Curso para Facebook

Perto aqui de casa, a avenida João Pessoa é em tudo resumitiva da pobreza que nunca se concretiza, que é claudicante, que se demora em prédios que vão se arruinando ano a ano e sem qualquer reparo. Ao mesmo tempo, é avenida das mais rápidas de toda a Porto Alegre. Ônibus nos dois sentidos são atravessados pelas ambulâncias apressadas rumo ao Pronto-Socorro o dia inteiro. O parque que desde o tornado ficou mais capenga e o pequeno comércio dos briques a mercantilizar móveis de segunda mão, roupas usadas e a normalizar o pequeno furto fazem um cenário depauperado que nunca figura nos cartões postais da cidade, mas que sempre esteve ali e dessa mesma forma: como uma paisagem condenada a permanecer exatamente assim pela cidade e seus habitantes. Foi num desses pequenos comércios que se deu a tragédia da Juliana.

A Juliana é a zeladora do meu prédio vizinho, trabalha ali há tanto tempo que eu me lembre. Se moro por aqui há treze anos, a Marianna então tem treze anos também. Ela é a filha da Juliana e com quem, na verdade, tudo se passou.

Provavelmente foi ao saltar do ônibus que elas viram uma nova placa no andar superior do edificiozinho acanhado. Para a Marianna, o comércio da João Pessoa é o mais rico do mundo porque elas moram numa travessa aberta de um beco da Cruzeiro do Sul e lá o único comércio é o bar. No bar, elas são supridas por tudo o que precisam, menos a farmácia e o gás, que vem no caminhão do cachorrinho (é a marca do gás, um cachorrinho azul). Entre elas, falar do cachorrinho é sempre falar do caminhão do gás. Quando querem falar de um animal, elas dizem “cusco”. O pai da Marianna morreu no bar, engasgado com um pedaço de churrasco numa sexta-feira à noite. A ambulância não chegou a tempo. Não houve mesmo o que fazer pelo Antônio.

A plaquinha tinha uma promessa que veio a calhar com o presente que a Juliana lhe deu no Natal: um book para postar inteirinho e um curso para o Facebook com as fotos que ela tiraria com o celular. Para que mesmo serve um curso de Facebook? Foi o que ela se perguntou e não soube responder, mas queira muito ter fotos bonitas e convenceu a mãe a subir a escadinha estreita e conhecer o fotógrafo, cujo nome era Sebastian e nome estrangeiro, que sempre parece de coisa melhor.

“Dona Juliana”, ele teria dito com muitas gentilezas e um café em copinho plástico fervente. “É um investimento pra vida! Vai valer cada centavo! Sábado de tarde, no feriado, pode ser pra vocês?”, perguntou-lhes. Ficou ótimo, a Juliana mais tarde me contou. Seria folga do serviço e a previsão do tempo era ótima também. Eles aproveitariam vários lugares da cidade e uma grande surpresa ainda por cima. Segundo o Sebastian, “a cereja do bolo”.

No sábado, tomaram da linha Jardim Botânico e desceram no parque, parando em cada lugar e ele tomava fotos sem fim da Mari, que exultava de tão linda, nos seus trezes anos que pareciam vinte de tão grandona e exuberante. Dali, foram ao Shooping. Do Shooping à Praia de Ipanema e de lá a outro Shopping, Mc Donalds, fotos em frente às vitrines e até dentro dos provadores das lojas de departamentos, com roupas que não poderiam pagar porque o décimo terceiro da Juliana ficaria mesmo todo é com o Sebastian.

Na porta do Shopping, prontos a partir e depois de receber a instrução de postar as fotos ao longo do ano, a Juliana pagou cada centavo devido, conforme o combinado. O Sebastian já estava quase entregando o telefone de volta com as fotos e tudo o que tinha ali quando lembrou-se de que podia mesmo tentar com um amigo a entrada num clube ali perto, de gente rica. “Não tem foto igual àquelas”, ele disse-lhes já com elas seguindo atrás dele, rumo ao clube. Pelo telefone, ele conseguiu acessar o amigo, um certo Josualdo, e entraram pela porta dos fundos, na área de serviço do Clube Associativo Velejadores da Zona Sul.

Nem a Juliana nem a Mari viram, mas o Sebastian entregou uma nota enrolada ao tal amigo e apenas ouviram ele dizer: “Só não demorem!”

Eles foram caminhando por tudo, pela área verde, a grama recém aparada, o restaurante ao ar livre fechado (era feriado), piscinas e quadras de esporte. Quando decidiram fazer uma foto numa escadaria florida, o Sebastian sacou do telefone da Mari e não viu que por detrás dele chegavam dois seguranças do lugar. Antes da foto, a Juliana gritou-lhe que vinha gente, mas ele não teve tempo de desviar do soco e do empurrão que tomou, caindo ao chão. Ao longe, elas viram o tal amigo espiando a cena e fugindo entre as árvores, como um saci.

