O melhor livro do ano (de 1987)

Nada mais absurda que a difundida ideia de que um romance excelente inspira a procurarem-se outros ainda melhores. É uma falácia de salão. O mais habitual de acontecer às pessoas, de fato, é uma excomunhão do tempo perdido e a indagação mental de como aquele autor ou autora passou tanto tempo imperceptível, ainda mais quando se descobre tratar-se de um romance publicado no longínquo 1987. Apenas que ninguém consegue suportar a ideia de que a literatura às vezes é intragável desde a primeira página e, por razões estranhas à arte, como o apreço ao bom nome do autor ou de uma casa editorial, insiste-se em perseguir recompensas que de imediato mostram-se improváveis. Também o tabu de não maldizer o consagrado impede que prospere a crítica honesta e, em seu lugar, quando muito, o silêncio constrangido, substrato ideal dos pactos de mediocridade.

Como A Porta (Intrínseca, 2021) é inexplicavelmente o primeiro livro traduzido e publicado no Brasil da escritora húngara Magda Szabó, infelizmente é um pouco mais difícil obter traduções em português de seus outros livros. A menos que se recorra às livrarias e editoras estrangeiras, nada feito. Se valeria à pena? Não só valeria, no meu juízo, mas seria igualmente fator de economia financeira e temporal, tendo-se em vista que as ofertas editoriais por abundantes não redundam necessariamente em significantes. Talvez em húngaro, o tal idioma do diabo*, fosse complexa demais a leitura, mas nos mais familiares é certamente uma boa viagem.

Especular a razão do seu obscurecimento é bastante simples. Apesar de que, no leste europeu, nos anos 50 e 60 rasgou-se o véu férreo da cortina, seus escritores, principalmente aqueles que afrontaram os regimes comunistas, foram por aqui solenemente ignorados, essa que é a forma primeva do que hoje se denomina “cancelamento”. Ora, um autor que não se dobrasse às exigências históricas e revolucionárias a inteligência tropical e caribenha consagrava um grande vazio, um deserto de referências. Nesse sentido, poucos escritores que viveram o desterro das invasões múltiplas em países como Polônia, Checoeslováquia e Hungria atravessaram a cortina de fumaça que se estabeleceu acima de seus nomes e obras. Era como se não fosse preciso saber a dificuldade que era viver e sobreviver sob o tacão comunista, afinal, como então se manteria a aura utópica?

Mas Magda Szabó, assim como o bem mais difundido por aqui Sándor Márai, faz um uso soberbo da característica mefistofélica do seu idioma. É por melíflua, acessível e clara que ela torna ainda mais estranha a tomada de consciência interpessoal marcante entre a narradora e a fabulosa personagem Emerenc, síntese dos traumas humanos comuns a quem tem de viver apesar da irracionalidade histórica a que a política e o poder sempre conduzem.

Para além de tudo, é um salto para fora da obviedade e previsibilidade das listas de favoritos que logo estarão por aí. A porta, de Magda Szabó, é um livro que é mesmo uma porta a outro universo de violências e silêncios que uma pessoa e uma cultura sonegam à outra em prol da sobrevivência. É um “atravessar” conduzido por uma narradora magistral. Quando me perguntarem, se perguntarem, qual o meu “livro do ano” eu já posso dizê-lo: é “A porta”. Do ano de 1987, mas que isso importa?

* No prefácio que Guimarães Rosa escreveu para a antologia de contos húngaros que o amigo Paulo Rónai verteu diretamente ao português, em 1957 (Antologia do conto húngaro), ele fez a definição do que lhe parecia o idioma magiar, um entre os que ele estudava. A palavra escolhida foi “diabólico”. De acordo com ele, a língua ideal com que se falar ao próprio capiroto.

A porta

Leva uma vida atravessar a porta,
nunca menos que isso.
Às vezes, leva até mais.

Atravessá-la sem a promessa dos pomares,
topando os frutos derrubados sem propósito
por ela mesma.

Atravessá-la sob o perfume espúrio
de pernis assados ao longe
e gritos de crianças felizes.

