Esquiladores

“Nunca le interessou seguir a comparsa?”, perguntou-me a seco o noviço, como se fosse de intimidade, gente do meu sangue ou do meu conhecer. Ali eu estava por comando do padrinho e não apreciava dar respostas a meu respeito. Não bastava que lhe entregasse a borrega pronta pra carga das tesouras? Agora o que mais queria saber de mim esse daí?

“Nunca.. Sou das casas.”, resmunguei bem quando levava a mão no quarto de uma outra, lanuda, uma corriedale sebenta que, na brasa certa, perfumaria até o pago vizinho. Mas uma borrega assim o patrão deveria reservar pra cria, só num ato de desespero le passaria a faca. Ou então em reunião de domingo, quando algum parente se apachorrasse no casarão a modo de desassossegar a peonada da casa e impedir que a Jandira arredasse o pé do fogão.

Ah, Jandira! Pedaço de torresmo apertado.. Faz pouco a vi passando com um tacho pras goiabas e figadas. Doçura que ela passaria daqueles olhos melados de pronto ao açúcar que se emenda nos bocados que ela saber fazer igual a ninguém mais. Os outros só sabem de ouvir dizer, mas eu, que me assentei como sota por confiança do padrinho, sei porque ela me alcança de vez em quando uns apanhaditos nuns potes de matéria plástica que agora andam chegando com tudo por aqui, comida, remédios e o que mais. Esse o nosso namoro.

“Devia… O amigo é bem bueno de martelo!”, disse-me no que não soube interpretar como elogio sincero ou adulação. Tem dias que o guri anda me cercando, querendo saber de quem é quem, do quanto é quanto, do porque de cada por quê. Eu com a minha carranca quieta pensei que o afugentaria, mas que nada… Agora vive a querer saber de tudo, até mesmo da Jandira, o desaforado.

O noviço esse é mais um a esticar o olho comprido a cada vez que ela passa ao longe, todo mundo estica, mas o certo é que se eu arranjo mesmo um ranchito pra nós, o padre da vila nos faz o ofício de casar direito, que eu faço é muita questão. E ter uma vida direita, de trabalho, retidão. Mas o guri, é claro, olha pra ela como fêmea, não vê a mulher nem muito menos a pessoa. E porque ele olha pra ela, eu também olho pra ele e assim parecemos um rodeio parado numa tronqueira, que nem o gado, examinando-se.

“E aquela cabocla, que parece? É Jurandira que chama?”, indagou com ares de inocente ignorância. “Jandira”, corrigi de pronto. “Que tem ela?”, aticei o linguarudo a dar com os dentes na língua enquanto olhava o velo pela metade no lombo da borrega aos seus pés, esperando o fim daquela prosa que os demais nem podiam ouviar, pois o patrão sintonizara o rádio sobre um tonel alto ali de modo a entreter a comparsa inteira. Por ali, dos nove homens mais o noviço, todos eram sabidos de alguma conversa das redondezas e gostavam de prosear, mas a programação e o noticiário da cidade calava a todos, subitamente interessados em coisas como carnaval, futebol, telenovela. Menos o noviço que então continuou seu inquérito e sentenças: “Lindaça!”

“Mas não é pro teu bico!”, adverti e ele riu meio debochado, como se quisesse mesmo é testar meu interesse nela. Mas falei mais alto ainda que o rádio, alterado, e os outros levantaram os olhos em nossa direção. “E já vai terminando essa borrega que o curral tá até a boca!”, concluí e ele fechou o cenho, olhando pra baixo e torceu o nariz pelo corridão que lhe dei.

O calor grande de novembro perto do meio dia me levou à cozinha do mais velho deles, que lhes servia também de cozinheiro, deixando o toc-toc das tesouras pra trás e a montanha de velo e garreio acumulada no galpão por embolsar, eu e o guri, nos embolsadores emparelhados bem ao lado do portão. Tomei com o homem um ou dois mates e decidi almoçar por minha conta, sem a conversalhada dos esquiladores. No meu quartinho, tomei do carreteiro encostado, acresci um punhado mais de arroz do pote e, coisa de nunca, levei a mão na caninha que alguém esqueceu por ali. Azeda, não me entrou lá muito bem, mas sequei o que havia na garrafa pensando que a Jandira talvez não se desse tanto ao respeito e se aparecesse demais agora que a comparsa se instalara. Que tanta curiosidade tinha, afinal, a chinoca, se já nos havíamos até prometido? Ora, o que faz a aguardente com um hombre, não é mesmo? Leva a confabulações sem sentido, talvez…

Sesteado, mal sesteado, acordei-me com a têmpora latejando e o suor escorrendo no pescoço empapando a camisa. E pensar que agora ainda iria me enfurnar que nem tatu num embolsador mais quente que um fogaréu. Chegando lá, quedelhe o noviço? Desgraça de guri.. Bueno, como preciso começar de algum lugar, vou eu mesmo embolsando os pacotes de lã branca e pisoteando aquilo até firmar o garrão… Dali, ouço a comparsa se arranjando no galpão ao lado e o rádio naquela hora tocando, felizmente, umas rancheiras das buenas que até me passaram um pouco o incômodo da canha em mau horário.

