Porto Alegre, 4

quem me contou sobre ti foram os pés
congelados de frio de alguém que vi descendo através
do Menino Deus, dia desses, rumo ao Cristal

ele não tinha sapatos, mas tinha muletas e um cão alquebrado
que farejava no vento o inverno e se encolhia, tiritando e
latindo entre a buzina dos carros, todo assustado

ele não temia a ti e todo valente encarou
os meus olhos como a um parente, tu não os viste
porque já não olhas direito a mais nada

pensas em ti mesma como um museu de museus fechados
procura entre os passantes quem te visite
e depois lhe fecha as portas na cara

o tempo vem passando por sobre ti e mim
sem indulgência ou rancor
onde fica a cidade? eu me pergunto – e é sempre para lá de uma ponte

o interior te espreme e oprime como se tua função
fosse exortá-lo ao teu abraço indolente
e dissesses-lhe para que da mesma forma te evitasse

por aqui há mortes à toa e a toda hora
como nas piores metrópoles do mundo
mas tu te candidatas (ensandecida) aos mais belos poentes

o mais triste em ti sempre pensei que fosse teu nome
tão impeditivo da melancolia
tão necessária à autocrítica

ai de ti que não podes sequer lacrimejar
senão te vão juntar as lágrimas
poetas ruins que nem te amam

eu que sempre vivi num bairro apenas
te vivo como aldeia
e isso me reforça o teu assombro

e cada vez que desço ao térreo para te receber
tu não te entregas
tomas do troco e desapareces a seguir

tu nunca madrugas, amanheces
tu não descansas, adormeces
tu não sorris sempre, sempre perfeita –

eu bem sei que te ampararia
mas não tenho com o que
e devo poupar-te desse embaraço

às vezes olho para baixo de algum prédio alto
e então entendo onde escondes tua beleza:
nas coisas que não te fizemos

mas foste roubada e rapinada
como a uma vizinha velha
que os ladrões não perdoam

e foste mal vestida por gosto, parece,
a uma festa
em teu próprio louvor

por isso pareces cada vez mais a este velho e seu cão
e enxotá-los é exigência de uma vaidade inútil
que te compara a lugares que não te merecem

(mas eu não te comparo a ninguém)
meu ônibus já vem chegando
e vou para ainda mais dentro de ti

é onde teu verdadeiro coração
mantém a vingança
de me recusar por inteiro

(mas eu te amo ainda assim)

 

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