De antemão, a porta está sempre parada
ou move-se a todo instante
para que seja inútil buscá-la.

Atravessando-a ou não, o único destino
é derrubar-se às paredes
para que ela continue secreta e intacta,

frestando dimensões frustradas
e platôs intransponíveis
de um único labirinto.

O velho e a gueixa

Tem uma só voz o sol.
Voz de um velho.
Certo senhor japonês.

Voz incompreensivelmente clara,
inacessivelmente dura
e que bate com martelos de pau
fazendo buracos no vento,
inoculando a substância do mundo
onde nada mais entra,
desde que foi tudo lacrado por fora.

Mas o velho não quer mais esculpi-lo
e ri, paspalho,
da força grave que emana
sem querer
do seu umbigo.

* * *

A lua, por outro lado,
é coberta de coisas
que nunca foram previstas.

Elementos externos
dos quais ela tem ojeriza
e que querem sempre pregar-lhe
nas vestes
e ela não deixa.

A lua é toda sorrisos,
mas só para o sol prepara
chávenas de chá
em cascas de pêssegos,
a gueixa.

Registro de ocorrência

Na Ipiranga, ao longo de uma curva
onde os automóveis em alta velocidade
costumam derribar-se, o acidente
(banal? fatal?) tranca toda a cidade.

Colisão traseira ou lateral? Faz alguma
diferença? Nenhuma.. E logo
se forma a procissão de carros (ou gente)
como aguardando o fogo.

O que se vê, as pessoas, todas
procuram a confirmação
de que não são elas mesmas ali
no trauma fatal da concussão.

Morrer todos morrem, mas quem espera?
A morte é coisa que o corpo dá a ciência.
A alma? Às vezes é morta antes.
Não que se registre a ocorrência..

Fica na tua

Nem imagino quem lembraria de um antigo best-seller dos anos 70: “O maior vendedor do mundo”. Nunca li, mas também nunca esqueci da capa com o título e o nome do autor, um certo Og Mandino ornada com louros, como um César romano. Não sei nem de que trata o livro, mas tenho certeza de que sou a sua antítese. Sou realmente o pior vendedor do mundo. Não tenho ilusões de melhorar isso e não sei como, aliás, pessoa como eu se atreve ainda a fazer coisas que possam ser vendidas, como livros.

Todavia, dito isso, mesmo assim.. contando com a inestimável ajuda do Cláudio B. Carlos e do Angel Cabeza, da Saraquá edições, hoje partiram pra gráfica os originais de uma pequena tiragem de um romance que comecei a escrever há uns anos e finalmente neste ano dei por concluído, depois de várias releituras e revisões. Filhote com 6 anos de idade já.

Da releitura, surgiu a vontade de rebatizar a história. Rebatizar com o título que primeiro pensei para ela e que, numa edição limitada preliminar foi preterido por outro, um certo “Trapézio” que circulou timidamente entre alguns leitores e pessoas que aceitaram recebê-lo por delicadeza mesmo.

Família e amigos agora me advertem que o titulo – agora definitivo – poderia trazer uma expressão “datada” e/ou regional demais. Eu concordo com isso, mas acontece que o livro é realmente datado nos atropelados anos 80 e guarda muito da vida disponível naqueles tempos. Pelo menos é o que eu espero que ele transmita. Então – sem traumas – este é mesmo o único título que ele deveria sempre ter tido: um livro que, apesar disso, é bem livre de sotaques e gírias, salvo aquelas que se incorporaram ao modo de falar dos gaúchos da capital e do interior.

A história não mudou muito, à exceção de alguns ajustes temporais e esclarecimentos, mas o livro ficou mesmo muito melhor agora. Depois de ter passado pelas competentes mãos do pessoal da Saraquá e de completar-se com o tratamento visual igualmente inestimável do meu amigo Vinícius da Silva, eu diria que ficou como sempre deveria ter sido. Um livro que extrapola um pouco a dimensão do texto por sinestésico e pelas camadas de tempo pelas quais viaja.

