Outros outubros virão

Em torno ao ano de 1978, a parceria musical entre Elis Regina e Milton Nascimento já andava em vias de debutar, quer dizer, acontecia há pelo menos quinze anos. Suas carreiras, embora acontecessem em planos transversais, marcaram-se mutuamente como um dos mais emblemáticos encontros da música brasileira dos anos 60 e 70. De suas composições sempre muito dramáticas e provavelmente das mais politizadas do repertório dela, Elis colheu momentos de intensidade inigualável. Isso desde as primeiras gravações de Morro Velho e Canção do Sal até a derradeira O Que Foi Feito Devera, registrada por primeiro no Clube da Esquina Nº 2 de Milton.

Foi no livro Os Sonhos Não Envelhecem que encontrei uma história muito interessante a respeito da dupla letra composta para a melodia de Milton. Márcio Borges, o autor do livro e de uma das versões da letra, conta que pouco antes de voltar ao estúdio para gravar o Clube da Esquina Nº 2, Milton andava viajando muito ao exterior e angariava onde passava o reconhecimento de prestigiados músicos de jazz, rock e principalmente da crítica internacional. Um dia, de volta ao Brasil, ele então pediu aos seus dois principais letristas – o próprio Márcio Borges e Fernando Brant – para que fizessem, sem sabê-lo, cada um uma letra em separado para a melodia. Márcio compôs a que ficou conhecida como O que foi feito de Vera, alusão a letra de Vera Cruz, composição de 1968 gravada em Courage e na qual Márcio fala sobre os muitos exílios políticos que andavam acontecendo em “Terra de Vera Cruz”, o primeiro nome dado pelos conquistadores portugueses ao Brasil. Uma década após a Vera Cruz original, finalmente se anunciavam os ares da abertura e o retorno de muitos dos exilados de então, com “a tribo toda reunida” surgindo como esperança central da abertura e campanha pela anistia.

De sua parte, Fernando Brant escreveu a letra de para O que foi feito devera. “Devera” do futuro mais que perfeito do verbo “dever” (segundo uma amiga mineira, “devera” é em mineirês corruptela do advérbio “deveras”). E, da mesma forma que Márcio, buscou na redemocratização emergente do país inspiração para imaginar e prever que “outros outubros virão, outras manhãs, plenas de sol e de luz”. Fernando parecia impregnar-se de um esforço maior em responder à indagação que Milton teria também lançado aos dois, junto à melodia proposta: “o que foi feito de nós?” Esta última pergunta/último verso presente nas duas letras.

Nesse ponto é interessante notar que enquanto Márcio recorria ao passado idílico e o drama dos povos indígenas (nas parcerias dele com o irmão Lô Borges e Nelson Ângelo, a temática indígena aparecia com muita força, basta ver as faixas Pão e Água, Ruas da CidadeTestamento e Canoa, canoa do mesmo Clube da Esquina Nº 2), Fernando procurava realizar um espécie de acerto de contas com o passado recente e, ao mesmo tempo, uma autocrítica, porém lançada em direção ao porvir. “E o que foi feito / É preciso conhecer / Para melhor prosseguir”, ele compôs para que a voz de Elis Regina logo tratasse de imortalizar letra e melodia, como acontecia com praticamente tudo o que cantava.

Em 1978, enquanto Milton buscava realizar o sonho de fazer um disco tão colaborativo quanto havia sido o primeiro Clube da Esquina, Elis fazia a tournée de Transversal do Tempo, disco em que mais uma vez reunia a fina flor dos compositores brasileiros seus contemporâneos. O que foi feito devera, no entanto, só apareceria em disco em Saudade do Brasil, de 1980, e no póstumo O trem azul, de 1982. Mais ou menos cinco anos antes de sua morte, Elis continuava a fazer o que se habituara ao longo dos últimos anos: procurar entre novos compositores da música brasileira o que vislumbrar em matéria autoral. Ela, que havia arrebanhado ao seu repertório e discografia uma amostragem muito significativa de uma ou duas gerações de compositores de todo o Brasil, tinha o costume de receber em casa dezenas de gravações de compositores que a viam certamente mais que como um radar musical ou uma merchant avançada, mas alguém bastante livre de preconceitos para com o que pudesse despontar de novo na música popular. Isso se comprova na sua muito bem conhecida última entrevista, na qual, entre outras coisas, dizia estar atenta à emergente cena paulistana. Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, principalmente. Ao mesmo tempo, continuava a rever seus “fornecedores” mais antigos. Milton, no caso, muitas vezes declarou sua total devoção e até mesmo que compunha pensando mais na interpretação dela do que na sua própria.

Na minha humilíssima opinião, O que foi feito devera na versão de Fernando Brant e cantada por ela tornou-se o grande bastião musical da redemocratização e da campanha pela anistia e de uma ou duas gerações de brasileiros que, retomando a democracia, tinham, além do direito de sonhar um país mais livre e menos desigual, convicção de que deviam e poderiam fazê-lo. No entanto, quarenta anos após sua composição (1978 – 2018), a pergunta que me cala ainda é – “o que foi feito de nós?” – e que se repete como se num jogo infinito: o que foi feito de nós do que foi feito de nós do que foi feito de nós e assim ad infinitum

Há três anos, em 2015, faleceu Fernando Brant, talvez a única pessoa em condições de responder sinceramente a essa pergunta. Seria, sem dúvida, uma pergunta um tanto quanto indelicada. Não se trataria de colocar em julgamento o desejo utópico de uma geração embalada pelo sonho de um mundo melhor, mas de saber dela própria o juízo sincero a respeito não de como as coisas deveriam ser e estar a essa altura da história nacional, mas se efetivamente seriam pessoas satisfeitas com o seu próprio empenho e desempenho, ou se não.

Através da própria letra de Fernando, creio muito que ele teria a coragem necessária de dizê-lo “por acreditar / que é cobrando o que fomos / que nós iremos crescer”. Então, sem mais demora, são essas as mesmas perguntas que eu gostaria de fazer, se pudesse, aos meus contemporâneos e adjacentes: em algum momento cobramos mesmo o que fomos? Acreditamos ainda hoje mesmo no que dizíamos e dizemos? Crescemos, afinal, com o passar do tempo, ou permanecemos à deriva do sonho (e ao bel prazer dos mares revoltos do real)?

Em algum trecho de seus livros, é dito que Freud teria antecipado algo de visionário sobre a visão dos poetas a respeito do mundo. Não sei em qual livro ele o teria escrito, mas a frase solta diria algo como “os poetas sabem antes”. O que teria sido, de acordo com Leyla Perrone-Moisés*, confirmado por Jacques Lacan em seus estudos sobre o psiquismo literário em Fernando Pessoa. Imagino que não se trate de um dom premonitório que atenda aos poetas e escritores, mas de uma concepção de espaço/tempo e do drama humano numa dimensão não usualmente tomada em consideração. Para mim, que situo Fernando Brant entre os mais importantes poetas/cancionistas da música brasileira, confere em apenas verificar na sua letra que, de acordo com ele, a projeção do futuro naquele momento incluía também uma autocrítica geracional e o sopesamento da própria história.

