A alma perdida

Acho que somente a um prêmio Nobel o negócio literário permite a luxúria de um livro como “A alma perdida”. Olga Tökarczuk é uma dessas pessoas. Ganhou o Nobel em 2018 e, como tem acontecido no Brasil recente, permanece ainda pouco conhecida do grande público. Talvez porque o Nobel tenha perdido sua relevância e aura, eu não sei, mas também a poeta Louise Gluck, galardoada no ano passado, padece do mesmo sintoma – ser imediatamente alvo de curiosidade geral para, a seguir, voltar a um certo anonimato. Talvez seja uma tendência do mercado editorial essa volatilidade maior de nomes. Há um tempo nem tão distante, uma casa editorial que publicasse um Nobel tinha garantida expressão de vendas por eras a fio. Mas o mundo mudou, os tempos vem mudando, como também disse outro Nobel, Bob Dylan, que sequer o mercado livreiro abastece.

Eu havia lido e assistido a adaptação para o cinema do livro mais conhecido de Olga, “Sobre os ossos dos mortos” e fiquei mesmo muito impressionado. Uma história envolvente e fluida como as dos bons contadores de histórias.

Agora, com “A alma perdida” em mãos, eu entendo a razão: Olga é uma fabulista e aparentemente gosta de nutrir os leitores dessa carência atávica de receber uma mensagem e de deixar-se envoler pela atenção. Fábula para adultos, “A alma perdida” é um produto da luxúria editorial na qual a autora divide as páginas do livreto em igualdade com a ilustradora Joanna Concejo. É até um pouco estranha a experiência de folhear várias páginas sem texto algum, só as ilustrações, e perceber que a história é contada também a partir do trabalho visual, que ele não apenas ilustra o texto, mas substitui o que não é dito por ele – e o completa.

A fábula em si não repete a fórmula moralista que consagrou o estilo através dos tempos, desde Esopo, a quem se atribui a autoria de muitas fábulas que ainda hoje repercutem por si só e em outras narrativas. A fábula contada por Olga não conta uma busca, mas uma rendição do homem ao seu próprio tempo e da recuperação do contato dele com a sua própria alma, como o título diz. De uma vida corriqueira e com um contato cada vez mais precário com a própria intimidade até ao final no qual João, seu personagem, finalmente entende que não precisa empenhar-se numa corrida contra o tempo para evitar sentir o paradoxo do tempo esvaindo-se. Pelo contrário, ele não quer mais sair em viagem o tempo inteiro e buscar-se no mundo.

“E das malas de viagem brotaram grandes abóboras com as quais João se alimentou durante todos os invernos tranquilos que se seguiram.

A alma perdida
de Olga Tökarczuk, (Todavia, 2020).

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