausência, um grande vazio de percepção e de sentido. É que aí está o ônus da comunicação escrita: uma precariedade de formato, de ilocução e de formas de avaliação e comparação, travadas pelas formas comunicativas do meio. Formas nas quais nunca é dado aos interlocutores avaliar a integralidade do efeito das trocas intersubjetivas. Isso porque, em última análise, é de subjetividades que se está a falar, pelo menos enquanto não se considerar o aporte e intervenções diretas de mecanismos de inteligência artificial.

Dado que qualquer convencimento extremado pode muito rapidamente transformar-se em aborrecimento continuado e as estratégias de persuasão, principalmente aquelas dirigidas aos conteúdos comportamentais e políticos, converterem-se em policiamento do outro embutido de propósitos colonizadores, a intenção comunicativa apenas cumpre seu objetivo na medida em que os interlocutores compartilhem, além do mesmo repertório, a mesma perspectiva, compreensão e significantes. Em caso contrário, o que prospera é o efeito adverso do conflito e o consequente dissenso. Além disso, é preciso considerar que os indivíduos conformam seus repertórios a partir de necessidades e interesses muito particulares, evitando-se quaisquer outras perspectivas e proposições que possam contradizer a identidade ideológica do indivíduo e dos acertos coletivos que ele tem para com sua rede de contatos. Nesse ponto é interessante notar o quanto as redes sociais comercias são pouco transparentes, pois se não se pode saber nada a respeito do que um indivíduo “não curte” ou “discorda”, pode-se conhecer, por outro lado, todo o seu histórico assertivo. Há, portanto, um sem número de informações negativas não computadas nem registradas, mas evidentemente percebidas na “comunidade”.

Tomando-se, por exemplo, o mais fragoroso dos debates do mundo virtual, o debate político, é notável a pouca permeabilidade de opiniões e a intensa evasão de informações que se pratica e exprime, principalmente ao deliberar-se por enunciar um ponto de vista sempre empedernido, pétreo mesmo, o qual pouco se dá a dialogar, embora sempre muito a confirmar. Segundo o professor George Loewenstein, especialista em consumo e comportamento da Universidade Carnegie Mellon (EUA), a opção “seletiva” não significaria outra coisa que um processo de garantia do bem estar, pois seria bem mais natural e seguro manter-se a salvo dentro de uma zona de conforto do que arriscar-se aos debates. Daí a deliberadamente evitar-se informações contraditórias é um passo dos menores e que requer pouco ou nenhum esforço; basta, como ele diz, “evadir-se”. O que interessa observar em seu estudo é que, nessa dinâmica de comportamento, o encapsulamento das redes acaba por competir no esvaziamento do potencial comunicativo e numa dinâmica comunicativa viciada que pode inclusive tornar as pessoas menos capazes de conviver com ideias e opiniões diferentes.

Bem, apenas por isso, todo o arrazoado de Zuckerberg, bem como as ideias de muitos teóricos que desejariam ver nas redes o substrato e a trama de uma nova política, mais transparente e acessível, fica bastante comprometido. Manuel Castells, sociólogo espanhol que esteve muitas vezes no Brasil divulgando suas ideias a respeito da sociedade em rede e autor de uma dezena de livros sobre o assunto, já disse algumas vezes acreditar que a sociabilidade humana se encontra a salvo por causa da internet. Segundo ele, a dinâmica comunicativa da internet contribuiria inclusive para diminuir efeitos nocivos da vida contemporânea, como o stress e a depressão.

Por outro lado (aqui no afã de preservar-se a opinião discordante), o historiador israelense Yuval Nohal Harari, autor dos sucessos de vendas Sapiens – Uma História da Humanidade e Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã , traz um opinião bastante diferente. Entre as muitas especulações que Harari faz em seu mais recente livro, ele que não possui sequer uma conta no Facebook, considera que a idolatria da informação pode vir a ser a dinamite fatal do humanismo, principalmente na substituição do humano pelas tecnologias de inteligência artificial e por uma nova reconfiguração da natureza humana, do saber e das relações. Para ele, a internet ser inteiramente benéfica não é outra coisa que a ficção preferencial do tempo atual, assim como outras ficções já serviram a propósitos específicos na história da humanidade. O que mais chama a atenção nas suas ponderações é, de outro modo, o esfarelamento da noção de livre arbítrio e o quanto a tecnologia poderia cumprir o papel de arregimentar as pessoas através de seus inúmeros dispositivos, ludibriando os sentidos e alterando e modificando inclusive as consciências.

O mais interessante de todo o debate em torno dos potenciais da tecnologia e da comunicação tem residido, talvez, é mesmo na disposição mais subjetiva e intrínseca do ser humano. Estejam certas ou equivocadas as suposições de todos os interessados no assunto (é bem possível que não estejam inteiramente certas nem inteiramente equivocadas), o fundamento essencial é o indivíduo e a sua capacidade de interagir e incidir em relação à informação e a outros seres humanos, para além do mundo material ou do virtual. Se as redes comerciais serão mesmo utilizadas para um ainda maior confinamento de ideias e pessoas, além da elaboração de um arsenal infinito de big data com finalidade imprecisa ou, por outro lado, poderá ser o substrato ideal para que se propiciem soluções para os males que a humanidade enfrenta e ainda enfrentará, cria-se um paradoxo dos mais cruciais: o de que as pessoas acabem tornando-se apenas umas o espetáculo das outras e não mais o seu objeto de interesse efetivo e de ação, interditados pelo distanciamento intersubjetivo.

Por outro lado, de posse da certeza de que a efetividade da comunicação se dá bem mais pela vontade das pessoas, pela prontidão de seu aparato perceptivo e por suas capacidades emissivas e interpretativas do que exatamente por uma disponibilidade dos meios, é bastante possível que os problemas comunicativos de hoje sejam muito semelhantes aos de nossos antepassados. E se é possível que se possa mesmo, como alguns temem, virmos a rumar a qualquer momento a uma espécie de colapso comunicativo, isso deverá ocorrer bem menos em função do choque de opiniões do que por uma tendência natural do ser humano em simplesmente não dar o braço a torcer, principalmente em face de prejuízos morais ou ideológicos.

Caso um meio, seja ele analógico ou digital, tenha sido tramado para favorecer valores individuais e aspectos, digamos, mais egotistas do ser (o que seria uma timeline se não esse repositório de autorreferências?), da união de vários indivíduos em torno dessa forma comunicativa inadvertidamente pode advir justamente uma comunidade de seres autocentrados e, paradoxalmente, pouco comunicativos. Como em uma rede ou em qualquer contexto coletivo não está em ninguém individualmente dosar a oferta de informações, o único que resta possível é admitir-se que o ato de comunicar pode ter sido e ainda vir a ser muito facilitado pela tecnologia e seus recursos, mas a comunicação em si mesma ainda depende de mútuo entendimento e o mínimo de consideração pelas diferenças culturais dos envolvidos.

Prova um pouco que essa tendência é muito anterior às redes sociais o registro dessa dificuldade comunicativa ao longo da história. Se filósofos e cientistas sociais eventualmente debruçaram-se direta ou indiretamente sobre estas questões, escritores também o fizeram, mesmo que sob formas literárias. Entre tantos na história da literatura, o próprio autor da epígrafe desse texto, o italiano Luigi Pirandello, já notara no começo do séc. XX que, bem como a comunicação e a incomunicabilidade, o individualismo e a bisbilhotice também são essencialmente humanos.

As redes sociais comerciais, enfim, também estão aí para que cada um possa confirmar isso (ou não) e evitar que especulações como essas pareçam mentira deslavada ou franco delírio. Isso pelo menos até que outro modelo de rede tome o lugar das atuais (e isso fatalmente deverá acontecer uma hora dessas). Um requisito interessante, neste caso, talvez fosse o de qualificar o próprio engajamento comunicativo e afetivo, pois da aprendizagem das redes o que mais se tem podido depreender são informações deturpadas, engajamento precário, um certo culto à indiferença e um pendor mal disfarçado à evasão de informações. De qualquer forma, é bem interessante pensar que, sendo isso tudo apenas uma radiografia do comportamento humano contemporâneo, talvez ainda haja muito a ser feito em prol da comunicabilidade e das próprias pessoas que não apenas mais e mais mediação tecnológica.

2016 e a tangente à curva

2016

Ninguém sabe exatamente quando o tempo passou a ser circular nem quando um artigo que se pretende sério passou a ter de ser iniciado da mesma forma de um conto de ficção científica, mas qualquer um que deseje contar o ano de 2016 sentirá necessidade de primeiramente derribar-se das medidas convencionais do tempo e aceitar apenas embarcar num dado momento da jornada. Casualmente, neste 2016.

Em janeiro, ainda dentro da paisagem distópica e aterradora da tragédia do rompimento da barragem de Mariana, o ano começava (ou o tempo continuava) não muito diferente do que terminaria para aquelas pessoas atingidas: sem sinal de quaisquer providências nem de punição dos responsáveis. A despeito das muitas manifestações populares e de promessas governamentais nunca cumpridas, o cenário de “lama, luto e impunidade permaneceu intacto, como se precisasse ser assim para que se atestasse a ineficiência institucional quando o que está envolvido é a vida das pessoas e a sobrevivência do meio ambiente. A tragédia de Mariana é para o Brasil uma das suas incógnitas temporais: ninguém sabe precisar em que momento da história recente ela foi gestada pela negligência na construção e em sua fiscalização nem muito menos se há um prazo para que os danos causados às pessoas e ao ambiente sejam finalmente reparados.

Também no verão passado, o até hoje mal compreendido vírus Zika iniciava seu trânsito (ainda não encerrado, diga-se de passagem) pelo Brasil. Porém, também é provável que ele viesse circulando no Brasil desde a Copa do Mundo de 2014 tendo chegado por aqui através de visitantes das ilhas do Pacífico, onde se havia manifestado anteriormente. Partindo do sertão nordestino, sua rápida propagação fez com que a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretasse no começo do ano estado de emergência global em função dos crescentes casos de microcefalia, logo a seguir denominada “síndrome congênita do Zika”. Mais recentemente, embora a OMS recentemente tenha retirado o alerta global, pesquisadores declararam esperar que os casos de microcefalia e da síndrome de Guillain Barré, outra intercorrência do vírus, aumentem em outras regiões do Brasil, principalmente na região sudeste. Também a epidemia do Zika parece ter uma origem imprecisa e, dado o mínimo esforço em debelar o vetor da doença, previsão nenhuma de acabar. Os dados sobre a população desassistida  no sertão paraibano igualmente colaboram para um cenário muito distante de ser solucionado.

A batalha do impeachment

Como uma ilha encravada no meio da circularidade de 2016, realizaram-se no Rio de Janeiro, entre agosto e setembro, a Olimpíada e a Paraolimpíada. Apesar de algum pessimismo da opinião pública e do terrível desabamento da recém-inaugurada ciclovia Tim Maia, os eventos transcorreram sem maiores contratempos. A Paraolimpíada, provavelmente por uma baixa expectativa de retorno publicitário, sequer teve sua abertura televisionada pelos canais abertos, o que motivou intensos protestos na comunidade de pessoas com deficiência no Brasil . Mas ainda que ambos os eventos tenham sido bem-sucedidos, logo ao seu final o estado do Rio de Janeiro já viria a decretar estado de calamidade financeira. Com os megaeventos encerrados, era a hora de conferir o saldo final e o prejuízo recaiu amargamente nos serviços públicos e salários do funcionalismo. A crise econômica, como uma caixa de Pandora retida a muito custo, podia já ser aberta e espalhar seus horrores.