Na queda, salvou-se o telefone porque um dos sujeitos foi rápido em arrancá-lo da mão do fotógrafo que não teve remédio a não ser entregá-lo, com todas as fotos da Mari ali dentro. Sob a ameça de perder dentes e apanhar, foram embora do lugar. O aparelho estava perdido, mas não era tudo. Ali dentro, as fotos mais lindas que a Mari já tinha feito na vida.

“Eu lhe arranjo outro, minha filha, não te preocupa”, a Juliana procurou lhe confortar. “Eu faço tudo de novo pra ti, querida…”, prometeu em lágrimas o Sebastian. A Mari chorava, mas dizia apenas “Tudo bem, não se preocupem…”.

Três meses depois, feitas faxinas e outros serviços, a Juliana conseguiu comprar um celular novo para a filha no cartão que o supermercado lhe ofereceu, parcelado em dez vezes. Pelo menos tirou da cabeça a ideia do book, nunca mais desejou fazer de novo apesar da oferta da mãe e do Sebastian, que ofereceu descontos. “Não, não quero mais…”, ela disse. Ficou com o telefone e um dia encontrou as próprias fotos num anúncio de acompanhantes, mas nunca contou à mãe ou a ninguém mais. Nas fotos estava tão bonita que nem parecia ela e se admirava como se olhasse para dentro de um espelho quebrado e a outra, não ela, é quem lhe parecia feliz.

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A terra inabitável

O twitter de David Wallace-Wells nunca mais foi o mesmo depois de 09 de julho de 2017. Nesse dia, na New York Magazine, onde é editor-assistente e articulista, ele publicou um artigo desconcertante a respeito das mudanças climáticas em curso no mundo contemporâneo. Além do título assustador, A terra inabitável, digno dos clássicos filmes do gênero catástrofe, no artigo Wallace-Wells fazia o apanhado visionário distópico mais aterrador sobre as condições climáticas e ambientais do planeta desde que o ex-vice-presidente Al Gore lançou em 2006 o seu documentário Uma verdade inconveniente.

Desde então, o jornalista se tornou um dos grandes protagonistas da retomada das discussões em torno dos impactos imediatos que cercam a questão ambiental, absorvendo tanto o pânico da população quanto críticas severas de setores que tentam minorar sua advertência e converter seu livro apenas numa indigesta presença entre os bests-sellers de cabeceira lançados no início deste século. A estratégia de esfumaçamento seria mais eficiente se Wallace-Wells estivesse mal informado, usando de má-fé ou escrevesse mal. Nada disso acontece. Seu livro consegue ser um trabalho de reportagem de primeira linha e obra de não ficção que não se consegue largar desde a primeira frase.

“É pior, muito pior do que você imagina”, ele adverte a seus leitores para que deitem fora de imediato suas ilusões quanto aos efeitos perniciosos e devastadores das mudanças climáticas não serem tão sérios assim. Neste ponto do livro, em sua primeira frase, talvez as pessoas mais amedrontadas já desistam de encarar a série de evidências que ele vai descortinar num livro que o premiado jornalista Andrew Solomon classificou como “um meteoro”. Não fosse uma metáfora do desastre que possivelmente levou à extinção no passado remoto do planeta os grandes répteis e as primeiras formas de vida, talvez se pudesse dizer que seu livro tem a pretensão de evitar que efeito semelhante àquele possa ocorrer novamente, mas agora por obra exclusiva dos seres humanos e suas opções de produção e sobrevivência.

Cerca de dois anos após a publicação do artigo, Wallace-Wells o expandiu e aprimorou até transformá-lo no livro que a Companhia das Letras está lançando agora no Brasil. Acrescido do subtítulo sugestivo “uma história do futuro”, ele inicialmente parece seguir a linha de outros autores que têm se dedicado a perscrutar o futuro iminente. Ocorre que, diferentemente de historiadores como o israelense Yuval Noah Harari, autor de Sapiens e 21 lições para o século XXI, Wallace-Wells especula calcado na realidade presente e demonstra com clareza científica suas teses para lá de desconfortáveis. Em seu livro não há, portanto, suposições, mas constatações documentadas. É o tipo de exigência que todo jornalista científico, aliás, deveria fazer antes de provocar estardalhaço ou, da mesma forma, quando visa amortecer narrativamente a realidade. As razões de sua preocupação, se não fossem comuns ao interesse de sobrevivência da humanidade, poderiam ser descartadas solenemente. Seria o mesmo que legar às gerações futuras (não as remotíssimas, mas as que já estão aí) mais do mesmo descaso ambiental que nos trouxe ao colapso da vida marinha, ao esgotamento da camada de proteção à radiação ionizante, ao comprometimento da potabilidade dos mananciais de água e até mesmo das condições atmosféricas.

