Querência

Aquelas botas velhas no fundo do galpão, tu trazes dali pra mim?, indago ao gurizote ao meu lado. Irrequieto como todos da sua idade, ele me olha como se indagasse: mas pra que serve isso, de tão velho e furado e rasgado e estropiado?

Pega dali, por favor, que não posso mais me agachar a tanto.

O guri revirou as tralhas do galpão até chegar aonde eu apontava. E tinha muita coisa sobre a caixa de madeira esbodegada da qual podíamos adivinhar os pedaços do couro torcido do uso, encardido do barro, do esterco, do tempo, de tudo… Ele não descansou até conseguir e me alcançou, de dentro de um saco plástico de sal, o par de botas que havia sido do pai e que ele, um dia, consentiu em que as calçasse nos pés.

Guri da cidade, eu ia pra campanha com a mesma roupa com que vivia. Usava tênis, jeans, camisetas e quando um muito um boné, no verão, pra proteger a cabeça do solaço e, sem o qual, a mãe não permitia que eu saísse porta afora sem aquele cuidado. Mas, ao chegar lá, não mudava de traje como o meu pai. Eu simplesmente não tinha um traje “típico” com que montar a cavalo e camperear. Os filhos dos peões eram muito melhor trajados que eu, pelo menos eu assim achava pelas bombachas que usavam, ainda que usassem nos pés chinelos de borracha ou alpargatas gastas e furadas até quase a miséria. Na cabeça, ao invés dos bonés trazidos da cidade, tinham chapéus de feltro e barbicacho. E, nas costas, mal atravessada, a faca.

Os peões, então, por sua vez, trajavam sempre a indumentária completa. Desde o chapéu na cabeça até a roseta da espora, pareciam pessoas de outro tempo transplantadas num transe imediato. Como se, de repente, estivessem prontos para um serviço de dias, de tropa. Ou de guerra. Mas, é claro, não era como filmado no estúdio e transmitido pela televisão. As bombachas eram sempre machucadas por remendos, mas o cinturão ou guaiaca impunham um respeito que me amedrontava um pouco, sim, quando guri.

Quando já encilhados partiam, os mangos pendiam dos pulsos e os laços, como conchas, se esparramavam no lombo dos matungos. No verão, uma camisa folgada para passar a brisa; no frio do inverno, uma japona ou um poncho tramado em lã colorida, um bichará.

Já eu, fosse inverno, verão, outono ou primavera, o traje era o mesmo que trazia de casa, da cidade. E embora provasse as botas abandonadas por velhas no galpão, nenhuma me servia adequadamente. Não por isso, fazia o que precisava do modo que estava e nem imaginava sugerir ao pai que “ganhasse” uma bombacha de serviço. Antes disso, de acordo com ele, mesmo eu, seu filho, precisava ter querência.

Pois essa complicação de nome eu mal entendia o que podia ser, mas era certo que todos tinham ali exceto eu. Porque uma coisa é estar num lugar e outra, bem diferente, é ser dali.

Não bastava eu querer, mas precisava viver aqueles morros, elevadas, sangas brabas, lodaçais, entender caminhos, conhecer de olho, à distância, o nome de cada uma das vacas. E ser imperceptível aos demais, por seu igual.

Nessas condições, muitos anos depois da minha infância, as botas serviram e eu, então, pude usá-las. Já não sentia que isso fizesse diferença – e não fazia. Quando olhava para trás, na hora de voltar ao povo, sentia que tinha um lugar ali por mais duras que fossem as camas de crina, os mochinhos do galpão e principalmente o lombo do tostado.

Desde esse dia, meu amigo, a gente nunca mais sai de lá por completo.

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