Desde o ano anterior, que terminara com os movimentos em torno da Agenda Brasil capitaneada pelo senador Renan Calheiros e com o movimento “Fora Levy”, anunciavam-se já problemas mais sérios na área econômica que logo iriam repercutir nas finanças dos estados e também dos municípios. Além do Rio de Janeiro, o Rio Grande do Sul também decretou estado de calamidade financeira e outros 15 estados estudam fazer o mesmo. Contas no vermelho, parcelamento nos salários e projetos de ajuste fiscal no âmbito estadual fazem do cenário uma paisagem desoladora que o governo federal repete no seu âmbito e vem buscar deter através da PEC 55, projeto de ajuste em tudo semelhante ao PLP 257/2016, originado em 2014, mas que passou a contar com a oposição de sindicalistas, movimentos sociais e dos partidos que deixaram o governo logo após o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a posse de seu antigo vice, o presidente Michel Temer, ao final de agosto.

Toda essa impressão de circularidade, todavia, poderia ser quebrada através da observação do movimento político na esfera federal, tendo em vista que o ano foi iniciado com uma composição de governo e terminou com outra. Ainda que por um determinado tempo tivessem sido o mesmo, numa composição de forças organizada anteriormente, precisamente no ano de 2011, quando se formou a chapa encabeçada por Dilma Rousseff, do PT, e tendo como vice o atual presidente, Michel Temer, do PMDB, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff pode ser apontado sem dificuldades como o grande divisor de águas do ano na política nacional, assim como as eleições municipais de outubro a confirmação da tendência de rejeição ao governo anterior e aos partidos de esquerda.

Com a opinião pública aparentemente dividida apenas entre apoiadores e detratores do impeachment, com a polarização política levada ao extremo e contando com uma intensa batalha jurídica e grandes manifestações populares como background, o processo realizou todo o percurso previsto na Constituição Federal, desde a aprovação do pedido numa Câmara dos Deputados ainda presidida pelo ex-deputado Eduardo Cunha, até a aprovação final no Senado, com 61 votos favoráveis e 20 contrários.

Um governo sem um projeto claro

O pedido de impeachment protocolado pela advogada Janaina Paschoal e pelos juristas Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior tramitou por longos meses e, ao lado do avanço da Operação Lava-Jato, dinamitou as relações políticas no país inteiro, cuja estagnação econômica iria despencar logo em seguida para números negativos. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projetou uma queda de 3,3% no PIB brasileiro para 2016 e um cenário de estagnação para 2017. Para o Fundo Monetário Internacional, o ano deve fechar com uma taxa desemprego em torno dos 11,2%. O mesmo movimento parece ter dinamitado também as relações pessoais de um modo geral. Nas redes sociais, os efeitos da saturação informativa  evoluiram, às vezes, para um acirramento sem precedentes que aqui mesmo no Observatório da Imprensa foi equiparado a uma “briga de foice.

Ao final de novembro, o mesmo Hélio Bicudo autor do pedido de impeachment de Dilma Rousseff declarou em entrevista à revista Época que “o impeachment de Temer já deveria ter ocorrido” . A Lava-Jato, operação iniciada em 2009, depois de investigar nomes do antigo governo do PT, em operações de caixa 2 e outros crimes administrativos, passou a investigar também doações feitas a políticos do PSDB, figurando inclusive na capa da revista Veja . No âmbito da investigação, políticos como o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e os ex-governadores do estado do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho e Eduardo Paes, foram presos em operações levadas a efeito pela Polícia Federal. De acordo com o MPF, outras operações devem ocorrer ainda em 2016 e prolongar-se em 2017, envolvendo centenas de políticos e empresários, tendo-se em vista o desvio de bilhões de reais das contas da Petrobras , além da celebração do maior acordo de leniência com a Odebrecht, que resultará no pagamento da multa nem um pouco irrisória de sete bilhões de reais.

Um ponto completamente fora da circularidade foi sem dúvida o trágico acidente envolvendo o time de futebol catarinense da Chapecoense, que vitimou setenta pessoas na Colômbia, onde seria disputada a final da Copa Sul-Americana. A comoção popular chegou ao mundo inteiro, dentro e fora do esporte e uma homenagem  protagonizada espontaneamente pelos colombianos na data em que se disputaria a final simbolizou a perplexidade que atravessou o país inteiro, rendendo imagens tocantes da população que se reuniu no estádio Atanasio Girardot. Uma vez que o soterramento do Rio Doce Mariana aconteceu em 2015, apesar de haver se prolongado durante todo o ano, o desastre da Chapecoense provavelmente terá sido mesmo o grande evento trágico do ano, a despeito de outras tragédias duradouras e já velhas conhecidas, como a da população indígena e a da discriminação racial, mas principalmente pelo imponderável que há em tragédias assim.

Se em algum momento houve realmente alguma linearidade na história recente, 2016 pode talvez ser encarado como o ano em que simplesmente se deu continuidade a um ou vários processos já em curso. Seja no afunilamento institucional no campo político, no crescente embate entres os poderes de Estado ou no hiato administrativo caracterizado em um governo sem um projeto claro, é como se o tempo simplesmente pudesse desaguar no próximo janeiro e seguir seu curso ininterrupto. Dessa forma, é bem possível que tanto a tragédia humanitária em torno do Xingu e da usina de Belo Monte, a epidemia de Zika e de outras doenças virais transmitidas pelo aedes aegypti em decorrência de más condições sanitárias tenham vindo mesmo para ficar, assim como a Lava Jato e a conflagração política e o amplo dissenso político, notado principalmente no acirramento de opiniões nas redes sociais.

Tangenciar os problemas

O mais curioso, ou não tão curioso assim, é que justamente a operação Lava-Jato tenha recebido os maiores “investimentos” para sua eliminação. Trata-se do esforço empreendido pelo poder legislativo em derrubar o pacote anticorrupção , conjunto de medidas de ampliação da capacidade de investigação e o endurecimento de penalidades para com políticos envolvidos em crimes de corrupção. Tendo reunido interesses e partidos tão diversos quanto o espectro de investigados pela própria Lava-Jato, ainda assim não foi um movimento suficiente para evitar que o STF aceitasse denúncia de 2006 e transformasse o presidente do Senado Renan Calheiros em réu nem tampouco em ter reunido no início de dezembro dezenas de manifestações em todo o Brasil, tendo o combate à corrupção e a imagem de Renan como focos principais . Mais uma prova de que mesmo um fato de tal ineditismo nem sempre obedece a uma lógica cronológica coerente.

Com a credibilidade dos partidos políticos parecendo cada vez mais residual e apesar de ser perceptível um maior prejuízo para os partidos de esquerda, ainda assim a população parece ainda não conseguir distinguir a emergência de nem um novo projeto político, mas apenas o reavivamento mortiço de antigas figuras que, curiosamente, parece mesmo que serão as que levarão o Brasil ao futuro. Mesmo que políticos pareçam no mais das vezes apenas pessoas que dão voltas em torno de si mesmas numa composição formada por nomes e imagens desgastadas (diga-se de passagem em todos os poderes e esferas), é justamente com a desconfiança popular em alta e as contas e serviços públicos em baixa que o país caminhará para 2017 para dirigir-se muito em breve a um novo processo eleitoral.

Ponto a ponto e caso a caso, como em sucessivas marcações da circularidade histórica, ao fim de mais um ano o que parece escassear não é propriamente o tempo, mas as possibilidades de pontos de corte radicais na circularidade das vicissitudes históricas e políticas nacionais. Tangenciar os problemas às vezes parece indispensável e o mais sábio a fazer, mas também pode acabar por competir num afastamento de toda e qualquer centralidade. Acontece na astronomia com os satélites desgovernados. Sobre qualquer outra analogia o autor exime-se da responsabilidade.

Disputa de narrativas, ideias lacradas ou mera briga de foices?

No populário brasileiro, nenhuma briga pode ser mais encarniçada do que a briga de foice. Trata-se de uma espécie de escaramuça peculiaríssima na qual ninguém invoca o bom senso, as regras, se haviam, foram previamente inutilizadas pelos contendores e o único limite aceitável, já que não há outro que seja conhecido, é o da decapitação final do adversário. Pois não é nem mais nem menos que isso em que tem se transformado a grande maioria das disputas de opinião em torno da aspiração da verdade desde que o impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff foi votado pela Câmara dos Deputados, em 16 de abril deste ano, em sessão presidida pelo agora cassado ex-deputado Eduardo Cunha. E pode-se debitar este mesmo qualificativo tanto às mais especializadas opiniões quanto às menos importantes, que se fazem de boca a boca ou, como mais usualmente, de teclado a teclado.

O cenário, como qualquer leitor atento já percebeu por conta própria, é desde então marcado por um profundo desencontro de expectativas, ideias, perspectivas, compreensões e também de um termo cada vez mais caro a uma boa parte das opiniões escritas e divulgadas nos meios de comunicação e redes sociais: as famosas narrativas. Com efeito, provavelmente não existe viva alma entre os leitores que ainda não tenha tomado conhecimento do amplo dissenso de opiniões como expressão de uma possível “disputa de narrativas”. Em que pese a acepção do termo recém incorporado pelo jornalismo opinativo ter assumido uma importância desproporcional na disputa pelo esclarecimento dos acontecimentos políticos recentes, de certo modo não deixa de corresponder ao seu significado original, de construção arbitrária dos fatos, sejam eles ficcionais ou apanhados diretamente do real.

De acordo com o dicionário Houaiss, “narrativa” é um termo polissêmico que tanto pode significar o ato ou efeito de narrar, seus diferentes estilos e modos, o mero encadeamento de acontecimentos ou mesmo forma de denominar a escrita ficcional de um modo geral. De posse dessa definição não custa muito notar que a disputa política em torno do impedimento extrapola em muito a oficialização ou a legitimação discursiva, mas chega às raias da validação de cada fato ou afirmação que venham a público, degringolando para uma guerra de informação nos moldes do bom e velho Ésquilo (525 a.C. – 456 a.C.), ainda que a célebre sentença atribuída a ele, “na guerra, a verdade é a primeira vítima”, também não possa tanto assim corresponder à verdade. Mas, bem dizendo, alguém está ligando para isso?

Verdade verdadeira ou mentira mal contada, na mão de um bom contendor tudo serve para golpear, já que este é um verbo que também não pode faltar. E caso uma informação qualquer se comprove equivocada ou fraudulenta, uma outra ainda mais grave ou impactante sempre estará a postos para tomar o seu lugar e fazer o corpo cerrado do “bom debate”, ainda que se recorram a frases não ditas, declarações não feitas e estratégias informativas do mesmo gênero, tão verdadeiras quanto uma plantação de animais pode ser.