Nesse desdobrar de capítulos que não permite descanso, consolo ou desculpas, Wallace-Wells desbarata as camadas de coragem que qualquer pessoa minimamente consciente consegue ter quanto à realidade das condições ambientais do planeta. Este efeito é evidentemente por ele pretendido ao dar forma e conteúdo ao seu livro, mas consegue ser ainda mais eficaz pela capacidade de não aliviar nem por um instante os temores mais singelos em relação ao breve futuro ou, ainda mais grave, ao próprio tempo presente. Explica-se sua estratégia argumentativa: a todo o tempo Wallace-Wells lembra que a capacidade adaptativa dos seres humanos é muito grande e, por essa razão, a margem de tolerabilidade com condições degradadas vem ampliando-se na mesma proporção em que se deterioram as condições de vida do planeta decorrentes da atividade econômica e da imprudência humana.

Uma das mais contundentes críticas que A terra inabitável vem recebendo diz respeito justamente a um suposto enfrentamento das condições de produção capitalistas. Não é para tanto, pois Wallace-Wells guarda algumas de suas apostas em medidas de contenção e, principalmente, reorganização produtiva. Apesar de que ele não deixe de apontar soluções políticas e medidas de enfrentamento para situações críticas, é natural que seu livro venha a conflitar com projetos políticos calcados no extrativismo, na economia baseada em alto consumo e taxas de emissão de carbono e numa industrialização inconsequente. Em sua defesa, Wallace-Wells tem dito que privilegiou o enfoque na problemática sem deixar de lado o trabalho já existente em prol da sustentabilidade. Apenas este aspecto não foi mais explorado em seu livro, segundo ele, porque os investimentos irresponsáveis têm sido cada vez mais agressivos e atingido sobremaneira os países menos comprometidos em educar a sociedade para o desafio de iminentes – ou já presentes – pequenos colapsos que, se não freados, conduzirão o século 21 a um momento verdadeiramente dramático na história da humanidade.

Ainda que a pecha de alarmismo seja de difícil remoção, é interessante lembrar que o livro de Wallace-Wells foi publicado nos EUA (segundo suas palavras, o país mais negacionista do planeta) poucos meses após a divulgação do relatório especial do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas de 2018 (IPCC). Taxado por ambientalistas mais radicais como um relatório conservador, pela primeira vez o tom emitido pelas Nações Unidas valeu-se de termos como, por exemplo, “catástrofe”. Isso ocorreria, segundo os levantamentos globais, caso não se obtenha a limitação de aumento de temperatura global em torno de 1,5 graus Celsius, a fim de que se preservem condições mínimas para a atividade agrícola e integridade da saúde humana. Isso é menos que o limite convencionado em 2 graus e Wallace-Wells prevê que sem uma transição rápida nos modelos de transporte e consumo de combustíveis fósseis, em 2050 provavelmente já se terá alcançado um incremento de 3 graus centígrados na temperatura do planeta.

2050, aliás, é uma data que os autores dedicados a pensar o futuro da humanidade costumam valer-se para traçar um limite. Enquanto Wallace-Wells aponta que será o ano em que haverá a mesma proporção de água e plástico nos oceanos, Yuval Harari diz, por exemplo, que a data coincidirá com estágio no qual o desenvolvimento de inteligência artificial terá superado a capacidade de gestão humana e passará a depender cada vez mais de si própria. Mesmo que as questões ambientais muitas vezes se confundam a séries ou filmes distópicos, é difícil de acreditar que por um passe de mágica haverá uma tomada de consciência global e mudanças efetivas no encaminhamento de soluções para os seres humanos que viverão ou atravessarão este século para o próximo. O desafio, segundo o autor de A terra inabitável, não poderia ser mais tremendo. E como os advogados das soluções estritamente tecnológicas não têm obtido melhores indicadores ou empregado recursos suficientes em prol de sanar os problemas já presentes, o livro de Wallace-Wells cumpre muito adequadamente a função de alertar a sociedade global quanto à gravidade da situação ambiental. Melhor seria se não houvesse razão para alarme, mas, havendo, não é nada mau que seja de forma tão consistente e arrebatadora quanto ele faz.

Eu perdi algo nas montanhas

Sibylle Baier
trad. do inglês

Nos últimos tempos
Eu sempre choro
Quando passo pelas montanhas
Oh, o que as imagens me trazem
Oh, eu espero tanto
Pelas raízes da floresta
A origem das minhas brutalidades

Eu perdi algo nas montanhas
Eu perdi algo..

