Não dê ouvidos aos dragões

Este pequeno livreto é o que se poderia chamar tranquilamente de extravagância. Ou, para ainda melhor defini-lo, talvez fosse melhor dizer “intravagância”.

Se à primeira vista ele se parece a uma investida mística ou esotérica (no sentido ortodoxo do termo), estes são poemas que não resultam de nenhuma experiência iniciática (algo para o que me faltariam condições elementares como “tempo” e “disposição”), mas de investigações que se voltam para dentro, como espécies de uma metacognição introspectiva motivada por uma imagem metafórica que é sempre muito poderosa em qualquer cultura, a figura do “dragão”.

Acontece que a figura do dragão tem tantas representações e significados quanto se possa imaginar e, por isso, é importante dizer de que “dragão” se trata aqui. Ou de que dragões..

De modo bem resumido, falando em biologia, sempre pode-se dizer que os seres humanos, não necessariamente pela presença da consciência, constituem a espécie mais bem desenvolvida entre todas e que, para a natureza ter chegado a este estágio de especialização, foi preciso evoluir a partir de formas muito elementares de vida, provavelmente nascidas em meio aquático a questão de milhões de anos atrás. Embora pareça estranho assumir isso e nosso parentesco imediato seja mais visível em outros antropoides, nossa memória e nossa estrutura cerebral guardam em camadas profundas o mesmo cérebro destas criaturas mais primitivas e das que sucederam-nas através do tempo. É daí que se conhece o “cérebro reptiliano” como aquela porção cerebral responsável pelos instintos mais elementares, como o de sobrevivência, o instinto sexual e a agressividade, predominantes nos répteis.

Esta seria, portanto, uma das principais facetas “desses” dragões: como se fossem representações da força vital em estado bruto disputando com outras, tais como a racionalidade, a fé religiosa e a cultura de um modo geral.

Não menos relevante, outra faceta diz respeito à representação muitas vezes, digamos, demoníaca destes seres fantásticos. Especialmente na iconografia cristã, os dragões surgem quase sempre como emissários do mundo subterrâneo, quando não representam a própria encarnação do mal. Mas é preciso entender que tal narrativa e iconografia diz respeito à adaptação judaico-cristã de mitos ainda mais antigos e também da necessidade de representar as forças maléficas sob alguma forma.

Por isso, “o mal” costuma aparecer nas escrituras e nas imagens medievais (principalmente a dos santos mártires) representado tanto por bestas em si mesmas como antropomorfizado, configurando a imagética preferencial do paganismo, repleta de monstros e estranhas divindades. Alguns destes dragões estão aqui também, apenas que lutando em prol das forças naturais mais elementares e também de sua sobrevivência.

Em outras culturas, os dragões assumem várias funções bem menos aterrorizantes. Isso nos mitos sumérios, nos do oriente extremo e também na América espanhola. Aqui, estes dragões não aparecem, mas apenas os da tradição ocidental, ainda que no mundo “dragônico” as fronteiras possam ser outras..

Seja para dar margem à erupção dos instintos mais básicos ou por corporificar um arquétipo de energia, os dragões via de regra são seres derrotados. Quer seja pela mão ou espada de um santo, seja pela costumeira prevalência da razão sobre a emoção, a imagem de um dragão enfurnado é bem representativa de um força contida, que se guarda e aniquila, mas também da qual em última análise se é dependente, porque vital.

O dragão não é um agente da civilização, mas da aniquilação sem a qual nada no mundo se renova. Como ocorre nos mitos nórdicos, são seres de um sono profundo e suas guinadas repentinas levam muitas vezes à destruição. Já que não se pode domesticá-los, eventualmente são mortos como uma forma definitiva de libertação, mesmo que se tarte de uma libertação da liberdade que muitas vezes só mesmo eles podem propiciar..

Viver em paz com os dragões ou com o que eles significam nem sempre é das tarefas mais fáceis. Trata-se de um monstro tão mais autêntico quanto mais ficcional. Dispensável e detestável como qualquer outro monstro, mas irresistível como nem um outro pode ser. Talvez a porção reptiliana em cada um permita ver-se refletida nele em sua forma exuberante, pois o desejo do homem é ver-se sempre como alguém capaz de enfrentar o que seja ou a qualquer outro poder. Sibilinos, sibilantes e ciciantes, os dragões são seres que não existem nem nunca existiram, mas que, a despeito disso, permanecem enfurnados dentro de cada um. Estes poemas têm o objetivo de deixá-los falar um pouco. Apenas não se deve esquecer um antigo conselho germânico que manda não se dar ouvido aos dragões..

 

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