O monstro superempático de Guillermo Del Toro

É lamentável que os distribuidores do mais recente trabalho do mexicano Guillermo del Toro, A forma da água, tenham marcado para o início de janeiro a estreia do filme nos cinemas brasileiros. O filme de ficção fantástica, horror fantástico, horror erótico, fantasia romântica ou simplesmente romance não poderia ser mais coincidente com os dramáticos episódios envolvendo questões relacionadas à arte, sexualidade e censura no Brasil de 2017. Por outro lado, é de considerar-se que em tempos alegadamente acelerados, pode ser que nem se note muita diferença assim no zeitgeist que se há de encontrar por aqui no próximo dia 11 de janeiro de 2018, data de estreia do filme, do que pode ser notado ao longo de todo o 2017. Dado que a distância para com as cataclísmicas eleições de outubro próximo ainda é grande e é difícil encontrar no ano que acaba debate mais acalorado do que o envolvendo a censura e a exposição da sexualidade humana na expressão artística, A forma da água é um prato cheio para sublimar-se de vez (superar talvez fosse pedir demais) o transe moralista em que o Brasil enfurnou-se com certa sofreguidão no decurso do ano que já vai acabando.

Del Toro, que recentemente havia deixado muito a desejar ao aventurar-se na clássica fórmula neogótica de mansões mal assombradas, com A colina escarlate, além de não ter sido bem recebido nem pela crítica nem pelo público, nem de perto recobrou o impacto de seu título de maior sucesso, O labirinto do fauno. Com A forma da água, porém, ele retoma sua morada preferida: um bestiário muito particular fornido por criaturas silenciosas e inquietantes. É bastante possível que A forma da água repita a série de indicações e premiações de O labirinto do fauno ou até mesmo o suplante nisso. O primeiro passo nesse sentido de alguma forma já foi dado ao levar em setembro último, o Leão de Ouro, em Veneza, que é sempre um forte indicativo do Oscar.

Bem como em O labirinto do fauno, o monstro concebido por del Toro para A forma da água cumpre várias funções simbólicas e metafóricas. A criatura, ao que tudo indica encontrada em algum local remoto da floresta amazônica, parece ter vindo de um mundo intocado e desconhecido, tudo o que floresta amazônica como é conhecida hoje deixou de ser há muito tempo. Explica-se: o filme se passa bem no começo da década de 60, ainda em plena guerra fria, nos corredores escuros de um laboratório governamental norte-americano no qual a atriz inglesa Sally Hawkins vive Eliza, uma zeladora muda que se comunica por linguagem de sinais e que acaba vivendo uma intensa paixão com o humanoide interpretado por Doug Jones. Além deles, o elenco principal é completado pela oscarizada Octavia Spencer, que vive a amiga e muito falante Zelda, pelo seu vizinho Giles, personagem homossexual e desempregado com quem Eliza diverte-se à noite assistindo a musicais na TV em preto e branco dele e também pelo vilão da trama, o coronel Strickland, vivido por Michael Shannon.

De certa forma, como se fosse o estrangeiro dos estrangeiros, ou seja, uma alegoria a respeito da xenofobia, o personagem fantástico meio homem e meio anfíbio encarna as piores tentações principalmente para os agentes governamentais acossados em responder à ameaça comunista e que apenas conseguem perceber na criatura mais um possível artifício de guerra a ser utilizado contra os russos. Na figura do coronel Strickland, que supervisona a segurança do laboratório, resume-se todo um cabedal de odiosidade e intolerância que será justamente antagonizado por pessoas comuns e até certo ponto marginalizadas que irão colaborar para salvar a vida do estranho visitante e o insólito amor interespécies travado entre a zeladora e a criatura, em cenas pungentes e delicadamente capturadas por Del Toro e sua equipe de arte.