Eu cresci na montanha
Outros crescem nas cidades
Onde primeiro o amor e a alma surgem
Lá vão os tempos da minha vida
Quando me sentia doida, desvairada
E somente a campina me dava esperança

Quando minha perna passar da grama alta, eu morrerei
Eu vou morrer sob o jasmineiro
Sob a árvore mais velha
Então eu não preciso estar preparada
Eu vou morrer sob o jasmineiro
E sob uma velha árvore
Eu não preciso me preparar para um novo dia
Onde vou preencher a profundidade do que sinto?
Você vai dizer que eu não sou Robin na floresta
Mas como eu poderia não deixar sinais
De que perdi algo na montanha?

Eu perdi alguma coisa na montanha
Oh, eu perdi algo nas montanhas..

Agora eu me inclino no peitoril da janela
E eu choro, embora seja bobagem
E eu estou sonhando completamente..
Oh eu sei, mais a oeste existem estas montanhas
Marcadas por macieiras, sulcadas pela corredeira
Isso me leva aonde eu quiser
Bem, eu perdi algo nas montanhas
Eu perdi algo nas montanhas..
Oh, eu perdi algo..

Mamífera

Domingo à noitinha, quase beiradinha do finalzinho do dia mais melancólico da semana, acho que respondendo a um quiz ou teste no celular, minha filha me embretou numa pergunta das mais complicadas: “Qual foi o momento mais feliz da tua vida?”, perguntou assim, à queima roupa.

É o quê? Deus, mas que pergunta pra pegar a gente desavisado..

De imediato me ocorreu o óbvio, que seria usar de demagogia e encerrar o assunto dizendo que foi o do nascimento dela. Contive-me antes de lançar a mentira, porque o dia em que nasceu seu irmão foi igualmente feliz, sem diferença de escala, sem melhor nem pior. Pensei então que poderia ter sido o dia em que encontrei a sua mãe, quem me propiciou ambos os momentos. E, por extensão, fui pensando que os momentos felizes da vida são aqueles em que a gente se encontra com a experiência amorosa. E que são coisas quase sinônimas, não são? Talvez sejam. Idealmente seriam, é o que se acalenta por aí.

Mas então olhei fixamente pro nada, naquela vertigem em que o passado se desdobra na memória, e então percebi com mais nitidez a imagem e a resposta que pra mim faziam mais sentido: dei num entresono muito antigo, muito remoto, no qual acho que me encontrava febril (ainda que possa ser estranho estar febril e feliz ao mesmo tempo), sem idade certa, mas certamente criança, convalescente, quase dormindo na cama dos meus pais enquanto eles conversam bem baixinho qualquer coisa e eu apenas distinguia o rumor das palavras, mas nada do seu sentido.

Na verdade, não sei dizer se aquele instante de semi vigília foi ou não o momento mais feliz da minha vida, mas ali eu me contentava tanto com a sensação sem necessidade nenhuma de explicação ou compreensão e essa sensação mamífera, comum à natureza, mas estranha, muito estranha à racionalidade e razoabilidade adultas, acho que foi o que me definiu, in vivo, pela primeira vez o estado.

Depois pensei que o mais certo talvez fosse lançar mão de uma vulgarização da relatividade, teoria que acomoda tudo e todos, cada um de acordo com suas referências. Cada um, afinal, experimenta a felicidade como pode. Desde o jardineiro ao cocainômano, desde o compositor de sinfonias ao psicopata. Cada qual vai saciar sua busca por prazer como consegue, ainda que isso extravase muitas vezes o pacto social. Pessoas mais racionais, matemáticas, talvez sejam mais exigentes quanto à felicidade que aquelas mais simples e que pensam com mais simplicidade e aleatoriedade. Isso demonstra muita coisa, menos que exista um modo certo e uma explicação para, por exemplo, existir colunas de auto-ajuda no El Pais Brasil, jornal com o qual implico.

Pra mim, a coisa toda se parece mais a um estado físico, orgânico e biológico. Mais ou menos o oposto da angústia, que se define quase sempre por um aperto no peito. O estado de felicidade eu defino, pelo contrário, como uma sensação de expansão toráxica. No fundo, é como o contraste às más sensações, bem como Freud queria, mas aí já racionalizando a sensação.. E também existe a felicidade intelectual, do esclarecimento, dos insights nos quais tudo se esclarece e pode ser entendido. E também a felicidade da criação, que muitos artistas definem como a um estalo da intuição, ou inspiração.

Seja como for, eu ainda acho que o estado infantil, de despreocupação total, é o mais duradouro dos estados de felicidade. Dura mais ou menos o quanto não seja necessário pensar a seu respeito. E, por indefinível, a gente mal o perceba, mas guarde a sensação como uma experiência, memória e comparativo.

Claramente esse texto é um mix aleatório de parágrafos plagiados da Monja Coen, do Pe. Fabio de Melo, Rubem Alves, et al., com os devidos créditos.

