A ponto de.

Você dá o que lhe parece.
Mostra não mais do que percebe.
Encontra apenas o que imagina.

Nesse silêncio quadrado,
nesse quadrado há um grito
estilhaçado em si mesmo.

É bom guardar os vestígios,
deitar fora as lembranças,
borrar a verdade, vendar o futuro.

Para nós não há uma última palavra.
Você deveria saber o que é preciso
para não ser feito em névoa.

Você parece, mesmo, é o que não dá.
Nem percebe mais o que lhe é mostrado,
prefere permanecer a ponto de.

Mas o mundo já partiu do seu lugar
e ninguém mais é igual a outrora.
Quem há, ainda, para encontrar?

Veja o quão sem graça
é não haver graça em sorrir
quando não há mais a quem convencer.

Basta repetir os próprios passos
para chegar ao ponto de partida
de volta. E mais uma vez.

Tanto quanto necessário
a água escorrerá pelas frestas
e o vento se espalha sempre em seus lamentos.

Se, pelo menos, você estivesse a ponto de
reconstituir o número habitual
pelo qual pranteavam estátuas.

Se, pelo menos, você estivesse a ponto de
enfileirar exércitos de homens escolhidos um a um
e levá-los a algum destino.

Com que esforço
esse pássaro abre as asas
e parte, quando está livre.

De longe, cada vez mais longe,
ao olhar para baixo, felizmente
todos parecem borboletas.

De perto,
poucos estão
a ponto de.

Muitos nem estão e nem nunca estiveram
e, finalmente,
pode-se entender que sempre tem sido assim.

(2012)

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