O guardador de carros

quase sempre a essa mesma hora
o guardador de carros
assovia estridentemente

(eu nunca guardei carros,
mas é como se os guardasse)

quem ele chama? o que quer?
assim que, se ele soubesse,
não pareceria ter olhos
tão marejados – e os carros,
como monstros súbitos do acaso,
um dia o estatelariam no chão,
verdes como se fossem, da natureza
remanescente, os seres estacionários
que a vingariam em sua fúria –
e Deus, que os colocou em pé
e deu-lhes vida pela primeira vez
saberia que falhara da mesma forma
que falha um poeta ao imaginar
em que diferença faz dizer ou não dizer

(que diferença faz?)

poderia ser outro, não eu
a guardar carros, se fosse ele,
mas concilio o que faço
ao que não posso fazer
e escrevo as memórias no chão
no rastro que os carros deixam ali

os carros são melhores e mais caros
que a minha vida e os admiro
como a imagens cobertas por véus

(que diferença eu faço?)

posso aprender a fazer contas um dia
se eles não corressem tanto
e usassem luz baixa
e fizessem sinal ao dobrar

mesmo eu sendo tangido por eles
eu nunca sei por quem eles são
e não me espantaria saber
que comandam seus donos
e eventualmente podem ceifar-lhes as vidas
e roubar toda a sua fortuna

(que diferença lhes faz?)

quando a noite se aproxima
e a luz dos postes se acende
eu penso no que me faria ser
outra pessoa, justamente,
mas se não existem milagres
exceto os da imaginação
eu interrompo o pensamento
porque um novo carro chegou
para mim, no estacionamento

(quando foi que não percebi
que já me transformara nele?)

aqui estou sentado
como quem não pensa em nada
contando o troco em moedas
que me jogaram à calçada

(sinto que agora estou
muito mais próximo a Deus
mas o rio que corre perto de mim
está podre e cheio de pneus)

(sinto que a terra abaixo
um dia destes cedeu)

eu não me engano com nada –
a vida foi sempre assim –
e eu não notei o assovio
que eu mesmo, não o vento,
mandava a mim

ele me mostraria a morte
e suas cores sombrias
ele me seria o inusitado aroma
a lembrar o tempo em que estou aqui

os dias a passar por mim
eu a mal notar os dias
o mistério suntuoso e inútil
da água correndo no rio

todo o ruído que é feito
por eles – os carros – é perfeito
uma sinfonia absoluta
em buzinas, motores e gritos

e eu, que penso em mim como noutro
qualquer, guardo carros
até por moedas

por tudo (eu nunca guardei carros,
mas é como se os guardasse),
prefiro a noite quieta e soturna
a observar borboletas
e se todos dormem a essa hora
então eu posso também

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