Iníquo

Se quiseres saber,
pode que através de mim
ainda entendas por que
preciso matar
um poema
que já morreu.

Postado só,
como numa rua deserta,
eu o disse três vezes,
e que o mataria
tanto quanto
sobrevivesse.

Só me obstaculizava
o desejo
a dor que toda morte
comporta
e, admito,
algum temor.

Se ao menos
eu o tirasse de vista
como a uma passagem
estranha, oblíqua,
teria então outra forma
de obter justiça.

Viver sem vê-lo
ou matá-lo
seria um gesto vil
e supremo
para não ser eu
a sofrê-lo.

A morte, o tempo
sempre a corrige
com mais tempo.
Por isso que devo
resistir ao que me causei
de equivocado.

Que ele me fosse
indiferente. E a vida
me fosse branda. Mas
no que mais
poderei vingar-me
quando ela se mostrar iníqua?

Morra o poema
e o que mais acarreta
a poesia. Às vezes
não há tempo
o bastante para os dois
num só planeta.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s