Bem, dessa situação precisa e de uma crônica futebolística imaginativa, com o auxílio de factoides de segunda ordem sobre celebridades e subcelebridades, vem sobrevivendo boa parte do noticioso brasileiro há mais de um ano já. Por outro lado, por ser alimentado por um colunismo jornalístico interminável e por viver-se irremediavelmente no império da opinião, o inconveniente da dissidência de ideias é pulverizado, à medida em que prosperam canais e fontes de informação monotemáticos, talhados para o debate sectário e muitas vezes criados exatamente para esse fim. Não há “verdade” que resista a um embate assim, porque a mais primária filosofia e hermenêutica ensina que a “verdade”, ainda mais nestes tempos de hiperinformação, é como um filme a depender mais do revelador do que a quem é revelada; ou exatamente por isso.

Enquanto os fatos sucedem-se autonomamente sem formar qualquer narrativa, quem tomaria para si a tarefa de atar os pontos dos fenômenos políticos nesse interregno? Ninguém melhor que o colunismo de opinião; isso ocorre justamente por ser composto de uma miríade de facetas e possibilidades infinitas, capaz de satisfazer do mais incauto ao mais bem informado leitor, deste ponto em diante denominado “consumidor de informação”. Assim que, na ausência de uma escrita linear e inquestionável, emergem, antes da narrativa, os narradores, pessoas cuja formação, interesses e ideologia inspiram autoridade e conhecimento de causa, além de uma vocação precípua para contar uma história, isso às vezes de modo mais convincente do que a dedução individual seria capaz de perceber por si só ao analisar os acontecimentos.

Eis que assim, e não de outra maneira, emergem as narrativas. Algumas apoiadas nos bastidores mais insuspeitos da política partidária brasileira, outras no rigor e compromisso acadêmico de quase fornecer atestado metodológico (se necessário, ideológico também), muitas outras na boa vontade dos respectivos “consumidores de informação”, tudo isso atestado pela repercussão notada principalmente nas redes sociais e nas previsíveis reações às narrativas porque, como se sabe, não há mais tempo nem lugar para leitores passivos no mundo contemporâneo. E mais muitas outras apoiadas em factoides e problemas criados para soluções previamente estipuladas, como costuma acontecer nas narrativas dramáticas, especialmente entre as mais singelas.

Esta profusão de opiniões acabadas, emitidas e retransmitidas com a facilidade de um clique ou toque cumpre funções distintas, entre algumas outras improgramáveis. Dirigidas a um público potencial de “consumidores de informação”, elas vêm a calhar para todos aqueles que estão em busca de ideias taxativas e lacradoras, como costuma ser repetido em uma gíria comum nestes dias. A questão de “lacrar”, ou simplesmente fechar questão, confere mais com uma expectativa do leitor em dar-se por satisfeito com uma versão narrativa qualquer do que por uma interpretação e exame finalístico dos fatos, especialmente os sociais e políticos, multiversos por natureza. Essa busca desenfreada por autoridade, por substituir o próprio pensamento dedutivo por um discurso competente e de credibilidade não é obviamente nenhuma novidade nem apareceu ontem. Quem alerta sobre isso é um dos principais teóricos da hermenêutica no séc. XX, Hans-Georg Gadamer, que dizia, entre outras coisas, que o respeito à autoridade gera uma obediência incondicional e uma profusão de preconceitos que bloqueiam o agir especulativo. Gadamer, no seu Verdade e Método, refere-se às escrituras bíblicas, mas trata-se de um alerta em tudo atemporal que vem a “lacrar” perfeitamente com tempos de conturbação política. Nestes, as autoridades conseguem muitas vezes representar alguma estabilidade, ainda que o conjunto de opiniões, assim tomado, mostre-se muitas vezes dissociativo ou esfacelado por fatos ainda mais novos. Em tempos assim, o volume da pronúncia de emissão costuma ser bem mais valorizado que os argumentos.

Também ocorre que o império da opinião parece-se mesmo mais com um império que com uma democracia. Como espécies de feudos ou redomas intelectuais, ao lado dos formadores de opinião, desfila algo como uma procissão de crédulos incansáveis a salmodiar o que lhes é tutelado, absorvendo-se em maior ou menor grau o ruído comunicativo e com doses lenitivas de reabastecimento ideológico e reforço na mensagem. Além de deselegante, teria pouca utilidade citar nomes a este ponto, mas são estes indivíduos a servir de totens e a emitir elipses pouco variáveis da sua ordem discursiva, a partir do seu centro em direção raio de sua credibilidade. Por isso é tão raro ou quase impossível flagrar-se sequer uma nota de arrependimento, uma mea culpa por um equívoco ou uma injustiça praticada e publicada por estes dias. É claro que sua presença atestaria a fragilidade do emissor, mas isso na contemporaneidade é irrelevante dado que a função a cumprir justifica antecipadamente qualquer deslize, a menos que seja contestado por um emissor equivalente. Porém isso, em impérios, obviamente não costuma acontecer.

Na planície abaixo, entretanto, as batalhas são esfuziantes e escarnecidas. Sob o tramado por vezes incompreensível de ideologias, opiniões e também narrativas dos mais diversos matizes, projeta-se uma sombra muito pouco permeável em direção à sociedade. Aliando-se a reprodutores chave, algo como uma intelligentsia conectada, perfaz-se o cenário perfeito de obscurecimento, ideal para a confrontação irracional e simplificadora, de segunda ou terceira ordem, levada a efeito de indivíduo a indivíduo. Neste ponto, a maior baixa neste clima beligerante não seria mais a verdade, como teria afirmado Ésquilo há milênios atrás, mas a própria comunicabilidade. E desde que as pessoas não privam-se de lutar em prol das ideias pelas quais foram lacradas, seja por A, B ou C, o enunciado wittgensteiniano “Wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen” (sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar) perde completamente o sentido. A despeito da notável incomunicabilidade, o silêncio é indesejável. Aliado ao obscurecimento, seria a evidência última da mais completa e generalizada desorientação.

No plano político, evidentemente a superposição de narrativas dá-se em outra esfera. Nos meandros do poder político e econômico há mais razões incompreensíveis do que seria razoável imaginar. Para isso, entretanto, não há qualquer limite anteposto, ainda que no baile da política partidária e ideológica brasileira há muito tempo seja impossível distinguir os donos dos dedos, das mãos e até mesmo a identidade dos bailantes. É uma outra espécie de obscurecimento, tendo-se em vista que costumeiramente é em seu nome ou de suas ideias, práticas e legendas que as pessoas acabam por digladiar-se.

Vulgarmente, é o que o populário brasileiro, como dito no início desse texto, denomina por “briga de foices”. O aprofundamento dessa conduta belicosa, portanto, fatalmente descamba para uma variação ainda mais perigosa do embate, que seria popularmente conhecida como a “briga de foices no escuro”. Como quem não deve não teme e há provas suficientes para atestar o estado regressivo da sociedade brasileira contemporânea, quem garante que não existe mesmo a possibilidade de estar-se rumando para tal estado de coisas?

Como qualquer estudante do ensino fundamental sabe, esse estágio da evolução humana antecede até mesmo o da disputa pelo fogo. Mas o que há para temer senão um tramado de palavras e mútuas acusações, não é mesmo? Pouco há para se preocupar, dirão os mais precipitados, afinal está mais do que comprovado que a linguagem é inofensiva e não produz resultados factíveis. Dentro ou fora de uma “narrativa”, o que vale é ajustar o volume do discurso, porque qualquer um pode se tornar aceitável de uma hora para outra. Não parece ser outra a natureza da nova barbárie que vamos nos impondo cada vez mais: uma gritaria sem qualquer limite e sem nenhuma outra finalidade a não ser fazer prosperar o silêncio, custe o que custar, desde que seja um que nos permita, a um tempo só, a própria paz e a danação alheia, mesmo em sucessivos, infinitos, desoladores e frustrados golpes de mestre.

A emoção na narrativa paralímpica

Chega enfim a paralimpíada (ou paraolimpíada, como querem alguns) e algo como uma lei de cotas midiática se estabelece nos meios de comunicação do país inteiro, seja nos tradicionais como nos novíssimos. Compreende-se. Não é mesmo sempre que estas quase 13 milhões de pessoas com deficiência surgem nas manchetes e reportagens Brasil afora, como se repentinamente saídas do avião invisível da mulher-maravilha.

Pessoas com deficiência via de regra são muito pouco notadas na mídia por possuírem uma vida corriqueira como a de qualquer outra pessoa e têm sido bem mais notabilizadas por encarar sérias e reais dificuldades ao tentar levar suas vidas do que por dedicar-se a atividades em tudo normais, como as atividades esportivas. A partir de amanhã (07/09), entretanto, o Brasil sediará pela primeira vez – assim como foi com os Jogos Olímpicos – um evento esportivo da maior grandeza e qualidade, envolvendo pessoas que vêm elevando a prática esportiva a patamares insuspeitados, isso também da mesma forma que os jogos olímpicos regulares.

É bem possível que o espetáculo real, no qual os esportistas realizam o melhor que podem para competir, seja fotografado, filmado ou reportado aqui ou ali como uma espécie de projeção enviesada. A isso deve compreender-se também. É muito natural que quando pessoas normalmente invisibilizadas ou retratadas permanentemente através de muitos estereótipos surjam publicamente isso venha a acontecer, tanto por uma questão de autoimagem quanto de identidade social. É como se fosse uma imagem distorcida a qual é muito difícil colocar em foco justamente porque essa tem sido uma das principais formas de identificação das pessoas com deficiência ao longo da história, mesmo na história recente.

Possivelmente trata-se de uma forma de atalhar os caminhos, especialmente porque nenhuma trajetória de vida é inteiramente contada sem um olhar demorado e, na maioria das vezes, busca-se na mídia o flash instantâneo, a conquista e, quase obsessivamente, o pódio e a medalha. Informações sobre quem a pessoa é, sua formação e sua trajetória individual muitas vezes são substituídas por um resultado redentor e, pelas próprias características do esporte competitivo, cola-se nos esportistas o maior de todos os estigmas positivos com que uma pessoa com deficiência pode contar: o da superação.

Acontece que a superação é, sim, muitas vezes real, mas, em se tratando do esporte, é exatamente a mesma superação que buscam quaisquer atletas. A superação de aperfeiçoar-se, de partir de condições difíceis, de melhorar e de conquistar. Afinal, seja paralimpídada ou paraolimpíada, é olimpíada e ali não há ninguém entrando para perder, mesmo que uns estejam melhor preparados que outros.

Ainda assim dificilmente não haverá sobreposição desses conceitos ou dessas imagens. Embora isso se deva mais à narrativa que se quer imprimir do que à realidade, será sem dúvida uma coleção de momentos por si só emocionantes. E isso é assim porque o esporte tem essa característica de “lavar a alma”, como se diz. Qualquer esporte é assim. Isso, entretanto, não é o bastante para reconfigurar o status humano de nenhum esportista. Eles continuarão humanos durante e ao fim dos jogos, obviamente. É justo que, em respeito ao seu esforço, não sejam convertidos e sacramentados em exemplo de coisa nenhuma. Nem de superação e muito menos de compaixão.