Nesses últimos quarenta anos (1978 – 2018) mais de uma geração nasceu e cresceu por aqui. Meus próprios filhos são posteriores aos millenials, aos nativos digitais, à geração “Z”. Elis Regina não chegou sequer a ver a concretização da abertura e as eleições presidenciais de 1989; morreu em 1982, ano em que se iniciava a grande mobilização popular em torno das Diretas-Já e que culminariam na ascensão da Nova República, no pós-constituinte de 1988. Também já não há as letras politizadas de um Fernando Brant a embalar os sonhos geracionais de agora (se é que os há), subitamente despejados na vertigem da realidade da derrocada do projeto da esquerda e no surgimento de uma resposta à direita, como a que deverá se confirmar, de acordo com as pesquisas eleitorais recém divulgadas, nas eleições de depois de amanhã, no próximo domingo (28/10), o último do mês de outubro deste ano.

Para mim, que fui praticamente embalado sob a trilha do Clube da Esquina Nº 2, é impossível evitar de que voltem a martelar mentalmente os versos de O que foi feito devera, principalmente no que dizem “outros outubros virão” e da condição incessante da história. Ainda que chegue eu mesmo derrotado de véspera a uma eleição cujos protagonistas me parecem estranhíssimos sobretudo às necessidades futuras do país, não encontro mais onde (talvez esse sentimento se repita de uma ou outra forma em toda a minha geração) depositar esperanças, justamente a “matéria-prima” das letras mais duradouras compostas pela dupla Milton e Fernando e interpretadas por Elis.

“Mais vale o que será”, diziam os gigantes da música brasileira em plena década de 70. Mas o que “seria” não necessariamente “foi” e o assombro deste “vir a ser” ainda hoje adiado, sobretudo quando diz respeito a uma nação pacífica e solidária, parece cada vez mais extinto nos versos daqueles poetas e também nas esperanças populares. Certamente “outros outubros virão”, mas agora somente mesmo para as novas gerações. O sentimento de fracasso que me acomete é o de não poder lhes entregar – a meus filhos (e nosso filhos e netos) – o que lhes seria devido, já que nossas melhores intenções deveriam visar muito mais o seu futuro do que o nosso próprio.

Há várias versões – todas desconhecidas – sobre a origem de uma frase por certo muito antiga que afirma que “não herdamos a terra dos nossos ancestrais, mas a tomamos emprestada dos nossos filhos”. Parece que ela pode ter origem na Índia, na China ou em algum povo ameríndio pré-colombiano. Só não tenho dúvidas de que ela NÃO é brasileira, a não ser que entrevista no que tentou nos dizer o “verso menino que escrevi há tantos anos atrás” de um Fernando Brant e ninguém parece ter prestado a devida atenção, porque desatendemos deliberadamente o futuro sem nenhuma solenidade – a minha geração – como se fosse seu principal direito a desconstrução indiscriminada de tudo: esperança, democracia, passado, presente e até mesmo o futuro dos nossos. Como Fernando, “falo assim sem tristeza”, mas com uma muito profunda vergonha dos meus filhos e netos por isso.

______________________

* Perrone-Moisés, Leyla. Pessoa e Freud: “translação” e “sublimação”. Ide (São Paulo) [online]. 2011, vol.34, n.52, pp. 237-246. ISSN 0101-3106. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31062011000100025

Anúncios

Nenhum mistério

Amálgama

Enganam muito as resumitivas setenta páginas de Nenhum mistério, o mais recente volume de poemas de Paulo Henriques Britto. Folheando-o, mas sem demorar-se, chega a parecer que é um livro possível de ser lido num instante. Trata-se de impressão ilusória, pois, à medida que se o avança, o livro vai como retardando o folhear para adiante. Essa desproporção é ainda mais sensível quanto mais se pode perceber a intensidade do despojamento obtido por Britto e, de outro lado, mais o leitor vai se deixando preencher pela leitura.

Essa alquimia por certo não é por ninguém garantida e depende de um acerto entre leitor e poeta. Deste último, não se pede mais que apenas atue diretamente em prol da compreensão alheia e, através de um código humano e comum, universalize seu discurso a ponto de causar empatia, ainda mais quando sua matéria preferencial é a subjetividade. Do primeiro, exige-se o esvaziamento de atribuições e que seja permeável à negociação proposta, sem o que a leitura de poesia torna-se um exame ao invés de um contato. O que acontece em Nenhum mistério é que o resultado dessa combinação proporciona uma identificação de outra espécie, na qual o vazio de um se combina ao vazio de outro. Ao final, resta um ser humano olhando para o outro, mutuamente desarmados.

Para além da extradição de qualquer traço hermético desde o título, os poemas de Nenhum mistério desde o seu princípio devolvem à experiência do eu o fardo incompreensível de viver. É daí que o leitor travará sua primeira identificação com a falta de sentido e a necessidade de aceitar as determinações fatais do inapreensível: o futuro, o não acontecido e o desbastamento da experiência. Logo no primeiro poema do livro, quando diz que ‘rememorar o não acontecido não dá em nada’, Britto sepulta a esperança lírica e apresenta o drama da (não ‘de’) consciência que virá ao longo das páginas a seguir.

Por vezes monástico e onipotente em relação ao seu próprio universo, do qual tudo sabe e tudo vê, o poeta vai ao extremo da anulação das expectativas. Sem, contudo, imergir no contemplativo ou na catalogação objetiva do mundo, é flagrante a tentativa de recolhimento por meio de um auto consolo, mas sem punição, o despojamento da culpa libertando o ser para o que ele é essencialmente, no confronto com o presente e a aceitação. Em Nenhum mistério, se há vestígios da impassividade racional com que Britto sempre parece ter tratado seus temas e motivos, aqui ele não hesita em esvaziar-se dessa potência. Afinal, vai se vendo mais do humano do que do poeta e essa simbiose composta por música, palavras e sentido realiza o trabalho do poeta-escultor que ele sempre tem sido: o artífice de uma poesia não residual e nem um pouco evasiva que mostra, mesmo com a dificuldade inerente ao foco poético, o alvo do que quer atingir. E atinge.

O rigor imperturbável de Britto, demonstrado aqui quando se debruça sobre si mesmo numa poesia extremamente mental e reflexiva, tem uma história que provém de um poeta e tradutor que emerge da própria maturidade e de um longo trabalho com a poesia. Tradutor de Elizabeth Bishop, Wallace Stevens, V. S. Naipul, Thomas Pynchon e de mais de uma centena de livros, em território nacional Britto não tem muitos companheiros na tradição de poesia mental (se fosse da cerebral seria mais fácil apontar a miríade de poetas cabralinos e pós-cabralinos). De fato, se fazer do pensamento objeto pode ser compreendida como uma exteriorização de motivos, a consciência, por outro lado, é um flerte interminável para com o despojamento do eu. Talvez na poesia de Dante Milano, formalista como a dele, ou mesmo nas experimentações zen de Orides Fontela, se possa ver algo da desértica jornada da poesia através da verdadeira solidão do pensamento, onde o poeta se depara com a eterna dificuldade expressiva em torno do eu e suas projeções no mundo objetivo em sua impermanência e constante desfazimento.