Editora sediada em Cachoeira do Sul, a Saraquá e o Claudio sempre me impressionaram muito com a qualidade das suas edições e eu posso dizer com tranquilidade que não haveria melhor casa para o “FNT”. Além disso, me agrada muito ser coerente com a ideia de valorizar o trabalho hercúleo de quem produz e edita literatura desde o interior brasileiro. Então, o que eu sinto é um tanto de orgulho e respeito por que o romance “renasça” agora definitivamente nessa casa.

Mas bem, como eu disse, a tiragem é realmente pequena e eu penso em esgotá-la ao fim desse processo, quer dizer, não pretendo fazer estoques e ficar vendendo nas redes. Dessa forma, todos os livros que não forem resgatados desse “sequestro” eu pretendo destinar a divulgadores literários e bibliotecas, vencido o prazo do aceitável. E também assumo o compromisso de oferecer a todos que compraram o antigo “Trapézio” um exemplar sem custo dessa edição rebatizada, basta que entrem em contato comigo. No mais, vou procurar comercializá-lo com a ajuda de algumas livrarias tb, algo que agora que começo a ver. E a divulgá-lo mais tb.

Nesse tempo, também poderá ser comprado comigo e criei um site com essa finalidade, além de mostrar assim um tanto do livro. Entre outras coisas, como o texto da orelha que explica a escolha do título, ali também estará a playlist da “contracapa” com os discos e músicas mencionados ao longo do livro que, como qualquer história dos 80, só pode ser mesmo muito musical.

Aqui o endereço do site:
https://ficanatua.com/

Importante dizer também que não se trata de uma pré-venda sem prazo nem horizonte. O livro já está na gráfica e quem comprar até o final do mês eu estou fazendo um valor que é quase de custo + frete. Mais próximo ao fim do mês ou no comecinho de outubro eu já começo a enviá-los, com a minha caligrafia paleográfica.

Eu ainda não entendi direito como vai ser a Feira do Livro neste ano, se apenas as associadas à Câmara do Livro terão espaço para lançamentos. Eu vou tentar agendar lá também, nem que seja pra tirar foto de máscara com quem se interessar em me rever (ou ver pela primeira vez em carne e osso). Se não der, paciência. Virão outras feiras e, a depender, novos livros. A live é outra questão em aberto. Agora, parece que sem live não houve lançamento. Então estou pensando, sim, mais seriamente, agora que arranjei quem colabore com a função toda. Mas a ver. Quando e se confirmar, aviso e prometo uma conversa anárquica, como são as boas conversas.

Enquanto uns vendem terrenos no mar, garrafas cheias de ar até a boca e promessas vagas, eu acho que vou indo bem. Aprendendo ainda. Penso que talvez o velho Og Mandino não me reprovasse completamente..

Margarida de Antióquia

20/07 é o dia de Santa Margarida de Antioquia. Não é uma santa de grande devoção por aqui, mais no hemisfério norte. A história de Santa Margarida é milenar, data de cerca de 300 DC e transcorre no Levante, na Siria antiga, nos 15 breves anos do que teria sido a sua vida inteira. O seu primeiro registro é da época medieval, na Legenda Aurea, o célebre manuscrito de Jacoppo de Varage. O mesmo na qual a história de São Jorge, Santa Marta de Betânia, Santa Bárbara, São Silvestre, São Patricio e outros apareceram em contos escritos pela primeira vez, embora suas histórias fossem bem conhecidas na tradição oral e popular medieval. Naquele conjunto de incunábulos muitas histórias dos santos mártires se popularizaram na Europa cruzada e a santidade e a fé dos mártires serviu perfeitamente para encorajar os militares cristãos em sua batalha centenária contra os mouros. A história de Margarida, apócrifa, nem com iluminura contava.

A simbologia de Santa Margarida repete a de outros mártires que começavam a consolidar o cristianismo nascente durante o último século do império romano ocidental, entre a legalização de Constantino e o édito de Teodósio. Ela mesma teria vivido na época de Diocleciano. Nos séculos seguintes, contra a figura diabólica dos dragões e outras bestas, os mártires confirmavam o credo cristão para depois dissociarem-se na afirmação das primeiras monarquias absolutistas e não era incomum encontrá-los (os dragões) nos escudos e bandeiras da alta idade média, ali como uma lembrança da luta ancestral da qual emergiu (ou na qual foi erguida) a legitimidade das dinastias que governaram as monarquias europeias, cuja autonomia da influência da Igreja só foi se consolidar após a penosa revolução da qual resultaram a reforma, o liberalismo e a moderna noção de estado laico.