É importante dizer isso porque o sentimento de compaixão e a empatia muitas vezes operam também essa distorção, a revelia do que a pessoa deseja. Encontrar uma narrativa menos lacrimosa ou que deixe ver a pessoa além dos estereótipos que facilmente nela se projetam não é uma tarefa fácil principalmente porque a emoção costuma se impor durante as competições. Mas não há hierarquia na emoção e certamente a emoção dos competidores que desfilarão mídia e internet afora a partir de amanhã é exatamente a mesma de qualquer outra pessoa, especialmente se de alguém que gosta de esporte e suas diversas modalidades.

A partir de amanhã será possível conhecer um pouco mais desses esportistas todos, suas trajetórias, dificuldades e suas conquistas. Não será mais emocionante por causa da deficiência de nenhum deles e não será menos emocionante que outros esportes, mas também não será esporte olímpico se não tiver emoção e não existe, felizmente, uma categoria que se pudesse chamar de “emoção com deficiência”. Portanto não há razão para suprimir a emoção da cobertura dos jogos, basta ajustar o foco e tentar o máximo possível remover as distorções e preconceitos e perceber a pessoa antes e além de qualquer outra coisa. Não vai funcionar sempre, mas, quando funcionar, será como uma medalha de ouro.

A gamificação e o futuro da leitura

Banco de livros

Daqui a uns anos mais, não me arrisco a dizer quantos, mas decisivamente não muitos, somente uns poucos curiosos ou uma ínfima elite cultural conseguirá distinguir um mínimo da literatura do inesgotável repositório digital que é recriado diariamente na internet. Talvez fragmentos esparsos ou adaptações resumidas garantam uma fração para lá de imprecisa da permanência futura do cânone literário universal, nacional e regional, mas isto trata-se apenas de uma expectativa sem maiores indícios. Talvez memes engenhosos salvem ainda um pouco menos que fragmentos. E frases completas e não deturpadas igualmente poderiam ser salvas da deslembrança completa da mesma maneira. Mas também é possível que, infelizmente, talvez nada mais consiga operar essa façanha e esse destino esteja desde já inapelavelmente selado.

Minha opinião é de que o maior risco do uso prolongado da tecnologia não é o fim da ficção, mas o fim da necessidade da ficção.

Minha opinião é de que o maior risco do uso prolongado da tecnologia não é o fim da ficção, mas o fim da necessidade da ficção. A despeito disso, publica-se como nunca. E incessantemente. Minha impressão, porém, é de que se publicam livros impressos e digitais na proporção inversa que se criam adultos interessados na literatura. Nos últimos tempos, principalmente depois que se pode observar o comportamento sobre a leitura nas redes sociais, é fácil perceber que o que mais vem proliferando são guetos de interessados restritos e leitores apenas casuais. Leitores regulares de ficção ainda são escassos e sua expansão é quantitativamente inexpressiva. Prova disso é a qualidade das estatísticas de vendas e listas de mais vendidos, praticamente invariável, o que é verificável nos rankings de vendas regularmente publicados pela Publish News. É de ver para crer, para aqueles que insistem na incredulidade a respeito de títulos e tendências comerciais.

Embora se divulgue muito a afirmação de que há no Brasil uma crise permanente na leitura, eu penso que ela não existe propriamente como “crise”, principalmente porque as vendas se mantêm razoavelmente constantes, ou pelo menos que o uso do termo “crise” não explique toda a extensão da problemática. O que parece mesmo estar crescendo é uma crise na capacidade de atenção à leitura, esta, sim, decorrente da proliferação de lazer tecnológico. E, talvez, ainda uma terceira crise que poderia ser localizada na literatura propriamente dita e no sistema literário, que têm se mostrado, juntos ou em separado, incapazes de romper as fronteiras acadêmicas, de fazer-se interessante ao público juvenil e de disputar novos leitores com outras mídias e fontes de informação. Há um risco sério de comprometimento nesse ponto e caso autores e editoras não reflitam sobre a questão, muito pouco haverá a lamentar, possivelmente até mesmo dentro de um curto prazo, na migração de interessados na leitura para o universo de aplicativos e brinquedos eletrônicos.

Há cerca de cinco anos, o norte-americano Philip Roth apostou, em entrevista, que a cultura literária teria seu fim em cerca de 20 anos. Não gosto nem um pouco de ter de concordar com ele, mas a verdade é que cada vez mais eu creio que ele estava apenas querendo parecer pouco pessimista. Entretanto, se foi minimamente realista, restam então cerca de 15 anos até o apocalipse final das letras, pelo menos de como elas têm sido conhecidas e consumidas nos últimos 500 anos.

Como chegamos a isso?”, é a pergunta que continuam a fazer-se os incrédulos. As respostas costumam vir de todos os lados e a partir de motivações bastante específicas, mas via de regra resvalam para a baixa qualidade da educação e a pouca ênfase na formação de leitores. Mas não seria essa justamente uma razão para apostar-se pouco em soluções efetivas e duradouras para a crise da leitura? Atrelá-la a uma educação cambaleante não seria uma forma de comprometê-la ainda mais? Ou seria a própria tecnologia, a mesma potencial causadora do desastre literário, quem poderia justamente salvá-la, a literatura?

Não é nada fácil responder estas questões, até mesmo porque a situação atual não é de uma chegada final, mas de uma transição na qual o protagonismo do livro não está dando lugar ao livro digital, como alguns embates sugerem, mas ao que se tem denominado de “gamificação”. Ou seja, jogos digitais com suposto ou nenhum efeito educacional e a presença cada vez mais massiva de conteúdo digital e interativo no lugar da especulação analítica e do agir reflexivo, mediada pelo livro, seja qual for o seu suporte, impresso ou digital.

Dentro disso que costuma ser denominado por cultura gamer, o indivíduo aprenderia indiretamente e através de experiências sensoriais que procuram que o indivíduo “embarque” virtualmente no objeto de conhecimento a que se pretende conhecer e que se aproprie sem um esforço de todo racional. Nessa perspectiva, a leitura aconteceria apenas funcionalmente, o objetivo em si mesmo seria a recompensa sensorial traduzida em repetidos estímulos àqueles embarcados na experiência lúdico-educacional. Os defensores de sua utilização defendem que essa poderia ser uma forma de atrair e conquistar novos interessados nos bens culturais escritos e na literatura de um modo geral, mas a possibilidade de que os possam afastar ainda mais do livro, seja ele em bits ou em papel, não é nem um pouco exagerada ou descabida.

A questão talvez então fosse estudar as formas pelas quais o ser humano, ao longo da história, vem se relacionando com a leitura. O escritor argentino, naturalizado canadense, Alberto Manguel, no seu Uma História da Leitura, fornece pistas interessantes. Uma delas é ao citar como, por exemplo, no começo do século, os leitores e escritores se relacionavam com o livro e a leitura. Segundo ele, o tcheco Franz Kafka teria dito, em correspondência enviada no ano de 1904 ao amigo Oskar Pollak, que, entre outras coisas “precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios”. Sensação muito distinta que se pode perceber ao verificar que no Brasil, ao longo das últimas décadas pelo menos, prosperam especial e exponencialmente vendas de títulos de autoajuda, num flagrante de que nossos leitores “potenciais” são de um tipo que não deseja ser incomodado pelos livros, mas acarinhado por essa espécie muito particular de escrita.

Tendo de disputar a atenção das pessoas com outras fontes de lazer e informação, a literatura de ficção acaba por competir aos leitores no que parece ser um alto investimento de tempo e de atenção concentrada. E numa época notadamente marcada pelo mais escancarado utilitarismo, é compreensível que as pessoas prefiram fazer opções menos trabalhosas do que ter de encarar, por exemplo, quinhentas páginas de qualquer autor russo do século 19 ou extensas e volumosas obras, como as de Balzac, Proust ou Thomas Mann. Todavia isso nem sempre é uma regra ou obrigação, o que pode ser comprovado pelo autor fenômeno de vendas norueguês, Karl Ove Knausgård, autor do colossal romance autobiográfico Minha Luta. Trata-se, sem dúvida, de um sucesso de vendas, inclusive no Brasil, mas provavelmente dentro daquele percentual de leitores já habituados a leituras extensas. É muito provável, por outro lado, que um novo leitor opte por não começar sua “carreira” com uma série de livros com milhares e milhares de páginas. Talvez antevendo uma possível exaustão e outras emergências e preferências, isso mesmo o faça desistir até mesmo de tentar com os livros pequenos ou qualquer tipo de livro. É uma possibilidade. As alternativas estão sempre à sua mão e costumam atender pelos nomes de smartphone ou de controle remoto.

De outra maneira, o atrativo virtual (não confundir com digital, dada a possibilidade de realizar-se leitura em dispositivos digitais), qualquer que seja ele, parece ser sempre irrecusável, mesmo que consuma horas a fio às vezes sentidas e percebidas como completo vazio ou perda de tempo, nesse processo angustioso que se tornou a vida virtualizada ou gamificada. Talvez a verdade a evitar-se falsear seja a de que já não há nada de errado no mundo contemporâneo quando o virtual se torna mais real do que o próprio real. Numa época em que o que não é “compartilhado” parece não existir e o compartilhamento de bens culturais é tomado como “ostentação” ou “obscenidade”, tudo acaba dificultado para o estímulo à leitura e facilitado para o lúdico, principal potencial dos gadgets.

Pistas mais próximas que a correspondência de Kafka, mantida no início do século passado, podem ser justamente os aplicativos para smartphones. Como, por exemplo, a febre do momento, o app Pokémon Go. As imagens há pouco divulgadas de crianças sírias “interagindo” ou exibindo imagens do boneco Pokémon com a finalidade de serem resgatadas, dentro de uma campanha humanitária, são impactantes, mas duram um momento só, como tudo o que “existe” no mundo virtual. É o tempo de passar os olhos e rolar os dedos e seguir adiante, ao novo objetivo, meta, fase ou o que seja.

Assim como todo e qualquer clamor dirigido ao mundo virtual, seu efeito maior provavelmente seria o de virtualizar e relativizar o seu próprio foco, tornando-o um tipo de estímulo capaz de proporcionar sensações passageiras, comoção ocasional e necessidade de novos estímulos porque o sistema de recompensa é, ao contrário do corpo físico e mental, incansável e insaciável. É por isso que me mantenho um tanto incrédulo quanto ao incentivo que a cultura gamer ou a gamificação educacional pode trazer ao universo da leitura, a não ser que se crie um universo de significação paralela, mas aí não será mais o mesmo nem em relação às dificuldades que representam a compreensão de um texto ficcional e nem ao conteúdo em si mesmo. A leitura, convertendo-se em estímulo, mas a partir justamente de um desestímulo à leitura e ao ato de ler só por ficção, poderia ser tomada como sinônimo de “avanço”. Não há, portanto, chance alguma de se emplacar, por exemplo, uma campanha do mesmo gênero em relação ao resgate de livros ainda que muitos mereçam e muito ser recuperados de tamanho desconhecimento contemporâneo.

