A prima-pobre do setor livreiro

IHU on-line

Primas-pobres na grande família do sistema literário brasileiro, as bibliotecas públicas agonizam num mercado que se volta cada vez mais à bibliofilia.

O texto podia parar aí mesmo porque inclusive entre pessoas que não frequentam o espaço de bibliotecas (ou por isso mesmo) sabe-se que esta é uma realidade que vem sendo decantada ao longo da história cultural brasileira, especialmente a partir da explosão digital dos anos dois mil. No entanto, a afirmação é insuficiente para compreenderem-se as dimensões do problema. É preciso servir-se de esclarecimentos e maior precisão.

Como primas-pobres, cabe-lhes a atenção ocasional, as roupas usadas que não servem mais e uma promessa de crédito que raramente se cumpre, imaginada desde projetos legislativos que, afinal, parece que tudo bem se nunca forem cumpridos. Não há quem os fiscalize ou tenha em alta consideração. É por isso mesmo que, do Oiapoque ao Chuí, seguidamente vê-se o estado falimentar e número insuficiente de prédios deteriorados da administração municipal e estadual que apontam para a obsolescência do interesse genuíno da sociedade brasileira em cumprir a utopia constitucional de igualdade.

É a internet, diagnostica o senso comum. Bem poderia ser, mas a internet não foi o suficiente para que outros países do mundo deixassem de investir em novos espaços e ampliações. É preciso, pois, explicar a natureza da discrepância. Em vésperas do ano 2000, por exemplo, a Dinamarca reabriu o seu “diamante negro”, a impressionante Biblioteca Real Dinamarquesa. Em 2006, em Taiwan, inaugurou-se a sustentável sede da Biblioteca Pública de Taipéi. No México, fundou-se a Biblioteca Vasconcelos em 2006.

Em contrapartida, de acordo com a FEBAB e o IBGE, o número de instituições públicas vem caindo (de 97,7%, em 2014, a 87,7%, em 2018). No âmbito educacional, o cenário não é melhor. Informa o Censo Escolar de 2018 que metade das escolas brasileiras ainda não contam com bibliotecas. O “atenuante” é que há projetos de lei jogando para um buraco negro temporal a obrigação de cumprir a Política Nacional do Livro, como o Projeto de Lei 4003/20. Menos mal que o projeto continua emperrado na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.

As comparações são reiterativas, dolorosas e detratam não apenas o descaso político, mas a distância que se amplia em relação ao restante do mundo no único desenvolvimento sustentável efetivo: aquele que é mediado pela educação. Os indicadores são ásperos e os resultados socializados na materialização da precariedade que atravessa o país sob qualquer angulação.

No entanto as bibliotecas padecem por outras razões também. Há a autosuficiência de um mercado que se organiza pela relação paradoxal entre um tempo de leitura cada vez mais escasso e ofertas cada vez mais torrenciais e inacessíveis. Há ainda o fantasma da hipertributação proposta pelo governo federal assombrando o mercado e consumidores. Não bastasse isso, o vaticínio permanente do anacronismo a encantar gestores ávidos por economia sem notarem que o que fazem é investir no empobrecimento.

Certamente não foi em razão do investido nas bibliotecas (cuja maioria vive sem orçamento próprio), mas paulatinamente o ciclo do livro nacional foi se transformando numa cadeia de exorbitâncias. Apesar disso, pesquisas regulares como as realizadas pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros e pelo Instituto Pró-Livro demonstram que a projeção de quebra no começo da pandemia foi em parte detida pelo incremento do comércio digital num patamar de crescimento em torno de 41% em 2021.

Apesar da recuperação, a tendência de queda histórica se consolida em quase 40% desde 2005, pelos números da Câmara Brasileira do Livro. Exorbitância negativa, a caixa-preta dos direitos autorais continua indevassável e objeto de dúvidas permanente, dada a subjetividade da composição de preços e dificuldade em aquilatar-se a expressão real das vendas. Na pandemia, com a ausência de eventos, a crise foi ainda mais nitidamente exposta no que toca ao ciclo.

