Fé é pra quem tem

Há dois anos atrás, andou um tornado por Porto Alegre, no verão. Era janeiro e eu estava com a família no litoral e planejava viajar diretamente do extremo norte do estado até a fronteira do Uruguai. São 624 km de estrada, mas é o jeito de ver a minha família e a família de minha mulher no fim de ano, quando temos tempo pra deslocar todo mundo. Uma noite antes da viagem veio o vendaval e os tornados que deceparam as árvores da cidade, destruíram telhados e deixaram a capital sem luz elétrica por cerca de três dias.

Chegando em Porto Alegre, minha cunhada acabou por levar até à fronteira minha família. Eu fiquei para ajudar os moradores do condomínio, há muitos idosos entre eles, e cuidar de saques que andavam acontecendo, além de providenciar o conserto de parte do telhado que havia se danificado. Também precisava de um tempo pra terminar um livro que andava escrevendo e então ganhei esses dias de “folga” pra completar a tarefa.

A cidade estava um caos verdadeiro. Na minha rua, onde acaba a Cidade Baixa e começa o bairro da Azenha, dois imensos jacarandás impediam o fluxo. O mesmo acontecia em toda a cidade. O Parque da Redenção era o retrato de um verdadeiro apocalipse.

Naqueles dias, haveria festas de pré-carnaval de rua na Cidade Baixa que foram canceladas, deixando seu público preferencial a ver navios. Esse pessoal na época frequentava muito um botecão de esquina, quase defronte a onde moro. Sem mesas nem cadeiras, onde tomavam cerveja barata e em pé, sempre tinha um bom número, antes de seguirem seus destinos noturnos. Pessoal sempre bacana, tranquilo, sem incidentes maiores. Às vezes algum mais emocionado (provavelmente pela política estudantil, já que em sua maioria os frequentadores eram universitários), mas nada de tirar o sono (pelo menos do meu lado da vizinhança).

Passsei uns bons dias de trabalho a fim de conseguir ajuda para o telhado e dando jeito no que podia, mas não consigo tirar da cabeça uma cena que infelizmente vi com os olhos que essa terra há de comer e me causou um insight, já que o ser humano é dado a insights eventualmente.

A cena era dificil. A rua estava interditada e não havia equipes disponíveis para a remoção das árvores tombadas. Em virtude disso, alguns poucos moradores, pessoas de idade, começaram a tentar liberar a via. Imagine-se que, numa emergência médica, de outro modo não seria possível passar por ali.

Seu trabalho começou de manhã e até meados da tarde pouco haviam avançado, mas o botecão havia aberto suas portas para receber a clientela para um esquenta da festa de rua, ainda que num cenário daqueles. Juntou muita gente, como sempre.

O bar, sem energia elétrica, oferecia cerveja morna em isopores improvisados, mas o pessoal não arredava o pé e custou a dispersar, assistindo aqueles velhos trabalharem sozinhos sem nunca lhes oferecer ajuda para nada. Os uiniversitários festivos, o “futuro da nação”, suas “melhores cabeças”, apenas faziam beber, beber e beber cerveja morna da AMBEV, empresa do maior bilionário brasileiro, sem nem enxergar o que se passava em torno de si, sem um gesto de solidariedade ou cooperação para com quem fazia uma força que não tinha nos braços para arrastar tocos de árvore pela rua.

Acho que não preciso explicar mais sobre o insight que tive naquele momento. Foi e é auto-explicativo.

Por isso não me serve esse luto momentâneo de avatar de Facebook. Este é um pesadelo que vivemos há tempos e do qual o futuro, com essa garra, esse animus todo, não nos resgatará.

Desculpem ter de contar essa história, mas é verdade esse “bilete”.

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