Das profecias primitivas às esferas subterrâneas do purgatório medieval de Dante, do terror que inaugurou o imaginário industrial moderno com o Frankenstein de Mary Shelley ao revival do gótico assombroso pré-moderno, do horror de Lovecraft ao cyberpunk do fim do século 20, atravessando o moderno, suas correntes literárias todas e o pós-moderno, sempre o ser humano tem buscado a ficção como forma de sublimar as próprias querelas ou melhor compreendê-las. Mas desde que a subjetividade seja convertida cada vez mais em exibicionismo virtual e fonte de inesgotável autorreferência e narcisismo, a leitura pode passar a representar um tipo de ameaça bem diferente daquele imaginado por Ray Bradbury em Fahrenheit 451, de quando os livros poderiam desestabilizar o “sistema”, mas trazer a possibilidade sempre horripilante de colocar o indivíduo em contato consigo próprio e com pensamentos mais elaborados do que um emoji ou um conjunto deles.

É sempre um risco, mas que cabe a cada um decidir por tentar ou não corrê-lo. Há fortes indícios de que, na história, reservar um tempo regular à leitura ajudou a humanidade a superar dificuldades significativas e que a imersão tecnológica nos tem levado a guerras e conflitos terríveis e supostamente impessoais, como prova o uso de drones, mas quem poderia afirmar que isso tudo é mesmo verdade e não propaganda de improváveis e rancorosos sebos e antiquadas livrarias de bairro? Seja como for, talvez um ou dois livros fossem o suficiente para acabar para sempre com a dúvida.

A cultura do estupor

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Pelo menos que eu saiba, felizmente não vivo nem perto da cultura do estupro, mas vivo, sim, dentro da cultura do estupor. Vivemos todos.

Não ouço piadas machistas. Não consumo nem ouço músicas apelativas ou com conteúdo violento – nem sobre a mulher nem sobre ninguém. Não dou legitimidade nem por hipótese a preconceitos, seja de que espécie forem. Entretanto, porque não viva em contato direto com ela, a tal cultura do estupro, não é por isso que vou dizer que não exista. E isso porque esse é o mesmo comportamento negacionista de quem vive na cultura do estupor e não percebe.

A cultura do estupor é quase o mesmo que a cultura da indiferença, com a diferença de que ela implica uma espécie de assombro perpétuo sempre sem ação, estéril, de quem não age, de quem não toma qualquer atitude, de quem tem toneladas de informação, mas ação que é bom, quase nenhuma. Na cultura da indiferença, por outro lado, há uma escolha prévia, o que a torna ainda mais comprometedora, pelo menos no que diz respeito às mentalidades. Dessa eu não vivo dentro, mas fatalmente vivo perto porque em alguma medida todo mundo vive. Uns mais, outros menos.

Não estou querendo dizer que a cultura do estupor é mais grave que a do estupro porque não é, mas elas têm entre si um alto grau de parentesco, se é que uma não está contida na outra. Só que, enquanto uma vítima de estupro se vê forçada a reinventar a própria vida, na cultura do estupor às vítimas resta apenas trocar a fonte, o canal ou o link dos terrores diários. Sair e voltar a entrar no Facebook, por exemplo.

Mesmo dentro disso que chamo de cultura do estupor, parece haver graus variados de acometimento. Pode ir do embasbacamento à inconsciência. Da surpresa à alienação. Da imobilidade à dessensibilização completa. Da empatia seletiva à misantropia, essa que parece ser sua forma mais extremada.

Confesso que tive de ler bastante sobre tudo o que se divulgou sobre a cultura do estupro após o trágico evento do Rio de Janeiro para entender como é que isso me afetava e a resposta que encontrei é que, como a maioria dos homens, pelo menos os que não tiveram a sombra do estupro rondando sua vida, é um assunto quase extraterreno. É como uma hipótese sobre a qual não se quer nem pensar. Mas isso é assim porque não estamos no lugar de ser sem mais nem menos uma vítima ocasional da situação e por isso minimizamos o horror alheio, submersos na cultura do estupor.

De certa maneira, eu penso que o bombardeio dos últimos dias, em sua extensa maioria feito por mulheres, foi providencial e, embora acredite na necessidade de uma política penal eficiente contra os criminosos, é preciso vencer o estupor social. Denunciar e não só denunciar, não permitir a impunidade, desnormalizar a violência de gênero. Não se trata apenas de empatia, mas de um compromisso do laço humano em não se fechar em si mesmo e na sua perspectiva individual. Nesse ponto de vista, a questão de violência de gênero é até primária e simples demais, mas é justamente (e não coincidentemente) dela, da integridade do corpo feminino, que viemos todos.

Lembro ainda que, assim como o estupro, violências sexuais acontecem diariamente – quase sempre na invisibilidade – contra pessoas com deficiência (especialmente a intelectual), crianças de qualquer sexo, gays, travestis, transgêneros, idosos e quaisquer pessoas em situação de vulnerabilidade. A violência é uma excrescência do convívio social e deve ser punida e combatida em sua origem, sob pena de sua permanente reprodução.

A questão é bem mais complexa que um meme. Embora se assuma rápida e repetidamente a atribuição de culpabilização social e se deseje fazer crer que esta seria uma característica encruada na sociedade brasileira, eu discordo dessa ideia. Penso que não existe este ente coletivo: a sociedade brasileira. Existem sociedades brasileiras. No plural. E a exacerbação da violência costuma acontecer em territórios conflagrados, não necessariamente os periféricos.

Discordo que a violência seja um traço cultural da sociedade brasileira, população acostumada a enfrentar violências e privações seculares sem maiores registros de levantes e revoltas populares. A violência extremada implica um complexo dinâmico envolvendo tanto a expressão do ódio quanto o escasso cerceamento moral. Não por acaso, costuma ocorrer contra segmentos vulneráveis, como os indígenas e moradores de rua – eventualmente incinerados em espaços públicos –, contra prostitutas e contra pessoas sem qualquer defesa.

Não se trata de invocar aqui mais uma vez a platitude da necessidade de investimento em educação, mas na de uma educação humanizante, cujos resultados não visem meramente ao sucesso econômico e social, mas ao aprendizado do humano e suas pulsões e de uma ética capaz de garantir, ou pelo menos promover, a integridade de todos e o respeito ao sujeito e às individualidades.

Ainda assim, apenas o investimento em educação pública poderia de fato reverter a banalização da violência e substituí-la por acesso a outros e mais complexos elementos culturais. É bem pouco simples porque a cultura da violência parece também ser uma mimese de uma cultura de poder. Ou seja, reproduz-se com argumentos precários e de dominação violenta aquilo que em outras esferas econômicas e culturais está dito e representado de outra maneira, mas de uma forma essencialmente idêntica, que é a preponderância do poder econômico e sua simbologia.

Seja como for, é preciso seguir o exemplo das mulheres que, diante do horror de uma situação inadmissível, como a que se repetiu recentemente no Rio de Janeiro, romperam justamente a acachapante cultura do estupor, como irrompendo de dentro de uma bolha estourada. É absolutamente triste que precisemos de casos tão extremados para fazê-lo, mas esse é justamente o indicativo do alto grau de naturalização cultural da violência social em que vivemos todos.

A cultura do estupor funciona como a película dessa bolha, abrigando em seu interior diversos tipos de violência, entre os quais o de gênero e a própria cultura do estupro. Se regularmente é possível viver em seu interior longe de uma ou de outra, mais ou menos repugnante, é de perguntar como podemos nos abrigar dentro disso e com estes mesmos valores. E como e por que razões, uma vez saídos dali, desejaríamos voltar. A multiplicação de denúncias e o expurgo coletivo em função do crime de estupro coletivo, desta vez no RJ, que não deveria ter existido nem sequer ter nenhuma função social, eu quero crer que pelo menos serviu para nos mostrar o quão hediondo é ter de viver sob a cultura do estupor e o quanto nos habituamos e dessensibilizamos em suas muitas derivações violentas.

Equalização inclusiva

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Volta e meia me perguntam, entre pessoas próximas e não tão próximas, se “afinal” a inclusão “funciona”. Se funciona “de verdade”. A educação inclusiva, no caso. E pedem que eu diga “com sinceridade”, como se eu alguma vez tivesse escondido alguma coisa ou vendido irresponsavelmente uma fantasia (a troco de quê eu faria uma coisa assim?).

Pergunta complicadíssima, porque a impressão que fica é que tenho algo a delatar contra o processo ou salvá-lo de qualquer crítica. Bom, não se trata de uma coisa nem de outra. Ou, pelo menos, penso que isso não é tudo o que importa. Isso porque, na minha visão pessoal, há muitas coisas aparentemente desimportantes na inclusão que às vezes importam muito mais que os resultados comumente esperados do processo educacional: aprovação e progressão.

Importa muito, para mim, se os alunos estão felizes, por exemplo. E este é um “indicador” que ninguém avalia, nem gestores, nem governos, nem UNESCO e aí falando com aquela “sinceridade” solicitada, nem mesmo muitas famílias. Questão de prioridades, preferência e expectativas pessoais. Todos atributos inquestionáveis do ponto de vista pessoal, diga-se de passagem. E garanto que não é minha intenção aqui pesá-los ou compará-los, mas apenas fazer algumas ponderações sobre a pergunta que me foi feita e que muita gente se faz, inclusive os diretamente envolvidos no assunto. É justo que se faça a pergunta e mais justo ainda questionar-se. É um sinal de honestidade para com o assunto, nada aquém nem além disso.

Também penso que importa muito se os alunos têm uma boa relação entre si e com os professores e me parece bastante relevante que isso aconteça de verdade, para que qualquer coisa “funcione” bem no ambiente escolar. E outras coisas dessa mesma ordem eu penso que, sim, têm muita importância, embora respeite integralmente pensamentos discordantes. Coisas que, para muitos, são dispensáveis ou estranhas ao processo educacional, eu penso que não deveriam ser entendidas dessa forma e não apenas porque facilitam a atividade educacional propriamente dita, mas porque também lhe dão significado. E isso diariamente.

É por isso que minha resposta a essa questão específica nos últimos tempos tem se tornado cada vez mais evasiva. Digo apenas “depende”. E esse “depende” “depende” principalmente do que se quer dizer com “funciona”. É essa a resposta que tenho. É a única que me parece possível e honesta, a depender da expectativa do freguês e também de outras expectativas.

Do desencontro de expectativas é que, aliás, penso que decorram a maioria dos problemas educacionais e isto não se refere especialmente à educação inclusiva. Em qualquer situação envolvendo mais de duas partes interessadas, há que se fazer uma equalização de expectativas e, antes disso, há que se convencer todos os interessados de que é necessário proceder assim para, além de dirimir dúvidas e conflitos, começar a pensar na construção de uma perspectiva verdadeiramente inclusiva, ou seja, uma em que todos sejam considerados. E que isso aconteça sempre, de forma perene. E que se consolide como uma prática, ainda que às vezes imperfeita e conflituosa.