Embora as bibliotecas públicas participem cada vez mais marginalmente do setor, a situação de subdesenvolvimento exaspera uma população que, por conta da dinâmica de leitura imposta pelos canais digitais, cada vez mais se afasta do mundo da leitura. Seja pela política de preços das editoras que compensam os baixos números com altos valores ou pela substituição de fontes de informação, o setor se especializa cada vez mais em torno de consumidores de alto poder aquisitivo. Os valores praticados para o mercado de tiragens cada vez menores exorbitam, por sua vez, na composição e consolidação do livro como artigo de luxo. Como exemplo disso, basta ver a que títulos e edições se referem os valores mais altos praticados na Estante Virtualmarketplace mais utilizada pelos sebos no Brasil.

Se dirigir o olhar para exemplos de países que investiram massivamente na educação e amparo à leitura no mundo contemporâneo, como Índia e China, é insuficiente e arrebatador, então o que se pode pedir é que o setor se comporte com menos voracidade. O custo da voracidade é diretamente proporcional à dissolução do mercado consumidor, como já atestou a crise das duas grandes redes brasileiras, Cultura e Saraiva. Aplacaria os efeitos colaterais danosos, talvez, um esforço em garantir o livro após o esgotamento do seu ciclo comercial, justificando o investimento na acessibilidade digital e universal. Ao invés de simplesmente tributar, reinvestir o valor nos elos fracos da cadeia. Por complexa, a problemática não será resolvida por uma sublimação do valor simbólico do livro, quem sabe mais pelo empenho em recuperar a cadeia e evitar ao máximo o desperdício do bem cultural.

Esqueleto

Na minha rua nunca se vê ninguém à janela. Só às vezes uma furtiva cabeça chega rápido e atravessa o limiar dos prédios para ver o que foi o barulho, a que se deve a grita. Se o caminhão do gás (gás raro e nobre, pelo valor absurdo), furto de qualquer coisa, colisão ou conflito de espécies. Mais raro ainda o corpo atravessa a porta e posta-se à calçada por estar ali: a vida é cada vez mais ir e vir e menos estar. A rua desempenha a função de trafegar os entes, só nunca se percebe que é um tanto viva também.

Da minha janela, entretanto, nesses dias vi deslocarem sonoramente a sua pele. Ruazinha estreita da Azenha que mal comporta uma mão única, mas se fez mão dupla certamente num decreto da prefeitura, não efeito da observação de criatura viva que se convencesse opticamente da impossibilidade. Mas, à distância, tudo é possível e simples. E assim decidiram atrolhar de carros e movimento a ruazinha que, num passado não muito distante, talvez não comportasse sequer duas carroças em sentido contrário. Agora tem suvs e caminhões espremendo com seu rugido as margens das calçadas e espantando o povo pra dentro de casa.

Sob a pele, o esqueleto de uma cidade empedrada ainda, mas asfaltada à força. “É pra andar mais rápido”, eu lembro-me do pai me explicando, criança, numa vinda à capital, muito tempo atrás e eu ficava fascinado que a gente andava no carro sem tremer inteiro por dentro graças ao deslize fácil da cobertura preta. Alguém me disse até que agora em novembro próximo se podia fritar um ovo ao meio-dia só quebrando a casca e depositando clara e gema sobre o asfalto. Nunca fiz nem vi a experiência, mas deve ser possível. O solado emborrachado dos tênis e sapatos gruda mesmo, parece um molho derretido entre o corpo do indivíduo e o chão da cidade, num prato sui generis mesmo: o homem urbano.

Retirada a pele, o esqueleto de que falava Quintana aparece como fratura exposta de um lugar que já não sossega muito, nunca está muito a passeio, que é devedor dos próprios deveres, e de um povo que às vezes parece nunca dever nada à cidade. Quase nunca. Só por cobrá-la do que muitas vezes também se prefere não lhe oferecer. De bom grado, Porto Alegre se entristece às vezes, e mais do que merecia. Mas não dói, quase não se nota sua dor, não grita ao descarnamento, à exposição. Sequer geme.

Será essa a “dor infinita” de que falava o poeta? Tem quem hoje recuse Quintana como o grande poeta da cidade também. O “velho bobo”. Mas que desaforo! Tem que ser muito poeta pra ouvir um lamento desses. Vista do alto, do meu terceiro andar, Porto Alegre faz bem em não doer mesmo. Finge bem a cidade como uma velha mãe desiste de queixar-se pra não fustigar os filhos..

