Samsara

O problema dos mortos
não é o tanto que eles deixam
para resolvermos mais tarde,
mas o que nos levam
e que não tem solução nenhuma.

Como se as partes do nosso nome
– as pronunciáveis –
nunca mais fossem encontradas
porque já sem qualquer eco
e sem o antigo furor

(como em um catálogo de ítens
de carnes e ossos que se batem
girasse inexpugnavelmente
a energia que se entrega
aos nossos nervos e músculos)

e a forma como éramos chamados
quando se perdia de vista
alguma coisa qualquer
e éramos os titulares
desse resgate impossível.

Sim, o máximo que fazemos na vida
é sermos compenetrados
salvadores de grandes miudezas
para os outros
gastarem-nos.

Mas não é por isso
que seremos lembrados ou lembraremos:
a memória é um torpor tímido
de que existir é esse instante
que casualmente nos é exibido.

E se as muitas palavras despencadas
e as cores travadas no breu,
ao arrepio de qualquer forma,
o inconcebível, o único inconcebível,
é que você finalmente morreu.

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