O desencanto mais notável em Nenhum mistério reside em que nenhum momento ele apela à memória e, no andaime de decomposições que a ordenação do tempo impõe a todos, os poemas são testemunhos nos quais qualquer um se percebe, porque esta é uma condição humana fundamental: a de que as perdas sempre se sobrepõem ao acúmulo. Nesse desbastamento e ao mesmo tempo no cumulativo de sua carreira, Paulo Henriques Britto esvazia a si mesmo e aos seus leitores e isso é um tanto quanto incomum na poesia contemporânea. E mesmo ao lermos um livro denso como o dele, ao final resultamos mais leves.

A deficiência como fronteira do contrato social em Martha Nussbaum

Inclusive

Não conheço muitos pensadores contemporâneos, principalmente na filosofia, que tenham se debruçado diretamente sobre questões de interesse às pessoas com deficiência. De forma indireta, há muitos que sem dúvida abordam temas de interesse seja no que diz respeito à vida social quanto às condições existenciais e morais dos indivíduos, no entanto me parece ser uma experiência um tanto incomum encontrar quem os aborde objetivamente e, mais raro ainda, quem apresente uma compreensão abrangente e profunda de seus problemas e não um receituário de soluções consertativas. Isso é o que há de melhor no capítulo que a filósofa norte-americana Martha Nussbaum dedicou às pessoas com deficiência no seu “Fronteiras da justiça: deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie”, publicado no Brasil em 2013, pela Martins Fontes.

Essa ausência, eu não diria exclusão, parece ter mais uma causalidade histórica do que propriamente teórica. A essa altura do séc. XXI, não é segredo para mais ninguém que até o período da Segunda Guerra Mundial praticamente todas as questões relativas às deficiências, especialmente as intelectuais (sobre as quais ela mais se debruça), encontravam-se confinadas ao interesse da medicina e de investigações e intervenções muito tímidas da psicologia, campo que se ampliou e diversificou em muitas ramificações desde então. Seja como for, é pacífico afirmar que até então o interesse científico para com a deficiência intelectual era predominantemente clínico, naquilo que nos estudos da deficiência ficou conhecido como o “modelo médico da deficiência”.

Nussbaum, no entanto, se interessa menos pelos aspectos clínicos da deficiência do que pela sua emergência na esfera pública do séc. XX e em atualizar os estudos contratualistas, principalmente os de John Rawls1, de quem foi aluna em Harvard. No livro, ela esclarece também que muito do seu interesse decorre de uma experiência familiar. Um sobrinho seu, Arthur, diagnosticado com as síndromes de Asperger e de Tourette, percorre o capítulo do livro e ela muitas vezes compara detalhes de sua experiência de vida a de outras pessoas com deficiência, principalmente Sasha, uma jovem com paralisia cerebral grave e profundamente dependente, e Jamie, um garoto que nasceu com a síndrome de Down e cuja vida vem sendo relatada em diversos livros escritos pelo seu pai, o crítico literário Michel Berubé. É, portanto, do confronto de vidas reais às teorias de filosofia política que ela analisa a problemática, tendo como lastro a verificação dos marcos legais norte-americanos e a emergência da cultura inclusiva mundo afora.

Antes de ir um pouco mais além ao que diz respeito às suas ideias propriamente ditas, acho importante dizer que se trata de um livro muito acessível no que se refere ao cuidado com a linguagem e a apresentação dos conceitos políticos empregados. Sem dúvida, é um cuidado pessoal da autora que, como intelectual pública, é muito presente no debate público nos EUA e em todo o mundo, publicando regularmente na imprensa e dialogando com dramas sensíveis do mundo contemporâneo, tais como as questões feministas, globalização, equidade e justiça social.  Junto a Amartya Sen, o “inventor” do índice de desenvolvimento humano, Martha fundou em 2004 a Associação para o Desenvolvimento e Capacidade Humanos. Em dezenas de artigos e livros, ela vem desenvolvendo o que chama de a “teoria das capacidades”, postulado filosófico que, em linhas gerais, pretende obter o desenvolvimento de condições civis que permitam universalizar o conceito de dignidade humana onde é mais negligenciado. Não se trata, portanto, de uma proposição teórica, mas de uma que é dirigida à resolução prática dos problemas que afetam as democracias contemporâneas em todo o mundo.

Como já dito, neste livro Nussbaum parte de um tempo menos remoto àquele tratado na filosofia de Michel Foucault ou Gilles Deleuze, o de institucionalização e controle do espaço público. Foucault2, principalmente em “História da loucura”, analisa exaustivamente os mecanismos de exclusão na modernidade e como isso vem desaguar nos principais conflitos mundiais do século XX, com a naturalização do racismo e eugenismo como crenças morais distintivas. Não é que Nussbaum não os comente ou menospreze, apenas que seu interesse opera muito mais na própria composição das sociedades livres e no contrato social moderno.

A inclusão da pessoa com deficiência intelectual na sociedade tem uma história muito breve, ainda. Segundo Nussbaum, os contratualistas clássicos, mesmo Rawls, que faleceu em 2002, fundamentam o contrato social na capacidade que as pessoas têm em cooperar em condições de igualdade visando a vantagem mútua. Nessa perspectiva da teoria da justiça, uma tênue linha de continuidade leva às situações de desigualdade a noção de cuidado especial e altruísmo e, em seu centro, a ideia kantiana do indivíduo como um fim em si mesmo. Nussbaum, além de esmiuçar previamente as teorias do contrato social e considerar que nem sempre oferecem respostas satisfatórias em relação ao que denomina por “fronteiras”, ainda assim considera que é preciso oferecer uma alternativa que nos alce para o tempo futuro. Para tanto, ela se apoia na sua teoria das capacidades e num consenso ampliado de esfera pública no qual as diversidades estejam garantidas, as condições de igualdade permanentemente impulsionadas e a dignidade humana sempre preservada.

Sobre este tripé, Nussbaum vai dialogando com os pensadores modernos sem nunca deixar de observar a realidade, o que a distancia de qualquer visão idealista de justiça. A forma com que avalia o mundo é através das suas instituições fundamentais sociais: a justiça, a assistência e a educação. Apesar de neste livro abordar a educação apenas no que se refere às formas de atendimento as pessoas com deficiência e sua conformação formal e legal, Em outros livros, Nussbaum tem desenvolvido suas preocupações quanto às competências lucrativas e o que chama de educação para as capacidades compreensivas. Num dos seus outros livros traduzidos no Brasil, “Sem fins lucrativos”, ela examina detalhadamente o problema do abandono dos valores humanitários na educação ocidental.

Nussbaum reflete permanentemente sobre o contratualismo e sua ideia de inclusão passa justamente por um esforço em garantir o valor da busca pela igualdade e de uma atenção às dificuldades individuais apesar dos flagrantes desequilíbrios sociais e econômicos. Em seu enfoque das capacidades, o ser humano não pode ser instrumento do outro e sua ideia supera o simples reconhecimento3 através de uma ideia de inclusão como superação da estigmatização4 e obtenção e manutenção do autorrespeito moral de cada pessoa.