Canções espirituais

Há um encontro subterrâneo entre Minas Gerais e o Rio Grande do Sul. Existe há muito, eu desconfiava. Tive provas disso há pouco. Ontem mesmo.

Ouvi ontem seus rumores eclodindo em ondas sonoras (como se água extravasada do solo) nos “Olhos D’água” do disco surpreendente que uniu de um lado Calos Di Jaguarão e, de outro, o belo-horizontino Nelson Angelo.

Muitas coisas estranhas no disco, a começar por encontrar-se na fronteira ao extremo-sul do Brasil/Uruguai um compositor totalmente deslocado da musicalidade mais característica do Rio Grande do Sul e suas platinidades. Lá nas bordas do rio Jaguarão, é como se um autêntico “clubeiro” tivesse se extraviado dos destinos da constelação de músicos que “brotaram” na famosa esquina mineira, confluência da Divinópolis com Paraisópolis.

Conheço as composições dele, Carlos, desde o disco “Clarice”, de Simone Guimarães e da sua estonteante “Trilogia da Sereia”. Depois eles fizeram juntos um disco (Sinhá-vida) que tem, entre outras, a hipnótica “Ingazeiro“. A Simone eu conhecia de antes. Falei do seu radinho e discos seus que me tocaram muito e toquei muito também, que a sua voz tem algo que solicita ouvir mais, e mais. E mais um pouco só… E nunca para mais.

Mas ele eu não conhecia. Talvez intuísse, mas isso só conta pra gente biruta mesmo. Mas já percebi o que têm de encontro dele com o Nelson Angelo. O Nelson conheço desde que nem tinha tamanho de gente, do disco “Geraes”, do Milton Nascimento. O Nelson é compositor de “Fazenda”, a música que é um lugar só no Brasil e ao mesmo tempo todas as suas fazendas. Isso quem disse foi Caetano Veloso, não eu. O que eu percebi é que são duas pessoas aquáticas e que, por essa essa estranha razão, uniram-se numa celebração do sagrado da água e de outros “Cantos Espirituais”. É o nome do disco deles, aliás.

Disco cheio de chuva, canções molhadas, barrentas até, água de rios. Bonito de ouvir e molhar também. De perder a hora. Parece feito em tempos outros, com poesia meio como a de Cacaso e outros que cantavam só – o visto e o vivido. Quer dizer, só cantavam mesmo. Isso que é bom no disco. Isso que é bom, afinal.

A montanhesa

Vês que puno tudo ao pior juízo
e nem as lástimas escuto?
Vês no que me tornei?

Com o coração nas mãos,
eu não vou,
mas podes levá-lo
(sem um sacrifício).

O horizonte deposto
pelos teus olhos montanheses
acobertará meus sonhos.

Mountaineer
Jens Ferdinand Willumsen 1863 – 1958

O melhor livro do ano (de 1987)

Nada mais absurda que a difundida ideia de que um romance excelente inspira a procurarem-se outros ainda melhores. É uma falácia de salão. O mais habitual de acontecer às pessoas, de fato, é uma excomunhão do tempo perdido e a indagação mental de como aquele autor ou autora passou tanto tempo imperceptível, ainda mais quando se descobre tratar-se de um romance publicado no longínquo 1987. Apenas que ninguém consegue suportar a ideia de que a literatura às vezes é intragável desde a primeira página e, por razões estranhas à arte, como o apreço ao bom nome do autor ou de uma casa editorial, insiste-se em perseguir recompensas que de imediato mostram-se improváveis. Também o tabu de não maldizer o consagrado impede que prospere a crítica honesta e, em seu lugar, quando muito, o silêncio constrangido, substrato ideal dos pactos de mediocridade.

Como A Porta (Intrínseca, 2021) é inexplicavelmente o primeiro livro traduzido e publicado no Brasil da escritora húngara Magda Szabó, infelizmente é um pouco mais difícil obter traduções em português de seus outros livros. A menos que se recorra às livrarias e editoras estrangeiras, nada feito. Se valeria à pena? Não só valeria, no meu juízo, mas seria igualmente fator de economia financeira e temporal, tendo-se em vista que as ofertas editoriais por abundantes não redundam necessariamente em significantes. Talvez em húngaro, o tal idioma do diabo*, fosse complexa demais a leitura, mas nos mais familiares é certamente uma boa viagem.