O berro de fera

Foi através da música popular, não da literatura, que por primeiro tomei conhecimento do tensionamento existente entre a expressão cultural negra e sua receptividade social amplo senso no Brasil. A polêmica encarada frontalmente entre as figuras de Noel Rosa e Wilson Batista, nos anos 30, ainda hoje é demonstrativa da dificuldade de trânsito social das manifestações culturais entre a população, desmistificando em muito a noção freyreana de democracia racial e de nação mestiça. Não é curioso, portanto, que este tensionamento tenha persistido e volte a expressar-se na contemporaneidade mesmo sob manifestações culturais não necessariamente originadas no Brasil, como é o caso do rap (rythm and poetry). O fenômeno vem ocorrendo através das décadas, desde o surgimento de Gabriel o Pensador, passando por Marcelo D2 e desembocando em artistas mais recentes, tais como os grupos Haikaiss e Costa Gold, integrados exclusivamente por compositores e cantores brancos.

Por esbarrar ou mesmo adentrar o território das ciências sociais e da política, é muito difícil analisar-se a produção e recepção cultural do trabalho destes compositores sem tomar em consideração critérios sociológicos atualmente muito presentes nos debates públicos nos quais a questão étnico-racial do negro é entrevista. O que ocorre hoje, no entanto, não resulta diretamente da interposição de uma interpretação deslocada, mas da continuidade de discussões anteriores propostas por intelectuais negros e interessados nas questões raciais, tais como as noções de emparedamento, embranquecimento, eugenia e dissimulação. Trata-se de conceitos trabalhados mais ou menos desde os anos 50 do séc. XX e que, na atualidade, parecem ter desembocado numa concepção mais abrangente da vida social, envolvendo desde as práticas culturais até as políticas e micropolíticas.

Desde esse ponto de vista mais sociológico é que tem sido possível analisar em perspectiva a obra literária de nomes que fazem parte de todo o legado cultural brasileiro, como Machado de Assis, Lima Barreto e Cruz e Sousa, para ficar nos mais conhecidos. Seria, em minha opinião, uma miopia, uma espécie de deslocamento, a atribuição de um caráter premeditadamente político na obra desses escritores. Pelo contrário, a mim parece que se trata de processos criativos que ocorreram naturalmente a partir das condições e do desenrolar da própria vida (e também da visão de mundo) dos autores. Além disso, há que considerar a realidade política em que viveram e na qual cada um deles experimentou o drama da distinção racial e a tomada de consciência quanto a isso.

Mesmo que se quisesse, hoje seria impossível reconstituir as condições culturais do princípio do período republicano no Brasil. Por documentos e pela literatura pode-se ter uma noção aproximada do quanto a questão abolicionista mobilizou a vida política e cotidiana daquela época, mas, quanto a compreender-se a intensidade do tensionamento e do trânsito das ideias no âmbito das subjetividades, esta parece ser uma ponderação das mais complexas. Seja como for, a obra destes autores em sua época parece ter ocorrido muito mais por um movimento em direção ao universo hegemônico branco do que pelo contrário. Todos os elementos africanos, aliás, permaneceram marginais à cultura letrada e somente mesmo na música popular e no apogeu da era do rádio se fez notar pelo reconhecimento da musicalidade de origem negra, como o maxixe, o choro e principalmente o samba. Voltamos, dessa forma, ao pugilato verbal e musical entre Noel Rosa e Wilson Batista recentemente reencenado pelas discussões em torno da primazia dos negros no rap e do embranquecimento do estilo por artistas brancos.

Se desde um ponto de vista ideológico e contemporâneo a produção cultural dos autores negros da virada do séc XIX e princípios do séc. XX parece ter ocorrido sob uma tendência inexorável de modernização política, por outro parece muito claro que a legitimação dos elementos culturais negros no Brasil tem historicamente passado pelo crivo de intérpretes brancos. Não se trata de culpabilizar nem mesmo justificar a expressão discriminatória através do complexo contexto histórico de um mundo dominado pelas ideias eugenistas de superioridade racial, no entanto a manutenção dessas condições atesta em muito a falência do mito da democracia racial em horizontalizar as condições materiais e culturais de uma imensa parcela da população identificada como negra.

O fato notório de desperceber-se deliberadamente tais condições – como expressas atualmente em outros campos culturais -, apenas corrobora, portanto, a percepção de uma sociedade alicerçada nas distinções de classe, mas também raça, também gênero e também relevância política. É daí, penso eu, que a cultura literária negra ou afrobrasileira, não pretendo me deter aqui nessa distinção, aferre-se como patrimônio de uma identidade fragmentada, de um país que não hesita em vender-se externamente como exemplo mais-que-perfeito de convívio solidário, mas internamente sobrevive pela manutenção do status quo da discriminação e do preconceito.