Não é mesmo fácil e às vezes, em determinadas situações, talvez não seja possível atender integralmente às expectativas de todos no que diz respeito à educação. A instituição “escola”, inclusive, nem sempre costuma perceber-se nessa função, ainda que seja dela que cada vez mais se esperem respostas nesse sentido. Às vezes até inadequadamente, seja por falta de diálogo, compreensão mútua, planejamento ou ainda outras situações.

Além disso, é preciso pensar igualmente nas expectativas dos alunos que, como se sabe, vão à escola com dezenas ou centenas ou milhares de expectativas diferentes. Os alunos também intimamente parecem fazer essa equalização de expectativas e por isso dirigem-se aos seus portões em busca de muitas coisas, além do aprendizado e do conhecimento, funções seculares dos estabelecimentos de ensino. Vão para socializar-se. Muitos vão para encontrar, conhecer, educar-se e deseducar-se pelos seus iguais. Para brincar. Para namorar. Para divertir-se e por aí vai, numa miríade interminável de anseios particulares nem sempre (compreensivelmente) coincidentes.

Já a escola, em função da desocupação humana do espaço público, cada vez mais resume e concentra a vida social dos alunos. E por certo com os alunos “incluídos” não é diferente. É por isso que é bastante normal que, na visão de um professor, por exemplo, a inclusão possa não “funcionar”. E para o aluno “funcione” sim, e muito bem. E para os pais do indivíduo, “funcione” apenas mais ou menos. Trata-se de uma questão de expectativas e perspectivas. Trata-se, portanto, de equalizá-las para que atinjam uma frequência que atenda e dê voz e espaço a todos.

Diante disso, a única resposta possível que eu tenho encontrado é mesmo aquele “depende” e, embora eu pense que seja necessário realmente a todos fazer a equalização de expectativas, na prática as coisas nem sempre são bem assim. No esquema de empoderamento das escolas, pelo menos na maioria delas (talvez possa excluir-se deste grupo aquelas mais experimentais ou alternativas), há o predomínio de um ordenamento unidirecional e isso decorre de um modelo que, ao menos em tese, vem “funcionando” dessa forma pelo menos desde meados do séc. XX. Nesse protótipo de “equalizador”, vamos chamá-la assim, funciona bem apenas o que está programado para funcionar. Fora disso, usando dessa mesma terminologia, o resto lamentavelmente é apenas disfuncionalidade.

É por isso e não por outra razão que têm prosperado em todo o país a noção de que alunos incluídos com deficiência intelectual, principalmente estes, funcionam bem apenas através de uma mediação individualizada. Nessa perspectiva específica, a escola não precisa fazer nada em absoluto para sair da sua zona de conforto pedagógica. Basta criar-se bolhas cognitivas em torno dos alunos, neutralizá-los enquanto sujeitos de desejo e garantir que a convivência aconteça em níveis socialmente toleráveis. Por incrível que pareça, essa é uma ideia que ganha amparo e adesão de muitos pais. Mas será mesmo o suficiente?

Não me atrevo nem me outorgo ao direito de responder por ninguém, mas quero cogitar que, dessa forma, talvez funcione, e muito bem, para as próprias escolas, que assim desincumbem-se de repensar a si próprias e modificar condutas. Talvez também funcione bem para algumas famílias que acreditam ser essa a única forma de salvaguardar o direito à educação dos filhos, chancelando a conduta. Já a perspectiva dos alunos, afinal são filhos e clientes nesse mesmo ambiente, por sua vez talvez seja solenemente ignorada, embora sejam eles o objeto e interessados finais no processo. É uma tradição que um projeto inovador como o da inclusão deveria suplantar, mas quase nunca isso está em questão, porque talvez quase nunca isso aconteça de verdade.

Em processos como esses, a equalização é do tipo outorgada. Possivelmente “funciona” em muitos casos e até seja satisfatória, mas não para todos. É uma solução individual que, dada por uma solução standard, mumifica o significado da inclusão, para usar uma metáfora de fácil compreensão. Parece, inclusive, que lhe é sinônima, enquanto a mim parece ser mais apenas um dos arranjos possíveis dessa “equalização”, mais jamais o único e exclusivo porque senão o comprometimento do conceito seria imenso e as consequências educacionais e culturais muito graves.

Às vezes, muitas vezes, tenho a sensação incômoda de estar tentando, ao menos metaforicamente, fazer funcionar um software moderno num hardware antigo e inadequado. Mas a questão, tendo-se em vista que não tenho meios de modificar as características do meu filho, não é o software, é o hardware. Deveria, talvez, simplesmente mudar de hardware e decretar a disfuncionalidade da escola. Então eu tranquilamente poderia sair e dizer como muitos parecem querer ouvir: “não funciona!” É um tipo de solução mágica com a qual não simpatizo em nada, porque me parece levar a um círculo vicioso infinito.

Porém, pelo contrário, eu quero insistir, tanto por que é um direito constitucional quanto porque sinto que as escolas de um modo geral precisam que isso aconteça, porque os desafios da educação não são ponderáveis previamente, precisam ser constantemente discutidos e modificados (ou equalizados, como quero dizer) e deixar de provocá-las a isso é o mesmo que abandoná-las, mas no caso com crianças, muitas crianças, a bordo. E isso está longe de me agradar. E se agrada à sociedade, talvez o problema seja ainda de maior monta.

Se alguma vez o tive, agora é certo que já abandonei de vez o sonho de encontrar a escola ideal. Minha ideia, por outro lado, é fazer da escola possível a escola ideal. Nem sempre as minhas expectativas serão atendidas, devo saber isso de antemão. Nem sempre as do meu filho serão e é preciso aceitar isso com o mínimo de naturalidade e serenidade. Principalmente ele precisa assimilar isso, ainda que isso tudo possa representar dificuldades importantes!

Também é certo que não vou atender exatamente a todas as expectativas da escola, isso é claro que não. Vou reclamar, sugerir mudanças e também acatar negativas justificadas, além de dialogar civilizadamente também, com argumentos, para que tudo não se transforme num queixume generalizado ou numa batalha campal. Isso também não posso ver como um território de construção do que quer que seja. Parece mais à terra arrasada. É preciso um mínimo de espírito colaborativo, porque senão o processo é esfriado e, principalmente, esvaziado de sentido. Tudo isso faz parte do que estou chamando aqui de “equalização” e, se isso não existe nem como possibilidade, bem, aí o problema então é bem mais sério. É um problema de quebra de confiança, de necessidade de mudança, e talvez até de mudança de endereço.

Por outro lado, existindo a boa vontade para o diálogo, então eu acho que, pode, sim, pode mesmo, “funcionar” bem. Mas não é nada que vá se dar por conta própria, num passe de mágica ou automaticamente. Vai “depender” e muito do que se quer atingir. Do que se quer priorizar, avaliar e valorizar. Ou, como digo, do que se quer “equalizar”. E vai depender se a todos é dado o direito de participar dessa equalização. Sei que essa não é uma boa maneira de responder a uma questão aparentemente tão simples e objetiva, porém em se tratando da educação, acho que não poderia ser diferente. À guisa de oferecer alguma solução mágica ou ideal, que desconfio que sequer exista, pelo menos é uma tentativa em diminuir o ruído e amplificar possibilidades. Num cenário por vezes adverso, num país cujo momento político valida e dá o exemplo da agressividade e da gritaria como argumento, pode ser o caminho de todos escutarem-se e fazerem-se entender, do modo pelo qual isso for possível. Porque se precisa – e todo mundo quer – é uma inclusão de sujeitos e não meramente uma educação de objetos.

Bolsonaro e seus efeitos adversos

Além de frequentemente causar um misto de estranheza, profundo desgosto e repulsa generalizada, os políticos brasileiros parecem estar credenciando-se agora também à ingrata tarefa de reabilitar fantasmas. Foi o que mais conseguiu na semana que passou o deputado Jair Bolsonaro, ao homenagear em plenário, na sessão que aprovou a admissão do impeachment da presidente Dilma, pessoas diretamente envolvidas no período de maior endurecimento do regime militar e suas práticas mais execráveis, como prisões arbitrárias e a tortura de adversários políticos.

Ou que outros objetivos teria o deputado para revolver períodos tenebrosos da história recente a não ser o de procurar ser uma espécie de seu representante ou possível arauto? Seja como for, se forem outros, parecem ser tão obnubilados quanto a glória de invocá-los. Porém, ao que tudo indica, seu objetivo estava mais centrado em fazer-se notar e também fazer notar o que talvez ele procurasse ali significar: uma lembrança ou um aceno de que o aspecto mais mórbido do período ditatorial pudesse estar, nem que pelo menos em sua mente e de seus simpatizantes, vivo e latente, além de fazer da sua memória uma espécie muito específica de baluarte de oposição ao governo atual.

Ainda que verificar o espírito altamente regressivo do momento político presente seja tarefa relativamente simples, é de pensar também em que tipo de efeito contrário o gesto poderia acarretar. Ou poderia haver algo mais apropriado e favorável para o recrudescimento ideológico dos simpatizantes do governo e daqueles que se situam à esquerda? Também é difícil categorizar, mas é bem sabido que as ideologias se fortalecem diante da presença de um opositor tão emblemático, ainda que politicamente um tanto quanto isolado.

Nesse sentido, é bastante possível dizer que o reforço da mensagem do parlamentar veio atender tanto aos seus interesses particulares de visibilidade quanto, por outro lado, ao da situação e dos defensores do governo, por identificar ou pelo menos em tentar colar nele um protótipo de todos os seus contendores. Talvez inadvertidamente, Bolsonaro tornou-se um panfleto perfeito, mas justamente para servir aos seus detratores, numa espécie de efeito adverso imediato. Além disso, a aridez do cenário e o acinzentamento das declarações de voto de certo modo também contribuíram espontaneamente por fornecer de bandeja ao governo federal e seus defensores um argumento encruado na memória e na cultura política brasileira: o temor do endurecimento à direita e o fantasma da ditadura militar.

Com exceção dos cientistas políticos e estudiosos correlatos, o comum das pessoas não costuma sentir-se dentro do que aqueles primeiros costumam chamar de “cultura política”. Apesar disso, é bastante claro e observável que todos estejamos inseridos em uma. Às vezes, em mais de uma e, em muitos casos, muitos gostariam que em nenhuma. Esse talvez seja o caso das pessoas que, principalmente entre a parcela mais jovem da população, costumam declarar praticamente nenhum interesse no assunto, embora mesmo esse comportamento possa também fazer parte de uma cultura política em que o desinteresse encerre por si só um significante.

Grosso modo, por cultura política costuma entender-se tudo que se refere ao aspecto moral e normativo de uma sociedade, incluindo-se aí seus valores e crenças predominantes. Porém, num sentido mais amplo, ela pode muito bem abarcar a simbologia e, para além das representações culturais, os modos de expressão afetiva das pessoas. Em se tratando do Brasil recente, há pelo menos três gerações de brasileiros que cresceram e viveram no período do regime militar ou sob sua influência. Ignorar o trauma político e cultural persistente é um luxo a que nenhum político pode se dar e mesmo entre aqueles que creem em algum ganho político com o espezinhamento pelo terror, é preciso considerar os efeitos adversos da ação, bem como parece não ter pesado ou previsto o deputado Jair Bolsonaro.