Especular a razão do seu obscurecimento é bastante simples. Apesar de que, no leste europeu, nos anos 50 e 60 rasgou-se o véu férreo da cortina, seus escritores, principalmente aqueles que afrontaram os regimes comunistas, foram por aqui solenemente ignorados, essa que é a forma primeva do que hoje se denomina “cancelamento”. Ora, um autor que não se dobrasse às exigências históricas e revolucionárias a inteligência tropical e caribenha consagrava um grande vazio, um deserto de referências. Nesse sentido, poucos escritores que viveram o desterro das invasões múltiplas em países como Polônia, Checoeslováquia e Hungria atravessaram a cortina de fumaça que se estabeleceu acima de seus nomes e obras. Era como se não fosse preciso saber a dificuldade que era viver e sobreviver sob o tacão comunista, afinal, como então se manteria a aura utópica?

Mas Magda Szabó, assim como o bem mais difundido por aqui Sándor Márai, faz um uso soberbo da característica mefistofélica do seu idioma. É por melíflua, acessível e clara que ela torna ainda mais estranha a tomada de consciência interpessoal marcante entre a narradora e a fabulosa personagem Emerenc, síntese dos traumas humanos comuns a quem tem de viver apesar da irracionalidade histórica a que a política e o poder sempre conduzem.

Para além de tudo, é um salto para fora da obviedade e previsibilidade das listas de favoritos que logo estarão por aí. A porta, de Magda Szabó, é um livro que é mesmo uma porta a outro universo de violências e silêncios que uma pessoa e uma cultura sonegam à outra em prol da sobrevivência. É um “atravessar” conduzido por uma narradora magistral. Quando me perguntarem, se perguntarem, qual o meu “livro do ano” eu já posso dizê-lo: é “A porta”. Do ano de 1987, mas que isso importa?

* No prefácio que Guimarães Rosa escreveu para a antologia de contos húngaros que o amigo Paulo Rónai verteu diretamente ao português, em 1957 (Antologia do conto húngaro), ele fez a definição do que lhe parecia o idioma magiar, um entre os que ele estudava. A palavra escolhida foi “diabólico”. De acordo com ele, a língua ideal com que se falar ao próprio capiroto.

A porta

Leva uma vida atravessar a porta,
nunca menos que isso.
Às vezes, leva até mais.

Atravessá-la sem a promessa dos pomares,
topando os frutos derrubados sem propósito
por ela mesma.

Atravessá-la sob o perfume espúrio
de pernis assados ao longe
e gritos de crianças felizes.

De antemão, a porta está sempre parada
ou move-se a todo instante
para que seja inútil buscá-la.

Atravessando-a ou não, o único destino
é derrubar-se às paredes
para que ela continue secreta e intacta,

frestando dimensões frustradas
e platôs intransponíveis
de um único labirinto.

O velho e a gueixa

Tem uma só voz o sol.
Voz de um velho.
Certo senhor japonês.

Voz incompreensivelmente clara,
inacessivelmente dura
e que bate com martelos de pau
fazendo buracos no vento,
inoculando a substância do mundo
onde nada mais entra,
desde que foi tudo lacrado por fora.

Mas o velho não quer mais esculpi-lo
e ri, paspalho,
da força grave que emana
sem querer
do seu umbigo.

* * *

A lua, por outro lado,
é coberta de coisas
que nunca foram previstas.

Elementos externos
dos quais ela tem ojeriza
e que querem sempre pregar-lhe
nas vestes
e ela não deixa.

A lua é toda sorrisos,
mas só para o sol prepara
chávenas de chá
em cascas de pêssegos,
a gueixa.

Registro de ocorrência

Na Ipiranga, ao longo de uma curva
onde os automóveis em alta velocidade
costumam derribar-se, o acidente
(banal? fatal?) tranca toda a cidade.

Colisão traseira ou lateral? Faz alguma
diferença? Nenhuma.. E logo
se forma a procissão de carros (ou gente)
como aguardando o fogo.

O que se vê, as pessoas, todas
procuram a confirmação
de que não são elas mesmas ali
no trauma fatal da concussão.

Morrer todos morrem, mas quem espera?
A morte é coisa que o corpo dá a ciência.
A alma? Às vezes é morta antes.
Não que se registre a ocorrência..