Outros jeitos de ler Rupi Kaur

Outros jeitos de usar a boca - Rupi Kaur

A escritora e ilustradora canadense Rupi Kaur é mesmo alguém aparentemente fadada a colecionar feitos inéditos. Sua entrada na lista de mais vendidos da Folha, no sábado de 8 de abril, será apenas mais um entre eles e, mesmo assim, afirmar-se como um fenômeno literário, e não meramente editorial, exigirá bastante do seu livro de estreia: Outros Jeitos de Usar A Boca. Os demais feitos de Rupi não se referem ao fato de ela ter rompido o lacre das listas de mais vendidos, mas por ter indiretamente abalado várias crenças a respeito da escrita e da publicação de poesia, gênero que, a despeito de alguma popularidade, é dos mais insignificantes em vendas no mercado brasileiro de livros.

Rupi, que é filha de pais indianos de origem sikh, ganhou notoriedade após publicar pelos próprios meios um livro de poemas também ilustrado por ela mesma. Os poemas eram divulgados no Instagram e, em função de uma postagem censurada, onde ela aparecia de costas exibindo seu sangue menstrual, sua popularidade multiplicou-se vertiginosamente. Em poucos meses, o livro autopublicado estourou em números e venceu sua primeira barreira: finalmente encontrou um editor disposto a investir comercialmente. Antes, havia tido apenas a sorte comum a grande maioria dos livros de poesia, ou seja, a simples negativa. Por isso, Rupi fez ruir de uma vez só um duplo estigma: o de que poesia não vende e de que a autopublicação não seria uma alternativa editorial.

Tido como um libelo em versos, Rupi trata em Outros Jeitos de Usar A Boca (Milk and Honey, no original em inglês) de temas muito difundidos no movimento feminista: abusos, relações familiares e o termo dos termos: empoderamento. E eis que aparece aqui a segunda barreira para o seu livro, a de sobrepujar o apelo temático e afirmar-se como valor mais poético do que identitário. É o que muitos se perguntam sobre o seu sucesso: se ele se deve à qualidade literária ou à identificação com uma causa das mais candentes no mundo contemporâneo. O que muitos dizem é que não seria porque Rupi vende um milhão de livros de poemas que há um milhão de pessoas interessadas em ler poemas. Num mercado marginal, a publicação de poesia cumpre um trânsito breve e bastante restrito a iniciados e poucos admiradores. Nas prateleiras das livrarias, via de regra apenas os nomes consagrados, em sua maioria mortos há muito tempo, é que estão disponíveis.

Muitos incrédulos apostam que o fenômeno Rupi deve esgotar-se em si mesmo e há muitas indagações a respeito de sua vocação poética. Se é poesia mesmo ou apenas autoajuda escrita em versos, por exemplo. Que a vocação política da poesia é antiga não há novidade alguma em dizer e que de uma autora de 24 anos não se pode exigir um projeto estético e literário definitivo, igualmente. Por que então não dar a Rupi o tempo que todos dispõem, ou seja, o tempo de amadurecer ou de perecer, se este for mesmo o caso?

Qualquer pressa nesse sentido, o de determinar definitivamente o valor do seu trabalho pode ser apenas a pressa pela desqualificação. Porque Rupi surgiu e cresceu assim mesmo, encarando o descrédito editorial e a incredulidade da crítica, é bem possível que ela venha a sobreviver, e ainda mais forte, porque amparada em leitores de todo o mundo e e de todas as idades. Eu não sei, penso que tanto quem gosta de versos (e desde que não esteja preocupado em escalonar os valores poéticos) quanto quem apenas se interessa pelo tema é quem sairá ganhando. Trata-se de apenas dar o tempo de uma autora em seu primeiro livro. E, sejamos um pouco decentes nesse aspecto, não há crime algum nisso.

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