Não fosse o termo referir-se a uma parafilia ou perversão de natureza sexual, diria-se que A forma da água poderia ser compreendida quase como uma celebração de zoofilia, aqui no sentido etimológico do termo, no qual philia refere-se ao grego amor, como em bibliofilia, antropofilia, etc. Embora o risco de usar o termo seja considerável e possa incentivar uma leitura apressada, importa notar que é preciso eventualmente exigir das pessoas uma leitura menos literal e menos infantil de palavras e situações. Interpretações rasas e rasteiras de obras de arte de algum modo tem se tornado a regra elementar na formação de juízos de valor, mas é precisamente neste ponto que o filme chega em boa hora, pois não há menor resquício de mau gosto nas cenas românticas e eróticas do filme e o monstro, apesar do termo em si mesmo exortar às aberrações, resume uma essencialidade e amorosidade contrastante ao humor de seu antagonista, um militar violento que não hesita em cometer, ele sim, “monstruosidades” como a violência gratuita e a tortura, por exemplo.

A criatura aquática de del Toro, como se pode ver, comporta mesmo uma carga sobre-humana, o que de certo modo vem muito a calhar na trama, pois representa, muito mais do que uma encarnação maligna, um agente de purificação, isto é, um ser dotado da capacidade de amar. Não é nenhum outro personagem humano, mas sim a criatura quem vai catalisar a vida subalterna de uma personagem oprimida em um ambiente militarizado e masculino numa relação redentora no mais belo estilo A bela e a fera, de reiteração do “belo é o que lhe parece” e da prevalência do amor mesmo em míseras condições.

Mesmo sabendo-se que del Toro é um diretor aficionado por seres estranhos e colossais, é interessante notar que seus monstros, sempre soturnos e enigmáticos, são como metáforas quase obscenas de características em tudo humanas que, sob uma aparência áspera ou repugnante, prescindem de qualquer explicação, traços históricos, biografia, etc. Também como em O labirinto do fauno, é uma criatura impossível, ao invés dos próprios homens e de todo o seu livre-arbítrio, quem detém o poder de acolher aqueles desprezados e sujeitados pela violência e opressão. Como se, numa estranha poética, o humano fosse lá pelas tantas dado como irrecuperável e fosse preciso buscar formas inusitadas de resolver a bestialidade que emana quando seus exemplares estão amalgamados na violência, em maus sentimentos e na oferta de sofrimento.

Seus monstros funcionam por assim dizer mais como entidades acolhedoras do que por demônios; são mais como anjos que bestas propriamente ditas; são figuras poderosas e incômodas que exigem uma reação do espectador, nem que seja de estranhamento ou imediata antipatia. Criaturas que, ao surgir na tela, não precisam de qualquer contextualização e rompem imediatamente toda a aparência do mundo real e objetivo, desestabilizando a ordem das coisas e instaurando uma lógica fabular que não se pode compreender integralmente, especialmente quando se trata de uma personagem que se expressa exclusivamente através da forma gestual. E a devoção de del Toro aos seus monstros é tanta e tão conhecida quanto o fato de que ele costuma lutar abertamente por eles e os força a tentar vencer a barreira do estranhamento. Transformando o que parece repugnante em comum e desejável, são seres que acabam quase sempre por provocar uma intensa virada perceptiva, exigindo mais do que compreensão empática, exigindo a quebra de resistência ao estranho e sua aceitação integral.

Mesmo que cada vez menos se possa exigir interpretação simbólica das pessoas e seja mais ou menos certo que haverá quem venha a encontrar em A forma da água apenas monstruosidade e zoofilia doentia (no Brasil quem sabe promover boicote e coisas assim), esta é claramente a grande metáfora na qual o filme está escorado: a crença no amor, o caráter indefinível da natureza humana e a luta contra a violência e suas representações humanas e institucionais. Pode parecer estranho que um monstro represente neste cenário de obscuridade uma esperança qualquer, mas a obscenidade costuma ser tanto mais requerida quanto mais se perde a sutileza. Não dessem conta tão perfeitamente da estupidez e da violência, talvez até mesmo del Toro optasse por outra espécie de filme mais realista, com protagonistas todos de carne e osso e sem gelras ou escamas. Porém, pensando melhor, isso talvez custasse justamente os belos momentos que ele conseguiu fixar no cinema com suas feras inacreditavelmente ternas e doces. Pensando bem, seria uma perda irreparável. Pensando ainda melhor, talvez ainda não possamos passar sem os seus monstros.

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