Continuum

Uma das boas coisas do vento
é que ele não dá testemunhos.

Outra grande vantagem nele
é de sempre levar a si mesmo.

É o que o faz dispensar de uma só vez
motores, turbinas, asas e lemes.

Sob a nuvem ou sobre ela
o vento lhe é imune

e, mesmo que quisesse,
ele nunca desapareceria.

Sem pedaços, cor ou idade,
quem saberia defini-lo?

“É só o vento”, minha mãe dizia
sempre procurando dentro de casa

o estado da poeira nos móveis
e qualquer coisa em meus olhos.

E talvez encerrasse ali mesmo,
se desejasse, sua trajetória:

um moto-contínuo
e que não para um instante

mediante súplica
ou, que seja, advertências.

Mas o melhor do vento
ainda é ventar sem o entender.

Aos que duvidam de sua existência,
saibam que nem ele sabe de si

na sua ausência perpétua
de pensamentos.

O vento é o que ele faz
nas outras coisas

e nunca se encontrou nele
vestígios de arrependimento.

É o que faz nas outras coisas
e nem ele sabia disso.

 

 

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