Em relação à deficiência, Nussbaum dedica-se especialmente a relacionar o que chama de “ética do cuidado” com o conceito de desenvolvimento de capacidades. Mesmo que o termo remeta ao que se refere ao preconceito contra pessoas com deficiência, o “capacitismo”, sua concepção de “capacidade” é inteiramente oposta ao privilégio de uma capacidade sobre a outra ou de qualquer discriminação competitiva ou qualitativa.

O que ela não deixa de considerar nem menospreza é o fato de que o cuidado é real e dispende recursos humanos, familiares e sociais. Convencer a sociedade da importância de investir na inclusão é, em sua visão, uma forma de convencê-la de que precisa melhorar essencialmente e nas relações humanas amplo senso. Detendo-se longamente em valorizar as condições de vida, assistenciais e educacionais, Nussbaum nunca generaliza as formas de atender as pessoas. Com um princípio em tudo semelhante ao de Ortega y Gasset5 em “O homem e sua circunstância”, ela não propõe um modelo de atenção, mas que a atenção seja a adequada a cada indivíduo e que o social colabore com ele, e não a oposta readequação.

Como crítica do funcionalismo e argumentando contra a ditadura dos “standards”, seu enfoque é o do autorrespeito e da dignidade. No que se refere à escolarização – e para tanto ela se vale dos exemplos já mencionados – critica situações que rompam com a equidade de direitos e a preservação da dignidade. Refutando o procedimentalismo jurídico, Nussbaum insiste que a justiça não se esgota na lei e nem no acesso à justiça, mas na experiência civil, onde o direito ao cuidado e a noção de autorrespeito deveriam preponderar ao direito formal e às convenções sociais. Nesse ponto, ela defende que a educação deva ser heterogênea e o estado responsável por garantir a cada um o que lhe é necessário para conviver em condições de igualdade com os demais. A preocupação com igualdade, ou equidade, aliás, é central tanto no seu pensamento como em todo o contratualismo rawlsiano.

Os elementos ou requisitos fundamentais de uma sociedade menos excludente e desigual são, para Martha, o apoio mútuo, a cooperação e a ideia de uma democracia pluralista. Citando exemplos de cidadãos norte-americanos que obtiveram da justiça daquele país as garantias de acesso adequado à saúde e educação, ela avança da seara dos direitos formais ao apoio e consideração das diversas habilidades e critica duramente o sistema educacional norte-americano, segundo ela quase todo voltado ao mercado competitivo e valores de consumo, assim como a decadência no financiamento das escolas públicas.

Sobre assistência, Nussbaum dedica um longo arrazoado sobre a a vida real das pessoas com deficiência, seus cuidadores e as dificuldades legais sobre acesso à renda e serviços acessíveis e de qualidade. Centrando-se muito na questão das mulheres, como feminista que é, Nussbaum denuncia severamente as sociedades que sobrecarregam sem desonerar de nenhuma forma famílias de baixa renda e sustentadas pelo trabalho feminino. Nesse ponto especificamente, volta a fortalecer a ideia de compromisso social coletivo em torno às dificuldades e custos reais e na necessidade de um contrato social que preveja a diversidade de condições sem, no entanto, deixar de fomentar o desenvolvimento social, econômico e cultural de cada pessoa.

Para além das questões sobre deficiência, Nussbaum ainda aborda em seu livro duas outras situações bastante complexas. Trata-se das desigualdades globais (e consensos internacionais) e, por fim, os direitos que atendem aos animais não humanos. Como filósofa interessada especialmente na ética e na justiça global, Nussbaum se vê muito a vontade com o legado de Rawls e devota à educação dos sentimentos o capítulo final de seu livro. Mesmo considerando que a demanda por melhorar as condições objetivas do mundo passa necessariamente por melhorar as condições subjetivas, seu livro é um reforço considerável nas esperanças de quem propõe o ser humano mais como agente da benevolência do que do do egoísmo. Para ela, as fronteiras da justiça continuam a requerer reflexão e novas soluções. E a curiosidade intelectual e a coragem imaginativa benevolente, como propõe, poderão continuar a nos encorajar contra o cinismo e o desespero que às vezes bate à porta.

_______________________

1 Rawls, John. Uma teoria da justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2016. 816 p.

2 Foucault, Michel. História da loucura. São Paulo: Perspectiva, 2014. 560 p.

3 Honneth, Axel. A luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Editora 34, 2009. 291 p.

4 Goffman, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. 158 p.

5 Ortega y Gasset, J. El Quijote en la escuela. El espectador III. Obras completas. 3ª reimpresión. v. II. Madrid: Alianza, 1998.

Uma pequena fábula taoista

Contam que Laozi, o “nascido velho”, durante a dinastia Zhou em pleno Período dos Estados Belicosos, foi historiador, bibliotecário do Império e compilou de memória o Tao Te Ching, seu legado para a filosofia oriental e de todo o mundo. Um contemporâneo seu, chamado Sun Tzu, estrategista militar que nem sempre sabia como agir diante da violência dos clans e tribos que manchavam de sangue o país de dimensões continentais, algumas vezes foi ao encontro do ancião para aconselhar-se. Sun Tzu sabia do risco de encontrar o outro num estado de humor alterado, quando ele preferia simplesmente ler poesia ou caçar borboletas a meditar sobre o caminho perfeito. Ainda assim, por meio de uma tijoleta rejuntada apenas recentemente, soube-se que, de fato, houve um último encontro pouco antes dele montar num búfalo e partir da China para sempre. Na tijoleta, os ideogramas revelaram que Sun Tzu implorou por que o outro o esclarecesse quanto a melhor forma de apaziguar os ânimos dos conterrâneos e a quem dentre os contendores deveria poupar. Lá pelas tantas, teria chegado a exasperar-se, dizendo-lhe algo que, mal traduzido ao português, soaria como: “Mas mestre, todos estão esperando por sua sabedoria e, enquanto isso, vão acabar todos se matando como animais…” Laozi teria cessado seus preparativos para a viagem, erguido os olhos na direção do militar e dito-lhe: “Mas eu estou também esperando, general. Quando restarem apenas as pessoas sensatas, eu voltarei aqui e terei algo a lhes dizer.” O general finalmente entendeu o caminho dos pensamentos do homem e desistiu de vez daquela filosofia, entregando-se ele também de uma vez por todas à guerra insana. Num último gesto, ao conferir o estado do búfalo para sua partida final daquele lugar terrível, Laozi ofereceu de recordação ao general a tijoleta na qual um aprendiz havia gravado a conversa entre os dois. Sun Tzu a desprezou e, tapeando-a, jogou-a ao chão quebrando-a em muitos pedaços. Em silêncio, Laozi confirmou entristecido que o general buscava apenas justificativas para agir como pretendia, e não sabedoria. Mas um zaragateiro sobrevoou o lugar e ele voltou a sorrir. E foi na direção dele que prosseguiu ao montar o búfalo e finalmente partir.