Mas há mais do que história factual na suposta (nunca comprovada) vida de Santa Margarida – há a história simbólica e o sacrifício do feminino que o cristianismo começou a empreender desde sua origem (só bem mais tarde com as ordens religiosas de mulheres). Em todas as histórias das santas mártires elas repetem o ciclo de Maria, mantém-se na pureza e depois são elas mesmas sacrificadas. Tornam-se exemplares e fonte de inspiração contra a malignidade e todas as suas tentações na forma dos dragões, normalmente tomados como metáfora diabólica mesmo. Ou meramente adversária..

E é incrível a forma como as mulheres vencem as bestas, se comparadas a São Jorge, por exemplo, que o faz de cima de um cavalo. As mulheres não raro entram em contato direto com os dragões, chegando mesmo a insinuar que seus poderes de persuasão poderiam domesticar o aspecto mais selvagem da besta-fera. Daí que, em muitos credos, a simbologia da luta entre razão x natureza, civilização x barbárie encontre um decodificação perfeita, exemplar, nos mitos cavalheirescos e, mais ou menos ao mesmo tempo, nas baladas populares. E, dessa aproximação, deve-se em muito o caráter diabólico e da contenção do corpo feminino, marcado pela simbologia fecundante, por isso maldito.

Alguns medievalistas, no entanto, e teólogos também, comentam como a Igreja abrigou em seu interior essa simbologia e a incorporou, tornando-se exclusiva portadora tanto de uma mensagem quanto da outra (o mal nomeado pelo bem é mal também), o que também explicaria a sua autoridade para executar obras em nome de Deus com violência, tais como o apoio a expansão de impérios coloniais e as tarefas inquisitoriais. Mas esse é um território muito complexo e, para mim, pouco claro. Dos meandros teológicos eu sei muito pouco, apenas que certamente não devem ser reduzidos a um maniqueísmo barato. Meu interesse é pelas alegorias e o que elas comunicam das crenças e crendices. Não os mitos, mas a mitologia cristã e pagã, e do quanto se confundem.

Na história dos dragões, nunca escrita, Santa Margarida é mais uma a esfolá-lo vivo com a fé imaculada. O dragão, que é o mal em forma de mal (logo não inteiramente mal), é o ser intermediário até o homem cristão e por meio dele será conquistada a purificação. Mito que atravessou as fronteiras no mundo da antiguidade, tanto no ocidente quanto no oriente, ele está na lenda de Siegfried, na de Uther, nos bestiários gregos e nas lendas hebraicas e sumérias. Está no símbolo da sabedoria das virtudes cardinais (até mesmo na Praça da Matriz, em Porto Alegre, sintetizada no brasão dos Bragança a quem Júlio de Castilhos sobrepujou), na alegoria política de Thomas Hobbes e também como domínio do imperfeito e do aspecto brutal do ser humano. Por tabela, das populações bárbaras por dominar e submeter, portanto, como o mal absoluto.

Margarida de Antióquia é a santa que, recusando-se a casar contra a vontade, converte-se ao cristianismo também contra a vontade do pai, um sacerdote de aldeia, por quem por essa razão é repudiada. Aprisionada, torturada ao extremo, martirizada, Margarida é a santa dos nascimentos e do bom parto, padroeira das gestantes e por meio de quem Jona D’Arc iluminou-se. No claustro, em solidão, encontrou-se (sem nenhuma razão aparente) com o mal na forma de um dragão e o subjugou (há versões apócrifas que dizem que fugiu da prisão dentro do seu corpo, num sacrifício carnal como querem alguns estudiosos do medievalismo), depois matando-o para renascer purificada e, por fim, morrer decapitada.

Na história cristã, virgem consagrada e inimiga ardorosa do paganismo.