Nem sempre é a memória efetivamente vivida que conta com exclusividade na formação do imaginário de uma população, mas seus artistas, suas referências e também o aspecto sentimental da cultura, pela qual ganham adesão ícones e personalidades, tanto no campo intelectual quando cultural, do mais acadêmico e erudito ao mais popular. Trata-se de um passado ainda muito próximo e enterrado muito rente à terra. Ou mesmo mal enterrado e explicado, como as dificuldades de enquadramento e punição por crimes cometidos e investigados no período ditatorial atestam muito bem. É por isso que, ao mencionarem-se tão claramente personalidades comprometidas com o período histórico da ditadura, seja muito pouco possível conter a partir daí a desaprovação pública decorrente de uma declaração tão obtusa e sinistra quanto a proferida por Bolsonaro.

Não é porque toda a população tenha alguém a lamentar por efeito direto de qualquer ação policial do regime militar, mas o eco cultural daquele momento, embebido em medo e insegurança, dificilmente não voltaria a reverberar com muita força. Isso tanto porque muitas das pessoas que viveram aqueles tempos continuam vivas, quanto pela razão de que o processo de abertura e redemocratização foi penoso e demorado, levando cerca de uma década para concretizar-se a pleno, desde os fins do governo do Gen. Ernesto Geisel, em 1979, até a década de 90, com a eleição do ex-presidente Fernando Collor. Pessoas que direta ou indiretamente viveram a política deste período e agora, com a dilatação das redes de contatos, via internet, passaram a última semana realizando uma espécie de expurgo dirigido principalmente aos aspectos mais violentos do regime. Poderia ser diferente? Dificilmente. Não se trata aqui de explorar um determinado capital político, mas um trunfo por si só altamente significativo e ainda mais num momento em que se mostra um afunilamento, ao que tudo indica irreversível, do apoio político ao governo.

É bem possível que o parlamentar do PSC tenha menosprezado o revés político que sua manifestação poderia causar. Seria uma aposta em sua ingenuidade, mas é igualmente improvável que se trate disso. Outra possibilidade seria a de que ele não tenha se preocupado com isso ou medido as consequências políticas do gesto. Para completar, a reação também em plenário do cuspe do deputado Jean Wyllys em sua direção serviu de motivação aos detratores de Bolsonaro, como se Jean fosse um ícone às avessas daquele. Como “campeões” que estivessem em disputa e resumissem todo o cenário de disputa. Nada mais apropriado para um período de intensa polarização, mesmo que tenha partido de um deputado cujo partido, PSOL, não se identifica como base aliada do governo nem nele tenha qualquer espécie de composição ou cargo administrativo, mas que pouco se diferencia ideologicamente na disputa especifica do impeachment. Quando manifestações nesse nível primário de agressividade se estabelecem na “casa” que deveria salvaguardar a democracia, ainda que em seus momentos mais frágeis e surreais, torna-se impossível deixar de verificar a que ponto de regressão histórica, no campo político, se conseguiu chegar.

Mais até que a disputa em torno ao impeachment propriamente dito, o que se pode perceber vibrar no campo político são as formas pelas quais as ideologias de direita e esquerda vão ganhando contorno na atualidade brasileira. Além dos ícones e políticos que alinham e enfileiram apoio público às suas posições, há uma disputa de culturas políticas e isso envolve narrativas especificas, formadores de opinião, mídias e a própria população que, mais via redes sociais que na vida real, reforçam ou refutam determinadas posições políticas, em movimentos que são estudados e orquestrados tanto do ponto de vista político imediato, de resultados, como de marketing político e cultural a longo prazo. Não há ingenuidade na política, nunca houve e o desejo de fazer crer que há uma só espécie de razão factível no debate é uma demonstração tácita de que a má-fé pública tornou-se imperativa.

Em relação ao deputado Bolsonaro, há um componente na sua declaração que agride não só as pessoas identificadas com a esquerda, mas todos aqueles que rejeitam o extremismo e a cessação de liberdades, assim como qualquer proselitismo em torno a violações dos direitos humanos. De fato é simplificador e abusivo neste momento associar o seu comportamento ao de todos os que são favoráveis ao desenlace do processo de impeachment, mas também é simplificador tratar sua declaração como inofensiva. Não só não é inofensiva como significa, ainda que quase alegoricamente, a imposição e a naturalização de um discurso de exceção em meio a um processo que continua sendo bastante questionado quanto à sua legitimidade formal. Se politicamente o processo de impeachment passou a resumir a disputa de projetos políticos ou se trata de um processo de purificação à Pollyanna, só a história irá dizer, pois mesmo as mais prementes análises políticas têm sido parciais, mesmo as que propugnam para si a qualidade de isenção ideológica.

Além de tudo, se a fala de Bolsonaro parece gratuita ou um mero retrucar, este é um problema de toda a sociedade, haja vista a tímida reprovação com que ele contou no âmbito do legislativo, dos seus pares deputados na Câmara dos Deputados, “casa” muitas vezes incapaz de conter aberrações políticas e cada vez mais formada por políticos profissionais acomodados em partidos que em sua grande maioria desprezam a mais elementar noção de autocrítica e correção. Naquele momento, afinal, ficou muito visível que espécie de prática política andou prosperando nos últimos anos, em meio ao esvaziamento generalizado de conteúdo político que, por isso mesmo, parece ainda gerar mais e mais comportamentos anamórficos e anacrônicos, tais como os que foram vistos, repetidos, revistos sem nem necessidade de legenda ou maiores explicações, porque falam por si só. Bolsonaro tomou a decisão de dar vida a um ícone dos mais simbólicos do período ditatorial. Decerto ele não teme ou mesmo deseja despertar a aparição de outros fantasmas. Na política atual, nem que seja no campo simbólico e discursivo, há quem vibre e muito com a sanguinolência e virulência, isso em qualquer extremidade do campo ideológico. Parece que o Brasil não é um país que tema zerar a república e nem brincar com fantasmas.

Inclusão dispensa utopia

utopia

É do livro As palavras andantes, de Eduardo Galeano, e também de um vídeo muito compartilhado nas redes sociais na voz do próprio autor, uma das definições mais acreditadas e difundidas da noção contemporânea de utopia. O conceito tem origem nos estertores da baixa Idade Média, quando no ano de 1516 o inglês Thomas Morus o cunhou, através da publicação de um livro homônimo e, desde então, o termo tem sido compreendido como sinônimo de “mundo ideal”, ainda que Morus, bem como Maquiavel e Thomas Hobbes, cada um a sua própria maneira, na verdade tenham criado metáforas para explicar o mundo de então (em O Príncipe e O Leviatã) e a respeito dele fazer proposições.

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”, diz Galeano no conhecido vídeo e também em seu livro, publicado no Brasil pela L&PM, em 2004. Trata-se de uma visão otimista da utopia ou, melhor ainda, funcionalista, porque condiciona na sua busca a concretização de um mundo efetivamente melhor e mais justo.

Todavia o conceito nem sempre tem contado com uma interpretação assim tão otimista. Em fins do séc. XIX, com a publicação das ideias críticas de Schopenhauer e Nietzsche, muito foi redimensionado das possibilidades e da crença na utopia enquanto um modelo a desejar e perseguir-se. Na contemporaneidade, por exemplo na visão do filósofo francês Jean Baudrillard, falecido em 2007, “não há nada mais conservador que a utopia, porque ela jamais redimensiona sua perspectiva”. A frase se encontra no livro O sistema dos objetos, publicado em 1968 e por aqui pouco depois, em 1973, pela editora Perspectiva. A bem dizer, é quase uma antítese da proposição, digamos, mais literária, de Galeano. Não se trata aqui de disputar a razão ou soberania de uma atribuição ou de um conceito sobre o outro, mas de verificar que, mesmo dentro de uma concepção funcional, a utopia pode servir tanto ao objetivo de confirmar esperanças latentes de reforma no mundo social quanto ao de conservar o status quo, como se servisse a um perpétuo adiamento.

Na história recente do mundo ocidental, inclusive no Brasil, tem vicejado o que se pode denominar por pensamento “inclusivo”. É um pensamento que ganha força principalmente a partir da queda do muro de Berlim, em 1989, e da necessidade de revisão histórica dos projetos do socialismo real que nasceram e vigoraram em boa parte do séc. XX, principalmente na extinta União Soviética e nos países do leste europeu. Nesta perspectiva, não é tão importante projetar o mundo ideal nem caminhar em direção à utopia quanto pavimentar desde já as condições necessárias a garantir a todos os cidadãos o acesso, nas melhores condições possíveis, ao exercício de – pelo menos – seus mais simples direitos fundamentais, tais como educação, saúde, segurança e assim por diante, bem como corrigir e sanar distorções no modelo jurídico-social em prol do interesse público. Trata-se de um pensamento essencialmente político, mas também catalisador de mentalidades, ideologias e, por que não?, de esperanças também, tendo-se em vista a aparentemente cada vez mais remota possibilidade de reforma radical da sociedade.

Recentemente, no caderno DOC (08/04/2016) do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, o psicanalista e autor Mário Corso, trouxe uma interpretação bastante dura a respeito do conceito de utopia na contemporaneidade. De seu texto depreende-se um embotamento da racionalidade em face ao endurecimento das condições do mundo real e a construção artificial da satisfação humana, levada a efeito pelos artifícios criativos da publicidade. É um texto bastante duro e que corrobora um cenário de grande desesperança, ou distópico, como é mesmo possível verificar em muitas e muitas situações no mundo presente, desde que se rompa a tela de sua virtualidade e passe-se, ao menos momentaneamente, ao mundo real, onde a vida e as coisas acontecem.

De outro modo, o mesmo Jean Baudrillard, que antes mesmo das explosão das redes sociais anunciara que o tempo presente provavelmente seria o do “êxtase comunicativo”, mas que mantinha dúvidas importantes sobre o comportamento da sociedade massificada, acreditava igualmente que seria o conjunto social, a reboque de suas reinterpretações do tecido social que é onde todos de um modo ou outro atuam e interagem, que poderia superar a fantasia consumista, ainda que essa não seja uma tarefa das mais simples para ninguém individualmente. Porém, de certo modo ele também traduz o espírito inclusivo (ou pelo menos torna evidente onde o pensamento inclusivo poderia estar atuando ainda mais), que não mais espera pela redenção política, mas se realiza na e pela ação e colaboração imediata de todos: de pensadores a trabalhadores, das pessoas mais habilitadas (pelo menos segundo o critério da sociedade de mercado) até minorias extremas, como pessoas com deficiência, com doença mental, ciganos, homossexuais e tantas quantas existam. Quer dizer, se as utopias são territórios inacessíveis, modelos ideais sobretudo vedado às pessoas, o pensamento inclusivo visa tornar as condições de vida imediata menos duras, além de possibilitar melhores chances de (até mesmo inadvertidamente) chegarmos à própria utopia, ou a tanto quanto dela nos seja possível realmente viver.

