Reduzido

do vocabulário senil
com que dominava o mundo
perdi, aos poucos,
quase todas as palavras

já não domino o verde das florestas
e o som que ressoa
nos violinos e cachoeiras
eu quase nem posso dizer

perdi como se andasse
com a cabeça longe demais
e as chaves onde guardava os livros
onde foram parar eu não sei

meu mundo agora é menor
e suprimida a esperança
eu posso simplesmente
desvencilhar-me da dor

eu tenho causado males
que são tão singelos
e guardo o furor imenso
por desmazelos

quando eu voltar a dizer novamente
igual ao silêncio dos hiatos
nada haverá de melhor
ou mais belo

restará o que não despi de mim
um conjunto igual às palavras
ossos e músculos igualmente senis
dois ou três sonhos ingratos

o mais que isso, as mentiras,
de mim elas já se fartaram –
não sou o que elas pensavam
o que tinha de surpresa acabou

eu costumava saber como era
mudei tantas vezes de pele
que agora já se acabaram
pois este é meu novo formato

assim que devo nascer:
exato e nu, como um ovo –
só deus me livre, se exista,
de ser como aquele de novo

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