Lamento grego, 2

Há pouco o céu tocava minha mão
e o céu morreu agônico, num trinado.

Há pouco o gosto da lembrança chegava
e o esquecimento lhe veio cedo demais.

E agora pretendem me raptar
os desperdícios duradouros da vida.

Mas eu, que não rapino sequer uma fresta,
sigo errando ao meu desígnio:

fustigam-me um remoto deus do tempo
e mãos que não são minhas.

Eu, que nunca previra o castigo infernal, mortal,
que se pratica a si mesmo, sem fim.

Por outro haveria uma parte por entender
mais suave que a dor – eu a esqueci -,

mas destinei-me a não saber o que fazer de mim.
É tão torturante ouvir o lamento dos ossos,

mas ouço agora o que apenas eles souberam:
“Não há nada para mim aqui”, disseram.

Em minha teimosia, penso que um dia
terei de volta o que me arrancava.

Se para ser uma tela aos pedaços,
a reconstituição errada de um mapa

(para que precisei aprender dessa forma
– e não outra – o quanto custa viver?),

agora a noite me romperá, como a um tecido,
neste som infinito e indistinguível –

a minha voz entreguem-na ao colo de minha mãe
e à terra marrom que sempre me permitiu.

O que tinha mantido num engasgo subiu aos meus olhos,
é disso que o poema rompeu.

E agora, novamente fechado, voou daqui para longe.
Não sei porque pensei que isso bastava.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s