Lucio Carvalho (1971—)

Poemas de “Falso Alarde” na Escamandro. 18/09/2018

escamandro

Lucio Carvalho nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1971.  Tradutor bissexto, publicou a coletânea de contos A aposta, o livro de artigos e ensaios Inclusão em pauta e o livro de poemas Falso alarde. Há uma década, é redator e co-editor da revista Inclusive – Inclusão e Cidadania. Escreve ficção, poesia, crítica e artigos jornalísticos para diversas publicações.

* * *

Antílope

andei muito por aqui
mas hoje esqueço
se há marcas para encontrar
como em João e Maria
ou se houve, de repente,
nova devastação
de tanto em tanto
os cometas invadem o espaço
e suas caudas de luz e detrito
espalham terror e espanto
mas elas não fazem por si sós
dependem dos outros portanto
com meus cabelos nas árvores é diferente
são marcas de mim mesmo
e o chão fez brotar
de uma forma indecente
tudo o que derreti
no seu…

Ver o post original 585 mais palavras

O futuro que pode estar acontecendo

mais recente livro de Yuval Noah Harari tem tudo para mais dia menos dia ser daqueles livros com os quais todos irão fatalmente tropeçar em qualquer grande livraria, ou se irá bater os olhos nele nas gôndolas dos aeroportos, ou ainda saltará na sua tela, qualquer que seja ela, em recomendações algorítmicas do seu fornecedor preferido. Talvez se devesse imaginar que isso tudo se tratasse do efeito de uma grande campanha de marketing viral, a começar pelo sugestivo título do livro, e completada pelas seguidas aparições midiáticas do autor, mas o mais certo talvez fosse considerar que Yuval novamente acertou a mão (que o digam seus editores) ao escrever um livro que as pessoas desejam ler e mais ainda porque suas “lições” agora dizem respeito ao tempo presente e seus fantasmas e fantasias mais atuais.

Um leitor inocente indagaria com o livro em mãos (ou em mente): mas isso é bom ou mau? Depende, seria talvez o mais apropriado a responder-se. Dependendo, sim. Dependendo, não. Ou, sendo o mais tolerante o possível, ambas as situações e respostas ao mesmo tempo.

Num país de alegado e documentado desinteresse pela leitura, não deixa de ser interessante que um livro de divulgação científica esteja disputando a atenção dos leitores contra uma variadíssima gama de subliteratura e isto por certo pesa a seu favor. Por outro lado, por sua própria presença na posição de mais vendido, seria possível alegar-se que então se trata de mais um livro fácil, um caça-níqueis, e isto talvez pesasse contra o autor e seu novo título.

Seja como for, ambas são apreciações superficiais e, desde que são colocados à venda, o que se espera é que livros vendam bem, portanto pelo menos aparentemente não há nem um crime em vista. Além do mais, essa é uma discussão que não chega ao limiar da relevância do livro em si mesmo, que é o que deveria importar, mas apenas demonstra a intensa desconfiança que tem cercado a publicação de qualquer livro de interesse histórico.

Algumas décadas de jornalismo histórico sobressaindo-se aos livros de e sobre história (e assim sucessivamente em outros campos do conhecimento) haveria de resultar num custo destes: neste caso, uma paranoia exorbitante. Para leitores que se acostumaram a identificar por livros de história apenas aqueles fartamente ilustrados e redigidos numa linguagem coloquial extremada, para não dizer banal, é importante dizer que o livro de Harari pode e deverá ter ainda muitas leituras críticas, inclusive desta espécie taxativa. Ocorre que na maioria das vezes estas são críticas irrelevantes, enquanto que seu livro é apenas acessível e um tanto quanto repetitivo no que confere aos seus argumentos e temáticas, mas isto parece não desapontar suas legiões de leitores mundo afora.

A noção de “irrelevância”, aliás, é das mais abordadas ao longo das lições por ele propostas e rapidamente se pode perceber que se encontra no fundo de muitas de suas preocupações com o tempo presente e também com o porvir. Ao passo em que fundamenta sua crítica ao tripé narrativo preponderante no séc. XX (o fascismo, o comunismo e o liberalismo), segundo ele em vias de ruir em prol de um mundo cada vez dominado e orquestrado por algoritmos, Harari localiza na expansão da tecnologia a nova grande ruptura no modo de viver de toda a humanidade a causar não apenas uma grande onda de desemprego em massa, mas a irrelevância de pessoas e até mesmo de nações inteiras diante da emergência tecnológica e seus grandes artífices, configurados principalmente graças ao desenvolvimento das inteligências artificiais. Com um assunto assombroso como esse e trabalhando sempre numa margem de que isso tudo venha a ocorrer em algumas décadas, Harari já ganhou a atenção de meio mundo a despeito de seus exageros, sejam deliberados ou não.

Não se trata, segundo suas lições, da obsolescência de ocupações e modos de viver que estariam por acontecer, mas do que está acontecendo já e cujos sinais se fazem sentir por toda a parte. Para Harari, o tempo presente é carregado por nuvens a impedir sua percepção com a clareza que anos de estudo em Oxford, na Universidade Hebraica de Jerusalém e longos períodos dedicados à meditação Vipassana permitiram-lhe entender de forma diferenciada. Talvez por essa razão é que a clareza, ou sua busca, de fato, parece ser o tom preferencial da maioria de suas argumentações. Apesar de localizar em torno do ano de 2050 o derradeiro colapso da humanidade, Harari o faz através de uma narrativa envolvente que em muitas vezes parece-se mais a um conto de fadas sombrio no qual o grande mal espreita o mundo globalizado enquanto os incautos creem poder dormir sob uma segurança apenas aparente.

Seria de esperar que suas 21 lições, ainda que tenham sido coligidas e baseadas nas ideias de muitos artigos, entrevistas e apresentações, trouxessem, para além de um diagnóstico circular, saídas viáveis para pelo menos boa parte da humanidade. Ao contrário daqueles que costumam postular na ascensão tecnológica a redenção da humanidade e a solução racionalizante para as mazelas tanto do corpo físico quanto social do humano, Harari prefere fazer as vezes do condutor da inevitável catástrofe, valendo-se para tanto de uma combinação de ceticismo e humanismo.

É em determinada altura de sua lição para a educação do século 21 que ele, no entanto, registra aquele que parece ser o grande conselho no que se refere ao futuro em todo o livro: “O mais importante de tudo será a habilidade para lidar com mudanças, aprender coisas novas e preservar seu equilíbrio mental em situações que não lhe são familiares. Para poder acompanhar o mundo de 2050 você vai precisar não só inventar novas ideias e produtos – acima de tudo, vai precisar reinventar a você mesmo várias e várias vezes.” Bem, para um país como o Brasil, tido como a “nação Rivotril” e que amarga o incômodo ranking de líder mundial em transtorno de ansiedade e quinto lugar em casos de depressão, segundo dados da OMS, trata-se de um conselho desanimador, ou então (preferivelmente) pueril.