Na história dos dragões, que eu saiba, uma lenda só. Quase nada.. (carece de fontes)

Esse poema abaixo está, com outros hagiográficos, na mais recente coleção de poemas que publiquei. O livro ‘Achados, salvados, perdidos’ pode ser adquirido comigo por este link.

P.S. Eu sei que é altamente antipático e pernóstico um texto explicativo assim, mas eu faço questão de fazê-lo no sentido de evitar qualquer interpretação forçada, ainda que na maioria das vezes não adiante muito tentá-lo, mas, enfim.. É só uma advertência literária mesmo.

* * *

Margarida de Antioquia
2017

Tenho lutado sem forças
contra o que nem posso saber.

Posso entender, no entanto,
o que de mim quer Margarida.

Com nome de flor do campo
e um olhar sereno que furta

o cansaço que dorme em meu corpo
quer me tirar a pele hirsuta,

despir-me até de minha alma,
levar-me embora da vida.

2

Para tanto, ela esculpiu-me
na pele de um monstro hediondo,

disse-me um sujeito tremendo,
implorou meu poder já desfeito

como se o quisesse portar,
parece, em seu corpo.

3

Eu, que buscava dormir
no profundo interior desta gruta,

despertei, como se dado a viver
na benção a mim conferida

pelos mais belos olhos
da alma mais quente dos prados

e fui encontrar-me com ela
para desde então ser banido

e do mundo dos justos aos ímpios
descer em poucos segundos.

4

Eu sabia meu nome dos livros,
mas, sem nunca haver pronunciado

uma queixa de dor ou lamúria,
ela o aprendeu de minha boca

como se eu que a tivesse chamado –
o seu tinha a beleza da vida…

5

Ela sabe e eu sei
que nenhum de nós deve morrer,

mas, de outra maneira,
a paz abandonará estes tempos

até um de nós perecer.
Lutaremos, assim deve ser.

6

Vestido das roupas mais velhas
para o seu corpo envolver,

pensei em levá-la comigo
a um ninho nos céus, um abrigo,

e em farrapos compareci
ao juízo e à ira do povo

parecendo um velho por fora.
Por dentro, o mesmo menino.

7

Minha pele é para ela envolver-se
e pensar que sou como ninguém.

Acima das nuvens, perto de Deus
ou ainda mais longe, além

de tudo e de todos, mas, do meu destino,
Margarida não quis saber.

E entregou meu corpo ao meio partido
no qual a levava comigo

aos mercados da Antioquia
onde nunca valeu um vintém.

Denúncia

Uma ambição? O tesouro
favorável da manhã
transportado em galhos
em bicos de pássaro.
Um a cada vez.

Cada galho e folha sem destino
assentados numa construção alheia.

Escora de vento na folha
num sopro de boca nenhuma.
Só mesmo esse dia que vai passar.
Passar ou ficar, tanto faz.

Bendito o sol e seus cabelos
dourados, de criança.
Denúncia da brotação
excedente dos trigais.

Porque não o notamos,
há dias em que o mundo é infalível.

Dragão, 5

Os braços pendem
de inúteis flâmulas
e frangalhos.

O corpo é essa
couraça varada
em arranhaduras.

Olhos fechados
de tristeza – e uma dor
que perdura por anos.

Alma é a mesma
má conselheira de erros
tolos e enganos.

O coração?
Joia quebrada e
guardada sem lado

(levei-o uma vez
à oficina e voltou
pior, sem doçura).

Ter ido à guerra
só travou-me em esperas,
chicotes, trabalho.

A alma salvei-a
com mãos nuas de quem
me a teria roubado.

Meu corpo
não serve de depósito de vinganças
(e nem sepultura).

Grandes coisas
sem serventia
queimei sem gosto.

Querer nada –
essa rebeldia –
perfeito espantalho…

O dragão que eu desejei
de quase nada mais serve –
nem pensamento

(só para empalhe mesmo).
Talvez assuste alguém assim
nesse lugar de empalamentos.

Farther west than west
beyound the land
my people are dancing
on the other wind


Ursula K. Le Guin – Tehanu