Montante

a vida são coisas perdidas
são louças no momento de partir
e os cacos quando se perdem de nossa menor menção
são lugares pelos quais sem dúvida passamos
e não nos ocorre que possamos lembrá-los

são inúteis regressos a uma vida que não merecemos
e os passos que demos de onde nossa esperança
se reverte em desistência e remorso

a vida são ainda as coisas por perder
fragmentos do tempo que almejamos e vemos desgastados
sem que nos tivéssemos prometido mesmo alcançá-los
porque, ao fim, tudo se debate dentro de sua própria força
e nosso cansaço não podemos remetê-lo
ao montante do tempo só por estarmos convencidos de que lutamos

tais coisas são apenas desprendimentos da vida cotidiana
e, certo, sempre há o momento em que alguém nos chama:
– Aqui, ó Fulano! –
e, ao contrário de toda a desesperança,
essa é uma certeza que ainda requisita nossa comoção
mas sempre parece que alguém nos chama

(1990)

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