Sci-fi in vivo

Não faz muito acessei minha estação de trabalho remoto aqui de casa. Domingo, isso mesmo. A operação é banal. Basta que eu forneça um endereço de rede, login e senha e está pronto: é como se estivesse em dois lugares, operando simultaneamente dois computadores. Para quem trabalha com recursos de informática, é uma operação trivial, possível há vários anos já. Até a pandemia e a implantação do homework, eu nunca usara o recurso. Nos últimos meses, tem sido a rotina e com muita facilidade acesso atividades e tarefas remotas e as executo como se estivesse in loco.

Entrei para encontrar um texto que estive olhando por alto esses dias. Até onde vi, é dos primeiros artigos que discutem a juridicidade dos algoritmos de navegação para carros autônomos e a questão da responsabilidade penal em danos e acidentes.

O assunto por si só parece estranhamente remoto, como se viesse diretamente de um filme de ficção científica, mas a verdade é que o mundo das normas legais já começa a se preparar para o desembarque desses veículos no Brasil e é necessário que sua tecnicidade seja compreendida e limitada pelo ordenamento jurídico nacional. Será a primeira vez que os automóveis se portarão como robots ou autômatos e o desafio dessa interação é ainda incompreensível em sua extensão. Logo, será mais uma banalidade tecnológica com a qual estaremos lidando como se o mundo sempre tivesse sido assim.

A ideia de que para se ter um robot é necessário um boneco mecânico com cabeça, tronco e membros (ou rodinhas) tem a infantilidade necessária para que não se perceba a dimensão que a tecnologia tomou em nossas vidas. Às vezes eu fico pensando que a robótica sempre foi apenas um jogo de cena, uma cortina de fumaça para a verdadeira revolução tecnológica em curso: a microinformática. Idealizados quase sempre como escravos mecânicos, os robots definitivamente não tem muito a ver com essa imagem, esse clichê.

De um modo ou de outro, o certo é que todos temos vários robots que automatizam tarefas e rotinas para nós, mas de forma que nem percebemos. Um cartão de crédito é um robot, por exemplo, quando ele nos libera da tarefa de ir ao banco, sacar dinheiro, pagar por algum produto ou serviços, receber o troco, conferir e guardar de volta na carteira. Dentro do cartão, um chip coordena todas essas transações e nós já nos acostumamos tanto a isso que banalizamos a complexidade de tarefas executadas por aquele pedaço de plástico.

Tudo o que executa uma tarefa autônoma a nossa vontade, mas seguindo determinadas instruções, pode muito bem ser chamado de robot também. Um elevador. Uma geladeira. Uma televisão. Um computador então nem se fale. Um computador é uma grande comunidade de robots. Ou mais que isso: uma sociedade de comunidades. Acontece que num computador (ou em qualquer meio digital nativo ou de transmissão digital), os robots são muito menos evidentes que os seus ancestrais – o elevador, a geladeira, etc. Ali, tanto há dispositivos para executar uma operação bancária desejada quanto dispositivos infiltrados para roubar dados e outros que estão ali para montar barreiras, caçar e eliminar os códigos intrusos. Há linhas de código minúsculas que são robots. Mas todas essas transações corriqueiras são automatizadas de modo a que a gente possa usar o tempo com outras ocupações e/ou diversões e não essas “banalidades”.

Se você é uma pessoa que, por acaso, costuma jogar xadrez contra sistemas autônomos, já percebeu que sua capacidade é cada vez mais ridícula diante a deles. A não ser que você seja um Kasparov da vida (mas mesmo ele tomou um mate inesquecível do Deep Blue da IBM em 1997). Mais recentemente, o Deep Mind (outro deep) venceu o garoto Lee Se-Dol em 2016 jogando Go, um jogo ainda mais complexo do que o Xadrez. Desde essa época, tornou-se uma “banalidade” ser vencido por sistemas autônomos nutridos por inteligência artificial. Mas a questão certamente é mais “deep” do que parece.

Há outras datas de corte dessa evolução que ocorreram imperceptivelmente no ambiente doméstico. Uma delas foi o lançamento do Windows 10, pela Microsoft. Desde então o sistema operacional se estabilizou de modo impressionante à medida que a maior parte das transações informacionais deixou de ocorrer nos mainframes pessoais, passando ao território das nuvens (que de nuvens não tem nada, são supercomputadores regiamente pagos pelas empresas de tecnologia). O iPhone 4, da Apple, surge no mesmo contexto, amparando-se no mesmo conceito de intensificação da virtualidade.

É bem nesse momento que os robots e microbots da informática migraram massivamente para as nuvens, deixando ao encargo dos apetrechos apenas operações triviais, de processamento rápido. Hoje, praticamente não há mais computadores no mercado, apenas uma caixinha com a mesma tecnologia nano dos telefones. Também nenhuma mídia nova surgiu desde então, apenas novos formatos de encapsulamento e encriptação de dados. O que aconteceu foi que as empresas de storage então passaram a abrigar centenas de zilhares de bits, o famoso big data. Dentro dele, transações oficiais, extra-oficiais e um cadinho invisível que é retrabalhado permanentemente pela inteligência artificial a fim de extrair dados, apontar tendências e, por fim, vender mais tecnologia.

A questão é que, de fato, a revolução tecnológica não está nessa mudança de localização dos dados. Ela está no fato de que os dados passaram a nos comandar e nós é que nos tornamos seus escravos, alimentando sistemas que se aperfeiçoam apenas em nos comandar melhor. E, como nos melhores sistemas totalitários, com a nossa anuência e colaboração. O próprio vício em tecnologia é um hack implantado em nosso sistema biológico, eletro-biológico, enfim, o cérebro.

Não interessa se gostemos mais ou menos disso, mas tudo os sistemas sabem antes a nosso respeito. Basta que acionemos um login, e eles imediatamente recompõem nossas tarefas de trabalho, nossas relações humanas, nossa situação financeira e até mesmo emocional – ou para o que você acha que servem essas carinhas, coraçõezinhos, joinhas e etc a não ser medir a sua (a minha, a nossa) temperatura emocional?

Não faz muito tempo, o Facebook lançou vários alertas falsos de tentativas de suicídio, em erros forçados de interpretação instruídos pelos seus programadores, mas salvou algumas vidas também. Não foi bola de cristal que eles usaram.

Há poucos dias, no Google Translator, coloquei para traduzir um texto em alemão de um livro traduzido que fiquei com preguiça de buscar na estante. A tradução era a mesma do livro, em cada vírgula. O tradutor recebeu royalties por isso?

Não importa o que você faça, qual seja o seu trabalho, se isso já não aconteceu, não demora vai acontecer com você também. Não serão mais os robots que trabalharão para você, mas justamente o contrário.

Às vezes até uma ideia nova, aquela sensação de um insight poderoso, será mera indução tecnológica em seus diálogos algorítmicos. Se foram experimentadas a partir de 2010, eu não duvidaria. Até o voto e outras decisões da esfera aparente da liberdade. A liberdade não é aquela sensação de segurança de uma decisão tranquila, ideológica, mas exatamente o oposto movediço dessa sensação. E se há uma técnica de poder associada a essa revolução, a minha impressão é que ela é a mais bem sucedida desde o fim da escravidão. Muito mais efetiva e controladora que o consumismo de massas.

Agora pode parecer delirante ou exagero, mas em breve isso ficará cada vez mais evidente. E você ainda estará pensando que o Felipe Neto é que um digital influencer perigoso. Esse é o problema de gastar palavras à toa, porque de tão ignorantes e embevecidos não sabemos nem nomear nem qualificar esse poder, quando conseguimos notar sua presença.

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