Canções espirituais

Há um encontro subterrâneo entre Minas Gerais e o Rio Grande do Sul. Existe há muito, eu desconfiava. Tive provas disso há pouco. Ontem mesmo.

Ouvi ontem seus rumores eclodindo em ondas sonoras (como se água extravasada do solo) nos “Olhos D’água” do disco surpreendente que uniu de um lado Calos Di Jaguarão e, de outro, o belo-horizontino Nelson Angelo.

Muitas coisas estranhas no disco, a começar por encontrar-se na fronteira ao extremo-sul do Brasil/Uruguai um compositor totalmente deslocado da musicalidade mais característica do Rio Grande do Sul e suas platinidades. Lá nas bordas do rio Jaguarão, é como se um autêntico “clubeiro” tivesse se extraviado dos destinos da constelação de músicos que “brotaram” na famosa esquina mineira, confluência da Divinópolis com Paraisópolis.

Conheço as composições dele, Carlos, desde o disco “Clarice”, de Simone Guimarães e da sua estonteante “Trilogia da Sereia”. Depois eles fizeram juntos um disco (Sinhá-vida) que tem, entre outras, a hipnótica “Ingazeiro“. A Simone eu conhecia de antes. Falei do seu radinho e discos seus que me tocaram muito e toquei muito também, que a sua voz tem algo que solicita ouvir mais, e mais. E mais um pouco só… E nunca para mais.

Mas ele eu não conhecia. Talvez intuísse, mas isso só conta pra gente biruta mesmo. Mas já percebi o que têm de encontro dele com o Nelson Angelo. O Nelson conheço desde que nem tinha tamanho de gente, do disco “Geraes”, do Milton Nascimento. O Nelson é compositor de “Fazenda”, a música que é um lugar só no Brasil e ao mesmo tempo todas as suas fazendas. Isso quem disse foi Caetano Veloso, não eu. O que eu percebi é que são duas pessoas aquáticas e que, por essa essa estranha razão, uniram-se numa celebração do sagrado da água e de outros “Cantos Espirituais”. É o nome do disco deles, aliás.

Disco cheio de chuva, canções molhadas, barrentas até, água de rios. Bonito de ouvir e molhar também. De perder a hora. Parece feito em tempos outros, com poesia meio como a de Cacaso e outros que cantavam só – o visto e o vivido. Quer dizer, só cantavam mesmo. Isso que é bom no disco. Isso que é bom, afinal.

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