Dessa forma, pelo menos em meu ponto de vista, penso com muita consideração na literatura e manifestações culturais contemporâneas de cunho mais militante, engajado. Não penso realmente que toda a literatura deva ser militante direta ou indiretamente, mas que se reconheça que este não é um fenômeno gratuito e que decorre da necessidade de denúncia e reconhecimento público de uma realidade constantemente sonegada: o racismo em suas diferentes formas. Discordo, todavia, que toda a arte produzida pelos negros deva necessariamente reivindicar este papel político e que não tenha por sua conta outros atrativos estéticos, porém reconheço a necessidade de que assim se manifeste sempre que desejar. É que simplesmente é intolerável que ainda hoje exista quem pretenda transformar a cultura negra e seus traços peculiares num “feitiço decente”, como desejava Noel Rosa e insistir em domesticar o tão salutar e necessário “berro de fera” “que vem de longe pra nos fazer companhia”, como cantou Milton Nascimento. É que estar junto, no mundo social, implica em muito em ouvirmos uns aos outros. Eliminando-se isso, o reconhecimento dessa necessidade, como poderíamos coletivamente nos entender e evoluir socialmente? Fica a dúvida. E é bom que fique.

O canto dos helenos

No que mais é estranho (e ao mesmo tempo familiar) na ancestralidade greco-latina da cultura ocidental, a poesia, comparando-a a outras manifestações tais como a arquitetura ou a escultura, exibe-se ao observador contemporâneo inexperiente como a mais incomparável das artes. Resultante de uma musicalidade inaudita, da confluência de diversos idiomas, dialetos e de um apuro técnico-performático que ainda hoje, dadas as condições materiais da antiguidade, parece exageradamente elaborado, a poesia grega chama a atenção pela abrangência temática e, simultaneamente, por sua dadivosidade formal. É possível que possa situar-se no repertório, no conjunto de ideias mitológicas e históricas e também numa muito peculiar forma do humano perceber e lidar com o seu destino terreno a maior identificação que o sujeito contemporâneo pode estabelecer com esta poesia que, ao ouvido despreparado, soa incomum e pouco familiar, muito embora a partir e através dela tenham ocorrido as mais duradouras contribuições gregas ao mundo ocidental desde as obras de Homero e dele para as demais derivações da poesia grega como hoje pode ser concebida e estudada.

Se a difusão e fixação da cultura grega letrada derivaram diretamente da larga influência militar que Alexandre estabeleceu ao dominar um imenso território que compreendia desde o Egito até as fronteiras indianas, foi na culminância da Biblioteca de Alexandria, com o trabalho de Zenódoto de Éfeso (325 a.C. – 260 a.C.) que a Ilíada ganhou o que parece ter sido a sua primeira edição comentada. Além do trabalho do próprio Zenódoto, muitos outros estudiosos trabalhavam em Alexandria e, portanto, foi apenas em meio ao período helenístico que foram consolidadas, por escrito, as mais diversas contribuições épicas, líricas e elegíacas que formavam o grande conjunto a que se pode denominar por “poesia grega”. Infordunamente, apenas uma pequena parcela de todo esse conjunto de papiros e pergaminhos restou após os muitos saques e incêndios que acabaram por destruir completamente a Biblioteca e quase completamente suas coleções, conservando-se apenas aquela parte preservada no templo de Serápis, como a obra de Aristóteles, por exemplo, e cópias que a Biblioteca fornecia para coleções particulares.

O que se pode depreender, dada a extensão e qualidade deste pequeno legado que chegou ao tempo presente é que, incomparavelmente a outras civilizações, a cultura grega no seu apogeu chegou a contar com registros de qualidade formidável que tanto serviam para a educação dos cidadãos quanto como fonte de estudo para intelectuais. No entanto a circunstância histórica (e religiosa) acabou por sobrepujar e sufocar no ocidente a expressão de todo aquele arcabouço, permanecendo em estado de latência até a Renascença, sobretudo graças aos estudiosos bizantinos que o conservaram em meio ao período medieval.

Muito antes disso, isto é, desde Homero e Hesíodo, os dois principais nomes da épica no período jônico e dos poetas líricos do mesmo período que a diversificaram em suas formas mais conhecidas, como a elegia, a ode e os iambos, a poesia grega floresceu quase toda se valendo da tradição oral. Isto apenas foi possível porque então o que hoje se denomina por “poesia” integrava um conjunto de práticas performáticas que, aliadas à dança e a execução musical, consistiam no principal meio de propagação cultural e entretenimento de que os gregos dispunham. Grosso modo (muito grosso modo), equivale a afirmar que neste período da história grega, de paz militar, prosperidade econômica e efervescência cultural, os eventos públicos, competições e simpósios multiplicavam-se e, dessa forma, foram consolidando-se os nomes dos aedos que perduraram, principalmente no período de maior efervescência da tradição lírica, chegando mais tarde à performance teatral mais complexa na encenação das tragédias e comédias do período ático.

