Os inguinorantes

Inguinorante, grafado dessa forma mesmo, errada, era como nos pátios escolares da minha infância soavam as reclamações comportamentais do meu grande amigo daqueles tempos, o Ricardo. Na sua ignorância lexical, nunca que ele jamais xingou a ninguém com termos grosseiros, muito menos valia-se do baixo calão. Preferia, ao invés de injetar mais cólera entre os desafetos, submergir-lhes na culpa. A maneira que ele costumava fazer isso era chamando a criatura de “inguinorante”.

Acho que a derradeira vez em que ouvi ele usando o termo foi ao tentar conter um atrito mais grave dentre dois colegas na saída do colégio, na famosa “esquina” do “te pego na esquina”, onde às vezes o bicho pegava mesmo, embora fosse raro e tudo ficasse mesmo naquela ameaça que prometia tornar meras desavenças em acontecimentos sociais. O conflito que logo se desencadearia, segundo se percebia, tinha tudo pra descambar em verdadeira tragédia. De um lado estava um magrelo qualquer e, do outro, ninguém menos que o Paulão.

Se havia alguém na mesma medida estúpido e irracional em todo o colégio (talvez na cidade inteira), sem sombra de dúvida este sujeito era o Paulão. E não havia em absoluto quem o interpelasse. Mas somente até aquele dia..

Pois o Ricardo vendo que o incauto desmilinguido não iria mesmo desistir do enfrentamento, pôs-se com seus parquíssimos argumentos a tentar demovê-lo e ao Paulão da idiotice que estavam pestes a cometer. Conversa vai conversa vem, nada parecia conter a exaltação anímica dos desiguais contendores. Eis que então ele lascou o seu adjetivo preferido e chamou o Paulão de “inguinorante”, o que ali equivaleria a  algo como “provalecido”, também uma ignorância lexical, mas que aqui não vem ao caso. O Paulão comoveu-se como lhe era possível (pois de alguma forma o Ricardo havia conseguido lhe chamar à razão) e deu as costas ao combate depois de certificar-se de que  não o tomavam por covarde ou decretassem um inédito W.O.

Diferente do ignorante, o inguinorante não ignora nada. Trata-se de quem, aliás, sabe muito bem o que está fazendo e é por isso mesmo que o Ricardo gostava de acusar os outros de inguinorantes de modo a evidenciar a barbaridade.. Na sua peculiar aplicação do termo, significava que a pessoa estava sendo deliberadamente estúpida e não agindo por efetiva ignorância, isto é, sem saber o que acontecia e/ou fazia.

Os inguinorantes da internet hoje em dia não são muto diferentes dos sujeitos a quem o meu bom amigo de infância tentava inocentemente imbricar nas redes do remorso e da culpa . São indivíduos deliberadamente estúpidos como aqueles seus antípodas, mas criaturas convictas de que são incorrigíveis, indefectíveis e imperturbáveis, portanto, infensas ao remorso e o menor arrependimento.

No fundo, são só uns inguinorantões.

Por essas coisas que não fazem o menor sentido eu hoje me sinto mais à vontade com os ignorantes, aqui grafados corretamente, do que com os inguinorantes. Sei lá como ou quando, mas perdi completamente a paciência e a tolerância com a inguinorância. E, como fazia com o inguinorante do Paulão no pátio do colégio, cada vez mais eu quero distância desses estrupícios, já que enfrentá-los (ou tentar chamar-lhes à razão) é sempre em vão.

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