À tona

não sei o quanto vale este passado
esfarelando-me em seus dedos –
que espécie de animal é esse
que se alimenta sem fome
apenas por um hábito atroz
de comer sem entender o que come?

eu fui eviscerado decerto
para que entendessem qual a cor
que tenho por dentro –
o profundo eu
de inesperado azulado
então é meu mesmo?

que espetáculo privado
é saber-me um universo inteiro –
eu já cheguei ao seu final
e lá não penso em voltar –
se não há mesmo tempo,
azar..

agora me espero de lugares
bem mais próximos:
a esquina e seus acidentes
costumeiramente fatais,
os pontos certos da rotina
aguardam-me tão pontuais..

posso cantar com essa voz ainda
e nem sempre isso me anima
(porque então voltei a dizer)
mas me conforta –
e isso é de tudo, afinal,
o que me importa

é tão longe buscar o novo
o mais certo é fazer o mesmo
e ainda que pareça a esmo
sei o quanto há de delírio
em emergir no vazio
e me encontrar inteiro

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s