Desterro

Um dia todo mundo aterra sentimentos.
No barro, um miasma avança sob a pele
do que os pés calcinaram sem notar.

Havia aqui uma canção cantada a sós,
à noite, sob as cobertas, mas não embala
mais. O desalento de quem esperava

manter a vida sob uma esfinge foi
desvelado. É sabido teu tesouro: é pó
juntado ao pó de todo mundo.

Um arrepio distante, lembrança remota
de um sentimento sem desafio, percorre
o corpo. A nossa morte também dá calafrios.

Paisagem noturna

antes

duas pétalas discutem a flor
uma recusa-se
e a flor sobrevive

mais tarde

num abraço em aberto
decidem debandar
da flor defunta

no mais escuro

sonâmbulos insetos
medem a violência
da morte obtida

outra vez amanhece

e o que sobrevive
percute ainda os tímpanos
moucos da flor

Delírio persecutório

Nem sempre se pode enxergá-la direito, ou compreendê-la, mas há uma espécie de criatura que vem detrás dos nossos passos, quase nos mesmos rastros do tempo, roendo o nosso passado.

Ela pega do que pensamos guardar e aos poucos vai ocultando tudo em sua barriga enorme, que o seu apetite é infinito.

Ela chama o nosso nome e espera pela voz antiga, doce ainda, talvez, mas ouve ao invés disso um murmúrio insolente. Ouve-o como uma ameaça que ela não consegue decifrar, e, por essa razão, ela não para, não se detém. Mais se embrutece e avança.

A criatura também não enxerga direito, também não entende muito bem, mas continua sempre na sua sina incontrolável. Se pudesse, subiria os nossos calcanhares e, por debaixo das roupas, transfiguraria o nosso corpo, tal tatuagem, a fim de apaziguar-se de uma vez por todas. Mas como nós temos medo demais, e ela, parece, fome demais, nos afastamos sem, no entanto, olharmo-nos por muito um nos olhos do outro.

Por simpatia mútua, por um mesmo temor, por um pasmo sublime, por respeito que seja, talvez ambos desejássemos parar com aquilo. Encerrar essa aproximação indefinida. No entanto, não conseguimos.

A criatura vai tomando o nosso lugar no mundo, desocupando-o de nós, sublinhando no vento as memórias mais duras e as mais preciosas, as alegrias, as surpresas, para que, tomados de amor e horror, notemos que nós também cabemos em seu ventre. Nosso espaço já é previsto e, além do mais, às vezes ali há mais de familiar que ao redor. Há as músicas que ouvíamos aos catorze ou quinze anos; há o retrato da primeira namorada no meio de um livro igualmente perdido; há os livros que nos levaram aonde não parecia possível chegar, em frestas do absurdo, e, sobretudo, há provas concretas, cabais, de que se trata de nós mesmos. Aceite que a vida é igual a fugir, ela parece querer dizer. E continua.

Por um instante só fica claro que na realidade o seu olhar é inapetente, e de repente fica claro também que ela é velha como o tempo, mais velha até que o próprio tempo, e que não é matéria e nem é energia, e que não se pode apontá-la precisamente, e que ela não faz nada. A sensação é inteiramente nossa. O mais é um delírio persecutório que imaginamos de alguma forma deter (não podemos, esse é outro delírio). E enquanto devoramos o futuro cuidando do que inevitavelmente logo perderemos, continuamos adiante, a partir de agora por nós mesmos devorados.

O vale

Se o sol já era alto,
se a lua fatigara-se
e as nuvens se esboroaram,
a que horas nasceste?

Se o que havia escondeu-se,
se o que se escondera voltou
e no vale o olhar dos carneiros
e o olhar dos peixes no aquário,
e o das pessoas, na vida,
não te percebeu?

Se o tempo já havia passado
e era preciso criar ainda mais dele,
extrai-lo de misérias e paisagens,
erguê-lo pelas costelas
no ponto de velhas fraturas?

A que horas nasceste?
Perguntarei a sua mãe
e sua atenção totalitária.

A que horas nasceste?
Perguntarei aos retratos
que me escondeste.

A que horas, afinal, nasceste,
se o sol já era alto
e a lua fatigara-se
como pêndulo esdrúxulo
de um relógio calcificado?

Ou aponta-me para onde devo olhar,
afora o verde mastigado (a utopia)
e uma escuridão desconhecida.

Ou aponta-te para mim mesmo
e diz tu, nem que com a minha voz,
a que horas foi isso?

Precisamente, pois não?
Nem um minuto a menos
dos tomados a mim.

O sol já era alto.
A lua fatigara-se.
Eu sei (sabemos).
Como tu demoras..

Liturgia

“bebida amarga da raça
que adoça meu coração”
João da Cunha Vargas

Quer me torne incapaz
de ouvir a tarde passando,

quer trespasse sem lâminas
as montanhas de papel,

quer quebre o cabo das facas
a fim de examinar meu sangue,

quer escute-o direito
(se é para animar o mundo),

quem recomeçará meu dia
se a noite não acabar?

Mas nunca esperei por isso.
Faço eu minha liturgia.

Verbete

Deixo esse traço só:
veludo do lado anverso,
começo e fim da minha vida.

Verbete sempre em rascunho.
Mar que oferta, por revolta,
a calmaria.

Mas, se olho bem, todos são assim.
Testemunhos de espaço e tempo
que nos desviam.

Por precaução, cuidado, cidadania,
disse o que disse. Eu disse?
Mas que esquecido..

Se lembro bem, três noites só fui demovido.
Nunca entendi.. Viver é estreito demais
nas biografias.