Cecília

Publicadas em 2017 pela Global Editora, as quase 2.000 páginas dos dois volumes da Poesia Completa, de Cecília Meireles, dispensam qualquer apresentação. Cecília também dispensa apresentação porque, afinal, ao que se sabe ninguém nunca se apresentou tão decisivamente poeta quanto ela. Do pouco que sei de sua biografia, me parece tão clara a sua relação com a poesia que até soam ridículas as reivindicações que hoje se fazem ao estilo. Só fico ainda pensando em que tipo de encontro teria sido o seu com Pessoa, que evitou-a. Talvez ele soubesse de seus olhos, os olhos dessa foto acima, e temesse qualquer coisa. Ou conhecesse estes versos abaixo e temesse ainda mais…

Canção

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
o lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo…
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo…

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