Má conselheira

Má conselheira é a vigília, mas a noite tem pensamentos muito mais alongados que o dia, encurtados das pressas. Pensamentos que vão mais longe, buscam outros tempos, recolhem palavras dos outros e botam na nossa mente como se fossem nossas.

Nessa noite, não sei que horas, não fui olhar, despertei com os olhos buscando entender pela claridadezinha das janelas se devia ou não pular da cama. Se acordo assim e passou das cinco e meia eu não hesito, levanto para o mate da madrugada, o melhor de todos, cevado num silêncio sem um pio, e fico esperando o momento que o céu se torna uma abóbada alaranjada para o parto do sol. Mas era cedo até para o sol e permaneci deitado, tão quieto quanto possível, e lembrei-me de cenas que vi mundo afora, no oriente, Europa, Itália de meus bisavós maternos.. E do nada, desse vazio, me veio uma palavra que não era minha, mas do meu pai e das pessoas antigas, do campo. Uma palavra terrível, o pior dos agouros do homem campeiro: o tendal.

Vivi uma vez um tendal sem saber que o viveria. Um tendal é uma simples corda esticada onde pendurar o couro dos animais mortos. No entanto, para que se o use, é preciso antes um longo trabalho, o trabalho silente e às vezes atropelado das tragédias.

Não consigo imaginar o que estejam passando os médicos, enfermeiros e trabalhadores italianos nem o que talvez logo passem os brasileiros. Não consigo porque é muito difícil trabalhar com a vida e, sendo humana, eu acho que é coisa para pessoas muito, mas muito especiais. Viver a morte de um ser vivo não é uma coisa banal. E o custo emocional não é também uniformemente distribuído. Por culpa disso, muitos enlouquecem nas guerras, nas grandes secas, nas misérias. E há os que passem ilesos e não são insensíveis por isso, talvez apenas mais resistentes. Mas que não se exija de ninguém esse comportamento. Há as pessoas naturalmente racionalizadoras, e há também as profundamente emocionais. É nestes últimos que tenho pensado mais e, ao menos mentalmente, solidarizo-me totalmente.

O tendal que eu vivi foi de certo modo causado por mim mesmo, por minha imperícia. Eu tinha por volta de dezoito anos e estava passando aquele ano inteiro no meio rural do interior do RS, na campanha. “Pra fora”, como se diz. Último filho de cinco, era o último a decidir o que iria fazer da vida, estudar o quê, fazer o vestibular. Depois de um ensino médio tortuoso ao extremo, havia me recolhido no interior de Bagé, às bordas do rio Camaquã, onde meu pai trabalhara a vida inteira e naquele momento vivia.

Por um ano inteiro estive lá e, por incrível que pareça, não sentia falta de nada. Para as notícias, tínhamos um rádio e uma tevê cuja imagem era imprestável, um borrão em movimento com vozes entrecortadas. E livros. E almanaques que haviam sido do meu avô. E jornais velhos, de notícias usadas e também imprestáveis. Coisas de galpão.. Servia-me muito bem de uma vida espartana, quase ascética, e aproveitava os fins de semana na cidade. Naqueles dias, tinha muitos amigos em Bagé. Foi a tevê, a porcaria da tevê, que na verdade deu causa ao que nos aconteceu.

Pois andava naqueles dias um vendedor de antenas parabólicas prometendo o milagre da tevê no meio rural. Para quem havia estado anos a fio sem nem luz elétrica, parecia um consolo a possibilidade e, dessa forma, encomendou-se o serviço. Meu pai resolveu fazer ele próprio, como bom one man band que sempre foi, o pedestal para tal antena e assim ficamos dois ou três dias envolvidos na “construção” e a espera do instalador enquanto que, imperceptivelmente, de uma chuvarada da primavera, o carrapato aproveitou-se para infestar parte dos animais que criávamos ali. Imperceptivelmente para os meus olhos destreinados que mal interpretaram o risco de adiar o banho dos animais porque, enfim, o “homem da tevê” estava sempre por chegar e chegou efetivamente, absorvendo nosso tempo e atenção.

Naquela noite, conseguíramos assistir do começo ao fim o telejornal, a novela e até um pedaço de um filme qualquer. A imagem nebulosa e desconstruída ganhara nitidez como se pincelada e meu pai estava muito feliz por conseguir aquilo depois de tantos anos. Eu penso que, principalmente, porque também desejava me seduzir a ficar ali, com ele, e não fosse dali me embora, do que também não me impediria (e não impediu). A tevê seria um argumento nesse sentido, ele parecia silenciosamente sugerir.

No outro dia, cavalos encilhados, voltamos ao que deixáramos alguns dias antes, mas não estava o mesmo. Em determinado potreiro, os animais não mantinham seu hábito e, mal cruzáramos a divisa do aramado, ele percebeu que algo estava muito errado. No cocho de sal, uma vaca mugia lamuriosamente, talvez chamando o seu bezerro. Numa pequena canhada, um declive, o terneiro se acompanhava de outros animais, mas, ao longo dos nossos olhos, outras vacas e também terneiros estavam prostrados, incapazes de erguerem-se sozinhos, pelas próprias forças.

“A tristeza…”, disse o pai. “É a tristeza.. Mas tu não viste o carrapato?”, e indagou-me porque eu havia estado ali um dia antes, pela tarde, e o carrapato se recorre é pela manhã, quando está de barriga cheia do sangue dos pobres bichos que estiveram a dormir. E então ele disse a palavra: “isso vai ser um tendal!”, e apeou do cavalo para tentar aprumar uma vaca erguendo-a pela cola, no que eu tentava inutilmente ajudar. Ela não sairia por conta própria. Um bom número delas, segundo ele, sequer chegariam vivas até o banheiro onde livrá-las dos parasitas. E assim foi.

Dali em diante, levamos ao banho aqueles que conseguiram chegar lá. Os terneiros jogávamos com as mãos para dentro do remédio e da água e com um gancho puxávamos para a fora, com dificuldade. Os mais frágeis, carregávamos  empurrando com o corpo, dando a volta da escadaria e lavando-os praticamente a mão. Essa manhã durou pelo menos até o meio da tarde, quando fomos socorrer os restantes. Sobre o reboque do trator, erguemos e amontoamos vacas e crias desparceiradas, muitas que já não reclamavam mais do incômodo. E outras ficaram por ali mesmo, aguardando a fome insana de corvos, caranchos, sorros e os outros animais da noite.

Na volta “pras casas”, quietos, atordoados, meu pai, gaúcho que se recusava a usar uma faca contra um animal vivo, me disse que eu não precisava ficar com ele e que nem ele ficaria ali, se pudesse. Herdeiro de antigos estancieiros, escravo involuntário da sua genealogia, disse-me para que não fosse como ele, um prisioneiro do chão. E não disse com tristeza, mas com uma raiva imensa daquilo tudo. Uma raiva que não era daquele momento só.

De noite, a morte dos animais não nos permitiu comer. E, apesar da parabólica finalmente instalada, também não ligamos a tevê.

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