Não que seja próprio do ser humano acalentar esperanças inúteis, mas esta parece ser mais uma revivificação da ideia marxista da decomposição da solidez, retomada tantas e tantas vezes sob diferentes formas durante o séc. XX a ponto de ainda conseguir parecer inédita ou, mais que isso, converter-se em aconselhamento de sobrevivência no mundo pós-capitalista. Este parece ser o ônus com o qual têm de arcar todos aqueles que se aventuram a predizer o futuro: esbarrar na muralha de antigos conceitos e da imprecisão histórica. Também parece um pouco a sina de que Philippe Ariès comenta no seu O tempo da história, da dificuldade em conceber-se claramente o contemporâneo, já que ele traz consigo o sentimento natural de uma época.

De qualquer forma, a partir da publicação da sua ambiciosa trilogia histórica, Harari tornou-se um debatedor importante ao longo da última década, ainda que muitas vezes reverbere como apenas mais uma dissonância sutil do tempo presente e seus insights fugazes enquanto o tempo engole a todos indiscriminadamente. Suas preocupações, recheadas de exemplos obtidos da história comparada, têm lastro e muitos interessados num mundo com excessiva pressa para ler e comparar e ávido por lições de quem advoga para si um misto de qualidades ímpares, tais como o ceticismo, a isenção e o distanciamento misantrópico. Condenando rapidamente aquele que talvez ainda seja o bem mais caro à civilização, o livre-arbítrio, a um papel subalterno no ordenamento dos fatos políticos e subjetivos, Harari realiza em suas lições muitos alertas importantes, mas corre o grande risco de ele mesmo acabar por denegar a espécie humana sua capacidade de discernir por conta própria.

Em sua narrativa, em lugar da consciência há cada vez mais a onisciente inteligência artificial do Google e de outras gigantes do Vale do Silício. No lugar da espontaneidade das relações humanas, a aventura seletiva das redes sociais e a desintegração das comunidades. No lugar do conhecimento e da diversidade humana, apenas algoritmos e Big Data. No lugar das idiossincrasias regionais e culturais, uma teia cultural reordenando o mundo em estruturas anômicas e situadas para além da compreensão humana.

Num mundo e tempos tão complexos como os narrados em sua não tão breve história da humanidade, é chegado o tempo em que Harari se tornou imprescindível para entendê-los e isso só pode ser muito bom para ele mesmo e seus leitores. Ocorre que mesmo em posse de livros sem dúvida bem elaborados e escritos, ainda assim é impossível garantir que o seu maior temor, o da irrelevância, não possa igualmente vir a atingi-lo numa outra narratologia superveniente, e isso não seria exatamente uma boa notícia. Bem mais prudente seria afirmar que, por enquanto, seus livros colaboram em acautelar-se com o presente e com o futuro. Trata-se de mais uma ambiguidade, mas dada a gravidade e a irrevogabilidade dos processos históricos, não cabe ser inocente nem com livros, nem muito menos com alertas apavorantes sobre o futuro.

Amélia

Foi bem quando meu filho entrou no primeiro ano escolar que conheci uma linda menina chamada Vanessa, de quem lembrei muito nesses dias. Dela e de sua mãe. O nome da mãe era Amélia e, assim como aquela outra celebrizada na marchinha de carnaval, também era ela uma “mulher de verdade”, ainda que por razões muitíssimo diversas.

Antes mesmo de nascer, num ultrassom, Vanessa foi diagnosticada com uma condição chamada disgenesia do corpo caloso, ou síndrome de Aicardi. Não vou entrar em detalhes sobre tudo o que pode envolver a condição, apenas que é uma alteração neurológica que costuma implicar em algumas dificuldades no desenvolvimento neuropsicomotor e cognitivo. No caso da Vanessa, havia um pouco das duas situações, uma hipotonia muscular relevante e a necessidade permanente de controle de convulsões.

Como nós, Amélia também estava buscando escolarizar a filha, o que é seu dever e sem o que estaria sujeita à fiscalização pelo conselho tutelar, ministério público e sanções judiciais previstas na forma da lei. Esse tipo de fiscalização normalmente decorre de suspeita de negligência da família quanto à escolarização e frequência e pode acarretar desde um processo judicial a até mesmo a perda do pátrio poder em casos mais graves.

Convivi com a Vanessa e a Amélia por cerca de três meses. Foi o tempo que permanecemos na escola. Depois, como mudamos para outra, perdi completamente seu contato, mas nunca as tirei da minha memória. Naqueles meses na escola pública, conheci também crianças que iam à escola para ter sua primeira refeição às 3 horas da tarde, na hora da merenda. É inimaginável que haja pessoas que roubam e desviem recursos da merenda escolar de crianças, mas há, e o braço da lei quase nunca alcança os autores desses crimes, o que nos joga num abismo civilizacional desesperador, inacreditável.

Na época, Vanessa tinha nove anos e estava no segundo ano do fundamental. Há dois, incluída ali na escola. No andar térreo da escola não havia salas de aula, apenas a estrutura burocrática. As salas de aula ficavam situadas a partir do segundo andar de um total de três andares, acessíveis apenas através de uma escada como, aliás, continua ainda hoje. Ao pé da escadaria foi onde muitas vezes conversei com a Amélia e conheci um pouco da sua vida e da Vanessa e também de seus três irmãos. Ali, numa cadeira de madeira, ela permanecia a tarde inteira, socorrendo eventualmente a filha de alguma situação que a professora não podia ou não sabia como atender. Às vezes, um mero engasgo com saliva. Outras vezes era preciso ajudá-la ao banheiro. Eventualidades dessa natureza e outras.

Sem maiores justificativas, a direção da escola não autorizava que a Amélia permanecesse nos corredores escolares e então algum colega da filha subia e descia com recados para que ela tivesse como socorrê-la. Na sala de aula, numa cadeira especial obtida através de uma entidade filantrópica, a Vanessa usufruía do que se chama na lei o “ensino regular”, e apenas depois de ser carregada no colo pela mãe acima e abaixo através dos degraus da escadaria. A Amélia tinha muita força porque carregava a pequena nos braços sem nunca demonstrar cansaço e recusava toda a ajuda oferecida nesse sentido.

Orientada pelo ministério público a buscar junto à defensoria pública forma de acionar a justiça a fim de garantir uma pessoa que auxiliasse para a Vanessa, a Amélia contou-me que, após um ano de audiências adiadas, ouviu o rumor de que o governo do estado parecia dispor de alguns poucos concursados para suprir essa demanda. Dependendo, poderia ela finalmente beneficiar-se da ação. Mas, por via das dúvidas, ficava ali a tarde inteira e às vezes um pouco mais, porque o vizinho que a levava até em casa, a bairros dali, atrasava bastante. Por sorte a platibanda da escola as protegia da chuva quando chovia e impavidamente aguardavam pela carona, mesmo que o vento nem sempre colaborasse com uma possível piedade que ele, de fato, não tem.

Em razão de complicações que às vezes aconteciam com a saúde da Vanessa, muitas vezes ela ficava longos períodos sem ir à escola, mas, graças à persistência da Amélia, continuava evoluindo a despeito da carência generalizada de tudo.