A crise brasileira e a narrativa rashomônica das redes sociais

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Como qualquer um entre os quase cem milhões de brasileiros usuários de redes sociais, oscilo diariamente entre o desejo de abandonar de vez o hábito de consultar o púlpito alheio virtual e o de reconectar-me a ele compulsivamente. Recentemente fui informado de que há rumores dando conta de que, entre a magnitude de adeptos das redes, poderia existir um remotíssimo e obscuro percentual de usuários  que conseguiriam, nestes dias de turbulência politica, passar infensos a esta bipolaridade. Eu digo com tranquilidade que nunca vi essas pessoas nem na minha timeline nem no meu feed de notícias e isso, pelo menos no meu universo de observação, reforça a ideia de que, diante da atual crise política, todos sucumbiram ao delírio voluntário – ao próprio e ao alheio – ainda que por motivos e em graus diferentes.

Não obstante a possibilidade acima estar mesmo correta, o número de pessoas que não resiste à opção de abandonar o uso das redes sociais ou pelo menos suspendê-lo é cada vez maior, principalmente entre os mais jovens. E isto é tão mais real quanto se pense no Facebook, entre todas a mais usada das redes em todo o mundo. Isso é o que aponta, por exemplo, recente reportagem da Folha de São Paulo, segundo a qual, para além do acirramento político, outros fenômenos parecem competir na ampliação do desinteresse juvenil, tais como a presença dos chamados “textões” e a repetição persistente de conteúdo. Seriam fenômenos que estariam colaborando com o cenário de evasão. A reportagem dá conta de outras explicações também, de natureza mais psicológica, além de apontar a preferência crescente pelo uso de redes de conteúdo mais visual ou expresso, como o Instagram e o Snapchat.

A bem da verdade, esta parece ser uma tendência anterior aos eventos políticos mais recentes, mas que agora se acentua mais ou menos na mesma proporção em que evoluem as repercussões políticas e a subsequente histeria virtual. Não é muito difícil entender as motivações do abandono, uma vez que a temática política, pelo menos a realizada nos moldes tradicionais, é vista com grande desconfiança pelo público adolescente e jovem adulto. Quem imaginar, entretanto, que no principal concorrente do Facebook a situação esteja diferente, pode estar muito enganado. No Twitter, veículo preferencial entre os adultos e o meio político, a pancadaria ideológica e a proliferação da agressividade têm sido predominante e até mesmo as redes baseadas em imagens, como o Instagram, têm sido tomadas de assalto pelos grandes “significantes” das redes: os memes. Para este caso, majoritariamente aqueles com motivos políticos.

Mais que a constatação tácita da reprodução massiva de memes e do irrefreável potencial discursivo das redes, interessa notar que o arsenal argumentativo individual costuma valer-se também de fontes externas ou, como querem os sociólogos, de discursos de autoridade ou “produtores de interesse”. Desta prática diária, constante, costumam desfilar regularmente no meu feed de notícias e no de qualquer pessoa com um mínimo de diversidade de conexões pessoais, fontes bastante heterogêneas. São fontes que costumam ir desde veículos consagrados de imprensa, passando por fontes menos usuais, como blogues e até mesmo opiniões de intelectuais e artistas que emitem opiniões na rede. O festival de opiniões costuma ser farto e enlouquecedor, principalmente porque mixam-se nele as opiniões mais ou menos elaboradas das próprias pessoas.

Embora presentemente exista uma polarização evidente entre o que se poderia chamar de “governismo” e “oposição”, o leque de nuances no campo das opiniões é muito maior do que essa divisão oferce. A “opinião formada” das redes costuma partir da reprodução comentada de crenças políticas consolidadas e fontes identificadas com meios formais, partidos políticos ou movimentos organizados, enquanto que o dissenso é essencialmente anárquico. É natural: há quem diga, por exemplo, que não existiria Facebook sem o “compartilhar” nem o Twitter sem o “retweet”. Ainda assim, é nesse caldeirão de ideias emprestadas e opiniões desencontradas que vem ganhando cada vez mais forma uma visão multifacetada, ou rashomônica, da realidade e da história presente. Porém, assim como no célebre conto de Akutagawa ou mesmo no filme de Akira Kurosawa, é necessário ao espectador antever na narrativa de cada um que deseja oferecer sua versão dos fatos, uma forma peculiar de dizer a verdade e, ao mesmo tempo, de deliberadamente falseá-la.

Dentro de um bosque (Yabu no Naka), o conto que deu origem ao Rashomon de Kurosawa, resume-se na história de um assassinato mal explicado que é debatido através de uma sucessão de flashbacks dos personagens, que acabam desmontando-se e remontando-se consecutivamente, como se num puzzle interminável. Trata-se de uma narrativa que evoca as escassas possibilidades de buscar-se a verdade dos fatos, a verdade filosófica, a partir de relatos de pessoas diretamente interessadas, mas que também não se furta a investigar e esclarecer o caráter que move as decisões humanas. Evidentemente ninguém espera atualmente encontrar a natureza humana vagando entre os memes das redes sociais e suas opiniões cabais, mas, olhando bem, como naquele templo, as “armas” empunhadas para muitos dos debates acalorados de agora às vezes também parecem, aos olhos de quem quer que seja, feitas de pura mentira e invencionice, ao invés do aço desejável dos samurais. Por isso há tantos que consideram que os debates virtuais são “falsos debates” e deles procurem se afastar como o diabo foge da cruz. É um comportamento a que, lógico, ninguém cabe recusar, mas sobre o qual podem recair dúvidas e para o qual alguns questionamentos tornam-se possíveis.

Talvez bem mais simples fosse adotar a interpretação do recém falecido Umberto Eco, que afirmou no recebimento de uma de suas últimas condecorações que “as mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”. Mais simples, menos sério e possivelmente mais sem graça. Afinal, o atrativo dos debates on-line reside no mais das vezes na possibilidade de sublimação dos conflitos reais e no fornecimento de um simulacro de um embate real já que, pelo menos até prova em contrário, a vida se dá do lado de fora da tela e não no de dentro.Todavia os efeitos, mesmo que num campo simbólico, são reais, dizem respeito às pessoas e suas formas de expressão e comunicação.

Possivelmente, em sua declaração, Eco tenha acertado mais do que previra inicialmente, mas sem perceber que as mídias sociais não deixam mesmo de ser uma espécie de “bar’ em que misturam-se professores e alunos, patrões e empregados, cada qual na sua esfera de interferência, mas igualmente visibilizados e visíveis. Se a teoria das bolhas ideológicas e do encapsulamento de zonas de interesse nas redes sociais é real e perceptível, também é real a sua condição de transparência e publicidade e a preponderância da colaboração individual em sua formação. Isso significa que, a menos entre pessoas muito desavisadas, todos sabem muito bem que estão sendo vistos e justamente a exposição é que é buscada, jamais o contrário.

Muitas pessoas se queixam, nas próprias redes sociais, de uma excessiva bipolaridade no campo político e, desde os movimentos de junho de 2013 e das últimas eleições presidenciais, contatos (ou “amigos”) exigem-se condutas e posicionamentos. A isenção é tolerada, mas também mal vista nas redes sociais. Muito mais que uma divisão entre “governistas” e “oposição”, ricos ou pobres, brancos ou pretos, homens ou mulheres, a aposta na dicotomia de opiniões muitas vezes é um artifício pelo qual os indivíduos angariam aprovação dos demais, mas a cisão de opiniões políticas, diferentemente da opinião esportiva ou religiosa, implica sempre num jogo de confiança e desconfiança. Racionalmente, se diante de um caso crítico, por exemplo envolvendo crimes penais ou administrativos, uma pessoa não é capaz de posicionar-se claramente, é muito difícil para ela conseguir sustentar uma imagem de isenção dali em diante.

Erving Goffman, sociólogo canadense falecido em 1982 e que nunca estudou as redes sociais, matou esta charada 70 anos atrás, quando publicou, em 1959, o seu A representação do eu na vida cotidiana. Para ele, a projeção que uma pessoa faz ao atrelar-se a um grupo social identificado sob uma opinião predominante, mesmo que obsequiosamente, resume para aquele momento em toda a sua identidade individual. “Devemos carregar no nosso íntimo algo da doce culpa dos conspiradores(*)”, ele diz. É possível que tenhamos mesmo este dever, mas no caso das redes sociais, onde as identidades são essencialmente flutuantes, quantos estão mesmo dispostos a assumir e mostrar tudo o que isso envolve? A mim parece que uma minoria. Mas há quem pareça procurar assentar-se na credibilidade, e talvez daí surjam referências interessantes, dado o cenário já inocultável de desmoronamento de referências históricas e abundantes fontes de aluguel.

Não é de estranhar que as redes sociais refletissem de alguma maneira esse aspecto da natureza humana, além de outros, afinal o entendimento humano é certamente tão antigo quando o desentendimento. Ainda assim, é melancólico contatar que um sistema de comunicação propicie tantos desencontros de opinião, se bem que, de outra forma, seriam apenas não sabidos. No meu feed de notícias e na minha timeline,  por exemplo, a cada episódio ou cartada política da atual crise política brasileira, desfilam dezenas de conversas diretas e indiretas dando conta da faxina de “amigos”. São pessoas que se orgulham de escavar até mesmo em conversas (sic) e postagens pregressas nas redes razões para desfazer amizades, relacionamentos e, às vezes, até eliminar graus de parentesco, num espetáculo dissociativo.

De minha parte, prefiro acreditar que essas relações já não existiam e que aquele nome na lista de dezenas, centenas ou milhares de nomes já não representava praticamente nada ou muito pouco, do ponto de vista individual, e que o reconhecimento moral e afetivo entre as pessoas já se encontrava rompido, embora ali polidamente conservados. Se for isso mesmo, menos pior, porque aproximações e distanciamentos são absolutamente verdadeiros na vida real. Por que na virtual não seriam? Há que se acostumar com esse aspecto da vida virtual também. Só do que eu não duvido é que nem mesmo em casos de mútuo afastamento as pessoas forneçam a mesma explicação, isso também rashomonicamente. Já a hermenêutica rashomônica seria o outro lado desta mesmo moeda, só que margeando as fronteiras opostas das possibilidades comunicativas na época da virtualização, que dizem respeito à compreensão de cada um a partir da leitura e sua interpretação.

Guimarães Rosa, provavelmente um leitor de Akutagawa, em seus contos eventualmente lançava algumas sentenças (às vezes eram certezas) estonteantes. Há poucos dias procurei reler, quando a Editora Nova Fronteira relançou, ente outras obras as suas Estas histórias e ali, naquele Bicho mau, conto sobre uma cascavel e seis lavradores, muito antes das redes sociais, da internet, da televisão e até da luz elétrica, ao invés de amarrar forçosamente um ser humano no outro, ele explicava as forças dissociativas com a simplicidade devastadora tão comum em sua ficção: “Natureza das pessoas é caminho ocultado, no estudo de se desentender.” Não fica muito melhor explicado?
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(*) “Uma vez que todos nós participamos de equipes, devemos carregar no nosso intimo algo da doce culpa dos conspiradores. E desde que cada equipe está empenhada em manter a estabilidade de algumas definições da situação, escondendo ou depreciando certos fatos a fim de consegui-lo, pode-se esperar que o ator continue vivendo sua carreira de conspirador com certa dissimulação.”

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 19ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 119