Muito embora atualmente seja bem mais simples para os estudiosos a identificação e sistematização de nomes, gêneros, estilos e tendências, em seu tempo a proliferação literária ocorria muitas vezes de modo simultâneo e os autores de que hoje restam versos e bustos provavelmente privaram uns dos outros, o que por si só parece fabuloso. Todavia nem por isso houve um florescimento absolutamente espontâneo, e a poesia grega deriva e reflete diretamente o espírito histórico das experiências políticas, militares, filosóficas, até lançar-se propriamente à expressão lírica, na autoafirmação individual que consiste no ideal de liberdade como ainda hoje é concebido no ocidente. Apesar do caráter paidêutico e da sofisticação social que os gregos aspiravam para a sua cultura, foi a poesia que restou como testemunho direto daquele modo de vida que repercutirá, por certo, até os estertores da vida terrena.

Neste intervalo, o eco duradouro da poesia grega, com seu metro estranhamente musical e peculiaridades formais e temáticas, será sempre uma oferta ao futuro do que o homem já pode fazer de si mesmo enquanto indivíduo e experiência histórica. Cada qual a seu modo, seja nos cantos de honra de Calino de Éfeso, no chamado militar de Tirteu, na vida aristocrática de Teógnis de Mégara, nos iambos satíricos de Arquíloco, nas odes de Safo, Alceu e Anacreonte, na lírica coral ou na magnificência da representação teatral, há muito mais que a mera conquista e elaboração de uma marca pessoal de cada um deles. Há, por outro lado, a noção irrefutável (e irrecusável) de que o “cadinho” da poesia grega clássica ainda nos pertence e, como nos é possível, continuamo-la.

Algo em mente

Karen Dalton (1937-1993)
trad. do inglês

Ontem
De qualquer modo você o fez, está tudo bem
Eu vi você transformar seus dias em noites
Você não sabia
Você não pode fazer isso se não tentar
E algo está em sua mente, não é assim?
Um dia desses você vai ver que estava quebrando a cabeça
Deixando todos os seus sonhos para trás
Você não viu
Você não pode fazer isso se não tentar
E você tem algo em mente, não é?
Talvez num outro dia você vai querer sentir de outra maneira
Mas você não pode parar de chorar
E você não tem uma só coisa a dizer
E sente que quer fugir
Mas não adianta tentar, de qualquer jeito
Eu vi o que está escrito na parede
Quem não puder se manter sempre irá cair
Você não sabia?
Você não pode fazer isso se não tentar
E você tem algo mente, não é assim?
Você tem algo em mente, não tem?

Bernabé, Bernabé!

Ao completar trinta anos da primeira edição, a Alfaguara tomou a iniciativa de publicar no Uruguai uma edição comemorativa de Bernabé, Bernabé! A novela histórica de Tomas de Mattos (1947-2016) com grande tranquilidade pode ser tomada como um divisor de águas na compreensão da relação histórica daquele país (e incidentalmente do sul do Brasil) com a etnia indígena formadora de sua população: o povo charrua. Traduzido para o português em 1992 pelo escritor Sérgio Faraco e publicado pela extinta editora Mercado Aberto, o romance de Mattos é, além de ficção histórica de notável elaboração formal, talvez o exemplo mais bem acabado do que seria uma recuperação ficcional dos fatídicos dias da etnia que emprestou ao gaucho oriental e também ao gaúcho brasileiro sua porção nativa mais ancestral e da qual, na bacia do Prata e aqui, estes povos teriam herdado mais ou menos diretamente costumes, crenças e possivelmente também uma importante herança genética.

Não se trata, em Bernabé, Bernabé!, de um testemunho direto proveniente das tradições orais indígenas como em casos hoje presentes em muitas publicações brasileiras (como o caso da excelente Coleção Tembetá, da Azougue Editorial, que também publica escritores e pensadores indígenas contemporâneos). Tendo presente que a história da etnia do Cacique Vaimaca, Senaqué, Tacuavé, e Guyunusa (imortalizados em bronze no Parque del Prado, em Montevideo) termina na data de sua partida em direção a Paris, logo após o desfecho da batalha de Salsipuedes em 1833, isto seria algo completamente impossível.

Também pelo esforço de Tomas de Mattos, a história da etnia charrua ganhou finalmente uma perspectiva menos fantasiosa da que muitos estudiosos e autores costumavam tratar a respeito do legado indígena na formação cultural do Prata e também no Rio Grande do Sul. Da mesma forma que a Iracema de José de Alencar, o poema épico uruguaio de Juan de San Martin, Tabaré, cujo protagonista é um índio charrua que vive um romance improvável com uma espanhola, perdurou desde o período romântico como fonte exemplar e seminal da relação entre os povos. Foi necessária toda a fixação de um novo repertório local, com a geração de 45 (Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti, etc.) e as investidas do romance histórico posterior ao fim do período ditatorial, do qual emerge a prosa de Mattos, para somente então tornar-se possível o esboço de novas perspectivas tanto em torno ao evento histórico de Salsipuedes como no sopesamento da herança indígena na formação da identidade cultural do país.