Muitas mães e pais de crianças com deficiência ou limitações, são desde cedo estimulados a participar ativamente dos cuidados, estimulação e educação dos filhos. Muitos trocam de profissão e vão estudar formas de melhor ajudá-los. A gama de pais/mães terapeutas não é precisamente sabida, mas empiricamente eu sei que é imensa. Vão desde fisioterapeutas, pedagogos, médicos e assim por diante. É fácil de entender as razões desse fenômeno. Na sala da minha casa, por exemplo, instalei um quadro-negro e não é por razões estéticas que o fiz.

A Amélia, contudo, de família muito modesta, nunca conseguiu realizar essa transformação. Separada, passou de empregada doméstica e mãe de quatro filhos a dependente da ajuda dos poucos familiares em condições de ajudá-la e dos auxílios sociais (3/4 de um salário mínimo) e serviços públicos.

Ouvindo nessa semana a decisão do Supremo Tribunal Federal em invalidar o chamado homeschooling, eu lembrei muito da Amélia e dos panos de prato e costuras que ela vendia na escola, entre professores, funcionários e outros pais e mães. E pensei que ela e a filha seriam justamente pessoas que teriam se beneficiado de um programa de educação domiciliar pensando decentemente, não necessariamente integral ou em função de credos religiosos. Mas, até aí, já estaria entrando no ramo dos devaneios, o que não é nem um pouco recomendável. Apenas fiquei chocado ao ver que muitas pessoas inteligentes estavam associando os dois comportamentos: o dos fanáticos criacionistas que querem educar seus filhos com base numa ficção religiosa e o de pessoas com múltiplas deficiências ou doenças graves.

Nessa semana passada ou no máximo na outra, passei os olhos em uma reportagem de uma revista de grande circulação nacional, falando dos benefícios do brincar e dos dilemas éticos nisso envolvidos. Ao invés de associar a leitura às crianças em si mesmo, pensava justamente no que foi feito da ética interpessoal das pessoas e no compromisso moral de autoridades com a sua dignidade. Lembrei também de uma leitura que havia feito de Ortega y Gasset, no qual ele desenvolve o seu conceito de “circunstância”: o homem e sua circunstância. E pensei o quão a política tem sido pervasiva e invasiva ao mesmo tempo, porque muitas vezes sob o pretexto normativo e formalista é que acabam se criando as formas mais violentas de anomia e exclusão.

A Vanessa, principalmente pela pobreza de sua família e também pela pobreza calamitosa do estado, é apenas uma das crianças sem esse fabuloso direito a brincar e muito menos o de estudar com conforto e decência. Amélia, sua mãe, sequer tem o direito de buscar sua sobrevivência, vivendo de favores. Para ela, nada de escola em tempo integral. Para a filha, nada de um mínima atenção individualizada. Para ambas, nada disso de uma escola perto de casa, mas o trânsito interminável de cidades que expulsam os pobres para cada vez mais longe de tudo, justamente onde rareiam os serviços e possibilidades.

No entanto, para o regozijo de famílias que tem o orçamento de uma empresa, a única circunstância que admitem para os outros é algo como a sua própria, um seu espelho. Ou a generalização de um direito que eles conhecem bem por pagar caro por ele e do qual os outros apenas ouviram falar.

O que houve com o espírito inclusivo que agora pode passar sem o menor pingo de ética e compaixão? No momento em que lutar por uma lei ou por um pacto normativo qualquer se torna mais importante do que as pessoas, é que algo vai muito, mas muito mal com a sociedade. Estou falando em pessoas de verdade, não portfólios de Facebook, claro. Como Vanessa, Amélia e tantas outras que nem sabemos quantas. Nossas estatísticas, nosso Big Data estatal, sequer nos permite distinguir entre o que é real e ilusão. E achamos que sabemos de alguma coisa e com base nesse misto de ignorância e arrogância vamos consertar o mundo.

Cinco anos depois, não tenho ideia de onde andarão a Amélia e a sua filha. Alienado num mundo apenas um pouco mais confortável, me entristece muito a falta de oportunidades e um modelo educacional craquelado de tão engessado. Mas me entristece ainda mias verificar que para defender o suposto modelo inclusivo seja necessário invisibilizar histórias como essa. Bom, comigo não funciona. Não consigo. Em algum momento, não sei quando, eu me incluí fora dessa. Perdi a empatia com o cinismo. Passei a sentir saudade é da Amélia.

 

Cantognake

Há uns dias assisti a um filme que mostrava os últimos dias de vida do chefe indígena sioux Touro Sentado. Um belo filme, baseado na história real de uma pintora e retratista norte-americana, Caroline Weldon, que arriscou a vida para retratar o legendário sioux. O filme se chama “Woman walks ahead” e não sei se já se encontra nos meios habituais, Netflix, etc.. Eu o consegui num torrent.

Além do idioma cheio de sonoridades e estalos bucais dos indígenas, fabuloso por si só, e do morticínio final da tribo liderada por Touro Sentado, terrível por si só, o filme tem alguns momentos muito bonitos sem resvalar inteiramente à pieguice, o que é meio raro em se tratando de filmes que retratam povos indígenas.

Uma cena em especial, de um diálogo entre Sitting Bull e Caroline, dão conta de uma imagem invisivelmente poética daquele momento histórico (1890). Na tomada, ambos cavalgam lentamente através da pradaria. O cacique sabe que não pode mais fugir ao seu destino e de qualquer modo irá morrer lutando contra o exército norte-americano que deseja confinar a nação dakota em regiões inóspitas e impróprias ao cultivo. A essa altura, a maioria das tribos já abandonara o modo de viver dos ancestrais e começava a conformar-se à agricultura e aos “negócios” com o homem branco. Inclusive o próprio Touro, que já havia deixado para trás sua liderança, modo de vida e a sua impressionante indumentária original. Há dessa mesma época inclusive retratos de Touro usando traje ocidental e chapéu coco. Mas, mesmo adaptando-se já às novas condições, Touro e outros guerreiros e xamãs continuavam a buscar em eventos místicos a ideia de liberação transcendental da situação em que viviam.

Por outro lado, ele sabia muito bem que lutar seria morrer, mas também que não poderia mais recusar o confronto. A retratista, tendo chegado ali naquele momento crucial onde se “celebrava” nova demarcação e indígenas reviviam momentos de violência para com seus velhos e crianças famintas, assiste aquele momento sem volta na história daquele sujeito impressionante que tantas baixas havia causado ao exército norte-americano, entre eles o também legendário General Custer.

Mas, naquele caminho silencioso em que ela buscava dissuadi-lo do confronto pelo qual seria eternizado (quer dizer, outro massacre), ele lhe explica o significado de uma palavra lakota: “cantognake”. No filme, com estas palavras:

“Para achar nosso caminho
na pradaria,
às vezes paramos…

E olhamos… Recordamos.

Com as pessoas também.

Às vezes paramos
e olhamos e recordamos.

Isso se chama ‘cantognake’.

Colocar e manter
no nosso coração.

Este momento.”

