Porto Alegre, 5

Faltei ao nosso encontro. Tenho faltado..
Não sei onde ando com a cabeça.
Desculpa por isso? De outro modo,
foi sem querer que te vi (e não notaste);
no comércio miúdo do centro, numa
conversa solidária de pobrezas
e recebendo a benção inútil de um pastor.
Estavas tão silenciosa quanto me pareceste
cansada, exausta, das mentiras intermináveis
que forjamos em teu nome.

Num daqueles cafés acanhados,
negaste passagem a um mendigo
reavivando em mim a memória da tua crueldade.
Mas queres me dizer de imagens
tão perfeitas que impossíveis.
Tua coqueteria indiferente
é o que te faz tão arrogante, não vês?

Há dias uma senhora muito velha
contava-me de lugares que não existem mais.
Ela misturava os tempos
e, por uma magia toda própria das palavras,
embarquei no seu delírio. Estive com ela
num cinema que hoje é estacionamento.
Ajudei-a com documentos improváveis
como quando foi a data certa
em que perdeste o bom senso.

Num museu enganoso,
cópias de bronze furtado
tratam entre si do teu futuro,
não sabes? O livro de Drummond
na Praça da Alfândega
no qual te espiava a poesia, também.
Aos olhos dos outros, vales tão pouco
que te deixariam sem luz por uma
semana, assim como te retiraram os bondes,
como te prometeram coisas que, na verdade,
nunca acharam que tu merecesses –
os teus governantes.

De mim, o que queres, eu não tenho.
Sou egresso das tuas ruas, que é onde
vivem os únicos que te amam
(e violentam). Retirado às janelas,
acostumado a corroborar tuas esperanças,
mas sem esperança, adivinho o desenlace
de tua vingança: permanecer..

Mas ontem precisei de algo que não encontro
em lugar nenhum a não ser em ti. E precisar
de ti me fez uma saudade, porque te vi
como estavas na realidade, e eu te negava.
Tão cansada, Porto Alegre..

Sei que te fraudo como um camelô
que troca por moedas furtadas
o que tu nem tens para dar.

Sei que te exijo do que não posso cooperar
contigo. E que isso te miserabiliza mais
que tudo, numa violência incomparável.

Eu te reclamo tanto.. Desculpa por isso também.
Se eu te deixasse quieta, todavia,
seria o meu próprio fim, pois no meu mal querer
adquiriste de mim, sem notar,
quase tudo no que me tornei.
Talvez seja essa a natureza da dor.
Perdoa, somente se puderes,
por esse meu (nosso) tamanho egoísmo.

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