“Buenas!”, ouço do lado de fora e finalmente é o noviço que apareceu. “Onde andava?”, pergunto-lhe enquanto sigo no pisoteio. “Ah, fui ali na sanga lavar os pés e afiar umas tesouras…”, respondeu-me. “Menos mal…”, comentei. “E quem tava lá?”, indagou numa simulação dele mesmo me responder e continuou: “A Jandira…”

No mesmo instante, senti que não gostaria de saber o que mais ele me diria, mas o atrevido continuou: “Ela levou panelas pra ariar e me ofereci pra le ajudar, mas fique tranquilo que moça direita como aquela nunca eu vi. Não me deu confiança e me despachou pra longe com um corridão que senti medo até…” E ia contando devagarinho de modo que eu conseguia lá dentro da estopa escura imaginar a cena e pensava que se fosse ele ali dentro e eu ali fora, não me custaria nada esticar a adaga pra dentro até encerrar aquele falatório. E foi tecendo elogios e me dizendo da minha sorte de um casamento feliz que com certeza, de acordo com ele, nos destinaria o futuro. Funcionou, pois me acalmei e ainda mais porque a esquila já andava em vias de acabar e desse modo aqueles aporreados todos se iriam pra bem longe da Santa Eulália, que voltaria ao seu sossego habitual.

Passou a tarde, não restou uma felpa mais a embolsar e os rebanhos todos do padrinho foram devidamente depilados. As ovelhas ficavam meio feiotas rapadas, mas, assim, o verão lhes seria possível. O meu também, porque o entrevero todo de gente que se junta apenas por evento às vezes vai de encontro a maus elementos. Não que tivesse visto algum suspeito, mas sempre tem um mais quietarrão que a gente imagina o que tenha de oculto naqueles silêncios sem fim. No outro dia cedo já não estariam mais ali e pra logo haveria um truco ou uma bisca pra pescar dos mais animados algum trocado de aposta. Mas não me aprocheguei ao assado que montaram no costado do ombu e me aquietei cedo. A dor de cabeça, como um mau pensamento sem expressão, voltara e fizera com que me deitasse com as galinhas. Nem me dei conta que, estranho, a Jandira não passou pra dar seus boas noites. Só no outro dia fui notar, mas aí já era tarde.

Foi o chefe da comparsa quem me segredou no primeiro mate, antes da alvorada, que viu o noviço, mais cedo, tomar o rumo da estrada, não sabia pra que lado, e com a Jandira no seu costado. A informação me entrou mais amarga que a erva uruguaia do mate, mais que carqueja verde, entrou como um veneno e cogitei de encilhar o baio e me tocar atrás deles. “Mas ela saiu sorridente…”, advertiu o velho gaúcho, como se dizendo que não estava indo obrigada, de modo algum..

Os demais esquiladores fingiam não ouvir a conversa, mas me olhavam de um modo compassivo e parecia que as conversas paralelas eram todos de um consolo que me ofereciam. O velho me fez sentar e contou histórias da sua vida e me fez refletir. Refletir e decidir. Perguntei-lhe aonde iriam agora que haviam acabado com a Santa Eulália. “Vamos à Santana, coisa ligeira, e depois Melo, no Uruguai…”, disse-me o esquilador com seu chapéu coco e barba espessa. Logo eles começaram a juntar as coisas e em breve partiriam num F600 dos mais bem cuidados, posse do chefe da esquila. Deixei que arrumassem suas coisas e tratassem de partir, pois precisava acertar a lida com o padrinho, igual a todos os dias. E foi o que fiz. O padrinho, quando soube do que me acontecera, lamentou minha má sorte e até me tentou consolar, mas nada mais podia fazer por mim. Ninguém podia. Talvez só eu mesmo e foi o que fiz ao me adiantar à saída da comparsa, na porteira do corredor, e levar o pouco que era meu numa mala de garupa, um par de botas, roupas gastas e duas bombachas de serviço, pra subir na carroceria e realizar outro sonho de guri: atravessar finalmente a fronteira.

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