E já se acaba

Se você enxerga o que uma bactéria faz (e o que ela transmite aos seus descendentes), se escuta a onda tetha que o universo reverbera desde o bigbang, se olha o limite do horizonte no mar das cachalotes, se calcula o tempo dentro do tempo da queda de um folha, se ouve num bairro em Porto Alegre a impedância de um gong javanês, o ruído da tijela de um lama, o grito de um navajo no abismo de Colorado, se você perde a linha da pandorga (e segura as lágrimas, mas não chora), se você gastou todo o dinheiro que tinha, se você ouviu o canto de Betsabé, se você ouviu a música que inspirou Homero (se ouviu a música), se provou do pomo de Iduma, se deixou levar-se pela poesia de Cagliostro, se viu o dragão banhar-se dentro do Graal, se gastou seu tempo esperando entender os cálculos de Arquimedes, as pirâmides de Chichén Itza, se provou do cansaço de Diderot olhando o sem fim da Encyclopédie, se estava dentro do sonho de Isaac Newton com o mercúrio filosófico (não na maçã pendendo de um galho), se você esteve na guerra por Gengis, se foi você a rachar o crânio de Trotski ou varou o peito de Luther King e sentiu o que acabou de fazer, se alguma vez sentiu-se como um ervilha de Mendel, se viu a nuvem de calças despir-se das calças, se cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, e ouviu a voz de Deus num poço tapado, se foi Pelé ou o goleiro diante dele (e seu medo na hora do gol), ou se não foi, se nada disso, é nesse infinito que a vida dura. O imenso pouco em que você acaba de ler isso. E já se acaba.

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