Na tomada anterior, numa assembleia promovida pelo exército a fim de explicar o que seria feito na nova demarcação, Touro havia surgido na sua veste magnífica e com seu cocar de grande chefe e uma fala muito impactante, uma declaração de guerra, sobre os sacrifícios do seu povo, os nomes dos guerreiros e chefes abatidos em confrontos e daquela forma mostra-se finalmente pronto para o que tiver de ser, justamente o que pretendiam os militares federais que também desejavam vingar-se de perdidas batalhas anteriores.

É claro que Touro Sentado entrou para a história e é lembrado até hoje pelos seus feitos militares, mas achei aquela outra cena bem mais tocante, até porque expressa verbalmente e com um significado tão poderoso. A pessoa perceber o momento presente e sua relevância é cada vez mais incomum, diante da efusão de eventos e fatos sem fim. Não estar na vida em modo piloto automático requer o sacrifício de muitas coisas. Essa é, para mim, a verdadeira percepção do épico. O resto é a mais pura neurose: viver, guerrear, morrer.

Lojinha mágica

Morar no limiar da Cidade Baixa, em Porto Alegre, tem me proporcionado ao longo dos anos diversas experiências. A maioria eu classifico como boas. Gosto do bairro e das coisas do bairro no qual Érico Veríssimo gostava de perambular para observar de esgueira a vida da pequeníssima burguesia da Porto Alegre dos anos 30 do século passado.

Também eu gosto de perambular por ali, mas isso justamente tem me causado recentemente algumas más experiências.

Não faz muito tempo que passei a acompanhar o trânsito pela Lima e Silva não apenas dos frequentadores noturnos habituais, mas também de um cada vez maior público interessado em certo estabelecimento espiritual (isso mesmo) aqui por perto inaugurado. Embora o lugar ostente uma placa que faz as vezes de pórtico, ainda hoje não consegui identificar sob que credo ou credos ocorrem aquelas práticas religiosas.

De que são religiosas e de diversas matizes eu cada vez mais tenho certeza. Há ali vários símbolos esotéricos, muitos que não sei distinguir, mas me parece claro que há influências maçônicas, haja vista a pirâmide bem ao centro do anúncio, o famoso olho de Hórus, mas também há cruzes, crescentes, uma miniatura do deus indiano Ganesh e um machado que me parece ser de Xangô, o deus da justiça das religiões africanas. Bem se vê que o pessoal ali não tem problema com sincretismo.

No entanto, mais do que tentar identificar a simbologia exuberante, nunca tentei me informar muito a respeito. Por certo há ali um ou mais espiritualistas a praticar suas especialiades e provavelmente a contabilizar alguns rendimentos, dado que o empreendimento não faz muito foi expandido ao prédio vizinho. Certamente é a forma de melhor atender a clientela que nas noites de quarta-feira costuma fazer fila desde a metade da Lima e Silva até boa parte da Venâncio Aires, dobrando a esquina, para obter seu aconselhamento espiritual ou outro dos serviços que ali devem ser prestados.

É bom que diga que nunca tive e nada tenho contra o estabelecimento e muito menos com a prática religiosa aparentemente diversa que ali é praticada. Não entendo dos desígnios do além mais do que minha ignorância permite e por muito tempo apenas me espantava com o crescente da fila e da aglomeração. Sinal de que os tempos não estão fáceis e o conforto espiritual anda cada vez mais necessário. Às vezes as duas necessidades se acompanham, a material e a espiritual. Eu sinceramente acho isso tudo bastante compreensível.

Apenas não consigo achar compreensível é que pessoas em busca dessa espécie de conforto, aconselhamento e etc pretendam purificar seu interior, espírito, alma, o que seja, deixando em seu rastro uma trilha de imundície e sujeira sem explicação.

Como morador, atualmente me incomodam muito menos os bêbados da Cidade Baixa que essas pessoas “espiritualizadas”. Devem se achar puros espiritualmente os fregueses do comércio esse, mas, na verdade, não saem de lá nem um tantinho melhores cidadãos, senão teriam a vergonha de pelo menos juntar a imundície abandonada às ruas e calçadas.

Espiritualidade muito pouco sustentável essa. Se é que vale mesmo esse nome o negócio da lojinha mágica.

O raio problematizador farroupilha

Os gaúchos têm todo o direito de detestar o mês de setembro. Eu detesto do fundo do meu coração este mês maldito que num dia faz um frio enregelante e, noutro, calor insuportável, tudo isso entremeado por um vento contínuo e sibilante, virações repentinas e os próprios gaúchos, que nesse mês se revelam pessoas das mais enfadonhas do universo.

É o mês em que se volta aos grande temas sulistas, a saber, o tradicionalismo, o hino rio-grandense, farroupilhas e outras coisas totalmente irrelevantes ao resto do mundo, mas que aqui, por tédio ou traumas, costumam despertar a ira e o contencioso de pessoas que nos outros onze meses do ano até parecem inteligentes. Em setembro costumeiramente essa máscara cai por completo.

De todos os dramas locais, poucos me parecem tão inabordáveis quanto a presença dos dois seguintes versos no refrão em nosso hino, composto, dizem, no ano de 1838.

“Sirvam nossas façanhas / De modelo a toda terra.”

Sob variáveis argumentos que vão desde uma suposta manifesta e atávica arrogância até os argumentos históricos que dão conta da ausência de qualquer façanha, é impressionante o grau de devoção semântica a dois versos de um hino. Pois o raio problematizador do hino consegue ser tão ou mais tacanho que o próprio hino, porque deveria parecer óbvio a qualquer pessoa que os hinos costumam ter o objetivo de exaltar o ânimo pátrio de um povo e não o de aniquilar sua auto-estima ou confrontá-lo em seus exageros.

Há quem inclusive saque do exemplo de como o hino é cantado nos estádios de futebol e pátios escolares, a plenos pulmões, para “comprovar” que somos todos, sem exceção, separatistas ou neonazistas por isso mesmo. Ora, a comprovação final dessa brilhante dedução seria a forma com que se cantaria o hino. Bah.. Tri complexo esse raciocínio..

Acontece que é um hino fácil e efetivamente entusiasmado, muito ao contrário do hino nacional, todo cheio de inversões e apassivamentos que parece até que foi compsto pelo meste Yoda, de Star Wars. E com frases de um entusiasmo fabuloso, como na frase “deitado eternamente em berço esplêndido”. Alguém consegue mesmo ouvir isso sem sentir ganas de amor pela pátria-mãe?

Seja como for, numa demonstração de chatice ímpar, toda essa tradição critica (porque de tanto repetir-se os argumentos já pode ser chamada de tradição) acabou conseguindo o impensável, que é tornar-se tão ou mais impalatável quanto os aspectos mais toscos do culto ao passado, seja o real ou o inventado. Mas esta parece também uma tradição dos gaúchos, essa luta frátria, esse sectarismo doentio.

Desde 1893, entre republicanos e federalistas tem havido bastante disso por estes pagos. Mas, lá pelo menos, tinha a emoção de um eventual entrevero mais sério ou até uma degola. Agora a briga é no Facebook e, como todas as brigas de Facebook, ridículas e sonolentas. Mas, cada tempo com as suas respectivas façanhas, não é verdade?

Haja saco de ser gaúcho..