Apesar de habitar o cancioneiro popular e também a literatura histórica rio-grandense (ainda que precariamente), são nítidas as atribuições que a cultura popular remete ao indígena charrua, normalmente evocado desde uma posição positiva. Diriam respeito aos hábitos (a caça com boleadeiras, a perícia na equitação, a bebida do mate), vestimentas (o chiripá, o modo de sujeitar os cabelos, o poncho tramado em lã), mas quase nada à linguagem, o que ainda hoje é pouco discutido em filolologia, e ao comportamento, ainda que a tendência dos povos gaúchos de um modo geral a certo paganismo poderia tranquilamente lhes ser debitada. Sem maiores vestígios arqueológicos e descendência direta, as etnias pampeanas (charruas, guenoas, arachanes, minuanos) por essas razões têm servido muito bem ao papel que se lhes deseje conferir.

De acordo com pesquisa recente no campo da ancestralidade genética, por exemplo, sua contribuição ao genoma da população fronteiriça do Rio Grande do Sul seria comparável apenas às populações amazônicas e, segundo seus autores, certamente de origem charrua. Além dos achados desta pesquisa, remanescentes remotos do combate de Salsipuedes poderiam ter se evadido para a região nordeste do estado, atravessado pelo menos um século na invisibilidade para presentemente granjear o reconhecimento pela FUNAI de sua etnicidade (conforme reportagem da BBC). Do mesmo modo, no Uruguai um grupo de possíveis descendentes vem reivindicando para si o direito à ancestralidade tanto quanto seus atributos culturais. Os estudos em antropologia cultural, por outro lado, preferem acautelar-se quanto a tais reivindicações em função da dificuldade de comprovação genética e também por considerar que a pretensão se prestaria sobretudo a confirmar longitudinalmente apenas traços desejáveis da formação do povo gaúcho em detrimento de povos indígenas que chegaram ao tempo presente, como o guarani ou o caigangue, e outras características.

Ainda que não pudesse esclarecer finalmente o desenlace de todo o drama charrua, o romance histórico de Mattos, que foi advogado, jornalista, bibliotecário e diretor da Biblioteca Nacional do Uruguai, converteu-se por lá em documento de interesse nacional. Mais centrado em tecer múltiplos olhares sobre os eventos que culminaram na vingança que os indígenas perpetraram contra o coronel Bernabé Rivera, sobrinho do primeiro presidente uruguaio, Fructuoso Rivera, o romance recria o conflito no qual os indígenas, antes integrados ao exército espanhol na campanha contra os portugueses, foram emboscados por Bernabé, que era amigo e privava com os caciques charruas. Na característica multiperspectiva da narrativa de Matos, a condução do enredo trágico dos charruas finalmente encontra-se à gravidade dos fatos reais e obtém o devido reconhecimento.

Desde uma perspectiva mais histórica que antropológica, o mais notável do romance sem dúvida tem sido sua potência em mobilizar os estudos históricos e culturais do país em reconhecer, senão a parcela indígena na formação da identidade de seu povo, pelo menos a natureza da relação atroz entre indígenas e colonizadores de forma mais realista e consequente. Talvez, e isso ainda é algo por esclarecer, a miscigenação não tenha ocorrido nem da forma como presentemente se deseja idealizá-la e nem deixado de acontecer de todo, o que seria apenas possível na ausência de qualquer contato social. Mas o charrua, indígena remanescente do tronco aruaque e inimigo histórico das etnias do tronco guaranítico, possivelmente teria sido mesmo o combatente militar ideal para enfrentar o estrangeiro e fatalmente miscigenar-se no indistinto popular.

Na campanha dos uruguaios contra os brasileiros e mesmo em documentos da época da Revolução Farroupilha há, de fato, indícios de sua presença entre os militares de lá e de cá. Nada, contudo, se pode comprovar a respeito de que tenham sido os mais valorosos combatentes a não ser que não restou vivo ao menos um. De alguma forma, os interesses militares e geopolíticos de brasileiros e uruguaios acabaram por expulsá-los da história de uma maneira infame. O reconhecimento que Tomas de Mattos, com Bernabé, Bernabé! ofereceu ao episódio encontrou por lá o eco que há no que é pela história mal explicado e o incômodo que, por outro lado, persiste e a literatura de qualidade e escritores corajosos, apesar do tempo e da distância, conseguem reverberar.